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SEXO E DEFICIÊNCIA: DISCURSOS DE JOVENS DIAGNOSTICADOS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E DE SEUS FAMILIARES
SEXO Y DISCAPACIDAD: DISCURSOS DE JÓVENES DIAGNÓSTICADOS CON DISCAPACIDAD INTELECTUAL Y SUS FAMILIAS
SEX AND DISABILITY: DISCOURSES OF YOUNG PEOPLE DIAGNOSED WITH INTELLECTUAL DISABILITIES AND THEIR FAMILIES
SEXO E DEFICIÊNCIA: DISCURSOS DE JOVENS DIAGNOSTICADOS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E DE SEUS FAMILIARES
Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, vol. 17, núm. 1, pp. 263-280, 2022
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Recepción: 29 Julio 2021
Recibido del documento revisado: 13 Septiembre 2021
Aprobación: 27 Octubre 2021
Publicación: 02 Enero 2022
Resumo: A pesquisa em educação especial é uma área complexa, transpassada por variados temas. Uma das discussões emergentes no cenário científico atual é a intersecção entre os estudos da deficiência e do sexo. O objetivo geral desta pesquisa foi explorar os discursos e as experiências de jovens com deficiência intelectual e de seus familiares sobre deficiência e sexo. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com nove jovens diagnosticadas/os com deficiência intelectual e com seus familiares, as quais foram analisadas qualitativamente a partir da arqueogenealogia de Foucault. Os resultados mostraram que as/os jovens possuem desejos emancipatórios, aspirando estabelecer relações amorosas, contudo seus discursos são permeados por ideias preconceituosas sobre sexo, as quais são transmitidas e reafirmadas por seus familiares. Os discursos analisados mostraram que a relação entre deficiência e sexo na vida de ambos os grupos é marcada por mitos de assexualidade, hipersexualidade e noções abjetivantes. A realização de grupos de educação sexual que promovam reflexões sobre os discursos cristalizados que envolvem deficiência e sexo podem contribuir para a mudança desse cenário, promovendo o desenvolvimento afetivo e a inclusão social de pessoas com deficiência.
Palavras-chave: Pessoa com deficiência, Sexualidade, Educação especial.
Resumen: La investigación en educación especial es un área compleja, atravesada por varios temas. Una de las discusiones emergentes en el escenario científico actual es la intersección entre los estudios de discapacidad y sexo. El objetivo general de esta investigación fue explorar los discursos y experiencias de jóvenes con discapacidad intelectual y sus familias sobre la discapacidad y el sexo. Se realizaron entrevistas semiestructuradas a nueve jóvenes diagnosticados con discapacidad intelectual y sus familias, que fueron analizados cualitativamente a partir de la arqueogenealogía de Foucault. Los resultados mostraron que los jóvenes tienen deseos emancipatorios, aspirando a entablar relaciones amorosas, sin embargo sus discursos están permeados por ideas prejuiciosas sobre el sexo, las cuales son transmitidas y reafirmadas por sus tutores. Los discursos analizados mostraron que la relación entre discapacidad y sexo en la vida de ambos está marcada por mitos de asexualidad, hipersexualidad y nociones abyectivas. La realización de grupos de educación sexual que promuevan reflexiones sobre los discursos cristalizados que involucran discapacidad y sexo puede contribuir a cambiar este escenario, promoviendo el desarrollo afectivo y la inclusión social de las personas con discapacidad.
Palabras clave: Persona con discapacidad, Sexualidad, Educación especial.
Abstract: Researches in special education is a complex area, crossed by several themes. One of the emerging discussions in the current scientific scenario is the intersection between the studies of disability and sex. The general objective of this research was to explore the discourses and experiences of young people with intellectual disabilities and their families about disability and sex. Semi-structured interviews were conducted with nine young people diagnosed with intellectual disabilities and their families, which were qualitatively analyzed based on Foucault's archaeogenealogy. The results showed that young people have emancipatory desires, aspiring to establish loving relationships, however their discourses are permeated by prejudiced ideas about sex, which are transmitted and reaffirmed by their guardians. The discourses analyzed showed that the relationship between disability and sex in both their lives is marked by myths of asexuality, hypersexuality and abjective notions. The realization of sex education groups that promote reflections on the crystallized discourses that involve disability and sex can contribute to change this scenario, promoting the affective development and social inclusion of people with disabilities.
Keywords: People with disabilities, Sexuality, Special education.
Introdução
A pesquisa em educação especial é uma área complexa, transpassada por variados temas. A inclusão da pessoa com deficiência (PcD), o direito à vida, à convivência e ao acesso são temas discutidos na atualidade, tanto no âmbito escolar e organizacional quanto no âmbito social.
