Artigos
CONCEPÇÃO DE HOMEM CONTEMPORÂNEO PELO VIÉS MATERIALISTA DIALÉTICO
CONCEPCIÓN DEL HOMBRE CONTEMPORÁNEO POR EL SESGO MATERIALISTA DIALÉCTICO
CONCEPTION OF CONTEMPORARY MAN BY THE DIALECTICAL MATERIALIST BIAS
CONCEPÇÃO DE HOMEM CONTEMPORÂNEO PELO VIÉS MATERIALISTA DIALÉTICO
Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, vol. 17, núm. 2, pp. 1473-1487, 2022
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Recepción: 09 Junio 2019
Recibido del documento revisado: 17 Diciembre 2021
Aprobación: 28 Febrero 2022
Publicación: 01 Abril 2022
Resumo: O objetivo dessa pesquisa é apresentar a concepção de homem contemporâneo pelo viés materialista histórico dialético, de modo a compreender a representatividade enquanto ser humano que esse sujeito exerce na sociedade atual. O materialismo histórico dialético acredita na formação humana do sujeito mediada pelas relações sociais no trabalho, o que interfere em sua concepção de mundo e no modo de atuar na transformação da sociedade, sendo assim, conhecer a concepção de homem contemporâneo permite ao pesquisador conceber quais sujeitos estão sendo formados para atuar na sociedade, bem como compreender suas ações mediante a realidade. A pesquisa bibliográfica possui seu alicerce na historicidade da filosofia da educação e nos estudiosos mais representativos de cada período histórico com ênfase para os estudiosos do materialismo histórico dialético, pois defende-se a tese de que as relações sociais no trabalho permeiam e constituem o pensamento dos homens, de modo a interferir no processo histórico de desenvolvimento humano. As leituras permitem conceber o homem como ser social, e por isso influenciado e influenciador das mudanças na sociedade. Nesse contexto, a educação pode contribuir para o desenvolvimento cultural, social e político dos homens, e dessa maneira se constitui como meio de transformação da realidade.
Palavras-chave: Concepção, Contemporâneo, Materialismo.
Resumen: El objetivo de esta investigación es presentar la concepción de hombre contemporáneo por el sesgo materialista histórico-dialéctico, de modo a comprender la representatividad como ser humano que ese sujeto ejerce en la sociedad actual. El materialismo histórico-dialéctico cree en la formación humana del sujeto mediada por las relaciones sociales en el trabajo, lo que interfiere en su concepción de mundo y en el modo de actuar en la transformación de la sociedad, siendo así, conocer la concepción de hombre contemporáneo permite al investigador concebir cuáles sujetos se están formando para actuar en la sociedad, así como comprender sus acciones mediante la realidad. La investigación bibliográfica tiene su base en la historicidad de la filosofía de la educación y en los estudiosos más representativos de cada período histórico con énfasis para los estudiosos del materialismo histórico dialéctico, pues se defiende la tesis de que las relaciones sociales en el trabajo permean y constituyen el pensamiento de los hombres, para interferir en el proceso histórico de desarrollo humano. Las lecturas permiten concebir al hombre como ser social, y por eso influenciado e influenciador de los cambios en la sociedad. En este contexto, la educación puede contribuir al desarrollo cultural, social y político de los hombres y de esa manera se constituye como medio de transformación de la realidad.
Palabras clave: Concepción, Contemporáneo, Materialismo.
Abstract: The purpose of this research is to present the conception of contemporary man by the dialectical historical materialist bias, in order to understand the representativeness as a human being that this subject exercises in today's society. Dialectical historical materialism believes in the human formation of the subject mediated by social relations at work, which interferes in his conception of the world and in the way of acting in the transformation of the society, thus, to know the conception of contemporary man allows the researcher to conceive which subjects are being formed to act in society, as well as to understand their actions through reality. Bibliographical research has its foundation in the historicity of the philosophy of education and in the most representative scholars of each historical period with an emphasis on scholars of dialectical historical materialism, because it is defend that social relations at work permeate and constitute the thinking of the men, interfering in the historical process of human development. The readings allow to conceive man as social being, and therefore influenced and influencer of changes in society. In this context, education can contribute to the cultural, social and political development of men and in this way constitutes a means of transforming reality.
Keywords: Conception, Contemporary, Materialism.
