Secciones
Referencias
Resumen
Servicios
Descargas
HTML
ePub
PDF
Buscar
Fuente


CORRIDA DE ORIENTAÇÃO, ESPORTE ORIENTAÇÃO, ORIENTAÇÃO: UM ESTUDO DE REVISÃO
CARRERA DE ORIENTACIÓN, ORIENTACIÓN DEPORTIVA, ORIENTACIÓN: UN ESTUDIO DE REVISIÓN
ORIENTATION RACE, SPORT ORIENTATION, ORIENTATION: A REVIEW STUDY
Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, vol. 17, núm. 2, pp. 1557-1577, 2022
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Relatos de Pesquisas

Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação 2022

Recepción: 17 Agosto 2021

Recibido del documento revisado: 21 Noviembre 2021

Aprobación: 08 Marzo 2022

Publicación: 01 Abril 2022

DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i2.15331

Resumo: O trabalho objetivou investigar as noções ou terminologias vinculadas à Corrida de Orientação, Esporte Orientação e Orientação, bem como as suas especificidades e o modo como são utilizadas. No intuito de atingir o objetivo da pesquisa, optamos pela revisão integrativa e, especificamente, para a produção de dados, optamos pelas seguintes bases: Banco de Teses e Dissertações da CAPES; SciELO; LILACS, e, por fim, os anais do CBAA, devido à sua relevância nacional e internacional no âmbito das Atividades de Aventura. Considerando os dados encontrados, foi possível perceber que: a) apesar de haver uma indicação da Confederação para o uso da nomenclatura, as práticas extrapolam a padronização propagada pelas instituições esportivas; b) ficou-nos evidente a ausência de uma terminologia matricial; c) por fim, tornou-se evidente nos estudos a potência da Orientação enquanto elemento educativo para a escola.

Palavras-chave: Orientação, Escola, Educação Básica.

Resumen: Este trabajo tuvo como objetivo investigar las nociones o terminologías vinculadas a la Carrera de Orientación, la Orientación Deportiva y la Orientación, así como sus especificidades y la forma en que se utilizan. Para alcanzar el objetivo de la investigación, optamos por la revisión integradora y, respectivamente, para la producción de datos optamos por las siguientes bases: Banco de Tesis y Disertaciones de la CAPES; SciELO; LILACS, y, finalmente, los anales del CBAA, por su relevancia nacional e internacional en el ámbito de las Actividades de Aventura. Considerando los datos encontrados, fue posible percibir que: a) a pesar de haber una indicación de la Confederación para el uso de la nomenclatura, las prácticas extrapolan la estandarización propagada por las instituciones deportivas; b) se nos hizo evidente la ausencia de una terminología matricial; c) finalmente, se evidenció en los estudios el poder de la Orientación como elemento educativo para la escuela.

Palabras clave: Orientación, Colegio, Educación básica.

Abstract: This article aims to investigate the notions or terminologies linked to Orienteering Race, Sporting Orienteering, and Orienteering, as well as their specificities and the way they are used. To achieve the objective of the research, we opted for the integrative review and, respectively, for data production we opted for the following foundation: CAPES Dissertations and thesis bank; SciELO; LILACS, and, lastly, CBAA annals, due to its national and international relevance in the scope of Adventure Activities. Considering the data found, it was possible to notice: a) despite the Confederation's indication for the use of the nomenclature, the practices exceed the standardization propagated by sports institutions; b) the absence of a matrix terminology became evident; c) finally, the power of Orienteering as an educational element for the school was evidenced in the studies.

Keywords: Orientation, School, Basic education.

Introdução

O interior do “pensável” geralmente é habitado por algum tipo de herança de natureza ideológica, pragmática e outras tantas. Aparentemente, o que pode ser pensado encontra-se em repouso, é algo concluído, pleno. Confortável, eu diria. Contudo, consoante ao que destaca Certeau, sempre há possibilidades ao transbordamento do “pensável” e ao congruente emergir de outro pensar (LACERDA, 2015, p. 2).

A surpresa é marcada pela imprevisibilidade, pela dúvida, pois ela abala as certezas, desestrutura convicções e delineia novas rotas. Assim, inspirados(as) em Certeau (2011), especificamente nos sujeitos ordinários, entendemos que somos consumidores dos produtos que chegam até nós, entretanto, não agimos passivamente; pelo contrário, agimos a partir de operações multiformes intervindo sutilmente na ordem dominante.

Desse modo, experienciando o projeto de extensão com foco na Orientação5, desenvolvido pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) – campus avançado Resende, fomos nos surpreendendo com as ações educativas propostas pela referida prática extensionista.

Tal surpresa se deve pelo potencial educativo desta prática (SILVA, 2020) e por sua escassa difusão na região, pois, ao ultrapassar os limites do campus Resende, ocupando outros espaços no município, as escolas foram convidadas a extrapolar os muros institucionais, a fim de se apropriar de novos conhecimentos no âmbito da cultura corporal de movimento (CÂNDIDO et al., 2019).

Nesta linha de pensamento, e tomando o projeto supramencionado como inspiração, optamos pelo enfrentamento à ótica que opera privilegiando a hegemonia dos esportes de quadra nas aulas de Educação Física – Handebol, Futsal, Basquetebol, Voleibol – (TAHARA; CAGLIARI; DARIDO, 2017), pois entendemos que o referido processo de ensino reduz as experiências dos(as) estudantes aos esportes com bola.

Outrossim, entendemos que há desafios que ainda não foram exaustivamente debatidos, uma dessas questões emerge da nomenclatura da referida cultura corporal de movimento, visto ser esta denominada de múltiplas maneiras: Orientação, Orientação Pedestre, Corrida de Orientação, Esporte Orientação, Desporto Orientação, para citar alguns.

Assim, no rastro do objetivo mencionado, intencionamos desvelar (PAIS, 2003) – retirar o véu, no sentido da mostração6 –, ações vinculadas a esses termos nos remetendo ao seguinte questionamento: Até que ponto tais proposições dialogam com as múltiplas experiências que se materializam nos cotidianos escolares?

