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Recepción: 12 Julio 2021
Recibido del documento revisado: 15 Agosto 2021
Aprobación: 13 Septiembre 2021
Publicación: 21 Octubre 2021
DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v16i4.13910
Resumo: Esta pesquisa analisa as trajetórias formativa e profissional de três professores que desenvolvem projetos sociais esportivos de capoeira, voleibol e badminton. Este é um estudo descritivo e multicasos, ancorado na tradição de investigação narrativa. O esporte marcou a socialização pré-profissional dos professores, bem como a educação familiar e escolar. Eles adquiriram experiência fazendo estágios extracurriculares em projetos esportivos ou tiveram que buscar novos conhecimentos para atuar. Dois professores encontram-se na fase de diversificação da carreira e o professor mais experiente no estágio de renovação do interesse pela profissão. Os projetos sociais esportivos não têm financiamento, os professores trabalham voluntariamente e encontraram soluções criativas para financiar as despesas. Além da formação técnica e dos resultados em competições ou eventos esportivos, os professores preocupam-se muito com a formação humana do público atendido, demonstrando um forte compromisso educacional e social com seus alunos e comunidades.
Palavras-chave: Formação docente, Atuação profissional, Esporte, Projetos sociais.
Resumen: Este investigación analiza las trayectorias formativa y profesional de tres maestros que desarrollan proyectos sociales deportivos de capoeira, voleibol y bádminton. Este es un estudio descriptivo y de casos múltiples, anclado en la tradición de la investigación narrativa. El deporte marcó la socialización pre profesional de los docentes, así como la educación familiar y escolar. Adquirieron experiencia haciendo pasantías extra curriculares en proyectos deportivos o tuvieron que buscar nuevos conocimientos para actuar. Dos maestros están en la fase de diversificación profesional y el maestro más experimentado se encuentra en la etapa de renovar el interés en la profesión. Los proyectos sociales deportivos no tienen fondos, los maestros trabajan voluntariamente y han encontrado soluciones creativas para financiar los gastos. Además de la capacitación técnica y los resultados en competiciones o eventos deportivos, los maestros están muy preocupados con la educación humana del público atendido, lo que demuestra un fuerte compromiso educativo y social con sus estudiantes y comunidades.
Palabras clave: Formación docente, Actuación profesional, Deporte, Proyectos sociales.
Abstract: This research analyzes the formative and professional trajectories of three teachers who develop social sports projects of capoeira, volleyball, and badminton. This is a descriptive and multi-case study, anchored in the narrative research tradition. Sports marked the pre-professional socialization, as well as family and school education. They acquired experience doing the extracurricular internships in sport projects or had to seek new knowledge to act. Two teachers are in the career diversification phase and the most experienced teacher is in the stage of renewing interest in the profession. Sports social projects have no funding; teachers work voluntarily and have found creative solutions to finance expenses. In addition to technical training and results in competitions or sporting events, teachers are very concerned with the human education of the public served, demonstrating a strong educational and social commitment to their students and communities.
Keywords: Teacher education, Professional acting, Sport, Social projects.
Introdução
Programas e projetos sociais esportivos têm sido oferecidos a crianças, adolescentes e adultos, por iniciativa governamental ou por organizações não governamentais (ONGs). Muito além de formar atletas, tais programas e projetos, frequentemente, aspiram objetivos mais amplos, como promover a cidadania, a saúde, a socialização dos seus participantes, geralmente em situação de vulnerabilidade social.
Pesquisadores têm se interessado por estudar este assunto sob diferentes perspectivas, seja analisando os facilitadores e barreiras na implementação do projeto (SOUZA et al., 2010; SOUZA; SOUZA; CASTRO, 2013); o esporte como ferramenta de bem-estar e socialização (TAVARES; COSTA; TUBINO, 2010); os principais significados atribuídos ao projeto pelos pais, alunos e professores (CASTRO; SOUZA, 2011); ou mesmo compreender as transformações no cotidiano de adolescentes e contribuir na estruturação do eixo norteador (HIRAMA; MONTAGNER, 2012).
Segundo Kravchychyn e Oliveira (2015), a gestão dos projetos esportivos apresentam processos de estruturação, implementação e avaliação complexos; priorizam beneficiados em situação de vulnerabilidade social, com uma visão salvacionista e objetivos generosos, mas há dificuldades de gestão.
De acordo com este estudo, os programas e projetos sociais esportivos se preocupam com o ensino, o desenvolvimento e promoção da saúde, da autonomia, da cooperação, da socialização, da cidadania e da inibição do consumo de drogas, com o bem-estar individual e coletivo e com questões éticas. Por outro lado, há também projetos que se preocupam com a preparação dos alunos para a prática esportiva e participação em competições esportivas, buscando desmistificar a nocividade do esporte para a formação dos alunos, considerando também os anseios e justificativas dos alunos para a adesão e permanência nos projetos.
No que tange às competências do profissional que atua com o esporte, na dimensão habilidades de incentivo, o profissional deve: valorizar as individualidades; diversificar a metodologia de trabalho; utilizar técnicas que aumentam o nível de motivação do grupo; proporcionar um ambiente agradável à prática; integrar-se ao grupo, melhorando o relacionamento. Na dimensão atitudes, o profissional deve ter: humildade, paciência, postura ética nas relações humanas; persistência; postura e comprometimento; sinceridade nas relações; pontualidade e assiduidade e atitudes de liderança, confiança e entusiasmo (FEITOSA; NASCIMENTO, 2012).
