Editorial
Apresentação
Apresentação
Significação – Revista de Cultura Audiovisual, vol. 47, núm. 53, 2020
Escola de Comunicações e Artes-ECA, Universidade de São Paulo-USP
A quinquagésima terceira edição de Significação: revista de cultura audiovisual está estruturada em três seções: “Dossiê”, organizada por Carla Maia, Patricia Furtado Mendes Machado e Reinaldo Cardenuto Filho, dedicado a pensar o cinema brasileiro contemporâneo; “Artigos”, com publicações centradas na discussão do cinema e da televisão; e “Resenhas”. A seguir, convidamos os leitores a percorrer a apresentação de suas seções.
Dossiê “Cinema brasileiro contemporâneo: política, estética, invenção”5
Os primeiros passos para a organização do dossiê “Cinema brasileiro contemporâneo: política, estética, invenção” começaram a ser dados em janeiro de 2018, durante a realização da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Àquela altura, sob impacto da ocupação antidemocrática do poder pela direita, inúmeros filmes exibidos no festival de Tiradentes emergiam como atos de resistência e de leitura crítica às (de)formações autoritárias da sociedade brasileira. Renovando um dos compromissos que se encontra na essência do campo artístico, a contestação múltipla às injustiças sociais, curtas e longas-metragens como Calma, de Rafael Simões, Lembro mais dos corvos, de Gustavo Vinagre, e Baixo centro, de Ewerton Belico e Samuel Marotta, implodiam estéticas convencionais em meio à rebeldia contra as estruturas conservadoras de poder e de existência. Diante da rápida resposta oferecida pelo cinema às agruras do tempo presente, às violências de classe, de identidade e de gênero que povoam o cotidiano opressivo do país, nasceria o desejo de construir um espaço de debate no qual fosse possível mapear forças de resistência política existentes na produção fílmica contemporânea.
O resultado de tal estímulo, desencadeado pela rebeldia presente nas telas, foi a organização de um Seminário Temático que ocorreu, entre 2018 e 2019, em dois congressos da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine). Sob um contexto ainda mais autoritário, de corrosão acentuada da democracia brasileira em decorrência da ascensão de um projeto político de extrema-direita, as duas edições do ST reuniram mais de trinta participantes, de mestrandos a doutores, cujas pesquisas voltavam-se para o estudo de filmes brasileiros atravessados por dimensões estéticas plurais de contestação. Ainda que houvesse um clima de colapso no ar, com o encontro de 2018 coincidindo com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência, o saldo foi animador do ponto de vista intelectual e afetivo. Para além do levantamento de novas pesquisas, indício de um crescente interesse do meio acadêmico pelo cinema brasileiro contemporâneo, o Seminário Temático acabou se convertendo em um importante espaço de acolhimento para aqueles que acompanhavam, com espanto redobrado, o avanço do conservadorismo no país. Um trânsito constante entre trabalho acadêmico e realidade social, entre debate intelectual e vida, foi o ponto central para quem esteve envolvido com os encontros: estudar a cinematografia do tempo presente, sobretudo aquela de contestação, implica lidar, numa tensão permanente, com o próprio estar no mundo, com a condição autoritária que nos cerca diariamente. O dossiê “Cinema brasileiro contemporâneo: política, estética, invenção”, passo seguinte à realização do ST, nasce dos diversos atravessamentos aqui apontados: das telas incendiárias do cinema atual, dos desejos de mapear pesquisas, dos afetos necessários para manter a cabeça erguida em tempos sombrios.
Os textos que compõem este dossiê, cuja primeira parte está sendo publicada no atual número da Significação, resultam das discussões realizadas no ST e de uma chamada pública promovida pela revista6. O que se revela como traço comum dos artigos é a pluralidade de perspectivas metodológicas e abordagens conceituais e analíticas de um cinema inovador e diversificado. A maioria dos filmes analisados neste primeiro volume do dossiê toca em feridas históricas quando confrontam os discursos hegemônicos e tornam visíveis as lutas de índios, negros, mulheres, LGBTQ e moradores de periferia. O passado comparece para ser reconhecido, suas táticas identificadas e a memória reelaborada. As novas narrativas revelam um presente carregado de tensões, disputas e insurgências contra a violência, a opressão e o autoritarismo. As minorias ganham protagonismo em frente e atrás das câmeras e pautam debates que mobilizam os festivais, a academia e a sociedade. Os filmes chamam a atenção para os corpos que performam, se deslocam, movimentam, resistem e anunciam que a violência sofrida não será mais tolerada, que novos espaços serão ocupados. É assim que novas trajetórias são traçadas transformando com elas a própria configuração do cinema brasileiro.
