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DIVERSIDADES, IMPRENSA E HISTÓRIA(S): DISCURSOS DE UM TEMPO QUE AINDA PERMANECEM (JORNAL DAS MOÇAS – 1950-1960)

DIVERSIDADES, PRENSA Y HISTORIA(S): DISCURSOS DE UNA ÉPOCA QUÉ AÚN PERDURA (JORNAL DAS MOÇAS - 1950-1960)

DIVERSITIES, PRESS AND HISTORY(IES): SPEECHES FROM A TIME THAT STILL REMAIN (JORNAL DAS MOÇAS – 1950-1960)

Adriana Aparecida PINTO 1
Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Brasil
Ana Clara Camargo de SOUZA 2
Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Brasil

DIVERSIDADES, IMPRENSA E HISTÓRIA(S): DISCURSOS DE UM TEMPO QUE AINDA PERMANECEM (JORNAL DAS MOÇAS – 1950-1960)

Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, vol. 17, núm. 2, Esp., pp. 1169-1188, 2022

Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação 2022

Recepción: 26 Enero 2022

Recibido del documento revisado: 10 Marzo 2022

Aprobación: 16 Abril 2022

Publicación: 30 Junio 2022

Resumo: As perspectivas de escrita deste artigo vão ao encontro da proposta geradora no sentido de discutir temas relacionados a diversidades, memórias e produção de sentidos múltiplos, estabelecendo uma escala temática com foco nas relações do tema, a partir da documentação de natureza impressa e periódica. Assim, o artigo tem como objetivo evidenciar elementos da pesquisa com a revista Jornal das Moças, nas edições que circularam entre os anos de 1950 e 1960, perfazendo um total de 557 edições. Foram examinadas 3 seções da publicação, Jornal da Mulher, Evangelho para as Mães e Carnet das Jovens, buscando perceber as formas de representação e tratamento atribuídas às mulheres no período. Os textos da publicação, embora com tom notadamente conservador, acompanham as mudanças sociais que favoreceram a condição feminina no período, no entanto, mantêm, como princípio, reforçar o papel da mulher com base nos pressupostos do colonialismo e patriarcado, relacionados sobretudo ao lugar da mulher na família e como administradora do lar.

Palavras-chave: Imprensa periódica, História das mulheres, Condição feminina.

Resumen: Las perspectivas de redacción de este artículo están en línea con la propuesta generadora en el sentido de discutir temas relacionados con las diversidades, memorias y producción de significados múltiples, estableciendo una escala temática con enfoque en las relaciones del sujeto, a partir de la documentación impresa y periódica. Por lo tanto, este trabajo pretende destacar elementos de la investigación con la revista Jornal das Moças, en las ediciones que circularon entre los años 1950 y 1960, totalizando 557 ejemplares. Se examinaron tres apartados de la publicación, Jornal da Mulher, Evangelho para mães y Carnet das Jovens, con intención de comprender las formas de representación y trato atribuidas a las mujeres en estos periodos. Los textos de la publicación, aunque con un tono marcadamente conservador, siguen los cambios sociales qué favorecieron la condición femenina en la época, mujer en la familia y como administradora del hogar.

Palabras clave: Historia de la mujer, Condición femenina.

Abstract: The perspectives of writing this paper are in line with the initial proposal in the sense of discussing themes related to diversities, memories, and production of multiple meanings, establishing a thematic scale based on the printed and periodic documentation, with a focus related to the subject. Thus, the paper aims to highlight elements of the research with the Jornal das Moças magazine, in the editions that circulated between 1950 and 1960, totaling 557 editions. Three sections of the publication were examined Jornal da Mulher, Evangelho para as Mães, and Carnet das Jovens, seeking to understand the representation and treatment forms attributed to women in the period. Although with a remarkably conservative tone, texts in the publication follow the social changes that favored the female condition in the period. However, it maintains as a principle the reinforcement of women role based on the assumptions of colonialism and patriarchy, mainly related to the women's place in the family and as administrator of their homes.

Keywords: Periodic press, History of women, Female condition.

A imprensa e os modos de ser e fazer no cotidiano

No Brasil dos novecentos, notadamente em vários momentos da primeira metade, identifica-se o aumento de dispositivos de imprensa com discurso pretensamente destinado ao público feminino, contudo, estudos evidenciam que parte significativa da autoria dos textos traz uma escrita masculina, contando, em raras publicações, com textos de autoria feminina, ou composição de mulheres no conjunto de colaboradores permanentes.

Algumas hipóteses explicativas para este fenômeno passam por diversas instâncias, sobretudo, se retomada a perspectiva de constituição histórica do Brasil, em que modelos de colonialidade europeia formataram costumes, valores, práticas sociais e culturais, marcando significativamente as formas de ser e fazer da nação brasileira, em sua vasta dimensão territorial. Memórias, subjetividades, representações são conceitos-chave que vem auxiliando sobremaneira ao entendimento dessas abordagens, possibilitando desvelar sujeitos silenciados e contextos opacionados por versões produzidas de modo unilateral (TEDESCHI, 2012).

Na intenção de compreender historicamente este fenômeno, parte-se do pressuposto que a imprensa contribuiu para a difusão de valores e práticas, nos momentos que circularam, ora evidenciando a condição de subjugo das mulheres, ora dando visibilidade a iniciativas, protagonismos, forjando também modelos de conduta e formas de comportamento aceitos socialmente (PINTO; SAMPAIO; SOUSA, 2020).

