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Redes e comunidades paradigmáticas de colonizadores, refugiados, fugitivos, evacuados na historiografia grega1
Breno Battistin Sebastiani
Breno Battistin Sebastiani
Redes e comunidades paradigmáticas de colonizadores, refugiados, fugitivos, evacuados na historiografia grega1
Networks and communities of colonizers, refugees, fugitives, evacuees in Greek historiography
Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-17, 2025
Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos
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Resumo: Este artigo almeja discutir, servindo-se de textos de historiadores gregos e de uma abordagem filológico-historiográfica, termos e passagens-chave do léxico que compõe o campo semântico sobre exílio, deportação, banimento e iniciativas de estabelecimento de redes e comunidades de migrantes. Embora, via de regra os passos examinados se limitem a constatar e descrever o fenômeno migratório, demonstrando pouco interesse pelas iniciativas dos próprios migrantes, a presente investigação almeja demonstrar que o estabelecimento de redes de apoio e comunidades na antiguidade grega não foi um fenômeno identificável apenas na esfera maior das relações entre pólis e impérios, mas já no âmbito diminuto das relações cotidianas entre indivíduos e grupos que se deslocaram por diversos motivos; e que o fato de que migrar não parece ter sido visto como problema, mas como fenômeno corriqueiro, se não mesmo previsível.

Palavras-chave: migrações, redes de apoio, colonizadores, fugitivos, refugiados, evacuados.

Abstract: This article aims to discuss, using texts from Greek historians and a philological-historiographical approach, key terms and passages from the lexicon that make up the semantic field on exile, deportation, banishment and initiatives to establish migrant networks and communities. Although, as a rule, the passages examined are limited to verifying and describing the migratory phenomenon, showing little interest in the initiatives of the migrants themselves, the present investigation aims to demonstrate that the establishment of support networks and communities in Greek antiquity was not a phenomenon identifiable only in the larger sphere of relations between polis and empires, but already in the smaller scope of everyday relations between individuals and groups who moved for various reasons; and that the fact that migrating does not seem to have been seen as a problem, but as a common, if not even predictable, phenomenon.

Keywords: migrations, networks, colonizers, fugitives, refugees, evacuees.

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Redes e comunidades paradigmáticas de colonizadores, refugiados, fugitivos, evacuados na historiografia grega1

Networks and communities of colonizers, refugees, fugitives, evacuees in Greek historiography

Breno Battistin Sebastiani
Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, Brasil., Brasil
Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-17, 2025
Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Recepción: 07 Marzo 2025

Aprobación: 15 Agosto 2025

Este artigo almeja discutir, servindo-se de textos de historiadores gregos e de uma abordagem filológico-historiográfica, uma seleção de termos e passagens-chave paradigmáticos do léxico que compõe o campo semântico sobre exílio, deportação, banimento e iniciativas de estabelecimento de redes e comunidades de migrantes potenciais, isto é, que não foram plenamente concretizadas ou que fracassaram, bem como que resultaram em perdas humanas ou econômicas, retrocessos políticos, destruições, dispersões, escravização ou guerras. Na esteira de Dougherty (1993, p. 4), este artigo investiga representações produzidas por historiadores gregos antigos como Heródoto (c. 484-425), Tucídides (c. 460-399), Xenofonte (431-354), Políbio (c. 200-118) e Diodoro Sículo (séc. I a.C.) a respeito de iniciativas atribuídas a migrantes e que eventualmente tenham resultado (ou não) no estabelecimento de redes de apoio ou comunidades próprias. Os passos a serem discutidos serão tratados como “fragmentos de discurso político” (Mosconi, 2021) mais amplo e unificado por um traço comum, relativo às iniciativas de migrantes para a formação de redes e comunidades próprias.

Este estudo se concentrará no campo semântico formado pelos conceitos de oikistaí, phugádes, phugê e outros análogos, via de regra identificáveis em circunstâncias de stáseis – um dos principais desencadeadores de processos de migração no mundo antigo.2 Em todos esses historiadores referidos acima encontram-se menções a deslocamentos de povos e indivíduos por diversas razões e entre distintos tipos de sociedades e conjunturas. Expressões como metanástai (e.g., Hdt. 7.161), epaktoí (e.g., Th. 6.20; 7.28), planêtai (e.g., Xen. Cyn. 5.17), époikoi (e.g., Th. 2.27), assim como os bem conhecidos ksénoi e métoikoi, dentre outras, são constantemente empregadas, às vezes de modo intercambiável, para referir as e os protagonistas do fenômeno da migração, isto é, migrantes, adventícios, errantes, colonos, estrangeiros ou metecos (respectivamente e em tradução meramente provisória e instrumental).3 Tais termos conotam sempre indivíduos ou grupos que se deslocam, quaisquer que tenham sido as razões a motivá-los, isto é, indivíduos ou grupos percebidos por historiadores antigos de modo análogo, senão idêntico, ao que entendemos correntemente por migrantes.

Como aporte direta e especificamente relacionado ao objeto deste texto, recorrerei a Garland (2014), que elabora uma tipologia funcional dos migrantes na antiguidade no interior da qual define categorias de migrantes a que denomina especificamente de colonizadores, deportados, refugiados (lit. “buscadores de asilo”) e fugitivos (p. 34-149), categorias essas que têm nas variações de circunstância do abandono da terra natal, geralmente forçado, o seu eixo identificador.