É sobre corpos que retomam a história da diáspora negra no presente da ação performática que o artigo de abertura do dossiê vai se debruçar. Em “Encruzilhadas, andarilhos, aprendizes: sobre três filmes-performances”, André Brasil pensa o corpo performance como o lugar de uma dialética tensa entre a escravização e a resistência nos filmes Ungüento, de Dalton Paula, Árvore do esquecimento, de Paulo Nazareth e Noirblue, de Ana Pi. O capitalismo e a colonização são compreendidos como um “sistema feiticeiro sem feiticeiros” e, cada qual à sua maneira, os três trabalhos são vistos como operações de contrafeitiçaria. As performances presentes nas imagens e sons convocam saberes - gestos, práticas, protocolos - que se ligam a ritos ancestrais. A ancestralidade, convocada pelos filmes, é pensada como ato de poder e cura.
No artigo “Riscos visíveis e invisíveis em um cinema brasileiro de levantes”, de Ana Caroline de Almeida, o cinema é convocado como força de insurgência. O gesto da pesquisadora é reunir sequências de filmes brasileiros recentes a partir de uma semelhança identificada nas imagens: a insubordinação silenciosa do olhar. O desconforto provocado pelo capitalismo, pelo crescimento desordenado das cidades, pela exclusão e pelo abandono são percebidos em determinadas imagens a partir de um olhar atento e inconformado. Inspirada no método do historiador da arte Aby Warburg, a autora reúne, em uma prancha, essas imagens que seriam atraídas para o mesmo campo magnético, acionando, na exibição simultânea dos filmes, a energia de um levante.
Como os dois textos anteriores, que evidenciam insubordinações e práticas criativas comuns no cinema brasileiro contemporâneo, Mariana Souto também parte de um conjunto de curtas e longas-metragens para investigar uma tendência existente no campo do documentário recente, aquela na qual o trabalho doméstico, tornando-se interesse do cineasta, desloca-se para o centro do processo fílmico. Concentrando-se no estudo de três filmes - Santiago, de João Moreira Salles, Babás, de Consuelo Lins, e Doméstica, de Gabriel Mascaro -, o artigo “Relações de poder em casa e em cena: questões de classe em documentários brasileiros contemporâneos” busca desnudar criticamente um denominador comum existente em produção tão variada. Sem esquecer as especificidades formais das obras, oferecendo espaço de reflexão para cada uma, Souto analisa uma profunda contradição política que as percorre: ainda que defendam uma compensação histórica referente à invisibilidade social sofrida por empregadas e empregados domésticos, em tais documentários, realizados por patrões, permanecem instâncias de dominação referentes às distâncias entre classes sociais.
Diferentemente dos artigos até aqui comentados, que desdobram questões presentes em um conjunto de filmes contemporâneos, o texto de Luís Flores concentra-se no estudo de um único longa-metragem: Arábia, realizado por Affonso Uchoa e João Dumans. Ainda que atente para os diálogos que tal obra estabelece com a herança moderna da cinematografia brasileira, sobretudo o movimento do Cinema Novo, o artigo “Mil e uma noites na cidade industrial: o realismo em Arábia” desvia-se das reflexões comumente realizadas em torno do filme para pensar seus possíveis vínculos com outras tradições intelectuais e cinematográficas na chave realista. Com uma disposição analítica para além do senso comum, assumindo os riscos do deslocamento, Luís Flores tece uma rede de relações, uma constelação possível, entre o longa-metragem de Uchoa e Dumans, Andre Bazin e cineastas diversos como John Ford e John Huston.
Dando sequência ao gesto de confrontar as imagens do cinema brasileiro contemporâneo ao vasto extracampo que as ronda - a ancestralidade (Brasil), o levante (Almeida), o abismo social (Souto) ou mesmo o próprio referencial inventivo do cinema com seu potencial de renovação (Flores) - o texto de Marcelo Rodrigues Souza Ribeiro, “Cosmopoéticas do espectador selvagem” evoca a figura do espectador indígena como operador analítico. Nas análises das obras Serras da desordem, de Andrea Tonacci, Corumbiara, de Vincent Carelli, e Taego Ãwa, de Henrique e Marcela Borela, o autor busca evidenciar como os modos de vida ameaçados pelo genocídio ganham visibilidade a partir da evocação e da inscrição, no corpo do filme, de um outro olhar, ou do olhar do outro, que tensiona, estrutura e media o gesto de reconstituição da memória e da história dos povos indígenas. O “espectador selvagem” emerge enquanto figura retórica em operações diversas e não-totalizantes. Da intrincada teia de modos de ver e ouvir agenciados nas obras, da proposta identificada nos filmes de reconstruir o passado e apontar para a “imprevisibilidade abismal do futuro”, resulta uma “cosmopoética” que investe na opacidade e na alteridade, e assim funda o mundo comum - comum que, sabemos, pressupõe a partilha e reinventa, sem cessar, a política.
