| Mas depois que a luz radiante do sol incansável se espalhou |
| ao longo dos picos por sobre as montanhas ruidosas, |
| os filhos dos bravos aqueus se refestelavam nas tendas, |
| muito exultantes que estavam pelo implacável Aquiles. |
| 5 | Os troianos, por sua vez, pela cidade se lamentavam, e agachados |
| nas torres observavam do alto, já que de todos o medo se apoderara, |
| não fosse o potente varão saltar por sobre os muros enormes |
| e por completo os destruir e tudo incendiar com o fogo. |
| Falou-lhes então, enquanto sofriam, o velho Timetes: |
| 10 | “Amigos, não mais consigo na mente saber |
| como seremos salvos da guerra penosa |
| depois que Heitor que lutava de perto tombou, |
| ele que foi no passado o maior baluarte do povo troiano. |
| Das Queres, porém, não escapou, e pelas mãos de Aquiles foi morto, |
| 15 | embora, creio, mesmo um deus seria abatido ao encontrá-lo em batalha. |
| Do mesmo modo na guerra matou aquela que os outros |
| argivos temiam, Pentesileia de mente guerreira, |
| ela que era espantosa. Eu próprio, ao vê-la, |
| pensei que fosse, vinda do céu, uma das venturosas |
| 20 | para trazer-nos deleite. Não era, contudo, verdade. |
| Mas vamos! Pensemos no que é melhor para nós: |
| se devemos ainda lutar contra os inimigos, |
| ou se deixamos, fugindo, a cidade arrasada. |
| Pois não seremos capazes de desafiar os argivos |
| 25 | enquanto lutar na batalha o rígido Aquiles.” |
| Assim declarou, e disse-lhe então o filho de Laomedonte: |
| “Caro amigo, caros troianos fortes no peito e aliados, |
| não devemos agora, apavorados, deixar nossa pátria, |
| muito menos combater inimigos distantes de nossa cidade, |
| 30 | mas lutar somente das torres e muros, até que venha ao nosso socorro |
| Mêmnon, bravo no peito, à frente de sua hoste incontável |
| de combatentes que habitam a Etiópia de negros mortais. |
| Pois imagino que agora já esteja ele próximo |
| de nossa terra, já que, não faz muito tempo, |
| 35 | enviei-lhe uma mensagem, muito aturdido em meu peito, |
| e ele de pronto, contente, a mim prometeu de tudo cuidar |
| quando chegasse a Troia. Espero que já esteja próximo. |
| Mas vamos, aguentem por mais um pouco, pois mais vale |
| ser morto valentemente em meio ao tumulto do que fugir |
| 40 | e viver com vergonha entre homens de terras distantes.” |
| Assim o velho falou. Ao prudente Polidamante, contudo, |
| não aprazia então a batalha, e assim proferiu um discurso sensato: |
| “Se Mêmnon lhe prometeu com certeza afastar |
| de nós a terrível ruína, de modo algum me oponho |
| 45 | a esperar pelo homem divino pela cidade. Entretanto, |
| temo em meu peito que ao chegar com os seus companheiros |
| seja o varão abatido, o que causará no restante de nós |
| apenas agruras, pois uma força terrível impele os aqueus. |
| Para longe, contudo, também não fujamos de nossa cidade, |
| 50 | trazendo a nós grande vergonha por sermos nefastos covardes |
| quando passarmos por terra estrangeira. Permanecendo na pátria, porém, |
| que não sejamos tampouco abatidos por estampidos argivos. |
| Seria melhor devolver, desta forma, mesmo que tardiamente, |
| aos dânaos a esplêndida Helena e suas posses, |
| 55 | aquelas que a mesma trouxe de Esparta e outras ainda mais, |
| chegando ao dobro, em prol da cidade e de nós mesmos, |
| para que a horda inimiga não divida entre si os nossos |
| tesouros, e nem que o fogo destruidor encubra a cidade. |
| Que eu possa persuadir suas mentes, pois não creio |
| 60 | que outro entre os troianos venha apontar um plano melhor. |
| Ah, tivesse dado ouvidos antes à minha ordem |
| Heitor, quando eu o detinha no interior da pátria.” |
| Assim falou a força nobre de Polidamante. Ao redor os troianos |
| aprovavam ao ouvi-lo em suas mentes, mas não o diziam |
| 65 | abertamente. Pois todos temiam e reverenciavam |
| o seu senhor e Helena, embora arrasados por conta da mesma. |
| Mesmo sendo ele um nobre, Páris duramente insultou-o: |
| “Polidamante, você é um fraco e covarde, |
| e não tem no peito um coração com firmeza, |
| 70 | apenas com pânico e medo. No conselho se vangloria de ser |
| um nobre, mas concebe os piores planos de todos. |
| Mas vamos! Se afaste você do calor da batalha |
| e fique sentado no interior dos salões. Já os outros, |
| armem-se ao meu redor pela cidade até que achemos, |
| 75 | exultantes no peito, a solução para a guerra cruel. |
| Pois longe da guerra penosa e da dureza não |
| ampliam os homens seu grande renome e façanha, |
| mas a fuga muito agrada às crianças ou às mulheres. |
| A elas você se parece no peito, e não confio, assim, |
| 80 | em você ao lutar, pois arruína de todos o bravo vigor.” |
| Falou com grande desdém, mas Polidamante enfurecido |
| lhe retrucou, pois não se acanhava ao gritar cara a cara, |
| visto que tolo, abominável e presunçoso é aquele que |
