Artigo
O ESTUDO DO MEIO COMO PROCESSO GERADOR DO ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO
EL ESTUDIO DEL MEDIO COMO PROCESO GENERADOR DE LA ENSEÑANZA, INVESTIGACIÓN Y EXTENSIÓN
MILIEU ANALYSIS: A GENERATING PROCESS OF TEACHING, RESEARCH AND EXTENSION
O ESTUDO DO MEIO COMO PROCESSO GERADOR DO ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO
Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, vol. 15, núm. 2, Esp., pp. 1538-1552, 2020
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
Recepção: 30 Agosto 2019
Aprovação: 02 Fevereiro 2020
RESUMO: O artigo propõe uma abordagem do método de ensino do estudo do meio como processo gerador da indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão universitária. Parte-se do debate conceitual do estudo do meio a partir de aspectos do pensamento de Célestin Freinet e Anísio Teixeira, considerando experiências históricas na Educação Básica em contextos nacionais e internacionais, para a proposição metodológica de ações inovadoras no Ensino Superior na extrapolação das barreiras físicas, sociais e culturais que separam a universidade da sociedade nos seus processos de produção do conhecimento. A base empírica do texto descreve e analisa uma experiência realizada na Universidade Federal do Sul da Bahia.
PALAVRAS CHAVES: Estudo do meio, Interdisciplinaridade, Ensino superior.
RESUMEN: El artículo propone un enfoque del método de enseñanza del estudio del medio como proceso generador de la indisociabilidad entre la enseñanza, la investigación y la extensión universitaria. Se parte del debate conceptual del Estudio del Medio a partir de aspectos del pensamiento de Célestin Freinet y Anísio Teixeira, considerando experiencias históricas en la Educación Básica en contextos nacionales e internacionales, para la proposición metodológica de acciones innovadoras en la Enseñanza Superior en lo que sobrepase las barreras físicas, sociales y culturales que separan la universidad de la sociedad en sus procesos de producción del conocimiento. La base empírica del texto describe y analisa una experiencia realizada en la Universidad Federal del Sur de Bahia.
PALABRAS CLAVES: Estudio del medio, Interdisciplinariedad, Enseñanza superior.
ABSTRACT: The article approaches the Milieu Analysis teaching method as a generating process of the inseparability of teaching, research and university extension. It is based on the conceptual debate around Milieu Analysis from aspects of the ideas of Célestin Freinet and Anísio Teixeira. We take into account historical experiences in Basic Education in national and international contexts in order to formulate a methodological proposition of innovative actions in Higher Education aiming to extrapolate physical, social and cultural barriers that separate university and society in their processes of knowledge production. The text’s empirical base describes and analyzes an experience carried out at the Federal University of Southern Bahia.
KEYWORDS: Milieu analysis, Interdisciplinarity, Higher education.
Introdução
O estudo do meio, como metodologia de ensino, produz condições didáticas pedagógicas que favorecem maior articulação entre o ensino, a pesquisa e a extensão universitária. Algumas experimentações realizadas na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) demonstram que o estudo do meio potencializa a participação social em processos de ensino-aprendizagem, assim como viabiliza a emergência de situações de pesquisas e redes de cooperação nas comunidades do entorno da universidade.
Desde o ano de 2016 a metodologia do estudo do meio foi introduzida no Componente Curricular (CC) denominado Universidade e Contexto Planetário na unidade de ensino da UFSB no município de Santa Cruz Cabrália, chamada de Colégio Universitário (CUNI). Tal componente constitui o bloco temático Universidade e Sociedade, que resulta de um arranjo de CC nos quais a universidade se inscreve como tema de reflexão e formação acadêmica em escalas locais, regionais, nacionais e planetárias.
O bloco temático em destaque está distribuído no primeiro ano correspondente à Formação Geral (FG) em que as estudantes e os estudantes que ingressam na UFSB iniciam o seu processo de formação acadêmica em regime quadrimestral. Um ano letivo corresponde a três quadrimestres de formação. Assim, os CC do bloco temático em que o trabalho com o estudo do meio culmina configuram a seguinte ordem de oferta curricular: 1) Universidade e Sociedade, 2) Universidade e Desenvolvimento Regional e Nacional, 3) Universidade e Contexto Planetário.
