Traduções

O arbusto sangrando à letra: uma experiência de tradução do episódio de Polidoro na Eneida

The bush bleeding to the letter: an experience of translating the Polydorus episode in the Aeneid

Márcio Thamos
Universidade Estadual Paulista, Araraquara, São Paulo, Brasil, Brasil

O arbusto sangrando à letra: uma experiência de tradução do episódio de Polidoro na Eneida

Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-14, 2025

Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Recepción: 03 Febrero 2025

Aprobación: 13 Junio 2025

Resumo: Este artigo apresenta uma tradução experimental de uma passagem da Eneida (III, 1-72) tradicionalmente conhecida como “O arbusto sangrento” ou “O túmulo de Polidoro”. O episódio, que combina elementos trágicos, prodigiosos e éticos, insere-se no contexto das errâncias de Eneias após a destruição de Troia, marcando uma etapa decisiva na construção da narrativa épica e no desenvolvimento do caráter do herói. A tradução foi realizada a partir da noção de literalidade proposta por Antoine Berman, que não se limita à reprodução mecânica da ordem das palavras do texto original, mas busca incorporar à língua de chegada traços estruturais característicos da língua de partida. Por conseguinte, a tradução visa a preservar a densidade expressiva e a alteridade do texto virgiliano, mantendo recursos como a sintaxe fragmentada do latim, ao mesmo tempo que se esforça para não ultrapassar certos limites de inteligibilidade e fluidez da língua luso-brasileira. Por fim, a discussão teórica enfatiza como a literalidade, assim compreendida, pode transformar a tradução em um espaço de diálogo entre culturas, enquanto pondera também sobre desafios e possibilidades éticas e estéticas envolvidas nesse processo.

Palavras-chave: tradução literal, literalidade, Berman, Eneida, Polidoro.

Abstract: This article presents an experimental translation of a passage from the Aeneid (III, 1-72) traditionally known as “The Bloody Bush” or “The Grave of Polydorus”. The episode, which combines tragic, prodigious and ethical elements, is set in the context of Aeneas’ wanderings after the destruction of Troy, marking a decisive stage in the construction of the epic narrative and in the development of the hero’s character. The translation was carried out based on the notion of literalness proposed by Antoine Berman, which is not limited to the mechanical reproduction of the word order of the original text, but seeks to incorporate structural features characteristic of the source language into the target language. Consequently, the translation aims to preserve the expressive density and otherness of Virgil’s text, maintaining resources such as the fragmented syntax of Latin, while at the same time striving not to exceed certain limits of intelligibility and fluidity of the Brazilian Portuguese. Finally, the theoretical discussion emphasizes how literalness, as thus understood, can transform translation into a space for dialogue between cultures, while also considering the ethical and aesthetic challenges and possibilities involved in this process.

Keywords: literal translation, literalness, Berman, Aeneid, Polydorus.

O episódio de Polidoro e seu simbolismo na Eneida

O episódio situado no começo do Livro III da Eneida, tradicionalmente conhecido como “O arbusto sangrento” ou “O túmulo de Polidoro”, insere-se no contexto das errâncias de Eneias após a destruição de Troia. Esse momento da narrativa marca a transição entre a completa ruína da cidade e a busca por um novo lar, conduzida sob os auspícios do destino e dos deuses. Trata-se de uma passagem que combina o horror sobrenatural, a tragédia troiana e o peso moral que paira sobre o herói, criando uma atmosfera densa e sombria logo no início do relato de suas viagens pelo Mediterrâneo.1

Após o prólogo de abertura do Livro III, em que Eneias lamenta a devastação da cidade e narra a partida do grupo de sobreviventes, os exilados aportam na Trácia, uma terra anteriormente aliada a Troia, mas que se revela manchada por um crime terrível. A descrição inicial do cenário desperta um enlevo enganador: vastos campos, favorecidos pelo deus Marte, que sugerem força e prosperidade. Contudo, ao iniciar o ritual de fundação de uma nova cidade para os troianos, o herói descobre, por meio de um prodígio macabro, que o local está contaminado pela traição e pela violência. Ao arrancar um arbusto de mirto para adornar um altar, quando rendia solenes oferendas aos deuses, Eneias vê sangue escorrer das raízes. O terror se intensifica com a revelação do espírito de Polidoro, um filho de Príamo, ainda muito novo, que relata sua morte brutal e o sacrilégio cometido pelo rei trácio, que havia traído a aliança com Troia para apoderar-se do tesouro do jovem príncipe.2

A figura de Polidoro, varado por uma “seara de dardos” (v. 46), torna-se um símbolo da traição e da avareza, que a célebre expressão auri sacra fames (v. 57) assinala. O episódio, porém, é também emblemático por outros importantes motivos. Primeiro, ele reforça temas centrais da Eneida: a fragilidade das alianças, a inevitabilidade do destino e o papel do sagrado na experiência humana. Segundo, o episódio sublinha o caráter heroico e piedoso de Eneias: diante do horror inesperado, ele não apenas roga à providência divina, mas também conduz um ritual funerário digno, restabelecendo a ordem moral antes de abandonar a terra profanada.

