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<journal-title specific-use="original" xml:lang="pt">Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos</journal-title>
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<issn pub-type="ppub">0103-4316</issn>
<issn pub-type="epub">2176-6436</issn>
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<publisher-name>Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos</publisher-name>
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<country>Brasil</country>
<email>editor@classica.org.br</email>
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<article-id pub-id-type="art-access-id" specific-use="redalyc">601782205009</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.24277/classica.v38.2025.1137</article-id>
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<subject>Artigos</subject>
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<bold>Elementos das tragédias de Sêneca nas <italic>Púnicas </italic>de Sílio Itálico</bold>
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</sup>
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<bold>Elements of the tragedies of Seneca in the <italic>Punica </italic>of Silius Italicus</bold>
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<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-0283-117X</contrib-id>
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<surname>J. Dominik</surname>
<given-names>William</given-names>
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<email>wjdominik@gmail.com</email>
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<institution content-type="original">Professor Visitante, Estudos Literários, Universidade Federal de Juiz de Fora, Investigador Integrado, Estudos Clássicos, Universidade de Lisboa, Professor Extraordinário, Estudos Antigos, Universidade de Stellenbosch, Professor Emérito, Estudos Clássicos, Universidade de Otago, Juiz de Fora, Brasil.</institution>
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<institution content-type="orgname">Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil</institution>
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<season>January-December</season>
<year>2025</year>
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<title>Resumo</title>
<p>As <italic>Púnicas</italic>, de Sílio Itálico, frequentemente consideradas desconectadas das tragédias de Sêneca (e pseudo-Sêneca), revelam, por meio de sua exploração de temas, imagens e léxico, uma relação intertextual notável com essas obras. As <italic>Púnicas </italic>incorporam elementos como o intenso conflito psicológico, o determinismo fatalista e a força destrutiva das emoções, especialmente a <italic>ira </italic>(“ira”) e o <italic>furor</italic> (“fúria”), que moldam tanto as ações dos personagens como a narrativa. Esses elementos e emoções refletem o tom trágico de Sêneca, particularmente em sua abordagem do destino, da vingança e das consequências morais das paixões descontroladas. A conexão entre as <italic>Púnicas </italic>e a tragédia senequiana (e pseudo-senequiana) é evidente no episódio programático de Sagunto, em que a <italic>ira </italic>e a violência extrema, além da presença de forças sobrenaturais como a fúria Tisífone, evocam várias tragédias de Sêneca. A simbologia da <italic>flamma </italic>(“chama”), presente no incêndio de Sagunto e na autoimolação de Tiburna, bem como a figura de Aníbal, com sua crueldade e desafio aos deuses, remetem aos tiranos trágicos de Sêneca, como Atreu. Ao entrelaçar elementos épicos, trágicos e históricos, Sílio oferece uma reflexão significativa sobre a condição humana que é profundamente enraizada na tradição literária romana.</p>
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<title>Abstract</title>
<p>The <italic>Punica </italic>of Silius Italicus, often regarded as being disconnected from the tragedies of Seneca (and pseudo-Seneca), reveals a remarkable intertextual relationship with these works through its use of Senecan themes, images and <italic>lexis</italic>. The <italic>Punica </italic>incorporates elements such as intense psychological conflict, fatalistic determinism, and the destructive power of emotions, particularly <italic>ira </italic>(“anger”) anger and <italic>furor</italic> (“fury”), which shape both the actions of the characters and the narrative itself. These elements and emotions reflect the tragic tone of Seneca, particularly in his treatment of fate, revenge, and the moral consequences of uncontrolled passions. The connection between the <italic>Punica </italic>and Senecan (and pseudo-Senecan) tragedy is evident in the programmatic episode of Saguntum, where rage and extreme violence, alongside the presence of supernatural forces such as the Fury Tisiphone, evoke several of Seneca’s tragedies. The symbolism of <italic>flamma </italic>(“flame”), present in the burning of Saguntum and in Tiburna’s self-immolation, as well as the figure of Hannibal, with his cruelty and defiance of the gods, evoke the tragic tyrants of Seneca, such as Atreus. By interweaving epic, tragic, and historical elements, Silius offers a profound reflection upon the human condition that is deeply rooted within the Roman literary tradition.</p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>Sílio Itálico</kwd>
<kwd>Púnicas</kwd>
<kwd>Sêneca</kwd>
<kwd>tragédia senequiana</kwd>
<kwd>Sagunto</kwd>
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<title>Keywords</title>
<kwd>Silius Italicus</kwd>
<kwd>Punica</kwd>
<kwd>Seneca</kwd>
<kwd>Senecan tragedy</kwd>
<kwd>Saguntum</kwd>
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<title/>
<p>Apesar da identificação de vínculos da tragédia senequiana com a épica flaviana, as descobertas são modestas, e o tema exige uma investigação mais aprofundada para compreender se, como e em que medida as tragédias de Sêneca, o Jovem, de forma coletiva ou individual, funcionam como intermediárias entre a tragédia grega e a épica flaviana ou, como acrescentaria, simplesmente como um canal direto, por assim dizer, para as <italic>Púnicas </italic>de Sílio Itálico.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>
</sup> Peter Davis (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref9">2016</xref>, p. 57, n. 1) afirma que as <italic>Púnicas </italic>não parecem se envolver de maneira significativa com a tragédia senequiana. Contudo, a épica exibe uma relação intertextual temática, imagética e lexical com as tragédias de Sêneca, como sugerido no episódio programático inicial das <italic>Púnicas </italic>nos livros 1 e 2. É importante destacar que essa abordagem intertextual evidencia um diálogo compartilhado entre as Púnicas e a tragédia senequiana.</p>
<p>A intertextualidade, neste contexto, refere-se ao modo como Sílio Itálico reelabora, ressignifica e se apropria de determinados mecanismos poéticos, imagéticos e temáticos das tragédias de Sêneca. Assim, Sílio não realiza uma mera imitação, mas revela uma consciência literária compartilhada que reforça tanto o caráter trágico de sua narrativa quanto a densidade histórica e psicológica de seus personagens. As <italic>Púnicas </italic>ecoam temas, motivos, imagens e frases senequianas, particularmente em sua representação, entre outros, de emoção intensa, conflito psicológico, determinismo fatalista, vingança e desespero como forças motrizes dentro da narrativa. Os personagens de Sílio, por vezes, refletem o tumulto interno característico dos protagonistas senequianos, no qual emoções como <italic>furor </italic>(“fúria”) e <italic>ira </italic>(“ira”) desempenham papéis cruciais na formação de suas ações e no desenrolar dos eventos.</p>
<p>
<bold>O episódio de Sagunto </bold>
</p>
<p>O espetáculo de <italic>furor </italic>e <italic>ira </italic>é particularmente evidente nos dois primeiros livros programáticos das <italic>Púnicas</italic>, no episódio de Sagunto, embora haja outros episódios (como Canas, Zama e Cápua) que também apresentam manifestações dessas emoções. O episódio programático das <italic>Púnicas </italic>não apenas fornece diretrizes e estabelece o tom para a leitura e a compreensão da epopeia como um todo, mas também estabelece o modo narrativo principal pelo qual Sílio Itálico epiciza o passado para representar a realidade contemporânea de Roma, apresenta ao leitor os principais temas e figuras e se conecta com outras cenas da obra (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref11">Dominik, 2003</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref24">Stock, 2018</xref>).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>
</sup> Este aspecto programático aplica-se também ao tema desta discussão, visto que o episódio de Sagunto contém ecos da tragédia senequiana que reverberam ao longo de todas as <italic>Púnicas</italic>. A violência, o <italic>furor </italic>e a <italic>ira </italic>que permeiam a destruição de Sagunto representam uma apropriação de determinados mecanismos trágicos presentes nas peças de Sêneca, que se configura como modelo para a representação da tragédia na narrativa épica.</p>
<p>Consistente com esse aspecto programático, a ira surge no final da introdução de Sílio às <italic>Púnicas</italic>:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>tantarum causas irarum odiumque perenni</verse-line>
<verse-line>seruatum studio et mandata nepotibus arma</verse-line>
<verse-line>fas aperire mihi superasque recludere mentes.</verse-line>
<verse-line>iamque adeo magni repetam primordia motus.			20</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>As causas de tamanha ira, o ódio preservado</verse-line>
<verse-line>com zelo eterno, as armas legadas aos descendentes –</verse-line>
<verse-line>é-me lícito abrir os céus e desvendar as mentes divinas.</verse-line>
<verse-line>E agora, irei traçar as origens de tão grande tumulto.</verse-line>