| à frente bajula de forma amigável, mas em seu peito |
| 85 | se agita, e apenas por trás arrasa o que não está presente. |
| Abertamente, portanto, insultou com veemência o divino senhor: |
| “Oh, mais destrutivo de todos os homens da face da terra! |
| Sua coragem nos trouxe tormento, sua mente nos submeteu |
| a uma batalha sem fim, e que perdurará até que você |
| 90 | veja a pátria arrasada junto com sua população. |
| Que jamais se apodere de mim coragem assim, que eu tenha |
| sempre um temor infalível, e permaneça a salvo meu lar.” |
| Assim falou, mas Páris não lhe retrucou, |
| ao se lembrar de quantas agruras impôs aos troianos |
| 95 | e quantas ainda traria, já que seu coração ardente |
| à morte se atiraria antes que viesse a se separar |
| de Helena divina, por conta de quem os filhos troianos |
| do alto de sua elevada cidade mantinham vigília, |
| a aguardar os argivos e o Eácida Aquiles. |
| 100 | A eles não muito depois chegou Mêmnon beligerante, |
| Mêmnon, senhor entre os escuros etíopes |
| que conduzia infindável exército. Ao redor os troianos |
| regozijados o avistaram pela cidade, tal como os nautas |
| em uma mortal tempestade enxergam no meio do céu, |
| 105 | já exauridos, o esplendor da girante Ursa Maior - |
| assim se alegrava o povo de todos os lados, e sobretudo |
| o filho de Laomedonte, pois muito almejava o seu coração |
| destruir as naus com o fogo das mãos dos etíopes, |
| já que dispunham de um rei corajoso e muitos eram |
| 110 | seus números, todos instados pelo anseio de Ares. |
| Assim, sem cessar honravam o nobre rebento de Erigeneia |
| com excelentes presentes e júbilo exuberante. |
| Conversavam uns com os outros ao comer no banquete, |
| um contando dos chefes argivos e quantas dores |
| 115 | sofreram, e o outro da vida perene e imortal |
| de seu pai e sua mãe, Éos, e das correntes da vasta |
| Tétis e das ondas sagradas do Oceano de curso profundo |
| e das fronteiras da terra incansável do oriente e |
| do sol, e todo o caminho desde o Oceano |
| 120 | até a cidade de Príamo e os promontórios do Ida, |
| e como com suas robustas mãos devastou |
| o exército sacro dos firmes Sólimos que o detinha enquanto |
| marchava, e a eles causou morte e sofrimento desenfreado. |
| Assim contou, e também como viu incontáveis povos |
| 125 | de homens. Ao ouvi-lo, Príamo em seu âmago se encantou |
| e voltando-se a ele então proferiu venerável discurso: |
| “Oh Mêmnon, foi um feito dos deuses pra mim avistar |
| você e também seu exército em nossos salões. |
| Que me concedam ainda ver os argivos |
| 130 | de uma vez destruídos inteiramente por suas lanças. |
| Pois em tudo você se parece aos venturosos indestrutíveis, |
| de modo admirável, como nenhum outro herói sobre a terra. |
| Penso, portanto, que àqueles trará a morte angustiante. |
| Mas vamos! Alegre agora seu ânimo em meu banquete |
| 135 | hoje. Em breve, contudo, você lutará, como é devido.” |
| Assim falou. Ergueu em suas mãos um cálice com o bojo espaçoso |
| e zelosamente deu boas-vindas a Mêmnon com a sólida taça |
| de ouro, ínclita obra, que o circunspecto manco-dos-pés |
| Hefesto ofereceu, ao se casar com Ciprogeneia, |
| 140 | a Zeus magnânimo. E este cedeu tal presente ao filho, |
| Dárdano símil a um deus, que o ofertou a seu filho, Erictônio, |
| e Erictônio a Tros magnânimo. Este a Ilo, por sua vez, |
| legou-o com suas posses, que o cedeu a Laomedonte. |
| Laomedonte então entregou-o a Príamo, quem pretendia |
| 145 | ao filho legar. Isso, contudo, os deuses não concederam. |
| Mêmnon em sua mente se encantava com o belíssimo cálice, |
| e o manuseando, em resposta, enunciou tal discurso: |
| “Não se deve em um festim gabar-se de modo valente |
| e nem fazer promessa alguma, mas com serenidade |
| 150 | banquetear-se pelos salões e lutar de forma adequada. |
| Pois se sou eu, de fato, bravo e corajoso ou não |
| você saberá na batalha, onde se atesta a força do homem. |
| Mas vamos! Preocupemo-nos com a cama e não bebamos |
| ao longo da noite. Pois terrível é pra quem deseja lutar |
| 155 | o vinho ilimitado, bem como a insônia penosa.” |
| Assim falou. E o velho, maravilhado, disse-lhe então: |
| “Aproveite o banquete como quiser, e obedeça a si mesmo - |
| não o coagirei contra a sua vontade. Não é adequado |
| reter aquele que deixa o festim e nem apressar quem fica |
| 160 | a sair do salão. Desta maneira é a norma entre os homens.” |
| Assim falou. Aquele deixou o jantar e foi para a cama |
| uma última vez. Ao mesmo tempo os outros hóspedes |
| foram cuidar de dormir. Sobreveio-lhes rápido o sono suave. |
| Já nos salões de Zeus que reúne os trovões |
| 165 | os imortais se banqueteavam. Entre eles, o pai Croníon, |
| ciente das obras do dissonante combate fez um discurso: |
| “Saibam, deuses que me rodeiam, da dor pesada que se aproxima |
