Resumo: As Púnicas, de Sílio Itálico, frequentemente consideradas desconectadas das tragédias de Sêneca (e pseudo-Sêneca), revelam, por meio de sua exploração de temas, imagens e léxico, uma relação intertextual notável com essas obras. As Púnicas incorporam elementos como o intenso conflito psicológico, o determinismo fatalista e a força destrutiva das emoções, especialmente a ira (“ira”) e o furor (“fúria”), que moldam tanto as ações dos personagens como a narrativa. Esses elementos e emoções refletem o tom trágico de Sêneca, particularmente em sua abordagem do destino, da vingança e das consequências morais das paixões descontroladas. A conexão entre as Púnicas e a tragédia senequiana (e pseudo-senequiana) é evidente no episódio programático de Sagunto, em que a ira e a violência extrema, além da presença de forças sobrenaturais como a fúria Tisífone, evocam várias tragédias de Sêneca. A simbologia da flamma (“chama”), presente no incêndio de Sagunto e na autoimolação de Tiburna, bem como a figura de Aníbal, com sua crueldade e desafio aos deuses, remetem aos tiranos trágicos de Sêneca, como Atreu. Ao entrelaçar elementos épicos, trágicos e históricos, Sílio oferece uma reflexão significativa sobre a condição humana que é profundamente enraizada na tradição literária romana.
Palavras-chave: Sílio Itálico, Púnicas, Sêneca, tragédia senequiana, Sagunto.
Abstract: The Punica of Silius Italicus, often regarded as being disconnected from the tragedies of Seneca (and pseudo-Seneca), reveals a remarkable intertextual relationship with these works through its use of Senecan themes, images and lexis. The Punica incorporates elements such as intense psychological conflict, fatalistic determinism, and the destructive power of emotions, particularly ira (“anger”) anger and furor (“fury”), which shape both the actions of the characters and the narrative itself. These elements and emotions reflect the tragic tone of Seneca, particularly in his treatment of fate, revenge, and the moral consequences of uncontrolled passions. The connection between the Punica and Senecan (and pseudo-Senecan) tragedy is evident in the programmatic episode of Saguntum, where rage and extreme violence, alongside the presence of supernatural forces such as the Fury Tisiphone, evoke several of Seneca’s tragedies. The symbolism of flamma (“flame”), present in the burning of Saguntum and in Tiburna’s self-immolation, as well as the figure of Hannibal, with his cruelty and defiance of the gods, evoke the tragic tyrants of Seneca, such as Atreus. By interweaving epic, tragic, and historical elements, Silius offers a profound reflection upon the human condition that is deeply rooted within the Roman literary tradition.
Keywords: Silius Italicus, Punica, Seneca, Senecan tragedy, Saguntum.
Artigos
Elementos das tragédias de Sêneca nas Púnicas de Sílio Itálico1
Elements of the tragedies of Seneca in the Punica of Silius Italicus
Recepción: 22 Marzo 2025
Aprobación: 08 Agosto 2025
Apesar da identificação de vínculos da tragédia senequiana com a épica flaviana, as descobertas são modestas, e o tema exige uma investigação mais aprofundada para compreender se, como e em que medida as tragédias de Sêneca, o Jovem, de forma coletiva ou individual, funcionam como intermediárias entre a tragédia grega e a épica flaviana ou, como acrescentaria, simplesmente como um canal direto, por assim dizer, para as Púnicas de Sílio Itálico.2 Peter Davis (2016, p. 57, n. 1) afirma que as Púnicas não parecem se envolver de maneira significativa com a tragédia senequiana. Contudo, a épica exibe uma relação intertextual temática, imagética e lexical com as tragédias de Sêneca, como sugerido no episódio programático inicial das Púnicas nos livros 1 e 2. É importante destacar que essa abordagem intertextual evidencia um diálogo compartilhado entre as Púnicas e a tragédia senequiana.
A intertextualidade, neste contexto, refere-se ao modo como Sílio Itálico reelabora, ressignifica e se apropria de determinados mecanismos poéticos, imagéticos e temáticos das tragédias de Sêneca. Assim, Sílio não realiza uma mera imitação, mas revela uma consciência literária compartilhada que reforça tanto o caráter trágico de sua narrativa quanto a densidade histórica e psicológica de seus personagens. As Púnicas ecoam temas, motivos, imagens e frases senequianas, particularmente em sua representação, entre outros, de emoção intensa, conflito psicológico, determinismo fatalista, vingança e desespero como forças motrizes dentro da narrativa. Os personagens de Sílio, por vezes, refletem o tumulto interno característico dos protagonistas senequianos, no qual emoções como furor (“fúria”) e ira (“ira”) desempenham papéis cruciais na formação de suas ações e no desenrolar dos eventos.
O episódio de Sagunto
O espetáculo de furor e ira é particularmente evidente nos dois primeiros livros programáticos das Púnicas, no episódio de Sagunto, embora haja outros episódios (como Canas, Zama e Cápua) que também apresentam manifestações dessas emoções. O episódio programático das Púnicas não apenas fornece diretrizes e estabelece o tom para a leitura e a compreensão da epopeia como um todo, mas também estabelece o modo narrativo principal pelo qual Sílio Itálico epiciza o passado para representar a realidade contemporânea de Roma, apresenta ao leitor os principais temas e figuras e se conecta com outras cenas da obra (cf. Dominik, 2003; Stock, 2018).3 Este aspecto programático aplica-se também ao tema desta discussão, visto que o episódio de Sagunto contém ecos da tragédia senequiana que reverberam ao longo de todas as Púnicas. A violência, o furor e a ira que permeiam a destruição de Sagunto representam uma apropriação de determinados mecanismos trágicos presentes nas peças de Sêneca, que se configura como modelo para a representação da tragédia na narrativa épica.
Consistente com esse aspecto programático, a ira surge no final da introdução de Sílio às Púnicas:
tantarum causas irarum odiumque perenni
seruatum studio et mandata nepotibus arma
fas aperire mihi superasque recludere mentes.
iamque adeo magni repetam primordia motus. 20
As causas de tamanha ira, o ódio preservado
com zelo eterno, as armas legadas aos descendentes –
é-me lícito abrir os céus e desvendar as mentes divinas.