<attrib>(Sil. <italic>Pun</italic>. 1.17-20, ed. Delz, 1987,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>
</sup> tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Essa passagem inicial das <italic>Púnicas </italic>destaca a <italic>ira </italic>e o ódio como forças centrais do conflito, com um caráter programático que define o tom da obra. Sílio sugere que a guerra é movida por uma <italic>ira </italic>eterna e herdada, que não é apenas uma emoção temporária, mas uma força contínua que molda a história. Ao focar nesse tema desde o início, o epicista estabelece que o conflito é determinado tanto por forças políticas e históricas quanto emocionais persistentes. Essa <italic>ira</italic>, que é a emoção programática, por assim dizer, das <italic>Púnicas</italic>, é quase imediatamente seguida de referência a Aníbal:<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>
</sup>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>… iterum instaurata capessens					35</verse-line>
<verse-line>arma remolitur; dux omnia sufficit unus</verse-line>
<verse-line>turbanti terra pontumque mouere paranti.</verse-line>
<verse-line>iamque deae cunctas sibi belliger induit iras</verse-line>
<verse-line>Hannibal (hunc audet solum componere fatis),</verse-line>
<verse-line>sanguineo tum laeta uiro atque in regna Latini			40</verse-line>
<verse-line>turbine mox saeuo uenientum haud inscia cladum</verse-line>
<verse-line>“intulerit Latio, spreta me, Troius” inquit</verse-line>
<verse-line>“exul Dardaniam et, bis numina capta, penates</verse-line>
<verse-line>sceptraque fundarit uictor Lauinia Teucris,</verse-line>
<verse-line>dum Romana tuae, Ticine, cadauera ripae 			45</verse-line>
<verse-line>non capiant, Simoisque mihi per Celtica rura</verse-line>
<verse-line>sanguine Pergameo Trebia et stipantibus armis</verse-line>
<verse-line>corporibusque uirum retro fluat, ac sua largo</verse-line>
<verse-line>stagna reformidet Thrasymennus turbida tabo,</verse-line>
<verse-line>dum Cannas, tumulum Hesperiae, campumque cruore		50</verse-line>
<verse-line>Ausonio mersum sublimis Iapyga cernam</verse-line>
<verse-line>teque uadi dubium coeuntibus, Aufide, ripis</verse-line>
<verse-line>per clipeos galeasque uirum caesosque per artus</verse-line>
<verse-line>uix iter Hadriaci rumpentem ad litora ponti”.</verse-line>
<verse-line>haec ait ac iuuenem facta ad Mauortia flammat. 			55</verse-line>
<verse-line>ingenio motus auidus fideique sinister</verse-line>
<verse-line>is fuit, exsuperans astu, sed deuius aequi.</verse-line>
<verse-line>armato nullus diuum pudor, improba uirtus</verse-line>
<verse-line>et pacis despectus honos, penitusque medullis</verse-line>
<verse-line>sanguinis humani flagrat sitis. his super aeui			60</verse-line>
<verse-line>flore uirens auet Aegates abolere, parentum</verse-line>
<verse-line>dedecus, ac Siculo demergere foedera ponto.</verse-line>
<verse-line>dat mentem Iuno ac laudum spe corda fatigat.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>… E então [Juno] ergueu novamente as armas e	35</verse-line>
<verse-line>tentou mais uma vez. Um único líder [Aníbal] foi tudo o</verse-line>
<verse-line>que ela precisou, enquanto abalava a terra e preparava-se para</verse-line>
<verse-line>agitar o mar. Agora, o guerreiro Aníbal vestia toda a ira da</verse-line>
<verse-line>deusa. Juno ousou enfrentá-lo sozinho contra o destino.</verse-line>
<verse-line>Regozijando-se naquele homem sanguinário e ciente do turbilhão	40</verse-line>
<verse-line>selvagem da destruição que se abateria sobre o reino latino, falou:</verse-line>
<verse-line>“O exilado troiano [Eneias], me desprezou, trouxe Troia e os</verse-line>
<verse-line>Penates ao Lácio, deuses já prisioneiros duas vezes. O</verse-line>
<verse-line>conquistador fundou um reino para os Troianos em Lavínio.</verse-line>
<verse-line>Que ele tenha feito isso – desde que as margens do rio Ticino	45</verse-line>
<verse-line>não tenham espaço para os corpos romanos. Que o rio Trébia,</verse-line>
<verse-line>obediente a mim, volte pelas terras celtas, bloqueado pelo sangue</verse-line>
<verse-line>romano, armas e corpos de homens, tornando-se para mim</verse-line>
<verse-line>um rio Simoente de sangue troiano. Que o lago Trasimeno trema</verse-line>
<verse-line>diante de suas próprias águas, turbadas pelo sangue, e		50</verse-line>
<verse-line>eu veja de cima o campo de Canas, túmulo da Itália, e as</verse-line>
<verse-line>planícies iápigias afogadas em sangue romano. O rio Áufido,</verse-line>
<verse-line>duvidoso de seu curso, com suas margens fechando-se, mal</verse-line>
<verse-line>conseguirá passar até a costa Adriática, atravessando</verse-line>
<verse-line>escudos, capacetes e membros decepados de homens.”		55</verse-line>
<verse-line>Com estas palavras, inflamou o jovem Aníbal para a</verse-line>
<verse-line>guerra. Seu espírito, sedento por conflito, hostil à boa</verse-line>
<verse-line>fé, astuto, mas distante da justiça, desdenhava os deuses</verse-line>
<verse-line>quando armado, era valente no mal, desprezava a glória</verse-line>
<verse-line>da paz. A sede de sangue humano queimava em seus		60</verse-line>
<verse-line>ossos e sua juventude desejava apagar a vergonha das</verse-line>
<verse-line>ilhas Égadas, afogar o tratado de paz no mar siciliano. Juno</verse-line>
<verse-line>o guiou e enfureceu seu coração com esperanças de glória.</verse-line>
<attrib>(Sil. <italic>Pun</italic>. 1.35-63, ed. Delz, 1987, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>O efeito desse longo trecho no início das <italic>Púnicas </italic>é associar programaticamente Aníbal a uma figura cujo destino está entrelaçado com a <italic>ira </italic>divina. A referência à destruição iminente que se aproxima em <italic>turbine... saeua</italic> (“turbilhão selvagem”, <italic>Pun</italic>. 1.41) evoca as imagens violentas e caóticas encontradas na tragédia senequiana, incluindo a frase de Jocasta <italic>turbine insano</italic> (“turbilhão insano”, <italic>Phoen</italic>. 420) nas <italic>Fenícias</italic>, na qual as emoções desenfreadas resultam em consequências devastadoras.</p>
<p>Enquanto o catálogo de derrotas romanas realizado por Juno no extenso trecho citado acima (<italic>Pun</italic>. 1.35-63) remete às descrições apolônicas (<italic>Argon</italic>. 4.477-479), lucanianas (<italic>Phars</italic>. 2.148-159), valerianas (<italic>Argon</italic>. 2.220-241) e estacianas (<italic>Theb</italic>. 5.207-261) da mutilação de corpos, as várias referências programáticas a <italic>sanguis </italic>(“sangue”, <italic>Pun</italic>. 40, 47, 60; cf. 409), <italic>cruor </italic>(“sangue”, 50) e<italic> caesos artus</italic> (“membros decepados”, 53) neste trecho das <italic>Púnicas </italic>evocam reminiscências programáticas similares de várias tragédias senequianas, por exemplo, no prólogo do <italic>Tiestes</italic>,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>
</sup> no qual a deusa Fúria expressa sua intenção de desencadear o caos e o desejo de sangue sobre Atreu, alimentando assim seu desejo de vingança contra Tiestes:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>nondum Thyestes liberos deflet suos -</verse-line>
<verse-line>et quando tollet? ignibus iam subditis</verse-line>
<verse-line>spument aena, membra per partes eant				 60</verse-line>
<verse-line>discerpta, patruos polluat sanguis focos,</verse-line>
<verse-line>epulae instruantur - non noui sceleris tibi</verse-line>
<verse-line>conuiua uenies. liberum dedimus diem</verse-line>
<verse-line>tuamque ad istas soluimus mensas famem:</verse-line>
<verse-line>ieiunia exple, mixtus in Bacchum cruor				65</verse-line>
<verse-line>spectante te potetur; inueni dapes</verse-line>
<verse-line>quas ipse fugeres - siste, quo praeceps ruis?</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Ainda não geme Tiestes por seus filhos? Quando a dor</verse-line>
<verse-line>enfim o consumirá? Agora, pois, que os caldeirões fervam</verse-line>
<verse-line>sobre as chamas, e os corpos sejam retalhados em pedaços.		60</verse-line>
<verse-line>Que o sangue inocente das crianças profane o lar ancestral,</verse-line>
<verse-line>e aprestai o banquete! Não te achegarás a um crime estranho,</verse-line>
<verse-line>mas a um que bem conheces. Hoje, estás livre, tua fome</verse-line>
<verse-line>solta para este festim horrendo. Vai, sacia teu ventre vazio;</verse-line>
<verse-line>contempla, enquanto ele bebe, diante de teus olhos, aquele		65</verse-line>
<verse-line>cocktail de sangue e vinho. Encontrei um banquete que até</verse-line>
<verse-line>tu, se pudesses, evitaria. Basta! Aonde te apressas?</verse-line>
<attrib>(Sen. <italic>Thy</italic>. 58-67, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>As palavras <italic>sanguis </italic>(“sangue”, <italic>Pun</italic>. 40, 47, 60), <italic>cruor </italic>(“sangue”, 65) e <italic>caesos artus</italic> (“membros decepados”, 53), no trecho citado das <italic>Púnicas </italic>(1.35-63), evocam <italic>sanguis </italic>(61), <italic>cruor </italic>(65) e <italic>membra … discerpta</italic> (60-1) nesse trecho programático do <italic>Tiestes </italic>de Sêneca. Ambos os trechos garantem que o leitor esteja ciente, desde o início, de que o <italic>Tiestes </italic>e as <italic>Púnicas </italic>são mundos nos quais a <italic>ira</italic>, a fúria e a violência desempenham papéis centrais na configuração dos destinos de indivíduos e impérios. A violência, no caso do <italic>Tiestes </italic>e das <italic>Púnicas</italic>, não é apenas uma representação do corpo, mas também da destruição moral e emocional que acompanha o desejo de retribuição. Ambos os textos, ao explorar esses temas, destacam como o sofrimento, ao ser perpetuado, torna-se parte de um destino inevitável, moldando tanto as ações dos personagens como o curso das grandes narrativas históricas.</p>