| amanhã na guerra. Pois assistirão à força de muitos cavalos |
| se destruindo ao redor das bigas por todos os lados, |
| 170 | e homens se dizimando. E que nenhum de vocês, angustiado |
| por eles se ponha em meus joelhos nem venha a mim |
| suplicar, pois as Queres são implacáveis também para nós.” |
| Assim falou no meio de todos, que já o sabiam, |
| para evitar que, angustiado, alguém se afastasse da guerra, |
| 175 | e suplicando a ele ou por conta de um filho ou homem querido, |
| em vão se dirigisse até o inabalável Olimpo. |
| Quando escutaram o Cronida que alto ressoa, |
| sofreram no peito, mas contra o seu senhor |
| nada disseram, pois frente a ele tremiam imensamente. |
| 180 | Sofrendo partiu, então, cada um para sua casa |
| e o seu leito. E a seu redor, mesmo sendo imortais, |
| espalhou-se sobre os olhos o descanso suave do sono. |
| Quando através dos topos das altas montanhas se apressava |
| do amplo céu aquela que traz a radiante aurora, a qual desperta |
| 185 | ao dormirem os que ajuntam o feno para seu doce trabalho, |
| pela última vez então deixou o sono o filho aguerrido |
| de Erigeneia, portadora da luz. Com vigor crescente na mente |
| de imediato ansiava lutar contra os seus inimigos. |
| Éos a contragosto ergueu-se sobre o amplo céu, |
| 190 | e então os troianos vestiram em volta dos corpos suas mortais armaduras, |
| e ao mesmo tempo também os Etíopes, e os tantos povos |
| de aliados que haviam chegado e se reuniam em volta da força |
| de Príamo. E muito rapidamente se dirigiam à muralha |
| semelhantes a nuvens escuras, do tipo que o Croníon |
| 195 | durante a tempestade reúne no ar carregado. |
| De repente toda a planície estava encoberta, e eles jorravam |
| tal qual gafanhotos devoradores de trigo que avançam |
| como uma nuvem ou tempestade pesada sobre a terra |
| de vasto solo, insaciáveis, e trazem aos mortais a fome hostil - |
| 200 | assim seguiam, valentes e em grande número, e a terra cobriu-se |
| de homens em disparada, com o pó se erguendo sob seus pés. |
| E os argivos de longe se impressionavam ao verem-nos |
| em disparada. De pronto cobriram seus corpos com o bronze, |
| confiantes na força do Pelida. E ele, no meio, |
| 205 | marchava como os Titãs de peito robusto, |
| exultante por seus cavalos e suas bigas. Sua armadura |
| por todos os lados brilhava como os relâmpagos. |
| Como das fronteiras do oceano que sustenta a terra |
| Hélio que ilumina os mortais se ergue céu adentro |
| 210 | todo radiante, e a terra fértil e o éter sorriem, |
| assim entre os argivos corria o filho de Peleu. |
| E assim também em meio aos Troianos seguia Mêmnon |
| guerreiro, tal como Ares em sua ânsia, e ao seu redor |
| o povo impetuoso corria ao lado de seu soberano. |
| 215 | De repente lutavam as extensas falanges de ambos |
| troianos e dânaos, entre os quais os etíopes se destacavam. |
| Caíram rápido com um estrondo de todos os lados, como ondas do mar |
| ao se reunirem os ventos de todos os lados durante o inverno. |
| Dizimavam-se uns aos outros arremessando suas polidas |
| 220 | lanças de freixo, e entre eles se incendiavam o lamento e o tinido. |
| Como quando os trovejantes rios muito lamentam |
| ao desembocar no mar quando irrompe a mais furiosa tormenta |
| de Zeus ao se chocarem inabaláveis acima as nuvens |
| em atrito umas com as outras, e a labareda de fogo irrompe - |
| 225 | assim a terra descomunal muito tremia sob os pés daqueles |
| que batalhavam, e um clamor se lançava através do éter divino, |
| terrível, pois de todos os lados gritava-se de modo aterrador. |
| Ali o Pelida abateu Talio e Mentes irreprochável, |
| ambos conspícuos. E atirou as cabeças de muitos. |
| 230 | Como um tufão de baixo da terra irrompe nas casas, |
| furioso, e de repente todas arranca das fundações |
| do solo, e muito profundamente estremece a terra - |
| assim eles caíam em meio à poeira com uma rápida morte |
| pela lança do Pelíon, pois ele muito se enfurecia em seu ânimo. |
| 235 | Da mesma forma, do outro lado, o nobre filho de Erigeneia |
| massacrava os argivos semelhante à Aisa, |
| a qual traz aos homens ruína funesta e mortal. |
| Primeiro matou Féron, o qual acertou através do peito |
| com sua lança nefasta, e no ato abateu o divino Ereuto, |
| 240 | ambos desejosos da guerra e a mortal carnificina, |
| que habitavam Trio junto às correntes do Alfeu, |
| e sob comando de Nestor haviam marchado à cidade sagrada de Ílion. |
| Quando os despojou, lançou-se contra o filho de Neleu |
| ansioso por matá-lo. Antes, contudo, Antíloco deiforme |
| 245 | se aproximou e guiou sua lança enorme. Errou, porém, |
| pois Mêmnon se esquivou, e matou o seu companheiro, |
| o Pirrásida Étope. Furioso por sua morte, então, |
| atirou-se sobre Antíloco como um leão bravo no peito |
