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Um beijo retórico: tradução e comentário da Carta 3.14 de Frontão a Marco Aurélio1
Fabrizia Nicoli Dias; Charlene Martins Miotti
Fabrizia Nicoli Dias; Charlene Martins Miotti
Um beijo retórico: tradução e comentário da Carta 3.14 de Frontão a Marco Aurélio1
A rhetorical kiss: translation and commentary on Letter 3.14 from Fronto to Marcus Aurelius
Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-18, 2025
Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos
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Resumo: Em seu epistolário, Frontão (séc. II EC) sugere ter expressiva conexão com os integrantes da dinastia antonina, sobretudo Marco Aurélio, de quem foi professor de retórica. Richlin (2006) aponta para o teor predominantemente erótico e físico de tal vínculo, o que Laes (2009), por seu turno, problematiza. Dialogando com esse debate, este texto tem dois objetivos: i) discutir como a afeição é retratada pelo orador, na correspondência, enquanto uma forma de convencer os seus de certa proximidade privilegiada com a casa imperial diante do contexto de disputa aristocrática e ii) apresentar nossa tradução para a epístola 3.14, destinada a Marco Aurélio, uma das cartas em que o autor enfatiza a singularidade de seu vínculo com o aluno. Para isso, recorremos a fontes antigas, como Catulo (Catull. 9), Ovídio (Ov. Her) e Marco Aurélio (M. Aur. Med.), além de estudos contemporâneos sobre a natureza da relação em questão e o cenário de competição entre autocratas no período imperial – e.g. Laes (2009) e Faversani (2024), respectivamente. Destaca-se a complexidade da controvérsia, de modo a evidenciar o caráter político e retórico da amizade dos correspondentes sem necessariamente anular sua dimensão amorosa.

Palavras-chave: carta M Caes. 3.14, Frontão, tradução, retórica clássica, disputa.

Abstract: In his epistolary works, Fronto (2nd century CE) suggests that he had a significant connection with the Antonine dynasty, especially Marcus Aurelius, to whom he taught rhetoric. Richlin (2006) points to the predominantly erotic and physical content of such a bond, which Laes (2009), in turn, puts into question. In dialogue with this debate, this text has two objectives: i) to discuss how affection is portrayed by the orator in the letters as a way of convincing his audience of a certain privileged proximity to the imperial house in the context of aristocratic dispute and ii) to present our translation of epistle 3.14, addressed to Marcus Aurelius, one of the letters in which the author emphasizes the uniqueness of his bond with his student. To this end, we focused on ancient sources such as Catullus (Catull. 9), Ovid (Ov. Her.), and Marcus Aurelius (M. Aur. Med.), as well as contemporary research on the nature of the mentioned relationship and the scenario of competition among autocrats in the imperial period – e.g. Laes (2009) and Faversani (2024) respectively. The complexity of the controversy is emphasized in order to highlight the political and rhetorical nature of the correspondents’ friendship without necessarily canceling its loving dimension.

Keywords: letter M Caes. 3.14, Fronto, translation, classical rhetoric, aristocratic dispute.

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Traduções

Um beijo retórico: tradução e comentário da Carta 3.14 de Frontão a Marco Aurélio1

A rhetorical kiss: translation and commentary on Letter 3.14 from Fronto to Marcus Aurelius

Fabrizia Nicoli Dias
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, Brasil
Charlene Martins Miotti
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, Brasil
Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos, vol. 38, pp. 1-18, 2025
Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos

Recepción: 23 Junio 2025

Aprobación: 06 Noviembre 2025

1. Introdução

Estima-se que o orador Marco Cornélio Frontão tenha vivido entre 95 AEC e 166-168 EC (Fleury, 2003, p. 12-6). Nascido na Numídia, mais especificamente em uma colônia perto de Cirta, foi a Roma ainda jovem, onde estudou eloquência sob orientações do preceptor Dionísio e do filósofo Atenódoto (Fleury, 2003, p. 13). Foi designado por Antonino Pio como professor de retórica latina de Marco Aurélio desde 138 EC e de Lúcio Vero a partir de 143 EC (Martín, 1992, p. 14-5). Com os príncipes, trocou um extenso epistolário, no qual, em meio a instruções sobre os discursos apropriados à sua posição, imiscui-se toda a sorte de expressões de intimidade que, em um primeiro momento, podem surpreender o leitor moderno. Considerando esse cenário, neste artigo, visa-se a discutir como a afeição é retratada por Frontão, em sua correspondência, enquanto uma forma de convencer os seus de certa proximidade privilegiada com a casa imperial diante do contexto de disputa aristocrática. Buscamos, ainda, apresentar nossa tradução para a epístola 3.14, destinada a Marco Aurélio, uma das cartas em que o autor enfatiza a singularidade de seu vínculo com o aluno.

2. Uma afeição retórica

A fim de contemplarmos o primeiro dos objetivos supracitados, ou seja, o debate em torno do afeto no epistolário, serão abordados alguns excertos de outras missivas frontonianas pertinentes à temática. Em carta a Lúcio Vero (Ad Verum 1.7),2 por exemplo, Frontão define diretamente o costume de se beijar (morem saviandi). Na provável data de composição da epístola, Vero já tinha assumido o posto de imperador, isto é, em 161-162 ou 166-167 EC (van den Hout, 1999, p. 275). Conforme Frontão, o próprio era invejado por sua amizade com o governante, o que impeliu o rétor à sugestão de um plano (consilium) que velasse a intimidade dos dois em público (Ad Verum, 1.7.1). Embora o missivista, então, demonstre insatisfação pela omissão do dirigente, não demora a compreender a estratégia de seu interlocutor:

probasti me laudastique consilium, neque tamen triduo amplius vel quadriduo id a te obtinere potuisti, ut mihi verbo saltem responderes; sed ita excogitasti: primum me intromitti in cubiculum iubebas, ita sine cuiusquam invidia osculum dabas, credo ita quom animo tuo reputans, mihi cui curam cultumque tradidisses oris atque orationis tuae, ius tui quoque osculi habendum omnisque eloquentiae magistros sui laboris lege fructum cape<re> satus in vocis aditu locato<m>. morem denique saviandi arbitror honori eloquentiae datum. nam cur os potius salutantes ori admovemus quam oculos oculis aut frontes frontibus aut, quibus plurimum valemus, manus manibus, nisi quod honorem orationi impertimus? (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.7.1).3