Diante do exposto, instiga-nos saber: quais foram as trajetórias que estes professores percorreram e que os conduziram à oferta de projetos sociais esportivos? Em decorrência, o objetivo deste estudo foi investigar e analisar os percursos formativo e profissional de professores que desenvolvem projetos sociais esportivos.
Quadro teórico-metodológico
O referencial teórico deste estudo baseia-se nos estudos sobre histórias de vida e de desenvolvimento profissional dos professores (TARDIF, 2007; GONÇALVES, 1995; HUBERMAN, 1995, NÓVOA, 1995).
Vale notar que a formação dos professores é um continuum, que começa antes mesmo da formação profissional na universidade e se estende por toda a vida profissional. A socialização pré-profissional compreende os antecedentes pessoais do professor, ligados à sua história de vida, à sua socialização na família e em grupos sociais, à sua escolarização, à sua personalidade e à aprendizagem de certos aspectos da profissão, mesmo antes da formação profissional (TARDIF, 2007).
Além disso, ao longo de suas carreiras, os docentes passam por diferentes estágios ou fases: a entrada na carreira marcada pela sobrevivência e descoberta do ofício; a estabilização caracterizada pelo sentimento de competência pedagógica crescente; a diversificação e experimentação de novos métodos de trabalho e, mais para o final da carreira, pode haver uma renovação do interesse pela carreira ou um desinvestimento em relação à profissão, este último que pode ser sereno ou amargo (HUBERMAN, 1995; GONÇALVES, 1995).
Os estudos sobre as histórias de vida de professores também destacam que “o professor é a pessoa; e uma parte importante da pessoa é o professor” (NIAS, 1991 apud NÓVOA, 1995, p. 15). Ou seja, as características pessoais ou a personalidade dos professores têm um papel importante no exercício da profissão docente.
Esta pesquisa caracteriza-se por ser qualitativa, descritiva e estudo multi-casos, realizada com três professores de Educação Física que atuam em escolas públicas de Mato Grosso. Os estudos multi-casos permitem descobrir convergências e similitudes entre vários casos, mas também contribuem para análise das particularidades de cada caso (YIN, 2015).
O quadro a seguir sintetiza o perfil dos participantes da pesquisa.

A seleção dos professores colaboradores, sujeitos da pesquisa, foi intencional. Os três professores se destacam no meio esportivo e cultural das cidades onde residem pelo seu trabalho com projetos esportivos sociais. Também foram entrevistadas pessoas que conhecem os professores e os projetos desenvolvidos, com o propósito de validar e dar maior credibilidade às informações apresentadas pelos professores.
Primeiramente foi apresentada a proposta da pesquisa aos professores, que assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, consentindo também que seus nomes fossem divulgados. Depois, foi construída uma linha do tempo para destacar os períodos significativos da formação e atuação profissional. Utilizamos um roteiro de entrevista semi-estruturada sobre a trajetória de formação e atuação profissional.
As entrevistas ocorreram entre os meses de outubro e dezembro de 2019 e foram realizadas pessoalmente ou através de vídeo-chamadas e gravadas em áudio. Estas tiveram a duração média de 1h27. Após, foi realizada a transcrição das entrevistas.
No que tange ao trabalho analítico, foi utilizada a análise temática continuada (PAILLÉ; MUCHIELLE, 2012), ou seja, num primeiro momento, analisamos o corpus (transcrições das entrevistas) para constituir uma lista temática a partir das categorias conceituais oriundas do quadro teórico; em seguida, essa lista de categorias foi aplicada ao conjunto do corpus, mas com a possibilidade de que novos temas (categorias emergentes) fossem acrescentados durante a análise. As categorias de análise foram então agrupadas em unidades por aproximação temática.
Trajetórias de formação e atuação dos professores
A seguir serão apresentados os resultados deste estudo, agrupados em cinco unidades temáticas: 1) socialização, escolarização, escolha da carreira; 2) formação profissional e estágios; 3) outras experiências profissionais; 4) projetos esportivos sociais desenvolvidos; e 5) visão de outro colega sobre o professor e o projeto.
Socialização, escolarização, escolha da carreira e personalidade dos professores
No que tange à socialização pré-profissional, Augusto narrou que teve contato com o esporte na sua infância e adolescência, praticando futsal e capoeira em projetos sociais esportivos. Além disso, é de uma família de professores e quando adolescente participava como voluntário em projetos sociais nos quais sua mãe era envolvida.
Minha mãe realizava projetos, ações sociais no bairro dela. Quando ela faleceu, ela pediu para mim e para os meus irmãos dar continuidade: “Aconteça o que acontecer meu filho, acredite nos seus sonhos, não pare de ajudar as pessoas!” Isso aí que eu me lembro, ela no hospital falando para mim, me abraçando (PROFESSOR AUGUSTO, 2019).
Quanto à sua escolarização, Augusto estudou os anos iniciais do Ensino Fundamental em escola particular, pois sua família queria que tivesse uma boa base inicial. Depois estudou em uma escola pública até concluir o Ensino Médio. Ele relatou ainda que sua escolha profissional se deveu ao fato de gostar de esporte e estar envolvido neste meio desde criança.