Nesta linha de pensamento, é importante frisar que entendemos a experiência não como algo “que nos passa”, mas como algo que nos acontece e nos marca (LARROSA, 2002, p. 21). Portanto, embora a proposta de uma vivência possa ser única para determinado grupo, a experiência é algo que varia de indivíduo para indivíduo. A esse respeito, Lacerda (2015) define experiência como o encontro entre o que já é conhecido e os significados que emergem por meio de novas percepções. Impossível ser experimentada da mesma forma por um coletivo, mas pode ser socializada e conhecida a partir de múltiplos sentidos.

Nesta direção, é possível que um percurso de Orientação seja experienciado de formas muito diferentes pelos sujeitos, podendo cumprir expectativas ligadas à realização de um esporte em uma perspectiva competitiva e/ou de lazer, socialização ou mesmo como um conteúdo a ser ensinado na escola por diferentes disciplinas para atingir objetivos convergentes ou não.

Percurso metodológico

[...] o ofício artesanal se envolve no trabalho em si mesmo e por si mesmo; as satisfações do trabalho são de per se uma recompensa; os detalhes do trabalho cotidiano são ligados, no espírito do trabalhador, ao produto final; o trabalhador pode controlar seus atos no trabalho; a habilidade se desenvolve no processo do trabalho; o trabalho está ligado à liberdade de experimentar; finalmente, a família, a comunidade e a política são avaliadas pelos padrões de satisfação interior, coerência e experimentação artesanal (SENNETT, 2009, p. 38).

A Oficina e o artífice: desenho e periodização

Ao modo de artífice fomos traçando um percurso que pudesse alcançar o objetivo do presente estudo. Desse modo, optamos por construir o projeto artesanalmente a partir da revisão integrativa, pois este procedimento permite a composição dos dados a partir de estudos publicados, possibilitando considerações a respeito do modus operandi de um determinado fenômeno, conceito, noção, dentre outros.

Salientamos ainda que, a revisão integrativa da literatura (RIL) proporciona a problematização e identificação das lacunas em relação ao fenômeno em análise, que, neste estudo, emerge das noções de Orientação, Esporte de Orientação, Desporto Orientação e Corrida de Orientação.

Com relação à revisão integrativa, Sousa, Silva e Carvalho (2010) mencionam que esta permite também atualizar as discussões relacionadas a um tema específico, pois opera a partir da síntese de estudos publicados. Desse modo, seguindo a lógica para a construção da revisão aqui proposta, percorremos seis etapas: (I) estabelecimento da pergunta norteadora; (II) interpretação de dados das bases; (III) criação de um banco de dados em uma planilha; (IV) análises dos trabalhos por meio dos critérios de inclusão e exclusão; (V) apresentação e discussão dos resultados e (VI) síntese do conhecimento.

Na primeira etapa, foi delineada a seguinte questão: quais conceitos fundamentam as terminologias Esporte de Orientação, Esporte Orientação, Corrida de Orientação, Desporto Orientação e Orientação?

No que se refere à produção de dados, as bases utilizadas foram as seguintes: Banco de Teses e Dissertações da CAPES, SciELO, LILACS, e, por fim, os anais do CBAA, devido à sua relevância nacional e internacional no âmbito da Aventura.

Na segunda fase – produção7 de dados e os critérios de inclusão e exclusão –, salientamos a necessidade de singularização do processo de pesquisa ao modo do artesão. Para Sennett (2009, p. 19), a “[...] habilidade artesanal designa um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho benfeito por si mesmo”. Essa noção de “habilidade artesanal” é mais abrangente que um trabalho derivado das habilidades manuais, pois “[...] diz respeito ao programa de computador, ao médico e ao artista”, no nosso caso, aos orientistas e aos docentes que utilizam tal cultura corporal de movimento.

Diante do exposto, a singularização da produção dos dados se deu pelo funcionamento particularizado do portal da CAPES, que nos exigiu a realização da busca com os descritores separadamente e com o uso de aspas: Esporte de Orientação, Esporte Orientação, Corrida de Orientação, Desporto Orientação e Orientação. Acerca do recorte temporal, decidimos trabalhar a partir do período compreendido entre os anos de 2001 e 2021, visto que o primeiro estudo encontrado na referida plataforma emergiu no ano de 2001, justificando-se, portanto, a escolha.

Prosseguindo com a produção dos dados, ressaltamos que, nas bases de dados SciELO e LILACS, os descritores acima mencionados foram articulados à área da Educação Física, tendo sido utilizado o operador booleano and para otimizar a obtenção de informações, conforme sugerem Teixeira et al. (2019). Portanto, a constituição dos descritores permaneceu com a seguinte configuração: Esporte de Orientação e Educação Física, Corrida de Orientação e Educação Física, Desporto Orientação e Educação Física, Orientação e Educação Física.

Em relação às publicações presentes nos anais do CBAA, realizamos a pesquisa nas dez edições existentes no período compreendido entre 2006 e 2018. Foram lidos todos os trabalhos completos, acima de 5 laudas, que se articulavam à terminologia Orientação. A referida escolha se deu pela possibilidade do uso da ferramenta de pesquisa, por intermédio do Ctrl – F (Adobe Acrobat) para Windows.

Cabe frisar que o localizador de palavras nos permitiu encontrar o termo Orientação em todos os trabalhos publicados nos anais. Posteriormente, os trabalhos completos foram lidos e incluídos como dados da pesquisa.

Assim, considerando as publicações produzidas a partir das bases, inicialmente fizemos a leitura dos títulos dos trabalhos no intuito de identificar indícios (GINZBURG, 1989) de que houvesse aderência aos descritores e ao objetivo da pesquisa, portanto, que nos remetessem ao fenômeno aqui estudado: Orientação.

Tendo sido identificados os descritores nos títulos ou nas palavras-chave, iniciamos a leitura dos resumos para verificar a aderência do trabalho apreendido nas bases com o escopo da investigação. Por fim, os documentos selecionados foram lidos integralmente.

Com o intuito de criar um banco de dados, elaboramos uma planilha dividida em quatro colunas que cumpriram a finalidade de apresentar as seguintes informações: título da publicação; autores e autoras; delineamento da pesquisa; ano de publicação.

Assim, o processo de seleção dos estudos foi realizado via perspectiva indiciária (GINZBURG, 1989) em títulos e resumos, de maneira que foram para o processo final os trabalhos que atendiam aos critérios de inclusão já mencionados. Ao final do processo mencionado, foram selecionados: nenhum artigo da SciELO; um trabalho da LILACS; oito produções da CAPES (sendo 2 duas teses e seis dissertações); 12 artigos completos do CBAA, compondo uma revisão com 21 trabalhos.

