Dossiê
As narrativas nos pontos cantados de Exus
NARRATIVES IN THE EXUS SINGING POINTS
NARRATIVAS EN LOS PUNTOS CANTANTES EXUS
As narrativas nos pontos cantados de Exus
Revista Internacional de Folkcomunicação, vol. 18, núm. 40, pp. 64-79, 2020
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepção: 09/04/20
Aprovação: 26/05/20
Resumo: Este estudo teve como objetivo geral compreender as narrativas presentes nos pontos cantados as personalidades das entidades de Exu representadas. E, como objetivos específicos: identificar os processos narrativos das mensagens contidas nas letras dos pontos cantados e relacionar os processos narrativos com as características de personalidade dos pontos cantados. A proposta metodológica centra-se nas narrativas das letras dos pontos cantados de Exu e Pombagira. Observando os atributos narrados nos pontos tendo com suporte de analise as três categorias de narrativa de Motta (2013). Conclui-se que tanto os Exus quanto as Pombagiras, mantêm características semelhantes, podem ser utilizados vocábulos diferentes para qualificá-los, porém, os significados são equivalentes.
Palavras-chave: Exus, Pombagiras, Pontos cantados, Narrativa.
Abstract: This study had as general objective to understand the narratives present in the sung rites the personalities of the entities of Exu represented. And, as specific objectives: to identify the narrative processes of the messages contained in the lyrics of the sung points and to relate the narrative processes with the personality characteristics of the sung points. The methodological proposal focuses on the narratives of the lyrics of the sung points of Exu and Pombo turns. Observing the attributes narrated in the points with the support of analyzing the three narrative categories by Motta (2013). It is concluded that both the Exus and the Pombogiras, keep similar characteristics, different words can be used to qualify them, however, the meanings are equivalent.
Keywords: Exus, Pombogiras, Sung points, Narrative.
Resumen: Este estudio tuvo como objetivo general comprender las narrativas presentes en los ritos cantados de las personalidades de las entidades de Exu representadas. Y, como objetivos específicos: identificar los procesos narrativos de los mensajes contenidos en las letras de los puntos cantados y relacionar los procesos narrativos con las características de personalidad de los puntos cantados. La investigación utilizó las letras de los puntos cantados por Exu y Pombo gira como metodología. Desde los puntos que buscan establecer características específicas de los personajes Exus las historias fueron analizadas en función de la identificación de estas particularidades que se basan en las tres categorías de narrativa de Motta, que son: plan de expresión, plan de historia y plan metanarrativo. Se concluye que tanto Exus como Pombogiras mantienen características similares, se pueden usar diferentes palabras para calificarlos, sin embargo, los significados son equivalentes.
Palabras clave: Exus, Pombogiras, Puntos cantados, Narrativa.
Iniciando os Trabalhos
As nações africanas que vieram para o Brasil trouxeram consigo suas tradições religiosas que, se encontrando com as que existiam aqui (indígena e europeia), deram origem a várias religiões afro-brasileiras, dentre elas a Umbanda, que será foco deste artigo, portanto não se fará comparações ou comentários sobre as demais religiões afro-brasileiras.
Pelos seus pilares, a Umbanda se propõe a ajudar através de rituais das incorporações, passes e trabalhos feitos pelos médiuns a melhorar a vida das pessoas. Para tal, são realizados cultos, as chamadas Giras de Umbanda, que têm entre seus fundamentos a utilização de defumações (que servem para limpar a energia tanto dos sujeitos que lá se encontram quanto do próprio ambiente e promover o equilíbrio das vibrações presentes) e o uso da música seja em toques instrumentais e/ou através das cantigas conhecidas como pontos cantados.
Os pontos cantados são estruturados através da música. Estão fundamentados na mitologia dos Orixás e têm como objetivo principal a harmonização e eficiência dos trabalhos umbandistas. Esses pontos são considerados instrumentos de auxílio – são verdadeiros mantras, preces e rogativas – que expressos com todo respeito, conhecimento, devoção, obediência, fé e amor provocam mediante as ondas sonoras: atração, harmonização e dinamização de forças astrais que ajudam a entrar em contato íntimo com as entidades e Potências Espirituais que nos regem (FERREIRA, N/D).