O Estatuto da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2015) define por pessoa com deficiência aquela que possui impedimentos físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais que prejudiquem sua participação plena na sociedade. São tipos de deficiência: deficiência física, intelectual, auditiva, visual e a múltipla deficiência. De acordo com o Censo de 2010 (BRASIL, 2012), mais de 45 milhões de brasileiros relatam possuir alguma deficiência.
Muitos temas despertam interesse de pesquisadores da área da educação especial. É notável a incidência de pesquisas brasileiras que investigam relação da PcD com a educação, escolaridade, empregabilidade e o convívio social. Contudo, estão emergindo no cenário científico brasileiro pesquisas que discutem a intersecção entre os estudos da deficiência e do sexo (OLIVEIRA, 2016).
De acordo com Foucault (2017a; 2017b; 2017c), sexo corresponde ao uso do corpo e seus prazeres. Este fenômeno, desta forma, é inerente a todos os seres humanos, não se limitando apenas ao ato sexual, mas englobando experiências corporais e afetivas, a “conduta, seus deveres, prazeres, sentimentos, sensações e sonhos” (FOUCAULT, 2017b, p. 8). Ainda segundo Foucault, o termo sexualidade corresponde aos saberes produzidos e divulgados sobre o sexo, tanto aos saberes provindos do governo e de instituições como escolas e serviços de saúde, quanto aos discursos cotidianos e corriqueiros.
Mesmo o sexo se fazendo presente na vida de todas as pessoas, este é alvo de controle social por saberes e poderes de diversas instituições, como a igreja, o governo e a escola. Estas instituições buscam o controle dos corpos a partir da divulgação de saberes sobre sexo correto, ou sexo capaz, diretamente relacionados às noções de corpo belo e capaz (MCRUER, 2006; MCRUER; MOLLOW, 2012; FOUCAULT, 2017d).
Nesse jogo de saberes e poderes, as PcD têm seu corpo, sexo e sexualidade invalidados, direcionados a um patamar de abjeto. O abjeto, segundo Mello e Nuernberg (2012), é o contrário de humano, o oposto de correto, algo que causa repulsa e sofre exclusão do convívio social. A abjeção é quando pessoa ou grupo são colocados nesse patamar, fenômeno que se concretiza por discursos e poderes abjetivantes.
Para Wilkerson (2012), a sociedade desenvolveu várias maneiras de reforçar modelos de sexo capaz e abjetivar outras vivências sexuais, como os saberes provindos das escolas e das instituições de saúde, a produção de corpos considerados atraentes e não atraentes em filmes, séries, novelas e demais meios midiáticos, facilidade na troca de nome em casamentos heterossexuais e a perda de auxílios direcionados às PcD quando elas se casam. As manifestações destes modelos na vida da PcD podem ser nocivas, causar sofrimento psíquico e contribuir para a ideia de que, para ter acesso ao sexo, deve-se aproximar o máximo possível dos modelos de sexo capaz e de corpo belo e funcional.
A exclusão dos corpos com deficiência dos saberes e discursos sobre o sexo contribuiu para a construção de dois grandes grupos de mitos e preconceitos: os mitos de assexualidade e de hipersexualidade. É comum as PcD serem vistas como assexuadas, desvinculadas da excitação corporal e dos desejos sexuais ou, quando os têm, incapazes de demonstrá-los ou vivê-los. Esses mitos contribuem para os preconceitos e ideias equivocadas de que as PcD são eternas crianças, desprovidas de sexualidade, principalmente no que corresponde às pessoas com deficiência intelectual (DESJARDINS, 2012).
Os mitos da hipersexualidade traduzem-se nos discursos de que as PcD têm desejos sexuais e excitações corporais exacerbadas e descontroladas, e são incapazes de demonstrar sua sexualidade de uma maneira “adulta” e respeitosa (DENARI, 2011). Estes dois grupos de mitos, assexualidade e hipersexualidade, formam a dualidade que Giami (2004) chamou de o anjo e a fera.
Sobre esta dualidade:
Nos últimos duzentos anos, segundo a literatura, duas imagens rivais foram usadas para legitimar a contenção da sexualidade dessas pessoas: o idiota seráfico e o idiota mefistofélico [...]. O idiota seráfico é uma pessoa rotulada como deficiente intelectual que se acredita ser uma criança eterna: pura e assexuada, inocente e frágil e incapaz de enfrentar os perigos da sexualidade [...]. Por outro lado, o idiota mefistofélico é um ser selvagem e diabólico, meio animal e meio demônio, dominado por instintos, sem moral ou lei, concupiscentes e libidinosos, cuja hiper-sexualidade compromete a segurança da ordem social (DESJARDINS, 2012, p. 69, tradução nossa)3.
O desenvolvimento psicológico, afetivo, social e sexual das PcD é marcado pelos saberes e poderes normalizadores do sexo, os quais divulgam mitos e ideias preconceituosas. Com base nessas prerrogativas, o objetivo geral desta pesquisa foi explorar os discursos e as experiências de jovens com deficiência intelectual e de seus familiares sobre deficiência e sexo.