Para cada CC, as equipes docentes responsáveis pelo trabalho coletivo de planejamento e gestão compartilhada das relações de ensino-aprendizagem definem temas, objetivos, habilidades e competências relativas a cada momento da formação. No caso de Universidade e Contexto Planetário o tema que tem persistido nos últimos anos tem sido “desigualdades sociais e desequilíbrios ambientais”, e um dos objetivos eleitos para o trabalho pedagógico é: “proporcionar aos alunos a oportunidade de planejar uma intervenção coletiva (no espaço compreendido entre os vértices ensino-pesquisa-extensão) em algum contexto social local ou regional, relevante no contexto planetário, em diálogo com os temas estudados” (UFSB, 2015). Com o intuito de cumprir com esta agenda de trabalho é que o estudo do meio foi introduzido como método de ensino no CUNI-Cabrália – unidade expandida da UFSB em uma escola pública estadual que atende a estudantes universitários do município de Santa Cruz Cabrália e adjacências.
Este artigo apresenta análise da experiência com o estudo do meio realizada no último quadrimestre da FG que teve início no ano 2018, quando os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU foram amplamente discutidos entre todas as turmas do Campus Sosígenes Costa (em Porto Seguro – BA). O grupo do CUNI-Cabrália elegeu sete objetivos e compôs uma agenda de conversações com a comunidade de moradores da Vila de Santo André, primeiro distrito da orla norte após a sede do município. Cada objetivo gerou exercícios de conversações na comunidade, para a produção de imagens e relatos sociais que compuseram uma exposição pública da experiência compartilhada entre os estudantes e as estudantes e os moradores e as moradoras locais.
A análise parte do pressuposto de que o estudo do meio “pode ser compreendido como um método de ensino interdisciplinar que visa proporcionar para alunos e professores contato direto com uma determinada realidade, um meio qualquer, rural ou urbano” (LOPES; PONTUSCHKA, 2009, p. 174). Além disso, destaca-se que no contexto das relações universitárias de ensino-aprendizagem o estudo do meio é, também, um processo gerador da indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão.
O artigo enfatiza as referências do estudo do meio em aspectos do pensamento de Célestin Freinet (2001; 2004) e Anísio Teixeira (1977) que apontam para a vida como princípio pedagógico instaurador de uma integração generativa entre as instituições educacionais e as comunidades em que estão inseridas. As experiências realizadas nos cursos de prática de ensino na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (PONTUSHKA, 2005), a partir da década de 1980 do milênio passado, e as reflexões daí advindas também conferem referências teóricas para o trato analítico com a experiência do presente no contexto da UFSB.
As bases empíricas das análises aqui apresentadas foram os relatórios produzidos pelos estudantes ao longo das atividades do estudo do meio em Santa Cruz Cabrália, o Plano de Ensino Aprendizagem do Componente Curricular Universidade e Contexto Planetário e o Plano Orientador da UFSB.
Contextualização e democratização das práticas de ensino-aprendizagem
Duas qualidades marcam simultaneamente a experiência do estudo do meio realizada pela UFSB: o seu caráter metodológico e sua potência geradora de epistemologias das interfaces dos diferentes modos de fazer universidade. O estudo do meio inscreve-se como método de ensino na Formação Geral da UFSB, quando todos e todas estudantes ingressam nos Bacharelados e Licenciaturas Interdisciplinares. Além de operar como método de ensino, o estudo do meio elege “experimentações do fazer universidade” como pressuposto básico para o “pensar a universidade” inscrito em um campo de conhecimento que marca o início dos processos formativos interdisciplinares.
Embora a inscrição do estudo do meio esteja marcada pelas inovações pedagógicas, epistemológicas e organizacionais da UFSB, há inúmeros aspectos comuns que remetem aos avanços e mudanças históricos que esse método de ensino tem apresentado nas últimas décadas no Brasil. Enfatizam-se a contextualização e democratização das práticas de ensino-aprendizagem como aspectos transversais que perpassam importantes referências do pensamento pedagógico contemporâneo, entre as quais destacam-se Célestin Freinet, Anísio Teixeira e Nídia Nacib Pontushcka.