Dentre as questões para com as quais a presente investigação almeja contribuir estão algumas que impactaram diretamente a própria produção das representações a respeito do fenômeno migratório na antiguidade por parte dos historiadores gregos antigos: qual o peso da atuação dos próprios migrantes, em contraposição a fatores externos à sua vontade como oposição política, guerras e/ou invasões, para o sucesso ou fracasso de suas iniciativas? Em que medida iniciativas fracassadas são tratadas como resultado de reações forçosas ante atitudes previamente iníquas e/ou flagrantemente criminosas? Quais práticas são atribuídas a grupos ou indivíduos que fracassaram, mas que contribuíram para o aprimoramento, a contrapelo, para com as formas de organização sociopolítica das comunidades que os abrigaram, fossem elas de matiz democrático ou não?4

Seguindo por uma linha paralela, e por isso algo diferente da de Malkin (2011), por exemplo, cuja visada tem por objeto antes a formação de redes de cidades e colônias gregas no período arcaico, a presente investigação tem ambições bem mais modestas: o foco deste texto se põe na diminuta escala dos agentes migrantes. Embora tendo por referência teórica sua defesa da aplicação de conceitos contemporâneos ao estudo da antiguidade (p. 3-64) e a elaboração da noção de “Greek Wide Web”5 para a compreensão da formação de redes de colônias gregas no período arcaico, o presente texto almeja tão somente identificar passos e conceitos paradigmáticos de historiadores antigos que possam servir de referência para a discussão sobre a formação de redes e comunidades na antiguidade por parte de um grupo específico, o dos migrantes, e que talvez possa repercutir em estudos sobre outros grupos de agentes na antiguidade. Embora interdisciplinar, este texto foca o mapeamento conceitual e linguístico desses passos antes de contextualizá-los historicamente, assumindo que o movimento de migrar e estabelecer redes de apoio na Antiguidade foi um fenômeno inerente a dinâmicas socioeconômicas que, embora distintas a cada ocorrência, são, contudo, decorrência forçosa da agência humana em qualquer época.6

Colonizadores

Sob esta rubrica, em que pese a abundância de exemplos de iniciativas tais na historiografia grega, algumas delas podem ser ditas paradigmáticas porque envolvem descrições completas daquilo que Dougherty (1993, p. 8 e p. 15-30) designa como “padrão narrativo básico” da fundação de colônias: crise, consulta ao oráculo de Delfos, fundação da colônia, resolução da crise. No relato de Heródoto, por exemplo, as iniciativas do príncipe lacedemônio Dorieu, que age por não aceitar submeter-se à entronização do irmão, Cleômenes, tipificam à perfeição o padrão. Numa primeira iniciativa migratória, mas sem consultar previamente o oráculo, Dorieu parte para a África, onde funda uma colônia, e ali permanece por três anos até ser expulso por populações locais. Tendo retornado ao Peloponeso, parte novamente, agora para a Sicília, com a intenção de fundar uma colônia, e lá acabará morrendo (Hdt. 5.42-48). Quando parte pela primeira vez, reporta Heródoto, Dorieu não o faz sozinho, mas

αἰτήσας λεὼν Σπαρτιήτας ἦγε ἐς ἀποικίην, οὔτε τῷ ἐν Δελφοῖσι χρηστηρίῳ χρησάμενος ἐς ἥντινα γῆν κτίσων ἴῃ, οὔτε ποιήσας οὐδὲν τῶν νομιζομένων· οἷα δὲ βαρέως φέρων, ἀπίει ἐς τὴν Λιβύην τὰ πλοῖα· κατηγέοντο δέ οἱ ἄνδρες Θηραῖοι. Ἀπικόμενος δὲ ἐς τὴν Κίνυπα οἴκισε χῶρον κάλλιστον τῶν Λιβύων παρὰ ποταμόν. Ἐξελασθεὶς δὲ ἐνθεῦτεν τῷ τρίτῳ ἔτεϊ ὑπὸ Μακέων τε [καὶ] Λιβύων καὶ Καρχηδονίων ἀπίκετο ἐς Πελοπόννησον (Hdt.5.42).

tendo requisitado um grupo de espartanos, partiu para fundar uma colônia sem consultar o oráculo sobre onde deveria ir nem cumprir nenhum dos rituais. Por não tolerar a situação doméstica, dirigiu as naus para a Líbia, onde chegou guiado pelos tereus. Tendo chegado a Cinipa, belíssima região da Líbia ao longo de um rio, ali estabeleceu-se, mas foi expulso três anos depois pelos mácios, pelos líbios e pelos cartagineses, e retornou ao Peloponeso

No interior dessa narrativa leem-se também informações fundamentais para a presente investigação. Heródoto apresenta a iniciativa de Dorieu como um empreendimento coletivo (λεὼν Σπαρτιήτας) que reflete constrições político-econômicas prévias, muito mais do que o desejo individual de um príncipe preterido – conflitos entre irmãos pelo trono via de regra são metonímias para situações de stásis (Dougherty, 1993, p. 17). Dorieu e os que com ele seguiram são colonizadores (οἴκισε χῶρον) ou fundadores e habitantes de apoikíai porque forçados a deixar sua pátria para estabelecer-se alhures, mas que mantinham ainda algum tipo de vínculo com a pátria para a qual, depois de incidentes, retornaram, operando assim um segundo movimento migratório talvez coordenado, mesmo que fruto da pressão exercida por inimigos.