Método
A pesquisa realizada foi qualitativa de caráter descritivo exploratório. Como procedimento de coleta de dados foram realizadas entrevistas semiestruturadas com nove jovens diagnosticados/as com deficiência intelectual e com seus familiares e responsáveis. Os/as jovens são alunos/as de uma instituição de educação especial na modalidade de Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) do interior do estado de São Paulo.
Entrevista semiestruturada, segundo Duarte (2004), é uma ferramenta de coleta de dados que utiliza um roteiro norteador com questões, perguntas ou pontos de discussão abertos, a partir dos quais os participantes discorrem livremente. As entrevistas realizadas com os/as jovens e familiares foram aplicadas individualmente e se basearam em um roteiro norteador elaborado pelos pesquisadores com perguntas e temas de discussão sobre o cotidiano, deficiência, sexo e sexualidade. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas respeitando o sigilo dos participantes e os demais preceitos éticos em pesquisas com seres humanos4.
Os/as participantes das entrevistas foram caracterizados nas figuras a seguir:
| Nome | Idade | Diagnóstico5 |
| Eduardo | 16 | Deficiência Intelectual Leve |
| Barbara | 16 | Deficiência Intelectual Leve |
| Kelly | 17 | Deficiência Intelectual Moderada e Hidrocefalia não identificada |
| Walter | 18 | Deficiência Intelectual Grave |
| Heitor | 18 | Deficiência Intelectual Leve, Paralisia Cerebral Infantil e Epilepsia |
| José | 19 | Deficiência Intelectual Leve |
| Neide | 19 | Deficiência Intelectual Moderada e Síndrome de Down |
| Larissa | 20 | Deficiência Intelectual Moderada e Síndrome de Down |
| Danielle | 20 | Deficiência Intelectual Moderada e Tetraplegia Espástica |
| Nome | Profissão | Parentesco |
| Luiza | - | Mãe da Kelly |
| Mirian | Dona de casa | Mãe do Walter |
| Patrícia | - | Mãe do Heitor |
| Roberta | Confeiteira | Mãe da Larissa |
| João | Funcionário Público | Pai da Neide |
| Sara | Dona de casa | Mãe do José |
| Ulisses | Desempregado | Pai do José |
O material transcrito proveniente das entrevistas foi analisado a partir da Arqueogenealogia de Foucault. A arqueogenealogia é uma possibilidade de análise qualitativa proposta por Foucault (2008; 2017d) que busca investigar o jogo de saberes e poderes que permeiam determinado fenômeno através da análise do discurso, entendendo-o em toda sua complexidade, historicidade, localidade e potência:
Enquanto a arqueologia é o método próprio à análise da discursividade local, a genealogia é a tática que, a partir da discursividade local assim descrita, ativa os saberes libertos da sujeição que emergem dessa discursividade (FOUCAULT, 2017d, p. 270).
A análise arquegenealógica realizada nessa pesquisa ocorreu por meio das seguintes etapas: inicialmente foi realizada a leitura do material transcrito das entrevistas, ou seja, dos discursos encontrados. Esta leitura inicial permitiu aos pesquisadores perceber os discursos que se assemelham, se complementam ou destoam entre as falas das/os participantes.
Na sequência, o material foi dividido em unidades de significado. Estas unidades foram construídas a partir do agrupamento dos discursos que se assemelham ou se complementam. As unidades de significado construídas foram: “Contato com o sexo”, “Conversas sobre o sexo” e “Relacionamentos”. Estas unidades foram, então, analisadas qualitativamente. Os discursos dos/as participantes foram descritos e discutidos com a literatura sobre deficiência e sexo, identificando as relações sociais que formaram os discursos e as implicações dos meios de produção, dos saberes e das relações de poder na formação discursiva.
Resultados e Discussão
As entrevistas realizadas com responsáveis e jovens trouxeram discursos sobre suas vivências relativas à deficiência, ao sexo e às relações sociais permeadas por estes fenômenos. Os discursos trazidos pelos/as jovens deixaram claro que suas vidas permeiam o ambiente escolar e o ambiente familiar. Muitos/as frequentam a escola nos períodos matutino e vespertino, permanecendo em casa após a escola e nos finais de semana. A primeira unidade de significado que emergiu nos discursos analisados corresponde ao “Contato com o sexo”. Todas as/os familiares entrevistadas/os afirmaram que os/as jovens utilizam de celulares para ver vídeos, jogar jogos, conversar com colegas e familiares e participar de redes sociais. Segundo elas, Walter, Larissa e Neide também tem hábito diário de assistir televisão, geralmente novelas ou desenhos destinados ao público infanto-juvenil.
