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Continuum: PS.-Escílax, Périplo do mundo habitado - Tradução
Reina Marisol Troca Pereira
Reina Marisol Troca Pereira
Continuum: PS.-Escílax, Périplo do mundo habitado - Tradução
Continuum: PS.-Scylax, Periplus of the inhabited world - Translation
Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-30, 2025
Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos
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Resumo: Retrato periplográfico atribuído a autor ignoto, o opúsculo em grego antigo ora em apreço conjuga entradas toponímicas e etnográficas existentes nas três superfícies continentais designadas: Europa, Líbia e Ásia. De facto, parece evidenciar-se tão só uma reconstrução do périplo a partir de outro registo original inexistente. Mesmo que não reflita uma experiência verídica e constitua apenas um exercício empírico, sem grande trato literário, permite, ainda assim, estabelecer considerações a respeito de múltiplos vetores além do conhecimento geográfico e etnográfico helénico na antiguidade clássica, relativos a religião e heortonímia, política, construções, geodésia, etnolinguística. Disponibilizam-se, nas linhas subsequentes, considerações críticas respeitantes ao escrito helénico, pela primeira vez acompanhadas da tradução em língua portuguesa.

Palavras-chave: Escílax, Ps.-Escílax, geografia, périplo, credibilidade geográfica.

Abstract: A periplographic account attributed to an unknown author, the present Greek-language treatise brings together toponymic and ethnographic entries covering the three designated continental surfaces: Europe, Libya, and Asia. It appears to be, in essence, nothing more than a reconstruction of the periplus, derived from an original record that is no longer extant. Even if it does not convey a genuine firsthand experience and amounts merely to an empirical exercise with limited literary sophistication, it nonetheless enables critical reflection beyond the realm of Hellenic geographical and ethnographic knowledge in classical antiquity. These considerations extend to domains such as religion and festival nomenclature, political structures, architectural works, geodesy, and ethnolinguistics. The following sections present a critical analysis of this Hellenic text, now, for the first time, accompanied by a translation into Portuguese.

Keywords: Scylax, Ps.-Scylax, geography, periplus, historiographical reliability.

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Traduções

Continuum: PS.-Escílax, Périplo do mundo habitado - Tradução

Continuum: PS.-Scylax, Periplus of the inhabited world - Translation

Reina Marisol Troca Pereira
Universidade da Beira Interior, Coimbra, Portugal, Portugal
Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-30, 2025
Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Recepción: 17 Mayo 2025

Aprobación: 26 Junio 2025

Ἰδελίδι μητρὶ καὶ Μανουήλῳ πατρὶ, μέχρι παντός

O presente opúsculo constitui o primeiro relato de uma circum-navegação do Mar Mediterrâneo. A autoria pertence a um anónimo do séc. IV a.C., cuja identidade se confunde desde Estrabão, com Escílax1 de Carianda, historiador-navegador que, ao longo de 30 meses, entre 519 e 512 a.C., enviado por Dario,2 viaja de Caspapiro (Gandara), pelo Mar Adriático, até ao istmo de Heroonpolis (Suez).3 Correspondia, assim, ao interesse da dinastia persa aqueménida (c. 700 a.C. – 330 a.C.) em explorar ligações entre o noroeste da Índia e o Mar Vermelho (Hdt. 4.44; Ath. 2.82.70), pois já dominava parte considerável da Ásia e pretendia seguir para oriente o percurso do rio Indo até à sua confluência com o oceano.

Ora em apreço, o registo opuscular Σκúλακος Καρυανδέως περίπλους τῆς οἰκουμένης, “Escílax de Carianda, Périplo do mundo habitado”, conservado num manuscrito único (D – Codex Bibliothèque Nationale de France, Parisinus suppl. gr. 443, ff. 62-106, séc. XIII) e em dois apógrafos: codex Pal. Vat. 142, ff. 216-236 e o codex Hervortianus sive Monacensi 556, ff. 34-59v. Quiçá influenciado pelas palavras preliminares do geógrafo Marciano de Heracleia (séc. V/VI), o escriba do manuscrito dá continuidade à equivocada confluência identitária.

A confusão denota o entendimento generalizado de Escílax, qual arquétipo exponencial de um conjunto de obras de foro similar, em época helenística,4 beneficiando da credibilidade do nauta.

Na generalidade, a literatura odepórica constitui um tipo literário integrado em diversos géneros (viz. epopeia), mediante duas categorias: relatos de viagem; descrição de povos e culturas,5 permitindo constatar os limites geográficos de um determinado período da antiguidade, bem como retratar contactos com outras civilizações e averiguar possíveis influências.

Composto sem enredo diegético, à maneira de um ὑπόμνημα, o escrito de Pseudo-Escílax, resumo do século IV a.C.6 de uma lavra mais extensa, cataloga, com cunho enciclopédico, esquema formular,7 estrutura simples de topónimos, etnónimos, e distâncias,8 concisa, reiterada e pouca uariatio, um continuum de παράπλοι (cf. ‘navegação à costa’) das orlas da Europa (§1-69 – ff. 62-85), Ásia (§70-106 – ff. 85-96) e Líbia (§107-112 – ff. 97-106), rematando com διάφραγμα (§113 – ff. 105-106) e grandes ilhas (§114 – f. 106) conhecidas. Por norma e à falta de pontuação, surgem destacados a vermelho, antecedendo informações empíricas de conhecimento comum. Pese embora retratado sob a primeira pessoa do singular, tratar-se-á de um exercício retórico elaborado no núcleo cultural ateniense9 de tradição filosófica (cf. filosofia natural), mediando o percurso pós-platónico e aristotélico.10

Considerando a escassez quirográfica da obra transcrita como suplemento que aproveita um suporte escrito de parca qualidade, já fisicamente corrompido aquando da cópia,11 atesta-se a pouca-valia reconhecida ao pseudígrafo, fosse por aspetos como a falta de originalidade, reduzida extensão, múltiplos erros/incorreções e incongruências, quiçá desatualização, numa época de reconhecido fôlego científico. Consequentemente, mesmo após a editio princeps de 1600, pelo jesuíta David Höschel, Geographica Marciani Heracleotae, Scylacis Caryandensis, Artemidori Ephesii, Dicaearchi Messenii, Isidori Characeni (Augsburg), não adquire notoriedade que permitisse destacar-se no rol de Geographi Minores editados.

A funcionalidade didática e precursora é notória: além de proporcionar uma coletânea disponível para a consulta de historiadores e filósofos, bem como um plano para considerações de financiamento, indiciador de colonização disponível, potenciava, de igual modo, ao leitor aprendizagens úteis para o estabelecimento de tratos comerciais, bélicos e expansionistas, que poderiam ser acessíveis ao controle helénico sobre a ‘barbárie’ alheia circundante.

De um prisma hodierno, constatam-se sucessivas interpolações por várias mãos. Quiçá posteriores, descrições mais alargadas e conhecimentos de diversificado espectro cultural (mormente de foro histórico-social e mitológico) expandem alguns segmentos. Em última instância, encontrar-se-á o valor literário reconhecido ao opúsculo radicado em informações marginais – umas proporcionadas a esmo pelo autor; outras corruptelas inscritas talvez a posteriori.

[f. 62] Escílax de Carianda

Périplo do mundo habitado

[Prolegómeno]

Escílax de Carianda é um homem de época muito remota. Entre as muitas regiões do mundo habitado por nós, bem como da parte interior do mar situado dentro das Colunas de Héracles, ainda desconhecidas por muitos, decidiu redigir um périplo do mundo habitado. De facto, Alexandre, o Macedónio, tornou todos os aspetos do Oriente claros para os homens, enquanto a coragem dos romanos, ao subjugar pela guerra os povos ocidentais, revelou o Ocidente. Contudo, devido às razões mencionadas, ele não conseguiu alcançar um conhecimento completo e rigoroso de todos os lugares, mas navegou em grande parte deles de forma apropriada e ordenada. Assim, descreveu o Golfo Iónico, ou seja, o Adriático, a Ática, toda a Península do Peloponeso com os povos que aí habitam, bem como outras partes do mar e os povos adjacentes. Parece, de certo modo, que ele utilizou a brevidade da sua obra como uma espécie de justificação para a ignorância de muitos sítios, pretendendo que, através de poucas passagens muito concisas, os leitores procurassem mais informação ou obtivessem conhecimento.

A antiguidade do autor é evidente pelo facto de ele não ter conhecimento de Alexandre, o rei dos macedónios, nem de ninguém pouco anterior ao seu tempo. [f. 63] Assim, não será um erro considerá-lo digno de admiração, pois conseguiu alcançar noção de grande parte do mundo. Élio Dio,12 no primeiro livro Sobre Alexandria, afirma que foi a Dario que Escílax apresentou esta ideia.

[Epígrafe] Périplo do mar da terra habitada da Europa, Ásia e Líbia, com a enumeração e descrição das comunidades de cada região, bem como dos lugares, portos e rios, das distâncias dos percursos marítimos e das sete ilhas habitadas, conforme a localização de cada uma em relação ao continente.



Périplo pelo mar da terra habitada da Europa, Ásia e Líbia

[1.] Europa: Começarei pelas Colunas de Héracles,13 na Europa, até às Colunas de Héracles na Líbia e até aos Grandes Etíopes. As Colunas de Héracles estão situadas uma frente à outra e distam entre si um dia de navegação. Desde as Colunas de Héracles, na Europa, há muitos entrepostos comerciais dos cartagineses, barro, marés e pântanos.

[2.] Iberos: Os primeiros habitantes da Europa são os iberos, o povo da Ibéria, onde corre o rio Ebro. Aqui encontram-se duas ilhas chamadas Cádis, uma das quais possui uma cidade a um dia de navegação das Colunas de Héracles. Depois, encontra-se um entreposto comercial e uma cidade grega chamada Empório, que é uma colónia dos massaliotas. A navegação ao longo da costa da Ibéria dura sete dias e sete noites.

[3.] Lígures e Iberos: Após os iberos, encontram-se os lígures e os iberos misturados até ao rio Ródano. A navegação costeira ao longo do território dos lígures, desde Empório [f. 64] até ao rio Ródano, dura dois dias e uma noite.

[4.] Lígures: A partir do rio Ródano, os lígures estendem-se até Âncio.14 Nesta região, encontra-se uma cidade grega com porto designada Massália, assim como Ólbia e Âncio, também com portos. Estas são colónias de Massália. A navegação costeira desta região, desde o rio Ródano a Âncio, dura dois dias e duas noites. A partir das Colunas de Héracles até Âncio, toda esta região é provida de bons portos.

[5.] Tirrenos: Após Âncio, encontra-se o povo do [Mar] Tirreno, que se estende até à cidade de Roma. A navegação costeira dura quatro dias e quatro noites.

[6.] Córsega: Ao longo da costa tirrénica, situa-se a ilha de Córsega. A travessia marítima entre a Tirrénia e Córsega leva um dia e meio. No trajeto marítimo, encontra-se uma ilha habitada apelidada Etália, além de muitas outras ilhas desertas.

[7.] Sardenha: Da ilha de Córsega até à ilha de Sardenha, a navegação demora um terço de um dia. Existe uma ilha deserta entre ambas. De Sardenha até à Líbia, a viagem dura um dia e uma noite; e de Sardenha até à Sicília, a navegação persiste por dois dias e uma noite.