Em Célestin Freinet (2001; 2004) e Anísio Teixeira (1977), a concepção de educação supõe a indissociabilidade entre contextos de saberes e contextos de vida, bem como a ampliação das condições de participação social nas relações de ensino-aprendizagem. O autor de Pedagogia do Bom Senso nos faz lembrar que “a educação não é uma fórmula da escola, mas sim uma obra de vida” (FREINET, 2001, p. 13). O educador baiano, por seu turno, destacava que “o processo educativo identifica-se com um processo de vida, não tendo outro fim [...] senão o próprio crescimento do indivíduo [...] como ser humano” (TEIXEIRA, 1977, p. 59). Para ambos educadores, apesar das diferenças de contextos em que formularam as bases teóricas de seus pensamentos, a educação é um processo vital, cuja complexidade exige a abertura de caminhos nos quais a escola esteja sempre em processo de interação com as comunidades dos seus entornos.
A introdução e o avanço do estudo do meio no Brasil tiveram diferentes desdobramentos históricos. Originalmente, as escolas anarquistas de São Paulo, sob influência do ideário pedagógico de Freinet e do educador catalão Francisco Ferrer y Guardía, adotavam a metodologia com o objetivo de que “os alunos, observando, descrevendo o meio dito natural e o social do qual eram parte, pudessem refletir sobre desigualdades, injustiças e promovessem mudanças na sociedade no sentido de saná-las” (PONTUSCHKA, 2005, p. 252).
Posteriormente, o movimento da Escola Nova, inspirado no ideário de Anísio Teixeira, recupera a iniciativa das escolas anarquistas com o propósito de promover maior integração da escola com a comunidade em que estava inserida. Os anos duros da ditadura militar retiraram das escolas essa metodologia e só por ocasião do processo de redemocratização do país, entre os anos 1980 e 1990, é que os trabalhos do estudo do meio foram retomados como pauta de uma agenda político pedagógica mais ampla, sobretudo no município de São Paulo.
Em 1992, professores reunidos na Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo, na administração de Luiza Erundina, elaboraram uma publicação sobre o estudo do meio e a participação de diferentes disciplinas, tendo como princípio o coletivo, a interdisciplinaridade e, simultaneamente, a preservação da especificidade de cada disciplina no sentido de estudar melhor o real. Houve necessidade de explicitar no texto como cada uma das disciplinas integrava-se ao estudo do meio, ou seja, o papel de cada uma delas nesse tipo de trabalho (PONTUSCHKA, 2005, p. 260).
Importante destacar que nos anos anteriores a esse acontecimento escolas particulares e públicas do estado de São Paulo já adotavam a metodologia do estudo do meio, o que foi determinante para que, no âmbito dos cursos de práticas e ensino da Faculdade de Educação da USP, tal metodologia tenha sido introduzida como estratégia de formação dos professores no estado. Isto nos mostra que, ao longo do século XX, no cenário brasileiro, o estudo do meio extrapola o mero sentido de “metodologia do ensino” e emerge como paradigma de produção do conhecimento transversal a diferentes níveis e modalidades de ensino.
Considerando que a condição fundamental para o trabalho do estudo do meio é a ultrapassagem das barreiras que separam instituições educacionais das comunidades em que estão inscritas, a sua prática no contexto universitário supõe e exige correlações pertinentes ao exercício simultâneo do ensino, da pesquisa e da extensão. Nesta perspectiva o “meio” pode ser compreendido como condição seminal da indissociabilidade dos fins da universidade que, além de proporcionar maior contextualização dos conteúdos de saberes e práticas sociais advindos de suas experimentações, proporciona também ampliação da participação social nas relações de ensino-aprendizagem implicadas em seus processos. Ultrapassar barreiras sugere aproximações entre a universidade e a comunidade pelas bases, por meio de movimentos que proporcionem desnivelamentos radicais entre saberes e práticas acadêmicas e saberes e práticas populares.
Na defesa de uma Escola do Povo, Célestin Freinet sugeria que tal escola investisse em uma “formação que não desce de cima [...] mas que ascende da vida ambiente, bem enraizada, bem-nutrida, vigorosa e densa, capaz de erguer bem alto, no esplendor de um destino benéfico” (FREINET, 2001, p. 14). Nesta acepção, os processos formativos são emergências de interações e transformações recíprocas entre os grupos sociais pertencentes a instituições educacionais e instituições sociais outras. Para Anísio Teixeira isto se traduz como uma educação democrática que deve ser vista como “uma ‘qualidade’, um ‘modo’ de conduzir atividades do ensino e da vida extra-classe para a formação do indivíduo na sociedade-democrática” (TEIXEIRA, 1977, p. 219). Estar no meio, em regime de produção de conhecimento nas interações com a comunidade, altera significativamente os lugares e os modos de produção do conhecimento na universidade.