Na atualidade, nota-se o aumento de imagens envolvendo sexo e corpo nas mídias, fenômeno que Foucault (2017d) denomina como controle-estimulação do sexo. Junto com o controle-repressão, herdado da antiguidade, ambas as formas de controle reprimem vivências do sexo que são consideradas erradas, ou pouco capazes, e estimulam a vivência do sexo quando este corresponde aos interesses da sociedade capitalista e dos modelos corporais: “Fique nu..., mas seja magro, bonito, bronzeado!” (FOUCAULT, 2017d, p. 236). Com o crescente acesso de adolescentes e jovens à internet, também há facilidade no contato com informações, imagens e vídeos sobre sexo e sexualidade (ALVES, 2019). Mas como as/os familiares abordam o contato dos/as jovens com o sexo a partir do celular e da televisão?
Os discursos dos/as familiares convergiram em ações que buscam impedir, até proibir, o contato de jovens com cenas que envolvem sexo e exposição corporal, mesmo em jovens que possuem mais que 18 anos de idade. Ficou evidente um sistema de vigilância às mídias que o/a jovem tem acesso e incentivo para o consumo de imagens destinadas ao público infanto-juvenil, como as novelas e os desenhos:
[...] quando ele está assistindo assim, se começa alguma coisa, ele já olha pra nós, tipo assim, sei lá, aí meu marido vai e tira (PATRICIA).
[...] é difícil a gente assistir, assim, novelas que contenham essas cenas, assim, porque eu prefiro privar ele, sabe, dessas coisas assim. Eu não acho conveniente, né? (MIRIAM).
[...] A novela que ela assiste é infantil, também não tem. O máximo que vai ter é um beijinho, um selinho (ROBERTA).
Mesmo com esse sistema de vigilância em pleno funcionamento, os/as jovens relataram ter contato com imagens de sexo, geralmente em filmes, novelas, internet ou celulares. Muitas jovens, como Danielle, afirmaram que suas responsáveis as proíbem de acessar tal material, mas este é acessado de mesma maneira com a ajuda de terceiros, como afirmaram Heitor, Eduardo e Kelly:
[...] na novela (HEITOR).
[...] na televisão [...] passou de repente (KELLY).
Assisti só um pouquinho daí mudei de canal [...] tinha o namorado da Tatiana, minha irmã. O namorado dela assistiu um pouquinho comigo depois de ver televisão eu fui dormir. Eu não assisti o filme inteiro, eu fui dormir (EDUARDO).
A respeito das imagens que os filhos têm acesso, enquanto há responsáveis que proíbem o acesso a tal material, há responsáveis que permitem e até incentivam o contato com o sexo através do celular, como Ulisses com seu filho José:
[...] no meu celular, às vezes as pessoas mandam alguma coisa pornográfica, eu deixo lá, eles olham também. [...] O celular fica em cima do sofá lá, [...] sempre falei para ela, “se mandarem não é para apagar não, tá aí, eles são homem, quer ver? Que veja” (ULISSES).
Alguns contatos com imagens são valorizados, como a pornografia heterossexual. Já quando o filho presencia alguma cena de romance entre dois homens, a reação de seu pai é diferente:
[...] A única coisa é que um dia ele viu um homem abraçando outro, ele falou, “nossa, pai”, ele falou. “É acontece essas coisa também, né?”. Eu acabo explicando também, né, porque... [...] De vez em quando, eu falo pra ele, “tem que beijar as mulheres”, eu falo. [...] Falei para ele num dia, não pode deixar de... nada de ficar homem abraçando ele, ainda falei, “se tiver, mais de abraçar as mulher, os homens você evita” (ULISSES).
Em boa parte dos discursos dessa unidade de significado prevalecem as ideias infantilizadoras da deficiência intelectual (DESJARDINS, 2012). As/os familiares interpretam seus filhos/as como pessoas desprovidas de desejos sexuais e direcionam seus contatos com as mídias para as imagens produzidas para o público infantil, proibindo o contato com imagens de sexo. Ficou visível uma dinâmica de controle-repressão ao sexo (FOUCAULT, 2017b), uma gama de poderes que buscam vigiar o corpo e evitar seu contato com a produção de imagens sobre o sexo. Esses discursos foram comuns em boa parte das entrevistas com os responsáveis, com exceção de um. No caso de Ulisses e seu filho João, é observável também um controle-estimulação ao sexo. O pai valoriza o contato que seu filho tem com as imagens produzidas sobre o sexo, e até estimula este contato, na medida que essas imagens transmitam o modelo de sexo heteronormativo.
Pesquisas (GIAMI, 2004; DENARI, 2011) mostram que o contato com o sexo em adolescentes e jovens com deficiência está diretamente relacionado às dinâmicas de gênero. As jovens do gênero feminino são vítimas de um intenso sistema de controle-repressão ao sexo, valorizadas em sua infantilidade e em características cuidadoras exigidas do gênero feminino, com seu contato social dificultado, ou até impedido, e direcionadas a atividades de limpeza e cuidado da casa. Os jovens do gênero masculino também são vítimas do controle-repressão e da ideia de infantilidade, contudo, segundo Simões (2017), a eles também pode ser direcionado o controle-estimulação do sexo, sendo valorizados em seu contato com o sexo, com o consumo de pornografia quando adolescente e o uso do serviço de profissionais do sexo quando adulto. Mas essa estimulação apenas ocorre quando a imagem consumida corresponde ao modelo de sexo heteronormativo.
