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A Etiópida: uma tradução para o português do Livro 2 das Pós-homéricas de Quinto de Esmirna1

The Aethiopis: a portuguese translation of Book 2 of Quintus of Smyrna’s Posthomerica

Rafael de Almeida Semêdo
Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, Brasil

A Etiópida: uma tradução para o português do Livro 2 das Pós-homéricas de Quinto de Esmirna1

Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-24, 2025

Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Recepción: 07 Marzo 2025

Aprobación: 15 Abril 2025

Resumo: Apresenta-se, neste artigo, a tradução para o português brasileiro do livro 2 das Pós-homéricas de Quinto de Esmirna, épico grego do século III d.C. que narra em 14 livros os eventos da guerra de Troia que ocorrem entre a Ilíada e a Odisseia. O livro 2 narra o episódio tradicionalmente conhecido como “Etiópida”, a chegada de Mêmnon e seus guerreiros etíopes para acudir os troianos e substituir Heitor como baluarte do exército de Príamo. Este é o segundo herói a se apresentar como uma nova esperança para os troianos nas Pós-homéricas, já que é antecedido por Pentesileia, a rainha amazona que morre no livro 1. O destino de Mêmnon não é diferente daquele da heroína: depois de matar Antíloco, filho de Nestor, atrai para si a cólera de Aquiles, quem o acaba matando após um duelo implacável.

Palavras-chave: Pós-homéricas, etíopes, Mêmnon, épica antiga.

Abstract: This article presents a Brazilian Portuguese translation of book 2 of Quintus of Smyrna’s Posthomerica, a Greek epic from the 3rd century CE that narrates in 14 books the events of the Trojan War occurring between the Iliad and the Odyssey. Book 2 recounts the episode traditionally called the “Aethiopis”, which recounts the arrival of Memnon and his Ethiopian warriors to aid the Trojans and take Hector’s place as the bulwark of Priam’s army. This is the second hero who presents himself as a new hope for the Trojans in the Posthomerica, since he is anteceded by Penthesilea, the Amazon queen who dies in book 1. The fate of Memnon is not different from that of the heroine: after killing Antilochus, Nestor’s son, he attracts the fury of Achilles upon himself, who ends up killing him after a relentless duel.

Keywords: Posthomerica, Aethiopians, Memnon, Ancient Epic.

As Pós-homéricas de Quinto de Esmirna (século III d.C.) são um épico grego de 14 livros que narra em hexâmetros datílicos os eventos ocorridos entre a Ilíada e a Odisseia. Assim, de uma maneira parecida com Homero (não obstante certas diferenças de estilo), o narrador aborda eventos como a morte de Aquiles, o suicídio de Ájax, o cavalo de madeira e o saque de Troia em um formato épico.

Neste artigo, apresentamos uma tradução do episódio ao qual a tradição épica legou o nome de “Etiópida”, momento da guerra de Troia em que os etíopes, liderados por seu príncipe, Mêmnon, chegam para auxiliar os troianos na guerra após a morte de Heitor, narrada na Ilíada. O episódio teria sido abordado em um dos épicos cíclicos perdidos ao longo do tempo – chamado, justamente, de Etiópida. Não se sabe ao certo se Quinto teria tido ou não acesso a algum dos épicos cíclicos – tal incerteza é chamada de “questão cíclica” nos estudos sobre o poeta.2

O livro 2 se inicia no dia seguinte aos acontecimentos do livro 1:3 após a morte de Pentesileia, rainha das amazonas e aliada de Príamo, os troianos recuam para dentro da cidadela e, aturdidos, precisam decidir o que fazer naquele ponto: fugir? Continuar lutando? Entregar Helena? O povo se acalma quando Príamo anuncia que Mêmnon, um príncipe etíope aliado, encontra-se a caminho com sua hoste. Decide-se então que os troianos permaneçam dentro das muralhas até sua chegada.

Mêmnon é retratado como um herói valente e ponderado, diferente da impulsiva Pentesileia do livro 1. Já em sua primeira noite, recusa o vinho oferecido pelo anfitrião, pois deseja estar são e descansado na luta do dia seguinte (2.153-5). É racional, controlado. Diz, por exemplo, que não deve ser chamado de valente até que o prove em batalha no dia seguinte (2.151-2). Ou seja, não é dado a extremos, tal como a rainha amazona ou seu principal antagonista no livro 2, Aquiles. Ele se coloca, portanto, como figura intermediária entre os dois heróis impulsivos: Pentesileia, que morre no livro 1, e Aquiles, que morre no livro 3. Isso, contudo, não altera sua sina: Mêmnon morre ao fim do livro 2 pelas mãos de Aquiles.

O príncipe etíope é filho de Éos, a Aurora, deusa que faz o sol se erguer todos os dias para iluminar os mortais. Éos é uma figura recorrente nos poemas homéricos, que, não obstante alguns trechos de caracterização um pouco além da superfície,4 serve sobretudo como dispositivo narratológico para marcar a passagem do tempo. É célebre a fórmula “e quando surgiu a matutina Éos de dedos róseos...” (ἦμος δ’ ἠριγένεια φάνη ῥοδοδάκτυλος Ἠώς) nos poemas homéricos.5 Nas Pós-homéricas, contudo, ela descerá dos céus e aparecerá como personagem no centro da ação – com falas, sentimentos, agência. Será representada como uma mãe preocupada com o filho, que teme pela sua morte, e que, depois que ela ocorre, sofre e lamenta. Assim, Éos prefigura a própria Tétis, que também sofrerá amargamente pela morte de Aquiles no livro 3.

Temos no livro 2 uma versão em miniatura da grande trama da Ilíada: o segundo melhor amigo de Aquiles depois de Pátroclo, Antíloco, filho de Nestor, é morto por Mêmnon. É como se um segundo Pátroclo (Antíloco) fosse morto por um segundo Heitor (Mêmnon). Enfurecido, portanto, com a morte de seu companheiro, Aquiles avançará contra Mêmnon com violência e determinação. Se o embate entre Pentesileia e Aquiles é rápido no livro 1, no livro 2, temos o contrário: o duelo é parelho, e os deuses e narratários acompanham cada um dos movimentos dos guerreiros com apreensão. Que Mêmnon morrerá nós já sabemos de antemão quando o narrador conta que, no dia da batalha, ele se levanta pela última vez (2.186). A própria Éos já o sabe também, e se ergue a contragosto (2.189). Não deixa de existir, todavia, uma certa tensão para se descobrir como tal guerreiro maravilhoso será subjugado por Aquiles.