Com base nestes esboços conceituais, o trabalho realizado com o estudo do meio no CC Universidade e Contexto Planetário na experiência da UFSB se compõe em quatro etapas interconectadas: a) discussão temática, b) planejamento dos processos interativos, c) imersão na comunidade, d) socializações da experiência.
No início das aulas recorre-se a textos provocadores de reflexões críticas sobre o tema das desigualdades sociais e dos desequilíbrios ambientais. Após o ciclo inicial de problematizações e reflexões sobre as produções teóricas escolhidas, parte-se para a compreensão teórico-prática do estudo do meio e, organização na sala de aula e fora dela, da imersão na comunidade. A escolha da comunidade é sempre feita com a participação dos estudantes e dos moradores e moradoras das áreas rurais ou urbanas que se dispõem a recebê-los. Uma vez definido o local e as ferramentas de trabalho a serem utilizadas, realiza-se uma primeira visita para os diálogos relevantes ao avanço do trabalho e posteriormente uma visita para a socialização dos dados sistematizados e retomada das conversações com a comunidade, agora com base nos conteúdos emergentes da experiência.
No último quadrimestre da FG da turma que ingressou no ano de 2018, os trabalhos foram realizados na Vila de Santo André e, além do tema geral adotado pelo componente curricular, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU foram escolhidos como pressupostos de interlocução com os moradores da comunidade sobre as questões ambientais locais. O projeto de intervenção final foi uma exposição de imagens e relatos sob o título: Olhares e Vozes de Santo André sobre o Meio Ambiente.
Da produção do lugar à transformação dos modos de produção do conhecimento
A Vila de Santo André está separada da sede do município de Santa Cruz Cabrália (BA) pelo Rio João de Tiba; sua população não ultrapassa o número de 800 pessoas. Para alcançá-la é necessário fazer travessias de balsa. A Vila está inscrita na Área de Proteção Ambiental (APA) de Santo Antônio e tornou-se mundialmente conhecida no ano de 2014, quando serviu de refúgio para a vitoriosa seleção de futebol da Alemanha na Copa do Mundo daquele ano. A escolha do local para as atividades do estudo do meio no ano de 2019 foi uma resposta às demandas de algumas Organizações Não Governamentais (ONGs) existentes na própria comunidade.
No final do ano de 2018, representantes do Projeto Maré e da Vila Criativa, duas ONGs atuantes na comunidade, demandaram da universidade ações de educação ambiental. Em resposta a estas demandas, foi proposto o deslocamento do trabalho com o estudo do meio para a comunidade de Santo André, sendo que nos anos anteriores o trabalho era realizado na sede do município. O Núcleo de Pesquisa e Extensão em Educação Ambiental da UFSB (NUPEEA) passou também a compor a formação dessa rede inicial de cooperações.
Após a primeira visita à comunidade para mapeamento da área a ser percorrida pelas estudantes e pelos estudantes durante a visita de campo, foi pactuado um esboço inicial em que os grupos iriam percorrer um trajeto de aproximadamente três quilômetros, subdivididos em sete estações de trabalho. Cada estação de trabalho na comunidade teria um ou mais moradores locais como interlocutores das estudantes e dos estudantes.
No início das atividades letivas do quadrimestre, durante a apresentação do plano de trabalho, foi proposta à turma do CUNI-Cabrália a culminância das atividades do CC na comunidade de Santo André. Como parte do estudo do meio, metodologia que seria objeto de reflexão ao longo do quadrimestre, o grupo realizaria uma exposição com fotografias e relatos sociais advindos da experiência. As quatro semanas que se seguiram foram dedicadas à leitura e discussão dos textos que proporcionaram aprofundamento do tema geral sobre desigualdades sociais e desequilíbrios ambientais.
Três textos teóricos e um texto programático foram os principais recursos de leituras e reflexões deste primeiro ciclo de trabalho. A introdução à obra A Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós? (BAUMAN, 2015) e os dois capítulos iniciais da obra A Era do Capital Improdutivo (DOWBOR, 2017) forneceram as principais referências críticas para uma leitura problematizadora dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU (2015), texto que apresenta um programa global de erradicação das desigualdades sociais.