Do mesmo modo, Demétrius se envolveu com o esporte desde cedo, incentivado por sua família. Ele treinou voleibol em um projeto social esportivo oferecido pelo SESC e, a esse respeito, narrou:
[...]. Então eu comecei a me envolver desde cedo com o esporte, [...]. E eu devo muito da minha formação profissional a essa questão esportiva, porque eu aprendi a ter disciplina, respeito, a ouvir o outro, a ser companheiro, trabalhar com o coletivo, com o social, [...]. E o projeto social visa bastante a formação da pessoa, não só a formação atlética (PROFESSOR DEMÉTRIUS, 2019).
Ele estudou todo o Ensino Fundamental e o Ensino Médio em uma escola particular confessional, destacando que a formação recebida nesta escola o influenciou muito, mudando seu modo de ser.
Então eu aprendi a ouvir, saber o momento para poder me expressar. A questão da espiritualidade influencia a todo momento. Até hoje ela é muito latente no meu lado profissional. [...]. Me ajuda a ter tranquilidade no momento de tomar uma decisão frente aos alunos ou colegas. Essa formação eu procuro levar tanto para os meus atletas, quanto para os meus alunos da educação física (PROFESSOR DEMÉTRIUS, 2019).
Devido ao seu envolvimento com o esporte e pelo fato de ter tido bons professores que o incentivaram, escolheu pelo curso de licenciatura em Educação Física. Antes disso, cursou direito e trabalhou na Guarda Municipal, mas teve algumas decepções e resolveu cursar educação física.
No caso de Joami, ele é filho de agricultores, viveu sua infância e adolescência no campo, tendo que estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Ademais, este período oportunizou diversificar seu repertório de movimentos:
A prática esportiva sempre esteve muito ligada a mim devido essa diversidade de movimento no campo: subir em árvore, correr na areia, atrás de ema, enfiar a mão em toca de tatu, fugir de cateto [...] (PROFESSOR JOAMI, 2019).
Seu pai foi esportista, mas Joami só teve oportunidade de ter contato com o esporte escolar depois que se mudou para a cidade, participando de equipes de vôlei e de atletismo. Por este envolvimento com o esporte e por ter professores que o influenciaram, escolheu o curso de Educação Física.
Formação profissional e estágios
Quanto à formação profissional, Augusto estudou Educação Física numa universidade privada entre 2004 e 2008. Desse período, descreveu:
[A formação] foi suficiente, mas também eu busquei uma qualificação, dentro da faculdade eu buscava fazer todo tipo de curso que tinha. Todo o tipo de palestra eu estava envolvido, eu assistia [...] (PROFESSOR AUGUSTO, 2019).
Neste período, além do estágio supervisionado nas escolas, também estagiou no SESI e declarou que:
O SESI foi uma grande escola porque eu tive várias oportunidades. Lá eu trabalhei com a ginástica laboral, com hidroginástica e com capoeira. Eu aprendi vários aspectos, organização de evento, até mesmo a forma de abordar e vender projetos [...]. Então foi uma grande experiência. Aquele período foi muito válido para a minha construção como profissional (PROFESSOR AUGUSTO, 2019).
Já o Demétrius cursou Educação Física entre 2006 e 2010; ele iniciou o curso em uma instituição privada, mas depois transferiu-se para uma universidade pública.
Eu acredito que a faculdade não prepara suficientemente, [...], a educação física é muito prática. Tem que ter a teoria? Sim, mas o estágio deveria ter uma carga horaria maior, porque ao término da faculdade você teria bagagem para trabalhar na escola e não ficar apanhando nos primeiros anos [...] (PROFESSOR DEMÉTRIUS, 2019).
Durante a faculdade, cumpriu os estágios supervisionados nas escolas, mas também fez estágio remunerado no projeto social esportivo Vôlei Kids, que atende alunos no contraturno escolar, com idades entre 7 e 16 anos, e é patrocinado por empresas parceiras. Ele continuou trabalhando neste projeto até o ano de 2013. Desta experiência profissional narrou que:
Eu cheguei no Vôlei Kids no auge da minha competitividade e o Vôlei Kids é um projeto social que tem outros objetivos. Aí eu comecei a entender que o objetivo era a formação de pessoas, que também tinha a formação atlética, mas não era a ênfase. Então eu trabalhei muito esse outro lado que eu precisava trabalhar [...] (PROFESSOR DEMÉTRIUS, 2019).
Joami estudou licenciatura plena em Educação Física em universidade pública entre 1997 e 2001. Ele disse que aproveitou seu período de faculdade, estudando muito e procurando extrair o máximo de conhecimento de seus professores. citou vários docentes e disciplinas que marcaram sua trajetória acadêmica. No entanto, considera que:
[...] a gente não sai preparado para o trabalho. Aqui fora é totalmente diferente, mas muita coisa a gente consegue aproveitar. Eu trabalho com alunos que tem down, que tem TDHA, que são autistas, e eu não aprendi a lidar com isso na faculdade. Eu tive que aprender aqui fora, fazer cursos, ler e aprender muito com os alunos (PROFESSOR JOAMI, 2019).
Além dos estágios supervisionados obrigatórios, também realizou estágios remunerados em escolas particulares e em academias de ginástica.