Isso significa que, para cada ritual, há uma arte peculiar, ou seja, um vestuário, uma coreografia, músicas, danças específicas para que tudo seja realizado de forma harmoniosa e honrosa. Porém, um elemento importante também é fundamental para dar ritmo às danças, contar histórias, emitir algum enunciado, chamar as entidades – os atabaques4 – que normalmente são feitos cilindricamente em madeira, aros de ferro e uma das bocas é coberta de couro (pode ser de bode, boi ou veado).
Portanto, é relevante demonstrar as histórias que são contadas através dos pontos cantados de Exu e os significados que esses cantos que têm para os rituais da Umbanda, afinal, nas religiões afrodescendentes, a música é parte importante do ritual. Essa música é expressa nos pontos cantados que se apresentam em forma de poemas musicalizados. Barros (2009) comenta que essa nova maneira de religiosidade se instalou aqui no Brasil se deu pela mistura do aparato cultural trazidos pelas nações africanas que vieram escravizados, juntamente às tradições indígenas e às cerimônias e imagens católicas.
Dessa forma, o objetivo geral deste artigo é compreender as narrativas presentes nos ritos cantados as personalidades das entidades de Exu representadas. Tendo como objetivos específicos identificar os processos narrativos das mensagens contidas nas letras dos pontos cantados em terreiros; Relacionar os processos narrativos com as características de personalidade os pontos cantados em terreiros.
Desta forma, a pesquisa integra a área da folkcomunicação uma vez que Beltrão (1980, p.24), estabelece que a este campo trata-se de um “processo de intercâmbio de informações e manifestações de opiniões, ideias e atitudes da massa, através de agentes e meios direta ou indiretamente ligados ao folclore”. Tem-se, então a Umbanda, como uma prática religiosa que se pode apontar elementos que integram a folkcomunicação como, objetos simbólicos, linguagens especificas e outros.
Para desenvolver esta pesquisa, o objeto de estudo centra-se nas letras dos pontos cantados de Exu. Os pontos cantados de Exus que foram escolhidos para a pesquisa, constituem uma sequência de Pontos em Homenagem aos Exus, que, para este estudo, foi retirada de uma coletânea do “Ponto - Exu Veludo, Caveira, Tranca Ruas, Marabô, Toquinho, 7 Encruzilhadas, 7 facas”5. priorizando assim a manifestação masculina.
E, para a manifestação feminina são compostas por um ponto em homenagem às Pombogiras: Maria Padilha, Cigana e Maria Molambo, que são três lebaras6 muito reconhecidas dentro da Umbanda, e que foi retirado do vídeo “Pontos Pomba Gira Maria Padilha - Cigana - Maria Mulambo + Letra - A padilha é a mulher de lucifer”7.
Tal qual será feito com os Exus, serão analisados também mais dois pontos de cada Pombogira citada. O tempo total desse ponto é de 2 minutos e 11 segundos.
Como os pontos buscam estabelecer características específicas dos personagens Exus, as estórias serão analisadas com base nos atributos narrados nos pontos tendo com suporte de analise as três categorias de narrativa de Motta, que são: plano de expressão, plano de estória e plano de metanarrativa (MOTTA, 2013).
Todos os orixás têm pontos cantados que exaltam suas características e encantos divinos. As letras dos pontos para o orixá Exu, em geral demonstram características bem próximas das manifestações humanas, portanto nortearam a busca do objeto deste estudo, já que mesmo sendo reconhecidos mais de 300 pontos cantados que falam sobre os tipos de Exus, suas características, proezas, lugares em que podem ser encontrados, eles ainda são bastante desconhecidos por muitos (FERREIRA, N/D).
Exu abrindo a roda
Exu é movimento, é transformação, é o guardião, é o mensageiro, é o protetor do acasalamento, garantindo assim a continuidade das gerações, por isso carrega consigo símbolos fálicos. Prandi (2001). Não guarda segredos, repassa as coisas que ouve, por isso é diretamente ligado aos oráculos adivinhatórios. É o porta-voz das instruções, das regras e conselhos dados pelos deuses. É igualmente o responsável por levar as oferendas que os indivíduos fazem aos outros orixás.