Nota-se nos discursos dos/as participantes da pesquisa que as imagens e discursos sobre o sexo direcionado aos jovens com DI podem servir a um caráter normalizador e segregacionista, reproduzindo normas cristalizadas de sexualidade e gênero heteronormativo e, dessa maneira, exigindo performances similares destes alunos em sua vida cotidiana. O sexo entra nas vidas das PcD apenas quando é: “[...] Heterossexual, dentro de um casamento, monogâmico, para procriação, não-comercial, em par, dentro de um relacionamento, com idades semelhantes, em local privado, sem pornografia, utilizando apenas os corpos (sem brinquedos sexuais), (e) comum.” (WILKERSON, 2012, p. 186, tradução nossa)7.
Frente ao relatado pelas/os responsáveis e pelas/os jovens sobre o contato com o sexo, foi perguntado sobre as conversas que já tiveram sobre os temas de sexo, puberdade, corpo e relacionamentos no ambiente familiar. O conjunto de discursos que foi elencado por estes questionamentos formou a unidade de significado denominada “Conversas sobre sexo”.
Todas/os as/os jovens afirmaram que tiveram poucas conversas com seus responsáveis e professoras sobre assuntos relativos à sexualidade e ao sexo, e quando estas conversas ocorriam abordavam assuntos vagos em relação à reprodução humana, como a biologia: “Você sabe da onde vem os bebês? Da barriga” (BARBARA, DANIELLE, EDUARDO, HEITOR, JOSÉ), ou regras rígidas sobre a vivência da sexualidade: “Não pode, pai e mãe não deixam” (DANIELLE).
Todas/os as/os jovens notaram as mudanças em seus corpos a partir da puberdade, contudo afirmaram não receber orientações de seus/suas familiares. Todos/as os/as responsáveis afirmaram não terem conversado com seus/suas filhos/as sobre temas como sexo, puberdade, relacionamentos, entre outros. Quando estas conversas ocorreram foi por iniciativa das/os jovens, que procuraram seus familiares com dúvidas ou comentários, os quais eram respondidos de maneira cautelosa. Percebe-se um receio de familiares em trabalhar estes assuntos pois, em sua visão, suas/seus filhas/os não demandam deste trabalho pois continuam crianças:
A cabeça é muito infantil dela, [...] tem hora que eu nem... nem dou muito ouvido para o que ela fala às vezes (LUIZA).
[...] o mundo da Larissa é o que? Ou é os carrinhos ou é o dominó ou ela sai com a gente ou ela tá assistindo um filme, o mundinho dela é isso aí (ROBERTA).
Tem horas que eu vejo a cabeça de criança com 9, 10 anos ainda (SARA e ULISSES).
Tanto a vigilância que familiares exercem, descrita anteriormente, seja pelo controle-repressão ou controle-estimulação, quanto as poucas conversas que ocorrem no ambiente familiar, tornam-se barreiras no contato de jovens com o sexo, tanto no que condiz a imagens quanto a informações. Mendes e Denari (2019) apontam a importância de uma educação sexual de qualidade para jovens com deficiência, a qual envolve conversas e orientações realizadas nos ambientes familiares e escolares sobre sexo e todos os temas relacionados. A educação sexual de qualidade contribui positivamente para o desenvolvimento psicológico, afetivo e social, o estabelecimento de relacionamentos saudáveis e para a prevenção de violência sexual (SANCHES, 2019; VILAÇA, 2019). Contudo, uma educação sexual insuficiente, a qual aparentemente foi direcionada aos jovens aqui entrevistadas/os, pode torná-las/os mais vulneráveis a sofrimento psíquico e a situações de violência sexual (OTTONI; MAIA, 2019).
Das poucas conversas sobre sexo que as/os responsáveis afirmaram ter com seus filhos, a masturbação foi um assunto que se destacou principalmente envolvendo jovens do gênero masculino. Miriam trouxe relatos sobre a masturbação de seu filho e seus receios:
Ele fica aquelas coisas e solta aquele esperma dele lá na cama.
Masturbação?
É. Ele fica fazendo isso na cama, sabe? De vez em quando, ele faz essas coisas. [...] eu perguntei para médica, né, sobre isso, ela falou que é normal na idade dele, só... sempre falou assim, para mim ficar sempre atenta, né, nele, [...] por coisa assim, com enxerimento pro lado da irmã dele, [...] Eu falei que não. E também se tiver, assim, outra criança em casa, como ele está nesse período, porque ele não entende direito, evitar de ficar sozinho, né, com a criança, para o caso dele querer, né, fazer alguma coisa.