Outras experiências profissionais
Além de ensinar educação física nas escolas em que trabalham, todos os professores já atuaram ou ainda atuam em outras áreas. O Augusto também é animador cultural:
Em meados de 2008 eu falei: “Eu vou abrir uma empresa de animação de festas. De lá para cá a gente só veio investindo e crescendo [...]. Essa atuação como produtor cultural é magnifica, mas não foi construída da noite para o dia. Quando eu entrei na faculdade eu não imaginava que eu ia ser um produtor cultural, mas eu sempre tive curiosidade de ver como funcionava [...] (PROFESSOR AUGUSTO, 2019).
No caso do Demétrius, antes de começar a trabalhar nas escolas, foi árbitro de voleibol entre 2000 e 2016. Ele também trabalhou na Guarda Municipal. Desse período ele narrou que:
A Guarda Municipal me ensinou a enxergar tudo de outra maneira, [...]. Me ensinou que todo mundo tem o seu valor [...] eu fiquei mais disciplinado, porque era um período que eu estava muito indisciplinado, mas também aprendi a “engolir muitos sapos”. Como era uma instituição militar, eu não concordava muito, mas você tem que refletir e continuar a trabalhar porque você precisava daquilo. Nesse período algumas situações me fez pensar: “Nossa, não é esse caminho que eu quero seguir. [...], então eu vou ter que estudar!” (PROFESSOR DEMÉTRIUS, 2019).
Da sua experiência como árbitro de voleibol, Demétrius destacou que extraiu as aprendizagens de organização e profissionalismo. Disse ainda que estas características contribuíram para suas aulas e para seu projeto de voleibol, pois considera importante a questão da imparcialidade, de conseguir estabelecer algo que seja importante para o grupo todo e com harmonia. Além disso, procura partilhar essas habilidades para seus alunos.
Depois de formado, Joami mudou-se de Cuiabá para Campo Verde, MT. Lecionou Educação Física em uma escola particular e treinou a equipe escolar de vôlei de praia entre 2002 e 2003, depois passou a treinar a equipe escolar de voleibol de quadra entre 2003 e 2007. Ainda, foi coordenador de esportes em Campo Verde, MT, entre 2006 e 2008, e secretário municipal de esportes de Campo Verde, MT, entre 2008 e 2012.
Eu acredito que nesse período eu aprendi principalmente gestão de pessoas, gerir conflito, você conseguir criar uma sintonia entre essas pessoas que são extremamente diferentes numa equipe coletiva [...] (PROFESSOR JOAMI, 2019).
Uma vez apresentadas as experiências dos professores em outras áreas, a seguir serão descritos os projetos desenvolvidos por eles.
Os projetos sociais esportivos
O caso do professor Augusto: projeto de capoeira na comunidade
Augusto iniciou o projeto “Ritmo solidário: quintal da Mara” em 2017, desenvolvendo atividades de samba e percussão para crianças carentes da comunidade do bairro João Bosco Praeirinho. Este era um sonho de sua mãe, que foi a primeira mulher a tocar tamborim em Cuiabá. O projeto funcionou durante um tempo e depois teve as atividades de percussão paralisadas, continuando somente com aulas de capoeira. Em 2018, o projeto passou a ser desenvolvido na igreja do bairro.
Então para um projeto como esse primeiro você tem que mostrar para a comunidade que aquilo ali é importante. Além de ser um aspecto esportivo, social, é uma ferramenta de transformação social, eu tive que mostrar isso para as famílias. Hoje nós atendendo em torno de 25 famílias. [...]. Porque em uma comunidade que é esquecida pelos órgãos públicos a criminalidade vai abraçar, as oportunidades ruins vão ser mais comuns (PROFESSOR AUGUSTO, 2019).
Além das atividades de capoeira também realiza a Festa do dia das crianças e a Festa de Natal, com entrega de brinquedos e de cestas básicas no bairro. Para isso, faz parcerias e busca doações.
Se a gente tem uma grande proporção de brinquedos a gente entrega em vários bairros, nós já chegamos a entregar em mais de 12 bairros em Cuiabá. Fizemos uma parceria com a Polícia Civil em 2017, então cada ano a gente busca parceiros, voluntários, [...] (PROFESSOR AUGUSTO, 2019).
Outra ação desenvolvida no projeto é a realização de um espetáculo cultural no Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros, com apresentações de capoeira, maculelê e da dança folclórica cuiabana “siriri”:
A ideia surgiu de eu pensar: “A capoeira merece coisa boa!” Essa comunidade precisa ver uma coisa boa, foi uma maneira também de presentear a comunidade e colocar a capoeira no pedestal que ela merece. Fazer com excelência, com amor, pensar no resultado final do evento. Eu envolvi várias parcerias, com o projeto Siminina, com o grupo Sandero de capoeira, com o Grupo Gazeta, envolvi parcerias com vários empresários (PROFESSOR AUGUSTO, 2019).
Augusto destacou ainda que pensou em todos os detalhes, disponibilizando dois ônibus para levar a comunidade para o evento. A entrada foi de dois quilos de alimentos, que foram entregues para a Sala da Mulher da Assembleia Legislativa, responsável pelo Teatro. A meta era arrecadar 700 quilos de alimentos para serem distribuídos para comunidades carentes, ou então pagar em torno de 5 mil reais pelo aluguel do teatro. Entretanto, conseguiram arrecadar quase uma tonelada de alimentos.