Outras ocorrências envolvendo colonizadores ou fundadores e habitantes de apoikíai ou empória, e que refletem análogas questões coletivas, dizem respeito às diversas iniciativas colonizadoras na Sicília: por um lado, tais iniciativas representam empreendimentos coletivos por parte de quem as organizou; por outro, redundaram em expulsões e deslocamentos forçados tanto dos colonizadores quanto das populações que submeteram, quando foi o caso (Th. 6.2-5). Nesse passo de Tucídides se concentra boa parte do léxico que compõe o campo semântico sobre colonizações na Antiguidade grega. Para além das diversas menções a oikistaí e à atividade recorrente de (ksyg)katoikízein7no passo, chama atenção a menção a Lamide, colonizador megarense que por breve tempo teria se unido aos calcídios para administrar politicamente (ξυμπολιτεύσας – Th. 6.4.1) a recém-fundada Leontini. Tucídides também é explícito não só ao identificar nas colônias da Magna Grécia práticas políticas que descreveriam exatamente o que poderia ocorrer em uma pólis como Atenas. A menção a uma sympoliteía e as recorrentes menções, no passo 6.3-5, a (ksyg)katoikízein, dão a medida da coordenação (note-se a recorrência do uso do sufixo ksyn-), da organização consciente dos agentes envolvidos, que formam não só comunidades locais, mas também redes intercomunitárias, como no caso de Lamide, ainda que efêmeras (o historiador não menciona, porém, qual teria sido a duração dessa ksympoliteía). O sistema elaborado por Lamide esboça, por outras palavras, ainda que de modo muito tênue, como uma rede de apoio paradigmática era organizada por um colonizador junto de outros migrantes limítrofes, na medida em que uma sympoliteía pressupõe o alinhamento de várias comunidades ou grupos motivado por interesses comuns e visando a algo comum, no caso a manutenção da própria existência em território desconhecido e com laços muito tênues com a metrópole. Da fundação de uma colônia à organização de uma rede ou confederação de cidades (sympoliteía), temos in nuce o percurso percorrido por iniciativas colonizadoras desde a chegada a territórios desconhecidos até o estabelecimento de uma rede de colaboração.8

Refugiados, fugitivos e evacuados

Motivado por fatores análogos aos que levaram Dorieu a deixar o Peloponeso, também o caso dos foceus e dos jônios submetidos pelos persas relatado por Heródoto (1.164-169) diz respeito a populações que agiram coletivamente porque forçadas a fazê-lo. Trata-se de uma metoíkesis ou anakhóresis desencadeada por exilados que buscam refúgio alhures, uma saída em massa de uma população de um determinado local e carregando consigo todo o possível para replicar alhures a existência pátria que até então levavam. Por meio desse episódio fica nítido como a fronteira conceitual entre fugitivos, evacuados e refugiados era por demais tênue para os gregos, a ponto de esses três grupos que hoje distinguiríamos serem via de regra tratados, na antiguidade, por um único vocábulo, o de phugádes (Garland, 2014). Assim, também, como no episódio de Dorieu, também na narrativa padrão envolvendo os foceus existe um elemento cúltico pivotal: descumprindo o juramento de só retornar à terra natal quando o ferro em brasa lançado ao mar voltasse à tona, “πόθος τε καὶ οἶκτος τῆς πόλιος καὶ τῶν ἠθέων τῆς χώρης, ψευδόρκιοι δὲ γενόμενοι ἀπέπλεον ὀπίσω ἐς τὴν Φώκαιαν” (Hdt. 1.165), “retornaram a Foceia depois de se fazerem perjuros por conta da dor de saudade da cidade e dos costumes da região”. Os que mantiveram o juramento, porém, navegaram para Cirno e ali estabeleceram uma comunidade tão bem-sucedida a ponto de incomodar vizinhos poderosos como tirrênios e cartagineses:

Ἐπείτε δὲ ἐς τὴν Κύρνον ἀπίκοντο, οἴκεον κοινῇ μετὰ τῶν πρότερον ἀπικομένων ἐπ› ἔτεα πέντε καὶ ἱρὰ ἐνιδρύσαντο. Καὶ ἦγον γὰρ δὴ καὶ ἔφερον τοὺς περιοίκους ἅπαντας, στρατεύονται ὦν ἐπ› αὐτοὺς κοινῷ λόγῳ χρησάμενοι Τυρσηνοὶ καὶ Καρχηδόνιοι νηυσὶ ἑκάτεροι ἑξήκοντα (Hdt. 1.166)

Tendo chegado a Cirno, ali viveram em comunidade com os primeiros lá chegados por cinco anos e fundaram templos. Como, porém, pilhavam e devastavam os vizinhos todos, de comum acordo tirrênios e cartagineses marcharam contra eles com sessenta naus cada um.

Tais foceus, por outras palavras, não apenas estabeleceram uma comunidade como, ainda, fomentaram a formação de uma rede, ainda que provisória, por parte de inimigos, de modo análogo ao que já havia ocorrido com eles próprios em resposta à pressão de Harpago.9

Outro tipo de ocorrência decorre de uma iniciativa originalmente coletiva e também envolve questões ritualísticas, mas só se converte em empreitada migratória por conta de uma punição imposta de fora a um suposto crime – aos Alcmeônidas é atribuído o assassinato do grupo, ou heteria (προσποιησάμενος δὲ ἑταιρηίην) organizado por Cílon com o intuito de alçá-lo à tirania em Atenas. Refugiados na acrópole de Atenas em 632, os Alcmeônidas são então designados como enageis ou amaldiçoados, e expulsos de Atenas por Cleômenes, rei de Esparta. Sobre o incidente temos duas versões, de Heródoto e Tucídides. Heródoto menciona tão somente a iniciativa do rei espartano para que os atenienses banissem os envolvidos:

Οἱ δ’ Ἐναγέες Ἀθηναίων ὧδε ὠνομάσθησαν. Ἦν Κύλων τῶν Ἀθηναίων ἀνὴρ Ὀλυμπιονίκης· οὗτος ἐπὶ τυραννίδι ἐκόμησε, προσποιησάμενος δὲ ἑταιρηίην τῶν ἡλικιωτέων καταλαβεῖν τὴν ἀκρόπολιν ἐπειρήθη· οὐ δυνάμενος δὲ ἐπικρατῆσαι ἱκέτης ἵζετο πρὸς τὸ ἄγαλμα. Τούτους ἀνιστᾶσι μὲν οἱ πρυτάνιες τῶν ναυκράρων, οἵ περ ἔνεμον τότε τὰς Ἀθήνας, ὑπεγγύους πλὴν θανάτου· φονεῦσαι δὲ αὐτοὺς αἰτίη ἔχει Ἀλκμεωνίδας. Ταῦτα πρὸ τῆς Πεισιστράτου ἡλικίης ἐγένετο.