<p>Um pouco depois da longa citação acima das <italic>Púnicas </italic>(1.35-63), Amílcar convoca seu filho Aníbal para trazer destruição aos romanos:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>gens recidiua Phrygum Cadmeae stirpis alumnos</verse-line>
<verse-line>foederibus non aequa premit. si fata negarint</verse-line>
<verse-line>dedecus id patriae nostra depellere dextra,</verse-line>
<verse-line>haec tua sit laus, nate, uelis. age, concipe bella</verse-line>
<verse-line>latura exitium Laurentibus; horreat ortus				110</verse-line>
<verse-line>iam pubes Tyrrhena tuos, partusque recusent</verse-line>
<verse-line>te surgente, puer, Latiae producere matres.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>A raça restaurada dos frígios oprime os descendentes de</verse-line>
<verse-line>Cadmo com tratados injustos. Se o destino não permitir que</verse-line>
<verse-line>minha mão afaste essa vergonha de nossa terra, então, meu</verse-line>
<verse-line>filho, cabe a ti escolher este caminho de glória. Seja rápido em</verse-line>
<verse-line>jurar uma guerra que trará destruição aos romanos; que o povo	110</verse-line>
<verse-line>da Toscana já tema teu nascimento. E quando tu te ergueres,</verse-line>
<verse-line>que as mães latinas se recusem a trazer seus filhos ao mundo.</verse-line>
<attrib>(Sil. <italic>Pun</italic>. 1.106-12, ed. Delz, 1987, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Essa cena remete a diversos momentos nas tragédias de Sêneca, nos quais uma divindade convoca uma figura humana ou espírito para trazer destruição a outro ser humano ou aos habitantes de uma cidade. Um exemplo notável disso aparece no prólogo do <italic>Tiestes</italic>, quando a Fúria convoca Tântalo para espalhar <italic>ira</italic> (“ira”, 26, 39), <italic>furor </italic>(“fúria”, 27) e <italic>rabies </italic>(“raiva”, 28), incitando a <italic>uiolentia </italic>(“violência”, 33) entre seus descendentes:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>ne sit irarum modus</verse-line>
<verse-line>pudor ue, mentes caecus instiget furor,</verse-line>
<verse-line>rabies parentum duret et longum nefas</verse-line>
<verse-line>eat in nepotes; nec uacet cuiquam uetus</verse-line>
<verse-line>odisse crimen: semper oriatur nouum,				30</verse-line>
<verse-line>nec unum in uno, dumque punitur scelus</verse-line>
<verse-line>crescat. superbis fratribus regna excidant</verse-line>
<verse-line>repetant que profugos; dubia uiolentae domus</verse-line>
<verse-line>fortuna reges inter incertos labet:</verse-line>
<verse-line>miser ex potente fiat, ex misero potens				35</verse-line>
<verse-line>fluctu que regnum casus assiduo ferat.</verse-line>
<verse-line>Ob scelera pulsi, cum dabit patriam deus</verse-line>
<verse-line>in scelera redeant, sint que tam inuisi omnibus,</verse-line>
<verse-line>quam sibi; nihil sit ira quod uetitum putet.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Que a ira deles não tenha limites, nem vergonha;</verse-line>
<verse-line>que a fúria cega agite suas almas; que a raiva dos pais seja impiedosa,</verse-line>
<verse-line>e que o longo caminho do pecado se estenda até os filhos dos</verse-line>
<verse-line>filhos; que não seja dado tempo a ninguém para odiar os pecados</verse-line>
<verse-line>antigos – que novos sempre surjam, muitos em um, e que o		30</verse-line>
<verse-line>crime, mesmo no meio de seu castigo, aumente. Que os reinos</verse-line>
<verse-line>caiam das mãos de irmãos orgulhosos, e que, por sua vez, chamem</verse-line>
<verse-line>os fugitivos de volta; que a sorte vacilante de um lar de violência,</verse-line>
<verse-line>com reis em mudança, tenda à queda; da potência à miséria, da</verse-line>
<verse-line>miséria ao poder – que isso aconteça, e que o acaso,com suas	35</verse-line>
<verse-line>ondas sempre inquietas, carregue o reino adiante. Por causa dos</verse-line>
<verse-line>crimes exilados, quando deus os trouxer de volta, ao crime que</verse-line>
<verse-line>retornem, e que sejam tão odiosos para todos os homens quanto</verse-line>
<verse-line>para si mesmos; que não haja nada que a ira considere proibido.</verse-line>
<attrib>(Sen. <italic>Thy</italic>. 26-39, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>As <italic>Púnicas </italic>e o <italic>Tiestes </italic>exploram o ciclo interminável de violência, vingança e sofrimento, em que o destino e a fúria perpetuam o mal através das gerações. Nas <italic>Púnicas</italic>, Aníbal convoca a destruição sem fim contra os romanos, assim como no <italic>Tiestes</italic>, as Fúrias incitam Tântalo a espalhar o ódio e a violência (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref17">Ganiban, 2010</xref>, p. 80, n. 31). Em ambos os textos, o crime e o castigo não cessam, mas se amplificam, tornando impossível escapar do ciclo de destruição.</p>
<p>Nas <italic>Púnicas</italic>, <italic>furor </italic>e <italic>ira </italic>surgem como um motivo central no episódio de Sagunto, sendo o furor relacionado a Aníbal no livro 1 das <italic>Púnicas </italic>(683) e aos saguntinos no livro 2 (cf. 614-707) e a <italic>ira</italic>, aos romanos no livro 1 (690). Do ponto de vista lexical, <italic>ira </italic>e <italic>furor </italic>aparecem duas dúzias de vezes nos dois primeiros livros programáticos,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>
</sup> o que é significativo tanto em relação à tradição literária com a qual as <italic>Púnicas </italic>se relacionam quanto às questões temáticas e históricas que permeiam a própria épica. Sua repetição destaca as forças emocionais e destrutivas que estão no cerne do conflito; caracteriza figuras como Aníbal como movidas por emoções destrutivas; e oferece um comentário moral sobre as consequências da ambição e da <italic>ira </italic>desenfreadas. Por meio destes termos, <italic>ira </italic>e <italic>furor</italic>, Sílio proporciona uma compreensão mais profunda dos temas das <italic>Púnicas</italic>, mas também dramatiza as guerras púnicas em termos que, pelo menos em alguns aspectos, ecoam os temas, motivos e personagens da tragédia senequiana.</p>
<p>Juno envia Tisífone,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>
</sup> de fato, para conspirar com Fides, incitando os saguntinos à destruição, promovendo que se matassem uns aos outros para evitar a escravidão nas mãos dos cartagineses: ela instiga os pais a assassinar seus filhos e os filhos a matarem seus pais e mães (<italic>Pun</italic>. 2.561-79). Nesse ponto da narrativa, a fúria que Tisífone desperta nos saguntinos traz uma das muitas <italic>sententiae </italic>que Sílio insere em sua narrativa, características da tragédia senequiana: <italic>ardua uirtutem profert uia</italic> (“O caminho difícil traz à tona a virtude”, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref22">Sil. <italic>Pun</italic>
</xref>. 2.578; ed. Delz 1987). O uso por Sílio dessa <italic>sententia </italic>estoica e outras <italic>sententiae </italic>ao longo da cena de Sagunto serve para lembrar o leitor de que a tensão dramática criada nesse episódio espelha aquela do palco trágico. O efeito dramático dessas declarações moralizantes é conectar a narrativa épica das <italic>Púnicas</italic> à complexidade moral da tragédia senequiana, na qual a virtude frequentemente está entrelaçada ao sofrimento, à loucura e à morte. No caso dos saguntinos, eles não agem conforme as instruções de Tisífone até serem possuídos por ela e depois, em um estado de <italic>furor</italic>, resolvem morrer em vez de prolongar suas vidas com desonra. Enganados e possuídos pela Fúria, os saguntinos cometem suicídio em massa, ação e consequências descritas nas últimas cem linhas do livro 2 das <italic>Púnicas </italic>(614-707). Essa cena é um prelúdio ao episódio de Cápua nas <italic>Púnicas </italic>13, em que uma Fúria se combina novamente com a deusa Fides frenética para derrubar e destruir uma população já derrotada (13.281-95). No episódio de Sagunto, é a fúria Tisífone quem comete o primeiro assassinato (2.614-6). É ela quem força os cidadãos relutantes a cometerem parricídio contra sua vontade (617-9). Sob sua possessão, quase todo tipo possível de parricídio é cometido ou sugerido (614-49, 655-80).</p>
<p>O suicídio em massa dos defensores de Masada, ocorrido em 73/74 d.C., que Flávio Josefo descreve de forma gráfica na <italic>Guerra judaica</italic> (7.389-401), é evocado na cena de Sagunto (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref11">Dominik, 2003</xref>, p. 488; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref18">Hulls, 2018</xref>), mas também se percebe um forte eco senequiano. Embora Antoniadis (2018) tenha argumentado sobre a importância dos subtextos estoicos do <italic>Sobre a ira</italic> e do <italic>Hércules furioso</italic>, de Sêneca, nos dois primeiros livros das <italic>Púnicas </italic>e, nesse processo, tenha atraído nova atenção para os elementos estoicos da épica, esses dois primeiros livros também transmitem sentimentos estoicos. Eles refletem temas encontrados nas tragédias de Sêneca e nas pseudo-tragédias senequianas, como a ênfase no controle das emoções, na aceitação do destino, na forma digna de enfrentar a morte e na ação conforme a razão e a virtude. O foco, nesta discussão, está especificamente nas possíveis ressonâncias das tragédias de Sêneca e das pseudo-tragédias senequianas nas <italic>Púnicas</italic>, e não nas obras filosóficas de Sêneca. Por exemplo, em <italic>Sobre a ira</italic>, ele apresenta Aníbal como uma ilustração vívida dos horrores que a <italic>ira </italic>desenfreada pode causar, ao descrevê-lo experimentando um prazer mórbido enquanto observava uma vala cheia de sangue, sublinhando assim como tal fúria pode evoluir para um mal profundo e irremediável (<italic>De ira</italic> 2.5.4-5).</p>