Narrativamente, o episódio de Polidoro não é isolado, mas funciona como um prelúdio, uma espécie de antecipação para desafios que Eneias enfrentará em sua jornada. A passagem, que evolui do pavor paralisante à ação restauradora, prenuncia dilemas éticos e espirituais que definirão o percurso do herói, sintetizando temas que aparecerão de forma recorrente no poema: a traição humana, o peso do destino, o papel central da pietas e o confronto entre valores éticos e desafios políticos, sugerindo, desde o início, que a missão de Eneias será marcada por decisões difíceis, em que o equilíbrio entre o dever para com os deuses, a memória de Troia e os interesses de seu povo será constantemente testado.

Além disso, o prodígio do arbusto sangrento insere na história o sobrenatural de forma literalmente arraigada, conectando o mundo terreno ao divino e atingindo um caráter alegórico. Da perspectiva histórica de sua composição, a narrativa virgiliana, nesse ponto, evoca não apenas a mitologia, mas também a memória cultural romana e os então recentes transtornos da Guerra Civil, carregando o texto de alusões às consequências da ganância, da desordem social e do abandono das virtudes.

Por fim, o episódio de Polidoro é uma síntese impressiva dos temas abordados e da visão de mundo transmitida pelo poema, combinando a força visual e emocional de suas imagens com a profundidade ética e política que caracteriza a Eneida, além de ser uma introdução marcante aos desafios espirituais, morais e coletivos que Eneias e seus companheiros enfrentarão em sua lida por fundar uma nova pátria.

Pressupostos teóricos da tradução

Ao analisar a célebre tradução da Eneida de Pierre Klossowski, Antoine Berman (2013) percebe e propõe o conceito de literalidade não como simples reprodução da ordem exata das palavras do texto em latim. Em vez disso, considera que a tradução deve, sim, fazer um esforço consciente para latinizar a língua de chegada, ajustando-a de forma a incorporar características da estrutura do latim, sem ultrapassar, porém, certos limites nesse processo: seria necessário respeitar a integridade da língua de chegada, levando em conta suas qualidades fundamentais, a fim de evitar rupturas que comprometessem a inteligibilidade do texto traduzido. Ainda assim, a tradução, na visão de Berman, deveria ser suficientemente impregnada pela lógica e pela sintaxe do latim, permitindo que sua estrutura peculiar se tornasse perceptível. Essa ideia reflete seu conceito de tradução como um “albergue do longínquo”, onde a língua de chegada seria enriquecida pela presença da língua de partida, sem, no entanto, deixar de ser ela mesma. Ao incorporar traços particulares do latim em sua tradução da Eneida, Klossowski exemplificaria esse equilíbrio difícil, aplicando-se, por um lado, em recriar a densidade e a musicalidade do texto original, enquanto se empenha, por outro, em respeitar os limites expressivos da língua francesa.

Para Berman, essa abordagem de literalidade transcende uma simples preocupação técnica, pois revela uma postura ética do tradutor em relação ao texto original, a fim de preservar suas camadas culturais e estilísticas, ao mesmo tempo que desafia as convenções e a naturalidade da língua de chegada. Assim, a tradução consistiria num espaço de tensão produtiva entre as duas línguas, ao promover uma experiência capaz de aproximar o leitor da alteridade do original, sem apagar suas marcas distintivas. Seria esse o sentido possível de “fidelidade” na tradução: uma fidelidade à letra.

Mas letra entendida nesse sentido bermaniano, o que não significa fidelidade à palavra. A letra está para a forma, para a materialidade, a corporalidade do texto, o ritmo do discurso, as cadeias do significante. A tradução da letra é uma tradução ética e poética, que se faz pela aceitação do Estrangeiro e seu modo de significar. Por vezes, a tradução do Estrangeiro pode causar estranhamento, mas não é o simples produzir estranhamento que significa traduzir a letra, ou que esta consista unicamente disso. Traduzir o Estrangeiro não é criar estereótipos, exotizar o estrangeiro. Isso seria permanecer na tradução da interpretação, na tradução do sentido (Furlan, 2015, p. 260).

As reflexões de Berman sobre a tradução literal, a partir da Eneida de Klossowski, articulam-se em dois planos fundamentais que subvertem a noção simplista de uma tradução “palavra por palavra” e revelam a complexidade inerente ao conceito de literalidade.3 Para o autor, a literalidade não consiste em uma reprodução servil do original, mas sim em uma construção sofisticada, que busca recriar no texto traduzido os efeitos estilísticos, estruturais e rítmicos do original sem, contudo, comprometer a integridade da língua para a qual se traduz. Nesse sentido, o autor propõe a literalidade como uma forma de abrigar o estrangeiro no texto traduzido sem recusá-lo arbitrariamente – mas sem, tampouco, impor de forma violenta a sua alteridade. Para isso, deve-se buscar na frase “um ponto ‘flexível’, um ponto de acolhimento, uma estrutura não-normatizada” (Berman, 2013, p. 175), em que a língua para a qual se traduz, não obstante suas recusas inerentes, possa assimilar, no limite do aceitável, a estrutura da frase latina.

