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APRENDIZAGEM HISTÓRICA E NOVO HUMANISMO: AS IDEIAS HISTÓRICAS DOS JOVENS A PARTIR DA LEITURA DOS QUADRINHOS DE “OS MISERÁVEIS”
APRENDIZAJE HISTORICO Y NUEVO HUMANISMO: LAS IDEAS HISTÓRICAS DE LOS JÓVENES DESDE LA LECTURA DE LOS COMICS DE “LOS MISERABLES”
HISTORICAL LEARNING AND NEW HUMANISM: THE HISTORICAL IDEAS OF YOUNG PEOPLE AFTER READING THE COMICS OF “LES MISERÁBLES”
APRENDIZAGEM HISTÓRICA E NOVO HUMANISMO: AS IDEIAS HISTÓRICAS DOS JOVENS A PARTIR DA LEITURA DOS QUADRINHOS DE “OS MISERÁVEIS”
Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, vol. 16, núm. 2, pp. 573-592, 2021
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Recepción: 17 Diciembre 2019
Recibido del documento revisado: 31 Marzo 2020
Aprobación: 06 Agosto 2020
Publicación: 01 Febrero 2021
Resumo: Neste artigo, apresentamos parte das discussões desenvolvidas ao longo do mestrado em Educação na Universidade Estadual de Londrina, defendido em 2019. O trabalho desenvolvido no mestrado se debruçou sobre o uso de uma versão em quadrinhos da obra “Os Miseráveis”, de Victor Hugo (o livro foi publicado originalmente em 1862), com o objetivo de discutir com jovens estudantes do nono ano de uma escola pública localizada em Londrina, Paraná, sobre problemas sociais e sobre o Novo Humanismo de Rüsen (2012; 2015). Para isto, desenvolvemos aulas-oficina (BARCA, 2004) que tinham o objetivo de, tornando o aluno o protagonista do processo de ensino-aprendizagem, levá-lo à reflexão sobre questões relacionadas a problemas sociais e ao humanismo. Nestas aulas-oficina, realizamos uma roda de conversa, além da produção uma narrativa sobre esta roda e de uma história em quadrinhos que abordasse o tema problemas sociais. Neste artigo, trabalhamos com as HQs produzidas pelos alunos, apresentando as discussões realizadas sobre o tema e as análises desenvolvidas na dissertação a partir da produção dos alunos. Nosso objetivo foi verificar a possibilidade de os jovens estudantes gerarem um sentido de orientação temporal por meio dos valores e ideias do novo humanismo e da defesa da dignidade humana a partir da leitura de “Os Miseráveis” em quadrinhos.
Palavras-chave: Novo humanismo, Os Miseráveis, História em quadrinhos, Aula-oficina.
Resumen: En este artículo, presentamos parte de las discusiones desarrolladas durante la Maestría em Educación en la Universidad Estadual de Londrina, defendida em 2019. El trabajo desarrollado em la maestría se centró en el uso de una versión en cómic del trabajo de Víctor Hugo “Los Miserables” (el libro fue publicado originalmente en 1862), con el propósito de discutir con estudiantes del noveno año de una escuela pública ubicada en Londrina, Paraná, sobre problemas sociales y el Nuevo Humanismo de Rüsen (2012; 2015). Para ello, desarrollamos clases-taller (BARCA, 2004) que tenían el objetivo de convertir al alumno en el protagonista del proceso de enseñanza-aprendizaje, lo que lo llevó a reflexionar sobre cuestiones relacionadas con los problemas sociales y el humanismo. En estas clases-taller, realizamos un círculo de conversación, así como producimos una narrativa sobre este círculo y un cómic que abordaba el tema de los problemas sociales. En este artículo, trabajamos con los cómics producidos por los estudiantes, presentando las discusiones sobre el tema y los análisis desarrollados en la disertación sobre la producción de los estudiantes. Nuestro objetivo era verificar la posibilidad de que los jóvenes estudiantes generen un sentido de orientación temporal a través de los valores e ideas del Nuevo Humanismo y la defensa de la dignidad humana al leer “Los Miserables” en los cómics.
Palabras clave: Nuevo humanismo, Los Miserables, Cómics, Clase-taller.