Introdução
Na trajetória filosófica do homem, a busca aos questionamentos atemporais: “Qual o sentido da vida? Qual a origem do mundo e do ser humano? O que é o ser?”, mediante o uso de base científica, com o objetivo de romper com o conhecimento adquirido por meio de respostas mitológicas, embasaram os filósofos da Antiguidade, Sócrates, Platão e Aristóteles, principalmente, na incessante busca pela verdade. Na Idade Média, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino foram os principais filósofos que conduziram os questionamentos, sendo esse movimento alicerçado pelo viés religioso, no qual Deus seria o meio ideal para conhecer a verdade. Já na modernidade, o conhecimento se constituiu como a grande questão a ser revelada aos homens, sendo em suma o uso da razão o modo de conquistá-lo, segundo os grandes filósofos desse período, dentre eles Bacon e Kant.
Na contemporaneidade, várias são as teorias e correntes filosóficas responsáveis por compreender o homem e traçar caminhos que apontem possíveis respostas às questões da existência humana e ao papel do homem nesse ínterim. Com o objetivo de compreender o homem contemporâneo, a pesquisa buscou apresentar a concepção de homem contemporâneo pelo viés do materialismo histórico dialético, de modo a compreender a representatividade enquanto ser humano que esse sujeito exerce na sociedade atual.
Para tanto, a primeira seção fez um resgate histórico das principais concepções de homem formuladas pelos principais filósofos em cada período da Filosofia da Educação, desde a Antiguidade até a atualidade, de modo a mostrar as transformações ocorridas nos pensamentos e no papel do homem nessas sociedades. Na segunda seção, a discussão começou com a apresentação de corrente filosóficas contemporâneas e focou nas considerações de teóricos materialistas acerca do papel do homem no mundo contemporâneo, de modo a constituir uma concepção de homem.
Concepção de homem na Filosofia da Educação
Ao propor o resgate histórico do homem é preciso considerar antes de conceber avaliações precipitadas o contexto histórico de cada pensador, as necessidades vivenciadas pela sociedade em cada período e a tentativa de cada estudioso em compreender aquele momento político, econômico e existencial, assim como, os pensamentos desenvolvidos por eles para sanar as inquietações de um povo, mesmo que as reflexões digam respeito às condições existenciais universais para atender a sujeitos particulares.
Diante dessa complexidade, a pesquisa buscou contribuir para uma visão mais ampla dos anseios humanos de cada época, bem como, ao desenvolvimento dos pensamentos que culminaram em teorias para resolvê-los. Nessa pesquisa foram apresentados apenas os estudiosos mais ilustrativos e os enfoques mais relevantes, cabendo a outras pesquisas o aprofundamento em cada período selecionado e sua respectiva análise.
Tradicionalmente, a história da filosofia está dividida em quatro períodos: Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea; essa divisão visa a organização e o entendimento dos pensamentos mais relevantes de cada período. A classificação dos períodos representa a sagacidade de alguns estudiosos em romper com paradigmas e estabelecer avanços nas ciências. Esse processo resulta no surgimento de novos períodos. Para isso, os pensadores precisam perceber as necessidades da sociedade, satisfazer os anseios particulares e atrelá-los ao inquietamento geral de conhecimento.
Pode-se considerar que esse processo traduz grande parte do desenvolvimento humano, ao avançar no sentido de humanizar o homem, entretanto, percebe-se historicamente que muitas vezes o inverso ocorre. Nessa pesquisa, tornar-se humano vai além do sentido biológico, pois abrange o sentido cultural que, nessa pesquisa, supera o fisiológico, de modo a caracterizar o humano como o ser que possui empatia e o desejo de realizar o movimento de busca de melhorias para o coletivo.
Na Antiguidade, os homens, a princípio, eram guiados pelo conhecimento mitológico. As narrativas míticas conduziam as ações humanas, já que apresentavam respostas às indagações do homem. No período clássico da filosofia grega, os estudos se baseavam nas questões éticas e políticas da vida humana. A constituição democrática desse período exigia dos pensadores o questionamento acerca do justo e injusto, e desse modo a questão mais importante era o problema da verdade. As discussões realizadas pelos pensadores atenienses resultavam em divergências de opiniões, o que levou os sofistas a imaginarem que a verdade não existia, que seria relativa, subjetiva e parcial. Para Sócrates, o discurso humano estava tão carregado de ambiguidades e contradições que fica impossível conhecer a verdade, entretanto, buscou-se com o uso da razão a conquista da verdade (VASCONCELOS, 2012).