O professor relatou que para ajudar nesse processo criou o projeto sustentabilidade, para arrecadar materiais recicláveis, transformando o dinheiro da venda dos materiais em alimento. Explicou para os alunos do projeto o conceito de sustentabilidade e reciclagem, em seguida solicitou que começassem a arrecadar materiais recicláveis para a venda. No entanto, para isso, abordou o tema capoeira e sustentabilidade para sensibilizar e motivar seus alunos para a reciclagem:
Eu expliquei o que era artesanal e o que era industrial para eles terem consciência disso, o valor dos materiais nesse processo. O abadá vem de onde? Do algodão. E o algodão vem de onde? Da terra. Então uma coisa vai ligando a outra. Tive que explicar para as crianças para eles abraçarem a ideia. Em vez de chegar com tudo pronto, [...] (PROFESSOR AUGUSTO, 2019).
O espetáculo cultural foi a culminância do projeto no final do ano. Para sua organização contou com a colaboração da sua esposa, de parceiros e de voluntários.
O caso do professor Demétrius: projeto de voleibol na escola
O professor Demétrius desenvolve o projeto social esportivo de voleibol na escola, idealizado com base na experiência que teve no Vôlei Kids. O projeto é desenvolvido com turmas de iniciação e treinamento de voleibol. Na escola municipal, o projeto funciona duas vezes por semana, com turmas do 4o ao 6o ano; na escola estadual acontece três vezes por semana, com as turmas do 6o ao 9o ano, sempre no contraturno. Ele destacou alguns dos resultados esportivos e sociais do seu projeto:
Alguns alunos, em um determinado momento, fazem seletivas para jogar e estudar em escolas particulares com bolsas de estudo. Vários tiveram essa oportunidade e hoje temos três atletas que estão jogando em São Paulo. Tem uma atleta que jogou no Praia Clube, ela é atleta profissional. Então tivemos alguns resultados em relação a esse tipo de trabalho (PROFESSOR DEMÉTRIUS, 2019).
Porém, os resultados da sua equipe de voleibol em competições esportivas não é o mais importante, mas sim contribuir para a formação humana de seus alunos:
Para mim, mais do que resultados em campeonatos e títulos, o mais gratificante é ver o sorriso, a satisfação e o brilho no olhar dos meus alunos e atletas. É a gratidão do aluno que vem te abraça e fala olhando nos seus olhos: “Obrigado professor!” Então... [se emociona]. Para mim isto é o mais importante, porque a gente sabe que vai seguir um caminho bom! [...]. Isso que é o mais válido, eles estão seguindo a vida deles, não estão no caminho errado. E a gente está transformando pessoas, ganhar título a gente gosta, mas vai chegar um momento que isso já não faz efeito, porque já aconteceu várias vezes. Mas a questão hoje para mim é a questão do ser humano, por isso que eu falo, a questão da espiritualidade, do ser bom, enquanto pessoa, de olhar para o outro, de trabalhar a coletividade, então para mim isso é a maior vitória. [...] (PROFESSOR DEMÉTRIUS, 2019).
O projeto não tem financiamento, assim, para viajar e participar das competições, Demétrius e os alunos fazem “vaquinha”, rifas, vendem pizza e qualquer outra ação que possa angariar recursos financeiros. Em 2019 começou a cobrar dos alunos vinte reais para custear algumas despesas (participação nas competições e manutenção de equipamentos). Ademais, muitas vezes utiliza seu próprio dinheiro, pois os alunos não têm condição econômica favorável. Para 2020, o professor destacou a intenção de criar uma associação para participar de editais para conseguir patrocínio.
As bolas utilizadas no projeto são das escolas em que trabalha. Sobre os materiais disponíveis, Demétrius narrou que é preciso mostrar trabalho para receber apoio da escola. Além disso, Demétrius ressaltou a importância de apoio para desenvolver o seu trabalho, tanto dos alunos como também da gestão da escola e da comunidade escolar. Na escola do estado em que trabalha, a diretora é ex-atleta de voleibol e, assim, sabe da importância do esporte.
A diretora [da escola] de Cuiabá vê o trabalho e me apoia também, então tudo é questão de envolvimento. A comunidade envolve, todo mundo se envolve a partir do momento que existe essa entrega do professor. Por isso, o que justifica todo esse meu tempo nas duas escolas. A gente tem uma raiz, uma ligação muito forte com a escola porque existe este envolvimento (PROFESSOR DEMÉTRIUS, 2019).
Deste modo, Demétrius reforça a importância de se ter um forte envolvimento do professor com a comunidade em que trabalha.
O caso do professor Joami: projeto de badminton na escola
No caso do Joami, seu projeto esportivo social é com o badminton. Ele começou introduzindo-o nas aulas de Educação Física e depois formou equipes de treinamento. Joami conheceu este esporte quando participou de uma competição esportiva em Sinop, MT. Ao apresentar a ideia de introduzir este esporte na escola, o diretor, que também era professor de educação física, o apoiou.
Segundo Joami, o badminton começou a conquistar os alunos da escola, então começou a pesquisar e participar de cursos para adquirir mais conhecimentos. As redes sociais o ajudaram muito nessa sua busca, conhecendo o presidente da Federação Sergipana de Badminton, que lhe enviou as regras, textos pedagógicos e o indicou o site da Badminton World Federation (BWF) e da Confederação Brasileira de Badminton (CBB).