No primeiro plano, Berman destaca o papel da latinização da língua de chegada como um meio de criar a impressão de literalidade. Essa latinização opera de modo a introduzir na tradução atributos estruturais e sintáticos que remetem ao latim através de uma adaptação sistemática. Assim, a impressão de uma correspondência palavra por palavra não seria literal no sentido estrito, mas, antes, um artifício cuidadosamente elaborado. O tradutor, ao proceder dessa maneira, evocaria uma sensação de fidelidade além das palavras individuais e tocaria na essência estilística e formal do original tal como ele se nos apresenta, como esclarece o teórico no desenvolvimento de sua argumentação.

No segundo plano, Berman aprofunda a questão da literalidade, enfatizando um importante aspecto de sua concepção de tradução à letra, ao ressaltar que essa latinização não deve ser confundida com decalque ou mera imitação de recursos formais do original. A literalidade, ao contrário, adquire então um caráter interpretativo e transformador. Assim, a tradução incorporaria aspectos globais da sintaxe do latim – como as inversões, os deslocamentos e as rejeições – sem reproduzi-los de forma automática ou rígida. O tradutor, portanto, não deveria imitar diretamente a distribuição pontual desses elementos ao longo do texto, mas, em vez disso, interpretar o sistema global que subjaz a essas escolhas estilísticas. A adoção dessa práxis consistiria, portanto, num gesto tradutório capaz de reinstituir a potência da letra – ou seja, a força criativa e estrutural do texto original – sem, contudo, aferrar-se a uma abordagem mecanicista de ordinária reprodução especular. Assim, a tradução não reproduziria servilmente cada deslocamento ou inversão, mas procuraria recriar no texto traduzido a lógica implícita nessas estruturas, permitindo que o leitor da língua de chegada experimentasse a dinâmica fragmentada e o jogo verbal do original.

Berman já havia levantado a incômoda questão da condição ancilar da tradução, que a torna sempre suspeita aos olhos tanto do público quanto dos próprios tradutores:

Após tantos êxitos, tantas obras de arte, tantas pretensas impossibilidades vencidas, como é que o adágio italiano traduttore traditore ainda pode funcionar como um juízo final sobre a tradução? Entretanto, é verdade que, nesse domínio, trata-se sempre de fidelidade e de traição. “Traduzir, escrevia Franz Rosenzweig, é servir a dois senhores”. Tal é a metáfora ancilar. Trata-se de servir à obra, ao autor, à língua estrangeira (primeiro senhor) e de servir ao público e à língua própria (segundo senhor). Aqui surge o que se pode chamar de drama do tradutor (Berman, 2002, p. 15).

Ao formular os dois planos da literalidade, o autor propõe uma concepção de tradução que se fundamenta em um delicado equilíbrio entre esses dois aspectos opostos. Um equilíbrio capaz, se não de neutralizar, ao menos de minimizar coerentemente esse drama servil. A literalidade não seria, portanto, um objetivo puramente mecânico, a se buscar de forma inflexível, mas uma estratégia que visa a resguardar o espírito da obra original, ao mesmo tempo que se adapta ao contexto linguístico inerente à língua para a qual se traduz. Esse processo envolveria não apenas domínio técnico, mas também sensibilidade para lidar com as tensões entre as línguas envolvidas, de modo a evitar, na frase, tanto a deformação gratuita da língua de chegada quanto a descaracterização excessiva das estruturas da língua de partida.

Assim, Berman convida a ponderar sobre o papel ético da tradução, que não deveria, portanto, apagar as marcas da alteridade do original em prol de uma fluidez ou naturalidade, por assim dizer, maquinal, na língua de chegada. Ao contrário, a literalidade bem articulada teria a virtude de transformar o texto traduzido em um espaço de confronto e encontro entre línguas e culturas, permitindo que o leitor experimente, ainda que indiretamente, a força expressiva e a especificidade do original, como se depreende da seguinte reflexão do autor, ao reivindicar “a prova do estrangeiro”:

A própria visada da tradução – abrir no nível da escritura uma certa relação com o Outro, fecundar o Próprio pela mediação do Estrangeiro – choca-se de frente com a estrutura etnocêntrica de qualquer cultura, ou essa espécie de narcisismo que faz com que toda sociedade deseje ser um Todo puro e não misturado (Berman, 2002, p. 16).

A tradução do episódio do “arbusto sangrento”, que se apresenta a seguir, compreendendo os versos de 1 a 72 do Livro III da Eneida,4 constitui uma breve tentativa experimental de tradução à letra, no sentido proposto por Antoine Berman, como uma espécie de “albergue do longínquo”. Optou-se, então, por manter o texto em versos livres, sem o intuito de imitar formalmente o hexâmetro datílico ou adotar qualquer metro fixo na língua de chegada.5 Para isso, dois critérios fundamentais foram levados em consideração: primeiro, o reconhecimento de que o verso é a forma peculiar do texto original, e, portanto, um dado essencial à sua experiência estética; segundo, a intenção de preservar a cadência solene e a autonomia sintática de cada verso, ainda que sem buscar sistematicamente uma correspondência ao modelo métrico latino. Entende-se, nesse caso, que a ausência de uma medida rígida não implica prejuízo formal, pois a disposição em versos livres permite manter o ritmo da narrativa poética e a ênfase no posicionamento dos termos – favorecendo assim a contextura dos versos, que a tradução à letra deveria conservar. Nesse sentido, a escolha do verso livre pretende ser coerente com os princípios bermanianos aplicados à tradução – não como reprodução métrico-imitativa, mas como recurso de preservação do ritmo interior, da segmentação e da densidade sintática do original.