Corrida de Orientação, Desporto Orientação, Esporte de Orientação, Orientação: sinais das diversas rotas percorridas

À Guisa de Apresentação dos Dados

Considerando que o fenômeno – Orientação – a ser investigado no estudo se constitui de maneira complexa, inviabilizando a possibilidade de estabelecer relações lineares e deterministas, ficou-nos evidente com os resultados que múltiplas rotas foram percorridas pelos atores sociais.

Assim, delineamos neste momento alguns caminhos, prováveis encontros e bifurcações que permearam este percurso: inicialmente, apresentaremos os dados referentes ao Banco de Teses e Dissertações da CAPES com o uso dos seguintes descritores: Orientação, Corrida de Orientação, Esporte de Orientação e Desporto de Orientação na Base. A inserção dos termos ocorreu de forma individual e entre aspas. O recorte temporal utilizado foi 2001 (período de registro da primeira publicação) até janeiro de 2021. Sendo assim, ao inserirmos o termo “Orientação” encontramos 13 trabalhos; destes, seis foram descartados por tratarem do termo Orientação com outro sentido do abordado neste estudo, por exemplo, orientação alimentar, orientação escolar, dentre outros.

Com relação ao termo “Corrida de Orientação”, encontramos um total de quatro trabalhos, sendo a dissertação de Murray (2001) descartada por não termos acesso à produção na íntegra, o trabalho de Franca (2016) e Silva (2019) já foram identificados com o descritor “Orientação”, resultando em apenas um trabalho.

Já o descritor “Esporte de Orientação” apresentou em sua busca cinco trabalhos, sendo dois descartados por não tratarem da temática em questão: Hirota (2006) e Chaves (2015) utilizaram o questionário do Esporte Orientação para tarefa e motivação esportiva do futebol. Portanto, nos dois estudos, o termo “orientação” foi empregado em outro sentido.

Tanto os trabalhos de Scherma (2010) quanto de Bezerra (2018) já foram identificados por meio dos descritores anteriores. E a dissertação de Valeriano (2011) não foi encontrada na íntegra. Por fim, com o descritor “Desporto Orientação”, não encontramos trabalhos na Base da CAPES. Desse modo, foram selecionados um total de oito trabalhos, conforme disposto na tabela 1.

Tabela 1
Base de Dados da CAPES

Fonte: Elaborada pelos autores

Com relação aos dados obtidos na SciELO e LILACS, ressaltamos que tivemos a oportunidade de utilizar os descritores supracitados (Orientação, Corrida de Orientação, Esporte de Orientação e Desporto de Orientação na Base) entre aspas, juntamente com o termo Educação Física. Salientamos o uso do operador booleano and otimizando assim a pesquisa. Assim, na SciELO, ao inserirmos os termos Esportes de Orientação and Educação Física encontramos 27 resultados, todos, porém, descartados.

Quando incluímos os termos Corrida de Orientação and Educação Física não obtivemos nenhum resultado. O mesmo ocorreu ao utilizamos o termo Desporto de Orientação.

Já a pesquisa com o termo Orientação and Educação Física encontrou 75 resultados. Após a leitura do título e dos resumos, apenas dois trabalhos foram escolhidos, visto que os 73 trabalhos excluídos utilizavam o termo orientação em sentido diferente do preconizado pelo presente estudo. Todavia, ao aprofundar a leitura dos trabalhos posteriormente, percebemos que os artigos eram referentes a testes de conhecimento tático processual, não sendo, por isso, úteis para o levantamento de dados necessário. Nesse sentido, os dois trabalhos também foram excluídos, não sendo possível apreender dados a partir do referido descritor.

Com relação ao LILACS, quando utilizamos o termo Esporte de Orientação e Educação Física, encontramos um total de nove trabalhos, mas somente o artigo de Scopel et al. (2019) estabelecia um diálogo com o nosso objeto de estudo.

A pesquisa com os termos Corrida de Orientação e Educação Física encontrou cinco estudos, que foram descartados por não contemplarem a temática da pesquisa.

Por fim, com o termo Orientação e Educação Física foram encontrados 164 artigos, sendo 163 descartados, por não atenderem ao escopo do estudo, permanecendo apenas um estudo selecionado (SCOPEL et al., 2019). Contudo, o referido material já estava incluído no estudo, por já ter sido selecionado na busca pelo descritor Esporte Orientação.

Com relação ao CBAA, sendo este um dos congressos significativos da área de aventura, optamos por investigar as suas dez edições. Tal escolha nos permitiu trabalhar artesanalmente (SENNETT, 2009), pois os anais do evento estavam em formato PDF, possibilitando-nos o uso da pesquisa por intermédio do Ctrl – F (Adobe Acrobat) para Windows.

Em nossa pesquisa, detectamos que, nas edições I, II, III não havia produções com esta temática. No IV, não encontramos trabalhos completos (mínimo de cinco laudas), apenas resumos, o que não nos possibilitou acessar detalhes dos trabalhos.

Diante do exposto, salientamos que a partir do V CBAA, o seguinte quantitativo foi identificado: quatro trabalhos completos dos autores Silva, Kippert e Merlo (2010). Já na sexta edição encontramos um trabalho de Pereira (2011). No VII, encontramos dois artigos de Pereira et al. (2012). Também registramos dois artigos no VIII CBAA, cujos autores são Auricchio et al. (2014). No IX, não obtivemos nenhum resultado e no último congresso identificamos três artigos de autoria de Silva et al. (2018) e Silva, Mourão e Bandeira (2018). Vejamos a tabela a seguir:

Tabela 2
Relação de dados recolhidos nos anais do CBAA

Fonte: Elaborada pelos autores

Assim, finalizando a quinta fase – apresentação dos dados – salientamos que o processo de seleção dos estudos foi realizado por intermédio da leitura dos títulos e resumos, de modo que foram para a seleção final somente os que atendiam aos critérios de inclusão supramencionados na metodologia. Ao final, foram selecionados oito artigos da CAPES; 12 artigos do CBAA e um artigo do LILACS, o que permitiu compor um processo de revisão por meio de 21 artigos.