Para evidenciar tais embates, o presente artigo apresenta parte do estudo que vem sendo realizado com a revista Jornal das Moças, a qual desde seu início, em 1914, associa-se, em nossa análise, à manutenção de certo ordenamento social, elegendo como princípios fundantes a religião e a moralidade feminina, perpetuando, supostamente, a influência do patriarcado como forma de organização da sociedade.

Ao explanar sobre a metodologia de pesquisa, é imperativo destacar os diversos processos de reestruturação, dado o cenário em que o mundo contemporâneo se insere, desde o início de 2020, acometido pela pandemia ocasionada pelo vírus SARS-COV-19, que mudou significativamente modos de viver, ser, conviver, relacionar-se e respirar na atualidade.

As pesquisas históricas em arquivos, acervos, espaços de guarda documental foram significativamente afetadas: o mundo digital se mostrou potente, ao mesmo tempo que fragilizou as relações humanas, que passaram a ser mediadas por telas, nas suas mais diversas dimensões de tamanho, qualidade e acessos mediados por redes de computadores (Internet) e os mais variados suportes de comunicação virtual (redes sociais, plataformas, aplicativos). Cumpre destacar que a pesquisa com impressos se encontra em um momento de revisionismos, dados por questionamentos das condições de preservação, digitalização e manutenção dos documentos originais, e com a revista Jornal das Moças não foi diferente. A condução da pesquisa de modo presencial passou a ser mediada por bases de dados, acervos providos nas Hemerotecas, bibliotecas virtuais/digitais, e muitas horas de aprendizado na mediação de recursos que possibilitassem manejar arquivos digitais de modo que se tornassem acessíveis à pesquisa histórica, a partir da qual seguem as reflexões mediadas pelos documentos examinados.

Decorrem destes aspectos algumas limitações para o exame da revista: citam-se a compreensão de sua organização, tamanho e características físicas (materialidade), assim como o exame das imagens (fotografias), pois muitas estão com a visualização comprometida, manchadas, ou reproduzidas apenas nas escalas de preto e cinza, quando já se sabe que a revista circulou em formato colorido (a partir da década de quarenta) durante alguns anos. Na tentativa de obter os exemplares em cores, foi feito contato com o acervo da Biblioteca Pública do Paraná e do Arquivo Público do Estado de São Paulo, no entanto, em ambas as instituições os acervos das revistas não estão digitalizados e, em decorrência da pandemia, não foi possível a visita in loco.

Desta feita, o corpus documental que sustenta o presente artigo foi coligido no acesso aos bancos de dados do setor Hemeroteca da Biblioteca Nacional, cujas edições selecionadas atendem aos marcos temporais estabelecidos para a pesquisa – período entre os anos de 1950 e 1960. A referida década é marcada por grandes transformações, em decorrência principalmente do pós-guerra, a abertura do mercado e a possibilidade de novos acessos à cultura, inovação, educação, com mudanças políticas e sociais. A partir da reestruturação do modelo econômico houve um grande movimento de migração dos interiores para as capitais, no qual as pessoas buscavam uma oportunidade de emprego; esse deslocamento e a necessidade de mão de obra ativa, dentre outros fatores, promoveu abertura para as mulheres ocuparem postos de trabalho.

É preciso destacar que mulheres sempre desenvolveram atividades laborais, ainda que não tivessem remuneração formal, no entanto, as condições de trabalho eram diferentes dos homens, mas em vista das mudanças ocorridas houve necessidade imediata de contratação; mulheres que antes não estavam inseridas naqueles espaços veem como oportunidade essa demanda. Os anos cinquenta do século XX, conhecidos como os anos dourados (PINSKY, 2014), traduziram-se em um período de mudanças e transformações na vida da mulher, que antes era subordinada ao espaço privado. A revista, ainda que marcadamente conservadora, apresenta significativos exemplos destas transformações.

Subsidiam o corpus documental deste estudo 557 exemplares, conforme demonstra o quadro 1:

Quadro 1
Mapeamento dos exemplares da publicação em circulação entre os anos de 1950-1960
Ano da PublicaçãoQuantidade de Exemplares
195037
195151
195252
195353
195452
195552
195645
195752
195858
195953
196052
Total557
Fonte: Jornal das Moças: Revista Quinzenal Ilustrada (1950-1960)

Em relação à materialidade da publicação, no acervo consultado faltam poucas edições dos anos em que a revista esteve em circulação; a qualidade do material compromete o exame mais atento das fotografias; há edições sem capa, por ausência de digitalização, visto que em contato com a Hemeroteca Nacional, via e-mail, soube-se que muitas capas foram perdidas ao longo do tempo, por questões relativas à conservação.

Em tempo, cabe o esclarecimento relativo à nomenclatura da revista Jornal das Moças, que apresenta a duplicidade de descritores tipográficos em seu título – revista e jornal. Para tanto, os estudos de Ana Luiza Martins (2008) acomodam a explicação para a utilização desta tipografia, que gerou equívocos e dificuldades em os diferenciar. Sabe-se que a nomenclatura jornal era utilizada a fim de gerar rendimentos: as características de ambos são muito próximas, a revista se destaca por geralmente ter capas, não ter folhas soltas e estar organizada em edições mais espaçadas: semanal, quinzenal, mensal ou anual. Como assinala Martins (2008, p. 73):

Outras publicações, não obstante a manutenção do formato jornal, sempre foram tradicionalmente referenciadas como revistas, fosse pelo caráter informativo variado de seu conteúdo, incluindo a ilustração, ou, de acordo com a definição de seus proprietários, no propósito de valorizar a publicação, qualificando-a em relação ao jornal.