A tradução demanda, assim, manter o caráter estrangeiro do texto e permitir que o leitor perceba a língua e a cultura do original por trás das palavras traduzidas, como se estivesse hospedando temporariamente a presença do “longínquo” em sua própria língua. Nesse processo, embora assumindo riscos, a tradução não se limita a reproduzir o conteúdo semântico, mas tenta recriar o efeito de estranhamento que nos causa a escrita virgiliana, preservando, na medida do possível, a sintaxe, as escolhas estilísticas e as marcas culturais específicas do poema, sem reduzir suas nuances ao etnocentrismo. Ao evitar um alinhamento excessivo com a transparência ou a espontaneidade esperadas da língua nacional, pretende-se valorizar o efeito do poema em latim, ainda que isso exija do leitor um esforço interpretativo adicional.

O “arbusto sangrento”, enquanto episódio carregado de simbolismo e intensidade emocional, oferece um exemplo rico para esse tipo de experimentação tradutória por sua combinação de imagens vívidas, expressividade poética e uma sintaxe fragmentada que reflete a tensão dramática da narrativa.

Texto latino: Aeneis, III, 1-726



Postquam res Asiae Priamique euertere gentem
immeritam uisum superis, ceciditque superbum
Ilium et omnis humo fumat Neptunia Troia,
diuersa exsilia et desertas quaerere terras
5 auguriis agimur diuom, classemque sub ipsa
Antandro et Phrygiae molimur montibus Idae
incerti quo fata ferant, ubi sistere detur,
contrahimusque uiros. Vix prima inceperat aestas
et pater Anchises dare fatis uela iubebat,
10 litora cum patriae lacrimans portusque relinquo
et campos ubi Troia fuit. Feror exsul in altum
cum sociis natoque penatibus et magnis dis.
Terra procul uastis colitur Mauortia campis
(Thraces arant) acri quondam regnata Lycurgo,
15 hospitium antiquom Troiae sociique penates
dum fortuna fuit. Feror huc et litore curuo
moenia prima loco fatis ingressus iniquis
Aeneadasque meo nomen de nomine fingo.
Sacra Dionaeae matri diuisque ferebam
20 auspicibus coeptorum operum, superoque nitentem
caelicolum regi mactabam in litore taurum.
Forte fuit iuxta tumulus, quo cornea summo
uirgulta et densis hastilibus horrida myrtus.
Accessi uiridemque ab humo conuellere siluam
25 conatus, ramis tegerem ut frondentibus aras,
horrendum et dictu uideo mirabile monstrum.
Nam quae prima solo ruptis radicibus arbos
uellitur, huic atro liquontur sanguine guttae
et terram tabo maculant. Mihi frigidus horror
30 membra quatit gelidusque coit formidine sanguis.
Rursus et alterius lentum conuellere uimen
insequor et causas penitus temptare latentis:
ater et alterius sequitur de cortice sanguis.
Multa mouens animo Nymphas uenerabar agrestis
35 Gradiuomque patrem, Geticis qui praesidet aruis,
rite secundarent uisus omenque leuarent.
Tertia sed postquam maiore hastilia nisu
adgredior genibusque aduersae obluctor harenae,
(eloquar an sileam?) gemitus lacrimabilis imo
40 auditur tumulo et uox reddita fertur ad auris:
“quid miserum, Aenea, laceras? iam parce sepulto,
parce pias scelerare manus. Non me tibi Troia
externum tulit aut cruor hic de stipite manat.
Heu fuge crudelis terras, fuge litus auarum:
45 nam Polydorus ego. Hic confixum ferrea texit
telorum seges et iaculis increuit acutis”.
Tum uero ancipiti mentem formidine pressus
obstipui steteruntque comae et uox faucibus haesit.
Hunc Polydorum auri quondam cum pondere magno
50 infelix Priamus furtim mandarat alendum
Threicio regi, cum iam diffideret armis
Dardaniae cingique urbem obsidione uideret.
Ille, ut opes fractae Teucrum et Fortuna recessit,
res Agamemnonias uictriciaque arma secutus
55 fas omne abrumpit; Polydorum obtruncat, et auro
ui potitur. Quid non mortalia pectora cogis,
auri sacra fames? Postquam pauor ossa reliquit,
delectos populi ad proceres primumque parentem
monstra deum refero, et quae sit sententia posco.
60 Omnibus idem animus, scelerata excedere terra,
inqui pollutum hospitium et dare classibus Austros.
Ergo instauramus Polydoro funus: et ingens
aggeritur tumulo tellus; stant manibus arae,
caeruleis maestae uittis atraque cupresso,
65 et circum Iliades crinem de more solutae;
inferimus tepido spumantia cymbia lacte
sanguinis et sacri pateras, animamque sepulcro
condimus et magna supremum uoce ciemus.
Inde ubi prima fides pelago, placataque uenti
70 dant maria et lenis crepitans uocat Auster in altum,
deducunt socii nauis et litora complent.
Prouehimur portu terraeque urbesque recedunt.