Regresso, então, à parte continental, de onde me desviei para alcançar a Córsega.

[8.] Latinos: Os latinos seguem-se aos tirrenos, estendendo-se até ao promontório Circeu. Entre os latinos, encontra-se o túmulo de Elpenor.15 O percurso marítimo ao longo das terras dos latinos dura um dia e uma noite.

[9.] Volscos: Após os latinos, seguem-se os volscos. A navegação costeira ao longo das terras dos volscos delonga-se por um dia.

[10.] Campânios: Depois dos volscos, encontram-se os campânios. Entre as suas cidades gregas estão Cumas e Nápoles. Na mesma região, encontra-se a ilha de Esquia, que também possui uma cidade [f. 65] helénica. A navegação costeira ao longo da Campânia estende-se por um dia.

[11.] Samnitas: Após os campânios, seguem-se os samnitas. A navegação costeira ao longo do território dos Samnitas dura um dia.

[12.] Lucanos: Depois das samnitas, encontram-se os lucanos, que se estendem até Túrio. A viagem marítima ao longo da Lucânia é de seis dias e seis noites. A Lucânia é uma costa onde se localizam estas cidades helénicas: Posidónia, Eleia, Laos (colónia de túrios), Pandósia, Plateias, Terina, Hipónion, Mesma e Régio, um cabo que também é cidade.

[13.] Sicília: Perto de Régio, situa-se a ilha da Sicília, separada da Europa por uma distância de 12 estádios até Pelorias, partindo de Régio. Na Sicília, habitam os seguintes povos bárbaros: élimos, sícanos, sicilianos, fenícios e troianos. Estes são bárbaros, contudo também residem aí helenos. O cabo Peloro assinala o extremo da Sicília. As cidades helénicas a partir de Peloro são as seguintes: Messana e o seu porto, Tauroménio, Naxos, Catânia, Leontinos (acessível por um percurso fluvial de vinte estádios através do rio Térias). Encontram-se ainda o rio Simeto, a cidade de Mégara e o porto Xifónio. A seguir a Mégara, situa-se Siracusa, cidade que possui dois portos – um, dentro das muralhas e outro fora. Depois desta, encontra-se a cidade de Heloro e o promontório Paquino. A partir de Paquino, deparam-se as seguintes cidades helénicas: Camarina, Gela, Ácragas, Selinunte e o cabo Lilibeu. Desde Lilibeu, a cidade helénica de Hímera.

A Sicília tem a forma de um triângulo, [f. 66] e cada lado mede aproximadamente 540 estádios. Depois de Hímera, há a ilha de Lípara e, em seguida, a cidade helénica de Milão, com um porto. De Milão até à ilha de Lípara, a viagem tarda meio dia.

Retorno então ao continente, de onde me desviei. A partir de Régio estão as cidades subsequentes: Locros; Caulónia; Crotona; o santuário de Hera em Lacínion e a ilha de Calipso, onde Ulisses viveu com Calipso.16 Encontram-se ainda o rio Crátis; Síbaris e a cidade de Túria. Estes são os helenos na Lucânia.

[14.] Iapígia: Depois da Lucânia, encontra-se o povo dos iápiges, uma sociedade que habita até ao Monte Órion, situado no Golfo do Adriático. A navegação costeira ao longo de Iapígia dura seis dias e seis noites. Em Iapígia também residem helenos, e as cidades são as seguintes: Heracleia, Metaponto, Tarento e o porto de Hidros, situado na foz do Adriático ou do Golfo Iónico.

[15.] Saunitas: Após os iápiges, a partir de Órion, estão os saunitas, um povo. Nesta etnia, os idiomas ou dialetos são os seguintes: latérnicos, ópicos, cramónios, boreontinos e peucetios, que habitam na margem do Mar Tirreno até ao Adriático. A navegação ao longo da terra dos saunitas leva dois dias e uma noite.

[16.] Úmbrios: Na sequência dos saunitas, encontra-se a comunidade dos úmbrios, entre os quais se localiza a cidade de Ancona. [f. 67] Este grupo venera Diomedes,17 que o beneficiou; e possui um templo em sua honra. A navegação costeira ao longo de Úmbria dura dois dias e uma noite.

[17.] Tirrenos: A seguir aos úmbrios, estão os tirrenos. Estes estendem-se desde o Mar Tirreno até ao Adriático. Entre eles, situa-se uma cidade helénica,18 junto a um flúmen, permitindo uma navegação rio acima até à cidade, numa distância de cerca de 20 estádios. E a Tirrénia estende-se desde o mar exterior até ao Golfo Adriático. A partir da cidade de Pisa há um caminho de três dias até à região.

[18.] Celtas: Depois dos tirrenos, vivem os celtas, um povo que ficou para trás na expedição, estendendo-se ao longo de estreitas passagens até ao Adriático. Aqui situa-se o recanto mais profundo do golfo Adriático.

[19] Vénetos: Após os celtas, residem os vénetos, população entre o qual corre o rio Erídano. A partir daí, a navegação em linha reta a partir da cidade de Pisa tem o curso de um dia.

[20.] Istrios: Depois dos vénetos, segue-se o povo dos istrios e o rio Istro. Este rio também desagua no Ponto Euxino e, mediante uma consideração detalhada, chega até ao Egito. O percurso costeiro ao longo da terra dos istros demora um dia e uma noite.

[21.] Liburnos: Após os istros, surgem os liburnos, um povo cujas cidades costeiras são: Lias, Idassa, Atienítes, Dirta, Alufos, Olsos, Pedetia, Hemíonos. Eles têm como forma de governo uma ginecocracia, onde as mulheres [f. 68] são esposas de homens livres, mas se relacionam outrossim com os seus próprios escravos e com homens das regiões vizinhas. Nessa região, existem várias ilhas, cujos nomes consigo referir (porém, também há muitas outras anónimas): a ilha de Ístria, com cerca de 310 estádios de comprimento e 120 de largura; as Eléctrides e as Mentorides, ambas grandes ilhas. Na zona, corre o rio Catarbates. A navegação costeira ao longo do território dos liburnos demora dois dias.

[22.] Ilírios: Após os liburnos, encontram-se os ilírios, um povo que habita ao longo da costa, estendendo-se até Caónia, localizada junto à ilha de Córcira, a ínsula de Alcínoo.19 Nessa região, localiza-se uma cidade helénica chamada Heracleia, também com um porto. Entre os bárbaros da área estão os chamados lotófagos:20 hierastamnos, bulinos, hílinos. Os bulinos confinam com os hílotas, que alegam ser descendentes de Hilo, filho de Héracles, que os estabeleceu na região. Estes povos são bárbaros e ocupam uma península ligeiramente menor do que o Peloponeso. E a partir da península, um litoral retilíneo. Esta é habitada pelos bulinos, uma etnia pertencente ao povo ilírio. A navegação costeira ao longo do território dos bulinos até ao rio Nesto demora um longo dia.

[23.] Nestos: A partir do Nesto, a navegação processa-se através de uma costa em forma de golfo. O golfo completo apelida-se Mânio. A navegação costeira leva um dia. Neste golfo, encontram-se as ilhas Proteras, Cratias, Olinta. Estas distam entre si 2 estádios, [f. 69] ou ligeiramente mais, ao longo da ilha de Faros e da ilha de Issa. Pois aí, situam-se a ilha de Faros, ínsula helénica, bem como a ilha de Issa, e essas detêm cidades gregas. Antes de chegar ao rio Naron, a costa apresenta um extenso território que se projeta significativamente na direção do mar. Próxima do território costeiro, situa-se uma ilha de nome Melite e, na sua proximidade, outra ilha, chamada Córcira Negra. Esta ilha, com um dos seus promontórios, projeta-se consideravelmente no sentido da costa, enquanto o outro promontório se aproxima do rio Naron. Dista de Melite 20 estádios e da costa está a 8 estádios da zona costeira.

[24.] Mânios: Depois de Neston fica o rio Naron. A navegação para o Naron não é estreita; uma trirreme pode navegar por ele, assim como outras embarcações conseguem alcançar o entreposto comercial situado a 80 estádios do mar. Essa população resume-se aos mânios, um povo dos ilírios. No interior do entreposto há um grande lago que se estende até ao território dos autariatas, uma comunidade ilíria. Dentro do lago existe uma ilha de 120 estádios e este território insular é deveras cultivável. A partir deste lago flui o rio Náron. Daí até ao rio Árion, a navegação dura um dia; do Árion até ao Rizon, a travessia leva meia jornada solar. Nesse local, encontram-se as pedras de Cadmo21 e Harmonia, assim como um santuário não distante do Rizon. Daí até Boutoe, a navegação dura metade de um dia, o mesmo tempo necessário para alcançar o empório.

[25.] Enquéleas: Os enquéleas são um povo dos ilírios, que habita no Rizunto. De Butoe até Epidamno, uma cidade grega, o percurso marítimo ocupa um dia e uma noite, enquanto a viagem terrestre toma três dias.

[26.] Ilírios:22 Os ilírios, por sua vez, constituem o povo ilírico, onde se situa a cidade de Epidamno [f. 70], e um rio chamado Palamno corre junto à cidade. De Epidamno até Apolónia, um centro grego, a viagem terrestre dura dois dias. Apolónia dista cinquenta estádios do mar, e um rio chamado Aías corre junto à cidade. De Apolónia até Amância, a distância é de 320 estádios. O rio Aías corre a partir do Monte Pindo, ao longo de Apolónia. Mais para o interior, na direção do Iónio, encontra-se Órico. De Órico até ao mar são 80 estádios, e de Amântia até a Órico a distância é de 60 estádios. Toda essa região é vizinha dos atintanes, situados no interior acima de Órico, e de Cária, até Idónia.23 Na região de Céstris, há uma planície chamada Erítia, para onde se diz que Gérion24 chegou e pastoreou os bois. Nesta área localizam-se os Montes Ceráunios, no Epiro, e uma pequena ilha ao lado chamada Sasos. Daí até Órico, cidade costeira, o percurso marítimo ocupa o terço de um dia.

[27.] Óricos: Os Óricos vivem na região de Amântia. Os amântios são, até esse ponto, os ilírios provenientes dos bulinenses.

A entrada do Golfo Iónico estende-se desde os Montes Ceraunianos até ao cabo da Iapígia.

Rumo à cidade de Hidra, em Iapígia, partindo dos Ceraunianos, a travessia marítima é de cerca de 500 estádios; que é a abertura do golfo, e o que está dentro dele pertence ao Iónio.

Existem, no Adriático, muitos portos: o Adriático é o mesmo que o Iónio.

[28.] Cáones: Após os ilírios, os cáones. A Caónia possui bons portos. Os cáones habitam-na, morando em aldeias. A navegação [f. 71] costeira ao longo da Caónia dura metade de um dia.

[29.] Córcira: Perto de Caónia encontra-se a ilha de Córcira, na qual há uma cidade grega com três portos perto da urbe: um deles fechado. também se estende mais para a Tesprócia do que para a Caónia.

Retomo, então, o percurso pelo continente, de onde me havia desviado.