E agora, irei traçar as origens de tão grande tumulto.
Fuente: (Sil. Pun. 1.17-20, ed. Delz, 1987,4 tradução minha)
Essa passagem inicial das Púnicas destaca a ira e o ódio como forças centrais do conflito, com um caráter programático que define o tom da obra. Sílio sugere que a guerra é movida por uma ira eterna e herdada, que não é apenas uma emoção temporária, mas uma força contínua que molda a história. Ao focar nesse tema desde o início, o epicista estabelece que o conflito é determinado tanto por forças políticas e históricas quanto emocionais persistentes. Essa ira, que é a emoção programática, por assim dizer, das Púnicas, é quase imediatamente seguida de referência a Aníbal:5
… iterum instaurata capessens 35
arma remolitur; dux omnia sufficit unus
turbanti terra pontumque mouere paranti.
iamque deae cunctas sibi belliger induit iras
Hannibal (hunc audet solum componere fatis),
sanguineo tum laeta uiro atque in regna Latini 40
turbine mox saeuo uenientum haud inscia cladum
“intulerit Latio, spreta me, Troius” inquit
“exul Dardaniam et, bis numina capta, penates
sceptraque fundarit uictor Lauinia Teucris,
dum Romana tuae, Ticine, cadauera ripae 45
non capiant, Simoisque mihi per Celtica rura
sanguine Pergameo Trebia et stipantibus armis
corporibusque uirum retro fluat, ac sua largo
stagna reformidet Thrasymennus turbida tabo,
dum Cannas, tumulum Hesperiae, campumque cruore 50
Ausonio mersum sublimis Iapyga cernam
teque uadi dubium coeuntibus, Aufide, ripis
per clipeos galeasque uirum caesosque per artus
uix iter Hadriaci rumpentem ad litora ponti”.
haec ait ac iuuenem facta ad Mauortia flammat. 55
ingenio motus auidus fideique sinister
is fuit, exsuperans astu, sed deuius aequi.
armato nullus diuum pudor, improba uirtus
et pacis despectus honos, penitusque medullis
sanguinis humani flagrat sitis. his super aeui 60
flore uirens auet Aegates abolere, parentum
dedecus, ac Siculo demergere foedera ponto.
dat mentem Iuno ac laudum spe corda fatigat.
… E então [Juno] ergueu novamente as armas e 35
tentou mais uma vez. Um único líder [Aníbal] foi tudo o
que ela precisou, enquanto abalava a terra e preparava-se para
agitar o mar. Agora, o guerreiro Aníbal vestia toda a ira da
deusa. Juno ousou enfrentá-lo sozinho contra o destino.
Regozijando-se naquele homem sanguinário e ciente do turbilhão 40
selvagem da destruição que se abateria sobre o reino latino, falou:
“O exilado troiano [Eneias], me desprezou, trouxe Troia e os
Penates ao Lácio, deuses já prisioneiros duas vezes. O
conquistador fundou um reino para os Troianos em Lavínio.
Que ele tenha feito isso – desde que as margens do rio Ticino 45
não tenham espaço para os corpos romanos. Que o rio Trébia,
obediente a mim, volte pelas terras celtas, bloqueado pelo sangue
romano, armas e corpos de homens, tornando-se para mim
um rio Simoente de sangue troiano. Que o lago Trasimeno trema
diante de suas próprias águas, turbadas pelo sangue, e 50
eu veja de cima o campo de Canas, túmulo da Itália, e as
planícies iápigias afogadas em sangue romano. O rio Áufido,
duvidoso de seu curso, com suas margens fechando-se, mal
conseguirá passar até a costa Adriática, atravessando
escudos, capacetes e membros decepados de homens.” 55
Com estas palavras, inflamou o jovem Aníbal para a
guerra. Seu espírito, sedento por conflito, hostil à boa
fé, astuto, mas distante da justiça, desdenhava os deuses
quando armado, era valente no mal, desprezava a glória
da paz. A sede de sangue humano queimava em seus 60
ossos e sua juventude desejava apagar a vergonha das
ilhas Égadas, afogar o tratado de paz no mar siciliano. Juno
o guiou e enfureceu seu coração com esperanças de glória.
Fuente: (Sil. Pun. 1.35-63, ed. Delz, 1987, tradução minha)
O efeito desse longo trecho no início das Púnicas é associar programaticamente Aníbal a uma figura cujo destino está entrelaçado com a ira divina. A referência à destruição iminente que se aproxima em turbine... saeua (“turbilhão selvagem”, Pun. 1.41) evoca as imagens violentas e caóticas encontradas na tragédia senequiana, incluindo a frase de Jocasta turbine insano (“turbilhão insano”, Phoen. 420) nas Fenícias, na qual as emoções desenfreadas resultam em consequências devastadoras.
Enquanto o catálogo de derrotas romanas realizado por Juno no extenso trecho citado acima (Pun. 1.35-63) remete às descrições apolônicas (Argon. 4.477-479), lucanianas (Phars. 2.148-159), valerianas (Argon. 2.220-241) e estacianas (Theb. 5.207-261) da mutilação de corpos, as várias referências programáticas a sanguis (“sangue”, Pun. 40, 47, 60; cf. 409), cruor (“sangue”, 50) e caesos artus (“membros decepados”, 53) neste trecho das Púnicas evocam reminiscências programáticas similares de várias tragédias senequianas, por exemplo, no prólogo do Tiestes,6 no qual a deusa Fúria expressa sua intenção de desencadear o caos e o desejo de sangue sobre Atreu, alimentando assim seu desejo de vingança contra Tiestes:
nondum Thyestes liberos deflet suos -
et quando tollet? ignibus iam subditis
spument aena, membra per partes eant 60
discerpta, patruos polluat sanguis focos,
epulae instruantur - non noui sceleris tibi
conuiua uenies. liberum dedimus diem
tuamque ad istas soluimus mensas famem:
ieiunia exple, mixtus in Bacchum cruor 65
spectante te potetur; inueni dapes
quas ipse fugeres - siste, quo praeceps ruis?