Aprovaste-me e elogiaste meu plano e, ainda assim, por mais de três ou quatro dias, não conseguiste cumpri-lo, de modo que me respondesses, ao menos, com uma palavra, mas imaginaste assim: primeiro, pedias que eu fosse admitido no quarto, me davas um beijo sem despertar inveja alguma, pensando contigo mesmo, creio eu, que o privilégio de teu beijo deveria pertencer a mim, a quem confiaste o cuidado e o cultivo de tua boca e de teu discurso, e que todos os professores de eloquência colhem, por direito de seu trabalho, o fruto semeado no portal da voz. Em suma, considero que esse costume de beijar deu-se para honrar a eloquência. De fato, por que, ao nos cumprimentarmos, aproximamos, antes, boca de boca, em vez de olhos de olhos ou testas de testas, ou mãos de mãos, nas quais mais temos vigor, a não ser porque transmitimos uma honra às palavras? (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.7.1)4

Sobressaem, no trecho, a inveja do entorno (invidia), a necessidade, por isso, da admissão em um quarto (cubiculum), ou seja, perante uma audiência privada conforme van den Hout (1999, p. 275) e, ainda, a posição de Frontão como preceptor do governante. Esses elementos destacam a produção de uma proximidade diferenciada daquele com a casa imperial. Segundo Laes (2009, p. 5), não é difícil imaginar o rétor, para demonstrar um poder de representação, exibindo a outras pessoas o seu direito ao privilégio do beijo e reconhecendo-o com gratidão aos membros imperiais.

Neste ponto, talvez o leitor possa se perguntar como um gesto ordinário como o beijo significa muito em termos de afinidade com essa figura central de poder no cenário romano. Vem o orador, de pronto, a esclarecê-lo, através de uma comparação entre as ações do imperador às evidências das práticas adivinhatórias:

sicut in extis inspicienti diffis<s>a plerumque minima et tenuissima maximas prosperitates significant deque formicularum et apicularum ostentis res maximae portenduntur, item vel minimis et levissimis ab uno et vero principe habitis officii et bonae volentiae signis significari arbitror ea quae amplissima inter homines et exoptatissima sunt, amores honoresque (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.7.2).

Assim como, nas entranhas, para quem as inspeciona, muitas vezes, as menores e mais insignificantes partes anunciam os mais importantes sucessos, e, como, nos presságios de formiguinhas e abelhinhas, preveem-se os mais importantes eventos, da mesma forma, nos menores e mais triviais atos de atenção e sinais de benevolência de um único e verdadeiro príncipe, considero anunciar-se aquilo que, entre os homens, há de mais elevado e desejado: amores e honras (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.7.2).

Os arúspices investigavam as entranhas dos animais sacrificados, principalmente as das ovelhas, e, na prática, o objeto de inspeção era o fígado, cujas linhas de suas fissuras (fissa) prenunciavam prosperidades ou adversidades (van den Hout, 1999, p. 276). Na leitura de Champlin (1980, p. 115) acerca da carta, a alta valia de práticas como o beijo poderia ser considerada como simples hipérbole não fosse a especificidade de que um gesto tão pequeno devesse ser escondido a fim de evitar a inveja de outros cortesãos.

A grandiosidade das trivialidades é reafirmada em outra epístola, de Frontão a Marco Aurélio. O rétor inicia sua carta revelando certo alívio por ter pensado que seu aluno estivesse doente, quando, na verdade, tratava-se de Faustina, filha do destinatário (Fronto, Ep. M. Caes. 4.12.1). Após defender-se da ideia pressuposta pela tranquilidade demonstrada, isto é, uma despreocupação com a enfermidade de Faustina e, ainda, desejar melhoras, Frontão afirma ser aquele um momento oportuno para tratar de seu amor para com Marco Aurélio (M. Caes. 4.12.3). O mestre sugere que o sentimento nutrido pelo interlocutor pode ser compreendido tanto por coisas sérias como a partir de experiências triviais, declarando: “[d]e minha parte, o quanto te amo sinto tanto por provas sérias e importantes como também por muitas frivolidades”.5 Mais adiante, o missivista relaciona os argumentos banais indicativos de sua afeição. Ele (Fronto, Ep. M. Caes. 4.12.4-6) elenca um sonho, em que abraça e beija seu pupilo, a defesa do aluno quando este era repreendido por outros e o hábito, cultivado pelo professor, de beijar e acariciar o retrato do imperador exposto publicamente onde quer que fosse (M. Caes. 4.12.4-6). Apesar de Frontão definir essas ações como frívolas, conseguia conquistar o favor da família imperial para interesses variados justamente por ser um amigo próximo dela (Champlin, 1980, p. 116-7).

