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<journal-title specific-use="original" xml:lang="pt">Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos</journal-title>
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<publisher-name>Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos</publisher-name>
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<article-id pub-id-type="doi">10.24277/classica.v38.2025.1144</article-id>
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<subject>Traduções</subject>
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<bold>Um beijo retórico: tradução e comentário da Carta 3.14 de Frontão a Marco Aurélio</bold>
<sup>
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</sup>
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<bold>A rhetorical kiss: translation and commentary on Letter 3.14 from Fronto to Marcus Aurelius</bold>
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<institution content-type="original">Doutoranda em Letras: Estudos Literários, Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil</institution>
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<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>January-December</season>
<year>2025</year>
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<title>Resumo</title>
<p>Em seu epistolário, Frontão (séc. II EC) sugere ter expressiva conexão com os integrantes da dinastia antonina, sobretudo Marco Aurélio, de quem foi professor de retórica. Richlin (2006) aponta para o teor predominantemente erótico e físico de tal vínculo, o que Laes (2009), por seu turno, problematiza. Dialogando com esse debate, este texto tem dois objetivos: i) discutir como a afeição é retratada pelo orador, na correspondência, enquanto uma forma de convencer os seus de certa proximidade privilegiada com a casa imperial diante do contexto de disputa aristocrática e ii) apresentar nossa tradução para a epístola 3.14, destinada a Marco Aurélio, uma das cartas em que o autor enfatiza a singularidade de seu vínculo com o aluno. Para isso, recorremos a fontes antigas, como Catulo (Catull. 9), Ovídio (Ov. <italic>Her</italic>) e Marco Aurélio (M. Aur. <italic>Med</italic>.), além de estudos contemporâneos sobre a natureza da relação em questão e o cenário de competição entre autocratas no período imperial – e.g. Laes (2009) e Faversani (2024), respectivamente. Destaca-se a complexidade da controvérsia, de modo a evidenciar o caráter político e retórico da amizade dos correspondentes sem necessariamente anular sua dimensão amorosa.</p>
</abstract>
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<title>Abstract</title>
<p>In his epistolary works, Fronto (2nd century CE) suggests that he had a significant connection with the Antonine dynasty, especially Marcus Aurelius, to whom he taught rhetoric. Richlin (2006) points to the predominantly erotic and physical content of such a bond, which Laes (2009), in turn, puts into question. In dialogue with this debate, this text has two objectives: i) to discuss how affection is portrayed by the orator in the letters as a way of convincing his audience of a certain privileged proximity to the imperial house in the context of aristocratic dispute and ii) to present our translation of epistle 3.14, addressed to Marcus Aurelius, one of the letters in which the author emphasizes the uniqueness of his bond with his student. To this end, we focused on ancient sources such as Catullus (Catull. 9), Ovid (Ov. <italic>Her</italic>.), and Marcus Aurelius (M. Aur. <italic>Med</italic>.), as well as contemporary research on the nature of the mentioned relationship and the scenario of competition among autocrats in the imperial period – e.g. Laes (2009) and Faversani (2024) respectively. The complexity of the controversy is emphasized in order to highlight the political and rhetorical nature of the correspondents’ friendship without necessarily canceling its loving dimension.</p>
</trans-abstract>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>carta <italic>M Caes</italic>. 3.14</kwd>
<kwd>Frontão</kwd>
<kwd>tradução</kwd>
<kwd>retórica clássica</kwd>
<kwd>disputa</kwd>
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<title>Keywords</title>
<kwd>letter <italic>M Caes</italic>. 3.14</kwd>
<kwd>Fronto</kwd>
<kwd>translation</kwd>
<kwd>classical rhetoric</kwd>
<kwd>aristocratic dispute</kwd>
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<sec>
<title>
<bold>1. Introdução</bold>
</title>
<p>Estima-se que o orador Marco Cornélio Frontão tenha vivido entre 95 AEC e 166-168 EC (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref13">Fleury, 2003</xref>, p. 12-6). Nascido na Numídia, mais especificamente em uma colônia perto de Cirta, foi a Roma ainda jovem, onde estudou eloquência sob orientações do preceptor Dionísio e do filósofo Atenódoto (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref13">Fleury, 2003</xref>, p. 13). Foi designado por Antonino Pio como professor de retórica latina de Marco Aurélio desde 138 EC e de Lúcio Vero a partir de 143 EC (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref22">Martín, 1992</xref>, p. 14-5). Com os príncipes, trocou um extenso epistolário, no qual, em meio a instruções sobre os discursos apropriados à sua posição, imiscui-se toda a sorte de expressões de intimidade que, em um primeiro momento, podem surpreender o leitor moderno. Considerando esse cenário, neste artigo, visa-se a discutir como a afeição é retratada por Frontão, em sua correspondência, enquanto uma forma de convencer os seus de certa proximidade privilegiada com a casa imperial diante do contexto de disputa aristocrática. Buscamos, ainda, apresentar nossa tradução para a epístola 3.14, destinada a Marco Aurélio, uma das cartas em que o autor enfatiza a singularidade de seu vínculo com o aluno.</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold>2. Uma afeição retórica</bold>
</title>
<p>A fim de contemplarmos o primeiro dos objetivos supracitados, ou seja, o debate em torno do afeto no epistolário, serão abordados alguns excertos de outras missivas frontonianas pertinentes à temática. Em carta a Lúcio Vero (<italic>Ad Verum</italic> 1.7),<sup/>
<xref ref-type="fn" rid="fn3">
<sup>2</sup>
</xref> por exemplo, Frontão define diretamente o costume de se beijar (<italic>morem saviandi</italic>). Na provável data de composição da epístola, Vero já tinha assumido o posto de imperador, isto é, em 161-162 ou 166-167 EC (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">van den Hout, 1999</xref>, p. 275). Conforme Frontão, o próprio era invejado por sua amizade com o governante, o que impeliu o rétor à sugestão de um plano (<italic>consilium</italic>) que velasse a intimidade dos dois em público (<italic>Ad Verum</italic>, 1.7.1). Embora o missivista, então, demonstre insatisfação pela omissão do dirigente, não demora a compreender a estratégia de seu interlocutor:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>probasti me laudastique consilium, neque tamen triduo amplius vel quadriduo id a te obtinere potuisti, ut mihi verbo saltem responderes; sed ita excogitasti: primum me intromitti in cubiculum iubebas, ita sine cuiusquam invidia osculum dabas, credo ita quom animo tuo reputans, mihi cui curam cultumque tradidisses oris atque orationis tuae, ius tui quoque osculi habendum omnisque eloquentiae magistros sui laboris lege fructum cape&lt;re&gt; satus in vocis aditu locato&lt;m&gt;. morem denique saviandi arbitror honori eloquentiae datum. nam cur os potius salutantes ori admovemus quam oculos oculis aut frontes frontibus aut, quibus plurimum valemus, manus manibus, nisi quod honorem orationi impertimus? (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.7.1).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn4">3</xref>
</sup>
</p>
</disp-quote>
</p>
<p>
<disp-quote>