Prandi (2001) diz que o sincretismo entre as religiões de matrizes africanas e o cristianismo não foram favoráveis a Exu, pois deu a ele novos atributos, que em uma religião politeísta não são levados em consideração. Por exemplo, o que liga os orixás aos devotos, são as oferendas e a fé, não importando a personalidade de cada deidade.
Porém, para o modelo judaico-cristão, há essa separação entre boas e más qualidades. Ele possui um caráter dinâmico, por possuir elementos que demonstram uma personalidade extremamente contraditória, pois ele tanto pode ser bom quanto mau; pode ser astucioso ou puro; fazer o bem ou mal; trazer harmonia ou a discórdia; pode ajudar ou atrapalhar, ser violento ou pacífico.
Sobre o demônio para o cristianismo, Eco (2007) esclarece que ele é citado várias vezes no Antigo Testamento e no Novo Testamento, tanto pelas suas ações, quanto pelas consequências que elas traziam. Os nomes “diabo”8 e “demônio”9 são heranças do vocabulário grego e que tomaram um sentido negativo de seu real significado.
É a partir do século XI que o demônio deixa de ter características humanas e passa a surgir como um verdadeiro monstro possuidor de cauda, orelhas animalescas, barbicha caprina, artelhos, patas e chifres, adquirindo também asas de morcego. Antes disso, era representado apenas como um anjo caído com feições de grande semelhança com um ser humano.
Eco (2007) ainda esclarece que essa mudança ocorreu porque obviamente o demônio precisava ser feio, com aspecto de pecaminoso, libertino; pois somente assim ele seria temido, evitado. O cristianismo queria combater as religiões pagãs e para isso colocou nele: chifres, para fazer uma alusão ao deus grego Pã10, tridente, em referência a Posseidon ou a Netuno11. Isso porque sempre se utilizará de forma ruim e maléfica os símbolos de outras religiões, para justificar do por que essa seria a melhor. Com isso o demônio ganhou esses novos adereços.
Eco (2007) continua esclarecendo que, é claro que, quando se fala em pecado, perdição, libidinagem, logo se faz essa associação à mulher, já que na Bíblia há citações a Lilith – um monstro de origem babilônica – e que pela tradição hebraica, transformou-se em um demônio com rosto de mulher, longos cabelos e asas. Logo, não se poderia deixar de mencionar “o lado feminino” de Exu: a Pombogira12.
E Prandi (2001) comenta que, quem mais as Pombogiras poderiam ser para o imaginário cristão senão as mulheres sem família, desonradas, escandalosas, trapaceiras, de vida fácil, que satisfazem desejos e êxitos de procedência duvidosa; e que são companheiras dos homens que frequentam cabarés, jogadores, bandidos, enfim, maus elementos.
Sobre o cristianismo, Prandi (2001), segue falando que Deus é um só, mas em especial, para os católicos, abaixo Dele estão os santos, que foram pessoas virtuosas que se dedicaram a fazer o bem e com a intenção de afirmarem sua fé, deram suas vidas. Esse seria o lado do Bem. Por esse âmbito, no sincretismo, todos os orixás conseguiram ser inseridos, algumas qualidades que não eram interessantes foram abafadas ou até mesmo esquecidas, para que eles ficassem adequados. Todos, menos Exu, que preencheu o lado do Mal.
Nessa adequação religiosa, Prandi (2001) conclui que a Umbanda, conservou seus rituais, mas dedicou-se a prática exclusiva do bem – nada justifica o mal ser praticado – com isso, foi criado paralelamente um lugar em que independente de ser um desejo bom ou mau, ele seria devidamente atendido, ou seja, o que a Umbanda não pode fazer, por questões éticas ou morais, esse outro espaço faz, é a chamada, Quimbanda. Aqui, Exu completamente convertido em diabo, realiza todos os tipos de trabalho para o mal. Com isso, os rituais passaram a ser realizados não para louvá-lo e sim para evitar que ele atrapalhe os cultos aos outros orixás, ou seja, ele deixou de ser cultuado como divindade para ser a expressão de um guia13 – bem mais próximo dos seres humanos – e que pode trazer grandes transtornos se não for pago antecipadamente.