O interesse por formas de espectatorialidade divergentes do padrão branco, masculino, de elite e heteronormativo surge renovado no texto de Fábio Allan Mendes Ramalho, “Repertórios audiovisuais e imaginação midiática no cinema contemporâneo”, dedicado à análise de filmes como Batguano de Tavinho Teixeira, Nova Dubai de Gustavo Vinagre e Estudo em vermelho de Chico Lacerda. O autor estuda os diversos repertórios mobilizados pelos realizadores para retratar experiências vinculadas à comunidade LGBTQ, com foco nas operações disponibilizadas pelos meios digitais. A apropriação de linguagens como a da televisão e da internet é uma dessas operações que, de acordo com o autor, potencializa a expressão de sensibilidades próprias dos sujeitos queer. Tal processo marcado pela heterogeneidade e pela reapropriação traduz formalmente difíceis contradições e dilemas experienciados por essa comunidade, em que o prazer não raro está relacionado à impossibilidade e ao conflito. O digital, assim, abre caminhos promissores para o cinema que se quer inventivo e contra-hegemônico, expandindo as possibilidades de reinvenção constitutivas e decisivas para a afirmação de modos de vida dissonantes ou desviantes.
Ainda no “rastro digital” de outros produtos audiovisuais e plataformas midiáticas, Guilherme Fumeo Almeida e Rafael Hoff propõem, no artigo que encerra o dossiê “A política das emoções: o público e o privado em Porta dos Fundos”, observar modos de encenação de figuras públicas nas esquetes humorísticas do canal vinculado no YouTube. Interessa aos autores investigar a maneira como tais modos evidenciam deslizamentos entre o público e o privado bastante sintomáticos de nosso tempo, marcado pelo desencantamento e pelo descrédito da atividade política performada pelos líderes e representantes em instituições e esferas de poder. Diante desse desencantamento, explicam os autores, o humor e a derrisão comparecem como “olhar vigilante” e catártico, traduzindo as angústias dos oprimidos e convidando todos “a rir do trágico e inexorável caos da vida”.
Quando iniciamos os trabalhos envolvidos na organização do presente dossiê, jamais imaginávamos a dimensão que esse sentido trágico e caótico da vida tomaria, exigindo de todos nós medidas de isolamento social para conter os avanços de uma pandemia global. Quase nada sabemos sobre o cenário que aos poucos se descortina, mas já entendemos, não sem perplexidade e temor, que o mundo tal qual o conhecíamos já não mais existe. O mundo que virá após essa experiência inédita de suspensão e reinvenção das formas de sociabilidade permanece incógnito, insondável, mas já deixa pistas de que se trata, para retomar as palavras de André Brasil, de um mundo “desencantado” e “desconfiado”. A releitura dos textos do dossiê nos indica quão férteis são as ideias neles expostas. Afirmamos isso porque, mesmo tendo sido escritos bem antes da pandemia, os textos atualizam-se, antecipam respostas para as incertezas do momento presente. Quando lemos Marcelo Ribeiro escrever sobre a “imprevisibilidade abismal do futuro”, ou Ana Caroline Almeida dizer que é preciso organizar nosso pessimismo, ou ainda André Brasil atentar para a dimensão de cura da palavra de nossos ancestrais, todas essas ideias - gestadas nos filmes, com os filmes - parecem lançar lampejos de compreensão para o que estamos vivendo. Conclui-se que esses textos resultam de um esforço coletivo de pensar e refletir sobre os modos de reinventar nossas formas de vida - compromisso que adquire, em tempos de isolamento e insegurança, caráter de urgência.
Seções “Artigos” e “Resenhas”7
A seção “Artigos”, como de costume, traz uma série de trabalhos que se debruçam sobre diferentes formas de manifestação da cultura audiovisual, abordadas de forma interdisciplinar, com forte valorização da pesquisa histórica e da análise fílmica.
Três artigos tratam de produtos veiculados pela televisão. O primeiro deles, “Então ela é escrava? Escrava Isaura, popular history and national identity”, de Paula Halperin, constitui um estudo aprofundado de uma das novelas mais populares do Brasil nos anos 1970: Escrava Isaura, exibida pela Rede Globo entre os anos 1976 e 1977. Articulando história e ficção para abordar a representação da escravidão e das relações raciais à época, a autora discute a identidade social idealizada por esta produção televisiva em tempos marcados pela ditadura no país. Felipe da Silva Polydoro, em “Vídeo amador, impacto público e novos regimes de visibilidade: o acontecimento de Favela Naval (1997)”, examina as questões estéticas implicadas na filmagem amadora na imensa repercussão que a emissão deste video pelo Jornal Nacional. Por fim, Thiago Soares e Caroline Govari Nunes, com “‘Eu quis comer você’: fantasia roqueira num programa televisivo infantil”, nos proporcionam, a partir do encontro entre a banda Os Cascavelletes e a apresentadora Angélica no Clube da Criança na antiga TV Manchete, um estudo sobre as potencialidades dos estudos de perfomance para pensar este tipo de produção.