<p>Aprovaste-me e elogiaste meu plano e, ainda assim, por mais de três ou quatro dias, não conseguiste cumpri-lo, de modo que me respondesses, ao menos, com uma palavra, mas imaginaste assim: primeiro, pedias que eu fosse admitido no quarto, me davas um beijo sem despertar inveja alguma, pensando contigo mesmo, creio eu, que o privilégio de teu beijo deveria pertencer a mim, a quem confiaste o cuidado e o cultivo de tua boca e de teu discurso, e que todos os professores de eloquência colhem, por direito de seu trabalho, o fruto semeado no portal da voz. Em suma, considero que esse costume de beijar deu-se para honrar a eloquência. De fato, por que, ao nos cumprimentarmos, aproximamos, antes, boca de boca, em vez de olhos de olhos ou testas de testas, ou mãos de mãos, nas quais mais temos vigor, a não ser porque transmitimos uma honra às palavras? (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.7.1)<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn5">4</xref>
</sup>
</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Sobressaem, no trecho, a inveja do entorno (<italic>invidia</italic>), a necessidade, por isso, da admissão em um quarto (<italic>cubiculum</italic>), ou seja, perante uma audiência privada conforme van den Hout (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">1999</xref>, p. 275) e, ainda, a posição de Frontão como preceptor do governante. Esses elementos destacam a produção de uma proximidade diferenciada daquele com a casa imperial. Segundo Laes (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref20">2009</xref>, p. 5), não é difícil imaginar o rétor, para demonstrar um poder de representação, exibindo a outras pessoas o seu direito ao privilégio do beijo e reconhecendo-o com gratidão aos membros imperiais.</p>
<p>Neste ponto, talvez o leitor possa se perguntar como um gesto ordinário como o beijo significa muito em termos de afinidade com essa figura central de poder no cenário romano. Vem o orador, de pronto, a esclarecê-lo, através de uma comparação entre as ações do imperador às evidências das práticas adivinhatórias:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>sicut in extis inspicienti diffis&lt;s&gt;a plerumque minima et tenuissima maximas prosperitates significant deque formicularum et apicularum ostentis res maximae portenduntur, item vel minimis et levissimis ab uno et vero principe habitis officii et bonae volentiae signis significari arbitror ea quae amplissima inter homines et exoptatissima sunt, amores honoresque (Fronto,<italic> Ep. Ad Verum</italic>, 1.7.2).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>
<disp-quote>
<p>Assim como, nas entranhas, para quem as inspeciona, muitas vezes, as menores e mais insignificantes partes anunciam os mais importantes sucessos, e, como, nos presságios de formiguinhas e abelhinhas, preveem-se os mais importantes eventos, da mesma forma, nos menores e mais triviais atos de atenção e sinais de benevolência de um único e verdadeiro príncipe, considero anunciar-se aquilo que, entre os homens, há de mais elevado e desejado: amores e honras (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.7.2).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Os arúspices investigavam as entranhas dos animais sacrificados, principalmente as das ovelhas, e, na prática, o objeto de inspeção era o fígado, cujas linhas de suas fissuras (<italic>fissa</italic>) prenunciavam prosperidades ou adversidades (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">van den Hout, 1999</xref>, p. 276). Na leitura de Champlin (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref7">1980</xref>, p. 115) acerca da carta, a alta valia de práticas como o beijo poderia ser considerada como simples hipérbole não fosse a especificidade de que um gesto tão pequeno devesse ser escondido a fim de evitar a inveja de outros cortesãos.</p>
<p>A grandiosidade das trivialidades é reafirmada em outra epístola, de Frontão a Marco Aurélio. O rétor inicia sua carta revelando certo alívio por ter pensado que seu aluno estivesse doente, quando, na verdade, tratava-se de Faustina, filha do destinatário (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 4.12.1). Após defender-se da ideia pressuposta pela tranquilidade demonstrada, isto é, uma despreocupação com a enfermidade de Faustina e, ainda, desejar melhoras, Frontão afirma ser aquele um momento oportuno para tratar de seu amor para com Marco Aurélio (<italic>M. Caes</italic>. 4.12.3). O mestre sugere que o sentimento nutrido pelo interlocutor pode ser compreendido tanto por coisas sérias como a partir de experiências triviais, declarando: “[d]e minha parte, o quanto te amo sinto tanto por provas sérias e importantes como também por muitas frivolidades”.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn6">5</xref>
</sup> Mais adiante, o missivista relaciona os argumentos banais indicativos de sua afeição. Ele (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 4.12.4-6) elenca um sonho, em que abraça e beija seu pupilo, a defesa do aluno quando este era repreendido por outros e o hábito, cultivado pelo professor, de beijar e acariciar o retrato do imperador exposto publicamente onde quer que fosse (<italic>M. Caes</italic>. 4.12.4-6). Apesar de Frontão definir essas ações como frívolas, conseguia conquistar o favor da família imperial para interesses variados justamente por ser um amigo próximo dela (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref7">Champlin, 1980</xref>, p. 116-7).</p>
<p>A alta significação conferida pelo próprio Frontão a ações que seriam, a princípio, menores pode nos levar a pensar na produção, por parte do missivista, de uma afeição retórica na correspondência. Falar, no entanto, nesses termos indica menos que tal afeto não pode ser atestado historicamente e mais que, no epistolário, as demonstrações de intimidade significam algo e existem política e discursivamente, para além de serem verdadeiras ou falsas. O caráter retórico do beijo é atestado se analisarmos, inclusive, a etimologia de <italic>savium</italic>, um dos termos latinos para designar a prática. A partir de Ernout e Meillet (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref11">1951</xref>, p. 1053), no verbete <italic>savium</italic>, sabemos que o termo teria surgido por dissimilação, de suavium (<italic>suavis</italic>), palavra da linguagem infantil ou amorosa. Com base em <italic>suavis</italic>, constituiu-se a forma latina secundária <italic>suavior </italic>(“eu beijo”), sendo a raiz daquela a mesma de <italic>suadeo </italic>(“aconselhar”, “exortar”, “persuadir”) (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref11">Ernout; Meillet, 1951</xref>, p. 1164). Além disso, a raiz de <italic>suadeo </italic>está no termo grego <italic>ϝἅδομαι </italic>e, ainda, no védico <italic>suadate</italic>, que significam, ambos, “gostar”, “agradar-se” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref11">Ernout; Meillet, 1951</xref>, p. 1164).</p>
<p>O termo <italic>savium </italic>é utilizado na missiva que traduzimos neste texto, a <italic>M. Caes</italic>. 3.14, em que o rétor explica-se por sua omissão diante das inúmeras cartas enviadas pelo aluno. Frontão estabelece os afazeres do interlocutor como motivos pelos quais escolheu não o incomodar, entendendo serem diretamente proporcionais o amor de Marco Aurélio para com ele e a necessidade de cuidado com os ofícios ou respeito com as ocupações do príncipe (<italic>M. Caes</italic>. 3.14.2).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn7">6</xref>
</sup> Em seguida, o professor representa-se como súdito distinto em meio a outros, no que diz respeito ao afeto oferecido ao governante:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>quid est mihi osculo tuo suavius! ille mihi suavis odor, ille fructus in tuo collo atque osculo situs est. attamen proxime, cum proficiscerere, cum iam pater tuus vehiculum conscendisset, te salutantium et exosculantium turba diutius moraretur, profuit ut te solus ex omnibus non complecterer nec exoscularer (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 3.14.3).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>
<disp-quote>