A revista Jornal das Moças consiste em um caderno ilustrado com ciclo de vida iniciado em maio de 1914, permanecendo em circulação até dezembro de 1961, produzida e editada na cidade do Rio de Janeiro, na editora Empreza Jornal das Moças – Menezes, Filho & C. Ltda. Estudos anteriores sugerem que a publicação circulou por outras localidades do país. Os estudos identificados até o momento utilizam a publicação para compreender os anos entre as décadas de 1920 a 1940, o que em boa medida contribui para a relevância desta pesquisa, posto que já há um certo padrão de discurso construído, o qual pode ser considerado modelar para determinadas práticas sociais em relação às mulheres (ALBUQUERQUE, 2016; ALMEIDA, 2008; ALVES; CAETANO; FREITAS, 2016; SILVA; SOARES, 2013).

Capa Jornal das Moças – ano de 1914 (ilustrativa)
Figura 1
Capa Jornal das Moças – ano de 1914 (ilustrativa)
Fonte: Jornal das Moças (1914)

A revista circulou, portanto, por quarenta e sete anos, atravessando, de modo perene e contínuo, importantes momentos na história do Brasil e consequentemente, na História das Mulheres, influenciando comportamentos e mentalidades (ALBUQUERQUE, 2016). Jornal das Moças foi uma combatente eficaz contra a dissolução do lar. Com periodicidade quinzenal, chegava às bancas para comercialização às quartas-feiras, com slogan “revista feita exclusivamente para a mulher no lar” (JORNAL DAS MOÇAS, 1951, p. 10), dirigida por Álvaro Menezes e Agostinho Menezes, fundadores da publicação, atuando também como diretores e redatores. O exame da publicação fornece elementos para afirmar que havia outras formas de distribuição; em seu interior continha receitas, dicas de beleza, sugestões para a organização da vida doméstica cotidiana, moda, comportamentos e inúmeros anúncios de maquiagens, roupas, lojas, medicamentos, produtos de higiene pessoal, dentre outros temas, supostamente de interesse feminino.

Capa Jornal das Moças – ano de 1950 (ilustrativa)
Figura 2
Capa Jornal das Moças – ano de 1950 (ilustrativa)
Fonte: Jornal das Moças (1950)

Por meio dos textos veiculados, observa-se posicionamento em relação ao papel da mulher na sociedade, muito próximo a um pretenso conservadorismo, formativo, na perspectiva dos editores: “Jornal das Moças criou no Brasil um tipo padrão de revista para a mulher no lar”, “Jornal das Moças é a revista cem por cento familiar”, “Jornal das Moças é a revista para a mulher no lar e na sociedade” (JORNAL DAS MOÇAS, 1953, p. 74). A condição de escrita dos textos, em boa medida, revela expectativas quanto ao esperado das mulheres, no entanto, de modo bastante sutil, é possível identificar, em outros textos da mesma publicação, alguns desconfortos que vão se intensificando em relação à condição feminina na sociedade brasileira, com o passar dos anos de publicação: é notório que os textos evidenciam certa satisfação em se receber o título ou ocupar a posição de rainha de lar, no entanto, algumas demandas feministas vão ganhando pouco a pouco espaço de discussão nas páginas da publicação, como evidenciar-se-á mais adiante.

Ao se trabalhar com impressos é necessário compreender a quem se destinava, ou seja, quem seria o público leitor privilegiado, colaboradores, redatores, bem como as disseminações ali presentes, contextos históricos, políticos e econômicos que podem vir a influenciar diretamente os escritos, em síntese, é preciso prestar atenção nos aspectos materiais da sua fonte (CHARTIER, 1990, 2002). Os textos escritos, ou suas ausências, tornam efetiva a compreensão sobre os modos pelos quais silenciamentos e resistências estavam presentes: O que os editores/redatores/colaboradores pensavam para as mulheres? Como qualificavam as formas de tratamento social? Quais representações a revista legitima sobre a mulher, padrões de beleza, de comportamento, de sociabilidades? Por meio da imprensa de natureza periódica, ou seja, uma documentação serial, é possível identificar aspectos constitutivos do ser mulher, a opressão vivenciada no cotidiano, sua subversão, entender sua força, formas de confinamento das mulheres no ambiente privado, submetidas a responsabilidades e afazeres domésticos, não possíveis de capturar em outra tipologia documental. Na revista podemos acompanhar a disseminação do mito da feminilidade, maternidade e o casamento como um ideal a ser alcançado para aquelas que almejavam uma vida feliz e plena.

Entre as subjetividades e o ser mulher: Visões de mundo e representações femininas

A educação feminina passou por vários momentos ao longo das histórias registradas e não registradas. De acordo com Rosemberg (2020):

[...] à educação formal e pública das mulheres foram sendo rompidas no transcorrer desse acidentado percurso: a segregação sexual das escolas, interditando a educação mista; o ideário de que a educação de meninas e moças deveria ser mais restrita que a de meninos e rapazes em decorrência de sua saúde frágil, sua inteligência limitada e voltada para sua “missão” de mãe; o impedimento à continuidade dos estudos secundário e superior para as jovens brasileiras.