Κλεομένης δὲ ὡς πέμπων ἐξέβαλλε Κλεισθένεα καὶ τοὺς Ἐναγέας, Κλεισθένης μὲν αὐτὸς ὑπεξέσχε (Hdt. 5.71-72).

Os enageus foram assim designados pelo seguinte: Cílon de Atenas, vitorioso nos Jogos Olímpicos, por aspirar à tirania reuniu um grupo de coetâneos e tentou apoderar-se da acrópole. Não tendo, porém, conseguido dominá-la, fez-se suplicante aos pés da estátua. Os prítanes dos náucraros, que então governavam Atenas, lhes garantiram que não morreriam, mas foram depois massacrados e a culpa recaiu sobre os Alcmeônidas. Isso ocorreu antes de Pisístrato.

Tendo Cleômenes despachado a Atenas para que banissem Clístenes e os enageus, aquele se retirou secretamente.

Já o relato de Tucídides é mais detalhado e reporta não um único, mas dois banimentos (um promovido pelos atenienses num primeiro momento, outro por Cleômenes depois, aproveitando-se de uma stásis dos atenienses), além de informar sobre o retorno dos Alcmeônidas:

οἱ δὲ μετὰ τοῦ Κύλωνος πολιορκούμενοι φλαύρως εἶχον σίτου τε καὶ ὕδατος ἀπορίᾳ. ὁ μὲν οὖν Κύλων καὶ ὁ ἀδελφὸς αὐτοῦ ἐκδιδράσκουσιν· οἱ δ’ ἄλλοι ὡς ἐπιέζοντο καί τινες καὶ ἀπέθνῃσκον ὑπὸ τοῦ λιμοῦ, καθίζουσιν ἐπὶ τὸν βωμὸν ἱκέται τὸν ἐν τῇ ἀκροπόλει. ἀναστήσαντες δὲ αὐτοὺς οἱ τῶν Ἀθηναίων ἐπιτετραμμένοι τὴν φυλακήν, ὡς ἑώρων ἀποθνῄσκοντας ἐν τῷ ἱερῷ, ἐφ’ ᾧ μηδὲν κακὸν ποιήσουσιν, ἀπαγαγόντες ἀπέκτειναν· καθεζομένους δέ τινας καὶ ἐπὶ τῶν σεμνῶν θεῶν τοῖς βωμοῖς ἐν τῇ παρόδῳ ἀπεχρήσαντο. καὶ ἀπὸ τούτου ἐναγεῖς καὶ ἀλιτήριοι τῆς θεοῦ ἐκεῖνοί τε ἐκαλοῦντο καὶ τὸ γένος τὸ ἀπ› ἐκείνων. ἤλασαν μὲν οὖν καὶ οἱ Ἀθηναῖοι τοὺς ἐναγεῖς τούτους, ἤλασε δὲ καὶ Κλεομένης ὁ Λακεδαιμόνιος ὕστερον μετὰ Ἀθηναίων στασιαζόντων, τούς τε ζῶντας ἐλαύνοντες καὶ τῶν τεθνεώτων τὰ ὀστᾶ ἀνελόντες ἐξέβαλον· κατῆλθον μέντοι ὕστερον, καὶ τὸ γένος αὐτῶν ἔστιν ἔτι ἐν τῇ πόλει (Thuc. 1.126.9.12).

Os sitiados com Cílon viram-se em dificuldade por conta da falta de comida e água. Cílon e o irmão escaparam dali, porém os demais, pressionados e mesmo morrendo de fome, sentaram-se como suplicantes no altar da acrópole. Quando os atenienses que montavam guarda os viram morrendo no interior do santuário, alegando que não lhes fariam mal levaram-nos para longe e os mataram, tendo alguns sido mortos no trajeto quando se sentavam junto aos altares das deusas veneráveis. Por conta disso, foram chamados de enageus e ofensores da deusa tanto aqueles quanto seus descendentes. Os atenienses então baniram a esses malditos, e também os baniu mais tarde Cleômenes, quando os atenienses se viam às voltas com a guerra civil: os vivos foram expulsos e os ossos dos mortos foram exumados e atirados fora da cidade. Aqueles, porém, retornaram depois, e seus descendentes ainda se encontram na cidade.

A despeito das divergências entre os dois relatos, uma percepção comum a ambos os historiadores subsiste: os ditos enageis migraram porque coagidos a fazê-lo; e, diferentemente dos casos examinados até aqui, nenhum dos historiadores se interessou por reportar o que teriam feito a partir do momento em que migraram (se é que de fato migraram – o texto de Heródoto é inconclusivo), isto é, nenhum dos historiadores narrou se foram ou não capazes de se articular coletivamente para, assim, formar uma eventual rede de apoio que visasse, por exemplo, o retorno à cidade.

O caso dos enageis diz respeito a migrantes que atualmente poderíamos caracterizar como refugiados, isto é, indivíduos ou grupos que buscam asylía (inviolabilidade ou proteção, lit. “não pilhagem”), na condição de suplicantes ou não, pelas mais diversas razões. Além do incidente envolvendo os conspiradores liderados por Cílon, também os argivos suplicantes massacrados por Cleômenes de Esparta (Hdt. 6.75) no interior de seu próprio templo, por exemplo, podem ser enquadrados nessa rubrica.

