Antropologias na Vida
Do capitalismo e da China: a guerra e o comércio, tarifas e vírus
From Capitalism to China: War and Trade, Tariffs and Viruses
Do capitalismo e da China: a guerra e o comércio, tarifas e vírus
Anuário Antropológico, vol. 50, e-14gxs, 2025
Universidade de Brasília
Recepción: 14 Julio 2025
Aprobación: 04 Agosto 2025
Resumo: O texto interpreta a alta de tarifas dos EUA em 2025 como um fenômeno que vai além da economia: um “fato social total” (Mauss) que envolve política, rivalidade e mensagens entre Estados. Propõe um enfoque antropológico da disputa EUA–China, perguntando pelos modos de ser (cosmologias/ontologias) que estruturam essas relações.Tarifas aparecem como tributos e, portanto, como formas de coerção e reciprocidade simbólica. Com Lévi-Strauss, o autor mobiliza a metáfora do “vírus” para pensar o capitalismo/ocidente como fórmula que se impõe, moldando desejos e práticas. A China, porém, seria capaz de absorver e devolver essa fórmula: reproduz dinâmicas capitalistas sem ser plenamente capitalista (com um Estado que engloba empresários) e “invade” o Ocidente via bens produzidos na China. Trump tenta imitá-la com tarifas, arriscando um fechamento expulsivo, com provável menor crescimento e maior inflação.
Palavras-chave: Guerra tarifária, China e EUA, Capitalismo , Dádiva.
Abstract: The text argues that the 2025 U.S. tariff hikes cannot be understood as merely economic: they are a “total social fact” (Mauss) involving politics, rivalry, and state-to-state signaling. It proposes an anthropological reading of the U.S.–China conflict grounded in their differing cosmologies/ontologies.Tariffs are framed as tributes—mixing coercion with symbolic reciprocity. Using Lévi-Strauss’s “virus” metaphor, the author portrays capitalism/the West as a formula that spreads by shaping desires and practices. China, however, is depicted as uniquely able to absorb and redeploy that formula: it reproduces capitalist dynamics without being fully capitalist (given a state that contains entrepreneurs) and “invades” the West through Western-type goods made in China. Trump’s tariff strategy seeks to emulate China but may push the U.S. toward an expulsive closure, with likely lower growth and higher inflation.
Keywords: Tariff war, China–United States relations, Capitalism , Gift.
Do capitalismo e da China
Poucos temas têm sido tão comentados durante este ano de 2025 como os aumentos das tarifas norte-americanas para importação, propostos pelo governo de Donald Trump. Estamos diante de uma mudança na infraestrutura global cuja dimensão ainda se tenta avaliar, o que possivelmente continuaremos tentando fazer, com maior ou menor sucesso, nas próximas décadas. O aumento de tarifas para importação é central, por envolver a economia, e global, por se tratar das trocas internacionais.
Talvez inconscientemente, nós, cidadãos do mundo, pressentimos que há muito em jogo. Esboçamos perguntas, e mais ou menos timidamente, respostas. Estaria Trump alterando a política econômica do seu país de modo novo e radical ou apenas fazendo jogo de cena? Quanta incerteza ele gera, e quão insensato seria prever agora qualquer coisa a respeito do futuro das trocas? Tratar-se-ia de “protecionismo” e, se sim, de que tipo? Escrevendo estas linhas em meados de julho de 2025, parece evidente que as tarifas dos EUA vão subir em alguma medida, que essa subida não será uniforme e que relações com alguns países serão mais alteradas do que com outros. A discrepância entre tarifas anunciadas em 9 de julho para Brasil e Argentina revela tudo isto, assim como o aspecto político desta “guerra”, que não é meramente comercial.
Ao longo deste ensaio, pretendo discutir duas dimensões menos evidentes desses fenômenos: 1. Como eles transbordam a dimensão econômica/comercial das relações entre Estados nacionais; 2. Os modos distintos como China e EUA parecem lidar com agentes que desafiam seu poder.
Economistas como Joseph Stiglitz, Samuel Pessoa e outros têm indicado que o aumento das tarifas vem no bojo de uma política econômica em que Trump busca desvalorizar o dólar e em que o arrecadado com tarifas compensaria um plano de diminuição de impostos (para ricos). Aí residiria parte do sentido econômico da iniciativa de Trump. Ao desvalorizar o dólar, estimulando suas exportações e criando barreiras para outros países exportarem aos EUA, estes parecem pretender se comportar como “tigres asiáticos”, fechando-se às importações e, ao mesmo tempo, colocando-se fortemente como exportadores no panorama internacional.