Em meados dos anos 1950 a autora indica que cerca de 66,7% das mulheres habitantes no país estavam entre os números de analfabetos, enquanto os homens perfaziam o total aproximado de 31,3%. Nos anos de 1960, os dados já começam a favorecem as mulheres, que chegam à 57,3% de alfabetizadas e os homens 53,2% (ROSEMBERG, 2020, p. 334). Ao passo que a educação formal representava inúmeros benefícios na vida das mulheres, incluindo sua emancipação, o discurso que perpassa as páginas da revista permanece sendo que “mulheres educadas são melhores mães”. Rosemberg (2020, p. 338):

[...] Defendeu-se a educação diferenciada, porque mulheres eram tidas como menos inteligentes e mais frágeis que os homens. Inclui-se Economia Doméstica em seu currículo, porque “a mulher é rainha do lar”. Criticou-se a escola mista, por ser “promíscua”. Estimulou-se a formação de professoras porque elas, “verdadeiras mães”, têm “vocação para o sacerdócio” que é o magistério. Combateu-se a educação diferenciada, com o argumento de que servia para relegar a mãe de obra das mulheres ao “exército de reserva”, fazendo com que ocupassem postos com menor remuneração que os ocupados pelos homens no mercado de trabalho. Defendeu-se a ampliação da educação de meninas e moças, porque “mulheres educadas adiam a primeira gravidez, espaçam os partos, cuidam melhor dos filhos, impedem a reprodução do círculo vicioso da pobreza”, e porque “seus filhos são mais educados [...]”.

As instituições escolares e educacionais foram também responsáveis por efetivar o controle da educação das mulheres, em especial escolas cristãs e colégios femininos, no qual o ensino era diferente do que era oferecido aos meninos, recebendo o básico de conhecimento matemático: para as mulheres era suficiente saber ler, escrever, contar histórias e uma forma geral da história do país e mundo e, principalmente, saber manter uma boa conversa. Sendo a educação algo que transcende as instituições formais, o tempo e o espaço, os textos da Revista asseveram que as mulheres precisam: “Ser um pouco instruída. Conhecer bem, pelo menos, os rudimentos da aritmética e de leitura. A mulher é o primeiro funcionário do Estado Familiar, pois tem a seu cargo a importante função da despesa, de cuja anarquia rebentam tantas revoluções” (JORNAL DAS MOÇAS, 1914, p. 13 apud ALBUQUERQUE, 2015).

Com a abertura do mercado de trabalho e a emancipação feminina tornou-se frequente mulheres atuando nos campos administrativos, da saúde, educação e no comércio (PINSKY, 2014). Com a qualificação profissional ficou cada vez mais comum a presença feminina nos espaços públicos e na ocupação de cargos importantes, no entanto, a diferença salarial ainda era uma realidade. No final da década de 1950 a revista sinaliza para este debate, sem, no entanto, promover qualquer tipo de enfrentamento:

SALARIO IGUAL PARA A MULHER EMPREGADA

A organização internacional do Trabalho acaba de publicar uma informação sobre os esforços realizados pelos governos, pelos empregadores e pelos empregados de 22 países e 9 territórios não metropolitanos, no sentido de serem as mulheres beneficiadas do princípio “salário igual para trabalho igual”.

Os autores dêste movimento demonstraram que, se esta discriminação não desapareceu, pelo menos alguns progressos têm sido realizados, graças a diversas medidas governamentais apoiadas pelos empregadores, sindicatos e organizações femininas.

Na Nova Zelandia, por exemplo, observa-se uma diminuição constante do desequilíbrio existente entre o salário pago às mulheres e aos homens. No Japão, as mulheres empregadas nos serviços de circulação da polícia de Tóquio ganham o mesmo ordenado que os homens e fazem jus a um sistema idêntico de aumento de salário. No México, por sua vez, os salários são calculados sem consideração alguma de sexos (JORNAL DAS MOÇAS, ed. 2278, 1959, p. 21)

Jornal das Moças quando apresentava matérias acerca da emancipação feminina trazia exemplos de mudanças ocorridas na vida das mulheres, no entanto, apresentava exemplos vindos dos Estados Unidos ou da Europa: seria uma intenção velada de apresentar possibilidades, ou mostrar que o país estaria muito distante de conquistar este patamar de igualdade? A ideia de que as mulheres estariam independentes criava certo temor, por uma “suposta” perda da feminilidade, um dos mitos impulsionados pelo conservadorismo de matriz religiosa, dados pela valorização da castidade para a mulher, a moral sexual, a monogamia, com formas de tolerância diferenciada para homens e mulheres; a legislação reconhece o trabalho masculino como a principal fonte de recursos da unidade doméstica. Prevalece a noção do homem provedor, ao qual se deve obediência e servidão. As mulheres casadas, com filhos, que cuidassem do lar, mantivessem a feminilidade, ganhavam, segundo a revista, o título de “rainha do lar”: a configuração de feminilidade estava atrelada diretamente ao que se entendia como funções femininas, ou seja, costumes nas quais acreditava-se que seriam virtudes da mulher.

O feminismo internacional ganhou destaque e trouxe novos alcances à vida das mulheres, assim como a reafirmação do estado laico (NICHNIG, 2013).

Para blindar o pensamento feminino destas influências, a Revista, de modo geral, reafirmava estereótipos de mãe, esposa, alinhados pelos cuidados com o corpo e a saúde física, fomentados pela sociedade patriarcal. Tais estereótipos constituem-se, na leitura apoiada em Chartier (2002), em representações forjadas a partir das formas do pensar e agir. A imprensa reproduz representações de modo tão elucidativo que além de fazer as leitoras se sentirem contempladas em seus textos, suscita o despertar em outras que, aos poucos, vão acolher as representações externas como pertencentes à condição feminina: a esse tipo de mecanismo Chartier (1990, 2002) qualifica como máquina de fabricar respeito e submissão.