Abstract: In this article, we present part of the discussions developed during the master's degree in Education at Londrina State University, defended in 2019. The work developed in the master's degree focused on the use of a comic version of Victor Hugo's “Les Miserábles” (the book was originally published in 1862), with the purpose of discussing with ninth graders from a public school located in Londrina, Paraná, about social problems and Rüsen's New Humanism (2012; 2015). For this, we developed workshop classes (BARCA, 2004) that had the objective of making the student the protagonist of the teaching-learning process, leading him to reflect on issues related to social problems and humanism. In these workshop classes, we held a dialogue circle, as well as producing a narrative about this circle and a comic book that addressed the issue of social problems. In this article, we work with the comics produced by the students, presenting the discussions about the theme and the analysis developed in the dissertation from the students' production. Our goal was to verify the possibility of young students to generate a sense of temporal orientation through the values and ideas of the New Humanism and the defense of human dignity from reading "Les Misérables" in comics.
Keywords: New humanism, Les Miserábles, Comics, Workshop classes.
Introdução
A pesquisa desenvolvida se debruça sobre o uso de uma versão em quadrinhos da obra “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, para discutir problemas sociais, direitos humanos e o humanismo com alunos do nono ano do ensino fundamental de uma escola localizada na cidade de Londrina- PR. O objetivo foi trabalhar a questão da dignidade humana e da miséria partindo das discussões de Rüsen (2012; 2015) sobre o Novo Humanismo. O objeto de investigação da pesquisa foi o uso escolar de “Os Miseráveis” em quadrinhos na aprendizagem histórica de jovens estudantes. Este artigo, portanto, é parte das discussões que foram desenvolvidas no mestrado em Educação na Universidade Estadual de Londrina, defendida em 2019.
Para o desenvolvimento deste trabalho, realizamos uma série de aulas-oficina (BARCA, 2004) entre maio e junho de 2018, envolvendo a aplicação de um estudo exploratório, uma roda de conversa, a produção de uma narrativa sobre esta roda de conversa e a produção de uma história em quadrinhos pelos estudantes. Esta metodologia foi proposta por Barca (2004, p. 133), e trata-se de um modelo de aula em que o aluno é visto como “agente de sua formação com ideias prévias e experiências diversas” e o professor como um “investigador social e organizador de atividades problematizadoras”. As atividades das aulas são, portanto, diversificadas e propostas de forma a desafiar intelectualmente os estudantes, de modo que os produtos resultantes destas são integrados na avaliação (BARCA, 2004, p. 132).
Como o objetivo era verificar as ideias dos estudantes com relação à miséria e à dignidade humanas, escolhemos como ponto de partida a adaptação da obra “Os Miseráveis”, uma história em quadrinhos que consiste na adaptação de um romance clássico que se passa na França no período pós-Revolução Francesa, cujos temas principais são a miséria e as mazelas sociais. Trata-se de uma experiência de sofrimento do passado que, fazendo parte da cultura histórica dos alunos, pode ajudá-los a interpretar as circunstâncias atuais.
Como já mencionamos, elaboramos planos de aula-oficina nos moldes propostos por Barca (2004), que foram desenvolvidas ao longo de seis momentos, ou seis aulas de História de 50 minutos cada. Na primeira aula, aplicamos o instrumento de estudo exploratório e cada aluno recebeu um exemplar da HQ. Foi solicitado que realizassem a leitura para dar continuidade à proposta. Assim, ao longo dos outros encontros, os estudantes realizaram análise de trechos da obra, sobretudo trechos que retratam problemas sociais, comparando-os com problemas atuais, analisando permanências e rupturas. Realizamos também uma roda de conversa cujo tema foi o humanismo e o Novo Humanismo de Rüsen, bem como a produção de uma narrativa sobre a roda de conversa. Para iniciar a roda de conversa, escolhemos dois trechos dos quadrinhos de “Os Miseráveis”, instigando a discussão também dos problemas sociais. A última atividade realizada foi a produção de uma história em quadrinhos por cada estudante, que deveria retratar o que eles consideram como problemas sociais.
Assim, neste artigo, nos debruçamos sobre as histórias em quadrinhos produzidas pelos alunos e a categorização destas HQs, analisando as narrativas sobre questões sociais e o Novo Humanismo de Rüsen.