Farei um recorte, entre outros possíveis, atendo-me à disputa específica dos EUA com a China, que muitos consideram a parte mais relevante desta dita “guerra comercial”. Uma questão para a qual o antropólogo pode contribuir seria: quem é, afinal, a China? E quem são os EUA, tão bem descritos por A. de Tocqueville em Da democracia na América, verdadeira etnografia segundo Louis Dumont (2000 [1977])? Quais modos de ser, quais cosmologias e ontologias definem estes coletivos? Antropólogos tratamos sempre de relações, mesmo quando falamos em identidades (de gênero, de classe — o que há é masculino e feminino, proletário e burguês, brâmanese ksatryas indianos, etc.). Importa assim saber quais seriam, grosso modo, as relações passadas entre aqueles poderosos coletivos para especularmos sobre as relações possíveis entre eles — cada qual apresentando além, ou aquém, de suas ideologias, também sua coesão, suas solidariedades internas.
À agressividade de Trump parece corresponder uma China mais reativa, menos histriônica. Guerra tarifária, como todo evento, é “fato social total”, logo, não apenas político, nem apenas comercial. É também “agonístico” por implicar rivalidade (as expressões são de Marcel Mauss [1974]). Falar em aumento de tarifa não é falar apenas em sanções: elas evocam, além de coerção, reciprocidade. Os parceiros nesta “guerra” parecem ainda ter algo em comum: uma ambição globalizadora.
Infelizmente não há espaço para tratar este aspecto aqui, mas cabe a nós antropólogos nos perguntarmos: o que são tarifas? Qual seu significado (não apenas econômico)? Podemos concebê-las como mensagens entre estados, federações, nações. Até que ponto trocas malsucedidas podem levar à guerra, ou a paz vir com o aumento das trocas, é um tema clássico de Mauss (ou do “comércio”, diz Lévi-Strauss 1976 [1942]). Tarifas são taxas, tributos — e tributos são dons (Lanna 1995).
Lévi-Strauss (1976 [1965], 289) se pergunta se “nossa própria civilização corresponderia a um tipo animal ou viroso” — e advoga a segunda alternativa, dado que os
vírus precisam de outros seres vivos para se perpetuarem. Portanto, longe de tê-los precedido na evolução, eles os supõem e ilustram um estado relativamente avançado. Por outro lado, a realidade do vírus é de ordem intelectual. Com efeito, seu organismo se reduz praticamente à fórmula genética que ele injeta em seres simples ou complexos, constrangendo, assim, suas células a trair sua própria fórmula para obedecer à dele, e fabricar seres que lhe sejam similares.
Para que nossa civilização surgisse, foi preciso que outras existissem — antes e ao mesmo tempo que ela. Sabemos, desde Descartes, que nossa originalidade consiste essencialmente num método que sua natureza intelectual torna impróprio para gerar outras civilizações de carne e osso, [“]mas que lhes pode impor sua fórmula e constrangê-las a se lhe tornarem semelhantes” Seríamos portadores de uma “bulimia que nos leva a engolir todas as formas de arte passadas e presentes para elaborar as nossas”; daí uma dificuldade crescente em nos satisfazer: “a inapetência sucederá à competição”, prevê Lévi-Strauss. Ora, essa previsão para a arte ocidental não valeria também para a economia, para a produção e consumo de bens e de pessoas? Seria o capitalismo um vírus? E mais, não seria preciosa também para entendermos as trocas entre civilizações?
A meu ver, esta seria uma sugestão preciosa para avaliarmos o contato entre colonizadores e colonizados, missionários e catequizados, mercadores e consumidores. Para vender, ou para se passar uma mensagem, pode-se manipular a vontade alheia. Talvez publicitários saibam disso melhor do que ninguém. Parte do sucesso de colonizadores pode assim ser creditado não apenas à violência, como indica o mesmo Lévi-Strauss [1976 [1952]).
Ambas as sugestões de Lévi-Strauss se complementam. Elas nos levam além das estratégias utilitárias, a entender a fonte e o significado de práticas políticas e manipulativas. O que haveria de estrutural por trás de estratégias como a obsolescência programada ou mesmo da destruição criativa de que falava J.Schumpeter? A história tem revelado um desejo generalizado de outras civilizações incorporarem dos ocidentais a medicina, a produção industrial de armas de fogo, de energia — no limite, nuclear —, como sugere o Raça e história. O desejo pela produção de energia é como um vírus que o Ocidente inoculara em sua empreitada colonizadora (o que dificulta a colonização contrária, do Ocidente por outras ontologias).