[30.] Tesprócios: Depois de Caónia encontram-se os tesprócios, um povo. Eles também vivem em aldeias e esta região possui igualmente bons portos. Aqui situa-se um porto chamado Eleia, no qual desagua o rio Aqueronte. Há também o lago Aquerúsia, de onde flui o rio Aqueronte. A navegação costeira da Tesprócia dura metade de um dia.

[31.] Cassópios: A seguir a Tesprócia, fica Cassópia, uma etnia. Também estes vivem em povoados. Eles estão até ao Golfo Anactórico. A navegação costeira ao longo do território dos cassópios demora meia jornada.

O Golfo Anactórico é um pouco menor, com uma extensão, desde a sua entrada até ao fundo, de 120 estádios. A largura da entrada do golfo é de 4 estádios. Também habitam em pequenas povoações. Eles estendem-se até ao golfo Anactórico. A navegação pela região dos cassópios demora meio dia. O golfo Anactórico é um pouco mais estreito, desde a entrada até ao fundo, com uma extensão de 120 estádios. A entrada tem uma largura de 4 estádios.

[32.] Molócia: Depois de Cassópia seguem-se os molossos, um povo. De igual forma, estes habitam em lugarejos; estendem-se pouco até ao litoral, mas muito para o interior. A navegação costeira pela extensão do território dos molossos é de 40 estádios.

[33.] Ambrácia: Após a Molóssia encontra-se a Ambrácia, uma cidade grega. Esta dista 80 estádios do mar. Existe também, junto ao pélago, [f. 72] uma muralha e um porto fechado. A partir deste ponto, a Grécia começa a ser contínua até ao rio Peneu e à cidade de Homólio, na Magnésia, que está situada junto ao rio. O percurso em torno da baía de Ambrácia é de 120 estádios.

[34.] Acarnânia: Após Ambrácia, segue-se acarnânia, um povo. A primeira cidade desta região é Argos, o Anfilóquico, e Anactorion, com um porto. Fora do golfo de Ambrácia, encontram-se as seguintes cidades: Ácio e, mais além, a cidade de Leucádia, também com um porto. Esta cidade estende-se até Leucade, que é um promontório visível ao longe no mar. A cidade de Leucade, outrora outrossim designada Epileucádios. Os acarnânios, depois de conflitos internos, chamaram mil colonos de Corinto, mas estes, após derrotarem os acarnânios, tomaram as suas terras.25 Atualmente, esta região é uma ilha, separada do continente por um istmo, com um canal artificial.26

A seguir, encontra-se a cidade de Fara. Mais adiante, está a ilha de Ítaca,27 que inclui uma cidade e um porto. Após isso, surge a ilha de Cefalónia.

Depois disso, volto novamente para o continente, onde tinha interrompido.

A seguir, está a cidade de Alísia e próximo dela, a ilha de Carno. Seguem-se a cidade de Astaco, com o seu porto, e o rio Aqueloo, junto à cidade de Eníadas. Para alcançar essas cidades, navega-se pelo rio Aqueloo. Há ainda outras urbes dos acarnânios no interior. A navegação costeira da Acarnânia dura dois dias. Toda a região da Acarnânia possui bons portos. Nas proximidades, encontram-se várias ilhas, que o rio Aqueloo, ao depositar sedimentos, tende a unir ao continente, formando terra firme. Essas ilhas chamam-se Equínades e são desabitadas.

[35.] [f.72] Etólia: Depois da Acarnânia, depara-se a Etólia, um povo, e as cidades desta região são as seguintes: Calídon, Halicarna, Molícria; e o Golfo Délfico. A boca do golfo tem uma largura de 10 estádios. Nela há um templo e a cidade de Náupacto. Sobre esta cidade, existem várias outras cidades na região interior da Etólia. O percurso costeiro da Etólia leva um dia. A Etólia faz fronteira com toda a Lócrida, desde o interior até aos enianos

[36.] Locros: Após os etólios, segue-se o povo dos locros, que inclui os ozolos, e as cidades de Evantis e Anfissa. Também existem outras cidades na região interior. A navegação ao longo da terra dos locros dura a metade de um dia.

[37.] Fócios: Após os locros, segue-se a comunidade dos fócios, situados junto à planície Cirreia, onde se encontram o santuário de Apolo, a cidade de Delfos e a cidade de Antícira, local onde se colhe o melhor heléboro. A navegação costeira ao longo da terra dos fócios demora metade de um dia.

[38.] Beócios: No seguimento dos fócios, estão as gentes beócias, e as seguintes cidades: Córsia, Sífas (com um porto), Eutresis e a muralha dos beócios. A navegação ao longo da costa da Beócia é inferior a meio dia.

[39.] Megarenses: Depois dos beócios, deparam-se os megarenses, um povo, e estas são as suas cidades: Egóstenas, Pegas, a muralha de Gerânia e Aris. A navegação costeira ao longo do território dos megarenses consiste em 100 estádios.

[40.] Corinto: Após os megarenses, segue-se a cidade de Corinto, com o seu santuário, Lequeu e o Istmo. A partir daqui, começa o Peloponeso. A estrada desde o mar até ao nosso lado do mar, através do istmo, tem 40 estádios. [f.74] Todas estas áreas são formadas por golfos. A navegação costeira ao longo da terra dos coríntios retém meio dia.

[41.] Sícion: Após Corinto, a cidade dos sicionenses. A navegação ao longo de Sícion cobre 120 estádios.

[42.] Aqueus: A seguir a Sícion, a comunidade dos aqueus, e, entre eles, as seguintes cidades: Pelene, Egira, Egas, Égion, Ripes, e, fora de Rion, Patras e Dime. A navegação ao longo do território de Acaia abarca 700 estádios.

[43.] Élis: Logo após os aqueus, fica Élis, uma comodidade, com as seguintes cidades: Cilene com um porto; o rio Alfeu. Existe ainda outro conjunto urbano no interior, Élis. Ao longo desta região situa-se a ilha de Jacinto, que também possui uma cidade e um porto. O trajeto marítimo ao longo da terra dos élidas tudo corre, até [aos confins] dos lepreatas, 700 estádios.

[44.] Arcádia: Posterior a Elis, o povo de Arcádia. A Arcádia faz fronteira com o mar junto a Lepreu, a partir do interior. As grandes cidades no interior são: Tegeia, Mantineia, Hereia, Orcomeno, Estímfalo. Existem também outras urbes. A navegação ao longo da terra dos lepreatas é de 100 estádios.

[45.] Messénia: Após a Arcádia, apresenta-se o povo da Messénia, com as seguintes cidades: a primeira é Messénia, com o seu porto; depois, Ciparisso, que está a 7 estádios do mar; Itome, situada no interior, a 80 estádios do mar. A navegação ao longo de Messénia compreende 300 estádios.

[46.] [f. 75] Lacedemónios: Os lacedemónios são um povo, e as suas cidades são as seguintes: Asina, Motone, o porto de Aquiles e, ao lado deste, o porto de Psamato. Entre estas duas, no meio, encontra-se o santuário de Posídon, em Tenaro. E ainda: Lás, cidade e porto; Gítion, com um estaleiro e muralha; o rio Evrotas; Boía, cidade; e a península de Maleia.

Cítera: Ao longo deste território, encontra-se a ilha de Cítera, cidade e porto. E seguindo por esta terra, fica a ilha Creta. Após esta, no extremo de Maleia, situam-se as cidades de Síde; Epidaura; Prásia, cidade e porto; Meana, cidade e porto. Há também muitos outros municípios dos lacedemónios. No interior, está Esparta, bem como muitas outras cidades. A navegação costeira ao longo da terra dos lacedemónios dura três dias.

[47.] Creta: Perto de Lacónia encontra-se a ilha de Creta, que está mais próxima de Lacónia do que de qualquer outra parte da Europa. A travessia marítima de Lacónia até ao promontório de Creta, onde se situa a cidade de Falasarna, leva um dia de viagem. De Falasarna, chega-se ao cabo Crio. Navegando em direção ao vento sul, o percurso leva à Líbia; até ao Quersoneso, nas terras costeiras dos cirenaicos. A viagem dura um dia e uma noite.

Creta é longa, com 2500 estádios, mas estreita, estendendo-se de ocidente para oriente. Na ilha de Creta, habitam gregos: alguns são colonos [f. 76] lacedemónios, outros argivos, atenienses ou provenientes de outras partes da Grécia. Alguns, no entanto, são autóctones.

Em Creta há muitas cidades.

A disposição de Creta: Junto ao cabo está a primeira cidade voltada para o pôr do sol, a mencionada Falasarna, com um porto fechado. Segue-se Polirrénia, que se estende de norte para sul. No norte, encontra-se o santuário de Ártemis Dictínia,28 no território de Pérgamo; a sul, está Hirtacina. A norte, apresenta-se Cidónia, com um porto fechado. No interior, localiza-se a cidade de Eliro; a sul, localiza-se Lissa, cidade com porto, junto ao cabo Crio. A norte, fica a região de Aptereia. Depois vem Lampeia, que se estende para ambos os lados, e nela flui o rio Mesápio. Após Osmis, encontra-se Eleuternas, no norte; a sul, Síbrita, com porto; no sul, Festo; no norte, Oaxo e Cnosso. A sul, situam-se Gortina e Bauco.29 No interior, está Licto, que se estende para ambos os lados. A norte, no monte Cádisto, fica Olunte, com um porto. Preso estende-se por ambos os lados; Grano é o promontório de Creta voltado para o sol nascente.

Existem também outras cidades em Creta; é chamada de terra das cem cidades.

[48.] Ilhas Cíclades: As Cíclades são aquelas que se encontram na região da Lacedemónia, habitadas pelos lacedemónios: Milo e o porto; depois Címolo; a seguir Olíaro; logo após Sícino, que também é uma cidade; posteriormente Tera; no imediato Anafe; [f. 77] e logo Estipaleia.

Em seguida, volto novamente para a terra firme, de onde me desviei.

[49.] Argos: Após a Lacedemónia, segue-se a cidade de Argos, onde se encontra esse burgo e o porto de Náuplia. No interior, estão as cidades de Cleonas, Micenas e Tirinto. A navegação em redor da região argiva (pois há um golfo chamado Argólico) compreende 150 estádios.

[50.] Epidauro: Após Argos, a região de Epidauro, pois fica a 30 estádios deste golfo. No seguimento, encontra-se Halia e o seu porto, localizada na boca do golfo argivo. O percurso em torno dela é de cem estádios.

[51.] Hermíone: Depois desta, está Hermíone, cidade e porto. A extensão costeira desta região é de 80 estádios. Após Hermíone encontra-se Escileio, um promontório do golfo em direção ao istmo. Escileio pertence à zona de Trezénia. Diante deste promontório está Sunion, um cabo do território dos atenienses. Próxima a este local, situa-se a ilha Belbina, que também possui uma cidade. O comprimento deste golfo, desde esta entrada até ao istmo, é de 760 estádios. Este golfo tem, na sua entrada, uma orientação muito retilínea.

[52.] Trezénia: Após Hermíone, segue-se a povoação de Trezénia e o seu porto. A navegação ao redor desta região percorre 30 estádios. Após esses locais, situa-se a ilha de Caláuria, com cidade e porto. O périplo em seu redor é de 300 estádios.

