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RAGUSA, Giuliana. A Ilíada de Homero. Guia de leitura. Araçoiaba da Serra, SP: Editora Mnēma, 2024, 317p. ISBN: 978-658-506-615-0
Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-6, 2025
Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Resenha crítica



Recepción: 05 Mayo 2025

Aprobación: 13 Junio 2025

DOI: https://doi.org/10.24277/classica.v38.2025.1143

A presente recensão aborda uma obra recém-publicada sobre a Ilíada de Homero. Trata-se de um guia de leitura que convida o leitor a um passeio por cada um de seus 24 cantos, onde cada passo permite um exercício de apreensão e imaginação realizado com rigor e leveza. A autora, Giuliana Ragusa, é professora de Língua e Literatura Grega na Universidade de São Paulo. Especialista em poesia grega antiga, com diversas publicações na área, ela nos presenteia com essa obra que resulta de anotações e revisões de aulas e palestras ao longo de duas décadas de atuação docente, de modo que diversas observações presentes na obra foram testadas e maturadas na prática professoral durante esse tempo. Com isso, o texto carrega deliberadamente um tom adequado tanto a especialistas como a iniciantes, e funciona como convite a um passeio de mãos dadas com a autora pela Ilíada.

O estilo de escrita que atravessa a exposição dos argumentos do livro evidencia sua busca pela clareza, concisão e inteligibilidade. A autora espera que sua obra alcance leitores familiarizados ou não com a epopeia, e que ela contribua, de alguma forma, para que eles passem a entender melhor o mundo, a cultura, a linguagem e o código de valores ético-morais presentes no clássico grego. Com essa abordagem se estendendo ao texto grego dos versos citados da Ilíada, certas expressões com jogos sonoros e determinadas repetições relevantes são transliteradas no corpo do livro. Em adição, os conceitos e vocábulos gregos mais significativos também se encontram transliterados ao longo da exposição, e acham-se, ainda, agrupados num glossário no final da obra.

Nessa direção, há de se ressaltar o cuidado da autora ao mobilizar em diversos momentos a ocorrência de termos tais como xenía (“hospitalidade”; e suas variações), tísis (“retribuição punitiva, castigo, vingança”), timḗ (“honra”), philía (“consideração afetuosa, estima, amizade, afeto no âmbito familiar”), géras (“espólio de guerra, prêmio de honra”), aretḗ (“excelência, virtude”; e termos correlatos) e diversos outros. Essa preocupação é extremamente útil para o leitor se familiarizar com o léxico homérico. Por exemplo, no que tange ao termo mŷthos, “mito”, antes de qualquer coisa ele se refere à “palavra”, “discurso”, “fato”, “assunto”, “enredo” etc. Na sociedade homérica o vocábulo será atrelado, sem distinção de verdade e falsidade, a narrativas orais rememoradas e tradicionais que organizam a experiência e seus valores de forma educativa.

A autora destaca como marcas dessa poesia mítica a narração dos feitos dos grandes guerreiros e a importância da genealogia (com seus patronímicos) e da terra de origem, bem como a monumentalização de um passado marcado pela proximidade entre deuses e homens. Nesse sentido, ela explicita um aspecto norteador de sua compreensão da obra: é um poema sobre guerra, ao passo que destaca os horrores da violência bélica, bem como a condição mortal dos humanos e o sentido do luto e do funeral. Por essa razão, dois conceitos ajudam a pavimentar o terreno dessa caminhada: “cultura da canção”, que envolve as noções de composição e performance oral, tradicional, repetitiva, mnemônica e rítmica da poesia em hexâmetro dactílico; e “cultura da vergonha”, que se aplica ao caráter fundamental da honra e da reputação coletiva do sujeito em termos de valores e ações, sendo a função do canto dar memória e fama imorredoura a tais feitos heroicos. Essas classificações norteiam diversos momentos do livro.