A alta significação conferida pelo próprio Frontão a ações que seriam, a princípio, menores pode nos levar a pensar na produção, por parte do missivista, de uma afeição retórica na correspondência. Falar, no entanto, nesses termos indica menos que tal afeto não pode ser atestado historicamente e mais que, no epistolário, as demonstrações de intimidade significam algo e existem política e discursivamente, para além de serem verdadeiras ou falsas. O caráter retórico do beijo é atestado se analisarmos, inclusive, a etimologia de savium, um dos termos latinos para designar a prática. A partir de Ernout e Meillet (1951, p. 1053), no verbete savium, sabemos que o termo teria surgido por dissimilação, de suavium (suavis), palavra da linguagem infantil ou amorosa. Com base em suavis, constituiu-se a forma latina secundária suavior (“eu beijo”), sendo a raiz daquela a mesma de suadeo (“aconselhar”, “exortar”, “persuadir”) (Ernout; Meillet, 1951, p. 1164). Além disso, a raiz de suadeo está no termo grego ϝἅδομαι e, ainda, no védico suadate, que significam, ambos, “gostar”, “agradar-se” (Ernout; Meillet, 1951, p. 1164).

O termo savium é utilizado na missiva que traduzimos neste texto, a M. Caes. 3.14, em que o rétor explica-se por sua omissão diante das inúmeras cartas enviadas pelo aluno. Frontão estabelece os afazeres do interlocutor como motivos pelos quais escolheu não o incomodar, entendendo serem diretamente proporcionais o amor de Marco Aurélio para com ele e a necessidade de cuidado com os ofícios ou respeito com as ocupações do príncipe (M. Caes. 3.14.2).6 Em seguida, o professor representa-se como súdito distinto em meio a outros, no que diz respeito ao afeto oferecido ao governante:

quid est mihi osculo tuo suavius! ille mihi suavis odor, ille fructus in tuo collo atque osculo situs est. attamen proxime, cum proficiscerere, cum iam pater tuus vehiculum conscendisset, te salutantium et exosculantium turba diutius moraretur, profuit ut te solus ex omnibus non complecterer nec exoscularer (Fronto, Ep. M. Caes. 3.14.3).

O que é, para mim, mais doce do que um beijo teu? Esse doce perfume, esse prazer está no teu pescoço e no teu beijo. Porém, da última vez, quando partias, quando teu pai já havia entrado na carruagem, e atrasava-te a multidão, que, por muito tempo, te saudava e te cobria de beijos, foi útil que eu, único entre todos, não te abraçasse, nem te cobrisse de beijos (Fronto, Ep. M. Caes. 3.14.3).

Ao mesmo tempo que revela ter acesso a uma significativa intimidade com o imperador a ponto de ter, com ele, uma afeição corporal, o valor do orador é colocado a despeito de uma multidão pouco comedida. Por outro lado, mostra-se necessário olhar com cautela para essa autorrepresentação de Frontão como um não cortesão. Isso é necessário, porque, como pondera Champlin (1980, p. 97), o epistolário evidencia um envolvimento próximo e constante do orador com os assuntos da corte.

Reitera-se a condição de um contato distinto com a corte, dessa vez, no vínculo de Frontão com Lúcio Vero. A epístola Ad Verum 1.12 responde a Ad Verum 1.11, em que o dirigente repreende seu preceptor, haja vista que este, em uma ida ao palácio do governante, não o procurou. O mestre busca explicar-se por sua aparente displicência e afirma que, se o príncipe tivesse o recebido bem em sua visita, ele não se alegraria da mesma forma. Frontão esclarece também que, na referida situação, Vero o requer com tanta violência (quam nunc gaudeo tanto me iurgio desideratum) (Ad Verum, 1.12.1). O rétor prossegue sua argumentação:

[...] tu pro tua persingulari humanitate omnes nostri ordinis viros, ubi praesto adsunt, honorifice adfaris, non omnes magno opere requiris absentes. haec denique seria causa est, in qua malim te mihi graviter irasci quam libenter ignoscere: irasceris enim, quand<o> revera desiderantius desiderasti; a quibus autem aversus fueris, neque <i>ra<s>ceris neque desiderabis, si amare desieris (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.12.1).

[...] tu, em virtude de tua bondade incomparável, recebes, com honra, todos os homens de nossa ordem, quando estão presentes, mas não procuras muito todos eles quando ausentes. Enfim, essa é uma boa razão pela qual prefiro que te zangues comigo do que me perdoes com alegria: na verdade, estás zangado, porque realmente me desejaste com mais intensidade e não te zangas com, nem desejas aqueles de quem te afastaste, se os deixaste de amar (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.12.1).

Não somente é destacado um convívio que o rétor possui com Vero. Sublinha-se essa condição em detrimento de “todos os homens da [...] ordem” deles (omnes nostri ordinis viros). Ainda em um clima de disputa pelo afeto de seu interlocutor, Frontão interpreta o descontentamento do príncipe como um desejo que este teria em relação ao rétor, já que o governante não sente o mesmo por aqueles de quem se afastara (Ad Verum, 1.12.1). Mais adiante, recupera-se novamente a conjuntura social a partir da qual Frontão mostra-se em vantagem no que se refere ao seu contato com a casa imperial:

enimvero cum tu tuusque frater in tantis opibus locati, tanta multitudine omnium generum omniumque ordinum, in quos amorem vestrum dispergitis, circumfusi, mihi quoque partem amoris vestri nonnullam <i>mpertiatis, quid me facere oportet, cuius spes opesque <o>mnes <in v>obis sunt s<olis> sitae? (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.12.2)

De fato, já que tu e teu irmão, colocados em tão alta posição, cercados por uma multidão tão grande de homens de todas as condições e todas as ordens, aos quais destinais vosso amor, já que também me concedeis uma parte importante de vosso amor, o que devo fazer eu, cujas esperanças e riquezas todas depositam-se somente em vós? (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.12.2)

Novamente, o rétor não se restringe a dizer que Lúcio Vero e Marco Aurélio lhe dirigem parte de seu amor. Antes, o orador afirma que os príncipes o fazem em uma esfera em que estes têm muito poder (in tantis opibus locati) e são demandados por muitos homens de grupos variados (tanta multitudine omnium generum omniumque ordinum). Essa missiva (Ad Verum 1.12) integra os frequentes pedidos de desculpas na correspondência, os quais, por sua vez, apontam, em conjunto, para a existência de um dever social (Champlin, 1980, p. 97) ligado a Frontão na corte antonina.