Ainda não geme Tiestes por seus filhos? Quando a dor
enfim o consumirá? Agora, pois, que os caldeirões fervam
sobre as chamas, e os corpos sejam retalhados em pedaços. 60
Que o sangue inocente das crianças profane o lar ancestral,
e aprestai o banquete! Não te achegarás a um crime estranho,
mas a um que bem conheces. Hoje, estás livre, tua fome
solta para este festim horrendo. Vai, sacia teu ventre vazio;
contempla, enquanto ele bebe, diante de teus olhos, aquele 65
cocktail de sangue e vinho. Encontrei um banquete que até
tu, se pudesses, evitaria. Basta! Aonde te apressas?
Fuente: (Sen. Thy. 58-67, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)
As palavras sanguis (“sangue”, Pun. 40, 47, 60), cruor (“sangue”, 65) e caesos artus (“membros decepados”, 53), no trecho citado das Púnicas (1.35-63), evocam sanguis (61), cruor (65) e membra … discerpta (60-1) nesse trecho programático do Tiestes de Sêneca. Ambos os trechos garantem que o leitor esteja ciente, desde o início, de que o Tiestes e as Púnicas são mundos nos quais a ira, a fúria e a violência desempenham papéis centrais na configuração dos destinos de indivíduos e impérios. A violência, no caso do Tiestes e das Púnicas, não é apenas uma representação do corpo, mas também da destruição moral e emocional que acompanha o desejo de retribuição. Ambos os textos, ao explorar esses temas, destacam como o sofrimento, ao ser perpetuado, torna-se parte de um destino inevitável, moldando tanto as ações dos personagens como o curso das grandes narrativas históricas.
Um pouco depois da longa citação acima das Púnicas (1.35-63), Amílcar convoca seu filho Aníbal para trazer destruição aos romanos:
gens recidiua Phrygum Cadmeae stirpis alumnos
foederibus non aequa premit. si fata negarint
dedecus id patriae nostra depellere dextra,
haec tua sit laus, nate, uelis. age, concipe bella
latura exitium Laurentibus; horreat ortus 110
iam pubes Tyrrhena tuos, partusque recusent
te surgente, puer, Latiae producere matres.
A raça restaurada dos frígios oprime os descendentes de
Cadmo com tratados injustos. Se o destino não permitir que
minha mão afaste essa vergonha de nossa terra, então, meu
filho, cabe a ti escolher este caminho de glória. Seja rápido em
jurar uma guerra que trará destruição aos romanos; que o povo 110
da Toscana já tema teu nascimento. E quando tu te ergueres,
que as mães latinas se recusem a trazer seus filhos ao mundo.
Fuente: (Sil. Pun. 1.106-12, ed. Delz, 1987, tradução minha)
Essa cena remete a diversos momentos nas tragédias de Sêneca, nos quais uma divindade convoca uma figura humana ou espírito para trazer destruição a outro ser humano ou aos habitantes de uma cidade. Um exemplo notável disso aparece no prólogo do Tiestes, quando a Fúria convoca Tântalo para espalhar ira (“ira”, 26, 39), furor (“fúria”, 27) e rabies (“raiva”, 28), incitando a uiolentia (“violência”, 33) entre seus descendentes:
ne sit irarum modus
pudor ue, mentes caecus instiget furor,
rabies parentum duret et longum nefas
eat in nepotes; nec uacet cuiquam uetus
odisse crimen: semper oriatur nouum, 30
nec unum in uno, dumque punitur scelus
crescat. superbis fratribus regna excidant
repetant que profugos; dubia uiolentae domus
fortuna reges inter incertos labet:
miser ex potente fiat, ex misero potens 35
fluctu que regnum casus assiduo ferat.
Ob scelera pulsi, cum dabit patriam deus
in scelera redeant, sint que tam inuisi omnibus,
quam sibi; nihil sit ira quod uetitum putet.
Que a ira deles não tenha limites, nem vergonha;
que a fúria cega agite suas almas; que a raiva dos pais seja impiedosa,
e que o longo caminho do pecado se estenda até os filhos dos
filhos; que não seja dado tempo a ninguém para odiar os pecados
antigos – que novos sempre surjam, muitos em um, e que o 30
crime, mesmo no meio de seu castigo, aumente. Que os reinos
caiam das mãos de irmãos orgulhosos, e que, por sua vez, chamem
os fugitivos de volta; que a sorte vacilante de um lar de violência,
com reis em mudança, tenda à queda; da potência à miséria, da
miséria ao poder – que isso aconteça, e que o acaso,com suas 35
ondas sempre inquietas, carregue o reino adiante. Por causa dos
crimes exilados, quando deus os trouxer de volta, ao crime que
retornem, e que sejam tão odiosos para todos os homens quanto
para si mesmos; que não haja nada que a ira considere proibido.
Fuente: (Sen. Thy. 26-39, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)
As Púnicas e o Tiestes exploram o ciclo interminável de violência, vingança e sofrimento, em que o destino e a fúria perpetuam o mal através das gerações. Nas Púnicas, Aníbal convoca a destruição sem fim contra os romanos, assim como no Tiestes, as Fúrias incitam Tântalo a espalhar o ódio e a violência (cf. Ganiban, 2010, p. 80, n. 31). Em ambos os textos, o crime e o castigo não cessam, mas se amplificam, tornando impossível escapar do ciclo de destruição.
Nas Púnicas, furor e ira surgem como um motivo central no episódio de Sagunto, sendo o furor relacionado a Aníbal no livro 1 das Púnicas (683) e aos saguntinos no livro 2 (cf. 614-707) e a ira, aos romanos no livro 1 (690). Do ponto de vista lexical, ira e furor aparecem duas dúzias de vezes nos dois primeiros livros programáticos,7 o que é significativo tanto em relação à tradição literária com a qual as Púnicas se relacionam quanto às questões temáticas e históricas que permeiam a própria épica. Sua repetição destaca as forças emocionais e destrutivas que estão no cerne do conflito; caracteriza figuras como Aníbal como movidas por emoções destrutivas; e oferece um comentário moral sobre as consequências da ambição e da ira desenfreadas. Por meio destes termos, ira e furor, Sílio proporciona uma compreensão mais profunda dos temas das Púnicas, mas também dramatiza as guerras púnicas em termos que, pelo menos em alguns aspectos, ecoam os temas, motivos e personagens da tragédia senequiana.