| sobre um javali, que sabe, ele próprio, lutar contra |
| 250 | homens e feras, dono de um ímpeto incontrolável - |
| assim saltou rapidamente, mas Antíloco lançou contra ele |
| uma pedra. Seu coração, entretanto, não se despedaçou, |
| pois protegeu-lhe da dolorosa morte seu firme elmo. |
| Terrivelmente o coração em seu peito se revoltou |
| 255 | ao ser atingido: o elmo ressoava ao redor. Ainda mais |
| se enfureceu contra Antíloco, e sua brava força fervia. |
| Por isso acertou sobre o peito, lanceiro embora este fosse, |
| o filho de Nestor. A lança atravessou-lhe o coração |
| corajoso, do modo em que é rápida para os mortais a ruína. |
| 260 | Por sua morte, a dor se instaurou sobre os dânaos |
| todos, mas sobretudo à mente do pai sobreveio o pesar, |
| Nestor, quando o próprio filho foi abatido sob seus olhos. |
| Pois não sobrevém aos mortais dor pior do que |
| aquela em que filhos são mortos com o pai assistindo. |
| 265 | Por isso, apesar de ser firme o ânimo em seu peito e sua mente, |
| afligiu-se pelo destino funesto de seu filho ao morrer. |
| De imediato chamou Trasimedes, que estava longe. |
| “Se apresse até mim, Trasimedes famoso, a fim de afastarmos |
| o assassino de seu irmão e de meu filho |
| 270 | para longe do deplorável cadáver, ou que cumpramos |
| nós próprios ao seu redor o penoso suplício. |
| Mas se no seu peito há medo, não foi gerado |
| como meu filho, nem vem da estirpe de Periclímeno, |
| o qual contra Héracles teve a ousadia de avançar. |
| 275 | Vamos, lutemos, já que a necessidade muito insufla |
| enorme poder aos que lutam, mesmo que sejam inúteis.” |
| Assim falou, e ao ouvi-lo, o ânimo abateu a mente do filho |
| com doloroso sofrimento. Rápido juntou-se a ele |
| Fereu, a quem a dor tomara também pela morte |
| 280 | de seu senhor. Instaram-se, assim, a lutar contra |
| Mêmnon poderoso na sangrenta carnificina. |
| Como quando os caçadores nos vales cheios de árvores |
| de uma alta montanha anseiam lançar-se contra |
| uma presa enorme, um javali ou um urso, |
| 285 | ansiosos por matá-lo, mas este avança contra os mesmos |
| e se defende com valente ânimo da violência dos homens - |
| assim também Mêmnon se achava enorme, e dele |
| se aproximaram, mas não conseguiram matá-lo |
| com suas lanças enormes. As pontas mantinham-se |
| 290 | longe de sua pele, pois Erigeneia o tempo todo as desviava. |
| As lanças, contudo, não caíam em vão sobre o solo, mas rápido |
| Fereu de peito valente com avidez abateu Polímnio |
| filho de Meges, e a Laomedonte matou |
| o filho valente de Nestor, enfurecido por conta do irmão, |
| 295 | quem Mêmnon aniquilara durante a batalha, e do qual |
| removeu com as mãos incansáveis as armas todas de bronze |
| sem preocupar-se com a força de Trasimedes ou do nobre |
| Fereu, já que lhes era muito superior, tal como dois chacais |
| temem quando um enorme leão avança sobre um cervo |
| 300 | e de longe não ousam se aproximar. Terrivelmente Nestor |
| lamentou-se, olhando de perto, e instou seus outros |
| companheiros de guerra à investida. E também ele próprio |
| teria a intenção de pelejar de sua biga, pois o luto |
| pelo filho morto o impelia em direção à refrega |
| 305 | para além de sua força. Estava prestes a jazer ele próprio |
| junto ao filho, contando-se também entre os mortos, se |
| Mêmnon de peito valente não dissesse a ele quando avançava, |
| respeitando em seu peito aquele da mesma idade de seu pai: |
| “Ó ancião, não me parece adequado lutar contra você |
| 310 | que é mais velho, quando me dou conta agora. |
| Decerto pensei que fosse um jovem homem aguerrido |
| enfrentando os inimigos, e meu ânimo audaz esperava |
| ser alguém digno da façanha de minha mão e minha lança. |
| Afaste-se, contudo, para longe da odiosa batalha e da morte! |
| 315 | Recolha-se, não vá eu atingi-lo a contragosto por necessidade |
| nem você cair ao lado do filho lutando contra um homem |
| muito melhor, e que não venham também a dizer que você |
| foi um tolo, pois não parece adequado enfrentar o mais forte.” |
| Assim falou. O ancião, por sua vez, respondeu com um discurso: |
| 320 | “Ó Mêmnon, tudo que diz agora é em vão. |
| Pois ninguém dirá ser um tolo quem combate os inimigos |
| por conta de um filho, afastando pra longe de seu cadáver |
| em meio à batalha seu impiedoso assassino. Antes fosse |
| minha força ainda robusta, assim conheceria minha lança. |
| 325 | Você agora se jacta de modo extremo porque o ânimo |
| é audaz no homem jovem, mas parco é o seu raciocínio, |
| e assim você fala com ideias grandiosas, mas vãs. |
| Se me tivesse enfrentado na flor da idade, |
| amigos não se alegrariam por ti, mesmo sendo tão forte. |
| 330 | Agora, contudo, tal como um leão estou fatigado pela velhice, |
| ao qual um cão de fazenda de muitos rebanhos persegue |
| com audácia, e embora o desejando, não se protege |