A China conhece este vírus, mas absorve-o, parece imune a ele, incorpora-o simbioticamente, e nos oferece de volta uma performance capitalista. M. Sahlins (2004) descreve uma China do final do século XVIII, período anterior às Guerras do Ópio (1839-42 e 1856-60), como capaz de desejar produtos ocidentais de modo extremamente seletivo, levando a um déficit comercial dos ingleses, ávidos por seda, porcelana (“china” em inglês, metonímia de uma civilização) e, principalmente, chá. Sahlins mostra que, ao contrário dos polinésios que, na mesma época, desejavam muito de tudo o que o Ocidente produzia, a China desejava pouquíssimo, amostras, mas de tudo, e só aceitava prata em suas trocas com ingleses. (Já os povos originários da costa noroeste da América desejavam muito, mas de pouquíssimas coisas, como cobertores). Ao mesmo tempo, a China tinha pleno conhecimento de tudo que se produzia no Ocidente, de boa parte da flora e fauna do resto do mundo, incorporados pelo centro e apresentados em locais como os jardins do Imperador. Mais: ela poupava, entesourava prata. Hoje, ela poupa e investe pelo planeta. Ela não precisava de tarifas, pois, como mostra Sahlins, sua cosmologia a levava a um enorme superavit comercial, o que impeliu a Inglaterra a promover as Guerras do Ópio.
Mas, se o capitalismo — ou o “Ocidente” — por vezes age como um vírus, como sugere Lévi-Strauss, a China ainda mais! Pois ela parece “copiar o código genético capitalista” e agir como se fosse capitalista, enquanto o Ocidente não pode — não consegue — copiar o código chinês. A opção do Ocidente, ou da Inglaterra no começo do século XIX, foi destruir a China e drogá-la com ópio. Antes imune ao consumo de bens ocidentais, hoje a China os produz, ainda que não de modo capitalista (quanto a isso, veja-se, entre outros, Barbosa e Dantas [2021]). Uso o termo não capitalista na medida em que lá o estado está acima, ou melhor, engloba hierarquicamente os empresários, se é que podemos chamar o centro do poder cosmo-político chines de “estado”, tal como conhecemos e definimos este último no ocidente. Seus carros, por exemplo, são significativos para nós, assim como bicicletas, machados, câmeras e computadores que produzíamos são significativos para os Bororo.
Se invadimos os Bororo com objetos (além de vírus e violência), a China nos invade por meio dos nossos próprios objetos, por ela hoje produzidos. Se invadimos o “código genético” Bororo (inclusive em nossa condição de antropólogos) e lhes oferecemos objetos, a China faz o mesmo com o “ocidental”. São formas de invasão, com suas diferenças e semelhanças — inclusive por vírus, como os gripais, que há tanto tempo nos vêm da China, assim como vão de nós aos Bororo.
Esta capacidade virosa chinesa para traduzir, produzir e reproduzir aspectos do Ocidente, incorporando-os nela mesma, a meu ver, intensifica-se cada vez mais, tanto quantitativa quanto qualitativamente. Ainda que não se trate exatamente de cópia, a China produz capitalismo sem ser capitalista; ela toma posse do desejo, do dinheiro, dos bens materiais e imateriais capitalistas, a ponto de possuir grande parte de papéis da dívida americana. Há nesta relação de dívida uma aliança involuntária, tensa, enrustida, mas real: a China financia há décadas o déficit e o consumo americano, comprando títulos, produzindo industrialmente e vendendo bens ao Ocidente. Além disso, a necessidade dos EUA por terras raras chinesas, insumos para produção de turbinas, veículos elétricos, satélites, se não faz um vínculo duradouro, ao menos coloca os EUA em posição de negociar, ceder minimamente.
Já Trump, em sua competição com a China, busca ser um pouco “como ela”: exportar mais e importar menos, via aumento de tarifas. Ao fazê-lo, começa a realizar algo que Lévi-Strauss previra — que, no Ocidente, “a inapetência sucederá à competição”. Se o capitalismo se fez não apenas a partir da “acumulação primitiva” descrita por K. Marx, mas também canibalizando outros costumes — digamos, industrializando mocassins, invenção algonkian, ou produzindo em escala milho, tomate, tabaco, também contribuições ameríndias, ou cashmere indiano (cf. M. Lévi-Strauss 2013), Trump agora pretende se fechar a objetos e pessoas vindas de fora, a ponto de expulsá-las, vomitá-las. Não sabemos bem até que ponto haverá mesmo fechamento, ou se ele corresponderá a um esfriamento do modo de produção mais quente da terra (e que mais a aquece).