Quinto não deixa a desejar quanto às expectativas criadas: note o leitor a manipulação do ritmo narrativo durante a cena.6 O duelo parece alongado, tenso, entremeado por símiles e cenas vívidas de armas se entrechocando, ambos os duelistas rodeados por outros combates entre gregos e troianos, com os deuses assistindo ao embate do Olimpo tão tensos quanto nós que o estamos lendo.

Findo o combate, tem início o sofrimento de Éos, e a cena de funeral das mais detalhadas e longas do poema, que rivaliza apenas com aquela do próprio Aquiles no livro 3. Éos faz com que os ventos carreguem o corpo de seu filho, bem como seus companheiros, até a Etiópia, onde ele é enterrado com exéquias de glória. Seus companheiros transformam-se em pássaros, que todos os anos duelam para honrar seu senhor. Tal como Éos prefigura o sofrimento de Tétis no livro 3, o complexo enterro de Mêmnon também nos prepara para o destino de Aquiles e seu funeral.

Estrutura narrativa do livro 2

Assim podemos dividir a estrutura narrativa do livro 2 das Pós-homéricas:

[1-99] O debate: Troianos deliberam sobre como agir após a morte de Pentesileia

[100-163] A chegada de Mêmnon e sua acolhida em um banquete

[164-182] Assembleia no Olimpo: Zeus proíbe que os deuses supliquem em prol de seus protegidos

[183-394] Combate: gregos e troianos se enfrentam pela planície troiana

[183-214] Ambos os lados se armam para o combate

[215-234] Início do combate, pequena matança de Aquiles

[235-387] A aristeía de Mêmnon

[238-344] A Morte de Antíloco, filho de Nestor

[388-546] O duelo Mêmnon versus Aquiles: em um longo combate singular, Aquiles derrota Mêmnon

[547-627] O luto de Éos: Em um longo funeral, Mêmnon é transportado até a Etiópia, e seus companheiros e sua mãe choram o seu corpo. Revoltada, Éos se recusa a iniciar um novo dia

[628-666] O restabelecimento da ordem: por desígnio de Zeus, Éos enterra Mêmnon e volta a trazer o dia

Sobre esta tradução

Esta é uma tradução acadêmica em versos livres, em que se busca seguir a divisão linha por linha do original. O texto grego em que se baseia é estabelecido por Francis Vian, pela editora Les Belles Lettres (1963).

