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A Etiópida: uma tradução para o português do Livro 2 das Pós-homéricas de Quinto de Esmirna1
The Aethiopis: a portuguese translation of Book 2 of Quintus of Smyrna’s Posthomerica
Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-24, 2025
Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Traduções



Recepción: 07 Marzo 2025

Aprobación: 15 Abril 2025

DOI: https://doi.org/10.24277/classica.v38.2025.1130

Resumo: Apresenta-se, neste artigo, a tradução para o português brasileiro do livro 2 das Pós-homéricas de Quinto de Esmirna, épico grego do século III d.C. que narra em 14 livros os eventos da guerra de Troia que ocorrem entre a Ilíada e a Odisseia. O livro 2 narra o episódio tradicionalmente conhecido como “Etiópida”, a chegada de Mêmnon e seus guerreiros etíopes para acudir os troianos e substituir Heitor como baluarte do exército de Príamo. Este é o segundo herói a se apresentar como uma nova esperança para os troianos nas Pós-homéricas, já que é antecedido por Pentesileia, a rainha amazona que morre no livro 1. O destino de Mêmnon não é diferente daquele da heroína: depois de matar Antíloco, filho de Nestor, atrai para si a cólera de Aquiles, quem o acaba matando após um duelo implacável.

Palavras-chave: Pós-homéricas, etíopes, Mêmnon, épica antiga.

Abstract: This article presents a Brazilian Portuguese translation of book 2 of Quintus of Smyrna’s Posthomerica, a Greek epic from the 3rd century CE that narrates in 14 books the events of the Trojan War occurring between the Iliad and the Odyssey. Book 2 recounts the episode traditionally called the “Aethiopis”, which recounts the arrival of Memnon and his Ethiopian warriors to aid the Trojans and take Hector’s place as the bulwark of Priam’s army. This is the second hero who presents himself as a new hope for the Trojans in the Posthomerica, since he is anteceded by Penthesilea, the Amazon queen who dies in book 1. The fate of Memnon is not different from that of the heroine: after killing Antilochus, Nestor’s son, he attracts the fury of Achilles upon himself, who ends up killing him after a relentless duel.

Keywords: Posthomerica, Aethiopians, Memnon, Ancient Epic.

As Pós-homéricas de Quinto de Esmirna (século III d.C.) são um épico grego de 14 livros que narra em hexâmetros datílicos os eventos ocorridos entre a Ilíada e a Odisseia. Assim, de uma maneira parecida com Homero (não obstante certas diferenças de estilo), o narrador aborda eventos como a morte de Aquiles, o suicídio de Ájax, o cavalo de madeira e o saque de Troia em um formato épico.

Neste artigo, apresentamos uma tradução do episódio ao qual a tradição épica legou o nome de “Etiópida”, momento da guerra de Troia em que os etíopes, liderados por seu príncipe, Mêmnon, chegam para auxiliar os troianos na guerra após a morte de Heitor, narrada na Ilíada. O episódio teria sido abordado em um dos épicos cíclicos perdidos ao longo do tempo – chamado, justamente, de Etiópida. Não se sabe ao certo se Quinto teria tido ou não acesso a algum dos épicos cíclicos – tal incerteza é chamada de “questão cíclica” nos estudos sobre o poeta.2

O livro 2 se inicia no dia seguinte aos acontecimentos do livro 1:3 após a morte de Pentesileia, rainha das amazonas e aliada de Príamo, os troianos recuam para dentro da cidadela e, aturdidos, precisam decidir o que fazer naquele ponto: fugir? Continuar lutando? Entregar Helena? O povo se acalma quando Príamo anuncia que Mêmnon, um príncipe etíope aliado, encontra-se a caminho com sua hoste. Decide-se então que os troianos permaneçam dentro das muralhas até sua chegada.

Mêmnon é retratado como um herói valente e ponderado, diferente da impulsiva Pentesileia do livro 1. Já em sua primeira noite, recusa o vinho oferecido pelo anfitrião, pois deseja estar são e descansado na luta do dia seguinte (2.153-5). É racional, controlado. Diz, por exemplo, que não deve ser chamado de valente até que o prove em batalha no dia seguinte (2.151-2). Ou seja, não é dado a extremos, tal como a rainha amazona ou seu principal antagonista no livro 2, Aquiles. Ele se coloca, portanto, como figura intermediária entre os dois heróis impulsivos: Pentesileia, que morre no livro 1, e Aquiles, que morre no livro 3. Isso, contudo, não altera sua sina: Mêmnon morre ao fim do livro 2 pelas mãos de Aquiles.

O príncipe etíope é filho de Éos, a Aurora, deusa que faz o sol se erguer todos os dias para iluminar os mortais. Éos é uma figura recorrente nos poemas homéricos, que, não obstante alguns trechos de caracterização um pouco além da superfície,4 serve sobretudo como dispositivo narratológico para marcar a passagem do tempo. É célebre a fórmula “e quando surgiu a matutina Éos de dedos róseos...” (ἦμος δ’ ἠριγένεια φάνη ῥοδοδάκτυλος Ἠώς) nos poemas homéricos.5 Nas Pós-homéricas, contudo, ela descerá dos céus e aparecerá como personagem no centro da ação – com falas, sentimentos, agência. Será representada como uma mãe preocupada com o filho, que teme pela sua morte, e que, depois que ela ocorre, sofre e lamenta. Assim, Éos prefigura a própria Tétis, que também sofrerá amargamente pela morte de Aquiles no livro 3.