Quatro artigos se dedicam aos estudos de cinema. Henri Pierre Arraes Gervaiseau, em “Nem lá, nem cá. Lugar e trabalho de memória(s) em Récits d’Ellis Island”, mostra as estratégias empregadas pelo documentário, realizado entre 1978 e 1980 pelo cineasta Robert Bober e pelo escritor Georges Perec, para representar como lugar de memória este espaço dedicado a receber nos séculos XIX e XX os imigrantes que chegavam aos Estados Unidos. Theo Costa Duarte, com “Câncer como manifestação ambiental”, se ocupa do filme de Glauber Rocha, rodado em 1968, aproximando-o dos trabalhos de Hélio Oiticica e Rogério Duarte, valorizando como dados expressivos pontos em comum, como “a participação coletiva e a improvisação dos participantes têm papel preponderante”. Genilda Azerêdo, em “Kleber Mendonça e a ciranda de todos nós: configurações espaciais e resistência”, destaca nos filmes Recife Frio, O som ao redor e Aquarius a questão espacial, partindo “da premissa que os conflitos vivenciados pelos personagens são indissociáveis dos espaços que habitam e por onde (não) circulam”. Por último, Ana Paula Sá e Souza Pacheco, em “O fogo de palha de 1968 - o ponto de vista da montagem em No intenso agora”, analisa o documentário de 2017 de João Moreira Salles, valorizando sua interlocução com os protestos de junho de 2013.
Maurício Lissovsky, reconhecido especialista nos estudos da fotografia, encerra esta edição de Significação. Seu artigo, “A fotografia e seus duplos: mulheres invisíveis, coisas ocultas e retratos impossíveis”, historia a trajetória de mulheres fotógrafas em suas diversas formas de expressão (fotografias de família, “espirituais” e científicas, dentre outras) inserindo-as nos debates vinculados à cultura visual da modernidade, como “as fronteiras entre público e privado, visível e invisível, revelado e oculto estão sendo borradas ou rapidamente modificadas”. Neste percurso, distintos contextos são mobilizados (Peru, Brasil, Europa nos anos 1920 e 1930 etc.), revelando da parte do autor extenso conhecimento sobre a história da fotografia. Se há o vôo panorâmico, somos convidados a mergulhar nas imagens em movimento em que a teoria ganha concretude a partir do exame das fotografias ao mesmo tempo em que elas nos ajudam a pensar os problemas teóricos discutidos.
A seção “Resenhas” traz três contribuições ao debate sobre livros recentemente lançados. Fabián Núñez, em “Teoria e prática de um cinema junto ao povo de Jorge Sanjinés e Grupo Ukamau”, aborda o lançamento no Brasil deste trabalho originalmente publicado há mais de quarenta anos no México, recuperando as discussões estéticas e teóricas de diretor e grupo que foram importantes para o Nuevo Cine Latinoamericano. Carolina Amaral de Aguiar, com “Documentário argentino em Revolución y democracia, de Javier Campo”, discorre sobre a reflexão proposta pelo autor a respeito do exílio cinematográfico argentino, fenômeno pouco pesquisado, a partir dos documentários políticos realizados fora do país durante a ditadura militar daquele país. Mônica Cristina Araujo Lima Horta, em “A hora dos fornos, cinquenta anos depois: uma trilha de fogo para o cinema política”, resenha o livro A trail of fire for political cinema: the hour of the furnaces fifty years later (Uma trilha de fogo para o cinema político: a hora dos fornos cinquenta anos depois), organizado por Javier Campo e Humberto Pérez-Blanco e publicado em 2018 com o intuito de celebrar, em tom crítico, o filme A hora dos fornos (1968), realizado pelo grupo argentino Cine Liberación, sob direção de Fernando Solanas e Octavio Getino.
Com isso, encerramos a apresentaça desta edição, valorizando em cada contribuição a perspectiva original, o olhar atento ao contemporâneo, os diferentes caminhos trazidos pelo enfrentamento estético dos produtos audiovisuais. A erudição, articulada ao tom ensaístico, constitui a marca de discussões muito ricas, arraigadas em uma tradição da qual Significação participa com orgulho. Assim, esperamos que esse número contribua para o adensamento dos estudos no campo da cultura audiovisual.
Boa leitura!
Notas