[53.] Egina: Posteriormente, encontra-se a ilha de Egina, com cidade e dois portos.

Volto, todavia, novamente para terra firme, de onde me desviei.

[54.] Epidauro: Após Trezénia, está a cidade de Epidauro com um porto. O périplo [f. 78] em torno da região de Epidauro é de 30 estádios.

[55.] Corinto: Depois de Epidauro, segue-se a região dos coríntios, que está voltada para leste. Aqui encontra-se a muralha de Cencreias e o istmo, onde figura o santuário de Posídon. Neste ponto, termina o Peloponeso. Os corintos possuem outrossim território fora do istmo, a muralha de Sídon e outra fortaleza em Cremion. O percurso marítimo à volta da terra dos coríntios até aos limites da zona dos megarenses abarca 300 estádios.

[56.] Mégara: A seguir à região dos coríntios, encontra-se a cidade de Mégara, com um porto à muralha de Niseia. O percurso marítimo em redor da região dos megarenses, até Iapis (que é o limite do território dos atenienses), é de 140 estádios.

[57.] Ática: Após os megarenses, estão as cidades dos atenienses. E a primeira da região da Ática é Elêusis, onde há um templo de Deméter e uma muralha. Seguindo, constata-se a ilha de Salamina, que é uma urbe e tem porto. Depois, o Pireu e os seus limites, e Atenas. O Pireu possui três portos. A muralha de Anaflisto e o porto; o cabo Súnio, com um templo de Posídon e uma muralha; o cabo Toricos, com duas muralhas e portos; a muralha de Ramno. Existem também muitos outros portos na região da Ática. O circuito em torno do território dos atenienses é de 1140 estádios. Da terra de Iapis até ao cabo de Súnio são 60 estádios. De Súnio até aos limites da Beócia são 650 estádios.

[58.] Ilhas Cíclades: Ao longo da Ática estão situadas [f. 79] as ilhas chamadas Cíclades, e estas são as cidades que se encontram nelas: Ceos (esta tem quatro cidades e porto, Corésia, Iulis, Carteia), Helena; Cítno, ilha e cidade; Sérifo, ilha, cidade e porto; Sifno; Paros, que tem dois portos, sendo um deles fechado; Naxos; Delos; Rene; Síro; Míconos (esta tem duas cidades); Ténos e porto; Andros e porto. Estas são as ilhas Cíclades. Abaixo destas, situam-se outras ilhas em direção ao sul: Ios e porto (nesta está sepultado Homero);30 Amorgos, que tem três cidades e um porto; Ícaros, com duas cidades.

Depois de Andros, encontra-se a ilha de Eubeia, que tem quatro cidades: Caristo, Erétria e porto, Cálcis e porto, Hestieia e porto. Eubeia, desde o santuário de Zeus, em Ceneu, até ao de Posídon, em Geresto, tem 1350 estádios. Quanto à largura, Eubeia é estreita.

No Mar Egeu, detacam-se estas ilhas: junto de Erétria, Esciro e cidade; Icos, que tem duas cidades; Pepareto, que possui três cidades e um porto; Esciato, com duas cidades e um porto.

Depois disto, volto novamente para o continente, de onde antes me desviei.

[59.] Beócios: Após Atenas, estão os beócios, uma etnia, pois também eles têm acesso a este mar. E nele está, em primeiro lugar, o santuário de Délio; Áulis, um santuário; Euripo, uma muralha; a fortaleza de Antedon; Tebas; Téspias; Orcómeno, no interior. Há ainda outras cidades. O percurso marítimo ao longo da região da Beócia, desde Délio até aos limites dos lócrios, é de 250 estádios.

[60.] [f. 80] Lócrios: Depois dos beócios, encontram-se os locros, um povo que habita junto à Eubeia. Estas são as suas cidades: Larimna, Cino, Opunte, Alope, e os lócrios detêm igualmente muitas outras cidades. O percurso marítimo ao longo da sua região é de 200 estádios.

[61.] Fócios: Após os locros, estão os fócios, que também se estendem até este mar. Eles possuem as subsequentes cidades: Tronion, Cnemis, Elatia, Panopeu. E detêm, de igual modo, outras urbes no interior. O périplo da região dos fócios é de 200 estádios.

[62.] Mélios: Após os fócios, encontram-se os mélios, e o Golfo Mélio. [Neste golfo estão os chamados limodórios, que são os seguintes: erineu, boion e citínion.] Aqui ficam Termópilas, Traquis, Eta, Heracleia, o rio Esperqueu.

Málios: A seguir aos mélios, apresenta-se o povo dos málios. A primeira cidade dos málios é Lâmia, e a última Equinos. Existem também outras cidades dos málios, até ao ponto em que o golfo toca a terra. A região dos málios é habitada, no interior, pelos enianos, e por ela corre o rio Esperqueu.

[63.] Aqueus: Fora do Golfo de Mália, surge o povo dos aqueus ftiotas.31 Eles habitam o Golfo Pagasético, à esquerda de quem navega para o interior, até cerca de metade do golfo. As cidades dos aqueus são as seguintes: Antrones, Larissa, Meliteia, Demétrio, Tebas. Existem ainda outros municípios dos aqueus no interior.

[64.] Tessália: [f .81] A seguir aos aqueus, a Tessália estende-se em direção ao mar, desde o interior, por um estreito rumo ao Golfo Pagasético, numa extensão de 30 estádios. As cidades da Tessália situadas junto ao mar são as seguintes: Anfaneu e Pagasas. No interior, encontram-se Feras, Larissa, Farsalos, Cieron, Pelineon, Escotusa, Cranon. Existem ainda outras urbes tessálias no interior. A Tessália confina, no interior, com os enianos, dolópios, málios, aqueus e magnetas, até aos habitantes de Tempe. A extensão do Golfo Pagasético é de uma navegação, desde a sua boca até ao fundo da baía de Pagas, em direção ao noroeste. A sua boca engloba 5 estádios. Dentro do Golfo Pagasético, existe a ilha de Cicineto e uma cidade.

[65.] Magnetes: Existe uma comunidade dos magnetes à beira-mar, e as suas cidades são as seguintes: Iolco, Metone, Coracais, Espalautra, Olizon, porto de Isas. Fora do golfo Pagasético deparam-se Melíbia, Rizo, Eurimenas, Miras. No interior, habita a etnia dos perrébios, um povo helénico. Até este ponto, a Hélade é contínua a partir de Ambrácia; e, de forma geral, toda a região costeira pertence igualmente à Hélade.

[66.] Macedónia: A partir do rio Peneu advém o povo dos macedónios, junto ao Golfo Termaico. A primeira cidade da Macedónia é Heracleion; seguem-se Dio, Pidna (cidade helénica), Metone (cidade helénica) e o rio Haliácmon. Há também Aloro (cidade e rio Lídias); Pela (cidade e residência real nela situada; acessível por navegação ao longo do rio Lídias); o rio Áxio; o rio Equedoro; a cidade de Terma; a cidade helénica de Énia; Palene; uma longa península que se projeta para o mar; e as seguintes cidades helénicas na região de Palene: [f. 82] Potídia; situada no meio do istmo; cercada por água; Menda; Áfitis; Trambeis; Escione; Canástrion, o promontório sagrado de Palene. Fora do istmo, estão estas cidades: Olinto, cidade helénica; Miciberna, cidade helénica; Sermília, cidade helénica, e o Golfo Sermílico; Torone, cidade helénica e porto; a helénica Dion; a helénica Tisso; Cleonas, cidade helénica; o monte Atos; Acrotos, cidade helénica: Caradros, cidade helénica; Olófixo, cidade helénica; a helénica Acanto; Alapta, cidade helénica; Aretusa, cidade helénica; o lago Bolbe; Apolónia, cidade helénica. Existem também muitas outras cidades da Macedónia no interior. Tem a forma de golfo, e o percurso pelos golfos demora cerca de dois dias. Depois da Macedónia, o rio Estrímon. Este é o limite entre a Macedónia e a Trácia.

[67.] Trácia: A Trácia estende-se desde o rio Estrímon até ao rio Ístrio, no Ponto Euxíno. Existem nas regiões da Trácia as seguintes cidades gregas: Anfípolis, Fagres, Galipso, Esima, e outros entrepostos dos tásios. Nesses domínios está a ilha de Taso, com uma cidade e dois portos, um dos quais fechado.

Retorno novamente ao ponto de onde me desviei. Neápolis, e ao longo dela a cidade de Daton, uma cidade grega, que foi fundada por Calístrato de Atenas,32 e o rio Nesto. Também se encontram as cidades de Ábdira, o rio Cúdios e a cidade de Marónia. Mais adiante, no interior, os empórios Drízone, Samotrácia, e, no seguimento disto, também um porto; o rio [f. 83] Durisco, Ábaro e nela uma muralha, a cidade e o porto de Eno; a muralha dos énios na Trácia; o Golfo de Melas; o rio Melas; o mercado de Deris; Cóbris, entreposto dos cardianos, e outro de Cípasis. Ao longo do golfo de Melas, localiza-se a ilha e cidade de Imbro, bem assim a ilha de Lemno com seu porto.

Torno uma vez mais à terra firme, de onde me desviei.

Depois do Golfo de Melas, fica o Quersoneso Trácio, com as seguintes cidades: Cárdia; Ide; Péon; Alopeconeso; Áraplo; Eleu; Madito; Sesto, junto à boca do Propontis, que fica a 6 estádios de distância. Dentro do rio Ego, encontram-se Cresa, Critoíte, e Páctia. Este é o limite do Quersoneso Trácio. De Páctia até Cárdia, atravessando o estreito, a distância a pé é de 40 estádios, de mar a mar. No meio, há uma cidade chamada Agora. A extensão do Quersoneso de Cárdia a Eleunte (que é o ponto mais distante) é de 400 estádios.

A seguir ao Quersoneso, permanecem as muralhas trácias: primeiramente, o promontório Leuce; Tirístasis; Heracleia; Gano; Gânias; Neôntico;33 a cidade e o porto de Perinto; a muralha de Daminon; a cidade e o porto de Selímbria. Desta até ao estreito do Ponto, são 500 estádios. O local ao longo do Bósforo chama-se Anaplo, até alcançares Hiero. De Hiero, a largura da boca do Ponto é de 7 estádios. No Ponto, existem as cidades gregas da Trácia, a saber: Apolónia, Mesembria, [f. 84] Odessópolis, Cálatis, e o rio Istro. A navegação ao longo da costa da Trácia, desde o rio Estrímon até Sesto, ocupa dois dias e duas noites. De Sesto até a boca do Ponto, dois dias e duas noites. Da boca até ao rio Istro, são três dias e três noites.

O percurso total, desde a Trácia e o rio Estrímon até ao rio Istro, leva oito dias e oito noites.

[68.] Tauros de Escítia: Depois da Trácia, estão os escitas, um povo, entre os quais se encontram as seguintes cidades gregas: o rio Tiris, a cidade de Nicónion, a cidade de Ofiússa. Na região escítica habitam os tauros, uma etnia que ocupa um promontório do continente. O promontório estende-se até ao mar. Na região táurica residem gregos, e as suas cidades são as seguintes: Quersoneso, um entreposto comercial; Criumetopo,34 um promontório da Táurica. A seguir, deparam-se novamente os escitas, e as cidades gregas da região são as seguintes: Teodósia, Escítia, Ninfeia, Panticapeon, Mirmécion.