Desta maneira, as perguntas que nortearam nossa pesquisa foram: É possível que os jovens estudantes apresentem ou desenvolvam um sentido de orientação temporal por meio dos valores e ideias do Novo Humanismo e da defesa da dignidade humana através do contato com a obra “Os Miseráveis”? O formato de quadrinhos da obra facilitaria o entendimento do conteúdo e o prazer da aprendizagem?
Tínhamos como pressuposto a possibilidade de que os alunos desenvolvessem um sentido de orientação temporal através dos valores do Novo Humanismo com a leitura de “Os Miseráveis” em quadrinhos, visto que o livro é permeado por discussões sobre a dignidade e miséria humanas, que se deslocam temporalmente entre o passado e o presente. Um dos referenciais teóricos utilizados por nós para desenvolver esta investigação foi o pesquisador Fronza (2009), que, em suas pesquisas, concluiu que o uso das histórias em quadrinhos permite uma aprendizagem histórica significativa pelo fato de os estudantes já estarem familiarizados com estes artefatos, gostarem e lerem com frequência. Além disto, o pesquisador salienta que a leitura de HQs permite ao leitor o uso simultâneo de diversas habilidades interpretativas, tanto visuais quanto verbais, e é fundamental valorizar a empatia que os estudantes têm com os quadrinhos e com o conhecimento histórico (FRONZA, 2009). Fronza, em coautoria com Sobanski et al. (2009, p. 62), afirma que a escolha da temática de seu trabalho (a HQ “Asterix e Obelix”, relacionada à Roma Antiga) se deu por dois motivos: pela HQ abordar um tema histórico ligado a um conteúdo escolar e pelo fato de que o artefato “[...] está estruturado visualmente na relação entre o realismo histórico e objetivo da representação dos cenários e das vestimentas e a identificação universal e subjetiva do cartum que representa os personagens”.
A escolha da obra “Os Miseráveis” adaptada para quadrinhos se deu por motivos aproximados: a pertinência do tema no contexto escolar e o visual do próprio livro, retratando os personagens e espaços físicos da França no século XIX. Além disto, a escolha se baseou no fato de o livro que deu origem aos quadrinhos ser um clássico da literatura mundial, largamente adaptado a diversos suportes (cinema, releituras, livros infantis), cujas reflexões sobre o ser humano e a temática central da pobreza permanecem críticas e atuais.
Novo humanismo
O conceito de Novo Humanismo, por sua vez, relaciona-se às discussões sobre humanidade e sobre a miséria e os problemas sociais, temáticas presentes na fonte escolhida e trabalhadas em sala de aula. Nosso referencial teórico foi o autor Jörn Rüsen, conhecido autor da Didática da História e do campo da Educação Histórica. Rüsen (2015) coloca que a ideia de humanidade é de suma importância para a identidade cultural, e através de um longo processo histórico, “[...] ser um ser humano tornou-se um elemento essencial da autoconsciência e autoestima” (RÜSEN, 2015, p. 53). Ele é chamado “novo” pois busca reformular o humanismo moderno, entendendo que “o humanismo como proposta universal não pode se encerrar em defesa de uma determinada tradição cultural ou religiosa” (NECHI, 2017, p. 43). Rüsen (2012), então, amplia o conceito de Humanismo moderno, que, em sua concepção, seria incapaz de abarcar a desumanidade do homem. Esse Humanismo moderno, que possui uma ideia ilusória do conceito paradigmático de humanidade na Antiguidade Clássica, é repleto de elementos eurocêntricos em sua concepção de “história universal” e é limitado em sua integração entre humanidade e natureza (RÜSEN, 2012, p. 525) – de maneira geral, o Humanismo moderno não é suficiente para definir as concepções de humanidade do século XXI. O autor vai contra “[...] os processos de internalização do conhecimento desumanizadores e instrumentalizados”, propondo uma Didática da História Humanista “[...] que permita aos sujeitos terem acesso aos princípios de uma aprendizagem histórica emancipadora e que os levem ao autoconhecimento a partir do reconhecimento do outro, no processo de formação da consciência histórica” (RÜSEN, 2015, p. 06). O autor pontua a necessidade de desenvolver um novo conceito de humanidade, pois o conceito moderno, tal qual estava posto, não daria conta de explicar o mundo do século XXI. Um humanismo que condiz com a realidade atual “[...] deve integrar a sombra da desumanidade na ideia de humanidade com base no princípio da dignidade humana” (RÜSEN, 2015, p. 27). Ele ainda argumenta que não se pode simplesmente reproduzir este humanismo moderno ocidental, mas sim desenvolvê-lo em consonância com as experiências históricas do século passado e deste século, visando a comunicação intercultural existente na contemporaneidade (RÜSEN, 2015).