Tradução: Eneida, 3, 1-72



Depois que da Ásia o império abater e de Príamo o povo,
sem o merecer, aprouve aos súperos, e que caiu soberba
Ílion, e inteira ao chão já se esfumaça a Netúnia Troia,
adverso exílio a procurar e desertas terras
5 compelidos por augúrios dos deuses, a esquadra lá
em Antandro construímos, ao pé do Frígio monte Ida;
incertos sobre aonde leve o fado, onde assento se daria,
reunimos a tropa. Mal irrompia o verão
e o pai Anquises dar vela aos fados ordenava,
10 o litoral da pátria, em lágrimas, e os portos deixo
e os campos onde foi Troia. Sou levado em exílio ao mar
com companheiros e filho, Penates e grandes deuses.
Terra ao longe, Mavórcia, é habitada em vastos campos
(Trácios a cultivam), regida outrora pelo azedo Licurgo,
15 hospedagem antiga de Troia, associados Penates,
enquanto houve fortuna. Vou para lá e na praia recurva
as primeiras muralhas ergo aduzido por fado iníquo
e Enéiadas, o nome, do meu próprio nome forjo.
Sacrifícios à mãe Dioneia e aos deuses eu fazia
20 em auspício ao início dos trabalhos e, esplêndido,
ao rei dos celícolas supremo, na praia um touro eu matava.
Havia acaso ali perto um monte, com moita de corniso
em cima e, de espessas hastes eriçado, um mirto.
Acheguei-me e do solo arrancar a verdejante planta
25 tentei, a fim de com ramos frondentes as aras cobrir;
e, horrendo, admirável de dizer, vejo um assombro.
Eis que do chão, raízes rompidas, o primeiro arbusto
é puxado, e de atro sangue escorrem dele gotas
e a terra em purulência turvam. Um calafrio de horror
30 me abala o corpo, e gélido de espanto se me coalha o sangue.
De um outro em arrancar de novo a relutante verga
insisto e às causas atentar, profundas e latentes:
atroz, de novo segue a verter da casca o sangue.
Revolvendo a mente, às Ninfas agrestes eu rogava
35 e ao pai Gradivo, que os Géticos campos protege,
no rito revertessem as visões e o agouro levantassem.
Quando, porém, terceira rama com mais firmeza
agarro e de joelhos luto contra a adversa areia
(devo dizer ou calar?), um gemido lacrimoso do fundo
40 se ouve do monte, e uma voz que sai me chega aos ouvidos:
“Por que um miserável, Eneias, laceras? Poupa o sepultado,
poupa de um crime as piedosas mãos. Não me fez Troia
estranho a ti, nem este cruor de um tronco emana.
Ah, foge destas terras cruéis, foge deste avaro litoral,
45 pois Polidoro sou! Aqui, cravado a ferro, me cobriu
seara de dardos e cresceu em varas agudas”.
Então, de fato, a mente em duplo espanto opressa,
estaquei, de cabelo em pé e a voz presa na garganta.
Esse Polidoro, de ouro outrora cumulado,
50 o infeliz Príamo furtivamente o mandara criar-se
ao Trácio rei, quando já duvidava das armas
Dardânias e via cingir-se a cidade em perigo.
Aquele, mal se quebra o poder Teucro e a Fortuna recua,
a causa de Agamêmnon e as vencedoras armas seguiu,
55 rompe com o que é justo; a Polidoro abate, e do ouro
se apossa com violência. A que não coages peitos mortais,
sacrílega fome de ouro? Após deixar-me os ossos o pavor,
aos escolhidos líderes do povo e primeiro a meu pai
o assombro dos deuses relato e a sentença lhes peço.
60 Todos de idêntico ânimo: da terra celerada sair,
largar-se do poluto abrigo e dar à esquadra os Austros.
Então, instauramos a Polidoro um funeral: e muita
terra para o túmulo se leva; erguem-se aos Manes aras,
de cerúleas fitas enlutadas e atro cipreste,
65 e em torno as ilíades, cabelos, de praxe, soltos;
ofertamos, tépido, espumantes cimbas de leite
e de sangue sagrado páteras, e a alma no sepulcro
guardamos e em voz alta uma última vez o chamamos.
Tão logo há confiança no pélago, e, plácidas, os ventos
70 dão as águas, e um lene, crepitante Austro chama ao largo,
os companheiros trazem os navios e lotam o litoral.
Partimos do porto, e as terras e as cidades recuam.

Comentários à tradução

No primeiro plano de literalidade proposto por Berman (2013, p. 173-4), ao comentar a Eneida de Klossowski, a tradução, sem se dar de fato palavra por palavra, deveria criar uma “a impressão de ser literal”, o que constituiria o modo geral desse tipo de tradução, restituindo nessa aparência a “força própria” ou a “potência da letra”, o que implica uma intensa latinização da língua de chegada. Esse expediente, como se pode compreender, só se torna transparente na manutenção de certas características da sintaxe latina, perceptíveis, por exemplo, no uso de inversões e deslocamentos sintáticos.