O percurso marítimo direto desde o rio Istro até à Criumetopo dura três dias e três noites, ao passo que por terra é o dobro, pois existe um golfo. Dentro deste golfo assenta uma ilha deserta denominada Leuce, consagrada a Aquiles.35 De Criumetopo até Panticapeon, um dia e uma noite; de Panticapeon até à entrada do lago Meótis são 20 estádios. Diz-se que o lago Meótis tem metade da extensão do Ponto. E no lago Meótis, ao entrar diretamente, os escitas estão à esquerda; pois habitam desde o mar exterior, acima de Táurica, até ao [f. 85] lago Meótis.

Sírmatas: comunidade e rio Tánais delimita a Ásia e a Europa.

[69.] Navegação ao longo de toda a Europa: A partir das Colunas de Héracles, situadas na Europa, navegando pelos golfos costeiros e calculando tanto os dias como as noites, conforme estão registados, e considerando que para cada conjunto de 500 estádios se estima um dia de viagem, a circum-navegação da Europa – sendo metade do Ponto equivalente ao lago Meótis – completa-se em 150 dias.

Os maiores rios da Europa são o Tánais, o Istro e o Ródano.

[70.] Ásia: A partir do rio Tánais, começa a Ásia, e o primeiro povo desta região, na parte do Ponto, são os sauromatas. Os sauromatas consistem numa etnia de ginecocratas.36

[71.] Meotas: Entre os povos governados por mulheres encontram-se os meotas.

[72.] Sindos: A seguir aos meotas, os sindos, um povo que se estende também para o exterior do lago. Existem cidades gregas entre eles, que são as seguintes: cidade de Fanágoro; Cepo; porto Sindico; Pato.

[73.] Cercetas: Após o porto índico, ficam os cercetas, um povo

[74.]37 e também a cidade grega Torico e um porto.

[75.] Aqueus: Depois dos toretas, estão os aqueus, um povo.

[76.] Heníocos: A seguir aos aqueus, a etnia dos heníocos.

[77.] Coraxos: Após os heníocos, a comunidade de coraxos.

[78.] Cólica: Posterior aos coraxos, a gente de Cólica.

[79.] Melanclenos: No seguimento de Cólica, o povo dos melanclenos e, entre eles, o rio Metasoris e o rio Egípio.

[80.] Gelones: Depois dos melanclenos, Gelones.

[81.] Colcos: Após o povo dos colcos, a cidade de Dióscuris; Gieno, cidade grega; rio Gieno; rio Queróbio; rio Corso; [f. 86] rio Ário; rio Fásis; cidade grega Fásis. E existe uma navegação rio acima de 180 estádios até à cidade de Malen, uma grande cidade bárbara de onde era Medeia. Neste local, há o rio Rís, o rio Ísis, o flúmen Leston, o rio Apsaro.

[82.] Bízeres: Depois da comunidade dos colcos, o povo dos bízeres, o rio dos daranos e o rio Árion.

[83.] Ecequiries: Na sequência dos bízeres, a etnia dos ecequiries; o rio Pordanis; o rio Arabis; a cidade de Límne; Odínio, uma cidade helénica.

[84.] Bequírice: Após os ecequiries, béquiros, um povo; o porto bequírico; a cidade helénica Bequírias.

[85.] Macrocéfalos: Depois de Bequiras, o grupo étnico dos macrocéfalos; Psoron, um porto; a cidade grega de Trapezos.

[86.] Mossínicos: Seguidamente aos macrocéfalos, o povo dos mossínicos; o porto Zefírio; a cidade helénica de Quírades; a ilha de Ares. Esta raça habita as montanhas.

[87.] Tibarenos: Depois dos mossinos, está o povo dos tibarenos.

[88.] Cálibes: Seguindo-se aos tibarenos, seguem-se as gentes dos cálibes; o porto fechado de Genetes; a cidade helénica de Estamênia; a acrópole grega Iasónia.

[89.] Assíria: Após os cálibes, segue-se o povo de Assíria; o rio Termodon; a cidade helénica de Temiscira; o rio Licasto, com uma cidade helénica; o rio Hális; Carussa, uma urbe helénica; a cidade helénica de Sinope; a cidade helénica de Cerasos; o rio Oquereno; a cidade helénica e porto de Harmene; a cidade helénica de Tetracis.

[90.] Paflagónia: Seguidamente à Assíria, está o povo da Paflagónia. Nela fica o porto Estefana; Colussa, uma cidade helénica; a urbe helénica de Cinolis; [f. 87] Carambis, cidade helénica; Cítoris, cidade helénica; a cidade helénica de Sésamo com o rio Parténio; Tíon, cidade helénica com porto; Psila e o rio Calícoro.

[91.] Mariandinos: Após a Paflagónia, segue-se o povo dos mariandinos. Aqui fica a cidade grega Heracleia; o rio Lico e outro rio, o Hípios.

[92.] Bitínios: A seguir aos mariandinos, encontram-se os bitínios trácios, um povo; o rio Sagário; outro rio, Artanes; a ilha Tinias (habitam-na heracleotas); e o rio Rebas. Logo depois, o estreito e o templo previamente mencionado na entrada do Ponto e, após isso, a cidade Calcedónia, fora da Trácia, a seguir à qual se apresenta o golfo Olbiano.

A navegação costeira, desde os mariandinos até a extremidade do golfo Olbiano (que na realidade faz parte da Trácia dos bitínios), é de três dias. E desde a boca do Ponto até à boca do lago Meótis, a travessia é semelhante, tanto ao longo da costa da Europa, como da Ásia.

[93.] Mísia: Depois da Trácia, as gentes da Mísia. Situa-se à esquerda do golfo Olbiano para quem navega em direção ao golfo Ciano, até Cio. A Mísia corresponde a uma costa. As cidades helénicas que nela se encontram são as seguintes: Ólbia e o respetivo porto; Calípolis e o seu porto; um promontório do golfo Ciano; e, à esquerda, a cidade de Cío e o rio Cío. A navegação ao longo da costa da Mísia até Cio leva um dia.

[94.] Frígia: Posterior à Mísia, fica a Frígia, uma sociedade, e os subsequentes burgos helénicos: Mirlia; o rio Ríndaco, no qual se encontra a ilha de Bésbico; a cidade de Plácia; e Cízico, situada no istmo que fecha a passagem. No interior do istmo está Artace. Nas proximidades desta, localiza-se a ilha e cidade de Proconeso, bem como outra ilha dotada de um bom porto, Elafoneso, [f. 88] que é cultivada pelos proconésios. No continente, encontram-se ainda as cidades de Priapo, Párion, Lâmpsaco, Percote, Ábido; e esta é a entrada de Propontis, junto a Sesto.

[95.] Troia: A partir daí, começa Troia, e nela encontram-se as seguintes cidades helénicas: Dárdano, Rítion, Ílion (que dista 25 estádios do mar), e por esta região flui o rio Escamandro. Próxima a este local está a ilha de Ténedo com um porto, de onde é oriundo Cléostrato, o astrólogo.38 Na parte continental encontram-se Síge, Aquilion, Crateres dos Aqueus, Colonas, Larissa, Hamaxito e o santuário de Apolo, onde Crises servia como sacerdote.39

[96.] Eólis: A partir daqui, a região chamada Eólis. As cidades eólicas que se encontram nela, junto ao mar, são as seguintes: Cebren, Escépsis, Neandria, Pítia. O percurso ao longo da costa da Frígia, desde a Mísia, vai até Antandro.

[97.] Lesbos: Nessas regiões, encontra-se uma ilha eólica, Lesbos, que detém cinco cidades: Metimna; Antissa; Ereso; Pirra, com um porto; Mítilene, que tem dois portos. Neste lugar há uma ilha e uma cidade; o nome desta é Pordoselene.

E eu volto novamente à terra firme, de onde me desviei para as ilhas.

[98.] Lídia: A partir de Antandro e de Eólia, a parte inferior era anteriormente, até Teutrânia, a terra da Mísia, mas agora pertence à Lídia. Os mísios subiram para o interior. Existem cidades helénicas na região e na Lídia, que são as seguintes: Ástira, onde se encontra o santuário, e Adramítion. A região é lésbia; [f.89] além disso, acima está a zona de Quio e a cidade de Atarneu. Mais abaixo, junto ao mar, encontra-se o porto de Pitane e o rio Ceco. Depois de Pitane, estão Eleia; Grinion; o Porto dos Aqueus, onde se diz que os aqueus deliberaram se deveriam pelejar contra Télefo ou descurar a questão;40 a cidade e o porto de Mírina; Cime e o porto (acima de Cime, na região interior, existe a cidade helénica de Egas); Leucas, com portos; Esmirna, onde esteve Homero; Fócia e o porto; o rio Hermo; Clazómenas, com um porto; e Eritra, com um porto. Seguindo estas regiões, encontra-se a ilha e o porto de Quio.

Torno novamente ao continente. A cidade e o porto de Geras; Teos, uma cidade e um porto; Lebedo; Colofon, na região interior; Notion com um porto; o santuário de Apolo Clario;41 o rio Caustro; Éfeso e o porto; Maratesion e, em terra firme, a cidade helénica de Magnésia; Aneia; Panionion; Erasistrátio; caradros;42 Fócia; Acadamis, Micale – estes lugares ficam no território dos sâmios. Frente à península de Micale, situa-se a ilha de Samos, que possui uma cidade e um porto fechado. Esta ilha não é menor do que Quio.

Volto novamente ao continente, de onde me desviei. Em Micale fica a cidade de Priene, que possui dois portos, um dos quais é fechado; em seguida, corre o rio Meandro. A navegação costeira ao longo da Mísia e da Lídia, desde os assírios até ao rio Meandro, ocupa dois dias e uma noite.

[99.] Cária: Após a Lídia, segue-se a Cária, uma comunidade, com as seguintes cidades helénicas: Heracleia; depois Mileto; então Mindo e o porto; Halicarnasso, com porto fechado [f. 90] e outro porto em torno da ilha, bem como um rio; ilha de Calimna; ilha de Cariandra, com uma cidade e um porto – estas gentes são cárias –; ilha de Cós com uma cidade e um porto fechado. Nestes domínios está o Golfo Ceramíaco de Cária, assim também a ilha de Nisiro, com um porto.

Volto novamente à terra firme, de onde me desviei. O promontório sagrado Triópion, a cidade helénica de Cnido e o território dos ródios no continente; Cauno, uma cidade cárica, com um porto fechado; cabo Crago.

Rodes: Neste ponto, situa-se uma ilha e uma cidade, na qual existe uma antiga trípolis, composta pelas cidades subsequentes: Ialiso; Lindo; Camiro. Ao longo de Rodes, existem as seguintes ilhas habitadas: Cálcia, Telo, Caso, Cárpatos ‒ esta é uma trípolis. Além disso, o percurso ao longo da Cária, desde o rio Meandro até ao Cabo Criasso — que é o promontório da Cária — leva dois dias.