Dentre os 21 trabalhos encontrados, 14 têm como espaço de discussão a escola. No Banco de Teses e Dissertações da CAPES, encontramos sete trabalhos sobre a escola, diante de um currículo fragmentado em disciplinas foi observado que a prática em estudo (Orientação) foi tematizada nas disciplinas Educação Física (três trabalhos encontrados), Geografia (três trabalhos encontrados) e Matemática (um trabalho).

Discussões dos Resultados

Ao considerarmos o movimento proposto na introdução do trabalho, deixamos nos surpreender pelos dados por meio de uma sociologia compreensiva – mostração (MAFFESOLI, 1998) –, ao contrário daquela que prima pela demonstração e constatação do mesmo, optamos por apresentar as discussões a partir de duas temáticas que consideramos centrais e que se revelaram indiciariamente (GINZBURG, 1989): a primeira temática, que está enredada ao objetivo do estudo – investigar os conceitos que fundamentam as terminologias Corrida de Orientação, Orientação, Esporte Orientação e Desporto Orientação, que na discussão estão sendo concebidas como um lugar de contradição entre o que é dito e o praticado8; E a segunda, que emerge da ruptura com o mesmo, isto é, que se apresenta em um espaço híbrido, fluído, multifacetado, porque mergulha com todos os sentidos na realidade singular do espaçotempo praticado (CERTEAU, 1994).

Corrida de Orientação, Desporto Orientação, Esporte de Orientação, Orientação: Onde está o Azimute?

O que ficou evidente, no primeiro momento, foram os trabalhos de Silva (2013) e Cauper (2018), em que ocorre a opção por um determinado termo, no caso, a Orientação. A justificativa para o referido uso emerge da sugestão realizada pela Confederação Brasileira de Orientação (CBO), conforme disposto a seguir:

Para evitar mal-entendidos, a Confederação Brasileira de Orientação (CBO) estabeleceu a utilização do termo Orientação, iniciada com letra maiúscula, como sendo o mais adequado para nomear esse esporte em língua portuguesa (SILVA, 2013, p. 57, grifo do autor).

Desse modo, gostaríamos de trazer à tona uma pista (GINZBURG, 1989) que nos remete a uma direção: o uso da CBO como referência e a denominação de esporte para a referida prática corporal. Trazer estes sinais à tona se deve por percebermos que ao trabalhar com a proposição da confederação, Silva (2013) se aproxima do significado de esporte caracterizado por um conceito que estabelece relações com as noções de competição, de prática de atividades físicas, de promoção da saúde.

Sabemos, a partir de Melo (2010, p. 45), que a “literatura não é conclusiva acerca da possibilidade de uma história do conceito esporte”, mas existem tendências ou correntes que buscam defini-lo:

Um olhar panorâmico nos permite identificar duas grandes tendências no que se refere ao tema: a) propugna-se que a manifestação esportiva já existia na Antiguidade, sendo perceptível em jogos que eram praticados por chineses, egípcios, gregos, romanos, entre outros; b) procura-se entendê-lo como um fenômeno moderno, que, mesmo apresentando similaridades técnicas com antigas manifestações culturais, possui sentidos e significados bastante diferenciados daqueles jogos “pré-esportivos” (MELO, 2010, p. 45, grifo do autor).

Nessa linha de pensamento, e considerando estar acompanhado do referencial estabelecido pela confederação, instituição que normatiza e se responsabiliza pelo direcionamento dos desportos nacionais, fica-nos a impressão de que nos reportamos ao modelo de esporte de competição, conforme anunciado no trabalho.

Todavia, no contexto apresentado por Silva (2013), a modalidade é abordada como um recurso didático e enredada ao ensino da cartografia no intuito de desenvolver determinados objetivos de ensino nos processos de formação docente no âmbito da disciplina Geografia.

Desse modo, ao considerarmos a multiplicidade de sentidos da palavra “orientação”, sobretudo a partir de um estudo cujo objeto é a cartografia, observamos que apenas o emprego em maiúsculo da palavra Orientação pode não ser suficiente para dar conta de seu sentido, podendo gerar certa confusão. Nesse contexto, para evitar este tipo de situação, compreendemos que a saída encontrada por Silva (2013) foi acrescentar a palavra “esporte”, com letra minúscula, antes do termo Orientação:

O que o esporte Orientação traz de novo e contribui para o desenvolvimento do universo da Cartografia escolar é o fato de que o participante, quando realiza um percurso, vivencia uma experiência concreta, colocando em prática as noções espaciais, além de recorrer intensamente à linguagem cartográfica por meio do uso de um mapa e uma bússola (SILVA, 2013, p. 165, grifo do autor).

Outrossim, é importante observar o emprego da terminologia Esporte Orientação, utilizada no título e grafada com letra maiúscula, não ficando evidente para o leitor se a intenção era somente nomear a modalidade. Porém, no corpo do estudo, Silva (2013) evidencia a opção pela nomenclatura referida – Orientação –, inclusive com apresentação de argumentos, fazendo-nos compreender que esta foi sua escolha.

Já o estudo de Cauper (2018) se apresenta a partir de sua experiência como praticante da Orientação e, simultaneamente, como docente de Educação Física da Educação Básica, de modo que uma de suas preocupações é a contextualização da Orientação no âmbito da cultura corporal de movimento, um patrimônio a ser democratizado na escola de forma crítica, por isso problematiza as proposições feitas pelas Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Assim, ainda que Cauper (2018) utilize o termo sugerido pela Confederação Brasileira de Orientação (CBO), uma instituição que opera de modo a universalizar e padronizar a prática da Orientação, no corpo da dissertação é possível encontrar indícios de rupturas com a lógica dominante:

Como se fosse possível haver uma prática que não fosse orientada por uma teoria. A fim de romper com as dicotomias, a metodologia de ensino crítico superadora propõe o trabalho como princípio educativo e assume o trato com o ser humano a partir da sua totalidade, indicando a superação da fragmentação do indivíduo e do conhecimento. Trata-se da ação consciente, da indissociabilidade teoria e a prática, representada pela práxis (CAUPER, 2018, p. 47).