Rüsen (2015) faz uma interessante reflexão, da qual nos apropriamos para pensar a temática do Novo Humanismo na realização de atividades na contemporaneidade, como se propõe esta pesquisa. O autor afirma que “a ideia da humanidade, transculturalmente válida, pode assim ser realizada na internalização, pelos reflexos mútuos desses diferentes conceitos, do espelho da alteridade” (RÜSEN, 2015 apud FRONZA; SCHMIDT, 2015). Os autores Fronza e Schmidt, 2015, p. 09) continuam esta afirmação dizendo que esse princípio parte da aprendizagem histórica e se aplica “quando as experiências do passado passam a ser internalizadas a partir da dimensão do sofrimento humano e que os conflitos e dores que os jovens sofrem contemporaneamente tem suas contrapartes em outras épocas e sociedades”. Ou seja, há a necessidade de que as pessoas da atualidade entendam que as experiências históricas de sofrimento do passado constituem o “nós” do presente (não são experiências “velhas” descoladas do presente, mesmo que pareçam geográfica e temporalmente distantes do “hoje”) para que, com isto, possam continuar lutando pela manutenção dos direitos já conquistados, bem como democratizá-los, tornando-os acessíveis a todos, levando à dignidade e à igualdade humanas tão necessárias (e ainda utópicas) na atualidade (FRONZA; SCHMIDT, 2015).
Histórias em quadrinhos
O uso de histórias em quadrinhos em sala de aula se justifica pelo fato de serem “fontes históricas relevantes ligadas ao âmbito da cultura juvenil” (SOBANSKI et al., 2009, p. 46), permitindo construir ideias históricas. São entendidas também como “narrativas históricas gráficas”, cuja linguagem permite compreender a relação entre passado e presente. São, portanto, narrativas históricas estruturadas de maneira estética. Segundo os historiadores ligados à Educação Histórica, “a narrativa histórica é a forma [...] da expressão do pensamento histórico e da aprendizagem da formação histórica” (SOBANSKI et al., 2009, p. 46). Em suas pesquisas, Marcelo Fronza (2009) concluiu que o uso das histórias em quadrinhos permite uma aprendizagem histórica significativa pelo fato de os estudantes já estarem familiarizados com estes artefatos, gostarem e lerem com frequência. Além disto, a leitura de HQs permite ao leitor o uso simultâneo de diversas habilidades interpretativas, tanto visuais quanto verbais, e é fundamental valorizar a empatia que os estudantes têm com os quadrinhos e com o conhecimento histórico vindo deles. A sobreposição de textos e imagens nos quadrinhos faz de sua leitura “um ato de percepção estética e de esforço intelectual” (EISNER, 1989, p. 08), trabalhando com habilidades necessárias não apenas às aulas de História, mas à sua formação de maneira geral.
Desta maneira, o uso de quadrinhos em aulas de História é justificado pelo apelo que este suporte tem com os jovens, tanto pela facilidade de leitura quanto pelo atrativo visual que ele proporciona, com imagens e diálogos curtos. Fronza (2009, p. 218) ainda coloca que a aprendizagem pode ser “divertida” e permite uma “melhor memorização dos conteúdos” pela forma com que as histórias são narradas. Ainda através de suas pesquisas, o autor concluiu que as HQs com temas históricos “[...] permitem uma passagem da cultura primeira dos jovens para um conhecimento histórico elaborado” (p. 219).