<p>O que é, para mim, mais doce do que um beijo teu? Esse doce perfume, esse prazer está no teu pescoço e no teu beijo. Porém, da última vez, quando partias, quando teu pai já havia entrado na carruagem, e atrasava-te a multidão, que, por muito tempo, te saudava e te cobria de beijos, foi útil que eu, único entre todos, não te abraçasse, nem te cobrisse de beijos (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 3.14.3).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Ao mesmo tempo que revela ter acesso a uma significativa intimidade com o imperador a ponto de ter, com ele, uma afeição corporal, o valor do orador é colocado a despeito de uma multidão pouco comedida. Por outro lado, mostra-se necessário olhar com cautela para essa autorrepresentação de Frontão como um não cortesão. Isso é necessário, porque, como pondera Champlin (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref7">1980</xref>, p. 97), o epistolário evidencia um envolvimento próximo e constante do orador com os assuntos da corte.</p>
<p>Reitera-se a condição de um contato distinto com a corte, dessa vez, no vínculo de Frontão com Lúcio Vero. A epístola <italic>Ad Verum</italic> 1.12 responde a <italic>Ad Verum</italic> 1.11, em que o dirigente repreende seu preceptor, haja vista que este, em uma ida ao palácio do governante, não o procurou. O mestre busca explicar-se por sua aparente displicência e afirma que, se o príncipe tivesse o recebido bem em sua visita, ele não se alegraria da mesma forma. Frontão esclarece também que, na referida situação, Vero o requer com tanta violência (<italic>quam nunc gaudeo tanto me iurgio desideratum</italic>) (<italic>Ad Verum</italic>, 1.12.1). O rétor prossegue sua argumentação:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>[...] tu pro tua persingulari humanitate omnes nostri ordinis viros, ubi praesto adsunt, honorifice adfaris, non omnes magno opere requiris absentes. haec denique seria causa est, in qua malim te mihi graviter irasci quam libenter ignoscere: irasceris enim, quand&lt;o&gt; revera desiderantius desiderasti; a quibus autem aversus fueris, neque &lt;i&gt;ra&lt;s&gt;ceris neque desiderabis, si amare desieris (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.12.1).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>
<disp-quote>
<p>[...] tu, em virtude de tua bondade incomparável, recebes, com honra, todos os homens de nossa ordem, quando estão presentes, mas não procuras muito todos eles quando ausentes. Enfim, essa é uma boa razão pela qual prefiro que te zangues comigo do que me perdoes com alegria: na verdade, estás zangado, porque realmente me desejaste com mais intensidade e não te zangas com, nem desejas aqueles de quem te afastaste, se os deixaste de amar (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.12.1).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Não somente é destacado um convívio que o rétor possui com Vero. Sublinha-se essa condição em detrimento de “todos os homens da [...] ordem” deles (<italic>omnes nostri ordinis viros</italic>). Ainda em um clima de disputa pelo afeto de seu interlocutor, Frontão interpreta o descontentamento do príncipe como um desejo que este teria em relação ao rétor, já que o governante não sente o mesmo por aqueles de quem se afastara (<italic>Ad Verum</italic>, 1.12.1). Mais adiante, recupera-se novamente a conjuntura social a partir da qual Frontão mostra-se em vantagem no que se refere ao seu contato com a casa imperial:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>enimvero cum tu tuusque frater in tantis opibus locati, tanta multitudine omnium generum omniumque ordinum, in quos amorem vestrum dispergitis, circumfusi, mihi quoque partem amoris vestri nonnullam &lt;i&gt;mpertiatis, quid me facere oportet, cuius spes opesque &lt;o&gt;mnes &lt;in v&gt;obis sunt s&lt;olis&gt; sitae? (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.12.2)</p>
</disp-quote>
</p>
<p>
<disp-quote>
<p>De fato, já que tu e teu irmão, colocados em tão alta posição, cercados por uma multidão tão grande de homens de todas as condições e todas as ordens, aos quais destinais vosso amor, já que também me concedeis uma parte importante de vosso amor, o que devo fazer eu, cujas esperanças e riquezas todas depositam-se somente em vós? (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.12.2)</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Novamente, o rétor não se restringe a dizer que Lúcio Vero e Marco Aurélio lhe dirigem parte de seu amor. Antes, o orador afirma que os príncipes o fazem em uma esfera em que estes têm muito poder <italic>(in tantis opibus locati</italic>) e são demandados por muitos homens de grupos variados (<italic>tanta multitudine omnium generum omniumque ordinum</italic>). Essa missiva (<italic>Ad Verum </italic>1.12) integra os frequentes pedidos de desculpas na correspondência, os quais, por sua vez, apontam, em conjunto, para a existência de um dever social (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref7">Champlin, 1980</xref>, p. 97) ligado a Frontão na corte antonina.</p>
<p>Em carta de recomendação a Vero, mais uma vez, o entorno social é utilizado como maneira de atribuição de honra. A missiva é sobre Lúcio Gávio Claro, um jovem senador de Ataleia, na Panfília (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref22">Martín, 1992</xref>, p. 312, n. 597), que se estima ter sido, ainda, por volta de seus trinta anos, um <italic>contubernalis </italic>de Frontão (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">van den Hout, 1999</xref>, p. 271). Isso significa que ele viveu na casa do mestre no Esquilino, a qual era um tipo de pensionato destinado aos jovens de grupos sociais privilegiados, que, por seu turno, recebiam uma educação superior nas letras, história e política (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">van den Hout, 1999</xref>, p. 404). Há, na epístola, um esforço para demonstrar o teor familiar do vínculo que o orador possui com o homem (<italic>Ad Verum</italic>, 1.6) e algumas de suas virtudes são realçadas:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>simplicitas, castitas, veritas, fides Romana plane, φιλοστοργία vero nescio an Romana: quippe qui nihil minus in tota mea vita Romae repperi quam hominem sincere φιλόστοργον; ut putem, quia reapse nemo sit Romae φιλόστοργος, ne nomen quidem huic virtuti esse Romanum (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.6.7).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>
<disp-quote>
<p>Sua simplicidade, integridade, honestidade e fidelidade são claramente romanas, sua <italic>φιλοστοργία</italic>, por outro lado, não sei se é romana: aliás, o que menos vi, em Roma, em toda a minha vida, foi um homem sinceramente <italic>φιλόστοργον</italic>, a ponto de eu pensar que, como não há ninguém em Roma verdadeiramente <italic>φιλόστοργος</italic>, nem há uma palavra romana para essa virtude (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.6.7).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>A palavra grega <italic>filostorgía </italic>combina os sentidos vinculados aos verbos <italic>fileîn </italic>(“amar com amizade”) e <italic>stérgein</italic> (“amar ternamente”), que, por sua vez, é usado para designar o amor terno que nutrem os pais pelos filhos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref3">Aubert, 2011</xref>, p. 1). Além disso, é um termo cujas acepções oscilam entre duas principais: o amor que une os membros de uma mesma família e a afeição vívida no geral (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref3">Aubert, 2011</xref>, p. 1-2). No excerto frontoniano, a ausência da virtude grega no contexto romano é apontada como forma de produzir a honra do recomendado: Gávio Claro não só é dotado de um amor terno, mas o é diante de um cenário em que “não há ninguém [...] verdadeiramente φιλόστοργος”.</p>