Até aqui foram examinadas ocorrências que tiveram por cenário o círculo do interior da pólis ou arredores, e que não por acaso envolveram indivíduos ou pequenos grupos. A partir do Período Helenístico, porém, quando impérios consolidados tomam iniciativas cujas repercussões se desdobravam por praticamente todo o mundo antigo, não por acaso os grupos migrantes diretamente afetados se mostram muito maiores, não raro envolvendo coletividades inteiras num único movimento que forçosamente desencadeava outros tantos conforme se operava a dispersão migratória, num movimento de ondas e impactos sucessivos. Não mais indivíduos ou facções vencidas no interior da dinâmica política de uma pólis, mas cidades inteiras e exércitos vencidos, por exemplo, formam o primeiro plano de tais ocorrências.

Um outro tipo de migrantes é constituído pelos demais fugitivos, isto é, indivíduos ou grupos, criminosos ou não, livres ou não, que se veem na contingência de evadir-se e viver às margens de suas comunidades de origem, muito embora na maioria das vezes tal dado só possa ser inferido, uma vez que os historiadores que os reportam não deram prosseguimento ao exame do destino das personagens envolvidas. É o caso, por exemplo, do cônsul romano Marco, que consegue escapar de Xantipo com quinhentos soldados em 255 após ser derrotado na África pelos cartagineses durante a Primeira Guerra Púnica (Polyb. 1.34); dos fugitivos de Nova Cartago (Polyb. 10.12), e da fuga de Asdrúbal após a derrota (Polyb. 10.39). O relato polibiano envolvendo o cônsul vencido é eloquente por seu laconismo:

τῶν μὲν οὖν παρὰ τοῖς Καρχηδονίοις μισθοφόρων ἔπεσον εἰς ὀκτακοσίους οἱ κατὰ τὸ λαιὸν τῶν Ῥωμαίων ταχθέντες, τῶν δὲ Ῥωμαίων ἐσώθησαν μὲν εἰς δισχιλίους οἱ κατὰ τὸ δίωγμα τῶν προειρημένων ἐκτὸς γενόμενοι τοῦ κινδύνου, τὸ δὲ λοιπὸν πλῆθος διεφθάρη πλὴν Μάρκου τοῦ στρατηγοῦ καὶ τῶν ἅμα τούτῳ φυγόντων (Polyb.1.34.9-11).

Tombaram aproximadamente oitocentos mercenários cartagineses alinhados contra a ala esquerda dos romanos, e por volta de dois mil romanos se salvaram, os quais, durante a perseguição aos mencionados, haviam ficado fora da batalha. A massa restante pereceu, exceto o cônsul Marco e os que com ele se retiraram.

Nada mais é dito a respeito do cônsul além do fato, que se pode inferir, de que a fuga em companhia de um grupo pode de algum modo ter configurado uma rede de apoio para seus envolvidos. Por outras palavras, seguindo por uma linha análoga à dos últimos passos de Heródoto e Tucídides, tampouco Políbio parece ter se interessado pelo destino e/ou eventual organização coletiva de tais fugitivos, tendo-se limitado a reportar o fato de terem fugido. No texto do mesmo Políbio encontram-se ao menos dois outros passos em que se dá algo análogo: aqueles que tratam dos fugitivos de Nova Cartago e de Asdrúbal (respectivamente Polyb. 10.12.8-11 e 10.39.7-8):

τέλος δ’ ἐξωθούμενοι τῷ βάρει διὰ τοὺς ἐκ τῆς παρεμβολῆς προσγινομένους ἐτράπησαν οἱ παρὰ τῶν Καρχηδονίων, καὶ πολλοὶ μὲν αὐτῶν ἐν τῷ τῆς μάχης καιρῷ διεφθάρησαν καὶ κατὰ τὴν ἀποχώρησιν, οἱ δὲ πλείους ἐν τῷ παραπίπτειν εἰς τὴν πύλην ὑφ’ αὑτῶν ἠλοήθησαν. οὗ συμβαίνοντος ὁ κατὰ τὴν πόλιν ὄχλος οὕτως ἐπτοήθη πᾶς ὥστε καὶ τοὺς ἀπὸ τῶν τειχῶν φεύγειν. παρ’ ὀλίγον μὲν οὖν ἦλθον οἱ Ῥωμαῖοι τοῦ συνεισπεσεῖν τότε μετὰ τῶν φευγόντων· οὐ μὴν ἀλλὰ τάς γε κλίμακας τῷ τείχει μετ’ ἀσφαλείας προσήρεισαν (Polyb. 10.12.8-11).

Por fim, repelidos pela pressão de reforços do acampamento, os cartagineses voltaram as costas, tendo muitos deles sido mortos por ocasião da batalha e durante a retirada, além de a maioria deles ter sido pisoteada às portas pelos próprios companheiros. Quando tal sucesso se deu, a população da cidade ficou tão aterrorizada a ponto de mesmo os guardas de muralhas fugirem. Os romanos então por pouco não entraram junto com os fugitivos, tendo mesmo conseguido instalar em segurança escadas nas muralhas.

Ἀσδρούβας δὲ κατὰ τοὺς ἐξ ἀρχῆς διαλογισμούς, θεωρῶν κλινούσας καὶ διατετραμμένας τὰς αὑτοῦ δυνάμεις, τὸ μὲν ψυχομαχεῖν μέχρι τῆς ἐσχάτης ἐλπίδος ἀπεδοκίμαζε, λαβὼν δὲ τά τε χρήματα καὶ τὰ θηρία, καὶ τῶν φευγόντων ὅσους ἠδύνατο πλείστους ἐπισπασάμενος, ἐποιεῖτο τὴν ἀναχώρησιν παρὰ τὸν Τάγον ποταμὸν ὡς ἐπὶ τὰς Πυρήνης ὑπερβολὰς καὶ τοὺς ταύτῃ κατοικοῦντας Γαλάτας (Polyb. 10.39.7-8).