Livro 2
Mas depois que a luz radiante do sol incansável se espalhou
ao longo dos picos por sobre as montanhas ruidosas,
os filhos dos bravos aqueus se refestelavam nas tendas,
muito exultantes que estavam pelo implacável Aquiles.
5 Os troianos, por sua vez, pela cidade se lamentavam, e agachados
nas torres observavam do alto, já que de todos o medo se apoderara,
não fosse o potente varão saltar por sobre os muros enormes
e por completo os destruir e tudo incendiar com o fogo.
Falou-lhes então, enquanto sofriam, o velho Timetes:
10“Amigos, não mais consigo na mente saber
como seremos salvos da guerra penosa
depois que Heitor que lutava de perto tombou,
ele que foi no passado o maior baluarte do povo troiano.
Das Queres, porém, não escapou, e pelas mãos de Aquiles foi morto,
15embora, creio, mesmo um deus seria abatido ao encontrá-lo em batalha.
Do mesmo modo na guerra matou aquela que os outros
argivos temiam, Pentesileia de mente guerreira,
ela que era espantosa. Eu próprio, ao vê-la,
pensei que fosse, vinda do céu, uma das venturosas
20para trazer-nos deleite. Não era, contudo, verdade.
Mas vamos! Pensemos no que é melhor para nós:
se devemos ainda lutar contra os inimigos,
ou se deixamos, fugindo, a cidade arrasada.
Pois não seremos capazes de desafiar os argivos
25enquanto lutar na batalha o rígido Aquiles.”
Assim declarou, e disse-lhe então o filho de Laomedonte:
“Caro amigo, caros troianos fortes no peito e aliados,
não devemos agora, apavorados, deixar nossa pátria,
muito menos combater inimigos distantes de nossa cidade,
30mas lutar somente das torres e muros, até que venha ao nosso socorro
Mêmnon, bravo no peito, à frente de sua hoste incontável
de combatentes que habitam a Etiópia de negros mortais.
Pois imagino que agora já esteja ele próximo
de nossa terra, já que, não faz muito tempo,
35enviei-lhe uma mensagem, muito aturdido em meu peito,
e ele de pronto, contente, a mim prometeu de tudo cuidar
quando chegasse a Troia. Espero que já esteja próximo.
Mas vamos, aguentem por mais um pouco, pois mais vale
ser morto valentemente em meio ao tumulto do que fugir
40e viver com vergonha entre homens de terras distantes.”
Assim o velho falou. Ao prudente Polidamante, contudo,
não aprazia então a batalha, e assim proferiu um discurso sensato:
“Se Mêmnon lhe prometeu com certeza afastar
de nós a terrível ruína, de modo algum me oponho
45a esperar pelo homem divino pela cidade. Entretanto,
temo em meu peito que ao chegar com os seus companheiros
seja o varão abatido, o que causará no restante de nós
apenas agruras, pois uma força terrível impele os aqueus.
Para longe, contudo, também não fujamos de nossa cidade,
50trazendo a nós grande vergonha por sermos nefastos covardes
quando passarmos por terra estrangeira. Permanecendo na pátria, porém,
que não sejamos tampouco abatidos por estampidos argivos.
Seria melhor devolver, desta forma, mesmo que tardiamente,
aos dânaos a esplêndida Helena e suas posses,
55aquelas que a mesma trouxe de Esparta e outras ainda mais,
chegando ao dobro, em prol da cidade e de nós mesmos,
para que a horda inimiga não divida entre si os nossos
tesouros, e nem que o fogo destruidor encubra a cidade.
Que eu possa persuadir suas mentes, pois não creio
60que outro entre os troianos venha apontar um plano melhor.
Ah, tivesse dado ouvidos antes à minha ordem
Heitor, quando eu o detinha no interior da pátria.”
Assim falou a força nobre de Polidamante. Ao redor os troianos
aprovavam ao ouvi-lo em suas mentes, mas não o diziam
65abertamente. Pois todos temiam e reverenciavam
o seu senhor e Helena, embora arrasados por conta da mesma.
Mesmo sendo ele um nobre, Páris duramente insultou-o:
“Polidamante, você é um fraco e covarde,
e não tem no peito um coração com firmeza,
70apenas com pânico e medo. No conselho se vangloria de ser
um nobre, mas concebe os piores planos de todos.
Mas vamos! Se afaste você do calor da batalha
e fique sentado no interior dos salões. Já os outros,
armem-se ao meu redor pela cidade até que achemos,
75exultantes no peito, a solução para a guerra cruel.
Pois longe da guerra penosa e da dureza não
ampliam os homens seu grande renome e façanha,
mas a fuga muito agrada às crianças ou às mulheres.
A elas você se parece no peito, e não confio, assim,
80em você ao lutar, pois arruína de todos o bravo vigor.”
Falou com grande desdém, mas Polidamante enfurecido
lhe retrucou, pois não se acanhava ao gritar cara a cara,
visto que tolo, abominável e presunçoso é aquele que
à frente bajula de forma amigável, mas em seu peito
85se agita, e apenas por trás arrasa o que não está presente.
Abertamente, portanto, insultou com veemência o divino senhor:
“Oh, mais destrutivo de todos os homens da face da terra!
Sua coragem nos trouxe tormento, sua mente nos submeteu
a uma batalha sem fim, e que perdurará até que você
90veja a pátria arrasada junto com sua população.
Que jamais se apodere de mim coragem assim, que eu tenha
sempre um temor infalível, e permaneça a salvo meu lar.”
Assim falou, mas Páris não lhe retrucou,
ao se lembrar de quantas agruras impôs aos troianos
95e quantas ainda traria, já que seu coração ardente
à morte se atiraria antes que viesse a se separar
de Helena divina, por conta de quem os filhos troianos
do alto de sua elevada cidade mantinham vigília,
a aguardar os argivos e o Eácida Aquiles.
100A eles não muito depois chegou Mêmnon beligerante,
Mêmnon, senhor entre os escuros etíopes
que conduzia infindável exército. Ao redor os troianos
regozijados o avistaram pela cidade, tal como os nautas
em uma mortal tempestade enxergam no meio do céu,
105já exauridos, o esplendor da girante Ursa Maior -
assim se alegrava o povo de todos os lados, e sobretudo
o filho de Laomedonte, pois muito almejava o seu coração
destruir as naus com o fogo das mãos dos etíopes,
já que dispunham de um rei corajoso e muitos eram
110seus números, todos instados pelo anseio de Ares.
Assim, sem cessar honravam o nobre rebento de Erigeneia
com excelentes presentes e júbilo exuberante.
Conversavam uns com os outros ao comer no banquete,
um contando dos chefes argivos e quantas dores
115sofreram, e o outro da vida perene e imortal
de seu pai e sua mãe, Éos, e das correntes da vasta
Tétis e das ondas sagradas do Oceano de curso profundo
e das fronteiras da terra incansável do oriente e
do sol, e todo o caminho desde o Oceano
120até a cidade de Príamo e os promontórios do Ida,
e como com suas robustas mãos devastou
o exército sacro dos firmes Sólimos que o detinha enquanto
marchava, e a eles causou morte e sofrimento desenfreado.
Assim contou, e também como viu incontáveis povos
125de homens. Ao ouvi-lo, Príamo em seu âmago se encantou
e voltando-se a ele então proferiu venerável discurso:
“Oh Mêmnon, foi um feito dos deuses pra mim avistar
você e também seu exército em nossos salões.
Que me concedam ainda ver os argivos
130de uma vez destruídos inteiramente por suas lanças.
Pois em tudo você se parece aos venturosos indestrutíveis,
de modo admirável, como nenhum outro herói sobre a terra.
Penso, portanto, que àqueles trará a morte angustiante.
Mas vamos! Alegre agora seu ânimo em meu banquete