<p>A ideia de uma Fúria incitando uma cidade à loucura nas <italic>Púnicas </italic>alinha-se, de forma geral, com o motivo senequiano presente em suas tragédias, de uma influência sobrenatural e incontrolável sobre o comportamento humano, especificamente na forma de seres como as Fúrias, que provocam os personagens a cometer atos extremos que levam ao caos e à destruição.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>
</sup> Nas tragédias de Sêneca, cenas de loucura e violência são recorrentes, como, por exemplo, no <italic>Hércules furioso</italic> e no <italic>Tiestes</italic>. No<italic> Hércules furioso</italic>, Juno, assim como é retratada nas Púnicas, envia uma Fúria, nesta ocasião Megera, para enlouquecer Hércules. Sob sua influência (cf. <italic>Herc. Fur.</italic> 982-6), Hércules passa a acreditar que sua própria família são seus inimigos, o que resulta no assassinato de sua esposa e filhos em um acesso de loucura. Tal como nas <italic>Púnicas</italic>, a intervenção da Fúria é um catalisador direto para essa tragédia. No <italic>Tiestes</italic>, a sombra de Tântalo é convocada por uma Fúria para inspirar a loucura e a sede de sangue em Atreu (83-6), que cozinha e serve os filhos de Tiestes a ele. Nessas e em outras tragédias,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>
</sup> Sêneca utiliza as Fúrias como agentes causadores da loucura e destruição que se seguem, além de representá-las como a personificação do poder implacável do destino e da retribuição divina.</p>
<p>
<bold>Aspectos intertextuais e lexicais </bold>
</p>
<p>Embora alguns dos ecos gerais de Sêneca possam ser, em última instância, rastreados até a tragédia grega, existem características intertextuais e lexicais específicas que conectam as <italic>Púnicas </italic>à tragédia senequiana. De fato, há diversas palavras emparelhadas ou combinações triplas de palavras presentes nas oito tragédias indiscutíveis de Sêneca que se repetem nas <italic>Púnicas</italic>, embora, por vezes, apareçam invertidas ou em uma ordem diferente dentro do mesmo verso ou em alguns versos. Existem centenas de correspondências lexicais ou quase correspondências entre as tragédias de Sêneca e pseudo-Sêneca e as <italic>Púnicas</italic>, de Sílio Itálico; mais especificamente, são quase 650 correspondências de colocalizações duplas e triplas de palavras.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>
</sup> Desse total, quase duzentas correspondências ocorrem entre o <italic>Hércules no Eta</italic> de pseudo-Sêneca e as <italic>Púnicas</italic>.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>
</sup> Embora o <italic>Hércules no Eta</italic> possa não ser de Sêneca e tenha quase o dobro do comprimento das tragédias mais curtas desse autor, ele possui características que remetem ao estilo senequiano e, assim como a <italic>Otávia </italic>pseudo-senequiana (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref15">Ferri, 2003</xref>, p. 16-7; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref6">Boyle, 2008</xref>, p. xiv-xvi), pode ter sido escrito na época Flávia (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref7">Buckley, 2014</xref>, p. 324, n. 41). Além disso, o elevado número de correspondências lexicais entre o <italic>Hércules no Eta</italic> e as <italic>Púnicas </italic>sugere que algumas das tragédias de Sêneca e o <italic>Hércules no Eta</italic> serviram de fonte lexical para Sílio, possivelmente também como inspiração temática ou imagética, já que a arquitetura narrativa das <italic>Púnicas </italic>espelha as tragédias de Sêneca em sua preferência por expressões dramáticas, muitas vezes hiperbólicas, de <italic>páthos </italic>e ambiguidade moral. De fato, o uso de determinados mecanismos poéticos revela uma intertextualidade permanente, na qual expressões como <italic>flamma </italic>(“chama”), <italic>cruor </italic>(“sangue”) e <italic>caesi artus</italic> (“membros decepados”) partilham do estilo emotivo, intenso e teatral da tragédia senequiana. Dessa forma, o texto de Sílio revela uma consciência compartilhada da tradição literária, afirmando-se como um poeta que dialoga tanto com o épico quanto com a tragédia. Isso se evidencia, por exemplo, na imagem-símbolo de <italic>flamma </italic>ao longo das <italic>Púnicas</italic>.</p>
<p>
<bold>Imagens</bold>
</p>
<p>Em determinados episódios – particularmente no de Sagunto – o uso de <italic>flamma </italic>(“chama”) revela uma intertextualidade que aproxima o estilo de Sílio Itálico ao de Sêneca, na medida em que a violência das chamas, a destruição da cidade e o destino de seus moradores estão intrinsecamente associados às representações desse elemento em tragédias senequianas como <italic>Tiestes</italic>, <italic>Fedra </italic>e <italic>Hércules furioso</italic>. De fato, a imagem-símbolo de <italic>flamma </italic>no episódio de Sagunto evoca uma reminiscência geral de Sêneca, uma vez que <italic>flamma </italic>e <italic>ignis </italic>são utilizados, por exemplo, para descrever a <italic>ira </italic>ardente de Medeia e o seu uso do fogo em sua magia destrutiva na <italic>Medeia</italic>. No <italic>Tiestes</italic>, que se centra na vingança horrível de Atreu contra Tiestes, as chamas significam as consequências devastadoras da raiva e do ódio desenfreado; na <italic>Fedra</italic>, <italic>flamma </italic>está associada à paixão proibida de Fedra por seu enteado Hipólito; nas <italic>Fenícias</italic>, a imagética do fogo e das chamas é invocada no contexto da destruição de Tebas; nas <italic>Troianas</italic>,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref>
</sup>
<italic>flamma </italic>serve como imagem-símbolo para o fim catastrófico de uma cidade e de seu povo; flamma é usada metaforicamente para descrever a <italic>ira </italic>e a loucura de Hércules no <italic>Hércules furioso</italic>; e, no <italic>Hércules no Eta</italic> pseudo-senequiano, as chamas consomem o corpo de Hércules, parecendo representar tanto a destruição como a transcendência. Das 77 referências a <italic>flamma </italic>no <italic>corpus </italic>senequiano e pseudo-senequiano, mais de um quarto (21) provêm do <italic>Hércules no Eta</italic>, enquanto um sexto (21) das 131 referências a <italic>ignis </italic>no <italic>corpus </italic>aparecem no <italic>Hércules no Eta</italic>.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>
</sup> Como se pode observar, a maioria das referências a <italic>flamma </italic>ocorre no <italic>Hércules no Eta</italic>, assim como as colocalizações emparelhadas e triplas de palavras.</p>
<p>Nas <italic>Púnicas</italic>, há mais de uma dúzia de referências nos dois primeiros livros da obra, <italic>flammae </italic>e <italic>ignis </italic>(e suas variantes),<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref>
</sup> as quais, no episódio de Sagunto, simbolizam a destruição da cidade e dos seus habitantes:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>ille iacit, totis conisus uiribus aegrum</verse-line>
<verse-line>in flammas corpus, densum qua turbine nigro			630</verse-line>
<verse-line>exundat fumans piceus caligine uertex.</verse-line>
<verse-line>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</verse-line>
<verse-line>furit ensis et ignis,						657</verse-line>
<verse-line>quique caret flamma, scelerum est locus. erigit atro</verse-line>
<verse-line>nigrantem funio rogus alta ad sidera nubem.</verse-line>
<verse-line>ardet in excelso proceri uertice montis				660</verse-line>
<verse-line>arx, intacta prius bellis (hinc Punica castra</verse-line>
<verse-line>litoraque et totam soliti spectare Saguntum),</verse-line>
<verse-line>ardent tecta deum. resplendet imagine flammae</verse-line>
<verse-line>aequor, et in tremulo uibrant incendia ponto.</verse-line>
<verse-line>ecce inter medios caedum Tiburna furores, 			665</verse-line>
<verse-line>fulgenti dextram mucrone armata mariti</verse-line>
<verse-line>et laeua infelix ardentem lampada quassans</verse-line>
<verse-line>squalentemque erecta comam ac liuentia planctu</verse-line>
<verse-line>pectora nudatis ostendens saeua lacertis,</verse-line>
<verse-line>ad tumulum Murri super ipsa cadauera fertur,			670</verse-line>
<verse-line>qualis, ubi inferni dirum tonat aula parentis</verse-line>
<verse-line>iraque turbatos exercet regia manes,</verse-line>
<verse-line>Alecto solium ante dei sedemque tremendam</verse-line>
<verse-line>Tartareo est operata loui poenasque ministrat.</verse-line>
<verse-line>arma uiri, multo nuper defensa cruore				675</verse-line>
<verse-line>imponit tumulo illacrimans manesque precata,</verse-line>
<verse-line>acciperent sese, flagrantem lampada subdit.</verse-line>
<verse-line>tunc rapiens letum “tibi ego haec” ait, “optime coniux,</verse-line>
<verse-line>ad manes, en, ipsa fero”. sic ense recepto</verse-line>
<verse-line>arma super ruit et flammas inuadit hiatu.				680</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Um homem, esforçando-se com toda a sua força, jogou um</verse-line>
<verse-line>corpo miserável nas chamas, onde a crista do fogo escuro e		630</verse-line>
<verse-line>rolante lança fumaça espessa e uma negritude pegajosa.</verse-line>
<verse-line>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</verse-line>
<verse-line>A espada e o fogo rugiam,					657</verse-line>
<verse-line>e onde não havia chama, havia um lugar para crimes. A pira</verse-line>
<verse-line>funerária levantava uma nuvem de fumaça preta até as estrelas.</verse-line>
<verse-line>No pico de uma alta montanha, uma fortaleza que as guerras	660</verse-line>
<verse-line>passadas haviam poupado está em chamas (daqui os cidadãos</verse-line>
<verse-line>estavam acostumados a ver o acampamento púnico, a costa e toda</verse-line>
<verse-line>Sagunto); os templos dos deuses estão queimando. O mar brilhava</verse-line>
<verse-line>com o reflexo das chamas, e fogos tremeluziam nas águas que se</verse-line>