<p>No primeiro livro de suas <italic>Meditações</italic>, Marco Aurélio elenca, desde os familiares, passando pelos mestres até chegar aos deuses, todos aqueles com quem aprendera. Quando menciona Frontão, o governante afirma que, dele, herdou a observação da inveja, da falsidade e da hipocrisia dos tiranos e de serem os chamados patrícios (εὐπατρίδαι) desprovidos de “afetividade natural” (ἀστοργότεροί) (M. Aur.<italic> Med</italic>. 1.11, tradução de Aldo Dinucci, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref21">2023</xref>, p. 35). Essa crítica à esfera aristocrática – presente nos excertos frontonianos e no texto aureliano – é comum, quando levamos em conta a produção de uma sensação geral de desonra durante o Principado romano. Nesse período, recrudesce um aspecto da autorrepresentação dos homens como não expostos à decadência (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref12">Faversani, 2024</xref>, p. 255). Em uma conjuntura em que se produz a percepção de que as pessoas honrosas não mais existem, é natural e esperada a preponderância da estratégia de vituperar a imagem dos adversários para aspirar-se à autopromoção (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref12">Faversani, 2024</xref>, p. 255-6).</p>
<p>Frontão parece munir-se dessa tática também em <italic>Ad Verum</italic>, 2, quando celebra o retorno de Lúcio Vero das campanhas asiáticas e posiciona a retórica como causa do triunfo (“utilizaste a eloquência como mestre para os assuntos militares”) (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 2.18).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn8">7</xref>
</sup> O missivista evidencia que o exército colocado à disposição de Vero estava “corrompido pela luxúria, libertinagem e muita ociosidade” (<italic>luxuria et lascivia et otio diutino corruptus</italic>), e os homens estavam mais bem vestidos que armados, poucos conseguiam saltar sobre os cavalos e arremessar as lanças de modo adequado, não realizavam vigílias e bebiam (Fronto, <italic>Ep</italic>. <italic>Ad Verum</italic>, 19).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn9">8</xref>
</sup> À medida que vitupera os soldados, o remetente parece, proporcionalmente, enaltecer o líder. O caráter persuasivo dessa censura é afirmado quando se leva em conta que a invectiva era um elemento importante para o êxito de um orador em acusações ou defesas judiciais, bem como em conflitos políticos no senado ou na assembleia popular (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref2">Arena, 2007</xref>, p. 150).</p>
<p>O processo de produção da desonra pressupõe certa manipulação do poder imperial para benefício próprio e/ou de outrem. Após sustentar que, nas práticas mais comuns de atenção e nos sinais de benevolência de um imperador, residem coisas mais elevadas, como o amor e a honra, Frontão (<italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.7.2) evidencia utilizar seu remetente, Lúcio Vero, como intermediador de seus pedidos a Marco Aurélio. O orador anuncia: “Então, seja lá o que deve ser pedido para mim por meu senhor, teu irmão, preferi que tudo fosse pedido e obtido através de ti” (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.7.2).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn10">9</xref>
</sup> De fato, no Principado romano, o imperador, muitas vezes, configurou-se como um instrumento nas dissidências entre setores adversários (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref12">Faversani, 2024</xref>, p. 264). Há, de forma predominante, uma disputa entre distintos grupos para acessar o poder ligado ao <italic>princeps</italic>, controlá-lo e usá-lo em benefício próprio ou, ainda, para impedir que ele seja usado contra eles mesmos ou seus grupos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref12">Faversani, 2024</xref>, p. 265).</p>
<p>Essa tentativa de representação de uma conjuntura aristocrática viciosa é feita paralelamente ao esforço da produção do caráter genuíno e verdadeiro dos laços que, segundo Frontão, o rétor manteria com a casa imperial. O autor não elabora simplesmente uma proximidade com Marco Aurélio, mas, antes, uma afinidade familiar. Em <italic>M. Caes</italic>. 4.12, por exemplo, o preceptor destaca que ele próprio criticou, em algumas ocasiões, o aluno perante um grupo pequeno de pessoas próximas. No entanto, fosse o caso de outro atacar o príncipe em sua frente, o professor não poderia ouvi-lo mantendo a calma, “assim como seria mais fácil que [ele] mesmo batesse na [...] filha Crátia a ver que outro batesse nela” (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 4.12.5).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn11">10</xref>
</sup>
</p>
<p>O vínculo paternal está também, na visão frontoniana, na ligação preceptor- discípulo. O mestre revela estar orgulhoso de Marco Aurélio sobretudo por sua eloquência, como se ele ainda fosse seu professor (Fronto,<italic> Ep. Antonin</italic>. 1.2.2). Além de ser notável, justo, irrepreensível, bem recebido e aceito pelo povo romano, o imperador é, para Frontão, apegado ao mestre como este queria e tão eloquente conforme o desejo do príncipe (Antonin. 1.2.2). O rétor observa o avanço de seu aluno na eloquência e confessa que estima e aprecia todas as virtudes do governante (Fronto, <italic>Ep. Antonin</italic>. 1.2.2). Apesar disso, o preceptor diz obter uma alegria maior e específica a partir da eloquência do pupilo (Fronto, <italic>Ep. Antonin.</italic> 1.2.2). Comparando esse contentamento com o orgulho paterno, afirma: “Como acontece com os pais, quando, no rosto dos filhos, discernem os traços de sua própria face, assim ocorre comigo quando, nos vossos discursos, observo as marcas da minha escola”.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn12">11</xref>
</sup> Nesse sentido, Frontão sugere amar Marco Aurélio da maneira que integrantes de uma mesma família podem amar uns aos outros (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref18">Grimal, 1990</xref>, p. 154).</p>
<p>A dimensão terna do laço entre Frontão e seus pupilos imperiais pode ser endossada, se pensarmos na concepção da prática do beijo veiculada por alguns autores antigos. Por meio de Catulo, por exemplo, testemunhamos o beijo entre amigos. O eu poético alegra-se pelo retorno de Verânio da Ibéria (Catull. 9. 1-2)<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn13">12</xref>
</sup> e assinala que, aproximando-se do amigo, beijará os seus lábios e olhos (“[...] chegando a ti meu rosto,/ teus lábios belos vou beijar e os olhos”) (Catull. 9. 8-9, tradução de João Angelo Oliva Neto, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref6">1996</xref>, p. 74).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn14">13</xref>
</sup>Acerca dessa composição especificamente (Catull. 9), Achcar (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref1">1994</xref>, p. 28-9) lista os <italic>tópoi </italic>que colaboram para sua definição como um <italic>prosphonetikón</italic>, isto é, um poema de boas-vindas. Dentre eles, o pesquisador (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref1">Achcar, 1994</xref>, p. 29) identifica as demonstrações afetivas mediante beijos, abraços e lágrimas como um dos lugares-comuns distintivos do mencionado <italic>genus</italic>, evidenciando, ainda, suas incidências na poesia latina.</p>
<p>Na discussão sobre as razões pelas quais as mulheres saúdam seus parentes com os lábios, Plutarco (<italic>Quaest. Rom</italic>. 6) aventa, como uma das hipóteses, que, sendo ilegal o casamento entre familiares à sua época, o beijo era mantido apenas como sinal de parentesco (σύμβολον καὶ κοινώνημα τῆς συγγενείας). Considerando o cenário imperial latino, na epístola de Fedra a Hipólito, das <italic>Heroides </italic>ovidianas, por exemplo, a remetente, que deseja desposar o enteado Hipólito, sugere que este poderá continuar a beijá-la como fazia antes, já que eles eram familiares e, por isso, seria natural que se beijassem abertamente (“beijavas-me; beijar-me-ás às claras”) (Ov. <italic>Her</italic>. 4.137-46, tradução de João Victor Leite Melo, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref25">2024</xref>, p. 191).<xref ref-type="fn" rid="fn15">