Ainda na Antiguidade, Platão e Aristóteles conceberam o problema da verdade de maneira distinta. Para Platão, o mundo se divide entre as coisas e as ideias. As coisas são transitórias e imperfeitas, as ideias são eternas e perfeitas. No caso do homem, para Platão existia a divisão entre alma e corpo, sendo a alma eterna e o corpo mortal. A alma como ser dominante deve conduzir as ações humanas, por isso a razão prevalece sendo contrária aos impulsos humanos. Desse modo, a verdade para Platão estaria do mundo das ideias. Para Aristóteles existia a divisão de corpo e alma, sendo a alma mais importante, no entanto, o filósofo grego discordava da concepção de mundo das ideias. Para Aristóteles, a realidade é aquilo que conhecemos por meio dos sentidos e as ideias estão na mente humana. Esse posicionamento se diferencia do idealismo platônico, da constituição de um mundo separado para as ideias. Aristóteles considerava que mesmo sendo particulares as ideias, existia uma essência universal, desse modo, apropriar-se das ideias seria conhecer a essência das coisas, daquilo que permanece mesmo com as mudanças que estão no campo das aparências (VERNANT, 1972).
Percebe-se que o homem grego buscava a verdade com o uso da razão, para que o cidadão pudesse atuar de maneira significativa na vida, discutindo de modo democrático as questões que afligiam uma sociedade conduzida pela lei, pela política “[...] é no plano político que a Razão, na Grécia, se exprimiu, constituiu-se e formou-se” (VERNANT, 1972, p. 103). Devido a esse modo de atuar, sendo a vida pública considerada pelos gregos a atividade principal, o homem enquanto sujeito não se separava do seu papel de cidadão. O desenvolvimento dos conceitos da filosofia que surgiram nesse período não se embasaram pela experiência, mas na edificação de uma lógica para os fenômenos. A linguagem atuava nesse período como instrumento dos debates, discursos e conduções da lógica, sendo a principal atividade dos gregos as relações entre si.
Na Idade Média, o cristianismo influenciou o pensamento da sociedade, sendo muitas vezes responsável por impedir a reflexão livre filosófica. Enquanto para os gregos a razão nos diferenciava dos animais, e por isso era considerada um estágio superior do homem, no cristianismo a verdade advinha de alguém, de um ser superior aos homens, que seria Deus. Para o homem medieval, o pecado humano impossibilitava a razão e, consequentemente, a verdade, desse modo ela só pode ser conhecida através da fé. Nesse contexto, é possível encontrar filósofos que prestigiam os pensamentos de Aristóteles, realizando uma mescla entre o uso da razão pelo homem e a fé como intercessora do ensino, assim como, aqueles que desconsideram totalmente o pensamento do filósofo grego e creem na fé como único meio de aprendizagem. Desse modo, Deus é o provedor do ensino. Em suma, Tomás de Aquino seguia o caminho de acreditar na junção dos ensinos de Aristóteles e da fé cristã e Santo Agostinho seria o representante do ensino exclusivo pela fé; desse modo, o papel do homem era de um ser passivo guiado pela fé, tendo como principal atividade a busca da verdade pelos estudos religiosos (OLIVEIRA, 2007).
O pensamento na Idade Moderna voltou-se para o conhecimento da verdade pela razão, entretanto, essa razão se caracterizava por ser mais investigativa, distante da tendência natural da razão para a verdade como acreditavam os gregos, sendo essa desconfiança fruto dos questionamentos do cristianismo. Um dos primeiros movimentos desse período foi o naturalismo, cujo maior representante foi Jacques Rousseau. Para esse pensador, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe; para evitar essa situação, que poderia ser irreversível, o filósofo sugeriu o retorno ao ambiente natural, distante do mundo artificial que é a civilização. Para Rousseau, era preciso promover o retorno à essência humana, ao desenvolvimento dos sentidos, após esse período de educação, de experiências diversas, o homem estaria preparado para distanciar-se dos vícios presentes na sociedade civilizada (DE PAIVA, 2007).
A passagem do mundo Medieval para o Moderno é marcada pela disputa de poder entre a igreja, a nobreza e a burguesia. Nesse contexto, vários foram os movimentos revolucionários, a começar com o Iluminismo, que consistiu na crítica de filósofos ao regime monárquico absolutista. Um dos principais críticos desse período foi Voltaire. Esse filósofo apoiava a reforma social francesa, com críticas à igreja católica e à monarquia absolutista. Na educação, Voltaire era contrário ao ensino tradicional, distante da realidade, em defesa de uma educação mais prática. O posicionamento mais crítico da razão fez surgir duas vertentes na Idade Moderna, o racionalismo e o empirismo. O racionalismo acreditava no movimento da dedução para o alcance da pura razão. Já o empirismo utilizava as experiências como fator predominante da razão, pelo método indutivo. René Descartes é um dos filósofos representantes desse momento histórico como racionalista. Para esse filósofo, as ideias nascem com o homem e se manifestam à medida que o indivíduo se desenvolvia, sendo o pensamento a essência do ser humano; dessa maneira os aspectos materiais seriam desconsiderados para a obtenção da verdade (RUSSEL, 2002).