Juno envia Tisífone,8 de fato, para conspirar com Fides, incitando os saguntinos à destruição, promovendo que se matassem uns aos outros para evitar a escravidão nas mãos dos cartagineses: ela instiga os pais a assassinar seus filhos e os filhos a matarem seus pais e mães (Pun. 2.561-79). Nesse ponto da narrativa, a fúria que Tisífone desperta nos saguntinos traz uma das muitas sententiae que Sílio insere em sua narrativa, características da tragédia senequiana: ardua uirtutem profert uia (“O caminho difícil traz à tona a virtude”, Sil. Pun. 2.578; ed. Delz 1987). O uso por Sílio dessa sententia estoica e outras sententiae ao longo da cena de Sagunto serve para lembrar o leitor de que a tensão dramática criada nesse episódio espelha aquela do palco trágico. O efeito dramático dessas declarações moralizantes é conectar a narrativa épica das Púnicas à complexidade moral da tragédia senequiana, na qual a virtude frequentemente está entrelaçada ao sofrimento, à loucura e à morte. No caso dos saguntinos, eles não agem conforme as instruções de Tisífone até serem possuídos por ela e depois, em um estado de furor, resolvem morrer em vez de prolongar suas vidas com desonra. Enganados e possuídos pela Fúria, os saguntinos cometem suicídio em massa, ação e consequências descritas nas últimas cem linhas do livro 2 das Púnicas (614-707). Essa cena é um prelúdio ao episódio de Cápua nas Púnicas 13, em que uma Fúria se combina novamente com a deusa Fides frenética para derrubar e destruir uma população já derrotada (13.281-95). No episódio de Sagunto, é a fúria Tisífone quem comete o primeiro assassinato (2.614-6). É ela quem força os cidadãos relutantes a cometerem parricídio contra sua vontade (617-9). Sob sua possessão, quase todo tipo possível de parricídio é cometido ou sugerido (614-49, 655-80).
O suicídio em massa dos defensores de Masada, ocorrido em 73/74 d.C., que Flávio Josefo descreve de forma gráfica na Guerra judaica (7.389-401), é evocado na cena de Sagunto (cf. Dominik, 2003, p. 488; Hulls, 2018), mas também se percebe um forte eco senequiano. Embora Antoniadis (2018) tenha argumentado sobre a importância dos subtextos estoicos do Sobre a ira e do Hércules furioso, de Sêneca, nos dois primeiros livros das Púnicas e, nesse processo, tenha atraído nova atenção para os elementos estoicos da épica, esses dois primeiros livros também transmitem sentimentos estoicos. Eles refletem temas encontrados nas tragédias de Sêneca e nas pseudo-tragédias senequianas, como a ênfase no controle das emoções, na aceitação do destino, na forma digna de enfrentar a morte e na ação conforme a razão e a virtude. O foco, nesta discussão, está especificamente nas possíveis ressonâncias das tragédias de Sêneca e das pseudo-tragédias senequianas nas Púnicas, e não nas obras filosóficas de Sêneca. Por exemplo, em Sobre a ira, ele apresenta Aníbal como uma ilustração vívida dos horrores que a ira desenfreada pode causar, ao descrevê-lo experimentando um prazer mórbido enquanto observava uma vala cheia de sangue, sublinhando assim como tal fúria pode evoluir para um mal profundo e irremediável (De ira 2.5.4-5).
A ideia de uma Fúria incitando uma cidade à loucura nas Púnicas alinha-se, de forma geral, com o motivo senequiano presente em suas tragédias, de uma influência sobrenatural e incontrolável sobre o comportamento humano, especificamente na forma de seres como as Fúrias, que provocam os personagens a cometer atos extremos que levam ao caos e à destruição.9 Nas tragédias de Sêneca, cenas de loucura e violência são recorrentes, como, por exemplo, no Hércules furioso e no Tiestes. No Hércules furioso, Juno, assim como é retratada nas Púnicas, envia uma Fúria, nesta ocasião Megera, para enlouquecer Hércules. Sob sua influência (cf. Herc. Fur. 982-6), Hércules passa a acreditar que sua própria família são seus inimigos, o que resulta no assassinato de sua esposa e filhos em um acesso de loucura. Tal como nas Púnicas, a intervenção da Fúria é um catalisador direto para essa tragédia. No Tiestes, a sombra de Tântalo é convocada por uma Fúria para inspirar a loucura e a sede de sangue em Atreu (83-6), que cozinha e serve os filhos de Tiestes a ele. Nessas e em outras tragédias,10 Sêneca utiliza as Fúrias como agentes causadores da loucura e destruição que se seguem, além de representá-las como a personificação do poder implacável do destino e da retribuição divina.