Torno uma vez mais ao continente, de onde me havia desviado.

[100.] Lícia: A seguir à Cária, depara-se a Lícia, uma comunidade. Os lícios detêm as seguintes cidades: Telmesso, com um porto; o rio Xanto, navegável rio acima rumo a Patara, uma cidade que possui um porto; Feldo, cidade e porto. Nesta região, pertencente aos ródios, situa-se a ilha de Megista; Limira, cidade a que se chega a navegar pelo rio; depois a cidade de Ligeia, a seguir Quelidónias, um promontório com duas ilhas; ilha Dionísias; cabo e porto de Sidero. Acima deste ponto localiza-se um santuário de Hefesto, na montanha, onde um fogo intenso fulge a partir da terra e nunca se extingue. E se fores mais acima, afastando-te do mar, encontra-se a cidade e o porto de Fáselis [f. 91] (que é uma baía); a cidade de Idiro; a ilha de Lirnatia; Ólbia; Magido e o rio Catarractes; a cidade de Perge e o santuário de Ártemis. A navegação direta ao longo da costa da Lícia, a partir da Cária, dura um dia e uma noite; mas o percurso por terra é o dobro deste, pois a região é peninsular

[101.] Panfília: No seguimento de Lícia, está Panfília, uma comunidade étnica. E nela as seguintes cidades: Aspendo, cidade para a qual se navega pelo rio, que é o flúmen Eurimedon; depois, a cidade de Silion; Side, outra cidade, colónia dos cimeus, e o seu porto. O percurso costeiro de Panfília, desde Perge, é de metade de um dia. Existem também outras cidades de Panfília, como Cíbira e, em seguida, Coracesion.

[102.] Cilícia: Após Panfília, fica Cilícia, um povo, com as seguintes cidades: Selinos; cidade e porto de Caradros; Anemurion, um promontório e uma cidade; Nagido, cidade que também tem uma ilha. Junto a Seto encontram-se os portos de Posídion; Salon; os mios; cidade de Celenderis; burgo e porto de Afrodísios; e outro porto, que a cidade helénica de Holmos possui; Sarpédon, uma cidade deserta, com um rio; cidade helénica de Solos; cidade de Zefirion; rio Piramo e a urbe de Malo, para a qual a navegação se processa ao longo do rio; o entreposto comercial de Alane; porto Miriando dos fenícios; rio Tapsaco.

O percurso costeiro da Cilícia, desde as fronteiras de Panfília até ao rio Tapsaco, dura três dias e duas noites. Da cidade de Sinope, no Ponto, através do continente e Cilícia até Solos, de mar a mar, é um caminho de cinco dias.

[103.] Chipre: Na Cilícia, encontra-se a ilha de Chipre [f. 92], e nela, as seguintes cidades: a helénica Salamina, que possui um porto protegido para o inverno; Carpásia; Cerínia; Lepetis dos fenícios; Solos, que também possui um porto abrigado para o inverno; a helénica Marion; os amatos (são autóctones) – todas estas possuem portos desabitados. Existem também outras cidades no interior, habitadas por bárbaros.

Torno de novo ao continente, de onde me desviei.

[104.] Síria e Fenícia: Após a Cilícia, o grupo étnico dos sírios. Na Síria, habitam os fenícios, um povo que vive ao longo da costa marítima, numa faixa de terra com menos de quarenta estádios de largura a partir do mar, e em alguns pontos com menos de dez estádios. A partir do rio Tapsaco, tem lugar Trípolis dos fenícios; a ilha de Arado com o seu porto; a capital de Tiro, que está a cerca de oito estádios da terra firme; e, na península, outra cidade chamada Trípolis. Esta pertence a Arado, Tiro e Sídon. Nele há três cidades: cada uma cercada separadamente com a sua própria muralha. E o Monte Teoprosopon; Trieres, com porto; Berito, cidade e porto; Borino; cidade dos porfírios; Sídon, cidade e porto fechado; Orniton, cidade dos sidónios (desde o município de Leonton à cidade de Orniton); Sarapta, cidade dos tírios; outra cidade Tiro, com um porto dentro das muralhas. Esta ilha é a capital dos tírios e está situada a 3 estádios do mar; [f. 93] cidade de Palétiro, com um rio que flui pelo centro da cidade; e a urbe dos [habitantes de Ecdípia], e um rio; a cidade de Ace; Exope, cidade dos tí[rios; Carmelo], uma montanha sagrada de Zeus; Arados, urbe dos sidónios; [–] e rio dos tírios; Doro, uma cidade dos sidónios; [cidade de Iope] – dizem que foi aqui que Andróm[eda foi exposta ao monstro marinho –; Asca]lon, cidade dos tírios e capital – aq[ui estabelece-se o limite de Celes-]síria.43

O percurso costeiro da Celessíria, [desde o rio Tapsaco até] Ascalon, é de 2700 estádios.

[105.*]44 Á[rabes: Após a Síria, estão os árabes,] um povo, nómadas que montam a cavalo [e possuem pastagens de todo tipo de reba]nhos: de ovelhas e cabras [–], além de camelos. Esta região [–], existem muitos [–]. O Egipto [–] nela [–] que sai de [–] [f.94] [–] e da própria Arábia, a partir dos confins da Síria até à boca do [Nilo, e]m Pelúsio, já que este é o limite da Arábia – 1300 estádios. [Que a A]rábia pertence ao Egito até ao Nilo, nas proximidades do [Golfo Arábico]. [–] os egípcios; e eles trazem tributos para o Egi[–] sempre para os árabes.

[106.*] Egito: [Depois da Arábia, o Egito.] uma etnia. E nela as cidades são [as subsequentes: Pelúsion, cidade com porto] e assento régio; onde o ramal [pelusíaco do rio Nilo se situa], o primeiro da Arábia. [Segundo, o tânico, a partir do qual uma cidade régia]. Terceiro, o [mendésio, com uma cidade. Quarto, o fatnític]o. Quinto, o sebení[tico, com a cidade Sebenito, o lago Buto, on]de há uma cidade e um ré[gio assento. Sexto, o bolbítico, com uma cidade re]al. Sétimo, [o canópico, com a cidade de Tónis. A seguir a estes lugares, um lago] que tem o nome de [Márea. Este lago já fica n]a Líbia. [–] [f. 95] o pelusíaco divide-se novamente em dois braços. O sebenítico, por seu turno, divide-se em dois: um dirige-se para o mendésio e o outro para o mar. Do mendésio estende-se o canal até à boca fatnítica; do pelusíaco até à boca tânica; do canópico até ao lago sebenítico; e a boca Bolbítica flui do lago.

A maior parte da região costeira do Egito consiste em lagos e pântanos. O Egito apresenta uma configuração similar a um machado, pois é largo junto ao mar, tornando-se mais estreito no interior, e atinge maior estreiteza junto de Mênfis. Em seguida, ao avançar para o interior a partir de Mênfis, o espaço fica mais largo. Todavia, na parte superior, torna-se mais vasto. A área do Egito acima de Mênfis é mais extensa do que a zona costeira. O ramal canópico limita a Ásia e a Líbia. O percurso ao longo da costa do Egito, a partir da boca do Pelúsio, abrange 2300 estádios.45

O percurso em torno da Ásia (na realidade, forma um círculo), como é descrito para a Europa, é de 87 dias. Junto à boca do canópico, há uma ilha desabitada chamada Canopo, e nela há sinais de Menelau e do timoneiro vindo de Troia, cujo nome é Canopo,46 assim como do seu túmulo. Os egípcios e os povos vizinhos afirmam que o Pelúsion vai até Cásio, e o Canopo chega até à ilha onde se encontra o túmulo do timoneiro.

[107.] Líbia: A Líbia começa a partir da boca canópica do Nilo.

Adirmaquídas: A casta dos líbios são os adirmaquídas. A navegação a partir de Tónis [f. 96] até Faros, uma ilha deserta, que possui bons portos e não tem água, é de 150 estádios.

Em Faros, existem muitos portos. A água provém do lago de Márea e é potável. O trajeto até a lagoa de Faros é curto. Há também Queroneso e um porto. É um périplo de 6 estádios. Após o Queroneso, fica o Golfo Plintino. A boca do Golfo de Plintino até ao promontório de Leuce é o percurso de um dia e de uma noite; enquanto o trajeto até ao extremo da baía de Plintino ocupa duas vezes mais. Está habitado em redor. Desde o cabo Leuce ao porto Laodamântio, um trajeto de metade de um dia. Do porto de Laodamântio até ao porto de Paretónio, a navegação é de metade de um dia. Segue-se a cidade de Ápis. Até aqui, os egípcios governam.

[108.] Marmáridas: A seguir a Ápis, encontra-se um ramo étnico de líbios, os marmáridas, até Hespérides. A navegação de Ápis até aos penhascos tindários demora um dia. E dos penhascos tindários até ao porto de Plinos, a navegação estende-se por um dia. De Plinos a Petras Maior, a viagem é de metade de um dia. De Petras a Menelau, um dia de viagem. De Menelau a Cirtanion, um dia de navegação. A partir de Cirtanion, fica o porto de Antipigo, meio dia de navegação. A contar de Antipigo situa-se o porto de Petras Minor, um trajeto de metade de um dia. Após Petras Minor, os queronesos; Aquítides, um porto (estes pertencem ao território dos cireneus) – um percurso de um dia. No meio de Petras e Quersoneso localizam-se as ilhas Edóna e Platias. E sob elas há ancoradouros. A partir daqui, começa a crescer o silfio47 [f. 97] em campos arados, desenvolvendo-se desde o Quersoneso pelo interior até Hespérides, numa extensão de cerca de 1500 estádios ao longo da terra. A ilha de Afrodísias, com um ancoradouro; Naustatmo, um porto. O percurso, a partir de Quersoneso, é de um dia. E de Naustatmo até ao porto de Cirene: 100 estádios. Do porto até Cirene, 80 estádios. Cirene situa-se no interior. Estes são portos que podem ser utilizados durante todas as estações. Existem também outros refúgios sob ilhotas, ancoradouros e numerosos promontórios no território intermédio. Do porto de Cirene até ao porto, próximo de Barce, 500 estádios. A cidade dos barceus dista do mar 100 estádios. Do porto próximo de Barce até Hespérides, 620 estádios. Desde Cirene, há portos e as localidades repartidas até Hespérides são: Golfo Ficos; no interior desta região, encontra-se o Jardim das Hespérides.48 Este local tem 18 braças de profundidade e é escarpado em círculo, sem nenhuma descida acessível. Mede 2 estádios no total e não menos de largura e comprimento. É densamente sombreado por árvores entrelaçadas, incluindo lótus e árvores frutíferas de todos os tipos: romãzeiras, pereiras, medronheiros, amoreiras, vinhas, murtas, loureiros, heras, oliveiras, oliveiras selvagens, amendoeiras e nogueiras.

Entre as localidades não mencionadas encontram-se, junto ao jardim, Ampelo; Ápio, situada a 30 estádios de distância; Queroneso; numerosos jardins; Zenertis; Tauquira; povoação de Cáucalo; cidade e porto de Hespérides, e o rio Écio perto da cidade. Junto destas localidades, a partir do Queroneso dos antidos, algumas são dos cireneus, outras dos Barcaios, até Hespérides.