Como opositor do pensamento racionalista, Francis Bacon ressaltava a importância da experiência para constituir a razão, por isso considerado positivista. O que aproxima Bacon de seus antecessores cristãos é o fato desse filósofo considerar a existência de obstáculos para que se alcance a razão, denominados de preconceitos, com o sentido de ideias preconcebidas que afugentam a realidade dos fatos. No entanto, os preconceitos não são intransponíveis, eles ocorrem quando tomamos como verdade o que os sentidos nos apresentam; quando acreditamos naquilo que é passado pela educação; quando confiamos na autoridade de quem afirma algo e quando não entendemos o sentido das palavras. Portanto, a busca pela verdade com o uso da razão deveria ser um exercício de investigação com o uso da experiência, que fornece os dados para a confirmação ou refutação dos fenômenos (VASCONCELOS, 2012).
Outros filósofos que marcaram o pensamento positivista foram Augusto Comte e Hebert Spencer. Comte foi um dos primeiros defensores do pensamento positivista. Para esse filósofo, a constante evolução humana ocorre mediante três estágios: teológico, metafísico e positivo. No teológico, ocorre a busca do indivíduo por explicações sobrenaturais, que aos poucos são rechaçadas, e passam a ser situações metafísicas, ou seja, relacionadas à própria natureza das coisas. O último estágio seria o positivo, consubstanciado pelas explicações científicas advindas das experiências que estabelecem leis para as observações. No caso de Spencer, sua contribuição pode ser observada na junção realizada por ele dos ideais de Comte com a teoria da seleção natural de Charles Darwin. O objetivo desse filósofo foi de criar uma teoria na qual pudesse integrar os fenômenos de ordem física, mental e social, por isso unia aos seus pensamentos, além de Comte e Darwin, os ensinamentos da psicologia de John Stuart Mill relacionados à associação de ideias. A corrente funcionalista, liderada por Émile Durkheim, pode ser considerada um desdobramento do positivismo. Essa corrente defendia que os fatos sociais devem ser estudados como coisas, do mesmo modo que se analisa um fenômeno em outras disciplinas. Outra contribuição de Durkheim a esse período foi de considerar a influência do meio social na vida do indivíduo, desse modo o aprendizado viria do meio no qual se vive (RIBEIRO, 2017).
Na Idade Moderna, buscava-se pela razão estabelecer leis universais com o uso de experiências particulares, no caso do empirismo, e ao mesmo tempo o racionalismo acreditava que a pura razão traria a universalidade ao conhecimento; no entanto, as duas correntes não conseguiam alcançar a universalidade de modo coerente. Para tentar sanar essa necessidade, Immanuel Kant, outro filósofo moderno, analisou as duas vertentes e apontou seus erros. Para Kant, o primeiro erro do racionalismo estava em acreditar que a verdade estaria somente no sujeito, e do empirismo ao crer somente no objeto. Para o filósofo, o conhecimento envolvia dois elementos: o sujeito e o objeto em uma ação combinada na qual os dois atuam, o sujeito universalizando o conhecimento e a experiência com o objeto ao renová-lo (KANT, 2005).
Para alguns críticos, Kant aproxima-se do negabilidade da existência do objeto, já que o considera conhecido pelo sujeito. Cogita-se a esse fato o surgimento do idealismo realizado pelos filósofos Johann Gottlieb Fichte e Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Para Hegel, o conhecimento primeiro era idealizado no pensamento para depois atuar na realidade. Karl Marx vem a contrapor aos idealistas, pois para ele a realidade é que permite o desenvolvimento do pensamento, é o concreto, o material que vai transformar a consciência. Percebe-se que para o homem moderno a busca pela verdade está baseada novamente na razão; no entanto, a busca se divide naqueles que a buscam pela dedução e nos que buscam pela indução. O papel do homem nesse período é marcado pela busca pelo conhecimento. No embate entre o ideal e o concreto surge o pensamento do homem contemporâneo, sendo seus principais representantes e teorias expressas na próxima seção.
Considerações da filosofia da educação para o homem contemporâneo com ênfase ao viés materialista dialético
O Materialismo Histórico-Dialético possui como objeto de estudo o movimento real da sociedade burguesa. Karl Marx, o maior representante dessa teoria, queria compreender o processo de formação da sociedade capitalista. As investigações desse processo culminam com a importância do trabalho para o desenvolvimento humano, sendo as relações sociais na atividade o grande impulsionador das transformações do pensamento humano. O desenvolvimento dessa teoria, na idade contemporânea, buscou responder aos anseios de uma sociedade fragmentada pela exploração do trabalho.