<sup>14</sup>
</xref>
</p>
<p>A <italic>Consolação a Lívia</italic>, obra ovidiana espúria, reitera o beijo nos lábios entre membros de uma família. Na composição, o poeta procura confortar sua interlocutora pela morte do filho Druso Nero. Pela voz poética, Lívia, ao imaginar o retorno vitorioso de Druso da guerra, prevê que, durante o cortejo triunfal, beijará seu pescoço, boca e olhos em público (v. 31-6) (<italic>collaque et osque oculosque illius ore premam</italic>). Sublinhando, nesse caso, que fará o gesto publicamente (<italic>iam me turba videbit</italic>), a prática parece funcionar retoricamente, no sentido de que revela a proximidade dos dois.<xref ref-type="fn" rid="fn16">
<sup>15</sup>
</xref>
</p>
<p>Essa ênfase ao parentesco, quando tratamos de expressões de afeto, ressoa na correspondência frontoniana. Esse aspecto aparece não só quando o missivista destaca a dimensão familiar de sua amizade com Aurélio, mas também nas ocasiões em que evidencia a relação entre os membros de sua família e os do <italic>princeps</italic>. Em <italic>M. Caes</italic>. 2.13, observamos Frontão comunicar ter enviado sua esposa Crátia a Nápoles para celebrar o aniversário de Domícia Lucila, mãe de Marco. O rétor assegura que Crátia não come muito e que ela viveria contente, mesmo somente com os beijos de Domícia (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 2.13).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn17">16</xref>
</sup> O próprio Frontão envia cartas em grego à mãe de seu aluno (cf. <italic>M. Caes</italic>. 2.3; <italic>M. Caes</italic>. 2.15). Como depreende Grimal (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref18">1990</xref>, p. 153), Frontão realmente constituía, de algum modo, a família de Marco Aurélio.</p>
<p>Diante dos excertos do epistolário referenciados e a visão do beijo em outros autores antigos, para ler a afeição frontoniana com seus pupilos, é preciso considerar que a prática de se beijar é, em grande medida, situada culturalmente (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref20">Laes, 2009</xref>, p. 4). Sob a percepção de Laes (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref20">2009</xref>), Richlin (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref30">2006</xref>) defendeu, com base no epistolário frontoniano, que a relação entre Marco Aurélio e Frontão era sobretudo de teor sexual e erótico. De fato, apesar de a autora (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref30">Richlin, 2006</xref>, p. 6) anunciar, no comentário introdutório à tradução inglesa, que não é sua expectativa que os leitores fiquem convencidos de serem os correspondentes amantes, Richlin (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref30">2006</xref>, p. 6), logo em seguida, afirma, por exemplo, esperar também que as epístolas “sejam de interesse para os estudantes de história gay que ainda valorizam a busca por ancestrais”.<xref ref-type="fn" rid="fn18">
<sup>17</sup>
</xref>
</p>
<p>Por outro lado, urge lembrar que é inadequado, em termos metodológicos, transferir nossos hábitos e noções para outras civilizações ou períodos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref20">Laes, 2009</xref>, p. 4). Na vida cotidiana, os romanos de um mesmo grupo social de prestígio beijavam-se quando se cumprimentavam (Laes, 2009, p. 4). Dessa forma, mostra-se inapropriado reduzir a demonstração de intimidade entre o rétor e seus pupilos a uma mera expressão de sentimentos eróticos genuínos, se, com esta visão, for ignorado o quadro político e discursivo de disputa entre os setores da aristocracia.</p>
<p>Na verdade, não se pretende, aqui, descartar a possibilidade de ter havido um contato amoroso entre os correspondentes (cf.<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref20"> Laes, 2009</xref>, p. 6). Ao mesmo tempo, não desejamos restringi-lo a uma demonstração sincera de ternura a um amado que não seja construída política e retoricamente. Uma coisa é sublinhar esse aspecto simbólico e sociocultural da relação; outra é, com isso, isentar de qualquer amor a conexão entre os interlocutores.</p>
<p>Parece residir, pois, nas manifestações frontonianas de ternura, uma dimensão vinculada ao esforço, por parte do rétor, de persuadir os seus do laço estreito com a família imperial e, por isso, convencê-los de seu poder político, a despeito de um cenário aristocrático supostamente vicioso. Se, portanto, há a produção generalizada de desonra no Principado – em outras palavras, se todo mundo é corrompido –, as construções retóricas que compõem o retrato das figuras históricas assumem grande importância. Frontão sabe disso e veicula tal concepção claramente em algumas de suas cartas. Continuando sua apologia da soberania retórica nos triunfos militares, o mestre alerta Lúcio Vero:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>alii quoque duces ante vos Armeniam subegerunt, sed una mehercules tua epistula, una tui fratris de te tuisque virtutibus oratio nobilior ad gloriam et ad posteros celebratior erit quam pleri que principum triumphi</p>
</disp-quote>
</p>
<p>
<disp-quote>
<p>Outros líderes antes de ti subjugaram a Armênia, mas, por Hércules, uma única carta tua, um único discurso de teu irmão sobre ti e tuas virtudes será, quanto à fama, mais enobrecedor e, quanto à posteridade, mais célebre do que muitos triunfos de príncipes (Fronto, <italic>Ad Verum</italic>, 2.9).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>O preceptor revela estar consciente da interferência da arte retórica na imagem do dirigente. Ao mesmo tempo, também concebe que a construção discursiva sobre os governantes pode reverberar até mais que os feitos deles em si, nesse caso, as conquistas bélicas. Decerto, não existe, para Frontão, uma verdade sem discurso (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref9">Collin, 2011</xref>, p. 3).</p>
<p>Em outra epístola (Fronto, <italic>Ep. Bell. Parth.</italic>), Frontão solicita que Marco Aurélio volte sua atenção para um discurso de Cícero sobre Pompeu (Fronto, <italic>Ep. Bell. Parth</italic>. 9-10).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn19">18</xref>
</sup> Com isso, o orador, ao discorrer sobre a guerra parta a Marco Aurélio, aponta novamente para a necessidade de um líder dedicar-se às letras. De acordo com o professor, nunca ninguém foi louvado mais profundamente em uma assembleia pública como Pompeu na composição ciceroniana, de forma que ele “foi aclamado com o apelido de ‘o Grande’, não tanto por suas virtudes como pelo louvor de Cícero” (Fronto, <italic>Ep. Bell. Parth</italic>. 10).<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn20">19</xref>
</sup> Com efeito, Frontão garantiu que a aprendizagem da retórica fosse, para os alunos, “mais do que a aquisição de um saber-fazer, aquilo que poderíamos chamar de ‘saber-ser’” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref18">Grimal, 1990</xref>, p. 159).<xref ref-type="fn" rid="fn21">
<sup>20</sup>
</xref>
</p>
<p>Em sua tese sobre as transformações da imagem de Nero na tradição literária, Coelho (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref8">2021</xref>, p. 348-349) defende que os conflitos, colocados em cada nova conjuntura, levam a diferentes seleções no repertório disponível por meio da <italic>inventio </italic>dos autores na Antiguidade. Através da escolha desses elementos, realizam-se representações que podem misturar camadas de diversas temporalidades (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref8">Coelho, 2021</xref>, p. 349). Apesar de Coelho (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref8">2021</xref>) tratar da imagem de Nero, seu argumento principal contempla os referidos excertos do epistolário. Para Frontão, a seleção do discurso do irmão sobre Vero pode compor, na posteridade, o próprio retrato de Vero, e o recorte da composição laudatória de Cícero em torno de Pompeu interferiu na construção da imagem deste.</p>