Joami descobriu um curso de badminton na cidade de Natal, RN, em maio de 2014, conseguindo recursos para participar. Ao retornar do curso, decidiu abandonar o treinamento de voleibol e iniciar suas turmas de badminton.
Então estava eu com 40 alunos treinando badminton, desses 40 alunos eu levei 10 alunos para os Jogos Escolares da Juventude em Tangará da Serra, MT. Lá eu fui escolhido para ser técnico da seleção de Mato Grosso para participar dos Jogos Escolares da Juventude em Londrina, PR (PROFESSOR JOAMI, 2019).
Durante os Jogos em Londrina, PR, Joami recebeu um convite do Comitê Olímpico Brasileiro para participar gratuitamente de um curso para técnico nível 1 de badminton, durante o Congresso Brasileiro de Esporte Escolar, em 2015. Neste curso, teve aulas com um técnico espanhol, voltando de lá com outra mentalidade. Além disso, participa de um grupo num aplicativo de mensagens instantâneas para trocar ideias e experiências com outros professores e, também, utiliza um aplicativo de badminton no seu celular. Diferente dos outros professores desta pesquisa, Joami não tinha experiências anteriores com o esporte que desenvolveu no projeto, por isso se lançou na busca de novos conhecimentos.
Segundo Joami, desde 2014 a sua escola tem atletas de badminton nos Jogos da Juventude em âmbito nacional. Isso deu credibilidade para o seu trabalho como treinador e técnico com suas turmas de treinamento. Entende que quando trabalha com treinamento é importante “aliar o máximo possível o ser humano com o atleta”. Narra, por exemplo, que um aluno que era extremamente nervoso e brigava por qualquer coisa, um dia lhe falou:
Professor, isso eu devo ao badminton! Eu mudei o meu comportamento e a minha ideia do que é ética!” O professor Joami disse: Então, isso é uma das coisas que mais me motiva, porque a gente faz diferença não só na parte física das crianças, mas principalmente no desenvolvimento social dela! (PROFESSOR JOAMI, 2019).
Acrescentou, ainda, sua preocupação sobre a formação humanística de seus alunos/atletas:
[...], mas eu acho que este é o aspecto mais importante, de nós marcarmos o território junto a esses caras, deles olharem e falarem: “Esse cara foi meu professor e eu me lembro muito bem dele como professor, no que ele me ajudou!” Eu acho que ele vai ser um ser humano um pouco melhor e isso é importante! (PROFESSOR JOAMI, 2019).
Desse modo, o professor Joami compreende que o treinamento esportivo não tem como finalidade apenas a formação técnica dos atletas e os resultados em competições esportivas, mas vai muito além, compreendendo a formação humana.
Seus alunos/atletas já venceram competições em âmbito regional, estadual, e têm participado de competições nacionais. Ademais, entre 2014 a 2019 o professor Joami só não foi técnico da seleção mato-grossense de badminton nos Jogos da Juventude em 2016, porque naquele ano classificou apenas uma de suas atletas.
A visão de outros colegas sobre os professores e seus projetos
Em relação ao Augusto e ao projeto que desenvolve, seu mestre de capoeira contou que o conhece desde 1999, quando ele começou a treinar capoeira no SESI.
Desde esse período sempre foi uma pessoa comprometida com a capoeira, [...]. Ele sempre fomentou a prática da capoeira. Sempre formando novos cidadãos, formando alunos para a capoeira. E ele embarcou de ser também fomentador da cultura utilizando a capoeira. Hoje o Augusto é um profissional de Educação Física, comprometido e dedicado com o que faz [...]. É o cara que fica pensando em como fazer melhor e hoje ele é um dos melhores profissionais que trabalham com a capoeira [...] (MESTRE DE CAPOEIRA, 2020).
Além disso, o mestre de capoeira destacou outras qualidades do seu discípulo, que hoje também é professor:
[...]. O Augusto tem uma inserção muito bacana na sociedade, ele vai em busca de parcerias e às vezes os empresários ajudam os eventos. Se as famílias dos alunos estão precisando de alguma coisa, ele envolve as pessoas do bairro para atender a família [...]. Então além de ensinar a capoeira, ele tenta ajudar dessa forma (MESTRE DE CAPOEIRA, 2020).
Sobre o Demétrius e o projeto que desenvolve, entrevistamos a diretora de uma das escolas em que ele trabalha. Ela tem duas filhas que participam do projeto de voleibol na escola e também acompanha o professor nas viagens e competições. Ela conhece o professor há seis anos e disse:
Ele é uma pessoa comprometida com o esporte, é ético, sério e faz o que realmente gosta. [...], passei a admirar o projeto e ainda mais o professor pela dedicação que ele tem com o esporte. [...] os alunos, os pais e eu enquanto diretora só temos a agradecer (DIRETORA, 2020).
No que tange aos benefícios do projeto, a diretora afirma que:
[...] o projeto voleibol é de suma importância, porque além de tirar as crianças de ficar brincando na rua, faz com que os alunos fiquem focados no projeto. E o Demétrius por ser uma pessoa bastante exigente, tem normas, tem regras, os alunos são bastante disciplinados e com isso nós só temos a ganhar. [...] (DIRETORA, 2020).
Em relação ao Joami, a coordenadora da escola em que atua o conhece há quinze anos e disse que:
Ele é um profissional bastante dedicado. É um professor amigo dos alunos, amoroso. Os alunos respeitam muito ele, gostam muito dele. É um professor bastante amado aqui na escola (COORDENADORA, 2020).