135hoje. Em breve, contudo, você lutará, como é devido.”
Assim falou. Ergueu em suas mãos um cálice com o bojo espaçoso
e zelosamente deu boas-vindas a Mêmnon com a sólida taça
de ouro, ínclita obra, que o circunspecto manco-dos-pés
Hefesto ofereceu, ao se casar com Ciprogeneia,
140a Zeus magnânimo. E este cedeu tal presente ao filho,
Dárdano símil a um deus, que o ofertou a seu filho, Erictônio,
e Erictônio a Tros magnânimo. Este a Ilo, por sua vez,
legou-o com suas posses, que o cedeu a Laomedonte.
Laomedonte então entregou-o a Príamo, quem pretendia
145ao filho legar. Isso, contudo, os deuses não concederam.
Mêmnon em sua mente se encantava com o belíssimo cálice,
e o manuseando, em resposta, enunciou tal discurso:
“Não se deve em um festim gabar-se de modo valente
e nem fazer promessa alguma, mas com serenidade
150banquetear-se pelos salões e lutar de forma adequada.
Pois se sou eu, de fato, bravo e corajoso ou não
você saberá na batalha, onde se atesta a força do homem.
Mas vamos! Preocupemo-nos com a cama e não bebamos
ao longo da noite. Pois terrível é pra quem deseja lutar
155o vinho ilimitado, bem como a insônia penosa.”
Assim falou. E o velho, maravilhado, disse-lhe então:
“Aproveite o banquete como quiser, e obedeça a si mesmo -
não o coagirei contra a sua vontade. Não é adequado
reter aquele que deixa o festim e nem apressar quem fica
160a sair do salão. Desta maneira é a norma entre os homens.”
Assim falou. Aquele deixou o jantar e foi para a cama
uma última vez. Ao mesmo tempo os outros hóspedes
foram cuidar de dormir. Sobreveio-lhes rápido o sono suave.
Já nos salões de Zeus que reúne os trovões
165os imortais se banqueteavam. Entre eles, o pai Croníon,
ciente das obras do dissonante combate fez um discurso:
“Saibam, deuses que me rodeiam, da dor pesada que se aproxima
amanhã na guerra. Pois assistirão à força de muitos cavalos
se destruindo ao redor das bigas por todos os lados,
170e homens se dizimando. E que nenhum de vocês, angustiado
por eles se ponha em meus joelhos nem venha a mim
suplicar, pois as Queres são implacáveis também para nós.”
Assim falou no meio de todos, que já o sabiam,
para evitar que, angustiado, alguém se afastasse da guerra,
175e suplicando a ele ou por conta de um filho ou homem querido,
em vão se dirigisse até o inabalável Olimpo.
Quando escutaram o Cronida que alto ressoa,
sofreram no peito, mas contra o seu senhor
nada disseram, pois frente a ele tremiam imensamente.
180Sofrendo partiu, então, cada um para sua casa
e o seu leito. E a seu redor, mesmo sendo imortais,
espalhou-se sobre os olhos o descanso suave do sono.
Quando através dos topos das altas montanhas se apressava
do amplo céu aquela que traz a radiante aurora, a qual desperta
185ao dormirem os que ajuntam o feno para seu doce trabalho,
pela última vez então deixou o sono o filho aguerrido
de Erigeneia, portadora da luz. Com vigor crescente na mente
de imediato ansiava lutar contra os seus inimigos.
Éos a contragosto ergueu-se sobre o amplo céu,
190e então os troianos vestiram em volta dos corpos suas mortais armaduras,
e ao mesmo tempo também os Etíopes, e os tantos povos
de aliados que haviam chegado e se reuniam em volta da força
de Príamo. E muito rapidamente se dirigiam à muralha
semelhantes a nuvens escuras, do tipo que o Croníon
195durante a tempestade reúne no ar carregado.
De repente toda a planície estava encoberta, e eles jorravam
tal qual gafanhotos devoradores de trigo que avançam
como uma nuvem ou tempestade pesada sobre a terra
de vasto solo, insaciáveis, e trazem aos mortais a fome hostil -
200assim seguiam, valentes e em grande número, e a terra cobriu-se
de homens em disparada, com o pó se erguendo sob seus pés.
E os argivos de longe se impressionavam ao verem-nos
em disparada. De pronto cobriram seus corpos com o bronze,
confiantes na força do Pelida. E ele, no meio,
205marchava como os Titãs de peito robusto,
exultante por seus cavalos e suas bigas. Sua armadura
por todos os lados brilhava como os relâmpagos.
Como das fronteiras do oceano que sustenta a terra
Hélio que ilumina os mortais se ergue céu adentro
210todo radiante, e a terra fértil e o éter sorriem,
assim entre os argivos corria o filho de Peleu.
E assim também em meio aos Troianos seguia Mêmnon
guerreiro, tal como Ares em sua ânsia, e ao seu redor
o povo impetuoso corria ao lado de seu soberano.
215De repente lutavam as extensas falanges de ambos
troianos e dânaos, entre os quais os etíopes se destacavam.
Caíram rápido com um estrondo de todos os lados, como ondas do mar
ao se reunirem os ventos de todos os lados durante o inverno.
Dizimavam-se uns aos outros arremessando suas polidas
220lanças de freixo, e entre eles se incendiavam o lamento e o tinido.
Como quando os trovejantes rios muito lamentam
ao desembocar no mar quando irrompe a mais furiosa tormenta
de Zeus ao se chocarem inabaláveis acima as nuvens
em atrito umas com as outras, e a labareda de fogo irrompe -
225assim a terra descomunal muito tremia sob os pés daqueles
que batalhavam, e um clamor se lançava através do éter divino,
terrível, pois de todos os lados gritava-se de modo aterrador.
Ali o Pelida abateu Talio e Mentes irreprochável,
ambos conspícuos. E atirou as cabeças de muitos.
230Como um tufão de baixo da terra irrompe nas casas,
furioso, e de repente todas arranca das fundações
do solo, e muito profundamente estremece a terra -
assim eles caíam em meio à poeira com uma rápida morte
pela lança do Pelíon, pois ele muito se enfurecia em seu ânimo.
235Da mesma forma, do outro lado, o nobre filho de Erigeneia
massacrava os argivos semelhante à Aisa,
a qual traz aos homens ruína funesta e mortal.
Primeiro matou Féron, o qual acertou através do peito
com sua lança nefasta, e no ato abateu o divino Ereuto,
240ambos desejosos da guerra e a mortal carnificina,
que habitavam Trio junto às correntes do Alfeu,
e sob comando de Nestor haviam marchado à cidade sagrada de Ílion.
Quando os despojou, lançou-se contra o filho de Neleu
ansioso por matá-lo. Antes, contudo, Antíloco deiforme
245se aproximou e guiou sua lança enorme. Errou, porém,
pois Mêmnon se esquivou, e matou o seu companheiro,
o Pirrásida Étope. Furioso por sua morte, então,
atirou-se sobre Antíloco como um leão bravo no peito
sobre um javali, que sabe, ele próprio, lutar contra
250homens e feras, dono de um ímpeto incontrolável -
assim saltou rapidamente, mas Antíloco lançou contra ele
uma pedra. Seu coração, entretanto, não se despedaçou,
pois protegeu-lhe da dolorosa morte seu firme elmo.
Terrivelmente o coração em seu peito se revoltou
255ao ser atingido: o elmo ressoava ao redor. Ainda mais
se enfureceu contra Antíloco, e sua brava força fervia.
Por isso acertou sobre o peito, lanceiro embora este fosse,
o filho de Nestor. A lança atravessou-lhe o coração
corajoso, do modo em que é rápida para os mortais a ruína.
260Por sua morte, a dor se instaurou sobre os dânaos
todos, mas sobretudo à mente do pai sobreveio o pesar,
Nestor, quando o próprio filho foi abatido sob seus olhos.
Pois não sobrevém aos mortais dor pior do que
aquela em que filhos são mortos com o pai assistindo.
265Por isso, apesar de ser firme o ânimo em seu peito e sua mente,