Nesse sentido, a tradução apresentada emprega estratégias de latinização que se manifestam em diversos aspectos: na sintaxe fragmentada, na ordem inusual das palavras e na escolha de termos que possam evocar a lógica e a estética de nossa experiência na recepção do latim. Essa latinização é temperada por soluções estilísticas que buscam recriar a solenidade épica, adotando escolhas lexicais e estruturais que possam remeter ao estilo do original, como o uso de certas construções que geram uma espécie de estranhamento deliberado, evocando o distanciamento temporal e cultural do texto de Virgílio.

São exemplos disso versos como: “Depois que da Ásia o império abater e de Príamo o povo,/ sem o merecer, aprouve aos súperos, e que caiu soberba/ Ílion, e inteira ao chão já se esfumaça a Netúnia Troia” (v. 1-3) ou “Esse Polidoro, de ouro outrora cumulado,/ o infeliz Príamo furtivamente o mandara criar-se/ ao Trácio rei, quando já duvidava das armas/ Dardânias e via cingir-se a cidade em perigo” (v. 49-52). Eles carregam certo sabor antigo e não prosaico, sugerindo que se está diante de uma obra em língua distinta, de uma época distante.

Tal aparência de “fidelidade à letra” se reforça pela escolha de termos pouco usuais, como, por exemplo, “aprouve aos súperos” (v. 2) e “fado iníquo” (v. 17), e pelo uso de inversões, em vez de uma construção mais direta, como, por exemplo, “Sacrifícios à mãe Dioneia e aos deuses eu fazia/ em auspício ao início dos trabalhos e, esplêndido,/ ao rei dos celícolas supremo, na praia um touro eu matava” (v. 19-21). Escolhas como essas pretendem manter o texto traduzido distante de uma estrutura mais moderna e fluida, criando deliberadamente certa impressão de literalidade.

Contudo, no segundo plano descrito por Berman (2013, p. 174), a tradução deveria equilibrar uma forte latinização com a inteligibilidade e a naturalidade na língua de chegada, permitindo “o jogo de palavras no dizer épico”, mas evitando o mero decalque, “sem violentar gratuitamente (como a pura ‘palavra por palavra’) a nossa língua”, de modo que se traduza “o sistema global das inversões, rejeições, deslocamentos, e não suas distribuições factuais ao longo dos versos”. O que vale dizer que a tradução literal não deveria pautar-se pela aspereza de uma imitação estrita, prosaicamente elaborada termo a termo, mas sim trazer para a língua de chegada recursos estruturais e estilísticos que permitam perceber ou pressentir a presença do original, sem afastar-se demais do senso poético dominante da língua para a qual se traduz, ainda que se proponha a desafiar seus limites. Dessa forma, o “albergue do longínquo” se converteria num espaço de encontro entre culturas, em que se poderia sentir a densidade, a musicalidade e as marcas culturais do texto estrangeiro, como uma espécie de diálogo entre línguas e tradições.

Nesse aspecto, a tradução se esforça para alcançar um equilíbrio razoável. O desafio está em introduzir elementos da estrutura do latim, preservando sua singularidade, sem cair em ingênuo decalque nem constranger exageradamente a língua de chegada. Um ponto importante é a recriação da fragmentação sintática do latim, com suas rejeições, suspensões, deslocamentos e inversões (além dos enjambements, desafiando nos versos a estrutura frasal), que marca a dicção geral do poema e contribui especialmente para o tom emocional do trecho apresentado.

Procura-se recriar a sintaxe fragmentada, na tradução, de maneira estilizada, sem constituir uma reprodução servil, como, por exemplo, “o litoral da pátria, em lágrimas, e os portos deixo/ e os campos onde foi Troia. Sou levado em exílio ao mar/ com companheiros e filho, Penates e grandes deuses” (v. 10-2). A organização das ideias, que mantém a ordem fragmentada do original, visa a transmitir o tom melancólico e errante da cena descrita por Eneias, embora a ordem exata dos termos nos versos seja adaptada; ou em “e, horrendo, admirável de dizer, vejo um assombro” (v. 26) e, mais à frente, “[...] um gemido lacrimoso do fundo/ se ouve do monte, e uma voz que sai me chega aos ouvidos:/ “Por que um miserável, Eneias, laceras? [...]” (v. 39-41). São passagens que intentam recriar o clima de suspense e pavor presentes no original, a fim de reter a tensão narrativa e a densidade emocional que impregnam o texto latino.