Ela também expressou sua visão a respeito do projeto de badminton:
Os alunos adoram o projeto de badminton e contempla também alunos de outras escolas. O professor treina esses alunos sem pedir nada em troca. É um projeto que ele faz de coração, com dedicação e amor. Os pais adoram, vem assistir os filhos. [...], os alunos ficam mais motivados, melhoraram as notas devido ao projeto (COORDENADORA, 2020).
Desse modo, a visão dos colegas que conhecem os professores e os projetos desenvolvidos reforçam as qualidades e características pessoais dos professores. Reconhecem também os resultados desses projetos, tanto do ponto de vista da contribuição para o desenvolvimento humano dos alunos quanto do trabalho social com pais e comunidades.
Discussão dos resultados
Nos três casos estudados, os professores já passaram pela entrada e estabilização na carreira. Eles têm, respectivamente, onze (Augusto), nove (Demétrius) e dezoito (Joami) anos de experiência profissional, e assim, estão na fase de diversificação. Nesta etapa profissional, os professores buscam experimentar e diversificar conteúdos, estratégias de ensino, o material, ou, ainda, a busca de novos desafios (e novos projetos) para manter o entusiasmo pela profissão (HUBERMAN, 1995). O professor Joami tem mais tempo de experiência profissional, pressupomos que ele caminha no sentido de uma renovação do interesse pela profissão (GONÇALVES, 1995).
No que tange à socialização, escolarização e escolha da carreira, os resultados indicam que os professores tiveram contato com o esporte ainda na infância ou adolescência, sendo que esta experiência marcou a formação desses professores e os levou à escolha do curso de educação física. Além disso, Augusto tem professores na sua família e sua mãe era envolvida com projetos sociais. Por sua vez, a educação religiosa marcou a formação do professor Demétrius. E a experiência no campo contribuiu para a ampliação da cultura corporal do professor Joami.
Vale notar que o tempo de aprendizagem do trabalho não se limita à vida profissional, mas compreende também a existência pessoal dos professores, que de certo modo, também aprenderam seu ofício antes de iniciá-lo, nas aprendizagens do período de socialização escolar (TARDIF, 2007). Estudos na área da Educação Física também identificaram a influência das práticas esportivas ou a identificação com os professores preferidos na escolha da profissão (FOLLE et al., 2009).
Sobre a formação universitária em Educação Física, Augusto a considera suficiente, entretanto, Demétrius e Joami relataram que esta formação não prepara suficientemente o professor para sua atuação profissional. Porém, os três se empenharam para adquirir conhecimentos e desenvolver habilidades neste período de formação inicial. Além disso, para Demétrius, é importante que a carga horária do estágio supervisionado nas escolas seja ampliada, pois considera os conhecimentos teóricos importantes, mas a docência é muito prática, da experiência, da vivência, e as faculdades precisam instrumentalizar melhor os futuros professores.
A esse respeito, Hammerness, Darling-Hammond e Bransford (2019) destacam que muitos programas de formação de professores receberam críticas por serem excessivamente teóricos, com pouca conexão com a prática. Por sua vez, Darling-Hammond et al. (2019) sustentam que os futuros professores se beneficiam da participação na prática dos estágios, observando o ensino, trabalhando em estreita colaboração com os professores experientes e empenhando-se para colocar em prática o que estão aprendendo.
Dois professores desse estudo (Augusto e Demétrius) estagiaram em projetos sociais esportivos no período de faculdade. Além disso, Augusto é também animador cultural, Demétrius já trabalhou na Guarda Municipal e foi árbitro de voleibol e Joami trabalhou na Secretaria Municipal de Esportes. Sendo assim, afirmam que há conhecimentos e habilidades adquiridos nestas áreas que são transferíveis para a atuação nos projetos sociais.
Conforme Bransford et al. (2019), os saberes e habilidades mobilizados na ação pedagógica dos professores abarcam conhecimentos e ações aprendidas em outras esferas profissionais, além da escola. Estas habilidades são úteis em suas práticas pedagógicas e revelam a transferência de aprendizagem de maneira que permitem resolver problemas que os professores encontrarão mais tarde em suas aulas.
Em relação aos esportes oferecidos pelos projetos sociais estudados, foram: a capoeira no caso do professor Augusto, o voleibol no caso do professor Demétrius e o badminton no caso do professor Joami. Vale notar que Augusto e Demétrius tiveram vivências anteriores com os esportes em que trabalhavam nos seus respectivos projetos. Por sua vez, Joami não teve experiência anterior com o badminton e também não teve este conhecimento no seu curso de formação profissional. Assim, precisou adquirir conhecimentos em relação ao badminton, engajando-se em comunidades de aprendizagem informais, através de redes sociais sobre o assunto.
Os estudos sobre o desenvolvimento de professores dentro de comunidades de aprendizagem enfatizam a importância de conhecimentos que ocorrem tanto nos contextos de ensino como em contextos profissionais (HAMMERNESS; DARLING-HAMMOND; BRANSFORD, 2019). Assim, pode-se dizer que Joami passou a participar de uma comunidade de aprendizagem ou de prática, mesmo que de maneira informal. Nessas comunidades professores aprendem juntos e oferecem suporte à aprendizagem e à solução de problemas (DARLING-HAMMOND et al., 2019).