Sodré (2009) explana que as representações religiosas e estéticas do Exu foram, portanto, sofrendo variações ao longo do tempo em consequência das interpretações que lhe foram sendo dadas, tais quais: como ele era visto, sentido, conhecido, compreendido, e, tão importante quanto qualquer um desses fatores citados, o interesse da representatividade que se queria passar da figura dele. E, que além de tudo isso que já foi dito, as figuras produzidas como imagens dos exus sofrem ainda com dois aspectos relevantes: o gosto da clientela e a peculiaridade que cada artista, cada artesão quer deixar como símbolo nas suas obras. Isso significa que as imagens representativas dos exus recebem influências culturais, religiosas, artísticas que mais que quererem deixar sua assinatura, ainda atendem ao que os clientes querem. Resultado final – uma representação muitas vezes deturpada do que é o exu na realidade.
Narrativas e pontos
O homem precisa dos outros e do meio ambiente para sobreviver e dar sentido a esse, aos outros e a si mesmos, porque para que o mundo que o cerca possa ter um sentido, ele precisa entendê-lo para que possa transformá-lo, no sentido de deixá-lo mais humano, solidário, generoso. Toda a intervenção e interação que se faz é que possibilita com que a cultura seja construída. Ou seja, não dá para existir sem cultura nem ficar isolado dela. O ser humano só entenderá a si mesmo, aos outros e ao meio em que vive, pela cultura.
Sacristán (2002) explica que o indivíduo nasce duas vezes, a primeira – quando chega ao mundo e a segunda – quando é inserido na sua sociedade, e que onde quer que esteja, faz-se claro que é nos grupos se concretizam as relações afetivas tanto de agregação quanto de exclusão dos indivíduos, o conhecimento e imagem que cada um faz dos outros (e de si mesmo) é que faz com que vínculos sociais sejam criados e se construam as coordenadas culturais.
Isso significa que a sociedade está em constante modificação, portanto, paradigmas, costumes e crenças se adequarão ao momento histórico e social pelo qual aquele grupo esteja passando. Para viver em sociedade e participar de todos os fatos e eventos que nela ocorrem, é preciso utilizar alguma forma de comunicabilidade que faça sentido, haja vista que também não existe comunicação sem sociedade e vice-versa. Isso é tão intrínseco, que é realizado inconscientemente.
Para que as experiências sociais (rituais, expressões, leis, etc.) aconteçam, é inevitável pensar em todos os princípios – signos: todo objeto (signos, significados, códigos)14 que envolvem essa façanha, porque sem dúvida, é um dos grandes traços que diferencia os seres humanos dos outros animais, afinal, apesar de possuírem signos e órgãos emissores e receptores, não inventam nem modificam códigos nem seus significados. Bordenave (1997) fala que é primordial que existam interlocutores e receptores e que todos se utilizem desses mesmos elementos para que a comunicação possa acontecer, isto é, para que haja um entendimento pleno de ambas as partes, é preciso utilizar os mesmos códigos, uma mesma linguagem15. E, também que existem dois complementos para os signos: o chamado objeto referente (ou somente referente. pois o signo faz alusão a ele), que é denominado de objeto representado. Em seguida, temos o significado desse signo (que vem a ser a imagem que formamos em nossa mente ou o conceito que temos modelado de tal símbolo) e por fim, temos a apresentação física do objeto em questão, que vem a ser o significante.
Não há como afirmar historicamente, mas Bordenave (1997) prossegue enunciando que talvez os primeiros signos tenham sido criados para serem associados a um objeto, mas pela sua capacidade abstrativa, o homem deve ter começado a chamar objetos que tivessem características semelhantes pelo mesmo nome, e a partir dessa abstração dos conjuntos de características comuns e gerais de uma determinada imagem formada na mente humana, originou-se o que se qualifica como conceito. Desse modo, o homem precisaria apenas lembrar o conceito de determinada coisa e seu signo correspondente, já que desde que o homem nasce vai aprendendo a sua língua (é um fenômeno social), e que todo pensamento que ele formará será pela junção dos signos, assimilará códigos, regras e convenções que fazem parte do seu coletivo e que contribuirão para que a convivência social ocorra.
Mas, Santaella (1998) cita que esse estilo não são as únicas formas de expressão entre duas ou mais pessoas, e sim, qualquer tipo de linguagem que alguém possa utilizar para se comunicar (sinais, sons, gestos, entre outras), afinal os seres humanos se expressam pela necessidade de dizer algo a alguém sobre determinado ocorrido.