<p>Sob a ótica da leitura que aqui se propõe sobre a proximidade entre Frontão e a corte antonina, apresentamos, a seguir, nossa proposta tradutória para a <italic>M. Caes.</italic> 3.14, destinada a Marco Aurélio. Estima-se que a referida carta tenha sido escrita entre 146-147 EC (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">van den Hout, 1999</xref>, p. 122). Nela, Frontão explica o seu silêncio perante as missivas do amigo, situando, nas ocupações dele, a principal causa de sua omissão. Nesse momento, embora Aurélio não fosse ainda imperador, já participava da administração da corte (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">van den Hout, 1999</xref>, p. 122). Essa é uma evidência, porque, aos 18 anos, em 140, tornou-se cônsul pela primeira vez e, desde então, assumiu parte das atividades do Império (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">van den Hout, 1999</xref>, p. 122). A tradução da missiva 3.14 deu-se a partir do texto latino fonte, com consideração, ainda, das versões em inglês (Haines, 1919; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref30">Richlin, 2006</xref>), espanhol (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref22">Martín, 1992</xref>), francês (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref13">Fleury, 2003</xref>) e português (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref26">Pereira, 2014</xref>), que, por seu turno, é a única em nossa língua até então.</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold>3. Texto latino e tradução</bold>
</title>
<p>O missivista inicia a referida epístola com a definição de um recurso poético, a cunhagem de novas palavras. Com essa contextualização, ele introduz uma justificativa para o seu aparente descuido no que diz respeito à amizade com Marco Aurélio. Vejamos:</p>
<p>
<table-wrap id="gt1">
<alternatives>
<graphic xlink:href="601782205032_gt2.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
<table id="gt2-526564616c7963">
<thead style="display:none;">
<tr style="display:none;">
<th style="display:none;"/>
</tr>
</thead>
<tbody>
<tr>
<td>
<bold>AD M. Caesarem et Invicem Liber III 14. Domino Meo</bold>
<bold>1</bold> Quod poetis concessum est ὀνοματοποιεῖν, verba nova fingere, quo facilius quod sentiunt exprimant, id mihi necessarium est ad gaudium meum expromendum, nam solitis et usitatis verbis non sum contentus, sed laetius gaudeo quam ut sermone volgato significare laetitiam animi mei possim:<sup/>
<xref ref-type="fn" rid="fn22">
<sup>21</sup>
</xref> tot mihi a te in tam paucis diebus epistulas scriptas easque tam eleganter, tam amice, tam blande, tam effuse, tam fraglanter conpositas, cum iam tot negotiis quot officiis, quot rescribendis per provincias litteris distringerere.</td>
<td>
<bold>Livro III a M. César e vice-versa 14. Ao meu senhor</bold>
<bold>1</bold> A criação de novas palavras, a ὀνοματοποιεῖν,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn23">22</xref>
</sup> que é permitida aos poetas a fim de que exprimam, mais facilmente, o que sentem, ela é necessária para expressar minha alegria, pois não me contento com palavras habituais e comuns, mas estou tão alegre que até poderia, em linguagem ordinária, revelar a felicidade de meu coração: tantas cartas foram-me escritas por ti em tão poucos dias – e elas, compostas de maneira tão elegante, tão carinhosa, tão doce, tão efusiva, tão ardorosa –, embora já estivesses ocupado com tantas atividades, tantas obrigações, tantas missivas a serem respondidas pelas províncias afora.</td>
</tr>
<tr>
<td>
<bold>2</bold> atenim proposueram (nihil enim mihi a te occultum aut dissimulatum retinere fas est) ita, inquam, proposueram vel desidiae culpam a te subire rarius scribendo tibi potius quam te multis rebus occupatum epistulis meis onerarem et ad rescribendum &lt;pr&gt;ovocarem, quom tu cotidie ultro scripsisti mihi. sed quid dico ‘cotidie’? ergo iam hic mihi ὀνοματοποι&lt;ί&gt;ας opus est. nam ‘cotidie’ foret, si singulas epistulas per dies singulos scripsisses; quom vero plures epistulae sint quam dies, | verbum istud ‘cottidie’ minus significat. nec est, domine, quod mihi tristior sis, cur omnino veritus sim, ne tibi litterae meae crebriores oneris essent : nam quo mei amantior es, tanto me laborum tuorum parciorem et occupationum tuarum modestiorem esse oportet. <bold>3</bold> quid est mihi osculo tuo suavius ! ille mihi suavis odor, ille fructus in tuo collo atque osculo situs est.</td>
<td>
<bold>2</bold> Pois bem, havia me decidido (porque não é certo eu manter algo oculto ou escondido de ti), então, havia me decidido, como ia dizendo, suportar, de tua parte, até mesmo a acusação de preguiça, escrevendo-te menos, em vez de te incomodar com minhas cartas – enquanto estás ocupado com tantas coisas – e de te forçar a me responder, quando tu, por outro lado, me escrevias a cada dia. Mas por que digo “a cada dia”? É aqui que entra, portanto, a necessidade de uma ὀνοματοποιίας. Porque seria “a cada dia”, se tivesses escrito cada carta em cada dia; como, na verdade, há mais cartas do que dias, essa expressão “a cada dia” faz pouco sentido. Não há motivo, senhor, para ficares muito aborrecido comigo por eu realmente ter temido que minhas frequentes missivas fossem te causar problema: porque, quanto mais me amas, mais convém que eu seja cuidadoso com teus trabalhos e respeitoso com tuas ocupações. <bold>3</bold> O que é, para mim, mais doce do que um beijo teu? Esse doce perfume, esse prazer está no teu pescoço e no teu beijo.</td>
</tr>
<tr>
<td>attamen proxime, cum proficiscerere, cum iam pater tuus vehiculum conscendisset, te salutantium et exosculantium turba diutius moraretur, profuit ut te solus ex omnibus non complecterer nec exoscularer. item in ceteris aliis rebus omnibus numquam equidem mea commoda tuis utilitatibus anteponam; quin si opus sit, meo gravissimo labore atque negotio tuum levissimum et otium redimam. <bold>4</bold> igitur cogitans, quantum ex epistulis scribendis laboris caperes, proposueram parcius te appellare, quom tu cotidie scripsisti mihi. quas ego epistulas quom acciperem, simile patiebar quod amator patitur, qui delicias suas videat currere ad se per iter asperum et periculosum. namque is simul advenientem | gaudet, simul periculum reveretur. unde displicet mihi fabula histrionibus celebrata, ubi amans amantem puella iuvenem nocte lumine accenso stans in turri natantem in mare opperitur.</td>
<td>Porém, da última vez, quando partias, quando teu pai já havia entrado na carruagem, e atrasava-te a multidão, que, por muito tempo, te saudava e te cobria de beijos, foi útil que eu, único entre todos, não te abraçasse, nem te cobrisse de beijos. Da mesma forma, em todos os demais assuntos, nunca colocarei meus interesses antes dos teus proveitos; mas, se for necessário, obterei o teu mais leve descanso com o meu mais pesado trabalho e esforço. <bold>4</bold> Por isso, pensando na quantidade de trabalho que tinhas ao me escrever cartas, decidira recorrer menos a ti, ao passo que tu me escrevias a cada dia. Quando eu recebia essas cartas, sofria da mesma forma que sofre o apaixonado que assiste ao seu bem correr para si por um árduo e perigoso caminho. Porque, ao mesmo tempo que ele se alegra por vê-lo vindo, teme o perigo. Daí me desagradar o mito encenado pelos atores em que uma garota, apaixonada por seu amado, espera, à noite, de pé em uma torre, com a tocha acesa, o jovem que nada no mar.<xref ref-type="fn" rid="fn24">
<sup>23</sup>
</xref>
</td>
</tr>
<tr>
<td>nam ego potius te caruero, tametsi amore tuo ardeo, potius quam ‘te ad hoc noctis natare tantum profundi patiar, ne luna occidat, ne ventus lucernam interemat, ne quid ibi ex frigore inpliciscar, ne fluctus, ne vadus, ne piscis aliquo noxsit’. haec ratio amantibus decuit et melior et salubrior fuit: non alieno capitali periculo sectari voluptatis usuram brevem ac paenitendam. <bold>5</bold> Nunc ut a fabula ad verum convertar, id ego non mediocriter anxius eram, &lt;ne&gt; necessariis laboribus tuis ego insuper aliquod molestiae atque oneris inponerem, si praeter eas epistulas, quas ad plurimos necessario munere cotidie rescribis, ego quoque ad rescribendum fatigarem. nam me carere omni fructu amoris tui malim quam te ne minimum quidem incommodi voluptatis meae gratia subire.</td>