| do mesmo, pois seus dentes não mais estão firmes, |
| nem sua força, e o tempo assolou o seu coração valente. |
| 335 | Assim não mais a bravura me agita o peito |
| tal como antigamente. Ainda assim sou mais corajoso |
| do que muitos homens, e frente a poucos cede a minha velhice.” |
| Assim dizendo, afastou-se um pouco. Deixou para trás |
| o filho caído em meio à poeira, pois não tinha mais, |
| 340 | com membros curvados, o peito como o de antes, |
| oprimido que era de cima pela velhice tão lamentável. |
| Da mesma forma disparou Trasimedes de boa lança, |
| Fereu de peito valente e todos os outros companheiros |
| com medo, pois deles demais se aproximava o varão letal. |
| 345 | Como quando das enormes montanhas um rio de profundos |
| redemoinhos agitado desloca-se com estrondos sem fim |
| quando Zeus espalha sobre os homens um dia nublado, |
| revolvendo uma grande tempestade, e ressoam em todo canto |
| os trovões, bem como os raios, sem parar, ao se chocarem as nuvens |
| 350 | sobre-humanas, e se inundam os campos e os recôncavos |
| com a tempestade de som terrível que se precipita, e as enormes |
| torrentes esbravejam terrivelmente sobre todos os montes - |
| assim Mêmnon perseguia ao longo da costa do Helesponto |
| os argivos, e os destruía os atingindo por trás. |
| 355 | Muitos no sangue e na poeira abandonaram a vida |
| pelas mãos dos etíopes, e a terra se maculava com o sangue |
| dos dânaos aniquilados. E muito na mente Mêmnon se alegrava |
| sempre em disparada entre as linhas inimigas, e ao seu redor o solo |
| troiano se amontoava de corpos. Mas ele não abandonava o combate, |
| 360 | pois esperava ser a luz dos troianos e o flagelo dos dânaos. |
| A Moira ominosa, contudo, o enganava, |
| de pé ao seu lado, enconrajando-o em meio ao tumulto. |
| E em volta seus firmes servos lutavam, |
| Alcioneu, Níquio e Asíades de peito elevado |
| 365 | e o lanceiro Mêneclo e Alexipo e Clídon |
| e os outros, que se empolgavam com a debandada, os quais |
| persistiam na luta confiantes em seu rei. |
| E ali, enquanto Mêneclo perseguia os dânaos, |
| Nelida matou-o. Mas atormentado por conta do companheiro, |
| 370 | Mêmnon de peito valente abateu uma multidão de homens. |
| Como quando sobre os rápidos cervos se lança |
| um caçador nas montanhas, reunidos em bando |
| dentro de redes escuras na última armadilha da caça |
| graças a seus guerreiros, e os cães exultam |
| 375 | latindo forte, e ele, ansiosamente, traz |
| a morte angustiante aos rápidos veados com sua lança - |
| assim Mêmnon muitos aniquilava no exército, e seus companheiros |
| ao redor se alegravam, enquanto os argivos temiam o ínclito homem. |
| Como quando de uma alta montanha despenca |
| 380 | uma pedra imensa, e ela do alto Zeus incansável |
| derruba do penhasco acertando-a com o trovão aflitivo, |
| e ao se chocar contra os densos arbustos e grutas enormes, |
| 383 | os vales se estremecem e a floresta chacoalha, |
| e se ovelhas pastam embaixo enquanto ela rola, |
| 385 | ou bois ou outro animal, quando ela chega, saltam eles |
| de seu percurso penoso e implacável - assim os aqueus |
| fugiam enquanto Mêmnon agitava sua lança valente. |
| E ent ão se aproximou do poderoso Eácida |
| Nestor, e dores sofrendo por conta do filho falou: |
| 390 | “Ó Aquiles, baluarte maior dos argivos de ânimo bravo, |
| meu filho foi morto, e Mêmnon está com as armas |
| do falecido. Temo que ele se torne o espólio de cães. |
| Mas venha rápido ajudar, pois amigo é quem se lembra |
| do companheiro morto e sofre por quem já se foi.” |
| 395 | Assim falou. Ao ouvi-lo, o sofrimento invadiu a mente daquele. |
| Quando soube que Mêmnon na angustiante batalha |
| aniquilava em massa com a lança os argivos, |
| deixou de imediato os troianos que abatia com suas mãos |
| em outras falanges, e ávido pelo combate |
| 400 | avançou contra o mesmo, enfurecido por conta de Antíloco |
| e dos outros mortos. Mêmnon então tomou em suas mãos uma pedra, |
| a qual os mortais puseram como fronteira de uma planície cheia de grãos, |
| e o homem divino lançou-a contra o escudo do implacável |
| Pelíon. Este, por sua vez, não teve medo da pedra descomunal, |
| 405 | e de pronto se aproximou, erguendo a longa lança à frente |
| a pé - pois os cavalos haviam ficado pra trás no tumulto - |
| e atingiu Mêmnon com força sobre o escudo no ombro direito. |
| Mas este, embora ferido, lutava com destemida vontade |
| e golpeou o braço do Eácida com sua lança robusta, |
| 410 | e com prazer derramou o seu sangue. Em vão alegrou-se o herói. |
| Dirigiu-se ao outro em seguida com arrogantes palavras: |
| “Agora, penso, você cumprirá o terrível destino da morte |
| ao ser abatido por minhas mãos e não mais escapar da refrega. |
| Miserável, por que tão temerário você devastava os troianos, |