Temos no livro 2 uma versão em miniatura da grande trama da Ilíada: o segundo melhor amigo de Aquiles depois de Pátroclo, Antíloco, filho de Nestor, é morto por Mêmnon. É como se um segundo Pátroclo (Antíloco) fosse morto por um segundo Heitor (Mêmnon). Enfurecido, portanto, com a morte de seu companheiro, Aquiles avançará contra Mêmnon com violência e determinação. Se o embate entre Pentesileia e Aquiles é rápido no livro 1, no livro 2, temos o contrário: o duelo é parelho, e os deuses e narratários acompanham cada um dos movimentos dos guerreiros com apreensão. Que Mêmnon morrerá nós já sabemos de antemão quando o narrador conta que, no dia da batalha, ele se levanta pela última vez (2.186). A própria Éos já o sabe também, e se ergue a contragosto (2.189). Não deixa de existir, todavia, uma certa tensão para se descobrir como tal guerreiro maravilhoso será subjugado por Aquiles.

Quinto não deixa a desejar quanto às expectativas criadas: note o leitor a manipulação do ritmo narrativo durante a cena.6 O duelo parece alongado, tenso, entremeado por símiles e cenas vívidas de armas se entrechocando, ambos os duelistas rodeados por outros combates entre gregos e troianos, com os deuses assistindo ao embate do Olimpo tão tensos quanto nós que o estamos lendo.

Findo o combate, tem início o sofrimento de Éos, e a cena de funeral das mais detalhadas e longas do poema, que rivaliza apenas com aquela do próprio Aquiles no livro 3. Éos faz com que os ventos carreguem o corpo de seu filho, bem como seus companheiros, até a Etiópia, onde ele é enterrado com exéquias de glória. Seus companheiros transformam-se em pássaros, que todos os anos duelam para honrar seu senhor. Tal como Éos prefigura o sofrimento de Tétis no livro 3, o complexo enterro de Mêmnon também nos prepara para o destino de Aquiles e seu funeral.

Estrutura narrativa do livro 2

Assim podemos dividir a estrutura narrativa do livro 2 das Pós-homéricas:

[1-99] O debate: Troianos deliberam sobre como agir após a morte de Pentesileia

[100-163] A chegada de Mêmnon e sua acolhida em um banquete

[164-182] Assembleia no Olimpo: Zeus proíbe que os deuses supliquem em prol de seus protegidos

[183-394] Combate: gregos e troianos se enfrentam pela planície troiana

[183-214] Ambos os lados se armam para o combate

[215-234] Início do combate, pequena matança de Aquiles

[235-387] A aristeía de Mêmnon

[238-344] A Morte de Antíloco, filho de Nestor

[388-546] O duelo Mêmnon versus Aquiles: em um longo combate singular, Aquiles derrota Mêmnon

[547-627] O luto de Éos: Em um longo funeral, Mêmnon é transportado até a Etiópia, e seus companheiros e sua mãe choram o seu corpo. Revoltada, Éos se recusa a iniciar um novo dia

[628-666] O restabelecimento da ordem: por desígnio de Zeus, Éos enterra Mêmnon e volta a trazer o dia

Sobre esta tradução

Esta é uma tradução acadêmica em versos livres, em que se busca seguir a divisão linha por linha do original. O texto grego em que se baseia é estabelecido por Francis Vian, pela editora Les Belles Lettres (1963).


Livro 2

Referencias

DE JONG, Irene. J. F.; NÜNLIST, René. Time in Ancient Greek Literature. Leiden, Boston: Brill, 2007.

SCAFOGLIO, Giampiero. Quintus and the Epic Cycle. In: BÄR, Silvio; GREENSMITH, Emma; OZBEK, Leyla (ed.). Quintus of Smyrna’s Posthomerica: Writing Homer Under Rome. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2022, p. 298-318.

SEMÊDO, Rafael A. A Amazônida: uma tradução do livro 1 das Pós-homéricas de Quinto de Esmirna. Calíope - Presença Clássica, v. 48, p. 4-30, 2024.

VIAN, Francis. La Suite d’Homère (3 v.). Paris: Les Belles Lettres, 1963.

Notas

1 O autor agradece à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo financiamento a seu projeto de pesquisa (Processo nº 2020/06785-3), do qual o presente artigo resulta. Agradece, ainda, aos dois pareceristas anônimos por suas contribuições, e ao Professor André Malta pela cuidadosa orientação.
2 Para uma discussão atualizada sobre o assunto, ver Scafoglio (2022).
3 Para a tradução do livro 1, ver Semêdo (2024).
4 Em outra fórmula, diz-se que que ela se levanta de seu leito, ao lado de Titono para trazer a luz aos deuses e mortais (Il. 11.1-2; Od. 5.1-2). Em Od. 4.186-8, menciona-se que Antíloco morrerá pelas mãos do “glorioso filho de Éos”. Em Od. 5.121 conta-se que Éos “arrebatou Órion”. Em Od. 12.3-4, conta-se que sua morada fica na ilha de Eeia. Em Od. 15.250-1, conta-se que arrebatou Clito. Em Od., 23. 241-6, Atena retém Éos para que o dia demore mais para raiar, alongando a noite de amor entre Odisseu e Penélope. Agradeço à(o) parecerista pela lista de passagens.
5 A fórmula ocorre 22 vezes em Homero: Il. 1.477; Il. 24.788; Od. 2.1; Od. 3.404; Od. 3.491; Od. 4.306; Od. 4.431; Od. 4.576; Od. 5.228; Od. 8.1; Od. 9.152; Od. 9.170; Od. 9.307; Od. 9.437; Od. 9.560; Od. 10.187; Od. 12.8; Od. 12.316; Od. 13.18; Od. 15.189; Od. 17.1; Od. 19.428.
6 Sobre o conceito narratológico de ritmo e manipulação do tempo narrativo: de Jong; Nünlist (2007).

Información adicional

redalyc-journal-id: 6017



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