[...] Ah, eu fiquei assustada, né? Eu fiquei com medo. No início, eu pensava muito na minha filha, assim, dele querer, assim... porque sentiu vontade, né, não entender que ela era irmã dele e querer, né, agarrar ela (MIRIAM).
Continuando com o discurso, Miriam parece ter dificuldades de conversar com o filho sobre o tema da masturbação pois sua interpretação circula entre noções de desvio e normalidade:
Isso eu já conversei com a doutora, ela fala que é normal, que eu não posso mexer com ele, não posso brigar com ele por causa disso que é uma coisa que acontece, como ele está nessa idade, jovem, ele sente vontade igual como um jovem normal. Isso a deficiência dele não interfere, dele sentir o desejo sexual. E aí é isso. O problema dele, assim, que eu acho, assim, chato, é só isso mesmo, mas o médico fala que é normal, né? (MIRIAM).
Miriam afirmou que não passou orientações para seu filho sobre masturbação, segundo seus discursos é mais presente o medo de que seu filho pratique atos violentos contra sua irmã ou outras crianças.
Se a infantilidade compulsória da deficiência intelectual se manifestou em alguns discursos, aqui é notável o outro lado dos mitos relacionados à sexualidade e à deficiência, o mito da hipersexualidade. O receio de Miriam sobre seu filho vir com “enxerimento” para a irmã dele se relaciona a este mito, o qual exprime ideias errôneas de que as PcD possuem uma sexualidade descontrolada e animalesca, e que podem compulsoriamente praticar violências (DESJARDINS, 2012). O mito da hipersexualidade das PcD se relaciona com os saberes sobre o controle racional do corpo e dos desejos sexuais. Como o diagnóstico de deficiência intelectual é um fator abjetivante, que vem carregado de diversos preconceitos sobre as capacidades racionais e sociais, as capacidades de controle sobre o corpo e os desejos sexuais também passam a ser invalidadas (FOUCAULT, 2017b; 2017c).
Por um lado, a masturbação foi um tema que se destacou envolvendo jovens do gênero masculino, enquanto a menstruação e a gravidez, por outro, se destacaram nos discursos sobre as jovens do gênero feminino. Estes assuntos também são abordados com receio no ambiente familiar. Tanto João quanto Roberta afirmaram que suas filhas tomam remédios hormonais para evitar a menstruação, mas que esse assunto não foi conversado com elas.
O uso de remédios em pessoas diagnosticadas com deficiência intelectual sem a consciência e o consentimento delas, infelizmente, é um fenômeno comum na sociedade atual. Os remédios variam desde os medicamentos para evitar a gravidez, anticoncepcionais, até procedimentos de esterilização sem a consciência da pessoa (GAVÉRIO, 2016; SIMÕES, 2019).
A medicalização forçada ou não consentida é discutida por diversos autores como uma violação dos direitos básicos da pessoa sobre o próprio corpo. Situações como essa mobilizam lutas de movimentos sociais:
As lutas dizem respeito a questões sobre direitos fundamentais esperados por todos os cidadãos em uma sociedade democrática: liberdade no estabelecimento de vínculos íntimos, autoridade sobre seu próprio corpo, proteção contra violência e opressão e o direito de buscar um futuro sexual de sua própria escolha. Porque cada cidadão se tornará, mais cedo ou mais tarde, um cidadão com deficiência, a luta das pessoas com deficiência pelos direitos sexuais é uma luta de todos (SIEBERS, 2012, p. 52, tradução nossa)8.
Luiza também relatou que nunca havia conversado com sua filha Kelly sobre a menstruação, mas contou que foi necessário ter essa conversa para ensiná-la a trocar sua própria fralda. Esta tarefa era realizada pela mãe, mas foi interrompida devido a um acidente:
Por ela não se sentir bem em ver sangue, no começo, eu privava, assim, ela. [...] Esse ano, né, pela dificuldade que eu tive, eu caí, fiquei sem andar 3 mês, então eu passei a ensinar ela a trocar a fralda. [...] então eu já comecei a falar, “Você vai começar a tomar banho sozinha, você vai começar a trocar sua fralda sozinha porque você consegue”. Na primeira semana foi difícil porque eu tinha que ficar em cima dela, mas hoje, ela troca a fralda dela sozinha (LUIZA).
No caso de Luiza e Kelly é interessante perceber a possibilidade de tratar alguns assuntos necessários para o autocuidado e a saúde das filhas diagnosticadas com deficiência intelectual. Segundo a responsável, houve dificuldades com a fralda, o banho e o contato com o sangue no início, mas a situação foi se transformando positivamente. Como a abjeção da deficiência vai além de suas próprias capacidades intelectuais, mas é alimentada pelos mitos que circundam esta condição, o caso de Luiza e Kelly mostra como os mitos podem ser superados em busca da autonomia, da independência e do respeito aos direitos da PcD.