O esforço empreendido por Cauper (2018) fez emergir uma série de apropriações da Orientação, considerando além do viés esportivo, amador e olímpico, o pedagógico em perspectiva crítica, o treinamento militar e a brincadeira da caça ao tesouro, entre outros. No parágrafo a seguir, a autora faz a seguinte consideração acerca do termo Corrida de Orientação:

Embora seja muito comum o uso do termo “Corrida de Orientação”, a CBO recomenda que esse termo não seja o mais indicado, tendo em vista que nesse esporte o praticante pode realizá-lo caminhando, correndo ou esquiando, e o uso da palavra “Corrida” é restritivo, pois não contempla todas as possibilidades de prática desse esporte. Portanto, em nosso texto, utilizamos o termo Orientação, estabelecido pela CBO como o mais adequado para se referir a essa modalidade esportiva (SILVA, 2013, p. 57).

Esta prevalência acerca do termo Corrida de Orientação foi identificada nas interpretações dos anais do CBAA, em que dos doze trabalhos encontrados, onze preconizavam o uso da nomenclatura corrida de orientação, com exceção apenas do estudo de Santos, Mendes e Alves (2010), intitulado “Esporte de Aventura: entre o urbano e a natureza”, que aborda a Orientação (caminhada ou corrida) como possibilidade de prática. Cabe frisar que os autores supracitados durante todo o trabalho defendem o esporte dentro da dimensão social, ficando evidente a sua possibilidade de aplicação na escola.

Ao fazer esta abordagem, Santos, Mendes e Alves (2010) trazem uma reflexão necessária: seria o termo corrida de orientação adequado para o espaço escolar? Uma vez que o praticante pode fazê-lo correndo, caminhando, utilizando cadeira de rodas, bicicletas.

O termo corrida de orientação ou carrera de orientación surgiu diante de uma dificuldade na tradução do termo Orientação nos países de língua latina. Em se tratando dos países de língua inglesa, o termo orientation se refere ao sentido de auxílio, vocação, ajuda e, para se referir à modalidade em estudo, utiliza-se Orienteering.

Já na língua portuguesa, temos uma única palavra para ambos os sentidos, o que causa confusão. Para Pasini (2003), a palavra corrida foi introduzida com o intuito de fazer as devidas distinções.

Outro trabalho que se utiliza da terminologia Orientação emerge da produção de Silva (2018). O estudo investiga a vida esportiva de atletas da corrida de aventura, um esporte em que predomina a presença de homens, brancos, com poder aquisitivo elevado. O trabalho aponta a necessidade da aplicação da Orientação na escola, como espaço privilegiado para discutir as questões de gênero, desigualdades sociais e raciais.

O estudo de Silva (2018) também nos provoca a refletir sobre a democratização das práticas de aventura no ambiente escolar, rompendo com os esportes tradicionalmente trabalhados nas aulas de Educação Física e tematizando questões fundamentais na formação dos sujeitos, conforme supramencionado (gênero, desigualdades sociais e raciais).

No trabalho de Scopel, Pimentel, Starepravo (2018), encontrado na base de dados do LILACS, os autores identificaram duas coalizões: a primeira, denominada de múltiplas vertentes, compreende a Orientação como um fenômeno abrangente que engloba concomitantemente esporte, turismo e lazer e propõe a sua inserção nos currículos escolares: “[...] em todos os níveis, o desporto Orientação, como atividade capaz de agir na formação integral de crianças, jovens e adultos, dentro de uma perspectiva de educação continuada” (SCOPEL; PIMENTEL; STAREPRAVO, 2018, p. 163).

Já a segunda coalizão, que se encontra em vigência, compreende a Orientação como um fenômeno exclusivamente esportivo competitivo, e, também, tem como proposta a sua inserção Orientação no currículo das aulas de Educação Física. No entanto, apresenta objetivos diferentes: a promoção do esporte, conquistando mais adeptos, e a atuação na formação de atletas.

Assim, apesar dos artigos de Silva (2018) e Scopel, Pimentel e Starepravo (2018) não tratarem diretamente da temática escolar, ambos apresentam elementos importantes no que se refere à escola. O primeiro propõe a vivência das práticas de aventura na escola com o intuito de democratizá-las tematizando discussões sobre gênero e entendendo-a como um espaço plural. O segundo sinaliza a inserção da Orientação na escola em uma perspectiva competitiva incentivada pela CBO em busca de performance em um processo de exclusão e padronização dos corpos. Seria possível?

Orientação, Esporte Orientação, Desporto Orientação: possíveis aproximações às práticas ordinárias

Se inicialmente visibilizamos estudos que optaram em conceituar a Orientação a partir das diretrizes da CBO, neste tópico vamos privilegiar os trabalhos que não tinham como centralidade a preocupação com o uso da nomenclatura e com as orientações da referida confederação, pois apresentaram terminologias diferenciadas com o uso de dois ou mais termos para se referir à mesma cultura corporal de movimento: a Orientação.

No estudo de Scherma (2010), foi possível encontrar várias expressões para se referir à prática em discussão: Corrida de Orientação, que aparece logo no título do trabalho; o termo Orientação, empregado no resumo precedido da palavra esporte, aparecendo também em diversas partes do texto; outra maneira de denominar a referida cultura corporal de movimento se deu por meio do termo Orientação isoladamente; a palavra desporto também foi empregada, contudo, Scherma (2010) menciona que, neste caso, o sentido é o mesmo da palavra esporte, sendo uma tradução do português europeu para o português falado no Brasil.

Ao primeiro olhar, parece-nos que a perspectiva adotada pela CBO (Orientação) parece ser a mais utilizada pelos autores, entretanto, sob o olhar mais aguçado, ficam-nos evidentes algumas pistas (GINZBURG, 1989) que nos revelam que a modalidade é requisitada como uma estratégia para atingir objetivos de ensino ligados à Cartografia. E, neste contexto, o emaranhado de termos utilizados até então parece não dar conta do que é praticado no cotidiano escolar.

Diante do exposto, fomos remetidos ao pensamento de Ginzburg (1989, p. 177), no intuito de seguir as pistas para compreender o que se passa, pois em vários momentos fomos levados a olhá-lo como se fosse um ponto de fuga: “a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la”.

De outro modo, uma combinação utilizada por Scherma (2010) nos chamou a atenção, pois ao determinar o objetivo da pesquisa mencionou que iria “refletir sobre o uso das práticas de Orientação como alternativa para promover a leitura cartográfica” (SCHERMA, 2010, p. 20, grifos nossos).