Aspectos intertextuais e lexicais
Embora alguns dos ecos gerais de Sêneca possam ser, em última instância, rastreados até a tragédia grega, existem características intertextuais e lexicais específicas que conectam as Púnicas à tragédia senequiana. De fato, há diversas palavras emparelhadas ou combinações triplas de palavras presentes nas oito tragédias indiscutíveis de Sêneca que se repetem nas Púnicas, embora, por vezes, apareçam invertidas ou em uma ordem diferente dentro do mesmo verso ou em alguns versos. Existem centenas de correspondências lexicais ou quase correspondências entre as tragédias de Sêneca e pseudo-Sêneca e as Púnicas, de Sílio Itálico; mais especificamente, são quase 650 correspondências de colocalizações duplas e triplas de palavras.11 Desse total, quase duzentas correspondências ocorrem entre o Hércules no Eta de pseudo-Sêneca e as Púnicas.12 Embora o Hércules no Eta possa não ser de Sêneca e tenha quase o dobro do comprimento das tragédias mais curtas desse autor, ele possui características que remetem ao estilo senequiano e, assim como a Otávia pseudo-senequiana (Ferri, 2003, p. 16-7; Boyle, 2008, p. xiv-xvi), pode ter sido escrito na época Flávia (Buckley, 2014, p. 324, n. 41). Além disso, o elevado número de correspondências lexicais entre o Hércules no Eta e as Púnicas sugere que algumas das tragédias de Sêneca e o Hércules no Eta serviram de fonte lexical para Sílio, possivelmente também como inspiração temática ou imagética, já que a arquitetura narrativa das Púnicas espelha as tragédias de Sêneca em sua preferência por expressões dramáticas, muitas vezes hiperbólicas, de páthos e ambiguidade moral. De fato, o uso de determinados mecanismos poéticos revela uma intertextualidade permanente, na qual expressões como flamma (“chama”), cruor (“sangue”) e caesi artus (“membros decepados”) partilham do estilo emotivo, intenso e teatral da tragédia senequiana. Dessa forma, o texto de Sílio revela uma consciência compartilhada da tradição literária, afirmando-se como um poeta que dialoga tanto com o épico quanto com a tragédia. Isso se evidencia, por exemplo, na imagem-símbolo de flamma ao longo das Púnicas.
Imagens
Em determinados episódios – particularmente no de Sagunto – o uso de flamma (“chama”) revela uma intertextualidade que aproxima o estilo de Sílio Itálico ao de Sêneca, na medida em que a violência das chamas, a destruição da cidade e o destino de seus moradores estão intrinsecamente associados às representações desse elemento em tragédias senequianas como Tiestes, Fedra e Hércules furioso. De fato, a imagem-símbolo de flamma no episódio de Sagunto evoca uma reminiscência geral de Sêneca, uma vez que flamma e ignis são utilizados, por exemplo, para descrever a ira ardente de Medeia e o seu uso do fogo em sua magia destrutiva na Medeia. No Tiestes, que se centra na vingança horrível de Atreu contra Tiestes, as chamas significam as consequências devastadoras da raiva e do ódio desenfreado; na Fedra, flamma está associada à paixão proibida de Fedra por seu enteado Hipólito; nas Fenícias, a imagética do fogo e das chamas é invocada no contexto da destruição de Tebas; nas Troianas,13flamma serve como imagem-símbolo para o fim catastrófico de uma cidade e de seu povo; flamma é usada metaforicamente para descrever a ira e a loucura de Hércules no Hércules furioso; e, no Hércules no Eta pseudo-senequiano, as chamas consomem o corpo de Hércules, parecendo representar tanto a destruição como a transcendência. Das 77 referências a flamma no corpus senequiano e pseudo-senequiano, mais de um quarto (21) provêm do Hércules no Eta, enquanto um sexto (21) das 131 referências a ignis no corpus aparecem no Hércules no Eta.14 Como se pode observar, a maioria das referências a flamma ocorre no Hércules no Eta, assim como as colocalizações emparelhadas e triplas de palavras.
Nas Púnicas, há mais de uma dúzia de referências nos dois primeiros livros da obra, flammae e ignis (e suas variantes),15 as quais, no episódio de Sagunto, simbolizam a destruição da cidade e dos seus habitantes:
ille iacit, totis conisus uiribus aegrum
in flammas corpus, densum qua turbine nigro 630
exundat fumans piceus caligine uertex.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
furit ensis et ignis, 657
quique caret flamma, scelerum est locus. erigit atro
nigrantem funio rogus alta ad sidera nubem.
ardet in excelso proceri uertice montis 660
arx, intacta prius bellis (hinc Punica castra
litoraque et totam soliti spectare Saguntum),
ardent tecta deum. resplendet imagine flammae
aequor, et in tremulo uibrant incendia ponto.
ecce inter medios caedum Tiburna furores, 665
fulgenti dextram mucrone armata mariti
et laeua infelix ardentem lampada quassans
squalentemque erecta comam ac liuentia planctu
pectora nudatis ostendens saeua lacertis,
ad tumulum Murri super ipsa cadauera fertur, 670
qualis, ubi inferni dirum tonat aula parentis
iraque turbatos exercet regia manes,
Alecto solium ante dei sedemque tremendam
Tartareo est operata loui poenasque ministrat.
arma uiri, multo nuper defensa cruore 675
imponit tumulo illacrimans manesque precata,
acciperent sese, flagrantem lampada subdit.
tunc rapiens letum “tibi ego haec” ait, “optime coniux,
ad manes, en, ipsa fero”. sic ense recepto
arma super ruit et flammas inuadit hiatu. 680
Um homem, esforçando-se com toda a sua força, jogou um
corpo miserável nas chamas, onde a crista do fogo escuro e 630
rolante lança fumaça espessa e uma negritude pegajosa.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A espada e o fogo rugiam, 657
e onde não havia chama, havia um lugar para crimes. A pira
funerária levantava uma nuvem de fumaça preta até as estrelas.
No pico de uma alta montanha, uma fortaleza que as guerras 660
passadas haviam poupado está em chamas (daqui os cidadãos
estavam acostumados a ver o acampamento púnico, a costa e toda
Sagunto); os templos dos deuses estão queimando. O mar brilhava
com o reflexo das chamas, e fogos tremeluziam nas águas que se
agitavam. No meio do caos do massacre, viu-se Tiburna, armada 665
com a espada reluzente de seu marido na mão direita, e na esquerda
a infeliz mulher sacudia uma tocha flamejante. Seus cabelos
desgrenhados eriçavam-se; seus ombros estavam descobertos; e
ela exibia seios machucados por golpes cruéis. Avançou sobre os
corpos até o túmulo de Murro, assim como quando o palácio do 670
pai infernal ressoa com trovões de condenação, e sua raiva real
conduz os espíritos à loucura, Alecto, de pé diante do trono do
deus e do temível assento, serve ao Júpiter do Tártaro e distribui
punições. A armadura do seu marido, recentemente recuperada
com muito sangue, a chorosa [Tiburna] colocou sobre seu túmulo 675
e orou para que os espíritos a aceitassem, enquanto aplicava a tocha
flamejante sobre a pira. Então, correndo em direção à morte, ela
disse: “A você, meu querido marido, olhe! Eu mesma trago estas
armas para os espíritos.” Depois de levar um golpe de sua espada,
ela caiu sobre as armas e atacou as chamas com a boca aberta.