Conforme estava em seus planos iniciais, Asdrúbal abandonou a ideia de combater até a derradeira esperança ao ver as próprias tropas abaladas e voltando as costas. Tendo então reunido dinheiro e elefantes, e atraindo o maior número de fugitivos que conseguiu, bateu em retirada ao longo do rio Tago rumo à passagem em meio aos Pirineus e aos gauleses que habitam aquela região.

Nos dois passos, os grupos vitimados são genérica e tão somente designados por pheúgontes e nada mais é dito sobre se teriam fugido de modo organizado ou não, ou se teriam constituído uma rede ou mesmo uma comunidade. É possível inferir, porém, que algum tipo de organização houve sobretudo por parte dos que fugiram a Asdrúbal, no segundo passo, dada a indicação precisa de para onde se dirigiram.

Um último exemplo pode ser encontrado, ainda, no texto de Diodoro da Sicília, quando trata de populações evacuadas, como ocorreu com os acragantinos sitiados pelos cartagineses em 406. Por evacuados compreende-se geralmente grandes grupos que se tornam vulneráveis ao assalto de algum inimigo e, por conta disso, se veem forçados a se realocar, como se lê no passo a seguir:

τοσούτου δὲ πλήθους ἀνδρῶν γυναικῶν παίδων ἐκλιπόντος τὴν πόλιν ἄφνω πολὺς οἶκτος καὶ δάκρυα κατεῖχε τὰς οἰκίας. ἅμα γὰρ ὁ τῶν πολεμίων ἐξέπληττε φόβος, ἅμα δὲ διὰ τὴν σπουδὴν ἠναγκάζοντο καταλιπεῖν εἰς διαρπαγὴν τοῖς βαρβάροις ταῦτ’ ἐφ’ οἷς ἑαυτοὺς ἐμακάριζον· ἀφαιρουμένης γὰρ τῆς τύχης τὴν ἐξουσίαν τῶν οἴκοι καλῶν, ἀγαπητὸν ἡγοῦντο τὰ σώματα γοῦν αὑτῶν διασῶσαι. οὐ μόνον δὲ τῆς τοιαύτης πόλεως εὐδαιμονίαν παρῆν ὁρᾶν ἀπολειπομένην, ἀλλὰ καὶ σωμάτων πλῆθος. οἱ μὲν γὰρ ἐν ἀρρωστίαις ὑπὸ τῶν οἰκείων περιεωρῶντο, τῆς καθ’ ἑαυτὸν σωτηρίας ἑκάστου φροντίζοντος, οἱ δὲ ταῖς ἡλικίαις ἤδη προβεβηκότες ὑπὸ τῆς τοῦ γήρως ἀσθενείας κατελείποντο· πολλοὶ δὲ καὶ τὴν ἀλλαγὴν τῆς πατρίδος θανάτου τιμώμενοι τὰς χεῖρας ἑαυτοῖς προσήνεγκαν, ὅπως ταῖς πατρῴαις οἰκίαις ἐναποπνεύσωσιν. οὐ μὴν ἀλλὰ τὸ μὲν ἐκ τῆς πόλεως ἐξιὸν πλῆθος οἱ στρατιῶται μετὰ τῶν ὅπλων παρέπεμπον εἰς τὴν Γέλαν· ἡ δ’ ὁδὸς καὶ πάντα τὰ πρὸς τὴν Γελῴαν ἀποκεκλιμένα τῆς χώρας μέρη ἔγεμε γυναικῶν καὶ παίδων ἀναμὶξ παρθένοις, αἳ τὴν συνήθη τρυφὴν εἰς ὁδοιπορίαν σύντονον καὶ κακοπάθειαν ὑπεράγουσαν μεταβαλλόμεναι διεκαρτέρουν, τοῦ φόβου τὰς ψυχὰς ἐντείνοντος. οὗτοι μὲν οὖν ἀσφαλῶς διασωθέντες εἰς Γέλαν ὕστερον εἰς Λεοντίνους κατῴκησαν, Συρακοσίων αὐτοῖς δόντων τὴν πόλιν ταύτην οἰκητήριον (Diod. Sic. 13.89).

Ante tamanha multidão de homens, mulheres e crianças abandonando a cidade, de súbito lamentações e lágrimas intermináveis invadiram todos os lares. Embora estivessem em pânico por medo do inimigo, ao mesmo tempo também eram forçados pela pressa a deixar como saque para os bárbaros os bens nos quais basearam a sua felicidade; pois quando a Fortuna estava roubando-lhes o conforto de que desfrutavam em suas casas, eles pensaram que deveriam se contentar com o fato de pelo menos estarem preservando suas vidas. E podia-se ver o abandono não só da opulência de uma cidade tão rica, mas também de uma multidão de seres humanos. Pois os doentes eram negligenciados pelos seus familiares, cada um pensando na sua própria segurança, e os que já estavam muito avançados em idade foram abandonados por causa da fraqueza da velhice; e muitos, considerando que até mesmo o deixar sua cidade natal era equivalente à morte, lançaram mãos contra si mesmos para que pudessem dar seu último suspiro nas moradas de seus ancestrais. Contudo, a multidão que deixou a cidade recebeu escolta armada dos soldados até Gela; e a estrada e todas as partes do campo que levavam ao território dos gelanos estavam lotadas de mulheres e crianças misturadas com donzelas, que, mudando da vida mimada a que estavam acostumados para uma árdua jornada a pé e extremas dificuldades, resistiram até o fim, pois o medo tensionava suas almas. Chegaram em segurança a Gela e mais tarde estabeleceram-se em Leontini, tendo os siracusanos lhes dado esta cidade como morada.

Como nos demais passos examinados, também Diodoro se limitou a constatar o fato de terem migrado e se estabelecido alhures em segurança, sem detalhar, contudo, de quais procedimentos teriam eventualmente lançado mão para fazê-lo, assim constituindo ou não uma rede de apoio. O foco do relato recai sobre sua inserção numa comunidade já existente, não na criação de uma própria.