<td>Porque, embora eu arda por teu amor, preferiria ficar sem ti a “sofrer que nades em mar tão profundo a esta hora da noite, ou que a lua se esconda, ou que o vento apague a lucerna, ou que aí pegues uma friagem, ou que as ondas, ou as vagas, ou um peixe te firam de alguma forma.”<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn25">24</xref>
</sup> Esta conduta foi apropriada aos amantes e foi a melhor e a mais favorável: não seguir, à custa do perigo mortal do outro, uma satisfação que é passageira e conduz ao arrependimento pelo prazer. <bold>5</bold> Agora, a fim de que eu passe do mito à realidade, eu teria essa ansiedade não moderada de não colocar incômodo e peso algum acima dos teus indiscutíveis trabalhos, se, além dessas cartas, que respondes a muitos a cada dia por dever inevitável, eu também te cansasse ao te responder. Porque escolheria ficar sem todo o deleite do teu amor a suportar o menor incômodo em prol do meu prazer.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold>4. Considerações finais</bold>
</title>
<p>Mediante este texto, buscamos colaborar na ampliação tanto da fortuna crítica sobre Frontão em língua portuguesa como das traduções do epistolário para o nosso idioma, tendo em vista que os textos teóricos em português pertinentes ao tema hoje se restringem apenas a três títulos.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn26">25</xref>
</sup> No que diz respeito às transposições do epistolário, existem não mais que versões de algumas missivas frontonianas em Pereira (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref26">2014</xref>) e Dias (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref10">2021</xref>).</p>
<p>Na missiva traduzida e na correspondência como um todo, Frontão usa de uma tática geral de autorrepresentação como indivíduo próximo da casa imperial. O rétor esforça-se por demonstrar que possui um acesso diferenciado ao convívio dos príncipes. Parte desse processo parece consistir na tática de sublinhar, em seu entorno, a inveja (<italic>Ad Verum</italic> 1.7), a desmedida (<italic>M. Caes</italic>. 3.14) e mesmo a falha no que tange a uma suposta verdadeira afeição (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.12.1; A<italic>d Verum</italic>, 1.6; M. Aur. <italic>Med</italic>. 1.11). Avultando a desonra do cenário aristocrático à sua época, o preceptor acentua o teor familiar e, por isso, privilegiado de sua relação com o centro do poder (<italic>M. Caes</italic>. 4.12.5; <italic>Antonin</italic>. 1.2.2; <italic>M. Caes</italic>. 2.13).</p>
<p>Para além de refletirem uma verdade histórica, fato é que a desonra dos aristocratas coetâneos ao orador e a consequente honra frontoniana são elaborações discursivas, e Frontão sabe bem que elas têm influência sobre a imagem política dos homens (<italic>Ad Verum</italic>, 2;<italic> Bell. Parth.</italic> 10). Essa produção da desonra do outro como maneira de elevação de si é uma prática frequente no Principado romano. Através da vituperação da conjuntura social, Frontão pode alçar a sua própria imagem à condição de figura relevante no seu tempo. Em outros termos, podemos falar em uma produção de desonra alheia para a elaboração de honra própria (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref12">Faversani, 2024</xref>).</p>
<p>Ademais, quando lemos as manifestações de afeto presentes na epistolografia à luz da concepção veiculada nos autores antigos sobre o beijo especificamente (Catull. 9. 8-9; Plut. <italic>Quaest. Rom</italic>. 6; Ov. <italic>Consolatio ad Liviam</italic> 31-6; <italic>Her</italic>. 4.137-46), depreendemos que, nas reiteradas manifestações de afeto aos príncipes, também se pode ver uma forma encontrada por Frontão de persuadir sobre sua importância. O aspecto familiar do vínculo entre o rétor e os herdeiros antoninos é destacado (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 4.12.5), inclusive, no seio da relação professoral (Fronto, <italic>Ep. Antonin</italic>. 1.2.2) e no âmbito do contato entre membros das duas famílias (<italic>M. Caes</italic>. 2.13; <italic>M. Caes</italic>. 2.3; <italic>M. Caes</italic>. 2.15).</p>
<p>Esse agenciamento frontoniano da promoção de si a despeito da aristocracia contemporânea ao mestre remonta à etimologia do termo <italic>suavium</italic>, cuja acepção, vinculada a <italic>suadeo</italic>, reverbera, no epistolário, em termos de beijos retóricos. Eles buscam convencer sobre o que teria sido, conforme o autor, um convívio verdadeiro e genuíno com os antoninos. Nesse sentido, atentamos, nestas linhas, para a dimensão discursiva e social da relação de Frontão com os príncipes. Afinal, não se pode ver apenas sinceridade e transparência naquilo que, em algum grau, é política e retórica.</p>
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<mixed-citation publication-type="book">PSEUDO QUINTILIANO. Declamação maior 3. Tradução de Anna Clara Figueiredo Lima e Charlene Martins Miotti. Texto original inédito cedido pelas autoras.</mixed-citation>
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<surname>PSEUDO QUINTILIANO</surname>
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<source>PSEUDO QUINTILIANO. Declamação maior 3</source>
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<mixed-citation publication-type="book">QUIGNARD, Pascal. Marco Cornélio Frontão. Primeiro Tratado na Retórica Especulativa. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Hedra, 2012.</mixed-citation>
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<surname>QUIGNARD</surname>
<given-names>Pascal</given-names>
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<source>Marco Cornélio Frontão. Primeiro Tratado na Retórica Especulativa</source>
<year>2012</year>
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<mixed-citation publication-type="book">RICHLIN, Amy. Marcus Aurelius in love. The letters of Marcus and Fronto. Chicago; Londres: The University of Chicago Press, 2006.</mixed-citation>
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<surname>RICHLIN</surname>
<given-names>Amy</given-names>
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<source>Marcus Aurelius in love. The letters of Marcus and Fronto</source>
<year>2006</year>
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<mixed-citation publication-type="book">VAN DEN HOUT, Michael Petrus Josephus. A commentary on the Letters of M. Cornelius Fronto. Leiden; Boston; Köln: Brill, 1999.</mixed-citation>
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<surname>VAN DEN HOUT</surname>
<given-names>Michael Petrus Josephus</given-names>
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<source>A commentary on the Letters of M. Cornelius Fronto</source>
<year>1999</year>
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<title>Notas</title>
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<label>1</label>
<p>Registramos, de antemão, nossos agradecimentos aos pareceristas anônimos pelas ótimas contribuições para a elaboração da versão final deste artigo.</p>
</fn>
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<label>2</label>
<p>As abreviações das fontes antigas utilizadas neste texto correspondem às relacionadas no <italic>Oxford Classical Dictionary</italic> (OCD) e aquelas das cartas frontonianas em específico referem-se às presentes na edição crítica de van den Hout (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref23">1988</xref>, p. 292-4).</p>
</fn>
<fn id="fn4" fn-type="other">
<label>3</label>
<p>Para as citações do texto fonte de Frontão, recorremos à edição de van den Hout (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref23">1988</xref>).</p>
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<label>4</label>