Os movimentos da Revolução Industrial retiraram da terra e das atividades artesãs o homem, que se viu diante da necessidade de buscar a sobrevivência mediante o trabalho degradante nas fábricas. Nesse contexto, a busca por respostas dos filósofos e estudiosos da época culminaram em várias correntes teóricas, sendo elas: o materialismo histórico dialético, a fenomenologia, o existencialismo, o estruturalismo, o pragmatismo e a filosofia analítica.
O materialismo histórico dialético tem Karl Marx e Friedrich Engels como pensadores referenciais. Para esses filósofos, a sociedade se encontrava alienada pelo sistema capitalista de produção, ao vender a força de trabalho, na tentativa de sobreviver. A alienação surge no momento em que o valor do trabalho é menor que o valor para a compra dos objetos produzidos, com isso, constitui-se um movimento do qual o trabalhador está sempre numa situação dependente da mercadoria. No materialismo histórico dialético, a intencionalidade é reconhecer as contradições presentes na sociedade dividida em classes sociais, de modo a transformar seres alienados em cidadãos conscientes do papel de sujeitos, buscando a totalidade dos conhecimentos e desenvolvendo o ser humano. Para tanto, Marx e Engels acreditam que o sistema capitalista deve sucumbir em favor do socialismo, no qual acabaria o Estado e a divisão de classes (MÉSZÁROS, 2007).
Na contramão do materialismo histórico dialético, que acreditava na incapacidade da liberdade devido à manipulação do sistema pela classe burguesa, estão a fenomenologia e o existencialismo. Na fenomenologia, os atos mentais são subjetivos, desse modo, busca-se um método de análise objetivo para a observação dos fenômenos. A descrição das vivências seria um caminho a ser percorrido por essa corrente, para isso ocorre o resgate do conceito de intencionalidade do sujeito, daquele que quer conhecer o objeto para que ocorre a investigação. O existencialismo nasceu na virada do século XIX para XX, o ser humano desejava a liberdade, e através de suas escolhas, fazer-se a si mesmo, construir seus caminhos, o destino de cada sujeito dependia de suas ações. Percebe-se que ao mesmo tempo que o existencialismo se mostra libertador, ele possui uma visão pessimista da existência do ser, já que seu maior representante, Jean Paul Sartre, considera que a vida humana não vale ser vivida. A descrença em Deus ou em qualquer outro ente que possa interferir na conduta humana faz crer aos adeptos dessa corrente que exista liberdade plena de escolhas. Entretanto, o próprio Sartre é sagaz ao afirmar que a figura do outro é um problema à livre escolha, acometendo certo desacordo aos princípios do movimento libertador do ser, ou seja, até que ponto somos realmente livres para escolher nossos caminhos? (VASCONCELOS, 2012).
Coexistiam na contemporaneidade pensamentos diversos, dentre eles o estruturalismo, o pragmatismo e a filosofia analítica. O estruturalismo que teve seu princípio nos estudos de Ferdinand Saussure no campo da linguística foi seguido por outros campos da ciência. Na filosofia, Michel Foucault buscou analisar as estruturas de poder, bem como, o mito do progresso. Para esse pensador, as evoluções que ocorriam eram dos conceitos que eram entendidos somente por aqueles que faziam parte daquela formação discursiva. Nesse interim, Foucault fica conhecido como filósofo que busca a arqueologia do saber, estuda a profundidade dos conceitos, assim como das estruturas relacionadas ao objeto, fato ou fenômeno, ao considerar que a verdade é relativa, e a liberdade mínima. (PINTO, 2002).
No Pragmatismo, os filósofos acreditam que a verdade não é alcançável pelo intelecto humano, já que é impossível nos colocarmos fora de nosso contexto, ou seja, desvincularmo-nos da realidade da qual participamos é um ato improvável. Desse modo, diante da mesma situação, os valores e crenças interferem no posicionamento humano de maneira a que tomemos medidas conflitantes. Para John Dewey, principal representante dessa corrente, os problemas da vida devem ser tratados cientificamente, dessa maneira, na escola, o procedimento de investigação parte do princípio do levantamento de hipóteses para a solução e a busca pela experiência, para saná-las sem desvincular o aluno da formação democrática. No caso da filosofia analítica, a grande ênfase está nas questões da linguagem. Para Wittgenstein, o pensamento e a linguagem são indissociáveis. A importância da fala, nessa corrente filosófica, considera a oralidade não só como meio para disseminar ideias, mas como modo de agir no mundo. Desse modo, o contexto no qual é realizado o discurso interfere no significado das palavras, por isso merece atenção a contextualização para a interpretação dos fatos (VASCONCELOS, 2012).