[109.] Nasamones e Macas: [f. 98] A partir de Hespérides, há um grande golfo, com o nome de Sírtis e, por assim dizer, segundo dizem, com uma estimativa de cerca de 5000 estádios. A sua largura, desde Hespérides até Neápolis,49 do outro lado, é uma viagem de três dias e três noites. À volta dela reside uma comunidade de líbios – os nasamones –, até ao extremo interior, à esquerda. Após estes, segue-se uma comunidade de líbios, junto a Sírtis, até à boca de Sírtis – os macas.

Ao navegar para Sírtis a partir de Hespérides, surgem costas heráclias. Depois dessas, Drepanon; três ilhas Pontinas; e, em seguida, as chamadas Lêucades. Na parte mais profunda da Sírtis, no seu extremo interior, deparam-se Altares de Fileno,50 um porto estatal; o bosque de Amon em Sírtis. A partir daqui, ao habitar Sírtis, os macas passam o inverno junto ao mar, a fechar os seus animais; e no verão, com a retração das águas, conduzem os animais para o interior, levando-os consigo.

Depois de Sírtis e além de Sírtis, há uma bela região e uma cidade, que se denomina Cinips; e se encontra desabitada. De Neápolis a Sírtis são 80 estádios na totalidade. Abaixo delas fica o rio Cinips, e situa-se abaixo, na direção do rio, uma ilha. A profundidade de Sírtis, no interior de Hespérides rumo aos Altares de Fileno, até ao extremo interior do golfo: um percurso de três dias e noites. Por seu turno, a largura, desde o rio Cinips até às ilhas Lêucades, corresponde a uma viagem de quatro dias e quatro noites.

[110.] [f. 99] Lotófagos: Para além de Sírtis, habitam líbios lotófagos, um grupo étnico, até à boca da outra Sírtis. Esses utilizam o lótus como alimento e bebida. A seguir a Neápolis, na região dos carquedónios, localiza-se a cidade Gáfara. No respeitante a ela, a viagem costeira a partir de Neápolis dura um dia. Posteriormente a Gáfara fica Abrotonon, uma cidade com porto. A partir desta, o percurso costeiro é de um dia. Após Abrotonon, está a cidade e porto de Tarília. A navegação costeira a partir de Abrotonon leva um dia. Junto a estes locais há uma ilha, que se chama Braquion, a seguir aos lotófagos, na zona de Taríquia. Esta ilha tem 300 estádios e um pouco menos em largura. Fica a cerca de 3 estádios do continente. Na ilha, cresce o lótus que eles degustam, e outro do qual produzem vinho. O fruto do lótus é do tamanho de um fruto de medronheiro. Também fazem muito óleo de oliveiras bravas. A ilha é muito fértil em trigo e cevada. O solo da ilha é de boa qualidade. O trajeto desde os taríquios até à ilha ocupa um dia.

A seguir à ilha, fica a cidade de Épico. Da ínsula a Épico é meio dia de viagem.

Desde Ésquides, o percurso de um dia. E, junto a esta, há uma ilha deserta. A seguir a ela encontra-se a ilha e cidade Cercínitis, e, próxima desta, Tapso. A viagem costeira entre esta e Tapso demora dia e meio. A partir de Tapso Minor e Adrimeto, encontra-se um grande golfo interior, no qual está Sírtis Minor, apelidada Cercínitis, que é muito mais perigosa [f. 100] e difícil de navegar do que a outra Sírtis, cujo perímetro é de 2000 estádios. Nesta Sírtis situa-se a designada ilha Tritonis e o rio Triton, onde existe um santuário de Atena Tritonis.51 Possui uma pequena boca. O porto é pequeno, e junto a essa entrada depara-se uma ínsula. Quando há maré baixa, às vezes o lago parece não oferecer nenhum acesso aos navegantes. Este porto é vasto, com um âmbito de cerca de 1000 estádios. Em seu redor, habita a etnia de todos os líbios e situa-se uma cidade além do porto, na direção do sol poente. Diz-se que a panóplia de líbios é loura e de extraordinária beleza. O território é ótimo e produtivo, congrega animais de grande porte e em grande número, e eles próprios são deveras ricos e belos.

Depois desta Sírtis, situa-se Neápolis. O périplo, desde Adrimeto a Neápolis, é de um dia.

A seguir a Neápolis, Hermeia, um cabo e uma cidade. A viagem costeira de Neápolis a Hermeia demora dia e meio.

De Neápolis ao istmo distam 180 estádios a pé rumo ao outro mar, na direção de Carquédon. Existe um promontório através do qual fica o istmo. A viagem desde o rio daqui até Carquédon, a metade de um dia. Porém, o território dos carquedónios encontra-se num golfo.

[111.] Carquédon: A seguir ao istmo de Carquédon fica a cidade e o porto dos fenícios. O périplo desde Hermeia consiste em metade de um dia até Carquédon. No Cabo Hermeia localizam-se ilhas: a ilha Pontia e Cosiro. [f. 101] A travessia de Hermeia a Cosiro é de um dia. Após o Cabo Hermeia, em direção ao sol nascente, pouco depois de Hermeia, há três pequenas ilhas nesta região, habitadas por carquedónios: a cidade e porto de Melite; a cidade de Gaulo; Lampedusa (esta possui duas ou três torres defensivas). E além de Cosiro até Lilibeion, o promontório de Sicília, a travessia de um dia.

Após Carquédon, fica a cidade e o porto de Ítice. A viagem costeira de Carquédon a Ítice persiste por um dia. A partir de Ítice, promontório de Hipona, a cidade de Hipona, um lago que fica nela, bem como ilhas no lago, e, em torno do lago, as seguintes cidades localizadas nas ilhas: urbe de Psegas, e, no seu lado oposto, muitas ilhas náxicas: Pitecusas, com um porto; à sua frente, uma ilha e, nela, a cidade de Eubeia; Tapsa, cidade e porto; Cáucasis, uma cidade com um porto; Sida, uma cidade; Iúlio, promontório, burgo e porto; Hebdomo, cidade com porto; Ácion, ilha, que possui uma cidade com um porto; ilha Psâmato, cidade com porto e golfo. No golfo, encontra-se Bartas, uma ilha com um porto; Calca, uma cidade no rio; cidade de Arlon; cidade e porto de Mês; Sige, uma cidade no rio; e, frente ao rio, está a ilha de Acra, com uma grande cidade e porto; a cidade Acro, com um golfo no seu interior; a ilha deserta denominada Drinaupa; Colunas de Héracles na Líbia; Cabo Abilice, a cidade num rio e no seu oposto as ilhas Gadiras. De Carquedon, nesta direção até às Colunas de Héracles, com a melhor navegação, a viagem costeira dura sete dias e sete noites.

Gadiras: Estas ilhas estão à frente da Europa; [f. 102] uma delas possui uma cidade. As Colunas de Héracles situam-se junto delas – uma na Líbia, humilde; e outra na Europa, soberba. São promontórios que se encontram diretamente opostos um ao outro, separados pela travessia de um dia.

A viagem costeira da Líbia, desde o Egito, a partir da boca Canópica, até às Colunas de Héracles, sendo o cálculo estabelecido nos mesmos termos que os descritos para a Ásia e a Europa, consiste numa navegação circular ao longo dos golfos: 74 dias. Todas as povoações ou entrepostos comerciais mencionados na Líbia, desde Sírtis, junto a Hespérides, até às Colunas de Héracles, pertencem aos carquedónios.

[112.] Após as Colunas de Héracles, ao navegar para o exterior, mantendo a Líbia à esquerda, situa-se um grande golfo que se estende até ao Cabo Hermeia. Pois aqui, também existe um Cabo Hermeia. No meio do golfo situa-se o lugar e a cidade dos Pontion. À volta da cidade, localiza-se um grande lago, no qual se situam muitas ilhas. Em torno do lago, cresce cana, junco, caniço e espadana. As aves meleágrides encontram-se aqui e em mais nenhum outro lugar, a menos que sejam exportadas a partir daqui. Este lago chama-se Cefésias, e o golfo, Cotes, situando-se entre as Colunas de Héracles e o Cabo Hermeia.

Desde o Cabo Hermeia, estendem-se grandes recifes, que vão desde a Líbia até à Europa, sem se projetarem acima da água: em alguns locais, a água passa sobre eles. O recife prolonga-se até ao outro cabo da Europa, situado no lado oposto. [f. 103] Este cabo é chamado de Promontório Hieron. A partir do Cabo Hermeia, localiza-se o rio Anides, que desagua num grande lago. A seguir ao Anides, há outro grande rio, Lixo; a cidade dos fenícios, Lixo; outra cidade dos líbios além do rio e um porto. Depois de Lixo, apresenta-se o rio e porto de Crabis e a cidade dos fenícios, chamada Timiateria. Desde Timiateria, realiza-se uma travessia até ao Cabo Sólois, que se projeta bastante no mar. De todo o território da Líbia, esta região é a mais célebre e sagrada. Sobre o promontório do cabo ergue-se um grande altar consagrado a Posídon. No altar, estão esculpidas estátuas humanas, leões e golfinhos. Dizem que foram feitas por Dédalo. A partir do Cabo Sólois, situa-se um rio chamado Quíon. Em torno deste rio habitam os etíopes sagrados. Nestas regiões, há uma ilha de nome Cerne. A viagem costeira, desde as Colunas de Héracles até ao Cabo Hermeia, são dois dias. Do Cabo Hermeia ao Cabo Sólois, a viagem ao longo da costa dura três dias. De Sólois a Cerne, a viagem costeira dura sete dias. O total da viagem costeira, desde as Colunas de Héracles até à ilha de Cerne, é de doze dias.

Os domínios além da ilha de Cerne não são navegáveis, devido à pouca profundidade do mar e à presença de lama e algas marinhas. As algas têm o tamanho de uma mão e são pontiagudas na parte superior, de modo que ferem ao tocarem-se. Os comerciantes são fenícios, mas, sempre que chegam à ilha de Cerne, ancoram as suas embarcações mercantis e montam tendas em Cerne para si mesmos. Retiram a carga [f. 104] e transportam-na em pequenos barcos até ao continente.

Em terra firme, vivem etíopes, para os quais eles dispõem as suas mercadorias. E vendem-nas em troca de peles de veados, leões, leopardos, dentes de elefantes e peles de gado. Os etíopes utilizam para adorno pinturas; como recipientes para beber, taças de marfim; as suas mulheres usam pulseiras de marfim como ornamento, e também decoram os cavalos com marfim. Estes etíopes são os maiores de todos os humanos de que temos conhecimento, ultrapassando os quatro côvados de altura, e alguns chegam aos cinco. São barbudos, de cabelos compridos, e considerados os mais belos de todos os homens. O maior entre eles governa-os. São também cavaleiros, lanceiros, arqueiros e utilizam flechas endurecidas pelo fogo. Os comerciantes fenícios trazem-lhes unguento, pedra do Egito, javalis entalhados,52cerâmica ática e vasos – estes artefactos são vendidos durante o festival dos Coes.53 Estes etíopes revelam-se consumidores de carne e leite e produzem muito vinho a partir das suas vinhas, aquele que os fenícios também transportam. Eles possuem ainda uma grande cidade, para a qual os comerciantes fenícios navegam. Além disso, alguns afirmam que esses etíopes, habitando ininterruptamente essa região, se estendem até ao Egito, e que este mar [f. 105] é igualmente contínuo, ao passo que a Líbia apresenta a forma de uma península.