| 415 | gabando-se de ser de longe o mais bravo de todos os homens |
| e de sua mãe imortal, a Nereida? Mas agora a você |
| é chegado o dia fatal, pois sou da estirpe dos deuses, |
| valente filho de Éos, que longe daqui criaram as Hespérides |
| como os lírios junto à corrente do Oceano. |
| 420 | Por isso não fujo da lida implacável contra você, |
| pois conheço minha mãe, e o quão superior ela é |
| à Nereida da qual você se gaba de ter nascido. |
| Pois ela traz a luz aos homens e aos venturosos, |
| e graças a ela se cumprem todos os afazeres |
| 425 | nobres e ínclitos dentro do Olimpo, e aos homens se dá o ganho. |
| A outra fica sentada nas grutas estéreis do mar, |
| e vive tal qual monstro marinho, orgulhosa entre os peixes, |
| inútil e invisível. Não me importo com ela |
| e nem a comparo às celestiais imortais.” |
| 430 | Assim falou, e censurou-o o bravo filho do Eácida: |
| “Ó Mêmnon, como sua errônea mente o impele |
| a avançar contra mim e a enfrentar-me em duelo? |
| Eu que o supero tanto na força, quanto na estirpe e nascimento, |
| em cujas veias corre o célebre sangue de Zeus magnânimo |
| 435 | e do poderoso Nereu, que engendrou as donzelas marítimas, |
| as Nereidas, as quais os deuses honram no Olimpo, |
| e acima de todas Tétis, a engenhosa, |
| já que outrora acolheu Dioniso em seus salões, |
| quando este temia a violência de Licurgo mortífero, |
| 440 | e também porque recebeu o sensato ferreiro Hefesto |
| em seus domínios ao ser atirado do Olimpo, |
| e porque libertou o próprio Raio-brilhante de suas amarras. |
| Disso os Urânios que tudo veem se lembram |
| e honram Tétis, mãe minha, no sagrado Olimpo. |
| 445 | Saberá como é uma deusa quando minha brônzea lança |
| atingi-lo no fígado, golpeado por minha força. |
| Como Heitor por Pátroclo, você por Antíloco farei pagar, |
| enfurecido. Pois não destruiu o parceiro de um homem |
| sem força. Mas por que tal como insensatas crianças |
| 450 | estamos aqui discutindo os feitos de nossos pais |
| ou dos pais deles? Pois Ares se encontra próximo, e próximo o furor.” |
| Assim falou e tomou em suas mãos a longa espada. |
| Mêmnon, por sua vez, fez o mesmo, e rápido os dois se lançaram. |
| Golpeavam de modo incessante, exultantes na mente, os escudos |
| 455 | um do outro, os quais Hefesto forjara com sua perícia divina, |
| investindo de perto. Os penachos dos sólidos elmos |
| se entrechocavam, cada um de um lado. |
| Zeus, que muito os estimava, insuflou em ambos coragem |
| e os tornou maiores e incansáveis, em nada símeis |
| 460 | a homens, mas sim a deuses, e Éris se alegrava com ambos. |
| Ansiavam por atravessar com suas lanças a pele |
| entre o escudo e o elmo de alto penacho, |
| e o tempo todo guiavam sua força, por vezes |
| um pouco acima da greva, por vezes por baixo da armadura |
| 465 | dedálea, atada firme ao redor dos membros robustos, |
| ambos com velocidade. Ao redor reverberavam as imortais |
| armaduras em torno dos ombros. E o bradar dos argivos |
| de peito elevado, troianos e etíopes, que combatiam de ambos os lados, |
| erguia-se até o éter divino. A poeira sob seus pés se elevara |
| 470 | alcançando o vasto céu, pois uma grande façanha ocorria. |
| Tal como a bruma junto às montanhas com chuva forte, |
| quando os leitos sonantes dos rios se enchem |
| de água que irrompe, e todos os montes retumbam |
| de forma indizível, e todos os pastores se amedrontam |
| 475 | pelas torrentes e a bruma cara aos mortíferos lobos |
| e outras feras, tantas quantas a floresta sem fim alimenta - |
| assim ao redor de seus pés a poeira aflitiva se erguia |
| e encobria completamente a luz nobre do sol, |
| escurecendo a paisagem. Uma terrível aflição sobrepujava |
| 480 | as hostes em meio à poeira e ao combate nefasto. |
| E algum dos imortais a afastava com ímpeto |
| para fora da guerra, mas as Queres mortais instavam as ágeis |
| falanges de ambos os lados a lutar confusamente |
| em meio ao combate aflitivo. Ares não dava trégua |
| 485 | à funesta matança, e a terra ao redor se manchava inteira |
| do sangue jorrado, e a negra Destruição se regozijava. |
| A vasta planície, pastagem para os cavalos, estava repleta de mortos, |
| a qual, com suas correntes, delimitam o Simoente e o Xanto, |
| descendo do Ida em direção ao Helesponto sagrado. |
| 490 | Mas quando se prolongava de modo indefinido o intenso duelo |
| dos combatentes, por igual se media a força de ambos. |
| De longe, então, os observavam os Olímpios. |
| Alguns se deleitavam no peito pelo irrefreável Pelíon, |
| outros, pelo filho divino de Éos e de Titono. |
| 495 | Do alto, o vasto céu retumbava, o mar ao redor |
| bramia, e a terra negra em volta se estremecia |
| debaixo dos pés dos dois. Estremeciam-se todas |
| as filhas de Nereu magnânimo em volta de Tétis, |
| temendo de forma indizível pelo valente Aquiles. |