Sobre o apelo que as histórias em quadrinhos têm com o público, Eisner (1995 apud FRONZA, 2007) pontua que a empatia é fundamental para que as HQs sejam um “artefato mediador” entre o público e o narrador. Já o autor Pessoa (2006) acrescenta, sobre as HQs, que sua capacidade de entreter, educar, questionar, manifestar, refletir e ser refletida por seu público leitor coloca todos os colegas educadores da arte sequencial em uma situação privilegiada: a de poder fornecer aos alunos o apoio que muitos de nós não tiveram. “A construção de seus personagens por meio de recursos literários, grafismo com as artes plásticas, [...] faz das HQs uma das mídias mais completas que não a tornam apenas popular, mas que em seu aspecto “pop” tem poder elucidativo, contestador e didático” (LUYTEN, 2005 apud PESSOA, 2006, p. 51)
A partir destas discussões, defende-se que as HQs, desde que bem utilizadas e entendidas como elementos muito presentes na cultura histórica dos jovens estudantes (e também dos professores), podem contribuir para o desenvolvimento da consciência histórica em sala de aula. Seu uso também pode estar ligado à produção de narrativas em quadrinhos pelos próprios estudantes, entendendo que a consciência histórica é expressa através da narrativa (SCHMIDT; BARCA; MARTINS, 2011), e as HQs são entendidas como tal.
Concordamos com Rama e Vergueiro (2004, p. 2125), que elencam nove motivos pelos quais as HQs contribuem para o ensino. Resumimos aqui as ideias principais de cada um deles:
- “Os estudantes querem ler os quadrinhos”: os estudantes se identificam com a linguagem dos quadrinhos, que lhes é conhecida de seu próprio cotidiano, mostrando-se entusiasmados com elas.
- “Palavras e imagens, juntos, ensinam de forma mais eficiente”: a interligação entre os dois códigos cria um novo nível de comunicação, já que os quadrinhos possuem linguagem própria, indo além da simples relação texto-imagem, proporcionando novas formas de compreensão do conteúdo por parte dos estudantes.
- “Existe um alto nível de informação nos quadrinhos”: há uma grande variedade de temas sobre os quais já se produziu conteúdo em forma de quadrinhos, de maneira que é possível utilizá-los para abordar os mais variados conteúdos em sala de aula.
- “As possibilidades de comunicação são enriquecidas pela familiaridade com as histórias em quadrinhos”: a variedade de recursos na linguagem dos quadrinhos (balão, onomatopeia, sequência de planos, etc.) dá acesso, aos estudantes, a variadas possibilidades de comunicação.
- “Os quadrinhos auxiliam no desenvolvimento do hábito de leitura”: as HQs podem ser porta de entrada para a prática da leitura, já que são recursos bastante atrativos, e sua introdução em sala de aula pode ser um incentivo aos estudantes para que leiam mais, facilitando também as leituras voltadas para o estudo.
- “Os quadrinhos enriquecem o vocabulário dos estudantes”: as HQs são escritas em linguagem cotidiana, de fácil entendimento, mas a ampla gama de temas disponíveis abre um leque de vocabulário diversificado.
- “O caráter elíptico da linguagem quadrinhística obriga o leitor a pensar e imaginar”: os leitores são instigados “[...] a exercitar o seu pensamento, complementando em sua mente os momentos que não foram expressos graficamente, dessa forma desenvolvendo o pensamento lógico” (RAMA; VERGUEIRO, 2004, p. 24).
- “Os quadrinhos têm um caráter globalizador”: os quadrinhos são veiculados no mundo todo, de maneira que HQs de lugares distintas tem mensagens que podem ser compreendidas por qualquer estudante, sem que exista necessidade de um conhecimento cultural anterior específico. Possibilitam também uma interdisciplinaridade com outras áreas do conhecimento.
- “Os quadrinhos podem ser utilizados em qualquer nível escolar e com qualquer tema”: “a grande variedade de títulos, temas e histórias existentes permite que qualquer professor possa identificar materiais apropriados para sua classe de alunos” (RAMA; VERGUEIRO, 2004, p. 25), independente da faixa etária.
A versão de “Os Miseráveis” escolhida para desenvolver o trabalho foi publicada pela L&PM Editores em 2012. Trata-se de uma obra em quadrinhos adaptada do original, escrito por Victor Hugo em 1862, por Daniel Bardet, desenhada por Bernard Capo e colorida por Arnaud Boutle. A tradução para o português foi realizada por Alexandre Boide. Esta versão faz parte de uma coleção chamada “Clássicos da Literatura em Quadrinhos” e contou com o apoio da Unesco.