Em carta de recomendação a Vero, mais uma vez, o entorno social é utilizado como maneira de atribuição de honra. A missiva é sobre Lúcio Gávio Claro, um jovem senador de Ataleia, na Panfília (Martín, 1992, p. 312, n. 597), que se estima ter sido, ainda, por volta de seus trinta anos, um contubernalis de Frontão (van den Hout, 1999, p. 271). Isso significa que ele viveu na casa do mestre no Esquilino, a qual era um tipo de pensionato destinado aos jovens de grupos sociais privilegiados, que, por seu turno, recebiam uma educação superior nas letras, história e política (van den Hout, 1999, p. 404). Há, na epístola, um esforço para demonstrar o teor familiar do vínculo que o orador possui com o homem (Ad Verum, 1.6) e algumas de suas virtudes são realçadas:

simplicitas, castitas, veritas, fides Romana plane, φιλοστοργία vero nescio an Romana: quippe qui nihil minus in tota mea vita Romae repperi quam hominem sincere φιλόστοργον; ut putem, quia reapse nemo sit Romae φιλόστοργος, ne nomen quidem huic virtuti esse Romanum (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.6.7).

Sua simplicidade, integridade, honestidade e fidelidade são claramente romanas, sua φιλοστοργία, por outro lado, não sei se é romana: aliás, o que menos vi, em Roma, em toda a minha vida, foi um homem sinceramente φιλόστοργον, a ponto de eu pensar que, como não há ninguém em Roma verdadeiramente φιλόστοργος, nem há uma palavra romana para essa virtude (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.6.7).

A palavra grega filostorgía combina os sentidos vinculados aos verbos fileîn (“amar com amizade”) e stérgein (“amar ternamente”), que, por sua vez, é usado para designar o amor terno que nutrem os pais pelos filhos (Aubert, 2011, p. 1). Além disso, é um termo cujas acepções oscilam entre duas principais: o amor que une os membros de uma mesma família e a afeição vívida no geral (Aubert, 2011, p. 1-2). No excerto frontoniano, a ausência da virtude grega no contexto romano é apontada como forma de produzir a honra do recomendado: Gávio Claro não só é dotado de um amor terno, mas o é diante de um cenário em que “não há ninguém [...] verdadeiramente φιλόστοργος”.

No primeiro livro de suas Meditações, Marco Aurélio elenca, desde os familiares, passando pelos mestres até chegar aos deuses, todos aqueles com quem aprendera. Quando menciona Frontão, o governante afirma que, dele, herdou a observação da inveja, da falsidade e da hipocrisia dos tiranos e de serem os chamados patrícios (εὐπατρίδαι) desprovidos de “afetividade natural” (ἀστοργότεροί) (M. Aur. Med. 1.11, tradução de Aldo Dinucci, 2023, p. 35). Essa crítica à esfera aristocrática – presente nos excertos frontonianos e no texto aureliano – é comum, quando levamos em conta a produção de uma sensação geral de desonra durante o Principado romano. Nesse período, recrudesce um aspecto da autorrepresentação dos homens como não expostos à decadência (Faversani, 2024, p. 255). Em uma conjuntura em que se produz a percepção de que as pessoas honrosas não mais existem, é natural e esperada a preponderância da estratégia de vituperar a imagem dos adversários para aspirar-se à autopromoção (Faversani, 2024, p. 255-6).

Frontão parece munir-se dessa tática também em Ad Verum, 2, quando celebra o retorno de Lúcio Vero das campanhas asiáticas e posiciona a retórica como causa do triunfo (“utilizaste a eloquência como mestre para os assuntos militares”) (Fronto, Ep. Ad Verum, 2.18).7 O missivista evidencia que o exército colocado à disposição de Vero estava “corrompido pela luxúria, libertinagem e muita ociosidade” (luxuria et lascivia et otio diutino corruptus), e os homens estavam mais bem vestidos que armados, poucos conseguiam saltar sobre os cavalos e arremessar as lanças de modo adequado, não realizavam vigílias e bebiam (Fronto, Ep. Ad Verum, 19).8 À medida que vitupera os soldados, o remetente parece, proporcionalmente, enaltecer o líder. O caráter persuasivo dessa censura é afirmado quando se leva em conta que a invectiva era um elemento importante para o êxito de um orador em acusações ou defesas judiciais, bem como em conflitos políticos no senado ou na assembleia popular (Arena, 2007, p. 150).

O processo de produção da desonra pressupõe certa manipulação do poder imperial para benefício próprio e/ou de outrem. Após sustentar que, nas práticas mais comuns de atenção e nos sinais de benevolência de um imperador, residem coisas mais elevadas, como o amor e a honra, Frontão (Ep. Ad Verum, 1.7.2) evidencia utilizar seu remetente, Lúcio Vero, como intermediador de seus pedidos a Marco Aurélio. O orador anuncia: “Então, seja lá o que deve ser pedido para mim por meu senhor, teu irmão, preferi que tudo fosse pedido e obtido através de ti” (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.7.2).9 De fato, no Principado romano, o imperador, muitas vezes, configurou-se como um instrumento nas dissidências entre setores adversários (Faversani, 2024, p. 264). Há, de forma predominante, uma disputa entre distintos grupos para acessar o poder ligado ao princeps, controlá-lo e usá-lo em benefício próprio ou, ainda, para impedir que ele seja usado contra eles mesmos ou seus grupos (Faversani, 2024, p. 265).