<p>Salvo indicação contrária, todas as traduções das cartas frontonianas e das pesquisas contemporâneas presentes neste artigo são de nossa autoria.</p>
</fn>
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<label>5</label>
<p>“ego quanto opere te diligam, non minus de gravibus et seriis experimentis quam plerisque etiam frivolis sentio” (Fronto, <italic>Ep. M.Caes.</italic> 4.12.3).</p>
</fn>
<fn id="fn7" fn-type="other">
<label>6</label>
<p>“porque, quanto mais me amas, mais convém que eu seja cuidadoso com teus trabalhos e respeitoso com tuas ocupações” (“nam quo mei amantior es, tanto me laborum tuorum parciorem et occupationum tuarum modestiorem esse oportet”) (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>, 3.14.2).</p>
</fn>
<fn id="fn8" fn-type="other">
<label>7</label>
<p>“[...] ad rem militarem magistra eloquentia usus es” (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 2.18).</p>
</fn>
<fn id="fn9" fn-type="other">
<label>8</label>
<p>O destaque à depravação do exército para a elevação do general também é um argumento utilizado na declamação <italic>O soldado de Mário</italic> (<italic>Miles Marianus</italic>), erroneamente atribuída a Quintiliano. Nela, dirigindo-se ao general Gaio Mário, o autor anônimo defende um soldado que matou um tribuno, o qual, por sua vez, tentou estuprar aquele. No texto, se, por um lado, o exército é depreciado, por outro, Mário, com suas virtudes, é eleito como homem que possui a condição de defender os romanos (Ps. Quint. 3.5). Agradecemos a Anna Clara Figueiredo Lima e a Profa. Dra. Charlene Martins Miotti, que gentilmente nos cederam sua tradução da referida composição para o português.</p>
</fn>
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<label>9</label>
<p>“igitur quaecumque &lt;mihi&gt; a domino meo tuo fratre petenda fuerunt, per te petita atque impetrata omnia malui” (Fronto, <italic>Ep. Ad Verum</italic>, 1.7.2).</p>
</fn>
<fn id="fn11" fn-type="other">
<label>10</label>
<p>“ita ut Cratiam meam filiam facilius ipse percusserim quam ab alio percuti viderim” (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 4.12.5).</p>
</fn>
<fn id="fn12" fn-type="other">
<label>11</label>
<p>“itidem ut parentes, cum in voltu liberum oris sui lineamenta dinoscunt, ita ego cum in orationibus vestris vestigia nostrae sectae animadverto [...]” (Fronto, <italic>Ep. Anton</italic>. 1.2.2).</p>
</fn>
<fn id="fn13" fn-type="other">
<label>12</label>
<p>“Verânio, dos amigos o primeiro,/ de todos os trezentos mil que tenho” (“ominibus e meis amicis/ antistans mihi milibus trecentis”) (Catull. 9. 1-2, tradução de João Angelo Oliva Neto, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref6">1996</xref>, p. 74).</p>
</fn>
<fn id="fn14" fn-type="other">
<label>13</label>
<p>“[...] applicansque collum/ iocundum os oculosque suaviabor” (Catull. 9.8-9).</p>
</fn>
<fn id="fn15" fn-type="other">
<label>14</label>
<p>“Nem temos que esconder nosso amor como a Deusa; /o nome de parente encobre a culpa. /Se nos virem abraçados, seremos louvados; /dirão que sou bondosa ao enteado/ Não terás que iludir um marido severo, /tampouco subornar nenhum dos guardas; /já estamos e estaremos sob o mesmo teto; /beijavas-me; beijar-me-ás às claras;/ comigo estás seguro e serás dito probo, /ainda que te vejam no meu quarto.” (Ov. <italic>Her</italic>. 4.137-46, tradução de João Victor Leite Melo, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref25">2024</xref>, p. 191). (“Nec labor est celare, licet peccemus, ut illa; /Cognato poterit nomine culpa tegi. /Viderit amplexos aliquis, laudabimur ambo, /Dicar priuigno fida nouerca meo. /Non tibi per tenebras duri reseranda mariti /Ianua, non custos decipiendus erit; /[Vt tenuit domus una duos, domus una tenebit; /Oscula aperta dabas, oscula aperta dabis;] /Tutus eris mecum laudemque merebere culpa, /Tu licet in lecto conspiciare meo”).</p>
</fn>
<fn id="fn16" fn-type="other">
<label>15</label>
<p>Vale recordar, ainda, do célebre beijo de Judas, utilizado para a captura de Cristo. O episódio é relatado pelos evangelistas Mateus (26.47–50), Marcos (14.43–6) e Lucas (22.47–8). Em termos pictóricos, reportemo-nos a Giotto di Bondone, que, em seu afresco (c. 1304-1306), situado na Capela Scrovegni, em Pádua, na Itália, representou o beijo de traição nos lábios de Jesus.</p>
</fn>
<fn id="fn17" fn-type="other">
<label>16</label>
<p>“Ela até viveria feliz apenas com os beijos de tua mãe” (“vel osculis solis matris tuae contenta vixerit”) (Fronto, <italic>Ep. M. Caes</italic>. 2.13.1).</p>
</fn>
<fn id="fn18" fn-type="other">
<label>17</label>
<p>“[...] these letters will be of interest to those students of gay history who still value the quest for ancestors” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref30">Richlin, 2006</xref>, p. 6).</p>
</fn>
<fn id="fn19" fn-type="other">
<label>18</label>
<p>Frontão enviou ao governante o discurso de Cícero <italic>De imperio Cn. Pompei</italic>, em que ele exorta que Pompeu, o Grande, receba a liderança única da Terceira Guerra Mitridática. No contexto da missiva frontoniana, a escolha da obra foi adequada, tendo em vista que, na ocasião, Marco Aurélio deveria decidir se concederia o comando supremo do conflito contra os partas a Vero (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">van den Hout, 1999</xref>, p. 507-8).</p>
</fn>
<fn id="fn20" fn-type="other">
<label>19</label>
<p>“non ita virtutibus ut Ciceronis laudibus Magnus no&lt;mi&gt;ne n&lt;u&gt;n&lt;cu&gt;patus” (Fronto, <italic>Bell. Parth</italic>. 10).</p>
</fn>
<fn id="fn21" fn-type="other">
<label>20</label>
<p>“[...] plus que l’acquisition d’um savoir-faire, celle de ce l’on pourrait appeler un ‘savoir-être’” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref18">Grimal, 1990</xref>, p. 159).</p>
</fn>
<fn id="fn22" fn-type="other">
<label>21</label>
<p>Nesse passo, a lição de Haines (1919) difere: “Nam solitis et usitatis verbis non sum contentus: ita amentius gaudeo quam ut sermone volgato significare laetitiam animi mei possim, tot mihi a te in tarn paucis diebus epistulas scriptas [...]” (<italic>M. Caes</italic>. 3.14.1).</p>
</fn>
<fn id="fn23" fn-type="other">
<label>22</label>
<p>Nessa situação, a expressão grega é utilizada em acepção etimológica (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref22">Martín, 1992</xref>, p. 173, n. 320). A definição dessa figura de retórica é a que Frontão estabelece aqui, de forma que uma palavra que representa um som, como hoje se entende a onomatopeia, correspondia apenas a um tipo seu (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref30">Richlin, 2006</xref>, p. 149).</p>
</fn>
<fn id="fn24" fn-type="other">
<label>23</label>
<p>Frontão refere-se ao mito de Hero e Leandro, em que este, desde Abidos, percorre o Helesponto a nado todas as noites até a amada, sendo guiado por uma tocha que acende a heroína do alto de sua torre (Ov. Her. 19).</p>
</fn>
<fn id="fn25" fn-type="other">
<label>24</label>
<p>Apesar de a narrativa ser abordada, por exemplo, nas <italic>Heroides </italic>(Ov. Her. 19), como apontamos, conforme van den Hout (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref31">1999</xref>, p. 125), a fonte literária específica citada por Frontão nesse caso é desconhecida, podendo ter sido uma tragédia latina do século 2 EC.</p>
</fn>
<fn id="fn26" fn-type="other">
<label>25</label>
<p>
<italic>Marco Cornélio Frontão: primeiro tratado de Retórica especulativa</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref29">2012</xref>), traduzido do francês em <italic>Rhétorique spéculative</italic> (1995), de Pascal Quignard, além das dissertações intituladas <italic>O afecto na relação entre Frontão e Marco Aurélio, de Ana Cristina Pereira</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref26">2014</xref>), e <italic>O encômio paradoxal nas cartas laudatórias de Frontão</italic>, de nossa autoria (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_601782205032_ref10">Dias, 2021</xref>).</p>
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