[113.] Divisória54 através do mar entre a Europa e a Ásia processa-se quase em linha reta, aproximadamente na vertical: A separação começa em Euripo, junto a Cálcis, e até Geresto são 7 estádios na generalidade:55 de Geresto a Peônio de Andro, são 80 estádios. De Andro até Áulon, são 280 estádios. A travessia de Áulon até Teno é de 12 estádios. De Teno até ao promontório junto a Reneia, são 150 estádios. O percurso até Reneia corresponde a 40 estádios. De Reneia a Mícono, a viagem costeira é de 40 estádios. A navegação, desde Míconos até aos Rochedos Melântios, um pouco menos de antes do meio-dia, cerca de 40 estádios. Dos Rochedos Melântios até Ícaro, uma viagem antes da metade do dia. De Ícaro, é de 300 estádios de extensão. A partir de Ícaro a Samos, uma viagem antes do meio-dia. De Samos, 200 estádios. De Samos até Mícale, a navegação é de 7 estádios. No total, partindo de Samos com as melhores condições de navegação, são 2370 estádios, sem contar a travessia.

Outra partição, feita de forma direta e reta: Até aos citeros são 30 estádios. A extensão dos citeros é de 100 estádios. Até Egília, uma navegação de antes do meio-dia. O comprimento da costa de Creta é de 2500 estádios. De Creta até Cárpato, são 100 estádios. A extensão da costa de Cárpato é de 100 estádios. Para Rodes, a partir de Cárpato, são 100 estádios de navegação. Da Costa de Rodes, 600 estádios. Desde Rodes até à Ásia, 100 estádios. O trajeto da divisória [f. 106] é de 4270 estádios.

[114.] Magnitude das ilhas: A maior é Sardo; a segunda, Sicília; a terceira, Creta; a quarta, Chipre; a quinta, Eubeia; a sexta, Córsega; a sétima, Lesbos; a oitava, Rodes; a nona, Quio; a décima, Samos; a décima primeira, Córcira; a décima segunda, Taso; a décima terceira, Cefalónia; a décima quarta, Naxos; a décima quinta, Cós; a décima sexta, Jacinto; a décima sétima, Lemnos; a décima oitava, Egina; a décima nona, Imbros; a vigésima, Taso.

Périplo de Escílax cariandense em torno de terra habitada.

Material suplementario
Información adicional

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Notas
Notas
1 Embora filologicamente admissível a forma simplificada ‘Cílax’, opta-se, no presente ensaio, por ‘Escílax’, com e protético, conforme a tradição filológica clássica portuguesa e os princípios de adaptação fonética e morfológica da língua portuguesa relativamente aos lexemas helénicos iniciados por σ + consoante (neste caso, Σκύλαξ). Este procedimento, consagrado na tradição erudita portuguesa e cultivado por autores como Rebelo Gonçalves (Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa) e Rodrigues Lapa (Estudos de Filologia Portuguesa), visa adequar tais vocábulos à fototática do português, que historicamente rejeita encontros consonânticos iniciais impronunciáveis sem vogal de apoio.
2 No tocante à identidade de Dario, Vóssio (1624, p. 100) refere Dario Codomano (m. 330 a.C.). Por seu turno, Voss (1639, praef. 1) contempla Dario II Noto (m. 404 a.C.). Já Bayer (1728, p. 417) considera Dario enquanto filho de Histaspes, sátrapa da Pérsia no séc. V a.C.
3 Ver Fabre (1965, p. 353-66); Tola e Dragonetti (1986, p. 159-60); Cobb (2015, p. 362).
4 Cf. Schepens e Delcroix (1996, p. 373-460); Winiarczyk (2011, p. 1-27).
5 Cf. Pretzler (2009, p. 357).
6 Ver Müller (1855, p. XLIV); Merker (1989, p. 307); Counillon (2007, p. 33-42).
7 Atente-se na reiteração de segmentos sintáticos, quais fórmulas estruturais, como remate no encadeamento geográfico (e.g. §34, 67) ou de secção (viz. Ἐπάνειμι δὲ πάλιν ἐπὶ τὴν ἤπειρον, ὅθεν εἰς [‒] ἐξετραπόμην, “Regresso, então, ao continente, de onde me desviei, para [–]”).
8 Considere-se falta de uniformidade e consistência da forma de medir as distâncias. Ver Peretti (1988, p. 13-137).
9 A propósito da proveniência étnica do autor, cf. Baschmakoff (1948, p. 23); Marcotte (1986, p. 165-82); Counillon (2004, p. 11).
10 Cf. Shipley (2024, p. 1-72).
11 Designadamente, as páginas são translucentes ao escrito no seu verso; mostram subtração de algumas partes (e.g. ff. 67-68; 73-74, 91-92, 99-100) grafadas em conformidade; emendas (e.g. ff. 77-78). Impedem a leitura, por vezes, o suporte de escrita hodiernamente já corrompido (e.g. ff. 93-94) e ‘ruídos de escrita’ (e.g. máculas de tinta – f. 97).
12 Historiador. BNJ 629 F 1; FGrH 629. Vd. Matijašić (2016, p. 13 n. 42). Cf. Schol. Ps.-Scyl. 1 [T4 Kaplan].
13 Hodie‘Estreito de Gibraltar’.
14 Antiga cidade marítima estratégica do Lácio, situada na costa ocidental da península Itálica, a sul da foz do Tibre. Conhecida como importante centro naval e comercial, destaca-se também enquanto lugar de residência de figuras como Nero e Calígula.
15 Figura da mitologia tradicional. Contava-se entre os companheiros de Ulisses, que foi transformado num porco na ilha de Circe (Od. 10.550). Solicita a Ulisses, aquando da catábase deste, a construção de um memento em sua honra (Od. 11.57; Od. 12.10).
16 Cf. nostos de Ulisses até Ítaca, após o Conflito Troiano. Um dos episódios contempla a permanência durante 7 anos com Calipso, na ilha de Ogígia (Od. 7.259-260).
17 Herói da Guerra de Troia, rei de Argos. Vd. aristeia, Od. 5.
18 [Espina].
19 Rei dos feaces, ilha de Esquéria (Trácia). Cf. Od. 7.112-32.
20 Povo da ilha de Meninge (norte de África), consumidor do fruto de lótus. Cf. errores de Ulisses (Od. 9.80-104).
21 Cf. A respeito desta figura da tradição mitológica, a fundação de Tebas, na Beócia, e o matrimónio com Harmonia.
22 Taulâncios] Müller 32.
23 Dodónias] Müller 33.
24 Gigante disforme. Cf. Apollod. 2.5.10, a propósito de Gérion e um dos trabalhos de Héracles.
25 Ambrácia é inicialmente uma cidade da Tesprócia, fundada por Ambrax, filho de Tesproto. Torna-se grega, a partir do assentamento de colonos coríntios sob Cípselo e Gorgo (séc. VII a.C.). Vd. Th. 1.30.
26 Estrabão (10.2.8) menciona que Leucade foi inicialmente uma península e que os coríntios a transformaram em ilha, ao cavar um canal. Cf. Od. 24.11.
27 Ilha do Mar Iónico, cuja suserania é reportada pela tradição mitológica a Ulisses.
28 Vd. δίκτυννα: Ártemis, enquanto divindade caçadora.
29 Ῥαῦκος] Holtenius.
30 É extemporâneo ponderar sobre a complexa ‘questão homérica’.
31 Φθιῶται, naturais de Ftia (o reino de Aquiles, segundo a tradição mitológica).
32 Político e orador exilado ateniense.
33 Νέον τεῖχος.
34 Κριοῦ μέτωπον.
35 Post mortem, a psyche de Aquiles lamenta-se, aquando da catábase de Ulisses (Od. 11.489-491). Autores tardios contemplam-na Ilha Branca (Paus. 3.19.11), onde recebe culto e desposa figuras mitológicas (Medeia ou Ifigénia).
36 Uma inversão do polo dominante na dicotomia masculino/feminino na virilizada sociedade helénica, transitando a mulher. Cf., similarmente, tríbadas, amazonas. Vd. Figueira (2010, p. 265-96); McClure (2020).
37 O presente excerto do códice merece reconhecimento académico (cf. lema ‘Toretas’] Müller, 1855, p. 60) enquanto secção autónoma, pese embora não destacado a vermelho no registo quirográfico.
38 Pondere-se a respeito de astrologia e astronomia no séc. V a.C. (Pl. Smp. 188b). Considere-se Troca Pereira (2020, 18-9).
39 Sacerdote grego de Apolo (Il. 1.8-32).
40 Episódio mitológico relativo a Télefo, suserano da Mísia, localidade que as tropas argivas alcançaram após uma primeira partida de Áulis, julgando tratar-se de Troia (Str. 1.1.17). Tomados como inimigos, o contingente grego superioriza-se, Télefo é ferido, porém conduz os seus congéneres (pois era filho Héracles, Pi. O. 9.112, I. 5.52; Paus. 10.28) até Troia.
41 Ἀπόλλωνος Κλαρίου, relativo à distribuição de lote.
42 Inserido na listagem de cidades, o etnónimo Χαραδροῦς, lexema em acusativo do plural, distinto dos demais topónimos, em nominativo do singular.
43 Κοίλης Συρίας.
44 * Secção 105 e 106 não indicadas em edições como Müller (1855).
45 Cf. Plin. 5.19, 1360 estádios. Já Müller (1855, p. 81) adota 1300 estádios.
46 No regresso a Esparta, após a Querela Troiana, o timoneiro de Menelau, morto pela picada de uma serpente, ao desembarcar no Egito. Em sua homenagem, Menelau fundou uma cidade epónima, na foz do Nilo (Str. 17.1.17; St. Byz. K63). Hodie, Abukir.
47 Deveras utilizado na prática abortiva, foi o silphium ou ‘dádiva de Apolo’ (cf. Ar. Eq. 893-901; Plin. HN. 13.42; Catul. 7; Macr. 2.4.1), a ponto de conduzir à sua extinção, no período conturbado quanto à moralidade, na época imperial romana.
48 Considerem-se, na tradição mitológica, ninfas filhas da Noite e de Atlas. Cf. Verg. A. 4.480; Plin. H. N. 6.31.36.
49 Νέα πόλις.
50 Φιλαίνου βωμοί.
51 Cf. nascimento de Atena a partir de Zeus, no rio Triton (Líbia), Apollod. 3.12.3; Paus. 9.33.5. Noutra tradição, filha de Posidon e Tritonis (Hdt. 4.180).
52 Secção de difícil entendimento: ἄπρους ἐξαράκτους.
53 Segundo dia das Antestérias, festival dionisíaco de três dias. Veja-se, a esse respeito, Robertson (1993, p. 197-250).
54 Διάφραγμα.
55 ζ᾿ κοινή] codex φ᾿ καὶ ν᾿] Müller.
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