Sendo assim, cabe frisar que, apesar de buscarmos o termo “práticas de orientação” (SCHERMA, 2010) como um indício (GINZBURG, 1989) de ruptura com o mesmo, isto é, com as ações que se aproximam da perspectiva esportivista defendida pela CBO, salientamos que Scherma (2010) não define o que seriam as práticas de orientação.

Tal indefinição não é algo incomum, pois Lazarotti Filho et al. (2010), ao investigarem o uso do referido termo – práticas corporais –, a partir de um estudo de revisão, consideraram que dos “260 artigos analisados, [...] a grande maioria não explicita o entendimento de práticas corporais e somente 8% o fazem” (LAZAROTTI FILHO et al., 2010, p. 18).

Igualmente, Lazarotti Filho et al. (2010, p. 24) nos chamam a atenção para o fato de que o termo aparece, em sua grande maioria, se referindo a múltiplas expressões relacionadas a diversas formas de ações: “[...] atividade corporal ou de manifestações culturais, tais como: atividades motoras, de lazer, ginástica, esporte, artes, recreação, exercícios, dietas, cirurgias cosméticas, dança, jogos, lutas, capoeira e circo”.

Os autores Lazarotti Filho et al. (2010), ao final do estudo, apresentam como uma de suas considerações, a potencialidade do uso do termo práticas corporais para se referir a um dado comum da realidade:

Identificamos nos textos analisados que o termo “práticas corporais” já se constitui com potencialidade para ser estruturado como conceito, necessitando, porém, de maior estabilidade e de um certo nível de consenso dentre a comunidade acadêmica (LAZAROTTI FILHO et al., 2010, p. 25, grifo do autor).

Assim, percebemos que o termo práticas de orientação nos auxilia a potencializar aquilo que nos acontece em meio a ações educativas desenvolvidas no cotidiano escolar, visto que tais produções – conteúdos da cultura corporal de movimento –, advindas da Educação Física escolar, são marcadas pela singularidade da realidade social em que estão imersas, sendo afetadas, portanto, pelas particularidades dos praticantes (CERTEAU, 1994) que habitam o referido espaçotempo escolar em detrimento das suas demandas, necessidades, interesses, que são determinados por questões políticas, culturais, de gênero, de sexualidade, de raça, de classe social, dentre outras demandas.

Especificamente nos trabalhos de Hartman (2014), Franca (2016), Bezerra (2018) e Silva (2019), encontramos indiscriminadamente os termos corrida de orientação, Esporte Orientação ou, ainda, esporte de Orientação e Desporto Orientação, não nos possibilitando definir o termo mais utilizado por cada um dos autores supramencionados. Contudo, a palavra que se repete em todas as terminologias é a Orientação. A partir disso, cabe perguntar: Seria por ela, a Orientação, ser a origem? Para Carmona (2013), por muitos anos, orientar-se pelo sol foi uma técnica utilizada de maneira significativa para muitas culturas.

Seguindo esse percurso, Pereira (2011) buscou na habilidade humana de se orientar os elementos da natureza – tais como o sol, as estrelas, as marés – para tematizar as questões de ensino em seu processo pedagógico. O estudo foi apresentado no VI CBAA, e utilizou como contraponto a Arca de Noé.

Assim, o referido estudo estabeleceu uma relação direta com a Orientação, entretanto, o diálogo realizado se deu a partir da navegação, pois a sua centralidade estava na problematização de uma disciplina de Esportes Radicais no Ensino Superior no intuito de propor a construção de um implemento navegável. Desse modo, a orientação, ao emergir enredada à navegação, ganha a singularidade e contornos de outros modos de pensarfazer (CERTEAU, 1994) a referida prática.

Tal contorno se reveste da lógica polinésia que rompe com a racionalidade ocidental que nos foi imposta, conforme nos chama a atenção Pereira (2011, p. 98-99):

A primeira lição era a atenção no ato de se orientar, que era aprendida desde a infância pelos meninos, que observavam o mar, os ventos, os animais, as estrelas e as ondas, por dias, para que pudessem adquirir um segundo conhecimento, a percepção dos pontos de referência de cada lugar, em cada momento. Era necessário nessa fase distinguir as correntes marítimas em cada época do ano, pois os animais se movimentam em função disso e as pessoas deveriam saber disso para se localizar e seguir para pontos seguros. A terceira lição envolvia a memória de tudo que se percebia, como não havia mapas, bússolas, GPS e outros instrumentos, toda a aprendizagem deveria ser guardada na mente dos navegadores daquela região.

Considerando o exposto, salientamos que o trabalho supramencionado se aproxima de uma perspectiva mais fluída, plural, ao contrário daquelas revestidas pela uniformidade e engessamento do caráter esportivo.

Outrossim, Pereira (2011) dialoga com a noção de práticas de orientação, pois procura a construção de conhecimento por outras lógicas, outros caminhos, conforme pode-se perceber:

Pensando em termos de licenciatura, pode ser um incentivo para o surgimento de aulas de Educação Física escolar que requeiram do aluno o gosto pelo novo, pela descoberta, pelo fazer e compreender o que se faz. Partir do empírico no sentido como se propõe a disciplina pesquisada é livrar-se de métodos pouco libertários de ensino, e propor um método que leve a autonomia para aprender e gostar do que se aprende (PEREIRA, 2011, p. 99, grifo nosso).

Assim, ao sugerir o uso da noção de Práticas de Orientação, o fazemos para aqueles que buscam o desenvolvimento das ações nas escolas, visto optarmos por trazer elementos que nos auxiliam a compreendê-la enredada em uma perspectiva plural. Ressaltamos que entendemos a noção como um elemento que não busca a precisão, a exatidão do conceito ou categoria, pois trabalhamos com a ideia de veracidade, que é a produção da verdade a partir de um tempo e espaço específico, não resguardando, portanto, sinais de universalismo e/ou conclusões e verdades absolutas (MAFFESOLI, 1998).