Fuente: (Sil. Pun. 2.629-31, 657-80, ed. Delz, 1987, tradução minha)
Essa cena de conflagração evoca, de maneira natural, reminiscências de outras cenas de incêndio na poesia romana, incluindo o saque de Troia em Eneida 2 (v. 298 et seq.) e a pira de Dido em Eneida 4 (v. 661 et seq.; cf. 5.1-5). Contudo, também há cenas similares na Farsália: no livro 2 (v. 534), no livro 6 (v. 135, 179), no livro 7 (v. 261), no livro 8 (v. 160-1, 736-78) e no livro 9 (v. 915-21), destacando-se a batalha naval contra os massilianos em Farsália 3 (v. 681-8), a batalha de Farsália no livro 7 (v. 798-814), as piras de Pompeu e seus bens no livro 9 (v. 51-77; v. 141, 175-81) e o cerco de Alexandria no livro 10 (v. 488-508). A cena em Sagunto traz à memória especialmente a cena de Dido em Eneida 4. No episódio de Sagunto, Tiburna morre por um golpe autoinfligido de sua espada, assim como Dido, e depois se lança nas chamas (v. 679-80).
Essa cena em Sagunto também lembra o cenário no Hércules no Eta, quando Filoctetes acende a pira funerária de Hércules e seu corpo começa a queimar:
tremente pinum dextera ardentem impulit.
refugit ignis et reluctantur faces
et membra uitant, sed recedentem Hercules
insequitur ignem. Caucasum aut Pindum aut Athon 1730
ardere credas: nullus erumpit sonus,
tantum ingemescit ignis. o durum iecur!
Typhon in illo positus immanis rogo
gemuisset ipse quique conuulsam solo
imposuit umeris Ossan Enceladus ferox; 1735
at ille medias inter exurgens faces,
semiustus ac laniatus, intrepidum tuens:
“nunc es parens Herculea: sic stare ad rogum
te, mater” inquit “sic decet fleri Herculem”.
inter uapores positus et flammae minas 1740
immotus, inconcussus, in neutrum latus
correpta torquens membra adhortatur, monet,
gerit aliquid ardens. omnibus fortem addidit
animum ministris; urere ardentem putes.
stupet omne uolgus, uix habent flammae fidem, 1745
tam placida frons est, tanta maiestas uiro.
nec properat uri; cumque iam forti datum
leto satis pensauit, igniferas trabes
hine inde traxit, minima quas flamma occupat,
totas que in ignes uertit et quis plurimus 1750
exundat ignis repetit intrepidus ferox.
unc ora flammis implet: ast illi graues
luxere barbae; cumque iam uoltum minax
appeteret ignis, lamberent flammae caput,
non pressit oculos … 1755
Com mão trêmula apliquei o pinheiro flamejante; as
chamas recuaram, a tocha resistiu e não tocou seus
membros; mas Hércules seguiu as chamas que se
retraíam. Dir-se-ia que o Cáucaso ou Pindo ou Átios 1730
estavam em chamas; nenhum som surgiu, a não ser
que o fogo parecia gemer. Ó coração obstinado! Se
imenso Tifão estivesse deitado naquela pira, teria
gemido alto, e o feroz Encélado, que sobre seus ombros
carregava o Ossa, arrancado da terra. Mas [Hércules], no 1735
meio das chamas rugindo, todo carbonizado e dilacerado,
olhou destemido ao redor e gritou: “Agora és mãe verdadeira
de Hércules; assim é justo que devas estar, minha mãe, ao
lado da pira, e assim é justo que Hércules seja lamentado.”
No calor abrasador e nas chamas ameaçadoras, imperturbável, 1740
inabalável, sem virar para nenhum lado seus membros
torturados, ele encoraja, aconselha, segue ativo, embora em
chamas. A todos seus ministros ele dá coragem de alma;
dir-se-ia que ele estava todo em fogo para arder. A multidão
toda fica em silêncio, maravilhada, e as chamas mal podem 1745
crer, tão calmo seu semblante, o herói tão majestoso. E não
apressa sua queima; mas quando julgou que coragem
suficiente fora mostrada na morte, arrastou de todos os lados
os troncos queimando que o fogo menos alimentava, e na
massa em chamas ele entrou e procurou onde as chamas 1750
saltavam mais altas, todo destemido, desafiador. Por um tempo
ele preencheu seu rosto com as chamas. Mas agora sua barba
espessa queimava intensamente; e mesmo quando o fogo
ameaçador atacava seu rosto e as línguas quentes lambiam sua
cabeça, ele não fechou os olhos … 1755
Fuente: ([Sen.] Herc. Oet. 1727-55, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)
Aqui, no Hércules no Eta, Hércules é literalmente descrito como aquele que “preencheu seu rosto com as chamas” (ora flammis implet, v. 1752). No episódio de Sagunto nas Púnicas, Tiburna é retratada como tendo recebido um golpe da espada e caído sobre os braços, atacando as chamas com a boca aberta (ense recepto/ arma super ruit et flammas inuadit hiatu, 2.679-680), o que, como observa Vignola (2023, p. 95-6; cf. Bernstein, 2017, p. 266 ad v. 680), é notavelmente próximo à representação de Hércules por Sêneca.
Aprofundando a conexão entre o episódio de Sagunto, que apresenta seu fundador e protetor Hércules, e o Hércules no Eta de pseudo-Sêneca, encontra-se a passagem final nas Púnicas 2:
At uos, sidereae, quas nulla aequauerit aetas,
ite, decus terrarum, animae, uenerabile uulgus,
Elysium et castas sedes decorate piorum.
Mas vós, almas estelares, que nenhuma era igualará,
ide, glória do mundo, venerável multidão, para o
Elísio e trazei honra às moradas castas dos piedosos.