Uma breve indicação indireta, por meio da qual se pode entrever ao menos um pouco do que poderia ter ocorrido com boa parte dos mais diversos grupos de migrantes da antiguidade, pode ser encontrada em um passo da Política de Aristóteles. Embasando a própria discussão talvez em textos de historiadores, ao discutir problemas especificamente centrados na questão da cidadania antiga,10 o filósofo escreve que

ὁ δὲ πολίτης οὐ τῷ οἰκεῖν που πολίτης ἐστίν (καὶ γὰρ μέτοικοι καὶ δοῦλοι κοινωνοῦσι τῆς οἰκήσεως), οὐδ’ οἱ τῶν δικαίων μετέχοντες οὕτως ὥστε καὶ δίκην ὑπέχειν καὶ δικάζεσθαι (τοῦτο γὰρ ὑπάρχει καὶ τοῖς ἀπὸ συμβόλων κοινωνοῦσιν [καὶ γὰρ ταῦτα τούτοις ὑπάρχει]· πολλαχοῦ μὲν οὖν οὐδὲ τούτων τελέως οἱ μέτοικοι μετέχουσιν, ἀλλὰ νέμειν ἀνάγκη προστάτην, ὥστε ἀτελῶς πως μετέχουσι τῆς τοιαύτης κοινωνίας), ἀλλὰ καθάπερ καὶ παῖδας τοὺς μήπω δι’ ἡλικίαν ἐγγεγραμμένους καὶ τοὺς γέροντας τοὺς ἀφειμένους φατέον εἶναι μέν πως πολίτας, οὐχ ἁπλῶς δὲ λίαν ἀλλὰ προστιθέντας τοὺς μὲν ἀτελεῖς τοὺς δὲ παρηκμακότας ἤ τι τοιοῦτον ἕτερον (οὐδὲν γὰρ διαφέρει· δῆλον γὰρ τὸ λεγόμενον) (3.1275a7-19).

nenhum indivíduo é cidadão só porque habita num determinado lugar, pois, tal como os cidadãos, também os metecos e os escravos possuem um lugar para habitar. Nem pode o nome de cidadão ser dado àqueles que partilham os mesmos direitos cívicos, e apenas porque lhes é consagrado o direito de acusar ou de se defender em tribunal, visto que tal direito é atribuído, também, a todos os estrangeiros que dele gozam em virtude do estabelecimento de um tratado (existem, aliás, muitos lugares onde os metecos residentes, não podendo sequer gozar desse direito em toda a sua plenitude, veem-se constrangidos a escolher um patrono local, pelo que, só limitadamente, participam da comunidade). De tais casos poder-se-á afirmar que são cidadãos de modo imperfeito, tal como crianças demasiado jovens para se inscrever como cidadãs, e os anciãos já dispensados de exercer funções cívicas. Uns e outros podem ser considerados cidadãos de algum modo, mas não no sentido absoluto do termo. Assim sendo, poderemos considerar os primeiros como cidadãos incompletos, e os segundos como cidadãos eméritos, ou então admitir qualquer outra designação dado que não importa o termo exato, pois o que dissemos é suficientemente claro.11

Diferentemente dos historiadores discutidos, o filósofo aborda o fenômeno dos migrantes apenas a partir do télos do processo migratório, isto é, por sua condição de indivíduos já inseridos nas comunidades que os acolheram. Embora não tenhamos detalhamentos mais concretos, essa abordagem permite que se infira do passo acima o fato de que havia alguma forma de inserção de refugiados, exilados ou fugitivos em comunidades já existentes. Num polo oposto, e por isso complementar ao da abordagem dos historiadores discutidos, não interessam ao filósofo nem os motivos nem os modos por que tais indivíduos ou grupos teriam migrado, tampouco o processo migratório em si ou como esses migrantes, no ato mesmo da migração, construíram (ou arruinaram) os próprios destinos, mas apenas especificamente de que modo residiam naquelas comunidades e como interagiram com elas uma vez inseridos, isto é, como antípodas e/ou complementos do corpo de cidadãos. Para além da acolhida, é possível inferir, ainda, que de algum modo tais indivíduos se agrupavam em redes de apoio motivadas por interesses precisos – note-se a específica menção a “estrangeiros que participam da comunidade por via de tratados” (τοῖς ἀπὸ συμβόλων κοινωνοῦσιν).

Considerações finais

Os passos examinados até aqui foram tratados como “fragmentos de discurso político” (Mosconi, 2021) mais amplo e unificado por um traço comum, que permitiu colocá-los todos em diálogo, e demonstram que o estabelecimento de redes de apoio e comunidades na antiguidade grega não foi um fenômeno identificável apenas na esfera maior das relações entre pólis e impérios, mas já no âmbito diminuto das relações cotidianas entre indivíduos e grupos que se deslocaram por diversos motivos. Por outras palavras, da comparação entre tais passos é possível perceber como contribuem direta e imprescindivelmente para a construção do léxico que compõe o campo semântico sobre exílio, deportação, banimento e iniciativas de estabelecimento de redes e comunidades de migrantes potenciais, isto é, que não foram plenamente concretizadas ou que fracassaram, bem como que resultaram em perdas humanas ou econômicas, retrocessos políticos, destruições, dispersões, escravização ou guerras. Empreendimentos de maior vulto como iniciativas colonizadoras não raro ocorreram, ou foram descritos como tal por historiadores, por conta de problemas ditos menores, pessoais, familiares, isto é, restritos à esfera supostamente menor e privada da vida, como se leu no episódio de Dorieu. Outros casos, por outro lado, como o dos fugitivos mencionados por Políbio e Diodoro, põem em cena indivíduos e grupos vitimados pela esfera supostamente maior, a dos embates político-militares, e que os põem na condição de ter de reorganizar do zero a própria existência. Completando o ciclo, pelo passo da Política, nota-se que alguma perspectiva de acolhida, integração e recomeço havia e discursos xenofóbicos eram antes exceção do que regra.