Por fim, a última unidade de significado que emergiu das entrevistas, intitulada de “Relacionamentos”, contém discursos sobre relacionamentos amorosos e namoros. Boa parte das jovens entrevistadas afirmaram participar de paqueras no ambiente escolar. Algumas possuem o desejo de namorar, como Barbara e Danielle, mas são proibidas pelas suas responsáveis:
Você já namorou?
Não, posso. Porque minha mãe e meu pai não deixam.
O que eles falaram para você?
Que não pode, que eu sou... ainda... que não pode! (DANIELLE).
[...] um menino daqui da escola. [...] acho que eles vão deixar eu namorar só quando fizer 18 anos (BARBARA).
Barbara disse que seus responsáveis a permitiriam namorar a partir dos 18 anos, já no caso de Danielle a proibição foi mais intensa e assertiva. Eduardo afirmou que já possui uma namorada, sua colega de classe, mas que ambos se comportam apenas como amigos.
Neide e José afirmaram em suas entrevistas que são namorados. Ambos se conhecem desde crianças, mas nunca foram à casa um do outro. Seu relacionamento se resume ao espaço escolar e as atividades lá realizadas, como dança em dias comemorativos, andar de mãos dadas, carinho e abraços:
[...] já falaram para mim isso em sala de aula. Perguntaram para mim. Eu falei que sim, já namorei a Neide aqui da escola. Conheci ela desde pequeno, tinha uns 7 anos por aí.
Contei para minha mãe, ela gostou da ideia. Ela falou que eu sou um pouco novo para namorar e essas coisas. Sou muito novo ainda para namorar (JOSÉ).
[...] ele beija minha mão. No rosto não pode, só na mão [...] porque minha mãe não deixa beijar minha boca. A gente vai casar (NEIDE).
Sobre o namoro, os/as responsáveis do/a jovem afirmaram:
Aqui, na escola, tem uma menina, uma menina que gosta dele de quando ele entrou na escola, a Neide, né? Aí todo mundo fala que ele é namorado da Neide. Aí outro dia um menino comentou com ele dele beijar a Neide. Aí ele falou que não porque ele era muito novo ainda, [...] que tem que ficar mais velho para beijar, para namorar, que não pode beijar agora (SARA).
Aí até eles brincam aqui na escola que é a namorada dele. A mãe dela vem é porque é a sogra dele. Porque aí eu não sei assim o que ele pensa dela, eu sei que ela gosta muito dele. Ela demonstra que gosta muito dele, mas ele eu acho que é mais amizade [...] eu não sei se ele tem noção do que é uma namorada (ULISSES).
Ela cisma com o namoradinho daqui. Aqui, né? [...] Ela não fala nada de mais, eu também não vou criticar ela. Ela fala, “tenho namorado, vou contar para o meu namorado”. [...] Eu acho normal isso aí porque eles não têm, assim, tanto contato (JOÃO).
Para familiares, os relacionamentos amorosos são tolerados na medida que permanecem numa fantasia infantilizada de relacionamento. Acoplados às ideias infantilizadoras da deficiência, as/os familiares também trouxeram discursos abjetivantes:
Ele tem uma menina na igreja, a filha do meu pastor, que ele pisca muito assim para ela, né? Aí as pessoas perguntam pra ele, “e aí, Heitor, você tem namorada?” Ele fala assim, ah, “eu tenho a minha pisca-pisca”, né? Então assim, eu não sei se eu vejo ele muito com criancinha assim, né? [...] e eu sempre brinco com ele, né, eu falo assim, “ô, você é da mãe, viu? Você nunca vai casar, você sempre vai cuidar da mãe, né?” [...] A gente não vê isso acontecer com eles, né? Deles ter, né, que nem casar, de ter uma vida sexual, de engravidar. Então a gente nem tem esse tipo de assunto (PATRICIA)
Assim, às vezes, eu penso assim, não sei, mas eu acho assim que para ele namorar, eu acho que só se fosse uma pessoa que fosse deficiente também igual a ele. […] Acho que é difícil uma pessoa normal querer uma pessoa que tem deficiência, é difícil, ainda mais como a dele, né? É diferente quando tem uma deficiência física ou uma deficiência visual, auditiva, outras coisas já são totalmente diferentes do que a dele que é uma doença mental, né? Eu acho difícil, assim, alguém se interessar. [...] Poderia acontecer pelo caso que ele já é, né, a mente dele já é comprometida, né, então já poderia, prum filho, passar a genética dele, né, por causa da deficiência, mas não vindo já dos pais, né? [...] Às vezes que a gente pergunta assim, “você vai se casar, Walter?” Ele fala que vai, né? Daí, às vezes, eu falo assim, “não, você vai ficar com a mãe” (MIRIAM).