A revista busca se aproximar de seu público por meio das formas de tratamento nas quais dirige-se às mulheres, qualificando-as como sujeitos socialmente aceitos, em diversos momentos, ao longo dos anos de sua circulação. A exemplo tem-se o uso de expressões como “patrícias” e “mulher brasileira”, em 1914; leitoras, damas, esposas, jovem, senhoras, donas de casa, senhorita, moças de família e moças levianas, em 1950. Flertes, namoro, noivado e casamento são temas recorrentes na revista, e dentre eles havia uma presença muito forte de como deveria ser cada um desses processos, os limites que eram aceitos e recomendados para que a mulher nunca desvincule a sua imagem de pureza e de honra ao lar. Há uma relação de fidelidade que deve ser respeitada na relação conjugal, mesmo que não seja recíproca. Carla Pinsky (2014) comenta que a abnegação faz parte do amor feminino, a representação da mulher enquanto um ser amável, romântico e sonhador era defendida em Jornal das Moças. Afinal, as mulheres vivem para o amor, desde que esse amor esteja dentro dos limites tradicionais da moralidade feminina, “com relação ao amor, a mulher é considerada superior ao homem, porque tem maior capacidade de amar, e o texto entende amor como sacrifício, doação “transmissão da vida” e fidelidade” (PINSKY, 2014, p. 77).

Espôsa Perfeita
Figura 3
Espôsa Perfeita
Fonte: Jornal das Moças (1950, p. 8)

A noção de “esposa perfeita” é descrita com maestria no excerto apresentado na Figura 3. O texto sugere modos de comportamento das esposas, visando à condição de perfeição. A forma de organização do texto sugere a semelhança com mandamentos religiosos, a serem seguidos à risca: A esposa deve aceitar o marido como ele é; a mulher deve sempre estar à disposição de seu marido e não preterir dos cuidados com a beleza. De acordo com Pinsky (2014), segundo a mentalidade da década a mulher precisa amar e se fazer amar, pois esse é o seu destino e realização plena, nem que para isso sejam necessários sacrifícios, diferentemente dos homens: essa diferença é explicada a partir da “natureza” distinta dos sexos.

Entres frestas, portais e expectativas: A contexto e o acolhimento à diversidade

Acompanhando a abordagem anterior, ao longo da década de 1950 entende-se que Jornal das Moças objetivava ser um veículo de divulgação de valores morais, religiosos, culturais, entendidos como necessários e formativos à vida da mulher brasileira, leitora ou não da publicação. Identificado com as noções basilares do modelo de sociedade assentada no patriarcado, produto de um desenvolvimento histórico, parte significativa dos textos examinados guardam proximidade com a predominância masculina nas decisões sobre os modos de ser e viver socialmente, incidindo sobremaneira na conduta das mulheres, assim como suas escolhas. Trata-se, pois, de um movimento que concebe, na perspectiva defendida por Heleieth Saffioti (2001, p. 55):

[...] a diferença sexual é convertida em diferença política, passando a se exprimir ou em liberdade ou em sujeição, dentro das relações entre homens e mulheres há dois polos de poder, mas essa relação é desigual, sendo percebida essa diferença entre nos espaços públicos e privados. Sendo o patriarcado uma forma de expressão do poder político, esta abordagem vai ao encontro da máxima legada pelo feminismo radical: “o pessoal é político”.

Estudos apontam que as estruturas sociais, alinhadas ao pensamento assentado no patriarcado, configuram formas de submissão, violências físicas e simbólicas e opressão feminina, corroborando seu silenciamento, por muitas vezes entender que se trata de códigos historicamente aceitos pela sociedade em que se inserem, como se observam em relação às temáticas matrimônio, heteronormativos, orientação sexual, dentre outros. Por não serem temáticas tão evidentes na cena pública da década de 1950, a revista pouco abordava temas que pudessem suscitar algum tipo de contrassenso: o foco centrava-se nas futuras e já nas consolidadas donas de casa, na felicidade ocasionada pelo matrimônio, na importância da manutenção da unidade familiar, sob qualquer hipótese, e na celebração da maternidade. A organização interna da publicação reflete as escolhas temáticas, quando observadas as seções, por isso seu discurso era acerca da realização plena que o matrimônio a traria e no cumprimento do seu dever enquanto mãe. Identificam-se as abordagens autorreferenciadas nos próprios títulos das colunas e seções, conforme segue: Jornal da Mulher, “Carnet” das Jovens e Evangelho das Mães, Trocas e Traços, Radioatividades, Pausa para Meditação, Sugestões para o Lar, Pausa para Meditação, Os Grandes Inventores, Galeria dos artigos de rádio, Fora da Tela.