Do mesmo modo, na passagem que descreve o funeral de Polidoro, “[...] erguem-se aos Manes aras,/ de cerúleas fitas enlutadas e atro cipreste, / e em torno as Ilíades, cabelos, de praxe, soltos;/ ofertamos, tépido, espumantes cimbas de leite/ e de sangue sagrado páteras, [...]” (v. 63-7), pretende-se transmitir a solenidade da cena. Aproxima-se do objetivo ético e estético de uma tradução literal não afeita ao servilismo, ao conservar o tom elevado do original por meio de construções sintáticas e escolhas lexicais que refletem a gravidade do momento. A manutenção de termos como “Manes” (espíritos dos mortos), “cimbas” e “páteras” (vasos rituais), por exemplo, respeita a especificidade cultural do latim e mantém a ligação com o universo religioso e simbólico da Antiguidade romana. Evitam-se assim substituições genéricas, como traduzir “Manes” por “espíritos” ou “almas”, e “cimbas” e “páteras” por “taças” ou “bacias”, que poderiam diluir o caráter ritualístico e cerimonial do trecho. Além disso, na mesma passagem, evita-se também a simplificação ou adaptação na referência às “Ilíades” (Iliades),7 que é mantida sem troca ou alteração, como, por exemplo, por “as troianas” ou “as mulheres de Ílion”. Opções como essas, coerentes com a ética tradutória defendida por Berman, não obstante respeitem a alteridade do original, exigem, sem dúvida, um leitor disposto a aceitar certo estranhamento linguístico.

Embora a tradução busque aproximar-se do texto original em sua literalidade, ela não reproduz de forma automática as estruturas do latim, mas procura, antes, furtar-se ao risco de criar um texto gratuitamente obscuro ou ininteligível. Por exemplo, o arranjo sintático do latim com suas inversões, em: Multa mouens animo Nymphas uenerabar agrestis/ Gradiuomque patrem, Geticis qui praesidet aruis (v. 34-5), é recriado de modo a sugerir a ordem marcante dos termos nos versos, mas sem comprometer a clareza na leitura: “Revolvendo a mente, às Ninfas agrestes eu rogava/ e ao pai Gradivo, que os Géticos campos protege”. Essa estratégia seria um exemplo de como a tradução literal pode equilibrar fidelidade estilística e inteligibilidade na língua de chegada. Trata-se de uma acomodação que, embora contrária à literalidade num sentido mais estrito, visa a evitar o que Berman (2013, p. 175) chamaria de uma “demasiada violência” contra a frase na língua de chegada. Tenta-se equilibrar a estranheza do texto de partida com a necessidade de comunicar o sentido, pois a força da tradução à letra residiria justamente na preservação da lógica estrutural e estilística do original, isto é, na recriação de sua organização própria. Não há obrigação de imitar rigidamente suas características pontuais, prevenindo assim agravos despropositados à língua de chegada.

Considerações finais

Um dos aspectos mais relevantes da tradução, de acordo com as ideias de Antoine Berman, é sua virtude de preservar a alteridade do original, ou seja, de manter suas marcas distintivas, desafiando a língua de chegada a expandir seus limites. Esse conceito implica acolher a singularidade do texto de partida, resguardando, tanto quanto possível, os limites expressivos da língua para a qual se traduz. Assim, o exercício de traduzir “à letra” não seria apenas uma técnica fria, mas uma prática sensível que modela plasticamente a língua de chegada, instaurando nela um diálogo contínuo com o outro.

A tradução apresentada intenta aproximar-se da literalidade, no sentido proposto por Berman, o que, conforme já se ressaltou, não equivale a um servilismo ou reprodução mecânica do original, mas sim a uma tentativa de abrigar as marcas estilísticas e culturais do texto em latim, na busca por uma correspondência que, sendo embora de caráter latinizante, saiba reconhecer limites a esse estranhamento projetado no texto moderno. Tal objetivo se procurou alcançar por meio de escolhas que pudessem valorizar a densidade expressiva do original, sob uma perspectiva de recepção contemporânea, sem simplificar ou adaptar excessivamente a linguagem para torná-la mais familiar ou espontânea.

À luz das ideias de Berman, a tradução articula, em graus variados, os dois planos da literalidade. Nesse sentido, a latinização da língua luso-brasileira tenta criar uma aparência de versão literal, permitindo que traços da sintaxe e do estilo do (excerto do) poema virgiliano sejam perceptíveis. Por outro lado, a tradução também evita o decalque excessivo, fazendo ajustes necessários para garantir a legibilidade e a coesão na língua de chegada. Assim, a tradução apresentada pretende guardar certas peculiaridades do original a fim de transmitir a experiência de estranheza em sua recepção, ao mesmo tempo que se esforça para encontrar um equilíbrio expressivo que não esgarce em sua essência a língua nacional.

No entanto, o desafio ético apontado por Berman – conservar a “potência da letra” sem sacrificar a fluidez da língua de chegada – ainda parece gerar tensões. Embora procure tanto quanto possível reter a atmosfera épica e o sistema global do original, a tradução não deixa de enfrentar desafios significativos na tentativa de equilibrar uma latinização acentuada com a naturalidade do vernáculo, pois essa fidelidade ética parece inevitavelmente acompanhada de riscos, uma vez que é necessariamente regulada (como qualquer tradução literária, por mais objetiva que se queira) por escolhas filtradas pela subjetividade do tradutor. Em alguns momentos, a literalidade se aproxima do decalque, o que pode criar barreiras para leitores não familiarizados com o universo linguístico e cultural do latim. Ao mesmo tempo, não há que se desconsiderar o fato de que a tentativa de manter a solenidade e o tom vetusto pode, paradoxalmente, distanciar o leitor da experiência emocional pretendida pelo poema.