As HQs produzidas pelos alunos
A atividade solicitada aos alunos foi a produção de uma história em quadrinhos que abordasse problemas sociais. Entendemos por problemas sociais o que defende Catão (2011, p. 460):
Um problema social existe quando coletividades sofrem por mutilações do cotidiano, por desigualdade social e injustiça vivenciada. Isto é, quando as instituições que deveriam estar em consonância com o desejo humano não cumprem seus objetivos ou não existem.
A autora faz uma abordagem voltada para a psicologia sobre a relação entre ser humano e problemas sociais, e traz definições interessantes sobre o que é problema social e de que maneira afetam o ser humano. Concordamos com ela ao pontuar que
Em termos operacionais, o problema social pode ser compreendido pela análise da relação entre a situação atual e a situação desejada, entre o que existe e o que deveria existir, entre o que foi alcançado e o que deveria ser alcançado, configurando a discrepância entre o “que é”, o “como está” e o como “deve ser” (CATÃO, 2011, p. 461).
Seriam, então, situações de injustiça, em que haveria negligência por parte das instituições que deveriam estar encarregadas de agir contra elas (ou mesmo onde não existiriam tais instituições, que são geralmente reconhecidas na figura de governos e instrumentos governamentais), causando sofrimento a uma pessoa ou a um grupo de pessoas que sofrem desigualdade. Nosso desejo foi, portanto, verificar o que os alunos entendiam por problemas sociais e de que forma expressariam isto nos quadrinhos.
Cada aluno produziu (roteirizou, desenhou e coloriu) uma HQ, totalizando 30 histórias, todas desenvolvidas em sala de aula. De acordo com Rama e Vergueiro (2004, p. 128), “este tipo de atividade, além de permitir a interdisciplinaridade de História, Língua Portuguesa e Artes, pode estimular os estudantes a desenvolverem a competência de representar e comunicar (comunicação escrita, gráfica e pictórica)”. Um de nossos objetivos ao solicitar a criação de uma HQ foi precisamente a questão da representação e da comunicação, trabalhando diferentes formas de expressão de opiniões no ensino de História. Rama e Vergueiro (2004) continuam dizendo que estas atividades também estimulam a criatividade, que é, muitas vezes, desestimulada no ensino tradicional.
Outra preocupação foi que os alunos representassem da maneira como se sentissem confortáveis; concordamos que “os desenhos dos alunos não precisam ser uma ‘obra de arte’. Basta apenas que sejam funcionais, isto é, possam transmitir uma ideia com eficácia, comunicar os elementos contidos no roteiro” (RAMA; VERGUEIRO, p. 128). Isto foi bastante perceptível: há “homens palito” nas HQs que representam de maneira muito satisfatória as ideias de seus autores. Para analisar as histórias em quadrinhos, optamos por separá-las de acordo com a temática geral abordada pelo estudante. Obtemos assim seis categorias:
| TEMAS DAS HDs PRODUZIDAS PELOS ESTUDANTES | N° DE ALUNOS | % |
| 1- VIOLÊNCIA | 9 | 30% |
| 2- PRECONCEITO | 8 | 27% |
| 3- OUTROS | 6 | 20% |
| 4- DROGAS | 3 | 10% |
| 5- TRABALHO INFANTIL | 2 | 7% |
| 6- DESIGUALDADE SOCIAL | 2 | 7% |
| TOTAL | 30 | 100% |
Para que pudéssemos analisar as respostas dos alunos, trocamos seus nomes por pseudônimos, que foram escolhidos por eles próprios. Optamos por não usar os nomes para preservação da identidade e não usamos meramente números para nos referirmos aos alunos para que não houvesse descaracterização da individualidade de cada estudante, sendo que todos são sujeitos ativos na pesquisa. Para evitar que a pesquisadora atribuísse nomes segundo seu próprio juízo que pudessem de alguma forma identificar ou privilegiar algum estudante, optamos por solicitar que eles próprios escolhessem seus nomes, baseados em critérios próprios. A pesquisadora apenas solicitou que não optassem por nomes ofensivos ou palavras de baixo calão. É perceptível que a escolha também caracteriza uma forma de entendimento social, mostrando a cultura e a individualidade de cada um, com nomes que se referem a jogos, personagens literários ou de filmes e séries, nomes de canais do YouTube ou mesmo apelidos pelos quais os estudantes se reconhecem em seu grupo social. Salientamos que não interferimos na escolha dos pseudônimos (com exceção de solicitar que não escolhessem palavras ofensivas), de maneira que cada aluno pudesse se expressar da forma como quisesse.