Fala-se com o corpo, por símbolos, gestos, gritos, desenhos, esculturas, pinturas – até um “simples” silêncio pode ser mais representativo que muitas palavras – Kenski (2008) afirma que o ato comunicativo quando tem seus fins no aprendizado não se basta na fala, mas também exige de seu interlocutor o uso da voz, dos movimentos e sinais corporais, ou seja, certas trocas comunicativas que há tempos nossos ancestrais já utilizavam.
Se a Semiologia para Orlandi (2013) tem como objeto de estudos os signos de linguagem verbal e não verbal, a Linguística se atem somente a verbal, seja ela oral ou escrita. Para ele, é importante salientar que somente a partir do século XIX o linguajar vai se transformando por uma exigência própria e em consonância com cada época. Afinal, a boa expressão é uma maneira de se ter domínio sobre o que te rodeia.
Além disso, há também a necessidade de que outros elementos se juntem para que sejam criadas condições para que exista um sentido nas interlocuções, como por exemplo, o local escolhido para a realização de um intercurso, a presença dos envolvidos, acessibilidade a instrumentos indispensáveis ao que ocorrerá, entre outros. França (2003) considera que a participação de pelo menos duas pessoas em um diálogo, não há alguém que exclusivamente emita a informação e outro que só a receba, pois ambos participarão. O que acontece nesse caso é apenas uma troca natural de papéis em momentos distintos, onde os envolvidos utilizando o mesmo código, emitam/recebam, decodifiquem16, interpretem e incorporem as mensagens.
Duarte Júnior (1994) comenta que para um bom desenvolvimento de uma sociedade, as bagagens culturais trazidas dos meios familiares, comunitárias, religiosas, escolares demonstram que os homens são agentes ativos e não passivos para os fenômenos que se apresentam, pois os conceitos que se têm das coisas e fatos são resultados daquilo que se compreende como verdadeiro e que cada um poderá seguir concepções que acredita serem as melhores para as perspectivas que tem de mundo e sociedade.
Para Saussure (2006), os signos são os resultados entre significantes e significados casuais, isto é, se for pensado no por que dos nomes designados a cada coisa pelo qual se tenha conhecimento, não há uma razão específica para nomeação de cada objeto, porém, uma vez nomeados, eles passarão a ter um valor linguístico. Ou seja, quando se pensar na concepção de uma palavra, ela será correlacionada ao nome que lhe foi dado.
Bakhtin declara, segundo Silva (2013), que a linguagem é uma construção realizada pela comunicação, ou seja, pela troca de experiências entre grupos diversos, embora na época de suas produções, a ideia governamental era de fazer com que tanto o idioma quanto a cultura fossem unificados, fazendo assim com que não houvesse espaço para as divergências.
Saussure (2006) ainda demonstra que há uma diferença entre a linguagem – que seria a parte abstrata e o discurso – que seria a parte concreta, ou seja, como as situações cotidianas são relativas, os indivíduos poderão (ou não) dependendo das situações, utilizar determinado tipo de vocabulário para expressar o que desejam. Isso fará com que uma palavra possa ser (ou não) de uma língua.
Pontos cantados
Cada terreiro tem autonomia para realizar seus rituais, pois pelos seus pilares, a Umbanda se propõe a ajudar através das incorporações, passes e trabalhos feitos pelos médiuns que ajudarão os devotos a obter respostas mais rápidas às dificuldades pelos quais estejam enfrentando. Para tal, são realizadas as chamadas Giras de Umbanda, que tem como fundamento a utilização de defumações (que servem para limpar a energia tanto dos sujeitos que lá se encontram quanto do próprio ambiente) e, dos pontos cantados.
Sobre os pontos cantados, Saraceni (2017) diz que durante um longo período o homem estava voltado mais para o lado materialista e mundano da sua vida, e, por conseguinte, resolveu se interligar novamente com as divindades utilizando a música para tal intento. Isso significa que para se religar com o divino, a utilização dos cantos foi algo comum a todas as religiões, porém, em cada religião a música tem suas próprias denominações e momentos para acontecer.