Quadro 2
Mapeamento das colunas de maior incidência da publicação (1950-1960)
ColunasIncidênciasEdições em que foram localizadas
Jornal da Mulher5571950 (37); 1951 (51); 1952(52);1953(53);1954(52);1955(52);1956(45);1957(52);1958(58);1959(53);1960(52)
Evangelho das Mães881950 (12); 1951 (11) 1952(0);1953(0);1954(4);1955(11);1956(0);1957(5);1958(1);1959(15);1960(29)
“Carnet” das Jovens791950(21);1951(31);1952(13);1953(10);1954(4);1955(0);1956(0);1957(0);1958(0);1959(0);1960(0)
Fonte: Jornal das Moças: Revista Quinzenal Ilustrada (1950-1960)

Contudo, no exame mais detalhado de textos avulsos, sem autoria, nem sempre publicados em espaços de destaque, é possível identificar frestas e aberturas no discurso promulgado pela publicação, que acompanha as mudanças sociais que vem se processando nos anos 1950, acolhe o temário referente à colocação da mulher no mercado de trabalho, buscando tangenciar as consequências deste fato histórico, como a independência financeira e emancipação moral, intelectual e familiar. A emancipação da mulher era tratada de forma muito sutil na revista, quando a presença feminina nos espaços públicos se torna uma realidade, a revista então adota o discurso que aquela era a nova realidade de suas leitoras, no entanto, reforçam os princípios basilares para a edificação da moral e da família, ou seja, elas não podiam deixar de lado sua feminilidade ou sua família para pôr à frente seus desejos pessoais. O excerto que segue materializa alguns dos pressupostos da publicação:

EMANCIPAÇÃO DA MULHER

A mulher vem procurando a emancipação por todos os meios ao seu alcance, sendo alguns atentatórios à sua feminilidade.

Ela não quis resignar-se a um papel passivo e optou por lançar-se em busca de aventuras nas ocupações antes só destinadas ao sexo forte, procurando, assim, penetrar no campo da luta para suprir as necessidades materiais da vida.

Não a moveu apenas o espiritual e, na maioria dos casos tomou essa decisão por motivos naturais, pela satisfação de bastar-se a si mesma, crendo que, assim teria o mesmo valor dos homens e também proceder como eles, fazendo o que bem entendesse.

Tomando tal atitude, as mulheres anelavam adquirir o que sua imaginação achasse mais adequado, sem precisarem recorrer os homens e, para isso, invadiram as fábricas, os escritórios, o comércio, os bancos, etc.

Conseguiram, assim, os seus propósitos, e foram até mais longe, solicitando uma independência emanada de seu trabalho e de novos costumes adquiridos com a posição que o dinheiro lhes granjeou, não ganho com esmola ou atenção, mas como prêmio de seus esforços, de seu trabalho, de sua inteligência. E’ evidente que as mulheres, ao igualar-se com os homens, se elevaram com o respeito à sua condição social, porém perderam bastante em sua feminilidade.

O campo das evoluções sofreu demasiadas mudanças em período de tempo relativamente curto. Se circunstancias especiais fizerem com que as mulheres ocupassem postos deixados pelos homens durante a guerra, ou por trabalharem somente em industrias atinentes a ela, depois de tudo normalizado, elas não se decidiram a voltar para as ocupações anteriores, abandonando os serviços do lar para desfrutarem uma liberdade econômica. Decidiram-se a lutar pela vida num plano de igualdade. Logo houve milhares de mulheres que foram admitidas em quase todos os setores de trabalho, aumentando a crise de ocupações, do luxo, das diversões e da vaidade. Devemos olhar com simpatia a mulher que se incorporou a todas atividades. Não devemos menosprezar sua tenacidade e seu desejo veemente de prosperar, de assegurar seu futuro, independente do matrimonio, que era considerado como carreira exclusiva do sexo feminino.

[...]

Se não houvesse acontecido essa transformação, o que seria das solteironas, obrigadas a serem uma carga pesada para sua família, sofrendo humilhações.

Graças a emancipação, o futuro não as atemoriza e são donas de seu destino porque sabem que, lutando poderão ser independentes. Porém, essa emancipação obrigou o homem a trata-las como igual concorrente na luta pela vida, e isso faz com que elas percam a feminilidade (JORNAL DAS MOÇAS, 1954, p. 62).

A participação feminina nos espaços públicos marca a inserção de temas e problemas que podem ser lidos e discutidos por mulheres na imprensa local; o incentivo ao estudo passou a fazer parte do cotidiano e inclusive a modificar o pensamento para as próximas gerações, pois viam através dele uma das melhores oportunidades de desenvolvimento pessoal. Pautas consideradas tabus como corpo livre, possibilidade de divórcio, foram pouco a pouco, ocupando frestas nas páginas da publicação, demonstrando a atenção às questões do seu tempo, ainda que em discordância com os princípios fundantes da equipe editorial. Em termos contemporâneos, é possível perceber a perenidade dos temas que a revista temia em divulgar ou enfrentar, muitos dos quais já são parte efetiva do comportamento social da população, mas outros tantos ainda permanecem tratados com reservas e preconceitos, denotando que muito há, ainda, por se conquistar no campo da equidade social. Exemplo adequado traduz-se no excerto que segue, referindo-se à entrada da mulher no mercado de trabalho, à conquista do voto feminino, e outras pautas legitimadas pelo movimento feminista na década de 1960.

A MULHER DE HOJE PODE SUPERAR O HOMEM

Indiscutivelmente, a mulher de todas as latitudes deste planeta, vem conquistando, diariamente, o seu “lugar ao sol”. Os grandes cataclismos sociais provocados pelas duas guerras mundiais, fizeram com que o “belo sexo” passasse, quase que sem transição contender ao homem, todas as atividades humanas nos campos da indústria, do comércio, da lavoura, das ciências, das artes, da literatura, da magistratura e quejando.

Já vai longe a época das sufragistas que, em Londres, arriscando a própria liberdade e entrando, às vezes, em sérios conflitos com a severa Scotland Yard, pugnavam “horrorizando” a burguesia de então, pelos direitos de igualdade entre os dois sexos.