<verse-line>agitavam. No meio do caos do massacre, viu-se Tiburna, armada	665</verse-line>
<verse-line>com a espada reluzente de seu marido na mão direita, e na esquerda</verse-line>
<verse-line>a infeliz mulher sacudia uma tocha flamejante. Seus cabelos</verse-line>
<verse-line>desgrenhados eriçavam-se; seus ombros estavam descobertos; e</verse-line>
<verse-line>ela exibia seios machucados por golpes cruéis. Avançou sobre os</verse-line>
<verse-line>corpos até o túmulo de Murro, assim como quando o palácio do 	670</verse-line>
<verse-line>pai infernal ressoa com trovões de condenação, e sua raiva real</verse-line>
<verse-line>conduz os espíritos à loucura, Alecto, de pé diante do trono do</verse-line>
<verse-line>deus e do temível assento, serve ao Júpiter do Tártaro e distribui</verse-line>
<verse-line>punições. A armadura do seu marido, recentemente recuperada</verse-line>
<verse-line>com muito sangue, a chorosa [Tiburna] colocou sobre seu túmulo	675</verse-line>
<verse-line>e orou para que os espíritos a aceitassem, enquanto aplicava a tocha</verse-line>
<verse-line>flamejante sobre a pira. Então, correndo em direção à morte, ela</verse-line>
<verse-line>disse: “A você, meu querido marido, olhe! Eu mesma trago estas</verse-line>
<verse-line>armas para os espíritos.” Depois de levar um golpe de sua espada,</verse-line>
<verse-line>ela caiu sobre as armas e atacou as chamas com a boca aberta.</verse-line>
<attrib>(Sil. <italic>Pun</italic>. 2.629-31, 657-80, ed. Delz, 1987, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Essa cena de conflagração evoca, de maneira natural, reminiscências de outras cenas de incêndio na poesia romana, incluindo o saque de Troia em <italic>Eneida </italic>2 (v. 298 et seq.) e a pira de Dido em <italic>Eneida </italic>4 (v. 661 et seq.; cf. 5.1-5). Contudo, também há cenas similares na <italic>Farsália</italic>: no livro 2 (v. 534), no livro 6 (v. 135, 179), no livro 7 (v. 261), no livro 8 (v. 160-1, 736-78) e no livro 9 (v. 915-21), destacando-se a batalha naval contra os massilianos em Farsália 3 (v. 681-8), a batalha de <italic>Farsália </italic>no livro 7 (v. 798-814), as piras de Pompeu e seus bens no livro 9 (v. 51-77; v. 141, 175-81) e o cerco de Alexandria no livro 10 (v. 488-508). A cena em Sagunto traz à memória especialmente a cena de Dido em <italic>Eneida </italic>4. No episódio de Sagunto, Tiburna morre por um golpe autoinfligido de sua espada, assim como Dido, e depois se lança nas chamas (v. 679-80).</p>
<p>Essa cena em Sagunto também lembra o cenário no <italic>Hércules no Eta</italic>, quando Filoctetes acende a pira funerária de Hércules e seu corpo começa a queimar:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>tremente pinum dextera ardentem impulit.</verse-line>
<verse-line>refugit ignis et reluctantur faces</verse-line>
<verse-line>et membra uitant, sed recedentem Hercules</verse-line>
<verse-line>insequitur ignem. Caucasum aut Pindum aut Athon		1730</verse-line>
<verse-line>ardere credas: nullus erumpit sonus,</verse-line>
<verse-line>tantum ingemescit ignis. o durum iecur!</verse-line>
<verse-line>Typhon in illo positus immanis rogo</verse-line>
<verse-line>gemuisset ipse quique conuulsam solo</verse-line>
<verse-line>imposuit umeris Ossan Enceladus ferox;				1735</verse-line>
<verse-line>at ille medias inter exurgens faces,</verse-line>
<verse-line>semiustus ac laniatus, intrepidum tuens:</verse-line>
<verse-line>“nunc es parens Herculea: sic stare ad rogum</verse-line>
<verse-line>te, mater” inquit “sic decet fleri Herculem”.</verse-line>
<verse-line>inter uapores positus et flammae minas		 		1740</verse-line>
<verse-line>immotus, inconcussus, in neutrum latus</verse-line>
<verse-line>correpta torquens membra adhortatur, monet,</verse-line>
<verse-line>gerit aliquid ardens. omnibus fortem addidit</verse-line>
<verse-line>animum ministris; urere ardentem putes.</verse-line>
<verse-line>stupet omne uolgus, uix habent flammae fidem,			1745</verse-line>
<verse-line>tam placida frons est, tanta maiestas uiro.</verse-line>
<verse-line>nec properat uri; cumque iam forti datum</verse-line>
<verse-line>leto satis pensauit, igniferas trabes</verse-line>
<verse-line>hine inde traxit, minima quas flamma occupat,</verse-line>
<verse-line>totas que in ignes uertit et quis plurimus 				1750</verse-line>
<verse-line>exundat ignis repetit intrepidus ferox.</verse-line>
<verse-line>unc ora flammis implet: ast illi graues</verse-line>
<verse-line>luxere barbae; cumque iam uoltum minax</verse-line>
<verse-line>appeteret ignis, lamberent flammae caput,</verse-line>
<verse-line>non pressit oculos …						1755</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Com mão trêmula apliquei o pinheiro flamejante; as</verse-line>
<verse-line>chamas recuaram, a tocha resistiu e não tocou seus</verse-line>
<verse-line>membros; mas Hércules seguiu as chamas que se</verse-line>
<verse-line>retraíam. Dir-se-ia que o Cáucaso ou Pindo ou Átios		1730</verse-line>
<verse-line>estavam em chamas; nenhum som surgiu, a não ser</verse-line>
<verse-line>que o fogo parecia gemer. Ó coração obstinado! Se</verse-line>
<verse-line>imenso Tifão estivesse deitado naquela pira, teria</verse-line>
<verse-line>gemido alto, e o feroz Encélado, que sobre seus ombros</verse-line>
<verse-line>carregava o Ossa, arrancado da terra. Mas [Hércules], no		1735</verse-line>
<verse-line>meio das chamas rugindo, todo carbonizado e dilacerado,</verse-line>
<verse-line>olhou destemido ao redor e gritou: “Agora és mãe verdadeira</verse-line>
<verse-line>de Hércules; assim é justo que devas estar, minha mãe, ao</verse-line>
<verse-line>lado da pira, e assim é justo que Hércules seja lamentado.”</verse-line>
<verse-line>No calor abrasador e nas chamas ameaçadoras, imperturbável,	1740</verse-line>
<verse-line>inabalável, sem virar para nenhum lado seus membros</verse-line>
<verse-line>torturados, ele encoraja, aconselha, segue ativo, embora em</verse-line>
<verse-line>chamas. A todos seus ministros ele dá coragem de alma;</verse-line>
<verse-line>dir-se-ia que ele estava todo em fogo para arder. A multidão</verse-line>
<verse-line>toda fica em silêncio, maravilhada, e as chamas mal podem		1745</verse-line>
<verse-line>crer, tão calmo seu semblante, o herói tão majestoso. E não</verse-line>
<verse-line>apressa sua queima; mas quando julgou que coragem</verse-line>
<verse-line>suficiente fora mostrada na morte, arrastou de todos os lados</verse-line>
<verse-line>os troncos queimando que o fogo menos alimentava, e na</verse-line>
<verse-line>massa em chamas ele entrou e procurou onde as chamas		1750</verse-line>
<verse-line>saltavam mais altas, todo destemido, desafiador. Por um tempo</verse-line>
<verse-line>ele preencheu seu rosto com as chamas. Mas agora sua barba</verse-line>
<verse-line>espessa queimava intensamente; e mesmo quando o fogo</verse-line>
<verse-line>ameaçador atacava seu rosto e as línguas quentes lambiam sua</verse-line>
<verse-line>cabeça, ele não fechou os olhos …				1755</verse-line>
<attrib>([Sen.] <italic>Herc. Oet.</italic> 1727-55, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Aqui, no <italic>Hércules no Eta</italic>, Hércules é literalmente descrito como aquele que “preencheu seu rosto com as chamas” (<italic>ora flammis implet</italic>, v. 1752). No episódio de Sagunto nas <italic>Púnicas</italic>, Tiburna é retratada como tendo recebido um golpe da espada e caído sobre os braços, atacando as chamas com a boca aberta (<italic>ense recepto/ arma super ruit et flammas inuadit hiatu</italic>, 2.679-680), o que, como observa Vignola (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref26">2023</xref>, p. 95-6; cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref3">Bernstein, 2017</xref>, p. 266 <italic>ad </italic>v. 680), é notavelmente próximo à representação de Hércules por Sêneca.</p>
<p>Aprofundando a conexão entre o episódio de Sagunto, que apresenta seu fundador e protetor Hércules, e o <italic>Hércules no Eta</italic> de pseudo-Sêneca, encontra-se a passagem final nas <italic>Púnicas </italic>2:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>At uos, sidereae, quas nulla aequauerit aetas,</verse-line>
<verse-line>ite, decus terrarum, animae, uenerabile uulgus,</verse-line>
<verse-line>Elysium et castas sedes decorate piorum.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Mas vós, almas estelares, que nenhuma era igualará,</verse-line>
<verse-line>ide, glória do mundo, venerável multidão, para o</verse-line>
<verse-line>Elísio e trazei honra às moradas castas dos piedosos.</verse-line>
<attrib>(Sil. <italic>Pun</italic>. 2.696-8, ed. Delz, 1987, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Os saguntinos são descritos como <italic>sidereae animae</italic> (“almas estelares”), o que remete à passagem do <italic>Hércules no Eta</italic> em que Hércules fala após ascender às estrelas:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Quid me tenentem regna siderei poli				1940</verse-line>
<verse-line>caeloque tandem redditum planctu iubes</verse-line>
<verse-line>sentire fatum? Parce: iam uirtus mihi</verse-line>
<verse-line>n astra et ipsos fecit ad superos iter.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Por que, quando ocupo os reinos do céu estrelado,</verse-line>
<verse-line>finalmente restituído ao céu, me ordenas, com teu lamento,</verse-line>
<verse-line>sentir minha morte? Basta! Pois agora a virtude forjou</verse-line>
<verse-line>meu caminho para as estrelas e os próprios deuses.</verse-line>