Os pontos cantados, segundo Saraceni (2017), podem ser definidos em duas classificações: origem e finalidade. Quanto à origem, eles se dividem em: pontos de raiz (são aqueles enviados pela espiritualidade e não podem ser modificados jamais) e os pontos terrenos (são os elaborados por pessoas comuns e pautados na razão e no bom senso, podendo ser aceitos pela espiritualidade). Em relação à finalidade, eles podem ser: pontos de chegada e de partida das entidades, pontos de Exu, pontos de homenagem, pontos de vibração, pontos de defumação, pontos de descarrego, pontos de fluidificação, pontos contra demandas, pontos de abertura e fechamento de trabalhos, pontos de firmeza, pontos de doutrinação, pontos de segurança ou proteção, pontos de cruzamento de linhas, de falanges e de terreiros, pontos de consagração do Congá, entre outros.
Portanto, neste estudo, os pontos estão alinhados à finalidade porque todos foram feitos em homenagem aos Exus e Pombogiras como forma de enaltecer suas qualidades e atuações.
Processo de análise dos pontos cantados em narrativas
O objeto desta pesquisa é a sequência de pontos cantados de Exu e Pombogira. Os pontos cantados de Exus que foram escolhidos para a pesquisa, constituem uma sequência de Pontos em Homenagem aos Exus, que, para este estudo, foi retirada de uma coletânea “Ponto - Exu Veludo, Caveira, Tranca Ruas, Marabô, Toquinho, 7 Encruzilhadas, 7 facas” (disponível no do YouTube).
Para analisar esse objeto, será utilizada essa coletânea e mais dois pontos de cada Exu citado. Esses pontos foram escolhidos aleatoriamente nas playlists disponíveis na internet. Como são considerados pontos de raiz, não há citação no site de reconhecimento de autoria. O tempo total de duração do ponto é de 10 minutos e 19 segundos.
E, para a manifestação feminina são compostas por um ponto em homenagem às Pombogiras: Maria Padilha, Cigana e Maria Molambo, que são três lebaras17 muito reconhecidas dentro da Umbanda, e que foi retirado também do site do Youtube. Tal qual foi feito com os Exus, serão analisados também mais dois pontos de cada Pombogira citada. O tempo total desse ponto é de 2 minutos e 11 segundos.
Para um melhor entendimento e para facilitar a análise, a sequência de pontos foram divididos em seis partes. Cada parte falará de um Exu diferente, porém como em algumas partes existem mais de um ponto do mesmo Exu, esses foram subdivididos e nomeados como A, B e C. Os pontos de Pombogiras, por serem menos extensos e em certas partes só serem trocados os nomes delas, serão analisados sem a necessidade de divisões.
Ponto 1 – É a sequência de pontos em Homenagem aos Exus, dividida em seis partes e que exaltam diferentes Exus (Veludo, Caveira, Tranca Ruas, Marabô, Tiriri e Sete Encruzilhadas). E, as partes dois e três foram subdividas em A, B e C por elas possuírem três pontos distintos do mesmo Exu, Caveira e Tranca Ruas, respectivamente. Essa subdivisão foi feita para facilitar a investigação e para que os pontos ficassem mais bem entendidos.
Desta forma apresenta-se no quadro 01 uma visão, amplificado e resumidas, dos objetos analisados.
| Veludo | ||
| Ponto de homenagem | Ponto 1 | Ponto 2 |
| Poderoso, lindo, andarilho, beberrão, sábio, trabalhador, presente. | Alegre, presente, firmador, feiticeiro, grandioso, mensageiro. | Impactante, amigo, trabalhador, andarilho, forte, senhor, presente. |
| Caveira | ||
| Ponto de homenagem | Ponto 1 | Ponto 2 |
| Presente, ossada, firmador, batizado, alegre, andarilho, comandante, feiticeiro, senhor, confiável, protetor, dinâmico | Não tem | Andarilho, beberrão |
| Tranca Ruas | ||
| Ponto de homenagem | Ponto 1 | Ponto 2 |
| Grandioso, punitivo, temível, impiedoso, brilhante, alegre, mestre. | Dono, presente, andarilho, vassalo. | Morador, ardiloso. |
| Marabô | ||
| Ponto de homenagem | Ponto 1 | Ponto 2 |
| Presença, grandioso | Moleque, pulador | Presente, observador, majestade, curador, vencedor, poderoso. |
| Tiriri | ||
| Ponto de homenagem | Ponto 1 | Ponto 2 |
| Presente, cobrador, vigilante | Morador, trabalhador, poderoso. | Agitador, presente, senhor, vassalo, batalhador, educado, sedutor, fascinante. |
| Sete Encruzilhadas | ||
| Ponto de homenagem | Ponto 1 | Ponto 2 |
| Senhor, morador, firmador, grandioso, confiável, dinâmico, andarilho, presente | Malvado, presente, andarilho. | Morador, firmador, confiável, poderoso. |
Análise final de características de narrativas de Motta dos Exus: As características masculinas que mais se repetem nos pontos cantados estudados são: poderoso, feiticeiro, andarilho, dinâmico, alegre, firmador, presente, grandioso, senhor, morador, trabalhador, forte.