afligiu-se pelo destino funesto de seu filho ao morrer.
De imediato chamou Trasimedes, que estava longe.
“Se apresse até mim, Trasimedes famoso, a fim de afastarmos
o assassino de seu irmão e de meu filho
270para longe do deplorável cadáver, ou que cumpramos
nós próprios ao seu redor o penoso suplício.
Mas se no seu peito há medo, não foi gerado
como meu filho, nem vem da estirpe de Periclímeno,
o qual contra Héracles teve a ousadia de avançar.
275Vamos, lutemos, já que a necessidade muito insufla
enorme poder aos que lutam, mesmo que sejam inúteis.”
Assim falou, e ao ouvi-lo, o ânimo abateu a mente do filho
com doloroso sofrimento. Rápido juntou-se a ele
Fereu, a quem a dor tomara também pela morte
280de seu senhor. Instaram-se, assim, a lutar contra
Mêmnon poderoso na sangrenta carnificina.
Como quando os caçadores nos vales cheios de árvores
de uma alta montanha anseiam lançar-se contra
uma presa enorme, um javali ou um urso,
285ansiosos por matá-lo, mas este avança contra os mesmos
e se defende com valente ânimo da violência dos homens -
assim também Mêmnon se achava enorme, e dele
se aproximaram, mas não conseguiram matá-lo
com suas lanças enormes. As pontas mantinham-se
290longe de sua pele, pois Erigeneia o tempo todo as desviava.
As lanças, contudo, não caíam em vão sobre o solo, mas rápido
Fereu de peito valente com avidez abateu Polímnio
filho de Meges, e a Laomedonte matou
o filho valente de Nestor, enfurecido por conta do irmão,
295quem Mêmnon aniquilara durante a batalha, e do qual
removeu com as mãos incansáveis as armas todas de bronze
sem preocupar-se com a força de Trasimedes ou do nobre
Fereu, já que lhes era muito superior, tal como dois chacais
temem quando um enorme leão avança sobre um cervo
300e de longe não ousam se aproximar. Terrivelmente Nestor
lamentou-se, olhando de perto, e instou seus outros
companheiros de guerra à investida. E também ele próprio
teria a intenção de pelejar de sua biga, pois o luto
pelo filho morto o impelia em direção à refrega
305para além de sua força. Estava prestes a jazer ele próprio
junto ao filho, contando-se também entre os mortos, se
Mêmnon de peito valente não dissesse a ele quando avançava,
respeitando em seu peito aquele da mesma idade de seu pai:
“Ó ancião, não me parece adequado lutar contra você
310que é mais velho, quando me dou conta agora.
Decerto pensei que fosse um jovem homem aguerrido
enfrentando os inimigos, e meu ânimo audaz esperava
ser alguém digno da façanha de minha mão e minha lança.
Afaste-se, contudo, para longe da odiosa batalha e da morte!
315Recolha-se, não vá eu atingi-lo a contragosto por necessidade
nem você cair ao lado do filho lutando contra um homem
muito melhor, e que não venham também a dizer que você
foi um tolo, pois não parece adequado enfrentar o mais forte.”
Assim falou. O ancião, por sua vez, respondeu com um discurso:
320“Ó Mêmnon, tudo que diz agora é em vão.
Pois ninguém dirá ser um tolo quem combate os inimigos
por conta de um filho, afastando pra longe de seu cadáver
em meio à batalha seu impiedoso assassino. Antes fosse
minha força ainda robusta, assim conheceria minha lança.
325Você agora se jacta de modo extremo porque o ânimo
é audaz no homem jovem, mas parco é o seu raciocínio,
e assim você fala com ideias grandiosas, mas vãs.
Se me tivesse enfrentado na flor da idade,
amigos não se alegrariam por ti, mesmo sendo tão forte.
330Agora, contudo, tal como um leão estou fatigado pela velhice,
ao qual um cão de fazenda de muitos rebanhos persegue
com audácia, e embora o desejando, não se protege
do mesmo, pois seus dentes não mais estão firmes,
nem sua força, e o tempo assolou o seu coração valente.
335Assim não mais a bravura me agita o peito
tal como antigamente. Ainda assim sou mais corajoso
do que muitos homens, e frente a poucos cede a minha velhice.”
Assim dizendo, afastou-se um pouco. Deixou para trás
o filho caído em meio à poeira, pois não tinha mais,
340com membros curvados, o peito como o de antes,
oprimido que era de cima pela velhice tão lamentável.
Da mesma forma disparou Trasimedes de boa lança,
Fereu de peito valente e todos os outros companheiros
com medo, pois deles demais se aproximava o varão letal.
345Como quando das enormes montanhas um rio de profundos
redemoinhos agitado desloca-se com estrondos sem fim
quando Zeus espalha sobre os homens um dia nublado,
revolvendo uma grande tempestade, e ressoam em todo canto
os trovões, bem como os raios, sem parar, ao se chocarem as nuvens
350sobre-humanas, e se inundam os campos e os recôncavos
com a tempestade de som terrível que se precipita, e as enormes
torrentes esbravejam terrivelmente sobre todos os montes -
assim Mêmnon perseguia ao longo da costa do Helesponto
os argivos, e os destruía os atingindo por trás.
355Muitos no sangue e na poeira abandonaram a vida
pelas mãos dos etíopes, e a terra se maculava com o sangue
dos dânaos aniquilados. E muito na mente Mêmnon se alegrava
sempre em disparada entre as linhas inimigas, e ao seu redor o solo
troiano se amontoava de corpos. Mas ele não abandonava o combate,
360pois esperava ser a luz dos troianos e o flagelo dos dânaos.
A Moira ominosa, contudo, o enganava,
de pé ao seu lado, enconrajando-o em meio ao tumulto.
E em volta seus firmes servos lutavam,
Alcioneu, Níquio e Asíades de peito elevado
365e o lanceiro Mêneclo e Alexipo e Clídon
e os outros, que se empolgavam com a debandada, os quais
persistiam na luta confiantes em seu rei.
E ali, enquanto Mêneclo perseguia os dânaos,
Nelida matou-o. Mas atormentado por conta do companheiro,
370Mêmnon de peito valente abateu uma multidão de homens.
Como quando sobre os rápidos cervos se lança
um caçador nas montanhas, reunidos em bando
dentro de redes escuras na última armadilha da caça
graças a seus guerreiros, e os cães exultam
375latindo forte, e ele, ansiosamente, traz
a morte angustiante aos rápidos veados com sua lança -
assim Mêmnon muitos aniquilava no exército, e seus companheiros
ao redor se alegravam, enquanto os argivos temiam o ínclito homem.
Como quando de uma alta montanha despenca
380uma pedra imensa, e ela do alto Zeus incansável
derruba do penhasco acertando-a com o trovão aflitivo,
e ao se chocar contra os densos arbustos e grutas enormes,
383os vales se estremecem e a floresta chacoalha,
e se ovelhas pastam embaixo enquanto ela rola,
385ou bois ou outro animal, quando ela chega, saltam eles
de seu percurso penoso e implacável - assim os aqueus
fugiam enquanto Mêmnon agitava sua lança valente.
E ent ão se aproximou do poderoso Eácida
Nestor, e dores sofrendo por conta do filho falou:
390“Ó Aquiles, baluarte maior dos argivos de ânimo bravo,
meu filho foi morto, e Mêmnon está com as armas
do falecido. Temo que ele se torne o espólio de cães.
Mas venha rápido ajudar, pois amigo é quem se lembra
do companheiro morto e sofre por quem já se foi.”
395Assim falou. Ao ouvi-lo, o sofrimento invadiu a mente daquele.
Quando soube que Mêmnon na angustiante batalha
aniquilava em massa com a lança os argivos,
deixou de imediato os troianos que abatia com suas mãos
em outras falanges, e ávido pelo combate