Os três casos estudados mostraram que os professores buscaram apoio da direção da escola ou da comunidade atendida pelos projetos, considerando este apoio e engajamento social essenciais para conseguirem realizar um bom trabalho. A esse respeito, pesquisas revelam que para o profissional que atua em projetos esportivos sociais não basta conhecer a comunidade, ter uma conduta correta, cumprir com suas obrigações e ter o conhecimento técnico da área a ser trabalhada, mas é preciso também se envolver e se comprometer com a comunidade que está trabalhando, numa perspectiva de transformação social (HIRAMA; MONTAGNER, 2012).
Além disso, pesquisas sobre os projetos sociais esportivos revisadas por Kravchychyn e Oliveira (2015) demonstram que as parcerias projeto-escola se mostram eficazes, mas alguns estudos revelam restrições no atendimento de alunos não matriculados na escola-sede do projeto, disputas do uso dos espaços esportivos com as aulas de Educação Física e a substituição da participação destas aulas para alunos que participam do projeto, decorrência de equívoco institucional e pedagógico.
Os três projetos sociais esportivos estudados não dispõem de financiamento ou patrocínio nem governamental nem de empresas, mas os professores e seus alunos realizam campanhas para arrecadar fundos para a manutenção do projeto, tais como: rifas, vendas de pizza, arrecadação, venda de materiais recicláveis, dentre outros. Constata-se, aqui, a utilização de uma solução criativa para a falta de financiamento para o projeto: professor e alunos fazem promoções para arrecadar fundos, evidenciando a capacidade de iniciativa e de resolução de problemas.
Sobre o apoio financeiro para a realização de projetos esportivos, a revisão da literatura de Kravchynchyn e Oliveira (2015) evidencia que a maior parte dos projetos sociais esportivos analisados tem o apoio financeiro governamental, seja federal, em especial o Programa Segundo Tempo, ou de iniciativas de governos estaduais ou municipais. Dos 28 estudos analisados, apenas quatro tiveram apoio financeiro da iniciativa privada.
Dois dos professores destacaram alguns resultados de suas equipes em competições esportivas e todos os professores ressaltaram que mais importante do que os resultados esportivos são os resultados educacionais dos projetos e a formação humana de seus alunos. Pesquisas revelam que a participação em projetos sociais esportivos pode contribuir para o desenvolvimento de valores humanos, como: a promoção da saúde, o bem-estar individual e coletivo, a autonomia, a socialização e cidadania, as questões éticas, bem como a inibição ao uso de drogas (SOUZA; CASTRO; MEZZADRI, 2012; SOUZA et al., 2010).
No caso do professor Augusto, vimos que realizou uma culminância do seu projeto em um teatro, com apresentações de capoeira, maculelê e siriri. No caso de projetos sociais e/ou escolares de dança é comum haver a realização de um espetáculo ou festival no final do ano ou em uma data especial (MARQUES, SURDI; KUNZ, 2013), o que contribui para a divulgação do projeto, para a educação estética de pais e filhos, para a autoestima dos alunos, e valoriza o trabalho realizado (STRAZZACCAPPA, 2003).
Considerações finais
Esta pesquisa investigou as trajetórias de formação e de atuação profissional de professores de Educação Física que atuam em projetos sociais esportivos. Foi evidenciado que estes professores tiveram contato com o esporte em projetos sociais ou na escola. O esporte teve um papel importante na socialização pré-profissional destes docentes. Mas outros aspectos de suas histórias de vida também marcaram a formação pré-profissional dos professores, tais como a educação familiar, a escolarização e o meio social em que cresceram. A escolha da profissão se deu pelo envolvimento dos professores com o esporte.
No que tange à formação docente, fica evidente a necessidade de se repensar a formação, potencializando o estágio e as atividades que estabeleçam conexão direta com o “chão da escola”, bem como com as comunidades em que os discentes estão inseridos. Dessa forma, os estágios extracurriculares em projetos esportivos sociais ou a busca de novos conhecimentos e habilidades profissionais para atuar nos projetos se apresentam com potencial formativo e foram aspectos destacados para a atuação dos professores nos projetos sociais esportivos.
Os professores também atuaram em outros segmentos da área (animador cultural, árbitro, Secretaria Municipal de Esportes) e conseguiram extrair aprendizagens e adaptá-las para o trabalho com os projetos esportivos. Além da formação técnica e dos resultados esportivos de suas equipes em competições, estes professores preocupam-se muito com a formação humanística de seus alunos.
Os projetos analisados não têm financiamento, mas os professores encontraram soluções criativas para custeá-los e trabalham voluntariamente. Enfim, estes professores demonstraram um forte compromisso educacional e social com seus alunos e comunidades, agindo como atores sociais engajados com a formação das novas gerações, tendo como preocupação imprescindível transformar seus alunos em pessoas melhores por meio do esporte e de seus ensinamentos.
REFERÊNCIAS
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COORDENADORA. Entrevista. Cuiabá, MG, 28 abr. 2020.
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Notas de autor
Información adicional
Como referenciar este artigo: GODOI, M. R.; KAWASHIMA, L. B.; MOREIRA, E. C. Compromisso educacional e social: trajetórias de professores que desenvolvem projetos sociais esportivos. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 16, n. 4, p. 2473-2492, out./dez. 2021. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v16i4.13910