Percebe-se que o homem contemporâneo busca romper com os paradigmas dominantes que circundam o conhecimento, dessa maneira questiona a verdade de modo a atender as necessidades particulares e as universais. A complexidade na qual o homem está inserido dificulta o olhar mais apurado às adversidades que o contemplam, o que impossibilita determinar verdades absolutas, e crer na relativização do ser. Destarte, na análise das contradições presentes na realidade, é possível perceber que a história e as atividades realizadas pelos homens podem indicar melhores caminhos para compor uma concepção de homem contemporâneo, para tanto seguem as considerações de estudiosos materialistas.
A dinâmica da sociedade contemporânea é considerada por Vigotski (1930) dividida em diferentes classes sociais, composta por um conjunto heterogêneo de pessoas, sendo suas diferenças influenciadas pelo trabalho que exercem.
[...] e não só os trabalhadores, mas também as classes que os exploram – direta ou indiretamente – são escravizadas pelos instrumentos de suas atividades, como resultado da divisão do trabalho: os burgueses, amesquinhados pelo capital e pela ganância de lucros; o advogado pelas ideias jurídicas ossificadas que o governam como se foram uma força independente; “as classes educadas”, em geral, por suas limitações locais, particulares e unilaterais, suas deformidades físicas e sua miopia espiritual. Estão todos mutilados pela educação que os treina para uma certa especialidade, pela escravidão vitalícia a essa especialidade, até mesmo se essa especialidade seja fazer absolutamente nada [a mais absoluta lassidão] (VIGOTSKI, 1930, p. 3).
No trecho citado, o psicólogo russo descreve a divisão do trabalho da sociedade contemporânea e a degradação dos seres ao serem escravizados pelo trabalho exaustivo, em especial, o proletariado, mas também daqueles que se submetem à escravidão do capital, à dependência do dinheiro, sendo esse sinônimo de vida.
Para Vigotski (1930), a divisão do trabalho, que a princípio seccionava o ser humano ao incapacitá-lo de ter acesso à dinâmica global da produção, produzindo seres insatisfeitos com suas atividades, com o desenvolvimento do sistema capitalista produziu mudanças no trabalho, requerendo do sujeito maior mobilidade e multifuncionalidade. O trabalhador não precisa saber do processo como um todo, mas dominar várias atividades reprodutivas que exijam rapidez em suas execuções, além de demonstrar agilidade em gerenciar e entrelaçar as diferentes necessidades, de modo que os ganhos de capital sejam maiores, como nos alerta Vigotski (1930, p. 5) ao dizer que
[...] o fim da época burguesa constitui-se como uma antítese notável em relação ao seu começo. Se no princípio o indivíduo foi transformado em uma fração, em executor de uma função fracionária, em uma extensão viva [apêndice] da máquina, então, ao final, as próprias exigências da indústria irão requerer uma pessoa plenamente desenvolvida, com elástica plasticidade, e que seja capaz de modificar as formas sociais de trabalho, de modificar a ordenação do processo social de produção, e de, enfim, controlá-lo.
As considerações do psicólogo russo acerca das transformações da sociedade capitalista se confirmaram na sociedade burguesa atual, ao ser possível observar as atuais exigências de conhecimento para a inclusão do homem no mercado de trabalho.
Destarte, a concepção de homem contemporâneo na perspectiva materialista necessita levar em consideração as influências das relações sociais desde a infância, pois as mudanças ocorridas nesse ao longo do desenvolvimento do sujeito afetam diretamente a consciência, e consequentemente o comportamento humano. O crítico literário, filósofo e sociólogo Walter Benjamin, na obra O narrador, discorre acerca da morte da cultura do narrador. Nessa obra, Benjamin diz que “são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente” (BENJAMIN, 1986, p. 197). A cultura de contar e recontar histórias aos familiares, de passagens da vida, ou ainda, de lendas permeadas pela cultura de um povo, praticamente está extinta. A arte de narrar, para esse autor, está presente na sabedoria de povos simples, e por isso a importância da oralidade, ação essencial da arte de narrar, assim como do ouvinte, já que a memorização de quem escuta a história possibilita a reprodução do fato, sendo esse um ciclo essencial para a manutenção da narrativa. Segundo Benjamin, o romance escrito contribuiu para o processo de aniquilamento do narrador, assim como o texto informativo de reprodução imediata produz a morte de personagens, do imediatismo no qual o homem, hoje, se encontra.