400avançou contra o mesmo, enfurecido por conta de Antíloco
e dos outros mortos. Mêmnon então tomou em suas mãos uma pedra,
a qual os mortais puseram como fronteira de uma planície cheia de grãos,
e o homem divino lançou-a contra o escudo do implacável
Pelíon. Este, por sua vez, não teve medo da pedra descomunal,
405e de pronto se aproximou, erguendo a longa lança à frente
a pé - pois os cavalos haviam ficado pra trás no tumulto -
e atingiu Mêmnon com força sobre o escudo no ombro direito.
Mas este, embora ferido, lutava com destemida vontade
e golpeou o braço do Eácida com sua lança robusta,
410e com prazer derramou o seu sangue. Em vão alegrou-se o herói.
Dirigiu-se ao outro em seguida com arrogantes palavras:
“Agora, penso, você cumprirá o terrível destino da morte
ao ser abatido por minhas mãos e não mais escapar da refrega.
Miserável, por que tão temerário você devastava os troianos,
415gabando-se de ser de longe o mais bravo de todos os homens
e de sua mãe imortal, a Nereida? Mas agora a você
é chegado o dia fatal, pois sou da estirpe dos deuses,
valente filho de Éos, que longe daqui criaram as Hespérides
como os lírios junto à corrente do Oceano.
420Por isso não fujo da lida implacável contra você,
pois conheço minha mãe, e o quão superior ela é
à Nereida da qual você se gaba de ter nascido.
Pois ela traz a luz aos homens e aos venturosos,
e graças a ela se cumprem todos os afazeres
425nobres e ínclitos dentro do Olimpo, e aos homens se dá o ganho.
A outra fica sentada nas grutas estéreis do mar,
e vive tal qual monstro marinho, orgulhosa entre os peixes,
inútil e invisível. Não me importo com ela
e nem a comparo às celestiais imortais.”
430Assim falou, e censurou-o o bravo filho do Eácida:
“Ó Mêmnon, como sua errônea mente o impele
a avançar contra mim e a enfrentar-me em duelo?
Eu que o supero tanto na força, quanto na estirpe e nascimento,
em cujas veias corre o célebre sangue de Zeus magnânimo
435e do poderoso Nereu, que engendrou as donzelas marítimas,
as Nereidas, as quais os deuses honram no Olimpo,
e acima de todas Tétis, a engenhosa,
já que outrora acolheu Dioniso em seus salões,
quando este temia a violência de Licurgo mortífero,
440e também porque recebeu o sensato ferreiro Hefesto
em seus domínios ao ser atirado do Olimpo,
e porque libertou o próprio Raio-brilhante de suas amarras.
Disso os Urânios que tudo veem se lembram
e honram Tétis, mãe minha, no sagrado Olimpo.
445Saberá como é uma deusa quando minha brônzea lança
atingi-lo no fígado, golpeado por minha força.
Como Heitor por Pátroclo, você por Antíloco farei pagar,
enfurecido. Pois não destruiu o parceiro de um homem
sem força. Mas por que tal como insensatas crianças
450estamos aqui discutindo os feitos de nossos pais
ou dos pais deles? Pois Ares se encontra próximo, e próximo o furor.”
Assim falou e tomou em suas mãos a longa espada.
Mêmnon, por sua vez, fez o mesmo, e rápido os dois se lançaram.
Golpeavam de modo incessante, exultantes na mente, os escudos
455um do outro, os quais Hefesto forjara com sua perícia divina,
investindo de perto. Os penachos dos sólidos elmos
se entrechocavam, cada um de um lado.
Zeus, que muito os estimava, insuflou em ambos coragem
e os tornou maiores e incansáveis, em nada símeis
460a homens, mas sim a deuses, e Éris se alegrava com ambos.
Ansiavam por atravessar com suas lanças a pele
entre o escudo e o elmo de alto penacho,
e o tempo todo guiavam sua força, por vezes
um pouco acima da greva, por vezes por baixo da armadura
465dedálea, atada firme ao redor dos membros robustos,
ambos com velocidade. Ao redor reverberavam as imortais
armaduras em torno dos ombros. E o bradar dos argivos
de peito elevado, troianos e etíopes, que combatiam de ambos os lados,
erguia-se até o éter divino. A poeira sob seus pés se elevara
470alcançando o vasto céu, pois uma grande façanha ocorria.
Tal como a bruma junto às montanhas com chuva forte,
quando os leitos sonantes dos rios se enchem
de água que irrompe, e todos os montes retumbam
de forma indizível, e todos os pastores se amedrontam
475pelas torrentes e a bruma cara aos mortíferos lobos
e outras feras, tantas quantas a floresta sem fim alimenta -
assim ao redor de seus pés a poeira aflitiva se erguia
e encobria completamente a luz nobre do sol,
escurecendo a paisagem. Uma terrível aflição sobrepujava
480as hostes em meio à poeira e ao combate nefasto.
E algum dos imortais a afastava com ímpeto
para fora da guerra, mas as Queres mortais instavam as ágeis
falanges de ambos os lados a lutar confusamente
em meio ao combate aflitivo. Ares não dava trégua
485à funesta matança, e a terra ao redor se manchava inteira
do sangue jorrado, e a negra Destruição se regozijava.
A vasta planície, pastagem para os cavalos, estava repleta de mortos,
a qual, com suas correntes, delimitam o Simoente e o Xanto,
descendo do Ida em direção ao Helesponto sagrado.
490Mas quando se prolongava de modo indefinido o intenso duelo
dos combatentes, por igual se media a força de ambos.
De longe, então, os observavam os Olímpios.
Alguns se deleitavam no peito pelo irrefreável Pelíon,
outros, pelo filho divino de Éos e de Titono.
495Do alto, o vasto céu retumbava, o mar ao redor
bramia, e a terra negra em volta se estremecia
debaixo dos pés dos dois. Estremeciam-se todas
as filhas de Nereu magnânimo em volta de Tétis,
temendo de forma indizível pelo valente Aquiles.
500Mas Erigeneia encontrava-se aflita pelo filho querido,
correndo no meio do Éter com seus cavalos. Perto
estavam as filhas de Hélio e se impressionavam
em volta da órbita celestial, a qual Zeus fornecera
a Hélio incansável com o nobre curso de um ano,
505de acordo com quem tudo vive e perece a cada dia ao longo
da perene passagem do tempo ao se revolverem os anos.
Entre os venturosos uma guerra implacável teria irrompido
se pela sugestão de Zeus que alto troveja duas
Queres não se pusessem rapidamente ao lado
510de ambos, uma escura junto ao peito de Mêmnon,
uma brilhante ao redor do belicoso Aquiles. Ao vê-las,
os imortais se chocaram: de uns se apossou um sofrimento
nefasto, e um prazer nobre e esplêndido apoderou-se dos outros.
Duramente os heróis se enfrentavam em meio ao sangrento
515combate, e não perceberam as Queres se aproximando
ao se lançarem um contra o outro com força e coragem.
Você diria que no combate aflitivo daquele dia
lutavam Gigantes indestrutíveis contra os poderosos
Titãs, pois o vigoroso combate entre eles os instigara,
520tanto ao se chocarem com as espadas quanto ao lançarem
com ímpeto pedras descomunais. Nenhum dos dois, contudo,
recuava ao ser atingido e nem fugia, e tal como promontórios
incansáveis se mantinham de pé ao descarregarem a força indizível,
pois ambos se jactavam de sua linhagem de Zeus grandioso.
525Por isso, Enio alongou o combate parelho entre os dois,
que muito firmes mantinham-se a todo momento naquele dia,
tanto eles como seus destemidos parceiros, que com os senhores
de modo incessante lutavam com ímpeto até que suas lanças
dobrassem contra os escudos. E nenhum dos combatentes
530de cada lado escapou ileso, mas dos membros
de todos o sangue e o suor jorraram por sobre a terra,