De qualquer modo, nesse exercício de tradução, assume-se o intento de criar um texto que mantenha a autenticidade do original, oferecendo talvez um vislumbre de seu caráter épico sem apagar suas marcas distintivas. Em última análise, trata-se de uma tradução que exige do leitor empenho em penetrar na alteridade do latim, mas que, uma vez aceita em seu estranhamento deliberado, pode eventualmente oferecer uma experiência válida, apta a sugerir em certa medida a especificidade do texto original. Essa tensão entre fidelidade à letra e inteligibilidade razoável, preconizada por Berman, é o espaço ético e criativo no qual a tradução dispõe-se hospitaleiramente a criar um “albergue do longínquo”.

Referencias

BERMAN, Antoine. A prova do estrangeiro. Cultura e tradução na Alemanha romântica. Tradução de Maria Emília Pereira Chanut. Bauru: Edusc, 2002.

BERMAN, Antoine. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. 2. ed. Tradução de Marie-Hélène C. Torres, Mauri Furlan e Andreia Guerini. Tubarão: Copiart; Florianópolis: Pget/Ufsc, 2013.

CORTE, Francesco della (org.). Enciclopedia virgiliana. Roma: Enciclopedia Italiana, 1984-1991.

FOUCAULT, Michel. Les mots qui saignent. In: FOUCALT, Michel. Dits et écrits I (1954-1969). Paris: Gallimard, 1994. p. 424-27.

FURLAN, Mauri. A tradução na Antiguidade e a tradução da Antiguidade: concepções e práticas de tradução de ontem e hoje. In: SANTOS, Fernando Brandão dos; OLIVEIRA, Jane Kelly de (org.). Estudos clássicos e seus desdobramentos. Artigos em homenagem à professora Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2015. p. 245-62.

GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. 5. ed. Tradução de Victor Jabouille. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

THAMOS, Márcio. Decassílabos para a Eneida: reexperimentando a tradi/ução. In: AMARANTE, José; MARQUES JÚNIOR, Milton (org.). Tradução de poesia latina antiga no Brasil. Salvador: Aiê, 2024. p. 39-64.

VERGILIVS MARO, Publius. Aeneis. Recensuit atque apparatu critico instruxit Gian Biagio Conte. Berlim: Walter de Gruyter, 2009.

VIRGIL. Aeneid Books III-VI. Conington’s Virgil. Text and commentary on the Aeneid Books III-VI by John Conington reproduced from Volume II of The Works of Virgil, fourth edition revised by Henry Nettleship. Exeter: Bristol Phoenix, 2011.

VIRGILE. Énéide. Livres I-VI. 9 ed. Texte établi par Henri Goelzer et traduit par André Bellessort. Paris: Les Belles Lettres, 1959.

WETMORE, Monroe Nichols. Index verborum vergilianus. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1961.

Notas

1 Na diegese da obra, esse relato é feito pelo próprio Eneias, atendendo à solicitação da rainha Dido, no banquete em Cartago, durante a noite que então se prolongava. Ao final do Livro I, a rainha pede a seu hóspede que conte desde o início as insídias dos gregos, as agruras da guerra e as andanças que ele empreendeu após a queda de Troia. Ato contínuo, no Livro II, o herói descreve a destruição de sua cidade e, no III, narra as peregrinações vivenciadas ao lado de seus companheiros na travessia do mar.
2 Para uma visão geral sobre a lenda de Polidoro (e suas variantes na Antiguidade), confira o Dicionário da mitologia grega e romana (Grimal, 2005); e para uma análise mais aprofundada, com comentários detalhados sobre o episódio, consulte a Enciclopedia virgiliana (Corte, 1984-1991).
3 Michel Foucault (1994, p. 425), numa resenha, citada por Berman, sobre a tradução da Eneida por Klossowski (publicada em 1964 pela Gallimard), já apontava que “a ousadia desse aparente palavra por palavra (‘gota a gota’, como se diz) é grande. Para traduzir, Klossowski não se acomoda na semelhança entre o francês e o latim; ele se instala no âmago de sua maior diferença”.
4 Inclui-se aí o breve prólogo de abertura, em que Eneias narra a partida de Troia, por seu caráter contíguo e implicativo em relação ao episódio de Polidoro.
5 Procura-se, no entanto, manter um número de sílabas poéticas que normalmente não exceda os limites da precisa medida do hexâmetro virgiliano: entre 13 e 17 – de acordo com o arranjo de dátilos e espondeus que compõem cada verso. Para uma descrição mais detalhada do modelo métrico da Eneida, ver Thamos (2024).
6 A tradução segue o texto estabelecido por Henri Goelzer para as edições Les Belles Lettres (Virgile, 1959), em cotejo com a edição comentada por John Conington (Virgil, 2011) e a edição crítica de Gian Biagio Conte (Vergilius Maro, 2009).
7 Termo de uso relativamente raro em Virgílio, aparece apenas na Eneida: ao longo de todo o poema, registram-se 6 ocorrências (cf. Wetmore, 1961).

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