Ensaio visual

Vestes falantes: arte e loucura na obra de Solange Luciano

Talking clothing: art and madness on Solange Luciano’s pieces of art

Mário Eugênio Saretta
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil

Vestes falantes: arte e loucura na obra de Solange Luciano

Anuário Antropológico, vol. 45, núm. 3, pp. 327-338, 2020

Universidade de Brasília

Recepção: 12 Março 2020

Aprovação: 20 Maio 2020

Resumo: Este ensaio visual aborda a produção expressiva das Vestes Falantes, conjunto de pinturas de autoria de Solange Luciano, criadas na Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Sugiro que a produção dessas obras impõe problematizações éticas, estéticas e políticas que propiciam explorar categorias como arte e loucura. A mediação da câmera foi concebida como um convite ao devir, valorizando o improviso, a relação de subjetividade e a capacidade de evocação das imagens. Sem abdicar de características estéticas associadas à expressão artística, o ensaio busca explorar a poética e a política da linguagem fotográfica.

Palavras-chave: Solange Luciano, Arte, Loucura, Fotografia.

Abstract: This visual essay deals with the expressive production of “Vestes Falantes” [Talking Clothing], a set of paintings by Solange Luciano, that were originally made in the Creativity Workshop of São Pedro Psychiatric Hospital. I suggest that the production of these works imposes ethical, aesthetic and, political problems which makes it possible to explore categories such as art and madness. The intervention of the camera was understood as an invitation to becoming, in order to value the improvisation, the relationship of subjectivity, and the ability of images to evoke feelings. Without giving up aesthetic characteristics associated with artistic expression, this visual essay tries to explore a poetics and a policy of photographic language.

Keywords: Solange Luciano, Art, Madness, Photography.

Este ensaio visual foi produzido durante a gravação de Sou Sol, curta-metragem etnográfico em processo de realização que abordará a vida e a obra de Solange Gonçalves Luciano. Após ter passado por internações psiquiátricas temporárias em diferentes instituições, Solange começou a utilizar a escrita como expressão terapêutica. Nos últimos anos, passou a se dedicar também à pintura, técnica que aprendeu na Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP), localizado em Porto Alegre. Nesse local, filmei o documentário Epidemia de Cores (2016a, 2016b; Saretta 2018, 2020), do qual Solange participa, e realizei pesquisa etnográfica questionando os limites da alteridade antropológica (Saretta, 2014, 2015).

Surgida em 1990, a Oficina de Criatividade atende usuários que atualmente têm o HPSP como ambiente de morada (visto que foram internados em um período anterior às implementações da Reforma Psiquiátrica) e também usuários de outros serviços de saúde mental da cidade, independentemente da existência de vínculo com essa instituição, como é o caso de Solange. Em seus ateliês, atividades de pintura, desenho, escrita, escultura e bordado são oferecidas aos participantes com o acompanhamento de profissionais e estagiários de artes visuais e psicologia. As obras produzidas costumam ser armazenadas em um acervo próprio e, eventualmente, são utilizadas em exposições.

Na Oficina de Criatividade, Solange desenvolveu as Vestes Falantes, conjunto de pinturas feitas em vestimentas de diversos modelos compradas por ela em brechós. Em diálogo com a obra de autores como Jacques Rancière, Gilles Deleuze e Félix Guattari (Rancière, 2009; Deleuze, 2002, 2007; Deleuze; Guattari, 1997; Guattari, 1992), entendo que a produção de tais vestes é incapaz de ser reduzida a uma concepção apenas clínica e impõe problematizações éticas, estéticas e políticas que propiciam explorar limites de categorias como arte e sanidade.

Reconhecendo a relevância do debate antropológico que problematiza o estatuto objetivo da imagem e manifesta a importância da subjetividade também nas práticas de recepção (Piault, 2001; MacDougall, 1999; Gonçalves, 2008; Gonçalves; Head, 2009; Pink, 2006; Novaes, 2012, 2014; Rocha; Eckert, 2015; Altmann, 2009), busquei explorar a capacidade da câmera de produzir acontecimentos. Propus a Solange fotografarmos no ambiente no qual ocorreram as atividades da Oficina de Criatividade até o início de 2018, quando foi transferida para um prédio ao lado devido ao risco de desabamento. Nesse cenário, ela me indicou alguns espaços nos quais gostaria de ser fotografada. Assim, a mediação da câmera foi concebida como um convite ao devir, valorizando o improviso, a relação de subjetividade e a capacidade de evocação das imagens. Sem abdicar de características estéticas associadas à expressão artística, busquei explorar nesse ensaio a poética e a política da linguagem visual. Nestas fotografias, selecionadas por mim e aprovadas por ela, pretendi que as formas e as cores do ambiente manicomial fossem parte da composição de seu corpo-obra.

Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2019. Solange me apresentouas primeiras Vestes Falantes ao final de uma sessão comentada de Epidemia deCores. Desde então, participamos juntos de aproximadamente uma dezena deexibições nesse formato em cinemas e em universidades, situações nas quaisela propunha que eu vestisse as obras durante o debate e depois convidava opúblico a vesti-las para a realização de selfies.
Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2019. Solange me apresentouas primeiras Vestes Falantes ao final de uma sessão comentada de Epidemia deCores. Desde então, participamos juntos de aproximadamente uma dezena deexibições nesse formato em cinemas e em universidades, situações nas quaisela propunha que eu vestisse as obras durante o debate e depois convidava opúblico a vesti-las para a realização de selfies.

Área externa da Oficina de Criatividade doHPSP, 2019. Pintura em homenagem a Nise daSilveira, psiquiatra que inspirou o surgimentoda Oficina de Criatividade do HPSP. Niserevolucionou o modelo de atenção à saúdemental ao fomentar atividades expressivasdentro de um manicômio. Na parte inferiordessa veste, Solange reproduziu o pisodo antigo local da Oficina de Criatividade,colocando na obra características do seuambiente de produção.
Área externa da Oficina de Criatividade doHPSP, 2019. Pintura em homenagem a Nise daSilveira, psiquiatra que inspirou o surgimentoda Oficina de Criatividade do HPSP. Niserevolucionou o modelo de atenção à saúdemental ao fomentar atividades expressivasdentro de um manicômio. Na parte inferiordessa veste, Solange reproduziu o pisodo antigo local da Oficina de Criatividade,colocando na obra características do seuambiente de produção.

Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2019. As Vestes Falantes sãotambém utilizadas por Solange na prática de ativismo em manifestações eeventos de saúde mental realizados em apoio à Reforma Psiquiátrica e à LutaAntimanicomial. Como costuma solicitar que outras pessoas vistam suas obraspara ganharem movimento na diversidade dos corpos, ela criou vestimentastambém acessíveis a pessoas com obesidade, considerando que o ganho depeso é um efeito colateral de certas medicações psiquiátricas.
Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2019. As Vestes Falantes sãotambém utilizadas por Solange na prática de ativismo em manifestações eeventos de saúde mental realizados em apoio à Reforma Psiquiátrica e à LutaAntimanicomial. Como costuma solicitar que outras pessoas vistam suas obraspara ganharem movimento na diversidade dos corpos, ela criou vestimentastambém acessíveis a pessoas com obesidade, considerando que o ganho depeso é um efeito colateral de certas medicações psiquiátricas.

Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2017. Em umade suas primeiras Vestes Falantes, Solange pintou autorretratose explicitou por escrito a autodenominação “sobrevivente dosescombros manicomiais”. Apesar dos abusos sofridos em seupercurso terapêutico, ela destaca a importância de ter encontradoprofissionais que estimularam sua capacidade expressiva.
Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2017. Em umade suas primeiras Vestes Falantes, Solange pintou autorretratose explicitou por escrito a autodenominação “sobrevivente dosescombros manicomiais”. Apesar dos abusos sofridos em seupercurso terapêutico, ela destaca a importância de ter encontradoprofissionais que estimularam sua capacidade expressiva.

Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2019. Solangeme mostrou que as raízes de uma árvore penetraram a estruturamanicomial e pediu para ser fotografada junto à planta quenomeou de Árvore de Galli, em homenagem a Tania GalliFonseca (Fonseca et al., 2018; Fonseca; Cardoso; Resende, 2014),professora e pesquisadora que contribuiu para que obras depacientes psiquiátricos fossem reconhecidas pela condiçãoexpressiva e testemunhal.
Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2019. Solangeme mostrou que as raízes de uma árvore penetraram a estruturamanicomial e pediu para ser fotografada junto à planta quenomeou de Árvore de Galli, em homenagem a Tania GalliFonseca (Fonseca et al., 2018; Fonseca; Cardoso; Resende, 2014),professora e pesquisadora que contribuiu para que obras depacientes psiquiátricos fossem reconhecidas pela condiçãoexpressiva e testemunhal.

Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2019. Solangeme mostrou que as raízes de uma árvore penetraram a estruturamanicomial e pediu para ser fotografada junto à planta quenomeou de Árvore de Galli, em homenagem a Tania GalliFonseca (Fonseca et al., 2018; Fonseca; Cardoso; Resende, 2014),professora e pesquisadora que contribuiu para que obras depacientes psiquiátricos fossem reconhecidas pela condiçãoexpressiva e testemunhal.
Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP, 2019. Solangeme mostrou que as raízes de uma árvore penetraram a estruturamanicomial e pediu para ser fotografada junto à planta quenomeou de Árvore de Galli, em homenagem a Tania GalliFonseca (Fonseca et al., 2018; Fonseca; Cardoso; Resende, 2014),professora e pesquisadora que contribuiu para que obras depacientes psiquiátricos fossem reconhecidas pela condiçãoexpressiva e testemunhal.

Área externa da Oficina de Criatividade doHPSP, 2019. Com a obra criada sobre umjaleco, Solange interage com os vestígios daarquitetura manicomial a partir da minhaproposição de explorarmos conjuntamente apoética desse espaço em um duplo devir pormeio da fotografia. Nesse ensaio e, sobretudo,nas gravações de Sou Sol, busco explorarimplicações da noção de etnobiografia(Gonçalves, 2018) e o potencial da fabulaçãona produção de conhecimento (Deleuze, 2007;Gonçalves, 2008).
Área externa da Oficina de Criatividade doHPSP, 2019. Com a obra criada sobre umjaleco, Solange interage com os vestígios daarquitetura manicomial a partir da minhaproposição de explorarmos conjuntamente apoética desse espaço em um duplo devir pormeio da fotografia. Nesse ensaio e, sobretudo,nas gravações de Sou Sol, busco explorarimplicações da noção de etnobiografia(Gonçalves, 2018) e o potencial da fabulaçãona produção de conhecimento (Deleuze, 2007;Gonçalves, 2008).

Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP,2019. Solange veste obra que homenageiaos cinco participantes de Epidemia de Coresque haviam falecido desde sua realização,produzindo interlocução com a obraaudiovisual e com o coletivo de participantesda Oficina de Criatividade. Ao fundo, galhos daÁrvore de Galli.
Área externa da Oficina de Criatividade do HPSP,2019. Solange veste obra que homenageiaos cinco participantes de Epidemia de Coresque haviam falecido desde sua realização,produzindo interlocução com a obraaudiovisual e com o coletivo de participantesda Oficina de Criatividade. Ao fundo, galhos daÁrvore de Galli.

Área externa da Oficina de Criatividade doHPSP, 2019. “O mundo lá fora precisa de nós”,diz o verso de um poema de sua autoria.Esse ensaio fotográfico busca contribuir paraque a obra de Solange encontre múltiplasinterlocuções e, assim, torne o “lá fora” partede um mundo mais partilhado.
Área externa da Oficina de Criatividade doHPSP, 2019. “O mundo lá fora precisa de nós”,diz o verso de um poema de sua autoria.Esse ensaio fotográfico busca contribuir paraque a obra de Solange encontre múltiplasinterlocuções e, assim, torne o “lá fora” partede um mundo mais partilhado.

Referências

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DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2007.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. v. 4. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997.

EPIDEMIA de Cores. Direção e Produção: Mário Eugênio Saretta, HD (70min), 2016a.

EPIDEMIA de Cores. 2016b. Disponível em: http://www.msaretta.wix.com/epidemiadecores. Acesso em: 10 mar. 2020.

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SARETTA, Mário Eugênio. A verdade que está aqui com a gente, quem é capaz de entender? Uma etnografia com participantes de uma Oficina de Criatividade em um Hospital Psiquiátrico. In: FLEISCHER, Soraya; FERREIRA, Jaqueline (Eds.). Etnografia em Serviços de Saúde. Rio de Janeiro: Garamond, 2014. p. 57-79.

SARETTA, Mário Eugênio. Terceira Margem do Hospital Psiquiátrico: ética, etnografia e alteridade. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.

SARETTA, Mário Eugênio. Testemunho e Cores de uma Epidemia. In: FONSECA, Tânia et al. (Eds.). Imagens do Fora: um arquivo da loucura. Porto Alegre: Sulina, 2018. p. 225-238.

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