Essa tentativa de representação de uma conjuntura aristocrática viciosa é feita paralelamente ao esforço da produção do caráter genuíno e verdadeiro dos laços que, segundo Frontão, o rétor manteria com a casa imperial. O autor não elabora simplesmente uma proximidade com Marco Aurélio, mas, antes, uma afinidade familiar. Em M. Caes. 4.12, por exemplo, o preceptor destaca que ele próprio criticou, em algumas ocasiões, o aluno perante um grupo pequeno de pessoas próximas. No entanto, fosse o caso de outro atacar o príncipe em sua frente, o professor não poderia ouvi-lo mantendo a calma, “assim como seria mais fácil que [ele] mesmo batesse na [...] filha Crátia a ver que outro batesse nela” (Fronto, Ep. M. Caes. 4.12.5).10

O vínculo paternal está também, na visão frontoniana, na ligação preceptor- discípulo. O mestre revela estar orgulhoso de Marco Aurélio sobretudo por sua eloquência, como se ele ainda fosse seu professor (Fronto, Ep. Antonin. 1.2.2). Além de ser notável, justo, irrepreensível, bem recebido e aceito pelo povo romano, o imperador é, para Frontão, apegado ao mestre como este queria e tão eloquente conforme o desejo do príncipe (Antonin. 1.2.2). O rétor observa o avanço de seu aluno na eloquência e confessa que estima e aprecia todas as virtudes do governante (Fronto, Ep. Antonin. 1.2.2). Apesar disso, o preceptor diz obter uma alegria maior e específica a partir da eloquência do pupilo (Fronto, Ep. Antonin. 1.2.2). Comparando esse contentamento com o orgulho paterno, afirma: “Como acontece com os pais, quando, no rosto dos filhos, discernem os traços de sua própria face, assim ocorre comigo quando, nos vossos discursos, observo as marcas da minha escola”.11 Nesse sentido, Frontão sugere amar Marco Aurélio da maneira que integrantes de uma mesma família podem amar uns aos outros (Grimal, 1990, p. 154).

A dimensão terna do laço entre Frontão e seus pupilos imperiais pode ser endossada, se pensarmos na concepção da prática do beijo veiculada por alguns autores antigos. Por meio de Catulo, por exemplo, testemunhamos o beijo entre amigos. O eu poético alegra-se pelo retorno de Verânio da Ibéria (Catull. 9. 1-2)12 e assinala que, aproximando-se do amigo, beijará os seus lábios e olhos (“[...] chegando a ti meu rosto,/ teus lábios belos vou beijar e os olhos”) (Catull. 9. 8-9, tradução de João Angelo Oliva Neto, 1996, p. 74).13Acerca dessa composição especificamente (Catull. 9), Achcar (1994, p. 28-9) lista os tópoi que colaboram para sua definição como um prosphonetikón, isto é, um poema de boas-vindas. Dentre eles, o pesquisador (Achcar, 1994, p. 29) identifica as demonstrações afetivas mediante beijos, abraços e lágrimas como um dos lugares-comuns distintivos do mencionado genus, evidenciando, ainda, suas incidências na poesia latina.

Na discussão sobre as razões pelas quais as mulheres saúdam seus parentes com os lábios, Plutarco (Quaest. Rom. 6) aventa, como uma das hipóteses, que, sendo ilegal o casamento entre familiares à sua época, o beijo era mantido apenas como sinal de parentesco (σύμβολον καὶ κοινώνημα τῆς συγγενείας). Considerando o cenário imperial latino, na epístola de Fedra a Hipólito, das Heroides ovidianas, por exemplo, a remetente, que deseja desposar o enteado Hipólito, sugere que este poderá continuar a beijá-la como fazia antes, já que eles eram familiares e, por isso, seria natural que se beijassem abertamente (“beijavas-me; beijar-me-ás às claras”) (Ov. Her. 4.137-46, tradução de João Victor Leite Melo, 2024, p. 191).14

A Consolação a Lívia, obra ovidiana espúria, reitera o beijo nos lábios entre membros de uma família. Na composição, o poeta procura confortar sua interlocutora pela morte do filho Druso Nero. Pela voz poética, Lívia, ao imaginar o retorno vitorioso de Druso da guerra, prevê que, durante o cortejo triunfal, beijará seu pescoço, boca e olhos em público (v. 31-6) (collaque et osque oculosque illius ore premam). Sublinhando, nesse caso, que fará o gesto publicamente (iam me turba videbit), a prática parece funcionar retoricamente, no sentido de que revela a proximidade dos dois.15

Essa ênfase ao parentesco, quando tratamos de expressões de afeto, ressoa na correspondência frontoniana. Esse aspecto aparece não só quando o missivista destaca a dimensão familiar de sua amizade com Aurélio, mas também nas ocasiões em que evidencia a relação entre os membros de sua família e os do princeps. Em M. Caes. 2.13, observamos Frontão comunicar ter enviado sua esposa Crátia a Nápoles para celebrar o aniversário de Domícia Lucila, mãe de Marco. O rétor assegura que Crátia não come muito e que ela viveria contente, mesmo somente com os beijos de Domícia (Fronto, Ep. M. Caes. 2.13).16 O próprio Frontão envia cartas em grego à mãe de seu aluno (cf. M. Caes. 2.3; M. Caes. 2.15). Como depreende Grimal (1990, p. 153), Frontão realmente constituía, de algum modo, a família de Marco Aurélio.