O principal argumento de Zygmunt Bauman é que “a desigualdade social parece agora estar mais perto que nunca de se transformar no primeiro moto-perpétuo da história” (BAUMAN, 2015, p. 19), quando o autor se debruça sobre os principais documentos que revelam as faces planetárias da ampliação das distâncias sociais e econômicas entre os ricos e os pobres do mundo. Articulada a este pressuposto de análise a afirmação de Ladislau Dowbor de que “estamos destruindo o planeta em proveito de uma minoria enquanto os recursos necessários para o desenvolvimento sustentável e equilibrado são esterilizados pelo sistema financeiro mundial” (DOWBOR, 2017, p. 17). Com base nas reflexões proporcionadas por estes autores, partiu-se para o exercício de olhares críticos sobre os ODS, cujo enunciado mais proeminente é a erradicação da pobreza em escala planetária.
Após conhecer o conjunto dos ODS com toda a turma, foram escolhidos sete deles. Cada um serviu de base para a formação de uma equipe de trabalho. Os objetivos escolhidos foram: 1) Erradicação da Pobreza, 2) Qualidade de Vida e Saúde, 3) Igualdade de Gênero, 4) Água e Saneamento, 5) Crescimento Econômico e Emprego Decente, 6) Proteção dos Ecossistemas Marinhos, 7) Proteção dos Ecossistemas Terrestres. A escolha dos temas foi decisiva para a organização interna dos grupos de trabalho em sala de aula.
Com os grupos formados por identidades temáticas dos ODS, foi organizada uma oficina em sala de aula para o planejamento do estudo do meio que ocorreu no mês de abril de 2019.
Os grupos discutiram um texto sobre a teoria e prática do estudo do meio (LOPES; PONTUSCHKA, 2009), em seguida foi distribuído um tutorial com as principais estratégias de trabalho a serem adotadas ao longo da visita de campo. O quadro a seguir expõe as correlações entre os temas, questões geradoras e as questões formuladas em sala de aula no processo de planejamento da visita de campo.

Os roteiros de entrevistas gerados em sala de aula, a partir da análise do tutorial e das reflexões sobre o estudo do meio, compuseram o caderno de campo que foi utilizado para orientar os grupos durante a imersão na comunidade. A elaboração de questões circunscritas aos temas de trabalho proporcionou às estudantes e aos estudantes a definição preliminar das pautas de conversações com a comunidade, bem como a formulação de dispositivos de traduções entre saberes acadêmicos e saberes populares (SANTOS, 2008), considerando que cada pergunta derivada da questão geradora inicial produziu relatos sociais compreensíveis em referenciais epistemológicos múltiplos.
Fazer-dizer, fazer-ver
A imersão na comunidade ocorreu no dia 06 de abril de 2019. A sede da Vila Criativa foi o lugar de referência para o início e o final das atividades na comunidade. O grupo da universidade constituía-se de 31 pessoas, 28 estudantes e 03 professores. Após o encontro inicial os grupos se subdividiram e foram à escuta das moradoras e dos moradores (30 pessoas) que participaram da atividade.
Ao longo do dia, as entrevistas organizadas anteriormente em sala de aula constituíram operadores de escutas e relatos circunstanciados nos temas de trabalho de cada grupo. O momento da imersão na comunidade operava modos de fazer-dizer para gerar modos de fazer-ver o que pensam os moradores e moradoras da Vila sobre os temas escolhidos para aquelas rodadas de conversa.
Mobilizados pela compreensão de que produzir saberes constitui “a própria arte de fazer as coisas, resolver os problemas humanos e tornar o indivíduo [...] cidadão de uma democracia” (TEIXEIRA, 1977, p. 213), e ao mesmo tempo em que esta arte de fazer, constitutiva da produção do saber, pode ser vista como uma maneira de “abrir pistas” (FREINET, 2004), os grupos avançaram nas escutas, colheram relatos e transformaram estes relatos em matéria da exposição realizada no dia 27 de abril de 2019 na sede da Vila Criativa.
O quadro a seguir coloca em destaque a correlação entre os temas de trabalho e alguns relatos sociais produzidos e autores dos textos apresentados na exposição pública. Uma das regras estabelecidas para a exposição dos relatos foi destacar a autoria do texto, à maneira de produzir visibilidade pública para o “que foi dito” e “quem o disse”. Cada relato, ao lado de uma fotografia feita durante a visita, expõe ao mesmo tempo resultado de aprendizagens e matérias expositivas para o ensino das experiências vividas.