mantendo-se firmes o tempo todo. A terra encobriu-se de corpos,
tal como o céu com as nuvens quando o sol se dirige
a Capricórnio, e o marinheiro estremece diante do mar.
535Relinchavam em disparada os cavalos junto com os homens
e pisoteavam os mortos, tal como as infindáveis folhas
no início do inverno depois de um outono exuberante.
E eles, no meio de mortos e sangue, lutavam,
os filhos esplêndidos dos venturosos, sem desistir
540da cólera mútua. Éris direcionava a dolorosa
balança da luta, e ela não mais se encontrava parelha:
o Pelida atingiu Mêmnon divino sob a base
do peito, e atacou-lhe, certeiro, com a negra
espada. Sua vida querida de pronto esvaiu-se,
545e o negro sangue escorreu. As espantosas armas soaram,
a terra ecoou, e o medo se apossou de seus companheiros.
Os mirmidões o despojavam, e os troianos em volta
fugiam, mas a força de Aquiles os perseguia tal qual um tornado.
Éos então se afligiu, encoberta de nuvens,
550e a terra escureceu. E todos os ventos velozes
se dirigiram pelo caminho apontado por sua mãe
até a planície de Príamo e envolveram o morto.
Rapidamente tomaram o filho de Éos
e o levaram em meio a uma bruma cinzenta. Sofriam
555eles no peito pelo irmão falecido, e ao redor o éter
gemia. Em seguida, tantas gotas de sangue quantas
pingaram dos membros tornaram-se entre os homens,
inclusive os vindouros, um sinal. Pois os deuses as reuniram
dali para outro lugar, e as transformaram num rio ruidoso,
560ao qual os que habitam a terra chamam de Paflagônio,
todos aqueles que vivem sob as fronteiras do Ida elevado,
e que sangrento corre por sobre o solo fecundo.
E sempre que chega o dia funesto de Mêmnon, no qual
ele morreu, um cheiro terrível e desenfreado emerge
565da água. Você diria que os pútridos fluidos
de um ferimento mortal exalam de modo excruciante.
Mas assim é por ordem dos deuses. Os rápidos
ventos voavam, levando o bravo filho de Éos
coberto por uma escuridão sombria próximo à terra.
570Os etíopes, por sua vez, não se afastaram de seu senhor
falecido, depois que rápido um deus também os
levou, dando a eles, que ansiavam, velocidade, da qual
iriam não muito depois se utilizar ao serem levados aos ares.
Por isso, seguiam com os ventos lamentando seu rei.
575Como quando entre as folhagens um caçador tombado
pelas temidas mandíbulas de um leão ou javali,
e seus companheiros, chocados, erguem seu corpo e, sofrendo,
o levam, e atrás os cães, sentindo a falta de seu senhor
os seguem ganindo por conta da funesta caçada -
580assim aqueles, deixando pra trás a batalha impiedosa,
o seguiam com muitos lamentos por meio dos rápidos ventos,
cobertos então por uma bruma divina. E em volta, os troianos
e dânaos se impressionaram com todos os que sumiram
junto com seu soberano, e estupefatos, completamente
585mudos ficaram. Os incansáveis ventos depositaram
o corpo pesado de Mêmnon que lutava de perto, gemendo,
junto às correntezas do rio Esepo de profundas correntes,
onde se encontra um belíssimo bosque de ninfas
de formosas madeixas, onde depois as filhas de Esepo ergueram
590um monumento enorme, densamente envolvido por árvores
de todos os tipos. E as deusas muito choraram,
prestando homenagens ao filho de Erigeneia de belo trono.
A luz do sol se esvaiu. Em seguida, Éos baixou
do céu lamentando o filho querido, e ao seu redor
595seguiam as doze moças de belos cachos, que cuidam
sempre dos altos caminhos de Hipérion girante,
e assim surgem a noite e a manhã e tudo que vem
da vontade de Zeus, ao redor de cuja casa e sólidas portas
as moças giram de lado a lado, trazendo os anos
600cheios de frutos, e em círculos giram
o inverno gelado e a primavera florida,
ou o amado verão e o outono cheio de uvas.
Quando elas desceram do alto éter
lamentando de modo indizível por Mêmnon, junto com elas
605choravam as Plêiades, e retumbavam as enormes montanhas,
e a corrente do Esepo, e um gemido incessante se erguia.
Em meio a elas por conta do filho derramava lágrimas
e alto gritava a tão lamentosa Erigeneia:
“Você morreu, caro filho, e a mim, sua mãe,
610impôs um sofrimento doído. Com sua morte, não me darei
ao trabalho de iluminar os imortais sobre o céu,
mas me entranharei nas profundezas funestas dos ínferos,
onde quer que sua alma, agora que é morto, flutue.
Que o abismo e escuridão indevida se espalhem por todos os lados,
615a fim de que a dor invada também a mente do Cronida!
Não tenho honra menor que a Nereida, pois por decreto
de Zeus tudo contemplo, tudo levando a seu fim -
mas em vão, já que agora Zeus extraiu minha luz,
e por isso dirijo-me à escuridão. Que leve do mar ao Olimpo
620Tétis, para que ela ilumine os deuses e os homens.
Agora apenas me apraz a escuridão em vez do céu aflitivo,
e jamais lançarei minha luz sobre o corpo do assassino.”
Ao falar deste modo, jorravam as lágrimas sobre seu rosto imortal
semelhantes ao curso sem fim de um rio, e em volta do corpo
620do filho a negra terra se encharcava. Junto sofria Nix imortal
por conta do herdeiro querido, e Urano ocultou as estrelas
com neblina e nuvens, externando sua estima a Erigeneia.
Os troianos permaneciam em sua cidade sofrendo no peito
por Mêmnon, pois sentiam a falta do soberano como amigos.
630Os argivos, da mesma forma, não se regozijavam, pois próximo
a suas tendas jaziam também homens mortos pela planície,
e ao mesmo tempo saudavam Aquiles de boa lança, enquanto
se lamentavam por conta de Antíloco. Sentiam, pois, ao mesmo tempo,
júbilo e sofrimento. A noite inteira com aflição sofria Éos
635a chorar, e a escuridão a envolvia. No peito ela não se importava
com o nascer do sol, com ódio do Olimpo elevado.
Próximo a ela, muito gemiam os cavalos de cascos velozes,
pisando por sobre uma terra incomum, vendo
sua senhora sofrer, extremamente ansiosos por seu retorno.
640Zeus, enfurecido, relampejou sem parar. A terra
movia-se inteira, e um tremor se apossou de Éos imortal.
Rapidamente, portanto, os etíopes de negra pele
enterraram Mêmnon com seus lamentos. Enquanto alto choravam
em torno do túmulo de seu poderoso filho, Erigeneia
645de olhos bovinos os transformou em pássaros e os fez revoar
pelos ares. Estes os infindáveis povos dos mortais agora chamam
Mêmnones, os quais ainda sobre a tumba de seu senhor
gritam e se lançam espalhando cinzas do alto
na tumba, e, exaltados, combatem uns contra os outros,
650honrando Mêmnon assim. Este exulta nos domínios
de Hades ou entre os venturosos, na terra dos Campos
Elísios, e Éos imortal alegra seu radiante peito
ao vê-lo. E aqueles seguem lutando até se cansarem,
um matando ao outro em duelo, ou até que ambos
655encontrem a morte ao combater em torno do rei.
E assim, por ordem de Erigeneia que traz a luz,
os pássaros rápidos encontram seu fim. Éos imortal
ascendeu ao céu junto às Horas nutrizes, as quais,
mesmo contrariadas, a conduziram às terras de Zeus,
660dizendo palavras afáveis que lhe diminuíram o pesar,
embora ainda sofresse. Ela não negligenciou o seu curso,
já que temia a ameaça incessante e constante de Zeus,
pela vontade de quem tudo se dá entre as correntes
do Oceano, a terra e a sede dos astros ardentes.
665As Plêiades seguiam adiante, e ela própria
abriu os portais etéreos e dissipou as brumas.