| 500 | Mas Erigeneia encontrava-se aflita pelo filho querido, |
| correndo no meio do Éter com seus cavalos. Perto |
| estavam as filhas de Hélio e se impressionavam |
| em volta da órbita celestial, a qual Zeus fornecera |
| a Hélio incansável com o nobre curso de um ano, |
| 505 | de acordo com quem tudo vive e perece a cada dia ao longo |
| da perene passagem do tempo ao se revolverem os anos. |
| Entre os venturosos uma guerra implacável teria irrompido |
| se pela sugestão de Zeus que alto troveja duas |
| Queres não se pusessem rapidamente ao lado |
| 510 | de ambos, uma escura junto ao peito de Mêmnon, |
| uma brilhante ao redor do belicoso Aquiles. Ao vê-las, |
| os imortais se chocaram: de uns se apossou um sofrimento |
| nefasto, e um prazer nobre e esplêndido apoderou-se dos outros. |
| Duramente os heróis se enfrentavam em meio ao sangrento |
| 515 | combate, e não perceberam as Queres se aproximando |
| ao se lançarem um contra o outro com força e coragem. |
| Você diria que no combate aflitivo daquele dia |
| lutavam Gigantes indestrutíveis contra os poderosos |
| Titãs, pois o vigoroso combate entre eles os instigara, |
| 520 | tanto ao se chocarem com as espadas quanto ao lançarem |
| com ímpeto pedras descomunais. Nenhum dos dois, contudo, |
| recuava ao ser atingido e nem fugia, e tal como promontórios |
| incansáveis se mantinham de pé ao descarregarem a força indizível, |
| pois ambos se jactavam de sua linhagem de Zeus grandioso. |
| 525 | Por isso, Enio alongou o combate parelho entre os dois, |
| que muito firmes mantinham-se a todo momento naquele dia, |
| tanto eles como seus destemidos parceiros, que com os senhores |
| de modo incessante lutavam com ímpeto até que suas lanças |
| dobrassem contra os escudos. E nenhum dos combatentes |
| 530 | de cada lado escapou ileso, mas dos membros |
| de todos o sangue e o suor jorraram por sobre a terra, |
| mantendo-se firmes o tempo todo. A terra encobriu-se de corpos, |
| tal como o céu com as nuvens quando o sol se dirige |
| a Capricórnio, e o marinheiro estremece diante do mar. |
| 535 | Relinchavam em disparada os cavalos junto com os homens |
| e pisoteavam os mortos, tal como as infindáveis folhas |
| no início do inverno depois de um outono exuberante. |
| E eles, no meio de mortos e sangue, lutavam, |
| os filhos esplêndidos dos venturosos, sem desistir |
| 540 | da cólera mútua. Éris direcionava a dolorosa |
| balança da luta, e ela não mais se encontrava parelha: |
| o Pelida atingiu Mêmnon divino sob a base |
| do peito, e atacou-lhe, certeiro, com a negra |
| espada. Sua vida querida de pronto esvaiu-se, |
| 545 | e o negro sangue escorreu. As espantosas armas soaram, |
| a terra ecoou, e o medo se apossou de seus companheiros. |
| Os mirmidões o despojavam, e os troianos em volta |
| fugiam, mas a força de Aquiles os perseguia tal qual um tornado. |
| Éos então se afligiu, encoberta de nuvens, |
| 550 | e a terra escureceu. E todos os ventos velozes |
| se dirigiram pelo caminho apontado por sua mãe |
| até a planície de Príamo e envolveram o morto. |
| Rapidamente tomaram o filho de Éos |
| e o levaram em meio a uma bruma cinzenta. Sofriam |
| 555 | eles no peito pelo irmão falecido, e ao redor o éter |
| gemia. Em seguida, tantas gotas de sangue quantas |
| pingaram dos membros tornaram-se entre os homens, |
| inclusive os vindouros, um sinal. Pois os deuses as reuniram |
| dali para outro lugar, e as transformaram num rio ruidoso, |
| 560 | ao qual os que habitam a terra chamam de Paflagônio, |
| todos aqueles que vivem sob as fronteiras do Ida elevado, |
| e que sangrento corre por sobre o solo fecundo. |
| E sempre que chega o dia funesto de Mêmnon, no qual |
| ele morreu, um cheiro terrível e desenfreado emerge |
| 565 | da água. Você diria que os pútridos fluidos |
| de um ferimento mortal exalam de modo excruciante. |
| Mas assim é por ordem dos deuses. Os rápidos |
| ventos voavam, levando o bravo filho de Éos |
| coberto por uma escuridão sombria próximo à terra. |
| 570 | Os etíopes, por sua vez, não se afastaram de seu senhor |
| falecido, depois que rápido um deus também os |
| levou, dando a eles, que ansiavam, velocidade, da qual |
| iriam não muito depois se utilizar ao serem levados aos ares. |
| Por isso, seguiam com os ventos lamentando seu rei. |
| 575 | Como quando entre as folhagens um caçador tombado |
| pelas temidas mandíbulas de um leão ou javali, |
| e seus companheiros, chocados, erguem seu corpo e, sofrendo, |
| o levam, e atrás os cães, sentindo a falta de seu senhor |
| os seguem ganindo por conta da funesta caçada - |
| 580 | assim aqueles, deixando pra trás a batalha impiedosa, |
| o seguiam com muitos lamentos por meio dos rápidos ventos, |
| cobertos então por uma bruma divina. E em volta, os troianos |
| e dânaos se impressionaram com todos os que sumiram |