Os relatos revelam contradições e ambivalências presentes nos contextos de vida da comunidade. As tomadas de posições nos processos de entrevistas sofrem variações conforme a idade, classe social, condição de gênero e até mesmo o local de moradia dos autores e autoras dos relatos que expostos. Contudo, a totalidade dos entrevistados compõe-se de pessoas nascidas no local ou que ali residem há muitos anos, conforme nos mostra o quadro anterior. Isto assegurou o trato com interlocutores que possuem laços fortes e duradouros de pertencimento com a comunidade. O que dizem e posteriormente o que fazem ver com aquilo que dizem, traduz experiências de longa duração no convívio social com a comunidade participante do estudo do meio.
Para chegar aos relatos que foram expostos publicamente, o material resultante das entrevistas retornou para a sala de aula. Durante o primeiro encontro posterior à visita de campo, cada grupo passou a ler e reler as entrevistas para escolher trechos dos depoimentos que provocassem reações afetivas e cognitivas nos visitantes da exposição. Aquele momento da produção pode ser definido como momento de transformação dos relatos das experiências vividas em experiências publicamente visíveis. Tudo que foi aprendido pelas estudantes e pelos estudantes passava pela reflexão em grupo para a escolha de citações significativas, cada citação exigia trabalho de edição no processo de transposição do relato oral para o relato escrito e, cada relato, juntamente com as fotografias escolhidas, iria compor um arranjo de imagens e discursos a ser apresentado pelos grupos durante a exposição.


As imagens 1 e 2 mostram dois momentos de produção do local da exposição no dia 27 de abril. A varanda da Vila Criativa (espaço físico da ONG na Vila de Santo André) foi aos poucos se transformando em uma galeria em que o material produzido na sala de aula compunha cenários de exposição das fotos, relatos escritos e relatos das experiências das estudantes e dos estudantes ao longo de todo o processo. Moradoras e moradores participantes, assim como turistas e convidados para o evento podiam ver, ouvir e conversar sobre os resultados do estudo do meio que àquele momento ampliavam as condições de socialização sobre os ditos e feitos daquela experiência.
Um caderno de visitação pública foi colocado logo à entrada da exposição, assim como um banner com um texto de apresentação de todo o trabalho, um bloco disponível para os visitantes escreverem comentários e uma caixa de papel para a recolha dos comentários.
Foram registradas 60 assinaturas entre os visitantes. Além dos moradores locais, a exposição Olhares e Vozes de Santo André sobre o Meio Ambiente alcançou moradores da região da Costa do Descobrimento, de outros estados brasileiros e dois turistas portugueses. Sete comentários foram escritos e destacam o seguinte:
1) “Foi uma feliz coincidência estar em Santo André no dia de hoje. Gostei de conhecer um pouco do projeto, mostrando a necessária articulação da universidade com a comunidade” – Paulo Conceição, turista, Salvador; 2) “Parabéns aos alunos e aos professores, nível nota mil, um trabalho mais completo que o outro, parabéns a todos, Santo André orgulha-se da homenagem” – Vera Zippin – moradora da comunidade; 3) “Parabéns a todos os envolvidos, excelente iniciativa, aprender é isso: é viver! Com certeza todos aprenderam com essa experiência. Sucesso sempre!” – comentarista não se identificou, 4) “Parabéns pelo trabalho, tudo que nos faz pensar vale muito a pena, não desistam” – Eliana – Rio de Janeiro, 5) “ A exposição explorou de maneira bastante diversa, uma Santo André que não estamos acostumados a ver. Uma Santo André urbana e rural, rica e pobre, mas sobretudo racializada pelo abandono do estado” – Gabriel Nascimento – professor UFSB, 6) “Grato pelo olhar de vocês sobre nossa Vila de Santo André” – Marcelo – Morador, 7) “A possibilidade da comunidade se ver a partir de outros olhares, mas mantendo também a sua visão e a sua voz, amplia a compreensão do que se é e do que se deseja ser, muito maravilhoso esse trabalho em parceria com a UFSB. Parabéns” – Denise Comerlato – Porto Alegre.