Abaixo, estão as categorias, a quantidade de trabalhos em cada uma e um exemplo:
1- Violência: nove jovens tiveram seus trabalhos enquadrados nesta categoria. Reunimos os relatos que traziam menções ou representavam diversos tipos de violência (balas perdidas, violência nas favelas, roubo com violência e uso de armas), e cabe destacar três jovens, todas do sexo feminino, que retrataram formas de violência contra a mulher. Trata-se de um problema comum na região em que está localizada a escola, com diversos relatos e situações acontecendo nas redondezas. Desta feita, entendemos também que é um problema significativo tanto na realidade cotidiana particular destes jovens quanto na realidade brasileira, em um contexto geral.

2- Preconceito: oito jovens retrataram o preconceito em suas mais diversas formas, destacando o racismo, o preconceito contra pessoas pobres e a homofobia. Cabe ressaltar que um dos jovens relatou, especificamente, um caso de bullying na escola. A partir de nossas análises, entendemos que este foi o segundo problema social mais retratado, por se tratar de uma realidade mais próxima dos alunos. Pensamos também que são problemas sociais bastante presentes e marcantes na sociedade brasileira, sendo refletidos na realidade e na mentalidade dos jovens participantes da pesquisa. Um exemplo de quadrinho enquadrado nesta categoria foi o produzido pelo aluno Yasuo U.F, que retrata a discriminação do diferente e, detalhe bastante comum nas HQs produzidas, traz um “final feliz”, com o aluno não apenas expondo o problema social escolhido, e sim propondo soluções para ele (no caso, o personagem diferente resolveu lutar por seus direitos).


Fonte: Elaborada pelo jovem Yasuo U.F. (2018)
3- Outros: nesta categoria, temos uma miscelânea de temas bastante interessantes, mas que não se encaixaram nas outras categorias desenvolvidas por nós. Foram seis trabalhos, e os temas são: abandono parental, maus tratos a animais, poluição, aborto, prostituição (temas que, de certa forma, se enquadram também em alguma categoria de violência) e questões político-partidárias. Destacamos nesta categoria o trabalho da aluna Manuela, que fala sobre a poluição e a necessidade de combatê-la, descartando o lixo corretamente. O interessante é que o foco das discussões das aulas não foram os problemas ambientais, mas é relevante que a aluna tenha trazido tal assunto à baila, já que também é algo muito presente na sociedade atual e bastante veiculado, sobretudo com o aumento na preocupação com relação à quantidade de resíduos produzidos anualmente pelo homem e seu destino incorreto.

4- Drogas: três HQs estão nesta categoria, pois abordaram especificamente o problema das drogas, envolvendo também a violência. Porém, optamos por separar da categoria anterior por se referirem explicitamente ao tráfico e consumo de drogas, mesmo que envolvam outros problemas, como no caso da HQ de Nicão, que mostra uma criança encontrando oportunidades de vida no tráfico.


5- Trabalho infantil: duas HQs estão nesta categoria por serem muito representativas destes problemas sociais envolvendo especificamente crianças. Retratam crianças cujo sonho é estudar, mas que são obrigadas a trabalhar. Um deles contém um “final feliz” desta criança sendo adotada e resgatada de sua situação:

6- Desigualdade social: nesta categoria, estão dois trabalhos cuja temática principal é a desigualdade social. Destacamos o trabalho de Ahri. Seu autor faz uma reflexão sobre os muitos problemas sociais que acontecem simultaneamente em nosso mundo, e termina a narrativa com uma indagação: “Será que a salvação será o extermínio?”. Esta posição pessimista, apesar de impopular entre a população do estudo, foi demonstrada por alguns estudantes em diversos momentos ao longo do estudo, seja na roda de conversa ou nas outras produções solicitadas.

Salientamos que as HQs escolhidas para compor o texto foram usadas para exemplificar as categorias às quais pertencem, e todas as 30 HQs compõem o texto completo da dissertação de Mestrado.