Para o historiador inglês Eric Hobsbawn, na obra A era dos extremos (1995), o contexto do século XX passou por três grandes transformações: a catástrofe, a era de ouro e o desmoronamento. Em suma, na catástrofe, o homem se vê envolto nas grandes guerras, que tiveram como base os interesses entre as grandes potências, nas terras e a na concorrência econômica. A era de ouro, para o historiador, representou o momento no qual os países capitalistas desenvolvidos investiram em políticas de bem-estar social, no setor público, voltados para o social, mesmo que o objetivo fosse a recuperação econômica, como no caso dos Estados Unidos com a quebra da bolsa em 1929: os investimentos foram positivos para a sociedade. Já nos países socialistas ocorreram as políticas de redistribuição de renda. O desmoronamento veio com a queda do sistema socialista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que apresentava problemas internos e a competição capitalista, em grande parte devido à elasticidade do capital, que era mais presente na economia capitalista, ou seja, o capital com maior adaptabilidade aos contextos de mercado. Segundo o historiador, após a terceira fase, os sujeitos passaram a conviver com o domínio do capital sobre a vida humana.
Nesse contexto, Mészáros (2007) considera que a educação seja o meio pelo qual se possa amenizar a autoalienação do capital, pois para o filósofo a aprendizagem é a própria vida, ou seja, ela assume o papel de guia ao ser humano em todo seu processo de desenvolvimento. Segundo esse autor, por meio da educação é possível produzir a consciência social que refuta a dominação do capital, de modo a romper com o ciclo capitalista de internalização. Na obra O desafio e o fardo do tempo histórico, Mészáros (2007) vai defender a maior atenção ao processo de internalização, no qual o sistema capitalista busca incutir nos sujeitos como essencial à manutenção do sistema capitalista: o trabalho de refutação desse ciclo procura superar a visão de mundo restrita ao capital para produzir no homem uma visão emancipadora do sujeito, de modo que o trabalho cumpra sua função vital, a de atividade realizadora do homem.
Sánchez Vásquez (2011) recorda as considerações de Marx para a definição de sociedade, ao relembrar que ela, a sociedade, é produto da ação recíproca dos homens, e, por isso, considera essencial na formação da concepção de homem as relações sociais. Desse modo, a sociedade atual não pode menosprezar as relações sociais como desencadeadoras do próprio desenvolvimento psíquico, como nos alerta Duarte (2016) na obra Os conteúdos escolares e a ressureição dos mortos. Ao analisar a influência do trabalho, da cultura e dos conteúdos escolares em prol do desenvolvimento humano, o educador considera que “[...] quanto mais ele seja capaz de conduzir de forma racional e livre seus processos psicológicos por meio da incorporação, à sua atividade mental, da experiência psíquica humana corporificada e sintetizada na cultura”. Dessa maneira, o homem é produtor e fruto da sua atividade.
Nessa mesma linha de pensamento, Sánchez Vázquez (2011), na obra a Filosofia da práxis, alerta para o fato de que as relações humanas são objetivas e por isso mediatizadas pelo desejo do homem, mesmo que de modo inconsciente algumas vezes, como as produzidas por intermédio do capital, por isso a importância de que as relações sejam realizadas entre pessoas, e não entre objetos, distanciando o sujeito do aprendizado, da oportunidade de transformação, de superação das adversidades.
Por ser o indivíduo um ser social, as relações entre os homens não se reduzem a relações humanas intersubjetivas. As relações de produção são certamente relações objetivas, sociais, entre os homens, independentemente de como eles a vivam ou conheçam. Mas os homens não contraem essas relações como puros suportes ou efeitos, mas sim, como indivíduos concretos, dotados de consciência e vontade, ainda que um tipo peculiar de relações sociais como as relações capitalistas de produção tenda a fazer deles meros suportes ou efeitos, e fazer das relações humanas simples relações entre coisas (SANCHEZ VÁSQUEZ, 2011, p. 344).
Fica evidente a preocupação de Sánchez Vásquez com as condições de reprodução humana criadas no meio social, das relações entre o ser social, e o papel do trabalho como meio fundante do homem, de desenvolvimento do sujeito. Nesse contexto, cabe ao pesquisador analisar as estruturas atuais de exigência do mercado de trabalho, do mesmo modo, observar as mudanças nas relações sociais historicamente, de maneira a conceber possíveis análises da concepção de homem e contribuir para a melhoria da concepção de mundo dos sujeitos.