Nesse sentido, ressaltamos que a noção de Prática, neste estudo, emerge fundada nos pressupostos teóricos de Mayol (1996), porque a concebemos como uma:

[...] combinação mais ou menos coerente, mais ou menos fluida, de elementos cotidianos concretos (menu gastronômico) ou ideológicos (religiosos, políticos), ao mesmo tempo passados por uma tradição (de uma família, de um grupo social) e realizados dia a dia através dos comportamentos que traduzem uma visibilidade social fragmentos desse dispositivo cultural […]. Prático vem ser aquilo que é decisivo para a identidade de um usuário ou de um grupo a medida em que essa identidade lhe permite assumir o seu lugar na rede das relações sociais inscritas no ambiente (MAYOL, 1996, p. 39-40, grifo nosso).

Admitir a lógica supramencionada evidencia, portanto, que, ao trabalharmos com a noção de prática certeauniana, operamos a partir da ideia de que somos todos sujeitos ordinários que caminham pelas “linhas de erre desenhadas pelos jovens autistas” (CERTEAU, 1994, p. 45): subversivas, aleatórias, que não seguem o preestabelecido, a linearidade.

Portanto, não somos consumidores passivos, mas produtores de uma fabricação silenciosa, quase invisível, porque empregamos de maneira sutil, multiforme, reinventando de mil maneiras tudo aquilo que nos chega ao cotidiano escolar.

Baseados nesta concepção, tomamos como proposição o uso da noção de Práticas de Orientação, a fim de que, talvez, ela contemple a multiplicidade das ações que serão relatadas a seguir: Franca (2016) propôs em seu estudo os limites e possibilidades das práticas de aventura na escola com enfoque na Educação Ambiental. O autor detectou algumas dificuldades, como: materiais específicos, espaço, concepção da direção, da orientação técnica pedagógica, professores, alunos, riscos e imprevisibilidade das práticas, tempo de vivência das práticas. A partir disso, foram propostas sugestões para a superação das dificuldades: as bricolagens “[...] a união de vários elementos culturais que resultam em algo novo” (CERTEAU, 1994).

Já o artigo produzido por Bezerra e Pereira (2012) se aproximou da noção de Práticas de Orientação ao sugerir ações pedagógicas para a Educação Básica com enfoque na Educação Ambiental. Na experiência relatada no VII CBAA, Bezerra e Pereira (2012) narram a confecção e a “[...] realização das vivências práticas que foram pensadas de acordo com a realidade da escola e os espaços arredores disponíveis e seguros” (BEZERRA; PEREIRA, 2012, p. 149).

Outro trabalho que se aproximou da noção defendida no estudo – Práticas de Orientação – foi o artigo de Franca (2016) que, apesar de apontar inúmeras dificuldades no desenvolvimento da referida prática – falta de espaço, aquisição de equipamentos específicos, gerenciamento do risco devido à falta de conhecimentos técnicos por parte dos(as) professores(as) –, partiu do movimento realizado pelos sujeitos ordinários para implantar um programa de extensão para atender às escolas da Educação Básica.

No estudo de Bezerra (2018), que teve como proposição analisar o uso do Esporte de Orientação como um instrumento didático possibilitando a aprendizagem da alfabetização cartográfica crítica, ficou-nos evidente uma ação didática que ultrapassou a mera leitura dos mapas, tendo em vista o movimento realizado para a compreensão da realidade social:

Ao chegarem ao parque o professor de Educação Física informou-lhes que a intenção não era a execução do esporte de orientação para competição, com o objetivo de vencerem, mas para aprenderem as características do lugar, observarem, questionarem o que mais chamou a atenção deles e fazerem a relação com os conteúdos ensinados em sala de aula (BEZERRA, 2018, p. 95).

Desse modo, a partir da experiência desenvolvida, Bezerra (2018) pede aos estudantes para que respondam a um questionário e, diante das respostas, percebe que eles estabelecem conexões com as desigualdades sociais, isto é, contextualiza o conteúdo ultrapassando as questões procedimentais exigidas pela Orientação: bússola, leitura de mapas, dentre outros procedimentos.

Outra pesquisa que apresentou sinais de um movimento contrário à lógica esportivista emergiu da dissertação de Silva (2019). O estudo se desenvolveu no Instituto Federal do Paraná, Campus Cascavel, no Curso Técnico em Informática, integrado ao Ensino Médio, com 88 estudantes com idades ente 14 e 17 anos.

A pesquisa se desenvolveu por intermédio da pesquisa-ação, uma experiência que permitiu a participação dos(as) estudantes, pois a cada etapa, “[...] faziam interferência e, por conseguinte, contribuíam no processo, por meio da avaliação das práticas e das etapas anteriores, propondo e sugerindo ações para as práticas seguintes” (SILVA, 2019, p. 57).

Silva (2019) esclarece que a sequência pedagógica se desenvolveu durante cinco aulas e o processo final ocorreu no sábado no Parque Hilário Zardo, um espaço para além do ambiente escolar. Posteriormente, os(as) estudantes foram convidados(as) a pensar a forma como seria possível aquela prática ser desenvolvida dentro da escola, “[...] os estudantes deram sua opinião sobre a vivência da aula anterior e como aprimorar a prática, de forma que sejam utilizadas as instalações da escola” (SILVA, 2019, p. 97).

Para finalizar, gostaríamos de frisar que a opção de trabalhar com a noção de Práticas de Orientação nos permite romper com as ações específicas da referida modalidade esportiva, possibilitando a docentes e estudantes, que habitam nas pluralidades de escolas existentes em um país como o Brasil, intervir e recriar os modos de usarfazer as ações educativas enredadas às temáticas locais, atendendo às demandas, necessidades e determinantes que afetam os múltiplos espaços.

Considerações finais

Considerando que o objetivo do estudo foi investigar os conceitos que fundamentam as terminologias vinculadas à prática da Orientação, pode-se dizer que: a) apesar de diversos autores optarem pela nomenclatura Orientação, por ser o termo sugerido pela Confederação Brasileira de Orientação (CBO), as práticas desenvolvidas por eles extrapolam as formas padronizadas e universais propagadas pelas instituições esportivas; b) ficou-nos evidente a falta de preocupação em fazer a opção por uma única terminologia, visto que diversos estudos utilizam termos diferentes para se reportar à mesma cultura corporal de movimento; c) Por fim, ficou evidenciada a potência da Orientação enquanto elemento educativo para a escola, visto que os estudos apresentaram em suas práticas a preocupação em proporcionar experiências, contribuindo na construção do conhecimento.

REFERÊNCIAS

BEZERRA, K. R. P. Alfabetização cartográfica a partir do esporte de orientação. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual do Mato Grosso, Campo Grande, MS, 2018.