Fuente: (Sil. Pun. 2.696-8, ed. Delz, 1987, tradução minha)
Os saguntinos são descritos como sidereae animae (“almas estelares”), o que remete à passagem do Hércules no Eta em que Hércules fala após ascender às estrelas:
Quid me tenentem regna siderei poli 1940
caeloque tandem redditum planctu iubes
sentire fatum? Parce: iam uirtus mihi
n astra et ipsos fecit ad superos iter.
Por que, quando ocupo os reinos do céu estrelado,
finalmente restituído ao céu, me ordenas, com teu lamento,
sentir minha morte? Basta! Pois agora a virtude forjou
meu caminho para as estrelas e os próprios deuses.
Fuente: ([Sen.] Herc. Oet. 1940-3, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)
Aqui, nessa passagem do Hércules no Eta, Hércules alude à sua morada nos regna siderei poli (“os reinos do céu estrelado”), uma formulação que ressoa com a referência a siderae animae (“almas estelares”) nas Púnicas 2.696-7 (cf. Vignola, 2023, p. 98-9). Essa alusão nas Púnicas ao Hércules no Eta sugere que a tragédia precede a epopeia de Sílio Itálico, uma vez que é difícil imaginar que o autor (ou autores) do Hércules no Eta pudesse(m) ter sido suficientemente inspirado(s) e influenciado(s) pela referência siliana a ponto de incorporá-la na tragédia (cf. Vignola, 2023, p. 95). Parece mais plausível que a sensibilidade de Sílio à força emocional dos textos trágicos de Sêneca – os quais eram passíveis de encenação e, sem dúvida, efetivamente representados nos palcos (cf. Boyle, 1997, p. 10-2; Davis, 2003, p. 22-7) – tenha levado o epicista a adotar algumas das mesmas estratégias de Sêneca (e de pseudo-Sêneca), conferindo assim à sua narrativa épica uma intensidade trágica acentuada.
Aníbal
Além de Sílio Itálico utilizar a tragédia senequiana e pseudo-senequiana para algumas de suas representações temáticas e imagéticas no episódio de Sagunto (e em outras partes das Púnicas), algumas tragédias de Sêneca servem de inspiração para alguns personagens – ou, ao menos, tipos de personagens – de Sílio, especialmente no episódio de Sagunto, como, por exemplo, a figura do tirano, especificamente Aníbal e Asdrúbal. Em determinados trechos das Púnicas, o próprio Aníbal revela uma caracterização que o relaciona ao modelo de tirano senequiano, sendo ele movido pelo furor, pelo desejo de violência e pelo destino inexorável de vencer e se perpetuar. A intertextualidade revela-se aqui na maneira como Sílio se apropria de determinados mecanismos presentes nas tragédias de Sêneca para dar forma ao protagonista de seu próprio drama histórico. Nas Púnicas como um todo, Aníbal incorpora tanto atributos admiráveis quanto qualidades autodestrutivas (cf. Stocks, 2014, passim), mas é de maneira particularmente evidente que ele reflete uma semelhança com os heróis trágicos de Sêneca, especificamente com a figura do tirano (cf. Vignola, 2022, p. 252).
Em termos de reminiscências gerais, Aníbal, referido como tyrannus precisamente no mesmo verso (v. 239) dos livros 1 e 2 das Púnicas, evoca o tirano da tragédia senequiana nesses dois primeiros livros programáticos das Púnicas pela sua húbris, pelo desafio aos deuses, pela crueldade, pela brutalidade, pela ambição implacável e pela autodestruição, bem como obsessão pela vingança. As figuras e os episódios envolvendo personagens tirânicos na tragédia senequiana são numerosos.16 Embora seus motivos difiram dos de Aníbal, os tiranos Atreu no Tiestes, Lico no Hércules furioso e Nero na Otávia pseudo-senequiana evocam Aníbal por meio de suas diversas manifestações de crueldade, pela falta de misericórdia e pela adoção da destruição como meio para alcançar seus objetivos.
Em alguns trechos nas Púnicas 1, Sílio emprega metáforas marítimas ao descrever Aníbal. Na primeira dessas passagens, Aníbal é comparado no campo de batalha em Sagunto a uma torrente de ondas e vento:
praecipiti dant tela uiam, dant signa uirique, 465
atque ambae trepidant acies; iacit igneus hastae
dirum lumen apex, ac late fulgurat umbo,
talis ubi Aegaeo surgente ad sidera ponto
per longum uasto Cauri cum murmure fluctus
suspensum in terras portat mare, frigida nautis 470
corda tremunt; sonat ille procul flatuque tumescens
curuatis pauidas tramittit Cycladas undis.
Armas, estandartes e homens cederam seu caminho ao homem
[Aníbal], e as linhas de batalha tremeram. A ponta da lança
flamejante lançou uma luz terrível, e seu escudo brilhou por
toda parte. Assim, quando o mar Egeu sobe até as estrelas, e ao
longo da costa, com o poderoso rugido do vento noroeste, ondas
carregam à terra o mar acumulado. Os corações dos marinheiros
se tornam frios e tremem; de longe, o vento soa, inchando com
rajadas, atravessa as Cíclades assustadas com ondas arqueadas.
Fuente: (Sil. Pun. 1.465-71, ed. Delz, 1987, tradução minha)
Um pouco mais adiante nas Púnicas 1, o embaixador cartaginês Sícoris faz alusão a Aníbal e seu exército como spumeus hic… fluctus (“esta onda espumante”, 1.646), embora Sílio misture suas metáforas ao fazer Sícoris referir-se a ele também como nascentem… flammam (“a chama que ascende”, 1.651):
spumeus hic, medio qui surgit ab aequore fluctus,
si prohibere piget, uestras effringet in urbes.
an tanti pretium motus ruptique per enses
foederis hoc iuueni iurata in bella ruenti
creditis, ut statuat superatae iura Sagunto? 650
ocius ite, uiri, et nascentem extinguite flammam,
ne serae redeant post aucta pericula curae.
Esta onda espumante, que se ergue no meio do mar, se estiverdes
com preguiça de detê-la, arremessará contra as vossas cidades.