Diante dos excertos do epistolário referenciados e a visão do beijo em outros autores antigos, para ler a afeição frontoniana com seus pupilos, é preciso considerar que a prática de se beijar é, em grande medida, situada culturalmente (Laes, 2009, p. 4). Sob a percepção de Laes (2009), Richlin (2006) defendeu, com base no epistolário frontoniano, que a relação entre Marco Aurélio e Frontão era sobretudo de teor sexual e erótico. De fato, apesar de a autora (Richlin, 2006, p. 6) anunciar, no comentário introdutório à tradução inglesa, que não é sua expectativa que os leitores fiquem convencidos de serem os correspondentes amantes, Richlin (2006, p. 6), logo em seguida, afirma, por exemplo, esperar também que as epístolas “sejam de interesse para os estudantes de história gay que ainda valorizam a busca por ancestrais”.17

Por outro lado, urge lembrar que é inadequado, em termos metodológicos, transferir nossos hábitos e noções para outras civilizações ou períodos (Laes, 2009, p. 4). Na vida cotidiana, os romanos de um mesmo grupo social de prestígio beijavam-se quando se cumprimentavam (Laes, 2009, p. 4). Dessa forma, mostra-se inapropriado reduzir a demonstração de intimidade entre o rétor e seus pupilos a uma mera expressão de sentimentos eróticos genuínos, se, com esta visão, for ignorado o quadro político e discursivo de disputa entre os setores da aristocracia.

Na verdade, não se pretende, aqui, descartar a possibilidade de ter havido um contato amoroso entre os correspondentes (cf. Laes, 2009, p. 6). Ao mesmo tempo, não desejamos restringi-lo a uma demonstração sincera de ternura a um amado que não seja construída política e retoricamente. Uma coisa é sublinhar esse aspecto simbólico e sociocultural da relação; outra é, com isso, isentar de qualquer amor a conexão entre os interlocutores.

Parece residir, pois, nas manifestações frontonianas de ternura, uma dimensão vinculada ao esforço, por parte do rétor, de persuadir os seus do laço estreito com a família imperial e, por isso, convencê-los de seu poder político, a despeito de um cenário aristocrático supostamente vicioso. Se, portanto, há a produção generalizada de desonra no Principado – em outras palavras, se todo mundo é corrompido –, as construções retóricas que compõem o retrato das figuras históricas assumem grande importância. Frontão sabe disso e veicula tal concepção claramente em algumas de suas cartas. Continuando sua apologia da soberania retórica nos triunfos militares, o mestre alerta Lúcio Vero:

alii quoque duces ante vos Armeniam subegerunt, sed una mehercules tua epistula, una tui fratris de te tuisque virtutibus oratio nobilior ad gloriam et ad posteros celebratior erit quam pleri que principum triumphi

Outros líderes antes de ti subjugaram a Armênia, mas, por Hércules, uma única carta tua, um único discurso de teu irmão sobre ti e tuas virtudes será, quanto à fama, mais enobrecedor e, quanto à posteridade, mais célebre do que muitos triunfos de príncipes (Fronto, Ad Verum, 2.9).

O preceptor revela estar consciente da interferência da arte retórica na imagem do dirigente. Ao mesmo tempo, também concebe que a construção discursiva sobre os governantes pode reverberar até mais que os feitos deles em si, nesse caso, as conquistas bélicas. Decerto, não existe, para Frontão, uma verdade sem discurso (Collin, 2011, p. 3).

Em outra epístola (Fronto, Ep. Bell. Parth.), Frontão solicita que Marco Aurélio volte sua atenção para um discurso de Cícero sobre Pompeu (Fronto, Ep. Bell. Parth. 9-10).18 Com isso, o orador, ao discorrer sobre a guerra parta a Marco Aurélio, aponta novamente para a necessidade de um líder dedicar-se às letras. De acordo com o professor, nunca ninguém foi louvado mais profundamente em uma assembleia pública como Pompeu na composição ciceroniana, de forma que ele “foi aclamado com o apelido de ‘o Grande’, não tanto por suas virtudes como pelo louvor de Cícero” (Fronto, Ep. Bell. Parth. 10).19 Com efeito, Frontão garantiu que a aprendizagem da retórica fosse, para os alunos, “mais do que a aquisição de um saber-fazer, aquilo que poderíamos chamar de ‘saber-ser’” (Grimal, 1990, p. 159).20

Em sua tese sobre as transformações da imagem de Nero na tradição literária, Coelho (2021, p. 348-349) defende que os conflitos, colocados em cada nova conjuntura, levam a diferentes seleções no repertório disponível por meio da inventio dos autores na Antiguidade. Através da escolha desses elementos, realizam-se representações que podem misturar camadas de diversas temporalidades (Coelho, 2021, p. 349). Apesar de Coelho (2021) tratar da imagem de Nero, seu argumento principal contempla os referidos excertos do epistolário. Para Frontão, a seleção do discurso do irmão sobre Vero pode compor, na posteridade, o próprio retrato de Vero, e o recorte da composição laudatória de Cícero em torno de Pompeu interferiu na construção da imagem deste.