Em comum a todos esses passos subjaz o fato de que migrar não parece ter sido visto como problema na antiguidade, mas como fenômeno corriqueiro, se não mesmo previsível, porque decorrência de dinâmicas socioeconômicas inerentes à agência humana em qualquer época. Ao reconstruir a trajetória de atuação de determinados indivíduos ou grupos de migrantes que criaram ou não redes de apoio, os passos dos historiadores analisados, e não menos o de Aristóteles, não apenas iluminam a percepção dessas dinâmicas em distintas épocas, mas se convertem em paradigmas tanto para o léxico quanto para uma eventual fenomenologia da questão dos migrantes na Antiguidade.

Chama atenção, por fim, que em nenhum desses textos o migrante, o “outro” no interior de uma comunidade, é representado como o negativo a ser desqualificado e banido, a priori tipificado como perigoso, ameaçador ou desprezível,12 ainda que em todos os textos o foco do exame seja exclusivamente operado a partir de uma visão de cima, vertical, na qual a voz dos próprios migrantes jamais é ouvida nem dá sinais de ter sido por qualquer razão consultada. Na antiguidade, alguma forma de consciência de que somos todos migrantes efetiva ou potencialmente, seja por vontade própria ou motivados pelas mais diversas arbitrariedades do acaso; e de que migrar e se incorporar em uma nova comunidade é benéfico para todos os envolvidos, se mostrou mais aguda e, também relativamente, mais empática em relação a tais agentes. Ao menos bem mais do que desejam fazer crer certas correntes político-ideológicas da atualidade.

Material suplementario
Información adicional

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Notas
Notas
1 O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil (304011/2022-3). Agradeço aos pareceristas a leitura acurada do manuscrito e todas sugestões de aprimoramento. Problemas remanescentes são naturalmente de minha exclusiva responsabilidade.
2 Monedero; González (1999, p. 198-208); Koser (2007); O’Really (2012); Baker; Tsuda (2015); Brettell; Hollifield (2015); Zanfrini (2016); Knight (2019); Mancini; Stranges; Vingelli (2020) e Gallego (2022). Em tempo: stásis, no mundo grego, designava grosso modo qualquer forma de dissensão civil decorrente das mais diversas formas de tensão social inerentes à vida em coletividade. O fenômeno era recorrente na Antiguidade grega: no interior de uma pólis, um indivíduo, ou via de regra um grupo, se obstinava na oposição sistemática ao grupo dominante, ou mesmo a outros grupos, gerando uma escalada crescente de tensões que não raro desembocavam em guerra civil. Veja-se, por exemplo, Th. 3.81-84, passo em que o historiador ateniense examina causas, ocorrências e efeitos de uma stásis desencadeada na ilha de Corcira em 427 e que rapidamente se espalhou por quase toda a Grécia, levando diversas cidades a se dividir entre facções favoráveis aos atenienses ou aos espartanos. Para discussão e bibliografia, cf. Sebastiani; Leão; Sano; Soares; Werner (2018) e Sebastiani; Leão (2022).
3 Todas as traduções presentes neste texto sem referência à autoria de terceiros são próprias.
4 Tanto para a formulação de tais questões quanto para esse tipo de análise serão indispensáveis, além dos trabalhos já referidos no grupo anterior, também os de Horden; Purcell (2000); Forsdyke (2005); Hurst; Owen (2005); Gaertner (2007); Tsetshladze (2008); De Angelis (2010); Greaves (2010); Malkin (2011, 2016); Demetriou (2012); van Dommelen (2012); Wood (2012); Müller (2013); Sweeney (2013); Kennedy (2014); Gray (2015); Patriquin (2015); Bresson (2016); Concannon; Mazurek (2016); Donnellan; Nizzo; Burgers (2016); Gray (2017); Kuttner (2018); Rubinstein (2018); Zuchtriegel (2018); Lucas; Murray; Owen (2019); os textos coligidos por Loddo (2020); Florenzano (2023), e Laky (2025) (com discussão de bibliografia).
5 Malkin (2011, p. 25): “The Greek Wide Web was multidirectional, decentralized, nonhierarchical, boundless and proliferating, accessible, expansive, and interactive”.
6 Cf. por exemplo discussão de caso em Laky (2019).
7 Literalmente, “fazer a habitar junto a” outro povo, cidade etc, “fundar conjuntamente”, “ajudar a povoar ou colonizar” (Bailly). Verbo utilizado com frequência pelo historiador para conotar todo o conjunto de iniciativas colonizadoras desempenhadas por um indivíduo ou cidade.
8 Porque a bibliografia atualmente disponível sobre colonizações na Antiguidade é particularmente extensa, dois referenciais que sintetizam tanto contribuições quanto abordagens mais recentes podem ser encontrados em Guarinello; Silva; Oliveira; Piza (2019) e Florenzano (2023).
9 Para além da questão da iniciativa coletiva, também este episódio envolve menções a elementos cúltico-ritualísticos (os ψευδόρκιοι) que teriam a função de, uma vez cumpridos, assegurar o prosseguimento e a manutenção da iniciativa, quaisquer que fossem os percalços enfrentados.
10 Sobre a questão cf. Poddighe (2022; 2014, p. 79-81), e o comentário de R. Robinson (Aristotele, 2014, p. 424-425).
11 Tradução feita a partir do texto de Aristóteles (1998). Operei pequenos ajustes quando necessário.
12 Sobre o migrante como alguém que não encontra refúgio em parte alguma – como um outlaw permanente – cf. Arendt (2007, p. 264-274) (o artigo «We Refugees» foi originalmente publicado em 1943) e Di Cesare (2017, p. 73).
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