Portanto, mesmo que esse companheiro de leitura não substitua o imprescindível acesso ao próprio épico, funciona como um roteiro sistemático a cada um de seus vinte e quatro cantos. Assim, a estrutura dos comentários segue uma mesma sequência explicativa quádrupla: começa-se com um (1) título para o conteúdo central de cada canto, acompanhado por uma (2) introdução a certos aspectos elucidativos, seguida por um (3) esquema geral bi ou tripartite de blocos narrativos que será imediatamente retomado com uma (4) leitura passo a passo da sequência desses eventos, relacionando-os com outras passagens do épico.

A autora demonstra como cada canto carrega particularidades e conexões com outros momentos do épico. É caminhando com esse guia que se apreende determinadas nuances do texto homérico como, por exemplo, temas e formulações que se repetem ou se tangenciam. A autora faz questão de retomar, antecipar e comparar eventos e expressões, evidenciando como as partes do épico se combinam proficuamente. Associado ao seu estilo cuidadoso, esse é outro ponto alto do livro, pois torna familiar e articula as passagens entre diversos cantos, na medida em que esse procedimento potencializa a compreensão do épico como uma obra completa e bem combinada.

Com uma escrita absolutamente sensível e fluida, o leitor é conduzido com leveza pelos cantos iliádicos, evidenciando que, assim como obscuro não equivale a profundo, acessível não é sinônimo de superficial. Seus comentários são tecidos com cuidado e paciência, tornando a leitura agradável e envolvente. O rigor e a nitidez acerca do caminho percorrido são companhias que trazem frescor e delicadeza, ainda que revelem fundamentação em leituras e investigações acumuladas. As escolhas são conscientes e adequadas ao plano de viagem.

Tendo em vista a pretensão de alcançar um público mais amplo de leitores, foram evitadas controvérsias e discussões mais densas sobre a imensa fortuna crítica associada ao tema. No afã de evitar os caminhos tortuosos e espinhentos, ela não tratou da chamada “questão homérica”, que envolve infindas querelas sobre a existência de Homero, bem como da história e da(s) efetiva(s) autoria(s) do poema. Considerando a proposta do livro, também não foram apresentados debates técnicos sobre edições críticas e variantes textuais; apenas ficou explicitado, sem maiores justificativas, que a edição grega de referência utilizada é aquela de Thomas Allen, de 1931, e não outras mais recentes.

Outro ponto merece observação: apesar de aludir à tradução em português de Frederico Lourenço (cf. Ragusa, 2024, p. 9), nem essa, nem qualquer outra tradução da Ilíada se acha listada na bibliografia. Considerando a potencial amplitude de leitores, e mesmo que a autora produza sua própria versão dos trechos homéricos citados no livro, uma apresentação das diversas traduções disponíveis em português seria um auxílio significativo para os caminhantes. Ainda que ela tenha indicado que o leitor possa fazer cotejamento com traduções, algo nesse sentido poderia ter sido explicitado ou demonstrado.

De todo modo, a obra cumpre o que promete. Se os caminhos se fazem ao caminhar, esse passeio pelos cenários e eventos narrados por Homero, guiados por Ragusa, permite conhecer o palácio troiano, os acampamentos aqueus, os campos de batalha, os duelos inimigos, os diálogos profundos, a agência e a morada dos deuses, as relações de reciprocidade, a busca pela glória eterna, e muito mais. Trata-se de um singelo convite para se percorrer passo a passo as vias da poesia grega arcaica, com suas paisagens e acontecimentos magníficos. Em suma, é uma oportunidade feliz poder trilhar o itinerário homérico de mãos dadas com a autora.

Referencias

ALLEN, Thomas (ed.). Homeri Ilias. Oxford: Clarendon Press, 1931.

HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.

RAGUSA, Giuliana. A Ilíada de Homero. Guia de leitura. Araçoiaba da Serra: Editora Mnēma, 2024.

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