<attrib>([Sen.] <italic>Herc. Oet</italic>. 1940-3, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Aqui, nessa passagem do <italic>Hércules no Eta</italic>, Hércules alude à sua morada nos <italic>regna siderei poli </italic>(“os reinos do céu estrelado”), uma formulação que ressoa com a referência a <italic>siderae animae</italic> (“almas estelares”) nas <italic>Púnicas </italic>2.696-7 (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref26">Vignola, 2023</xref>, p. 98-9). Essa alusão nas <italic>Púnicas </italic>ao <italic>Hércules no Eta </italic>sugere que a tragédia precede a epopeia de Sílio Itálico, uma vez que é difícil imaginar que o autor (ou autores) do <italic>Hércules no Eta</italic> pudesse(m) ter sido suficientemente inspirado(s) e influenciado(s) pela referência siliana a ponto de incorporá-la na tragédia (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref26">Vignola, 2023</xref>, p. 95). Parece mais plausível que a sensibilidade de Sílio à força emocional dos textos trágicos de Sêneca – os quais eram passíveis de encenação e, sem dúvida, efetivamente representados nos palcos (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref5">Boyle, 1997</xref>, p. 10-2; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref8">Davis, 2003</xref>, p. 22-7) – tenha levado o epicista a adotar algumas das mesmas estratégias de Sêneca (e de pseudo-Sêneca), conferindo assim à sua narrativa épica uma intensidade trágica acentuada.</p>
<p>
<bold>Aníbal</bold>
</p>
<p>Além de Sílio Itálico utilizar a tragédia senequiana e pseudo-senequiana para algumas de suas representações temáticas e imagéticas no episódio de Sagunto (e em outras partes das <italic>Púnicas</italic>), algumas tragédias de Sêneca servem de inspiração para alguns personagens – ou, ao menos, tipos de personagens – de Sílio, especialmente no episódio de Sagunto, como, por exemplo, a figura do tirano, especificamente Aníbal e Asdrúbal. Em determinados trechos das <italic>Púnicas</italic>, o próprio Aníbal revela uma caracterização que o relaciona ao modelo de tirano senequiano, sendo ele movido pelo <italic>furor</italic>, pelo desejo de violência e pelo destino inexorável de vencer e se perpetuar. A intertextualidade revela-se aqui na maneira como Sílio se apropria de determinados mecanismos presentes nas tragédias de Sêneca para dar forma ao protagonista de seu próprio drama histórico. Nas <italic>Púnicas </italic>como um todo, Aníbal incorpora tanto atributos admiráveis quanto qualidades autodestrutivas (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref23">Stocks, 2014</xref>, <italic>passim</italic>), mas é de maneira particularmente evidente que ele reflete uma semelhança com os heróis trágicos de Sêneca, especificamente com a figura do tirano (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref25">Vignola, 2022</xref>, p. 252).</p>
<p>Em termos de reminiscências gerais, Aníbal, referido como <italic>tyrannus </italic>precisamente no mesmo verso (v. 239) dos livros 1 e 2 das <italic>Púnicas</italic>, evoca o tirano da tragédia senequiana nesses dois primeiros livros programáticos das <italic>Púnicas </italic>pela sua <italic>húbris</italic>, pelo desafio aos deuses, pela crueldade, pela brutalidade, pela ambição implacável e pela autodestruição, bem como obsessão pela vingança. As figuras e os episódios envolvendo personagens tirânicos na tragédia senequiana são numerosos.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref>
</sup> Embora seus motivos difiram dos de Aníbal, os tiranos Atreu no <italic>Tiestes</italic>, Lico no<italic> Hércules furioso</italic> e Nero na <italic>Otávia </italic>pseudo-senequiana evocam Aníbal por meio de suas diversas manifestações de crueldade, pela falta de misericórdia e pela adoção da destruição como meio para alcançar seus objetivos.</p>
<p>Em alguns trechos nas <italic>Púnicas </italic>1, Sílio emprega metáforas marítimas ao descrever Aníbal. Na primeira dessas passagens, Aníbal é comparado no campo de batalha em Sagunto a uma torrente de ondas e vento:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>praecipiti dant tela uiam, dant signa uirique,	465</verse-line>
<verse-line>atque ambae trepidant acies; iacit igneus hastae</verse-line>
<verse-line>dirum lumen apex, ac late fulgurat umbo,</verse-line>
<verse-line>talis ubi Aegaeo surgente ad sidera ponto</verse-line>
<verse-line>per longum uasto Cauri cum murmure fluctus</verse-line>
<verse-line>suspensum in terras portat mare, frigida nautis	470</verse-line>
<verse-line>corda tremunt; sonat ille procul flatuque tumescens</verse-line>
<verse-line>curuatis pauidas tramittit Cycladas undis.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Armas, estandartes e homens cederam seu caminho ao homem</verse-line>
<verse-line>[Aníbal], e as linhas de batalha tremeram. A ponta da lança</verse-line>
<verse-line>flamejante lançou uma luz terrível, e seu escudo brilhou por</verse-line>
<verse-line>toda parte. Assim, quando o mar Egeu sobe até as estrelas, e ao</verse-line>
<verse-line>longo da costa, com o poderoso rugido do vento noroeste, ondas</verse-line>
<verse-line>carregam à terra o mar acumulado. Os corações dos marinheiros</verse-line>
<verse-line>se tornam frios e tremem; de longe, o vento soa, inchando com</verse-line>
<verse-line>rajadas, atravessa as Cíclades assustadas com ondas arqueadas.</verse-line>
<attrib>(Sil. <italic>Pun</italic>. 1.465-71, ed. Delz, 1987, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Um pouco mais adiante nas <italic>Púnicas </italic>1, o embaixador cartaginês Sícoris faz alusão a Aníbal e seu exército como <italic>spumeus hic… fluctus</italic> (“esta onda espumante”, 1.646), embora Sílio misture suas metáforas ao fazer Sícoris referir-se a ele também como <italic>nascentem</italic>… <italic>flammam </italic>(“a chama que ascende”, 1.651):</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>spumeus hic, medio qui surgit ab aequore fluctus,</verse-line>
<verse-line>si prohibere piget, uestras effringet in urbes.</verse-line>
<verse-line>an tanti pretium motus ruptique per enses</verse-line>
<verse-line>foederis hoc iuueni iurata in bella ruenti</verse-line>
<verse-line>creditis, ut statuat superatae iura Sagunto?		650</verse-line>
<verse-line>ocius ite, uiri, et nascentem extinguite flammam,</verse-line>
<verse-line>ne serae redeant post aucta pericula curae.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Esta onda espumante, que se ergue no meio do mar, se estiverdes</verse-line>
<verse-line>com preguiça de detê-la, arremessará contra as vossas cidades.</verse-line>
<verse-line>Ou acreditais que esta recompensa da grande insurreição e a quebra</verse-line>
<verse-line>do tratado por espadas, pelo jovem [Aníbal], apressado na guerra</verse-line>
<verse-line>que jurou travar, é estabelecer leis sobre Sagunto conquistada?	650</verse-line>
<verse-line>Ide rapidamente, homens, e apagai a chama que ascende, para que</verse-line>
<verse-line>o mal não retorne mais tarde, após os perigos terem aumentado.</verse-line>
<attrib>(Sil. <italic>Pun</italic>. 1.646-652, ed. Delz, 1987, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>O uso de metáforas marítimas por Sílio ecoa a assimilação de Atreu e Tiestes, feita pela Fúria no <italic>Tiestes </italic>de Sêneca, a mares turbulentos delimitados pelo istmo de Corinto (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref19">Manolaraki, 2010</xref>, p. 300, n. 52):</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>… et qui fluctibus</verse-line>
<verse-line>illine propinquis Isthmos atque illinc fremit</verse-line>
<verse-line>uicina gracili diuidens terra uada,</verse-line>
<verse-line>longe remotos litus exaudit sonos.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>… e onde, de um lado e de outro,</verse-line>
<verse-line>o istmo ruge com as ondas vizinhas, separando</verse-line>
<verse-line>mares próximos por um estreito cordão de terra,</verse-line>
<verse-line>enquanto a costa mal ouve os sons distantes.</verse-line>
<attrib>(Sen. <italic>Thy</italic>. 111-4, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>O senso de invencibilidade de Aníbal e a rejeição da autoridade dos deuses nas <italic>Púnicas </italic>1 são retratados de maneira vívida quando ele jura destruir Roma (v. 114-9). De maneira semelhante, no <italic>Tiestes</italic>, Atreu, em sua busca por vingança, ignora a vontade dos deuses e age como se estivesse acima do julgamento divino. Durante o cerco de Sagunto nas <italic>Púnicas </italic>2, Aníbal não mostra misericórdia, e sua crueldade é destacada quando ele coloca fogo em Sagunto e massacra seus habitantes (v. 650 et seq.). Da mesma forma, no <italic>Tiestes</italic>, Atreu busca infligir o máximo de destruição e sofrimento ao seu inimigo pessoal, Tiestes.</p>
<p>Aníbal está ciente do poder potencialmente destrutivo das emoções, especificamente da <italic>ira</italic>, como demonstrado em sua declaração preventiva no início das <italic>Púnicas </italic>2:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>notum, quid caede calentibus armis,</verse-line>
<verse-line>quantum irae liceat, motusue quid audeat ensis.</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>Sabe-se o que é permitido às armas em brasa de sangue,</verse-line>
<verse-line>quanto consente a fúria, ou o que ousa a espada desembainhada.</verse-line>
<attrib>(Sil. <italic>Pun</italic>. 2.21-2, ed. Delz, 1987, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Essa formulação, segundo Bernstein (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref3">2017</xref>, p. 55 <italic>ad </italic>2.21-2), não é apenas ciceroniana e lucaniana, mas também senequiana:</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>arma non seruant modum;</verse-line>
<verse-line>nec temperari facile nec reprimi potest</verse-line>
<verse-line>stricti ensis ira, bella delectat cruor.				405</verse-line>
</verse-group>
</p>
<p>
<verse-group>
<title/>
<verse-line>As armas não conhecem limites; nem a ira de</verse-line>
<verse-line>uma espada desembainhada pode ser facilmente contida</verse-line>
<verse-line>ou controlada. A guerra se deleita no sangue derramado.</verse-line>