Ou acreditais que esta recompensa da grande insurreição e a quebra
do tratado por espadas, pelo jovem [Aníbal], apressado na guerra
que jurou travar, é estabelecer leis sobre Sagunto conquistada? 650
Ide rapidamente, homens, e apagai a chama que ascende, para que
o mal não retorne mais tarde, após os perigos terem aumentado.
Fuente: (Sil. Pun. 1.646-652, ed. Delz, 1987, tradução minha)
O uso de metáforas marítimas por Sílio ecoa a assimilação de Atreu e Tiestes, feita pela Fúria no Tiestes de Sêneca, a mares turbulentos delimitados pelo istmo de Corinto (cf. Manolaraki, 2010, p. 300, n. 52):
… et qui fluctibus
illine propinquis Isthmos atque illinc fremit
uicina gracili diuidens terra uada,
longe remotos litus exaudit sonos.
… e onde, de um lado e de outro,
o istmo ruge com as ondas vizinhas, separando
mares próximos por um estreito cordão de terra,
enquanto a costa mal ouve os sons distantes.
Fuente: (Sen. Thy. 111-4, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)
O senso de invencibilidade de Aníbal e a rejeição da autoridade dos deuses nas Púnicas 1 são retratados de maneira vívida quando ele jura destruir Roma (v. 114-9). De maneira semelhante, no Tiestes, Atreu, em sua busca por vingança, ignora a vontade dos deuses e age como se estivesse acima do julgamento divino. Durante o cerco de Sagunto nas Púnicas 2, Aníbal não mostra misericórdia, e sua crueldade é destacada quando ele coloca fogo em Sagunto e massacra seus habitantes (v. 650 et seq.). Da mesma forma, no Tiestes, Atreu busca infligir o máximo de destruição e sofrimento ao seu inimigo pessoal, Tiestes.
Aníbal está ciente do poder potencialmente destrutivo das emoções, especificamente da ira, como demonstrado em sua declaração preventiva no início das Púnicas 2:
notum, quid caede calentibus armis,
quantum irae liceat, motusue quid audeat ensis.
Sabe-se o que é permitido às armas em brasa de sangue,
quanto consente a fúria, ou o que ousa a espada desembainhada.
Fuente: (Sil. Pun. 2.21-2, ed. Delz, 1987, tradução minha)
Essa formulação, segundo Bernstein (2017, p. 55 ad 2.21-2), não é apenas ciceroniana e lucaniana, mas também senequiana:
arma non seruant modum;
nec temperari facile nec reprimi potest
stricti ensis ira, bella delectat cruor. 405
As armas não conhecem limites; nem a ira de
uma espada desembainhada pode ser facilmente contida
ou controlada. A guerra se deleita no sangue derramado.
Fuente: (Sen. Herc. Fur. 403-5, ed. Peiper e Richter, 1902, tradução minha)
Nessa passagem do Hércules furioso, de Sêneca, Lico faz referência à sua perpetração de violência, expressa no assassinato do rei tebano Creonte, elucidando assim as consequências pessoais e políticas da ira desenfreada. O contexto é notavelmente distinto daquele do episódio de Sagunto, no qual Aníbal, de maneira estratégica, alavanca sua explicação sobre as consequências bélicas da ira como uma ameaça de violência contra os enviados romanos.
A figura trágica de Aníbal nas Púnicas também complementa, do lado romano, o papel de um demagogo como Varrão (cf. Pun. 8.243 et seq.), cuja ambição, oportunismo e imprudência servem como presságios de desastres militares e conflitos civis em Roma (Dominik, 2003, p. 492-3; Dominik, 2006, p. 114-25 passim; Dominik, 2018, p. 280-4). Aníbal, Varrão e Lico compartilham a húbris, a hamartía que transforma ambição em destruição: Lico pela usurpação violenta em Tebas; Aníbal ao manipular a ira como arma contra Roma; e Varrão ao precipitar o desastre de Canas com sua imprudência populista. Em todos, a busca desenfreada pelo poder leva a consequências trágicas, refletindo o descompasso entre ambição e destino.
Conclusão
Considerando que Sílio Itálico intensifica os aspectos trágicos de sua narrativa épica por meio de uma intertextualidade densa – apropriando-se, transformando e ressignificando mecanismos temáticos, imagéticos e lexicais das tragédias de Sêneca, o Jovem –, é plausível supor que o público romano tenha reconhecido esses elementos como parte de um diálogo literário compartilhado. De fato, a prevalência de ecos senequianos, como a frequente invocação de flamma e a caracterização de Aníbal como um tirano trágico, sugere que os leitores contemporâneos teriam apreciado essa intertextualidade complexa, aprofundando assim seu envolvimento com as Púnicas enquanto obra que dialoga simultaneamente com a épica e a tragédia. As reminiscências senequianas nas Púnicas manifestam-se não apenas em imagens como furor, ira, flamma, sanguis, cruor e caesi artus, mas também na construção da figura tirânica e em diversos elementos estilísticos, como metáforas dramáticas e sententiae. Com esses recursos poéticos, Sílio confere ao episódio de Sagunto uma profundidade trágica e, ao mesmo tempo, estabelece um diálogo inovador com a poética de Sêneca, posicionando assim as Púnicas, do ponto de vista genérico, dentro da ampla tradição da literatura romana.
A fusão de épico e tragédia nas Púnicas – sem mencionar o componente histórico – não apenas enfatiza a interação entre diferentes gêneros, mas também evidencia como Sílio Itálico constrói sua epopeia de modo a evocar algumas das mesmas emoções e conflitos centrais das tragédias de Sêneca. Por conseguinte, as Púnicas emergem como um texto complexo que transcende a mera narrativa histórica ao infundir a história do passado de Roma com as dimensões psicológicas e existenciais características da tragédia senequiana. Esta análise contribui para a compreensão da hibridização genérica e da recepção das tragédias de Sêneca nas Púnicas, ampliando os debates sobre a complexa interação entre formas literárias e contextos culturais no período flaviano. Sílio Itálico oferece uma reflexão pungente sobre a condição humana no vasto panorama da história romana, convidando o leitor a experimentar a epopeia não apenas como narrativa, mas como uma vivência dramática carregada de tensões morais, emocionais e políticas.17
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