Sob a ótica da leitura que aqui se propõe sobre a proximidade entre Frontão e a corte antonina, apresentamos, a seguir, nossa proposta tradutória para a M. Caes. 3.14, destinada a Marco Aurélio. Estima-se que a referida carta tenha sido escrita entre 146-147 EC (van den Hout, 1999, p. 122). Nela, Frontão explica o seu silêncio perante as missivas do amigo, situando, nas ocupações dele, a principal causa de sua omissão. Nesse momento, embora Aurélio não fosse ainda imperador, já participava da administração da corte (van den Hout, 1999, p. 122). Essa é uma evidência, porque, aos 18 anos, em 140, tornou-se cônsul pela primeira vez e, desde então, assumiu parte das atividades do Império (van den Hout, 1999, p. 122). A tradução da missiva 3.14 deu-se a partir do texto latino fonte, com consideração, ainda, das versões em inglês (Haines, 1919; Richlin, 2006), espanhol (Martín, 1992), francês (Fleury, 2003) e português (Pereira, 2014), que, por seu turno, é a única em nossa língua até então.

3. Texto latino e tradução

O missivista inicia a referida epístola com a definição de um recurso poético, a cunhagem de novas palavras. Com essa contextualização, ele introduz uma justificativa para o seu aparente descuido no que diz respeito à amizade com Marco Aurélio. Vejamos:




4. Considerações finais

Mediante este texto, buscamos colaborar na ampliação tanto da fortuna crítica sobre Frontão em língua portuguesa como das traduções do epistolário para o nosso idioma, tendo em vista que os textos teóricos em português pertinentes ao tema hoje se restringem apenas a três títulos.25 No que diz respeito às transposições do epistolário, existem não mais que versões de algumas missivas frontonianas em Pereira (2014) e Dias (2021).

Na missiva traduzida e na correspondência como um todo, Frontão usa de uma tática geral de autorrepresentação como indivíduo próximo da casa imperial. O rétor esforça-se por demonstrar que possui um acesso diferenciado ao convívio dos príncipes. Parte desse processo parece consistir na tática de sublinhar, em seu entorno, a inveja (Ad Verum 1.7), a desmedida (M. Caes. 3.14) e mesmo a falha no que tange a uma suposta verdadeira afeição (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.12.1; Ad Verum, 1.6; M. Aur. Med. 1.11). Avultando a desonra do cenário aristocrático à sua época, o preceptor acentua o teor familiar e, por isso, privilegiado de sua relação com o centro do poder (M. Caes. 4.12.5; Antonin. 1.2.2; M. Caes. 2.13).

Para além de refletirem uma verdade histórica, fato é que a desonra dos aristocratas coetâneos ao orador e a consequente honra frontoniana são elaborações discursivas, e Frontão sabe bem que elas têm influência sobre a imagem política dos homens (Ad Verum, 2; Bell. Parth. 10). Essa produção da desonra do outro como maneira de elevação de si é uma prática frequente no Principado romano. Através da vituperação da conjuntura social, Frontão pode alçar a sua própria imagem à condição de figura relevante no seu tempo. Em outros termos, podemos falar em uma produção de desonra alheia para a elaboração de honra própria (cf. Faversani, 2024).

Ademais, quando lemos as manifestações de afeto presentes na epistolografia à luz da concepção veiculada nos autores antigos sobre o beijo especificamente (Catull. 9. 8-9; Plut. Quaest. Rom. 6; Ov. Consolatio ad Liviam 31-6; Her. 4.137-46), depreendemos que, nas reiteradas manifestações de afeto aos príncipes, também se pode ver uma forma encontrada por Frontão de persuadir sobre sua importância. O aspecto familiar do vínculo entre o rétor e os herdeiros antoninos é destacado (Fronto, Ep. M. Caes. 4.12.5), inclusive, no seio da relação professoral (Fronto, Ep. Antonin. 1.2.2) e no âmbito do contato entre membros das duas famílias (M. Caes. 2.13; M. Caes. 2.3; M. Caes. 2.15).

Esse agenciamento frontoniano da promoção de si a despeito da aristocracia contemporânea ao mestre remonta à etimologia do termo suavium, cuja acepção, vinculada a suadeo, reverbera, no epistolário, em termos de beijos retóricos. Eles buscam convencer sobre o que teria sido, conforme o autor, um convívio verdadeiro e genuíno com os antoninos. Nesse sentido, atentamos, nestas linhas, para a dimensão discursiva e social da relação de Frontão com os príncipes. Afinal, não se pode ver apenas sinceridade e transparência naquilo que, em algum grau, é política e retórica.

