Resumo: O presente trabalho apresenta a tradução do episódio da estadia de Aquiles na corte do rei Licomedes na obra latina Excidium Troiae (c. IV-VI d.C.). O texto trata da mitológica ocultação de Aquiles por sua mãe, Tétis, que o disfarça como mulher entre as filhas de Licomedes. Embora anônima, Excidium Troiae sugere influência de fontes clássicas e pode ter sido uma compilação medieval baseada em textos anteriores. Partindo da edição fornecida por Atwood e Whitaker (1971), a tradução para o português visa a tornar acessível uma obra ainda pouco conhecida da academia brasileira.
Palavras-chave: Mitologia, Guerra de Troia, Excidium Troiae, Aquiles.
Abstract: The present article presents the translation of the episode of Achilles’ stay at the court of King Lycomedes in the Latin work Excidium Troiae (c. 4th-6th centuries AD). The text addresses the mythological concealment of Achilles by his mother, Thetis, who disguised him as a woman among Lycomedes’ daughters. Although anonymous, Excidium Troiae suggests the influence of classical sources and may have been a medieval compilation based on earlier texts. Drawing on the edition provided by Atwood and Whitaker (1971), the Portuguese translation aims to make this work, still little known in Brazilian academia, more accessible.
Keywords: Mythology, Trojan War, Excidium Troiae, Achilles.
Traduções
In parthenos inter filias regis: o episódio de Aquiles na corte de Licomedes em Excidium Troiae
In parthenos inter filias regis: The episode of Achilles at the court of Lycomedes in Excidium Troiae
Recepción: 08 Abril 2023
Aprobación: 22 Agosto 2025
Aquiles, o lendário guerreiro grego imortalizado por Homero na Ilíada, é conhecido por sua bravura na Guerra de Troia. No entanto, antes de sua gloriosa carreira militar, o herói viveu um episódio curioso, que não consta da obra homérica. Reza a mitologia que sua mãe, a ninfa Tétis, preocupada com o destino do filho, vestiu-o com trajes femininos e escondeu-o entre as filhas de um rei chamado Licomedes. É a esse episódio, de um Aquiles travestido de mulher, que se dedica o recorte aqui traduzido e comentado de Excidium Troiae.
A anônima Excidium Troiae é uma obra da prosa latina de teor mitológico, provavelmente composta como nos chegou entre os séculos IV e VI d.C.1 Seu conteúdo abarca desde o casamento de Peleu e Tétis até o reinado de César Augusto. Quanto ao seu gênero, Atwood e Whitaker (1971, p. xviii), considerando a possibilidade de Excidium Troiae ter retirado seu relato de um precedente grego, afirmam que sua forma em latim “foi quase certamente concebida como um manual para a instrução dos jovens”.2 Na mesma linha, Bate (1986apud Yavuz, 2014, p. 161) considera que o material encontrado nessa obra serviria de subsídios educacionais para as gerações sucessivas. Colaboram para essa opinião as regressões3 e expressões explicativas (por exemplo, Quid multa?, Redeamus ad causam e dicere habes), as quais estabelecem uma organização na obra diferente da esperada para um texto puramente de fruição, ou de teor poético.
A maior parte de Excidium Troiae encontra paralelos nas fontes clássicas (Atwood; Whitaker, 1971, p. xi-xii), mas quase nenhuma conexão com obras tardias, como as crônicas troianas de Díctis e Dares. Acresce a notícia de Abrantes (2015, p. 37-8) a respeito de Excidium Troiae apresentar cenas não encontráveis em outras fontes, como o certame entre Marte e um dos touros de Páris, passagem que justifica a idoneidade do pastor e sua capacidade de desempenhar o papel de juiz na disputa entre as deusas.4
Para Atwood e Whitaker (1971, p. xiii), forçosamente se deve considerar que essa obra anônima teria sido uma redação posterior de uma mais antiga crônica latina de tema troiano, em tempos clássicos, cujo autor latino “original” teria se baseado diretamente em fontes gregas. Corrobora para essa afirmação o suposto “sabor grego” na linguagem da obra (Atwood; Whitaker, 1971, p. xvi).
Abrantes (2017, p. 77) entende ainda que nem de uma mesma lavra seria essa redação, mas de pelo menos duas fontes diferentes derivaria essa compilação, haja vista, por exemplo, “um mesmo herói ser chamado Odisseus na primeira parte mas Ulixes na segunda”. Atwood e Whitaker (1971, p. xiv) acrescentam que o conhecimento demonstrado concernente à literatura antiga dificulta a afirmação de que seja, de fato, um texto medieval. Não obstante, pode ter sofrido alterações ou sido compilado então já na Idade Média com base em fontes anteriores (Abrantes, 2017, p. 77), conservando uma temática já há muito de interesse e gosto do público. Quanto à sua transmissão e recepção, é curioso observar com Yavuz (2014, p. 163-4) que Excidium Troiae se situava ao lado de obras consideradas “históricas”, e isso se deve à noção de “herança troiana”, iniciada no uso poético-político-cultural virgiliano do mito de fundação romano.
Quanto ao episódio selecionado para a tradução, os editores Atwood e Whitaker (1971) são da opinião de que essa parcela, em linhas gerais, aponta para Estácio como fonte. No entanto, não parece, afirmam ainda, ter sido diretamente baseado na Aquileida. Outras fontes latinas que contam o episódio são Ovídio, nas Metamorfoses (XIII, 161-70), e Higino, nas Fábulas (96). Quanto aos textos gregos, vale mencionar Apolodoro e Filóstrato.5 Os tragediógrafos Sófocles e Eurípides teriam escrito duas obras cujo tema seria a estadia de Aquiles em Ciro.6 Há outras menções do episódio na literatura antiga, bem como atestação de certa predileção por esse episódio da juventude de Aquiles na arte imagética, a exemplo de representações em sarcófagos romanos (cf. Giraud, 2006; Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae, I, p. 37-65).
Por fim, a tradução que segue, inédita em nossa língua, é anotada e comentada, focalizando aspectos textuais e intertextuais, com o fito de construir um mínimo de erudição para o leitor. Assume-se como base a edição fornecida por Atwood e Whitaker (1971, p. 9-10). A versão em português procura manter uma leitura sem um grande afastamento da língua latina, embora essa decisão pese na fluidez.7 O objetivo é, pois, fornecer um primeiro texto em português para que se possa cotejar e estudar a obra original. Com isso, busca-se fornecer mais subsídios para o estudo da transmissão do mito troiano e da tradição e recepção clássicas em linha histórica.
Texto latino e tradução

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