Para a ala feminina dos Exu, as pombogiras, destacou-se como características de narrativas de Motta (2013) as seguintes características de personalidades conforme quadro 2.
| Maria Padilha | ||
| P. H | P. 1 | P. 2 |
| importante, cara-metade, alegre, presente, defensora, poderosa. | necessária, apostadora, vitoriosa, sedutora. | grandiosa, poderosa, forte, alegre, vitoriosa, odara. |
| Cigana | ||
| P. H | P. 1 | P. 2 |
| importante, cara-metade, alegre, presente, defensora, poderosa. | feminilidade, perfumada, presença, delicadeza, recato | presença, confiável, verdadeira, força, leitora da alma humana. |
| Maria Molambo | ||
| P. H | P. 1 | P. 2 |
| importante, cara-metade, alegre, presente, defensora, poderosa. | necessária, poderosa, forte, auxiliadora, companheira | feminina, mágica, confiança, companheira, faceira, poderosa |
Análise final do quadro de Motta das Pombogiras: As características femininas que mais se repetem nos pontos cantados estudados são: poderosa, alegre, presente, importante, necessária, confiável, vitoriosa.
Considerações finais
Considerando que todos os ritos e cultos da Umbanda, a musicalidade e os pontos cantados são essenciais para homenagear e agradar seus orixás, assim como, iniciam os rituais. Esse estudo tem como pontos centrais os pontos destinados para os Exus e para as Pombagiras.
Observou-se entre os pontos de Exu a presença das expressões: poderoso, feiticeiro, andarilho, dinâmico, alegre, firmador, presente, grandioso, senhor, morador, trabalhador, forte. Isto é, os Exus são grandiosos e poderosos, são dinâmicos, trabalhadores, firmadores e estão sempre presentes, pois são senhores e moradores nas encruzilhadas, mas são acima de tudo, alegres e beberrões para as personagens masculinos estabelecendo suas personalidades de pessoas expansivas e poderosas.
Já nos pontos de Pombogiras, personagens femininas, as expressões encontradas resumem se em poderosas, alegres, presentes, importantes, necessárias, confiáveis, vitoriosas, sedutoras, assim como mulheres companheiras, inclusive registrando que elas são “cara metades” dos Exus.
Especificamente, sobre os processos narrativos de modo geral os pontos cantados estudados registraram a cada personagem um crescente de atuação e empoderamento de suas ações e qualidades como responsáveis de proteção direcionada do lado masculino e de compreensão e partilha do lado feminino.
Ao relacionar as narrativas dos pontos masculinos, Exus, e dos femininos Pombogiras percebe-se a incidência de características semelhantes quanto às personalidades no foco de alegria, festividades, mas também na responsabilidade dos trabalhos, de seriedade e de presença quanto nas ações de proteção de todos os indivíduos.
De modo geral, nos pontos cantados estudados, destacam que as ruas e as encruzilhadas (caminho da vida de cada um) são espaços onde se fundamenta para os Exus e Pombogiras o seu lugar de poder e moradia, onde todas as ações de proteção acontecem e desenvolvem.
Desta forma, nesse estudo, concretizou que independente de ser o ponto cantado de um personagem masculino ou feminino sua ação é proteção, sua atuação envolve alegria e seriedade de maneira determinada estabelecendo o empoderamento do Exu e da Pomba Gira e também dos seus humanos protegidos.
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Notas