<attrib>(Sen. <italic>Herc. Fur</italic>. 403-5, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)</attrib>
</verse-group>
</p>
<p>Nessa passagem do <italic>Hércules furioso</italic>, de Sêneca, Lico faz referência à sua perpetração de violência, expressa no assassinato do rei tebano Creonte, elucidando assim as consequências pessoais e políticas da <italic>ira </italic>desenfreada. O contexto é notavelmente distinto daquele do episódio de Sagunto, no qual Aníbal, de maneira estratégica, alavanca sua explicação sobre as consequências bélicas da <italic>ira </italic>como uma ameaça de violência contra os enviados romanos.</p>
<p>A figura trágica de Aníbal nas <italic>Púnicas </italic>também complementa, do lado romano, o papel de um demagogo como Varrão (cf. <italic>Pun</italic>. 8.243 et seq.), cuja ambição, oportunismo e imprudência servem como presságios de desastres militares e conflitos civis em Roma (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref11">Dominik, 2003</xref>, p. 492-3;<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref12"> Dominik, 2006</xref>, p. 114-25 <italic>passim</italic>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref14">Dominik, 2018</xref>, p. 280-4). Aníbal, Varrão e Lico compartilham a <italic>húbris</italic>, a <italic>hamartía </italic>que transforma ambição em destruição: Lico pela usurpação violenta em Tebas; Aníbal ao manipular a <italic>ira </italic>como arma contra Roma; e Varrão ao precipitar o desastre de Canas com sua imprudência populista. Em todos, a busca desenfreada pelo poder leva a consequências trágicas, refletindo o descompasso entre ambição e destino.</p>
<p>
<bold>Conclusão</bold>
</p>
<p>Considerando que Sílio Itálico intensifica os aspectos trágicos de sua narrativa épica por meio de uma intertextualidade densa – apropriando-se, transformando e ressignificando mecanismos temáticos, imagéticos e lexicais das tragédias de Sêneca, o Jovem –, é plausível supor que o público romano tenha reconhecido esses elementos como parte de um diálogo literário compartilhado. De fato, a prevalência de ecos senequianos, como a frequente invocação de <italic>flamma </italic>e a caracterização de Aníbal como um tirano trágico, sugere que os leitores contemporâneos teriam apreciado essa intertextualidade complexa, aprofundando assim seu envolvimento com as <italic>Púnicas </italic>enquanto obra que dialoga simultaneamente com a épica e a tragédia. As reminiscências senequianas nas <italic>Púnicas </italic>manifestam-se não apenas em imagens como <italic>furor</italic>, <italic>ira</italic>, <italic>flamma</italic>, <italic>sanguis</italic>, <italic>cruor </italic>e <italic>caesi artu</italic>s, mas também na construção da figura tirânica e em diversos elementos estilísticos, como metáforas dramáticas e <italic>sententiae</italic>. Com esses recursos poéticos, Sílio confere ao episódio de Sagunto uma profundidade trágica e, ao mesmo tempo, estabelece um diálogo inovador com a poética de Sêneca, posicionando assim as <italic>Púnicas</italic>, do ponto de vista genérico, dentro da ampla tradição da literatura romana.</p>
<p>A fusão de épico e tragédia nas <italic>Púnicas </italic>– sem mencionar o componente histórico – não apenas enfatiza a interação entre diferentes gêneros, mas também evidencia como Sílio Itálico constrói sua epopeia de modo a evocar algumas das mesmas emoções e conflitos centrais das tragédias de Sêneca. Por conseguinte, as <italic>Púnicas </italic>emergem como um texto complexo que transcende a mera narrativa histórica ao infundir a história do passado de Roma com as dimensões psicológicas e existenciais características da tragédia senequiana. Esta análise contribui para a compreensão da hibridização genérica e da recepção das tragédias de Sêneca nas <italic>Púnicas</italic>, ampliando os debates sobre a complexa interação entre formas literárias e contextos culturais no período flaviano. Sílio Itálico oferece uma reflexão pungente sobre a condição humana no vasto panorama da história romana, convidando o leitor a experimentar a epopeia não apenas como narrativa, mas como uma vivência dramática carregada de tensões morais, emocionais e políticas.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref>
</sup>
</p>
</sec>
</body>
<back>
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<article-title>Hannibal at the Gates: Programmatising Rome and Romanitas in Silius Italicus, Punica 1 and 2</article-title>
<source>Flavian Rome. Culture, Image, Text</source>
<year>2003</year>
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<mixed-citation publication-type="book">DOMINIK, William J. Rome Then and Now: Linking Together the Saguntum and Cannae Episodes in Silius Italicus’ Punica. In: NAUTA, Ruurd Robijn; VAN DAM, Harm-Jan; SMOLENAARS, Johannes Jacobus Louis (org.). Flavian Poetry. Leiden: Brill, 2006. p. 113-27.</mixed-citation>
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<surname>DOMINIK</surname>
<given-names>William J.</given-names>
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<article-title>Rome Then and Now: Linking Together the Saguntum and Cannae Episodes in Silius Italicus’ Punica</article-title>
<source>Flavian Poetry</source>
<year>2006</year>
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<mixed-citation publication-type="book">DOMINIK, William J. The Reception of Silius Italicus in Modern Scholarship. In: AUGOUSTAKIS, Antony (org.). Brill’s Companion to Silius Italicus. Leiden: Brill, 2010. p. 425-47.</mixed-citation>
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<article-title>The Reception of Silius Italicus in Modern Scholarship</article-title>
<source>Brill’s Companion to Silius Italicus</source>
<year>2010</year>
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<mixed-citation publication-type="book">DOMINIK, William J. Civil War, Parricide, and the Sword in Silius Italicus’ Punica. In: GINSBERG, Laura Donovan; KRASNE, Darcy Anne (org.). After 69 CE. Writing Civil War in Flavian Rome. Berlim: De Gruyter, 2018. p. 271-93.</mixed-citation>
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<given-names>William J.</given-names>
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<article-title>Civil War, Parricide, and the Sword in Silius Italicus’ Punica</article-title>
<source>After 69 CE. Writing Civil War in Flavian Rome</source>
<year>2018</year>
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<mixed-citation publication-type="book">FERRI, Rolando (ed.). Octavia: A Play Attributed to Seneca. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.</mixed-citation>
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<surname>FERRI</surname>
<given-names>Rolando</given-names>
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<source>Octavia: A Play Attributed to Seneca</source>
<year>2003</year>
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<mixed-citation publication-type="journal">FUCECCHI, Marco. Irarum proles: Un figlio de Annibale nei Punica di Silio Italico. Maia, v. 44, p. 45-54, 1990.</mixed-citation>
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<surname>FUCECCHI</surname>
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<article-title>Irarum proles: Un figlio de Annibale nei Punica di Silio Italico</article-title>
<source>Maia</source>
<year>1990</year>
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<mixed-citation publication-type="book">GANIBAN, Randall T. Virgil’s Dido and the Heroism of Hannibal in Silius’ Punica. In: AUGOUSTAKIS, Antony (org.). Brill’s Companion to Silius Italicus. Leiden: Brill, 2010. p. 73-98.</mixed-citation>
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<surname>GANIBAN</surname>
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<article-title>Virgil’s Dido and the Heroism of Hannibal in Silius’ Punica</article-title>
<source>Brill’s Companion to Silius Italicus</source>
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<mixed-citation publication-type="book">HULLS, Jean-Michel. A Last Act of Love? Suicide and Civil War as Tropes in Silius Italicus’s Punica and Josephus’s Bellum Judaicum. In: GINSBERG, Lauren Donovan; KRASNE, Darcy A. (org.). After 69 CE. Writing Civil War in Flavian Rome. Berlim: De Gruyter, 2018. p. 321-40.</mixed-citation>
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<surname>HULLS</surname>
<given-names>Jean-Michel</given-names>
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<article-title>A Last Act of Love? Suicide and Civil War as Tropes in Silius Italicus’s Punica and Josephus’s Bellum Judaicum</article-title>
<source>After 69 CE. Writing Civil War in Flavian Rome</source>
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<mixed-citation publication-type="book">MANOLARAKI, Eleni. Silius’ Natural History: Tides in the Punica. In: AUGOUSTAKIS, Antony (org.). Brill’s Companion to Silius Italicus. Leiden: Brill, 2010. p. 293-321.</mixed-citation>
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<surname>MANOLARAKI</surname>
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<article-title>Silius’ Natural History: Tides in the Punica</article-title>
<source>Brill’s Companion to Silius Italicus</source>
<year>2010</year>
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<mixed-citation publication-type="journal">NATIVIDADE, Everton da Silva. A Tisífone de Sílio Itálico: Púnicas 2.526-52. Classica, v. 23, n. 1, p. 99-116, 2010.</mixed-citation>
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<surname>NATIVIDADE</surname>
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<article-title>A Tisífone de Sílio Itálico: Púnicas 2.526-52</article-title>
<source>Classica</source>
<year>2010</year>
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<mixed-citation publication-type="book">SENECA. L. Annaei Senecae tragoediae. Edição de Rudolf Peiper e Gustav Richter. Leipzig: Teubner, 1902.</mixed-citation>