Os comentários devolvem olhares e vozes aos olhares e vozes produzidos ao longo daquela experiência com a comunidade. Enfatizam a importância da presença da universidade na comunidade. Importante destacar que uma das comentaristas ressalta a conexão entre aprender e viver, base das concepções e práticas que inspiraram todo o processo. O espaço comunitário se transformou em espaço público de afirmação da universidade fora dos seus muros, mais aberta a outras formas de participação social na produção do conhecimento, mais ousada na ultrapassagem dos limites que a isolam e segregam da vida social no sentido mais amplo.
Considerações finais
Os resultados da experiência em análise neste artigo apontam a dupla face do estudo do meio como processo gerador do ensino, da pesquisa e da extensão universitários. Uma face expõe a metodologia do ensino como expressão de um saber fazer em movimento, a outra descreve os fluxos desse saber-fazer como alternâncias articuladas entre práticas de ensino, de pesquisa e da extensão nos contextos em que a experiência se situa e anuncia.
O modelo institucional inovador da UFSB confere cenários para a emergência de processos de ensino-aprendizagem notadamente interdisciplinares, interculturais e inter epistêmicos, conforme anuncia o seu Plano Orientador (UFSB, 2014).
O modelo organizacional da formação interdisciplinar em regime de ciclos combinado com a inscrição de unidades avançadas da universidade em escolas públicas estaduais nos municípios sede dos seus campi proporciona condições estruturais para a emergência de redes de cooperação em diferentes escalas, inclusive na escala da sala de aula. O que se tentou mostrar até aqui é que o estudo do meio, conforme pressupostos seminais de alguns dos seus idealizadores no século XX, instala-se em uma universidade criada nas primeiras décadas do século XXI e potencializa novas criações, tanto do ponto de vista das formas de ensino e aprendizagem que são geradas nos percursos metodológicos da experiência, quanto do ponto de vista das relações sociais que produzem circunstâncias exemplares para o avanço teórico e prático da produção do conhecimento universitário.
Importante lembrar que a afirmação do estudo do meio como metodologia de ensino centrada no humano anunciava soluções pedagógicas apropriadas aos desafios do século passado. No século em que estamos um dos principais desafios que se impõe é o reconhecimento da natureza, também, como sujeito histórico, conforme preconiza do ideário do Bem Viver (ACOSTA, 2016). Neste caso o trabalho dos saberes necessários ao nosso tempo exige uma abertura do humano ao cuidado com todas as expressões de vida que o cercam em escalas locais e globais. Os modos de fazer do estudo do meio no passado ainda nos revelam, nos dias de hoje, as possibilidades de aberturas de novos caminhos para os fazeres educativos comprometidos com um mundo menos injusto e desigual para as pessoas e todos os seres vivos.
Os exemplos apresentados ao longo de todo o artigo buscaram mostrar que, sob a lente da experiência com o estudo do meio na UFSB, o meio não é lugar de oposição à sala de aula, é paisagem de composição das trilhas do ir e vir que conferem outros corpos e ritmos socioambientais aos modos de fazer o ensino, a pesquisa e a extensão universitários.
REFERÊNCIAS
ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária, Elefante, 2016.
BAUMAN, Zygmunt. A riqueza de poucos beneficia todos nós. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2015.
DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo: porque oito famílias tem mais riqueza que a metade da população do mundo? São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
FREINET, Célestin. Para uma escola do povo. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
FREINET, Célestin. Pedagogia do bom senso. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
LOPES, Claudivan Sanches; PONTUSCHKA, Nídia Nacib. Estudo do meio: teoria e prática. Geografia, Londrina, v. 18, n. 2, 2009.
PONTUSCHKA, Nídia Nacib. O conceito de estudo do meio transforma-se... em tempos diferentes, em escolas diferentes, com professores diferentes. In: VERSENTINI, José William (Org.). O ensino da geografia no século XXI. Campinas (SP): Papirus, 2004.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez Editora, 2008.
TEIXEIRA, Anísio. Educação e o mundo moderno. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL DA BAHIA. Plano de ensino aprendizagem de universidade e contexto planetário. Itabuna, Porto Seguro, Teixeira de Freitas, BA: UFSB, 2015.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL DA BAHIA. Plano orientador. Itabuna, Porto Seguro, Teixeira de Freitas, BA: UFSB, 2014.
Notas