Lévi-Strauss (1986:383) dizia haver sociedades antropofágicas (que resolvem suas questões jurídicas por meio de multas, compensações etc.) e antropoêmicas (as que expulsam seus criminosos para presídios). Se aceitarmos a descrição de Sahlins da “cosmologia” chinesa como capaz de absorver o capitalismo, podemos pensar na China como antropofágica de novas maneiras. Mocassins, carros, vinhos cabernet, bobinas, chips, eletrônicos — uma miríade de mercadorias são hoje made in China. Mas não apenas os bens ocidentais são canibalizados, produzidos e exportados de volta para o Ocidente: é o próprio desejo deste que é compreendido, incorporado e devolvido. Digeridos e posteriormente vendidos a um outro (não apenas ocidentais), cujo desejo os chineses controlam, esses bens alimentam almas burguesas desejantes (também analisadas por Sahlins [2004]).
Se antes eram as “falsas”, hoje são as verdadeiras, licenciadas, bolsas Chanel made in China, assim como (quase) tudo aquilo que o Ocidente possa conceber e desejar. Não apenas bens, mas sonhos, e não só de consumo. Pois não são apenas economias, mas cosmologias, ontologias que se encontram. A China não é apenas antropofágica, mas cosmofágica. Talvez a enrascada de Trump seja maior do que geralmente imaginamos. Em todo caso, como argumentei aqui, é difícil prever se, como ou quando poderá sair dela. Como tem déficit estrutural, os EUA podem se sair melhor do que a China, em um primeiro momento, com um aumento generalizado de tarifas, mas a previsão de economistas como Samuel Pessoa é a de que haverá menor crescimento e maior inflação.
E a China tem cada vez mais, de se haver, não apenas com os EUA e o Ocidente, mas também com a concorrência da Índia e com a de outros tigres asiáticos, como Vietnã e Indonésia, além daquela, mais tradicional, com Japão e Coréia. Seria importante entendermos estas relações como cosmológicas, para usar a expressão de Sahlins (2004), no sentido de que é neste contexto maior -, cultural, para usar expressão fora de moda, e no limite, no da circulação de signos e vírus -, que se inserem as dimensões politico-econômicas.
Minibio
Economista (FEA-USP, 1982), Mestre (Unicamp, 1987) e Doutor em Antropologia (Universidade de Chicago, 1991), professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Autor de A dívida divina, troca e patronagem no Nordeste Brasileiro. Editora da Unicamp, 1995, professor convidado da Universidad Ibero Americana, México (2004), pesquisador do Laboratoire d´Anthropologie sociale du Collège de France (2023).
E-mail: mlanna@ufscar.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3723-7725
Referências
Barbosa, Alexandre de Freitas, e Alexis Dantas. 2021. “Diálogos sobre a China: história e desenvolvimento econômico”. A terra é redonda: eppur si muove… Podcast, áudio MP3, 35:45. https://aterraeredonda.com.br/dialogos-sobre-a-china-historia-e-desenvolvimento-economico/
Dumont, Louis. 2000 [1977]. Homo aequalis. Gênese e plenitude da ideologia econômica. Bauru: EDUSC.
Lanna, Marcos. 1995. A dívida divina. Campinas: Editora da Unicamp.
Lanna, Marcos. 2000. “Nota sobre Marcel Mauss e o Ensaio sobre a dádiva”. Revista de Sociologia e Política, nº 14: 173–194.
Lévi-Strauss, Claude. 1976 [1952]. “Raça e história”. In Antropologia estrutural dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. p. 328–66.
Lévi-Strauss, Claude. 1976 [1965]. “A arte em 1985”. In Antropologia estrutural dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.
Lévi-Strauss, Claude. 1986 [1955]. Tristes trópicos. Lisboa: Edições 70.
Lévi-Strauss, Monique. 2013. Cashmere: a French passion, 1800-1880. Londres: Thames & Hudson.
Mauss. Marcel. 1974 [1923-24]. “Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas”. In Sociologia e Antropologia, v. II. São Paulo: Edusp. p. 37–184.
Sahlins, Marshall. 2004 [1988]. “Cosmologias do capitalismo”. In Cultura na prática. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. p. 445–502.
Referência complementar
saphires_diamonds. “You don’t learn this at school”. Instagram, 26 de junho de 2025. https://www.instagram.com/reel/DLYt7ZqT0IS/?igsh=YzAyMDM1MGJkZA%3D%3D
Información adicional
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