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<surname>SENECA</surname>
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<source>Annaei Senecae tragoediae</source>
<year>1902</year>
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<mixed-citation publication-type="book">SILIUS ITALICUS. Punica. Edição de Josef Delz. Stuttgart: Teubner, 1987.</mixed-citation>
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<surname>SILIUS ITALICUS</surname>
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<source>SILIUS ITALICUS. Punica</source>
<year>1987</year>
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<mixed-citation publication-type="book">STOCKS, Claire. The Roman Hannibal. Remembering the Enemy in Silius Italicus’ Punica. Liverpool: Liverpool University Press, 2014.</mixed-citation>
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<surname>STOCKS</surname>
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<source>The Roman Hannibal. Remembering the Enemy in Silius Italicus’ Punica</source>
<year>2014</year>
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<mixed-citation publication-type="journal">STOCKS, Claire. Anger in the Extreme? Ira, Excess, and the Punica. Phoenix, v. 72, p. 293-311, 2018.</mixed-citation>
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<surname>STOCKS</surname>
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<article-title>Anger in the Extreme? Ira, Excess, and the Punica</article-title>
<source>Phoenix</source>
<year>2018</year>
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<mixed-citation publication-type="journal">VIGNOLA, Diletta. Imparare dai peggiori: Il modello dei tiranni senecani nei Punica di Silio Italico. La Biblioteca di Classico Contemporaneo, v. 14, p. 247-59, 2022.</mixed-citation>
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<surname>VIGNOLA</surname>
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<article-title>Imparare dai peggiori: Il modello dei tiranni senecani nei Punica di Silio Italico</article-title>
<source>La Biblioteca di Classico Contemporaneo</source>
<year>2022</year>
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<mixed-citation publication-type="thesis">VIGNOLA, Diletta. Seneca tragico, Seneca epico: La ricezione del teatro senecano nei poemi epici di età flavia. 2023. 210 f. Tese (Doutorado em Literaturas e Culturas Clássicas e Modernas) – Escola de Ciências Humanísticas, Universidade de Gênova, Gênova, 2023.</mixed-citation>
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<surname>VIGNOLA</surname>
<given-names>Diletta</given-names>
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<source>Seneca tragico, Seneca epico: La ricezione del teatro senecano nei poemi epici di età flavia.</source>
<year>2023</year>
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<title>Notas</title>
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<label>
<sup>1</sup>
<underline/>
</label>
<p>Conferência apresentada em 24 de fevereiro de 2025 para o 6º Ciclo de debates do CirceA, na Universidade Federal de Juiz de Fora. Uma versão anterior foi apresentada em 19 de setembro de 2024, no congresso sobre “Greek and Roman Tragedy in Flavian Epic Poetry: Exploring Intersections, Influences and Adaptations Through Literature and Material Culture”, na Academia de Atenas e Universidade Nacional e Kapodistríaca de Atenas. Gostaria de manifestar meus sinceros agradecimentos às organizadoras deste congresso, doutora Angeliki N. Roumpou (Academia de Atenas) e professora doutora Sophia Papaioannou (Universidade Nacional e Kapodistríaca de Atenas), pela oportunidade de participar deste evento.</p>
</fn>
<fn id="fn2" fn-type="other">
<label>
<sup>2</sup>
</label>
<p>Sobre a recepção de Sílio Itálico na investigação moderna, ver Dominik (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref13">2010</xref>).</p>
</fn>
<fn id="fn3" fn-type="other">
<label>
<sup>3</sup>
</label>
<p>Dominik (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref11">2003</xref>) menciona a ideia de que o episódio de Sagunto funciona de maneira programática para toda a obra <italic>Púnicas</italic>. Stocks (2018) argumenta que a ira e as imagens violentas do episódio de Sagunto reiteram-se ao longo da épica. O tratamento de Stocks (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref24">2018</xref>) sobre o episódio de Sagunto, incluindo Aníbal, preocupa-se com a <italic>ira </italic>e suas conexões com a filosofia senequiana, e não com as tragédias de Sêneca, que é o foco desta discussão, embora ela reconheça que “Silius was influenced by Senecan tragedy” (p. 299, n. 22).</p>
</fn>
<fn id="fn4" fn-type="other">
<label>
<sup>4</sup>
</label>
<p>Todos os textos citados contêm pequenas alterações na ortografia, na capitalização de letras e na pontuação.</p>
</fn>
<fn id="fn5" fn-type="other">
<label>
<sup>5</sup>
</label>
<p>Sobre Aníbal nas <italic>Púnicas</italic>, ver Dibbern (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref10">2017</xref>).</p>
</fn>
<fn id="fn6" fn-type="other">
<label>
<sup>6</sup>
</label>
<p>Numa apresentação no dia 20 de setembro de 2024, durante o congresso “Greek and Roman Tragedy in Flavian Epic Poetry”, em Atenas, Francesco Cannizzaro chamou atenção, independentemente das minhas observações apresentadas neste artigo no mesmo congresso, para a relevância do <italic>Tiestes</italic>, de Sêneca, bem como do <italic>Hércules furioso</italic>, também de Sêneca, e do <italic>Hércules no Eta</italic>, de pseudo-Sêneca, na leitura das <italic>Púnicas </italic>1-2.</p>
</fn>
<fn id="fn7" fn-type="other">
<label>
<sup>7</sup>
</label>
<p>Ira: <italic>Pun</italic>. 1.17, 38, 101, 147, 169, 410, 451, 515, 690; <italic>furor</italic>: <italic>Pun</italic>. 2.22, 45, 55, 139, 203, 208, 239, 242, 280, 328, 529, 539, 563, 619, 672.</p>
</fn>
<fn id="fn8" fn-type="other">
<label>
<sup>8</sup>
</label>
<p>Sobre o retrato de Tisífone nas <italic>Púnicas</italic>, ver Natividade (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref20">2010</xref>).</p>
</fn>
<fn id="fn9" fn-type="other">
<label>
<sup>9</sup>
</label>
<p>Antoniadis (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref1">2023</xref>, p. 121; cf. p. 124) afirma que os temas de resistência, loucura e suicídio intrafamiliar se manifestam tanto no episódio de Sagunto como na obra <italic>Hércules furioso</italic>, de Sêneca.</p>
</fn>
<fn id="fn10" fn-type="other">
<label>
<sup>10</sup>
</label>
<p>Cf. Bernstein (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref3">2017</xref>, p. 250 <italic>ad </italic>609-31), que cita referências a uma Fúria no <italic>Hércules furioso</italic> (87-8, 982), no <italic>Tiestes </italic>(96-7) e na <italic>Medeia </italic>(961-2) ao discutir Tisífone.</p>
</fn>
<fn id="fn11" fn-type="other">
<label>
<sup>11</sup>
</label>
<p>Minhas observações baseiam-se em pesquisas realizadas com o uso de <italic>Tesserae</italic> (https://tesserae.caset.buffalo.edu/), tendo as tragédias de Sêneca e pseudo-Sêneca como textos-fonte e as <italic>Púnicas </italic>como texto-alvo. Defino uma correspondência como uma pontuação perfeita em <italic>Tesserae</italic>, equivalente a 10, e uma quase correspondência como uma pontuação de 9. Apesar das limitações de <italic>Tesserae</italic>, que pode deixar de lado aspectos qualitativos da intertextualidade, a ferramenta ainda pode ajudar a revelar conexões entre textos que possam ser difíceis de perceber em análises tradicionais.</p>
</fn>
<fn id="fn12" fn-type="other">
<label>
<sup>12</sup>
</label>
<p>Esse valor representa trinta por cento das correspondências (ou seja, uma pontuação de <italic>Tesserae </italic>de 10) que ocorrem ao utilizar as tragédias de Sêneca e pseudo-Sêneca como textos-fontes e as <italic>Púnicas </italic>como texto-alvo.</p>
</fn>
<fn id="fn13" fn-type="other">
<label>
<sup>13</sup>
</label>
<p>Fucecchi (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref16">1990</xref>) propõe com cautela que certos elementos das <italic>Troianas</italic>, de Sêneca, possam ter influenciado a maneira como Silio Itálico representa o filho de Aníbal e Imilce nas <italic>Púnicas</italic>.</p>
</fn>
<fn id="fn14" fn-type="other">
<label>
<sup>14</sup>
</label>
<p>Os números são baseados na minha própria contagem.</p>
</fn>
<fn id="fn15" fn-type="other">
<label>
<sup>15</sup>
</label>
<p>Flammae: <italic>Pun</italic>. 1.55, 103, 174, 320, 357, 543, 654; 2.268, 316, 514, 536, 586, 630, 663, 680; <italic>ignis</italic>: <italic>Pun</italic>. 1.96, 115, 135, 171, 254, 359, 430, 462, 466, 503, 602, 627; 2.586; cf. <italic>incendia </italic>(e formas variantes): 2.358, 370, 664.</p>
</fn>
<fn id="fn16" fn-type="other">
<label>
<sup>16</sup>
</label>
<p>Bernstein (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205009_ref4">2021</xref>, p. 34-5, 37) discute o tirano trágico na tragédia senequiana com referência às <italic>Púnicas</italic>, fazendo breves menções ou observações sobre Atreu (p. 34, 37), Liceu (p. 34) e Medeia (p. 35, 37).</p>
</fn>
<fn id="fn17" fn-type="other">
<label>
<sup>17</sup>
</label>
<p>Gostaria de expressar meu profundo agradecimento à minha colega, professora doutora Charlene Martins Miotti (Universidade Federal de Juiz de Fora), e ao meu cunhado, professor doutor Ubirajara de Oliveira Barroso Júnior (Universidade Federal da Bahia), pela revisão e aperfeiçoamento da minha expressão em português. Registro ainda meus agradecimentos à Lorena Lopes (Universidade Federal do Rio de Janeiro), à professora doutora Júlia Batista Castilho de Avellar (Universidade Federal de Uberlândia), ao professor doutor Daniel Falkemback Ribeiro (Universidade Federal da Bahia), bem como aos pareceristas anônimos, pelas valiosas sugestões construtivas.</p>
</fn>
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