Material suplementario
Información adicional

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Notas
Notas
1 Registramos, de antemão, nossos agradecimentos aos pareceristas anônimos pelas ótimas contribuições para a elaboração da versão final deste artigo.
2 As abreviações das fontes antigas utilizadas neste texto correspondem às relacionadas no Oxford Classical Dictionary (OCD) e aquelas das cartas frontonianas em específico referem-se às presentes na edição crítica de van den Hout (1988, p. 292-4).
3 Para as citações do texto fonte de Frontão, recorremos à edição de van den Hout (1988).
4 Salvo indicação contrária, todas as traduções das cartas frontonianas e das pesquisas contemporâneas presentes neste artigo são de nossa autoria.
5 “ego quanto opere te diligam, non minus de gravibus et seriis experimentis quam plerisque etiam frivolis sentio” (Fronto, Ep. M.Caes. 4.12.3).
6 “porque, quanto mais me amas, mais convém que eu seja cuidadoso com teus trabalhos e respeitoso com tuas ocupações” (“nam quo mei amantior es, tanto me laborum tuorum parciorem et occupationum tuarum modestiorem esse oportet”) (Fronto, Ep. M. Caes, 3.14.2).
7 “[...] ad rem militarem magistra eloquentia usus es” (Fronto, Ep. Ad Verum, 2.18).
8 O destaque à depravação do exército para a elevação do general também é um argumento utilizado na declamação O soldado de Mário (Miles Marianus), erroneamente atribuída a Quintiliano. Nela, dirigindo-se ao general Gaio Mário, o autor anônimo defende um soldado que matou um tribuno, o qual, por sua vez, tentou estuprar aquele. No texto, se, por um lado, o exército é depreciado, por outro, Mário, com suas virtudes, é eleito como homem que possui a condição de defender os romanos (Ps. Quint. 3.5). Agradecemos a Anna Clara Figueiredo Lima e a Profa. Dra. Charlene Martins Miotti, que gentilmente nos cederam sua tradução da referida composição para o português.
9 “igitur quaecumque <mihi> a domino meo tuo fratre petenda fuerunt, per te petita atque impetrata omnia malui” (Fronto, Ep. Ad Verum, 1.7.2).
10 “ita ut Cratiam meam filiam facilius ipse percusserim quam ab alio percuti viderim” (Fronto, Ep. M. Caes. 4.12.5).
11 “itidem ut parentes, cum in voltu liberum oris sui lineamenta dinoscunt, ita ego cum in orationibus vestris vestigia nostrae sectae animadverto [...]” (Fronto, Ep. Anton. 1.2.2).
12 “Verânio, dos amigos o primeiro,/ de todos os trezentos mil que tenho” (“ominibus e meis amicis/ antistans mihi milibus trecentis”) (Catull. 9. 1-2, tradução de João Angelo Oliva Neto, 1996, p. 74).
13 “[...] applicansque collum/ iocundum os oculosque suaviabor” (Catull. 9.8-9).
14 “Nem temos que esconder nosso amor como a Deusa; /o nome de parente encobre a culpa. /Se nos virem abraçados, seremos louvados; /dirão que sou bondosa ao enteado/ Não terás que iludir um marido severo, /tampouco subornar nenhum dos guardas; /já estamos e estaremos sob o mesmo teto; /beijavas-me; beijar-me-ás às claras;/ comigo estás seguro e serás dito probo, /ainda que te vejam no meu quarto.” (Ov. Her. 4.137-46, tradução de João Victor Leite Melo, 2024, p. 191). (“Nec labor est celare, licet peccemus, ut illa; /Cognato poterit nomine culpa tegi. /Viderit amplexos aliquis, laudabimur ambo, /Dicar priuigno fida nouerca meo. /Non tibi per tenebras duri reseranda mariti /Ianua, non custos decipiendus erit; /[Vt tenuit domus una duos, domus una tenebit; /Oscula aperta dabas, oscula aperta dabis;] /Tutus eris mecum laudemque merebere culpa, /Tu licet in lecto conspiciare meo”).
15 Vale recordar, ainda, do célebre beijo de Judas, utilizado para a captura de Cristo. O episódio é relatado pelos evangelistas Mateus (26.47–50), Marcos (14.43–6) e Lucas (22.47–8). Em termos pictóricos, reportemo-nos a Giotto di Bondone, que, em seu afresco (c. 1304-1306), situado na Capela Scrovegni, em Pádua, na Itália, representou o beijo de traição nos lábios de Jesus.
16 “Ela até viveria feliz apenas com os beijos de tua mãe” (“vel osculis solis matris tuae contenta vixerit”) (Fronto, Ep. M. Caes. 2.13.1).
17 “[...] these letters will be of interest to those students of gay history who still value the quest for ancestors” (Richlin, 2006, p. 6).
18 Frontão enviou ao governante o discurso de Cícero De imperio Cn. Pompei, em que ele exorta que Pompeu, o Grande, receba a liderança única da Terceira Guerra Mitridática. No contexto da missiva frontoniana, a escolha da obra foi adequada, tendo em vista que, na ocasião, Marco Aurélio deveria decidir se concederia o comando supremo do conflito contra os partas a Vero (van den Hout, 1999, p. 507-8).
19 “non ita virtutibus ut Ciceronis laudibus Magnus no<mi>ne n<u>n<cu>patus” (Fronto, Bell. Parth. 10).
20 “[...] plus que l’acquisition d’um savoir-faire, celle de ce l’on pourrait appeler un ‘savoir-être’” (Grimal, 1990, p. 159).
21 Nesse passo, a lição de Haines (1919) difere: “Nam solitis et usitatis verbis non sum contentus: ita amentius gaudeo quam ut sermone volgato significare laetitiam animi mei possim, tot mihi a te in tarn paucis diebus epistulas scriptas [...]” (M. Caes. 3.14.1).
22 Nessa situação, a expressão grega é utilizada em acepção etimológica (Martín, 1992, p. 173, n. 320). A definição dessa figura de retórica é a que Frontão estabelece aqui, de forma que uma palavra que representa um som, como hoje se entende a onomatopeia, correspondia apenas a um tipo seu (Richlin, 2006, p. 149).
23 Frontão refere-se ao mito de Hero e Leandro, em que este, desde Abidos, percorre o Helesponto a nado todas as noites até a amada, sendo guiado por uma tocha que acende a heroína do alto de sua torre (Ov. Her. 19).
24 Apesar de a narrativa ser abordada, por exemplo, nas Heroides (Ov. Her. 19), como apontamos, conforme van den Hout (1999, p. 125), a fonte literária específica citada por Frontão nesse caso é desconhecida, podendo ter sido uma tragédia latina do século 2 EC.
25 Marco Cornélio Frontão: primeiro tratado de Retórica especulativa (2012), traduzido do francês em Rhétorique spéculative (1995), de Pascal Quignard, além das dissertações intituladas O afecto na relação entre Frontão e Marco Aurélio, de Ana Cristina Pereira (2014), e O encômio paradoxal nas cartas laudatórias de Frontão, de nossa autoria (Dias, 2021).



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