Hoje a mulher tende a se situar em plano superior ao homem. Pelo menos no que toca aos empregos, sejam eles públicos ou privados, a mulher mantém o certo da liderança. Mesmo porque, segundo argumentou um grande industrial francês, “é bem mais agradável ditar a um palminho de cara bonito uma carta, do que a um rosto com a barba por fazer” [...] (JORNAL DAS MOÇAS, 1958, p. 42).

O tom machista e conservador perpassa a escrita do texto, outrossim, não há como negar que os lugares profissionais e sociais passaram também a ser ocupados por mulheres, e a revista não se furta em sinalizar tal contexto, mas com ressalvas: a mulher poderia trabalhar fora de casa, não deveria, porém, descuidar-se da aparência no foro doméstico, para não provocar suposta traição de seu marido (justificada pela sua ausência no ambiente doméstico e na falta do cumprimento dos seus deveres de esposa), sendo necessário, conforme apontam os textos, sempre que possível estar bem arrumada, perfumada, não abandonando os cuidados com a aparência e feminilidade.

Esses arremedos nas abordagens sugerem uma posição desconfortável, no entanto, necessária para a revista, que não poderia negar as conquistas objetivadas no período, sob risco de perder a “simpatia” das leitoras, e com isso, recursos financeiros para sua manutenção. As estratégias, na abordagem certeauniana, explicam a posição manifesta da revista, de manter conteúdos que atendiam aos pressupostos editoriais da publicação, mas inserindo temas que estavam em discussão no contexto (CAMPOS, 2010). A entrada no mercado de trabalho não diminuiu a jornada de atuação doméstica das mulheres, ao contrário, tornou-as duplas ou triplas e intensamente cansativas. Em uma edição, essa pauta ganha uma nota masculina, registrando, por meio de um texto transcrito, a opinião dos homens sobre a ideia de as ajudarem ou não nas tarefas domésticas, sendo objeto de assunto de humoristas:

A AJUDA DOS MARIDOS NAS TAREFAS DA CASA

A colaboração do marido, nos serviços domésticos, tem servido de assunto a muitos humoristas e, por outro lado, como tema de animadas polêmicas, por parte das mais variadas organizações femininas de várias partes do mundo, especialmente dos Estados Unidos.

Ainda recentemente, estatísticas oficiais revelaram, por exemplo, que 53% dos maridos norte-americanos sentem-se felizes em ajudar as esposas a lavar e enxugar os pratos; 33% declararam-se abertamente contrários a esse sistema de escravização, enquanto que 14% afirmaram que levam e enxugam a louça, vestem o avental e bancam a “dona de casa” apenasmente para poderem “viver em paz”... Estes 14% representam o sexo-forte amenizado por complexos ou terror do “páu de macarrão”! (JORNAL DAS MOÇAS, 1959, p. 24-25).

Na edição 2335, de 1960, a revista apresenta textos que destacam a importância da educação da mulher, dada por instituições formais, notadamente as escolas, não obstante, todo o conhecimento adquirido deveria ser utilizado para o bem comum e progresso da nação, em prol de todos à sua volta, filhos, maridos e família, beneficiando a sociedade como um todo. Seria, pois, inadmissível, na perspectiva defendida pela publicação, altos índices de mulheres sem acesso à educação e meninas ainda analfabetas.

As abordagens da publicação, como já mencionado anteriormente, acompanham as pautas do seu tempo, sinalizam a percepção do grupo editorial sobre temas candentes, pautas urgentes, e denota certa sensibilidade para abordar problemas que perpassam a emancipação feminina e a figura da mulher moderna, que passa a ter independência financeira e formação intelectual, no entanto, o exercício das funções domésticas era algo que deveria ser anterior a sua vontade profissional, “mesmo exercendo uma rotina cansativa no seu trabalho as mulheres não devem deixar de lado suas funções domesticas e em países como Estados Unidos e China esta vem sendo uma realidade” (JORNAL DAS MOÇAS, 1960a, p. 28). No receio de assumir frontalmente tal posição, a revista vale-se das experiências estrangeiras para legitimar certos comportamentos, como demonstra o excerto que segue:

ANTES DE MAIS NADA ELAS SÃO MULHERES!

A mulher moderna começou a ter parte ativa na vida pública e a luta pelo voto lhe ensinou a organizar-se para obter a abolição de algumas inabilitações restantes. Porém, sua evolução política não tem prejudicado, de forma alguma, os assuntos de especial incumbência da mulher: o cuidado do lar, a maternidade, o bem-estar da família, a educação dos filhos. É que elas são, antes de mais nada, mulheres, situação que nenhuma carreira ou profissão consegue sobrepujar (JORNAL DAS MOÇAS, 1960b, p. 21).

Seria permitido à mulher ter títulos, profissão, ocupar cargos públicos, sem preterir atenção e cuidado como o lar, priorizando os afazeres domésticos. Marcas do patriarcado, que se materializam nas páginas da publicação, que reconhece a posição alcançada pelas mulheres, as quais não deveriam comparar-se aos homens e sim colaborar com eles, não perdendo sua essência feminina, como assinala o excerto: “mesmo quando ela dá provas de superioridade numa atividade que os homens antes acreditavam que somente êles seriam capazes de executá-la, é porque, até mesmo aí, a mulher não deixa de agir como mulher, de pensar como mulher, de sentir como mulher” (JORNAL DAS MOÇAS, 1960c, p. 29).