Considerações finais
O foco desta pesquisa foi a possibilidade do uso da história em quadrinhos para discutir o Novo Humanismo de Rüsen. Os questionamentos que tínhamos, conforme apresentado no início deste texto, foram: “É possível que os jovens estudantes apresentem ou desenvolvam um sentido de orientação temporal por meio dos valores e ideias do Novo Humanismo e da defesa da dignidade humana através do contato com a obra ‘Os Miseráveis’? O formato de quadrinhos da obra facilitaria o entendimento do conteúdo e o prazer da aprendizagem?”. E concluímos que sim, é possível – os estudantes, em sua maioria, demonstraram, através das atividades propostas, não só se orientarem temporalmente e serem capazes de fazer comparações passado-presente, como também fazer projeções futuras e analisar o próprio presente para pensar e refletir sobre as mudanças necessárias para que tenhamos ações positivas e benéficas para o mundo em que vivemos.
Sobre o formato, também concluímos que sim: a leitura da HQ, com os recursos visuais e dinamismo, facilitou o entendimento e o envolvimento dos estudantes, que participaram ativamente das atividades propostas. No estudo exploratório que realizamos no início da pesquisa para a produção da dissertação, verificamos que as HQs fazem parte do cotidiano dos alunos, que conhecem este suporte e o consomem ou consumiram HQs de maneira significativa. Ponderamos que as HQs permitem uma aprendizagem histórica significativa por parte dos estudantes justamente por serem parte de seu universo cultural (FRONZA, 2009), de maneira que, após anos de resistência com relação aos quadrinhos, o meio educacional vem inserindo este recurso de maneira crescente no ensino e na aprendizagem das mais diversas temáticas em sala de aula, e não somente nas aulas de História.
Destacamos também a importância da produção da HQ por parte dos alunos, exercício que permitiu que expressassem suas ideias históricas em um formato não tão convencional, visto que as aulas de História geralmente remetem à produção de textos escritos.
Avaliamos que a relevância do tema da pesquisa faz com que seja possível estendê-la, pois ainda há muito a ser trabalhado com relação ao humanismo e aos Miseráveis em si. Entendemos, como Victor Hugo, que “em todo lugar onde o homem for ignorante e cai desesperado, em todos os lugares onde a mulher se vende por um pão [...], Os Miseráveis batem à porta e dizem: ‘Abram para mim, estou vindo para vocês’” (HOVASSE, 2012, p. 47).
Agradecimentos
Agradecemos à CAPES pelo financiamento durante o Mestrado, possibilitando a elaboração da dissertação defendida em 2019.
REFERÊNCIAS
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CATÃO, M. F. O ser humano e problemas sociais: questões de intervenção. Temas em Psicologia, Ribeirão Preto, v. 19, n. 2, p. 459-465, 2011.
EISNER, W. Quadrinhos e arte seqüencial. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
FRONZA, M.; SCHIMIDT, M. A. Contribuições de Jörn Rüsen para a didática da história na perspectiva do humanismo. In: RÜSEN, J. Humanismo e didática da história. SCHIMIDT, M. A.; BARCA, I.; FRONZA, M.; NECHI, L. P. (Organização e tradução). Curitiba: W.A. Editores, 2015.
FRONZA, M. Aprendendo história com as histórias em quadrinhos. In: SCHIMDT, M. A.; BARCA, I. Aprender história: perspectivas da educação histórica. Ijuí: Ed. Unijuí, 2009. p. 197-224.
FRONZA, M. O significado das histórias em quadrinhos na Educação Histórica dos jovens que estudam no Ensino Médio. 2007. 170 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007
HOVASSE, J. Os miseráveis. In: BARRETO, J. (Org). Victor Hugo: disseminações. Vinhedo, SP: Ed. Horizonte, 2012.
NECHI, L. P. O novo humanismo como princípio de sentido da didática da história: reflexões a partir da consciência histórica de jovens ingleses e brasileiros. 2017. 293 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2017.
PESSOA, A. R. Quadrinhos na Educação: uma proposta didática na Educação Básica. 2006. 185 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2006.
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Notas de autor
Información adicional
Como referenciar este artigo: MARTINS, G. M. C; CAINELLI, M. R. Aprendizagem histórica e novo humanismo: as ideias históricas dos jovens a partir da leitura dos quadrinhos de “Os Miseráveis”. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 16, n. 2, p. 573-592, abr./jun. 2021. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v16i2.13202