| junto com seu soberano, e estupefatos, completamente |
| 585 | mudos ficaram. Os incansáveis ventos depositaram |
| o corpo pesado de Mêmnon que lutava de perto, gemendo, |
| junto às correntezas do rio Esepo de profundas correntes, |
| onde se encontra um belíssimo bosque de ninfas |
| de formosas madeixas, onde depois as filhas de Esepo ergueram |
| 590 | um monumento enorme, densamente envolvido por árvores |
| de todos os tipos. E as deusas muito choraram, |
| prestando homenagens ao filho de Erigeneia de belo trono. |
| A luz do sol se esvaiu. Em seguida, Éos baixou |
| do céu lamentando o filho querido, e ao seu redor |
| 595 | seguiam as doze moças de belos cachos, que cuidam |
| sempre dos altos caminhos de Hipérion girante, |
| e assim surgem a noite e a manhã e tudo que vem |
| da vontade de Zeus, ao redor de cuja casa e sólidas portas |
| as moças giram de lado a lado, trazendo os anos |
| 600 | cheios de frutos, e em círculos giram |
| o inverno gelado e a primavera florida, |
| ou o amado verão e o outono cheio de uvas. |
| Quando elas desceram do alto éter |
| lamentando de modo indizível por Mêmnon, junto com elas |
| 605 | choravam as Plêiades, e retumbavam as enormes montanhas, |
| e a corrente do Esepo, e um gemido incessante se erguia. |
| Em meio a elas por conta do filho derramava lágrimas |
| e alto gritava a tão lamentosa Erigeneia: |
| “Você morreu, caro filho, e a mim, sua mãe, |
| 610 | impôs um sofrimento doído. Com sua morte, não me darei |
| ao trabalho de iluminar os imortais sobre o céu, |
| mas me entranharei nas profundezas funestas dos ínferos, |
| onde quer que sua alma, agora que é morto, flutue. |
| Que o abismo e escuridão indevida se espalhem por todos os lados, |
| 615 | a fim de que a dor invada também a mente do Cronida! |
| Não tenho honra menor que a Nereida, pois por decreto |
| de Zeus tudo contemplo, tudo levando a seu fim - |
| mas em vão, já que agora Zeus extraiu minha luz, |
| e por isso dirijo-me à escuridão. Que leve do mar ao Olimpo |
| 620 | Tétis, para que ela ilumine os deuses e os homens. |
| Agora apenas me apraz a escuridão em vez do céu aflitivo, |
| e jamais lançarei minha luz sobre o corpo do assassino.” |
| Ao falar deste modo, jorravam as lágrimas sobre seu rosto imortal |
| semelhantes ao curso sem fim de um rio, e em volta do corpo |
| 620 | do filho a negra terra se encharcava. Junto sofria Nix imortal |
| por conta do herdeiro querido, e Urano ocultou as estrelas |
| com neblina e nuvens, externando sua estima a Erigeneia. |
| Os troianos permaneciam em sua cidade sofrendo no peito |
| por Mêmnon, pois sentiam a falta do soberano como amigos. |
| 630 | Os argivos, da mesma forma, não se regozijavam, pois próximo |
| a suas tendas jaziam também homens mortos pela planície, |
| e ao mesmo tempo saudavam Aquiles de boa lança, enquanto |
| se lamentavam por conta de Antíloco. Sentiam, pois, ao mesmo tempo, |
| júbilo e sofrimento. A noite inteira com aflição sofria Éos |
| 635 | a chorar, e a escuridão a envolvia. No peito ela não se importava |
| com o nascer do sol, com ódio do Olimpo elevado. |
| Próximo a ela, muito gemiam os cavalos de cascos velozes, |
| pisando por sobre uma terra incomum, vendo |
| sua senhora sofrer, extremamente ansiosos por seu retorno. |
| 640 | Zeus, enfurecido, relampejou sem parar. A terra |
| movia-se inteira, e um tremor se apossou de Éos imortal. |
| Rapidamente, portanto, os etíopes de negra pele |
| enterraram Mêmnon com seus lamentos. Enquanto alto choravam |
| em torno do túmulo de seu poderoso filho, Erigeneia |
| 645 | de olhos bovinos os transformou em pássaros e os fez revoar |
| pelos ares. Estes os infindáveis povos dos mortais agora chamam |
| Mêmnones, os quais ainda sobre a tumba de seu senhor |
| gritam e se lançam espalhando cinzas do alto |
| na tumba, e, exaltados, combatem uns contra os outros, |
| 650 | honrando Mêmnon assim. Este exulta nos domínios |
| de Hades ou entre os venturosos, na terra dos Campos |
| Elísios, e Éos imortal alegra seu radiante peito |
| ao vê-lo. E aqueles seguem lutando até se cansarem, |
| um matando ao outro em duelo, ou até que ambos |
| 655 | encontrem a morte ao combater em torno do rei. |
| E assim, por ordem de Erigeneia que traz a luz, |
| os pássaros rápidos encontram seu fim. Éos imortal |
| ascendeu ao céu junto às Horas nutrizes, as quais, |
| mesmo contrariadas, a conduziram às terras de Zeus, |
| 660 | dizendo palavras afáveis que lhe diminuíram o pesar, |
| embora ainda sofresse. Ela não negligenciou o seu curso, |
| já que temia a ameaça incessante e constante de Zeus, |
| pela vontade de quem tudo se dá entre as correntes |
| do Oceano, a terra e a sede dos astros ardentes. |
| 665 | As Plêiades seguiam adiante, e ela própria |
| abriu os portais etéreos e dissipou as brumas. |