CAUPER, D. C. O ensino do esporte orientação na escola: possibilidades e limites de uma proposta à luz da metodologia crítico-superadora. 2018. 388 f. Dissertação (Mestrado em Ensino na Educação Básica) - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2018.

CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano. 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1996.

GINZBURG, C. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. In: Mitos, Emblemas e Sinais. São Paulo: CIA das Letras, 1989. p. 143-275.

HARTMAN, A. O Desporto Orientação como ferramenta para o ensino da Matemática. 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de Brasília, Brasília, 2014.

LACERDA, M. P. de. Em práticas pedagógicas e investigativas... a surpresa. Revista Entreideias, Salvador, v. 4, n. 1, p. 7-22, jan./jun. 2015. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/entreideias/article/view/8260. Acesso em: fev. 2021.

LARROSA, J. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, p. 20-28, jan./abr. 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: fev. 2021.

MAFFESOLI, M. A terra fértil do cotidiano. Revista FAMECOS: mídia, cultura e gtecnologia, Porto Alegre, v. 15, n. 36, p. 5-9, ago. 2008. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/4409/3308. Acesso em: 15 maio 2021.

PAIS, J. M. Vida cotidiana: enigmas e revelações. São Paulo: Editora Cortez, 2003. p. 272.

SENNET, R. O Artífice. 5. ed. São Paulo: Record, 2009. 362 p.

SCHERMA, E. P. Corrida de orientação: uma proposta metodológica para o ensino da Geografia e da cartografia. 2010. Tese (Doutorado em Geociências e Ciências Exatas) – Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2010.

SILVA, A. M. da. Esporte orientação e formação de professores de Geografia: uma experiência com cartografia escolar. 2012. Tese (Doutorado em Geografia) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2012.

SILVA, F. H. Corrida de Orientação: estratégia pedagógica, para Educação Física na Educação Profissional e Tecnológica. 2019. Dissertação (Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica) – Instituto Federal do Paraná, Curitiba, 2019.

SILVA, M. C. Aplicabilidade da Prática Corporal “Esporte de orientação” no espaço escolar. 2020. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Campus de Presidente Prudente, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2020.

SOUSA, M. T.; SILVA, M. D.; CARVALHO, R. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Revista Einstein, v. 8, n. 1, p. 102-106, 2010. Disponível em: https://journal.einstein.br/pt-br/article/revisao-integrativa-o-que-e-e-como-fazer/. Acesso em: 12 mar. 2021.

TAHARA, A. K.; CAGLIARI, M. S.; DARIDO, S. C. Celular, corrida de orientação, Educação Física Escolar: elaboração e avaliação de um material didático. Arquivos de Ciências do Esporte, Uberaba, v. 5, n. 1, p. 2-5, 2017. Disponível em: https://seer.uftm.edu.br/revistaeletronica/index.php/aces/article/view/1983. Acesso em: 10 maio 2021.

TEIXEIRA et al. Socialidade, Tribos Urbanas e o cotidiano dos(as) ciclistas de Volta Redonda. In: COLÓQUIO TÉCNICO-CIENTÍFICO DO UNIFOA, 8., 2019, Volta Redonda. Anais [...]. Volta Redonda: Centro Universitário de Volta Redonda – FOA, 2019.

UVINHA, R. R. Esportes radicais nas aulas de educação física do ensino fundamental. In: UVINHA, R. R.; MOREIRA, E. C. (org.). Educação Física escolar: desafios e propostas. Jundiaí, SP: Fontoura, 2004. p. 99-111.

Notas

5 “Caracteriza-se por ser uma atividade desenvolvida em florestas, matas, trilhas e campos, onde os participantes usam um mapa detalhado e uma bússola para encontrar pontos no terreno previamente mapeado. O percurso é composto por um ponto de partida, um ponto de chegada e uma série de pontos intermediários numerados (ou PC – postos de controle), por onde o praticante terá que passar seguindo a sequência determinada no mapa” (TAHARA; CAGLIARI; DARIDO, 2017, p. 3).
6 Para Maffesoli (1998), a diferença entre mostração e demonstração emerge enredada à separação entre o pensamento e a pós-modernidade. Enquanto na modernidade a centralidade está na preocupação de se comprovar algo, por isso enredar-se às conclusões de ideias e argumentos, na pós-modernidade, a centralidade está no desvelamento do pensamento plural: “[...] o mundo, sua retórica, seus feitos são, essencialmente, plurais, não se prestam a uma conclusão, mas sim a uma abertura. [...] Não devem, portanto, constituir objeto de uma demonstração, mas sim de uma mostração” (MAFFESOLI, 1998, p. 114)
7 Neste estudo, a noção que nos remete ao uso do termo – produção de dados – emerge do sentido dado por Pais (2003, p. 69), ao considerar que investigar “vem do termo latim vestigo, donde deriva também a palavra vestígio. Investigar significa, então, ir na pegada dos vestígios. Vestígios que são indiciantes de descobertas científicas”.
8 Neste estudo, vamos trabalhar com a ideia certeauniana de que o sujeito comum não é apenas um consumidor passivo, mas que, em diversas oportunidades, reinventa aquilo que chega até ele de modo a atender as suas demandas, anseios e necessidades (CERTEAU, 1994), portanto, o sujeito ordinário por intermédio de suas práticas cotidianas ressignifica os produtos que consome.

Notas de autor

1 Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA), Volta Redonda – RJ – Brasil. Mestranda (MECSMA).
2 Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA), Volta Redonda - RJ - Brasil. Professor Titular. Mestrado profissional em Ensino em Ciências da Saúde e do Meio Ambiente.
3 Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA), Volta Redonda - RJ - Brasil. Graduanda em Educação Física.
4 Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA), Volta Redonda - RJ - Brasil. Professor Titular. Doutorado em Educação.

Información adicional

Como referenciar este artigo: SOMBRA, F. L. B.; MARTINS, C.; NUNES, C. L.; ALVES, M. P. Corrida de orientação, esporte orientação, orientação: Um estudo de revisão. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 17, n. 2, p. 1557-1577, abr./jun. 2022. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v17i2.15331



Buscar:
Ir a la Página
IR
Visor de artículos científicos generados a partir de XML-JATS4R por