Considerações finais
Destarte, o homem sempre buscou respostas para sua existência, o naturalismo, o positivismo, o materialismo histórico dialético, a fenomenologia, o existencialismo e o estruturalismo são correntes da filosofia da educação que contribuíram e contribuem para esse processo. Entretanto, nesse caminhar, na tentativa de se conhecer, o homem é influenciado pela história e pelos contextos que o conduziram a distanciar-se da natureza e do próprio homem. Entender a influência da Revolução Industrial, da culminação de guerras e do comportamento do homem diante do Outro, o anseio por conquistar a liberdade, podem demonstrar indícios da formação do homem contemporâneo. Sujeito que busca a ruptura de paradigmas, o questionamento às diferentes instituições que, até o momento, eram suas referências de vida, seus ideais de história.
Nesse contexto, as correntes filosóficas citadas acima buscam satisfazer o sentimento de angústia humana pela liberdade, pregando o rompimento com as antigas tradições, o voltar-se para si. Tais atitudes produziram no homem uma sensação de poder diante de suas vidas, seus destinos, seus corpos. Percebe-se na multiplicidade de correntes filosóficas a ausência de um fio condutor, nesse ínterim, o homem buscou no “ter” em detrimento do “ser” motivos para existência humana.
Para Campos (2018), entre o real e o imaginário está o que o homem é de verdade e aquilo que é sua projeção. Entretanto, o homem primeiro precisa conhecer-se para depois constituir as condições de transformação e superação. Desse modo, uma forma de entender o homem contemporâneo seria saber quem de fato somos, ou ainda, o que tem nos possibilitado ser o que somos.
O conceito de homem contemporâneo vai além de sociedade individualizada, sem utopias, sem o caráter reflexivo em relação à sociedade com o prazer individual como fim último do homem, para um homem invisível, ao desconsiderar as reais necessidades dos sujeitos, de seres alienados pelo atual sistema capitalista, que universaliza os desejos da classe dominante, desconsiderando as particularidades, a historicidade e a construção coletiva do conhecimento.
REFERÊNCIAS
BENJAMIN, W. O narrador. In: BENJAMIN, W. Magia e Técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução: Sérgio Paulo Rouanet. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.
CAMPOS, D. C. Um olhar qualitativo sobre a contemporaneidade. In: BAPTISTA, M. N.; CAMPOS, D. C. Metodologia de pesquisa em ciências: Análise quantitativa e qualitativa. Rio de Janeiro: LTC, 2018.
PAIVA, W. A. A formação do homem no Emílio de Rousseau. Educação e Pesquisa, v. 33, n. 2, p. 323-333, maio/ago. 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ep/a/B5YfxvNVpv9ywxWwtvDL5cm/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 29 ago. 2021.
DUARTE, N.; Os conteúdos escolares e a ressurreição dos mortos: contribuição à teoria histórico-crítica do currículo. Campinas, SP: Autores Associados, 2016.
HOBSBAWN, E. A era dos extremos: o breve século XX. 1941-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 90 p.
KANT, I. Que significa orientar-se no pensamento. A paz perpétua e outros opúsculos. Tradução: Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2005. p. 39-55.
MEINERZ, A. Concepção de experiência em Walter Benjamin. 2008. 81 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008.
MÉSZÁROS, I. O desafio e o fardo do tempo histórico: o socialismo no século XXI. São Paulo: Boitempo, 2015.
OLIVEIRA, T. Os mendicantes e o ensino na Universidade Medieval: Boaventura e Tomás de Aquino. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 24., 2007, São Leopoldo. Anais [...]. São Leopoldo: Unisinos, 2007. p. 1-8.
PINTO, P. R. M. O método analítico em filosofia. Filosofia e método. São Paulo: Loyola, 2002.
RIBEIRO, J. O que é positivismo. São Paulo: Brasiliense, 2017.
ROSSEAU, J. J. Emílio ou Da educação. Tradução: Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
RUSSELL, B. O elogio ao ócio. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
VÁZQUEZ, A. V. Filosofia da práxis. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
VASCONCELOS, J. A. Fundamentos filosóficos da educação. Curitiba: Ibpex, 2012.
VERNANT, J-P. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Difel, 1972.
VIGOTSKI, L. S. A transformação socialista do homem. URSS: Varnitso, 1930. p. 1-9.
Notas de autor
Información adicional
Como referenciar este artigo: GALVÃO, R. M.; FRANCO, S. A. P. Concepção de homem contemporâneo pelo viés materialista dialético. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 2, p. 1473-1487, abr./jun. 2022. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i2.12659