Os relacionamentos amorosos entre as/os jovens são permitidos na medida que se resumem a uma aparente amizade, reforçados pela ideia de que possuem mentalidade infantil. Ao mesmo tempo, é observável o constante medo de que se envolvam com seus pares, e este medo motiva a proibição do namoro e de contatos físicos. Com mais intensidade no gênero feminino, é desencorajada a convivência em ambientes além da escola, onde a vigilância é maior e onde os contatos físicos além do esperado pela ideia de “amizade infantil” podem ser facilmente reprimidos. O controle e a vigilância deixam João tranquilo em relação ao namoro de sua filha. O mito da infantilidade influencia as visões de familiares sobre os relacionamentos amorosos de PcD, ao mesmo tempo que eles/elas exercem poder no controle de seus filhos/as para que permaneçam nesse patamar de “eternas crianças” (GIAMI, 2004; DESJARDINS, 2012; OLIVEIRA, 2016)
Junto com o mito da infantilidade, as falas de Patrícia e Miriam também revelam as noções abjetivantes de deficiência. Segundo Mello (2019), as pessoas diagnosticadas com deficiência intelectual são as que mais sofrem com discursos e relações abjetivantes. Para as responsáveis, o diagnóstico de deficiente intelectual corresponde a uma abjetivação completa, pois nenhuma pessoa “normal”, em suas palavras, demonstrará interesse por seus filhos. O corpo, o afeto e as demais capacidades são automaticamente invalidadas em uma condição de deficiência intelectual, ao mesmo tempo em que as responsáveis demonstram desejo de que seus filhos/as permaneçam nessa condição. Como trouxeram Miriam e Patrícia: “Você nunca vai se casar, você sempre vai cuidar da mãe, né?”.
Considerações finais
Discutir sobre deficiência e sexo é um desafio complexo. Ambas as áreas são permeadas por produções interdisciplinares, cada uma com suas particularidades, mas também com temas que convergem entre si, como corpo, acessibilidade, independência e inclusão.
A pesquisa científica realizada neste artigo trouxe dados relevantes para as discussões sobre deficiência e sexo. Mesmo com um sistema de vigilância exercido pelos/as responsáveis às imagens consumidas por seus filhos e filhas, um controle-repressão para barrar o contato com o sexo e os/as direcionar ao consumo de imagens destinadas ao público infanto-juvenil, os/as jovens têm acesso direto a imagens sobre o sexo, geralmente com a ajuda de terceiros. Essas imagens motivam dúvidas e questões, as quais são trazidas para discussão no núcleo familiar, mas são respondidas com cautela e receio, o que caracteriza uma educação sexual familiar insuficiente.
Dinâmicas hierárquicas de gênero foram ensinadas aos jovens, enquanto as jovens do gênero feminino são valorizadas em sua infantilidade e capacidade de cuidado com os outros e com o ambiente doméstico, alguns jovens do gênero masculino são exaltados em suas performances de heteronormatividade, estas manifestadas pelo consumo de pornografia heteronormativa.
As/os jovens possuem desejos emancipatórios, buscam atividades adultas e relacionamentos amorosos, mas essa busca é dificultada por seus responsáveis, os quais reafirmam os discursos assexuados, infantilizadores, hiperssexualizados e abjetivantes direcionados às PcD. Nota-se que as perspectivas de um entendimento conceitual diferente sobre deficiências são muito incipientes e cautelosas ou, então, não acontecem. Permanecem arraigadas as ideias preconceituosas sobre sexo e sexualidade, fazendo com que as PcD continuem consideradas anjos ou feras.
Falar de inclusão também envolve falar sobre inclusão social, vida independente, relações sociais, amorosas e sexuais para uma vivência plena, condições tais garantidas pela via da legislação em vigor. No entanto, contraditoriamente, os discursos de familiares permanecem, ainda, calcados em paradigmas obsoletos que consolidam a assexualidade e/ou a abjeção. A família exerce a função de reprodução dos discursos hegemônicos sobre sexo e deficiência. Um possível caminho para a transformação deste cenário seria a realização de grupos de educação sexual com estes jovens e grupos orientativos com seus responsáveis, ambos com o objetivo de questionar noções cristalizadas sobre sexo e deficiência, construir novas ideias e promover a saúde, a autonomia e o bom desenvolvimento.
Ainda há mais pesquisas a se realizar e áreas do conhecimento a se desbravar. Espera-se que este artigo possa contribuir para as discussões científicas sobre deficiência e sexo e possibilitar novas reflexões sobre as temáticas, abrindo possibilidade para novas investigações.
Agradecimentos
Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) pelo financiamento desta pesquisa.
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Notas
Notas de autor
Información adicional
Como referenciar este artigo: MENDES, M. J. G. DENARI, F. E. Sexo e deficiência: Discursos de jovens diagnosticados com deficiência intelectual e de seus familiares. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 1, p. 0263-0280, jan./mar. 2022. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i1.15336