Referencias

DE JONG, Irene. J. F.; NÜNLIST, René. Time in Ancient Greek Literature. Leiden, Boston: Brill, 2007.

SCAFOGLIO, Giampiero. Quintus and the Epic Cycle. In: BÄR, Silvio; GREENSMITH, Emma; OZBEK, Leyla (ed.). Quintus of Smyrna’s Posthomerica: Writing Homer Under Rome. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2022, p. 298-318.

SEMÊDO, Rafael A. A Amazônida: uma tradução do livro 1 das Pós-homéricas de Quinto de Esmirna. Calíope - Presença Clássica, v. 48, p. 4-30, 2024.

VIAN, Francis. La Suite d’Homère (3 v.). Paris: Les Belles Lettres, 1963.

Notas

1 O autor agradece à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo financiamento a seu projeto de pesquisa (Processo nº 2020/06785-3), do qual o presente artigo resulta. Agradece, ainda, aos dois pareceristas anônimos por suas contribuições, e ao Professor André Malta pela cuidadosa orientação.
2 Para uma discussão atualizada sobre o assunto, ver Scafoglio (2022).
3 Para a tradução do livro 1, ver Semêdo (2024).
4 Em outra fórmula, diz-se que que ela se levanta de seu leito, ao lado de Titono para trazer a luz aos deuses e mortais (Il. 11.1-2; Od. 5.1-2). Em Od. 4.186-8, menciona-se que Antíloco morrerá pelas mãos do “glorioso filho de Éos”. Em Od. 5.121 conta-se que Éos “arrebatou Órion”. Em Od. 12.3-4, conta-se que sua morada fica na ilha de Eeia. Em Od. 15.250-1, conta-se que arrebatou Clito. Em Od., 23. 241-6, Atena retém Éos para que o dia demore mais para raiar, alongando a noite de amor entre Odisseu e Penélope. Agradeço à(o) parecerista pela lista de passagens.
5 A fórmula ocorre 22 vezes em Homero: Il. 1.477; Il. 24.788; Od. 2.1; Od. 3.404; Od. 3.491; Od. 4.306; Od. 4.431; Od. 4.576; Od. 5.228; Od. 8.1; Od. 9.152; Od. 9.170; Od. 9.307; Od. 9.437; Od. 9.560; Od. 10.187; Od. 12.8; Od. 12.316; Od. 13.18; Od. 15.189; Od. 17.1; Od. 19.428.
6 Sobre o conceito narratológico de ritmo e manipulação do tempo narrativo: de Jong; Nünlist (2007).

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