Jornal das Moças acolheu as demandas do contexto dos anos finais da década de 1950, como os textos da publicação evidenciam: reconhecem a mulher que ocupava o espaço público, estudava, buscava ampliar as lides do campo doméstico em direção à profissionalização e estratificando os espaços autorizados pela sociedade para sua atuação. Não obstante, ao ingressarem nesses espaços, não recebiam reconhecimento e valorização semelhantes aos dos homens ao executarem suas funções, estando sujeitas a provocações depreciativas.

A emancipação era uma conquista, mas também uma ameaça aos costumes conservadores, por isso conferiram paradoxos e contradições à vida feminina, em um cenário marcado pelo conservadorismo de herança colonial.

À guisa de reflexões finais: discursos do passado que compõem práticas do presente

Estudos acerca dos aspectos da diversidade na perspectiva teórico-metodológica da história das mulheres que abordam os impactos culturais e sociais da década de cinquenta, mediados por documentação relativa à imprensa periódica, viabilizaram a compreensão de nuances e abordagens veladas por documentos de outra natureza, que apontam pautas e agendas em circulação, na constituição das mulheres como sujeitos da história, ainda que com protagonismo negado ou silenciado. Ao examinar os discursos do Jornal das Moças é inegável identificar algumas permanências do passado no mundo contemporâneo. Não se pretende, com esta assertiva, afirmar que não houve mudanças ou rupturas com a dinâmica histórico-social estabelecida nos anos 50, em associação aos tempos atuais. Outrossim, passados 70 anos dos discursos publicados, percebe-se, notadamente, que muitas diferenças não foram equacionadas, muitos temas ainda permanecem como nebulosos e as conquistas femininas ainda são desnaturalizadas por parte de determinados grupos sociais.

O exame dos exemplares e seções selecionados ao longo da década de 1950 indicou a marca de discursos ancorados na divulgação de lugares sociais pré-estabelecidos para mulheres e homens, dos quais a publicação era tributária, ou seja, seguiam em seus textos conteúdos que auxiliassem a circulação de modos de ser e conviver que refletiam os valores postos na sociedade, herdados do colonialismo e patriarcado, conforme apontam os estudos de Helieth Saffioti (2011) e outros. A medida em que as demandas reivindicatórias vão ganhando espaço e publicidade, bem como a movimentação política orquestrada pelos movimentos sociais, liderados por mulheres, a publicação, sutilmente, amálgama aos seus textos pautas que passam a integrar o cenário nacional, para não caminhar completamente na contramão das transformações do mundo moderno.

Com o desenvolvimento econômico e industrial registrado no Brasil dos anos 50 a tecnologia se torna aliada à economia, e as demandas materiais ampliam significativamente seu alcance, refletindo-se em vários aspectos da vida humana; o ingresso massivo das mulheres no mercado de trabalho acompanha as mudanças e aproveita as oportunidades criadas por este cenário econômico, pretensamente favorável. A presença de mulheres nos espaços públicos se torna uma realidade, inclusive o estímulo ao estudo em níveis superiores ao elementar.

As representações sobre a mulher moderna pautam-se na conformação de um sujeito preparado para se dedicar exclusivamente ao lar. Os conteúdos da publicação reforçam, constantemente, o bem-estar da família, dicas de culinária, bordados, moda e comportamento, delimitando que seu lugar era dentro do âmbito privado, mas alcançam patamares distintos ao final da década. A partir dos anos de 1955, nota-se uma mudança em seu discurso quando as mulheres passam a adentrar o espaço público, o mercado de trabalho e buscar formação profissional.

Na medida do passar dos anos constata-se que a presença da mulher no espaço público é caminho sem volta! Notam-se, por fim, posicionamentos dissonantes na revista em seu discurso sobre o lugar da mulher, ora defendendo suas conquistas, ora marcando o retrocesso nas práticas morais e de manutenção da família. Atenta às mudanças da realidade de seu público leitor, a revista continuou com seus assuntos principais relacionados ao que se entendiam como temas pertinentes ao universo feminino, tais como moda, culinária e comportamento. Permanece, pois, o tom inicial da publicação: antes da mulher ser uma boa profissional, deveria ser boa mãe e dona de casa. A representação sobre a mulher se modifica, mas o perfil editorial da revista nos anos finais da década de cinquenta, ainda que acompanhe as mudanças sociais, mantém-se fiel ao pressuposto assentado no conservadorismo, que qualifica lugares e direitos distintos aos homens e mulheres. Reforçam-se, pois, a importância de compreender estes aspectos pela via da História, buscando elementos para sua superação.

Agradecimentos

A pesquisa de mestrado conta com o apoio da agência de fomento CAPES, por meio do Programa de Bolsas destinadas ao Programa de Pós-Graduação em História – Universidade Federal da Grande Dourados/UFGD.

REFERÊNCIAS

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Notas de autor

1 Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Dourados – MS – Brasil. Professora Associada. Doutorado em Educação Escolar (FCLAr/UNESP). Estágio de Pós-Doutorado em História (UNESP/Assis).
2 Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Dourados – MS – Brasil. Mestranda em História.

Información adicional

Como referenciar este artigo: PINTO, A. A.; SOUZA, A. C. C. Diversidades, imprensa e história(s): Discursos de um tempo que ainda permanecem (Jornal das Moças – 1950-1960). Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. esp. 2, p. 1169-1188, jun. 2022. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17iesp.2.16988.

Processamento e edição: Editoria Ibero-Americana de Educação. Revisão, formatação, padronização e tradução.

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