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Os feminismos como experiência do vivido: uma abordagem prática
Revista Internacional de Folkcomunicação, vol. 18, núm. 40, pp. 302-305, 2020
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Resenhas & críticas

Hooks Bell. O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras.. 2018. Rio de Janeiro. Rosa dos Tempos. 175pp.. 978-85-011-1559-1

DOI: https://doi.org/10.5212/RIF




Reprodução

Escrito pela teórica negra e feminista, bell hooks, o livro ‘O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras’ é uma cartilha que apresenta o movimento para mulheres e homens de uma forma simples e eficaz, utilizando o cotidiano como ponto de partida e fazendo emergir novas percepções de mundo, fomentando o despertar de uma sociedade mais diversa e igualitária. Em 2018, a obra traduzida por Ana Luiza Libânio foi publicada pela editora Rosa dos Ventos, no Rio de Janeiro, tornando-se uma das principais referências para o estudo do feminismo no Brasil.

Formada em literatura inglesa, a autora debruça os seus estudos principalmente nas discussões de gênero, raça e combate às opressões. Eleita pela revista Atlantic Monthly como uma das principais intelectuais norte-americanas e uma das 100 Pessoas Visionárias que Podem Mudar Sua Vida, pela revista Utne Reader, hooks se afasta da linguagem academicista para propor uma obra capaz de dialogar com um público múltiplo, e muitas vezes leigo, desconstruindo estereótipos e apresentando o feminismo como pensamento, mas também como prática cotidiana que impacta diretamente na vida de todos.

Embora o feminismo tenha se constituído como uma proposta de liberdade e crítica ao patriarcado, por outro lado, foi se criando uma ideia equivocada sobre o movimento. Por diversas vezes vimos, principalmente por influência da mídia, o movimento ser associado a pensamentos distorcidos, que ao invés da igualdade de gênero pregavam o discurso anti-homem, levando a crer que se tratava de uma guerra declarada. Ao mesmo tempo, mulheres, especialmente as negras, não se identificavam com as propostas e a ideia de emancipação parecia algo utópico.

Por muitas vezes, faltou ao movimento uma linguagem mais clara, menos academicista e que mostrasse, efetivamente, que toda a sociedade pode se beneficiar com as mudanças propostas pelo feminismo. Nos faltava pensar sobre feminismos, no plural. Sobre as peculiaridades de cada mulher, reconhecendo questões como classe, raça, orientação sexual ou qualquer outro marcador social que, em grande parte das vezes, elevam os índices de desigualdades enfrentadas. Nos faltava pensar um movimento múltiplo, tal qual as mulheres. Nos faltava ainda, fazer entender que o feminismo é para todo mundo.

A autora descreve como a sociedade é afetada pelo machismo e pelo sexismo. A partir de suas próprias experiências, hooks aborda como a estrutura patriarcal contribui para perpetuação das opressões sofridas por ambos os sexos, mostrando que os homens, em certa medida, também são vítimas de um sistema que os coloca na posição de superioridade, virilidade e demasiada potência sexual, que devem ser exercidas e mantidas a todo custo, sob a pena do questionamento da sua masculinidade.

O entendimento do sexismo e do patriarcado, assim como a interseccionalidade entre raça, classe e gênero são abordagens que perpassam toda a discussão ao longo das 176 páginas do livro. A autora traz o conceito de sororidade entre mulheres como uma potencialidade na luta antissexista e no fortalecimento das relações femininas. Para hooks, é preciso que as mulheres apoiem umas às outras, construindo uma rede e a concretizando em ações diárias. A autora nos faz perceber que feminismo é pensamento, mas é também prática cotidiana.

Hooks utiliza a introdução para contar algumas das suas experiências com o feminismo e sobre as opiniões deturpadas com quais teve contato. Intitulado ’Aproxime-se do feminismo’, o tópico propõe a desconstrução destes pensamentos e uma explicação didática sobre estrutura patriarcal. A partir daí, a autora traça um roteiro, como uma espécie de passo a passo sobre a experiência feminista. O primeiro capítulo, ‘Políticas Feministas: em que ponto estamos’ nos convoca a pensar o contexto patriarcal e sexista em uma abordagem histórica, acompanhando avanços e regressos do pensamento e da prática feminista. É com a frase “Feministas são formadas, não nascem feministas”, que a autora inicia o segundo capítulo intitulado ‘Conscientização: uma constante mudança de opinião’, onde aborda que o feminismo não é uma imposição às mulheres. Para bell hooks, é necessário que as elas passem por um processo de conscientização, compreendendo o sistema de dominação no qual estão inseridas e como são as principais prejudicadas. Para isso, a autora apresenta no capítulo três a sororidade como ferramenta na luta contra as opressões, enfatizando que a “Sororidade ainda é poderosa”.

Os capítulos seguintes nos levam a refletir como mulheres nascem e crescem em um sistema opressor, tendo seus pensamentos e suas ações moldadas pelo sexismo. A autora apresenta como as ideias feministas têm contribuído para o bem estar em comunidades e sociedades comumentes apropriadas pela cultura dominante. Temas complexos como direito a métodos contraceptivos, gravidez indesejada, aborto e os privilégios de mulheres brancas e de elevadas classes sociais em relação às outras também compõem a discussão que passam ainda por questões como mercado de trabalho, violência, casamento, espiritualidade, maternagem e paternagem feminista - atentando para a necessidade de educar crianças de forma antissexista.

As relações sexuais e amorosas são abordadas na perspectiva do casamento e da heterossexualidade, mas também sob a perspectiva da lesbianidade. Os debates são aprofundados no âmbito da liberdade feminina, seja ela no combate a submissão em relacionamentos heteronormativos ou no direito de amar uma outra mulher. O amor é abordado pela autora enquanto a esperança de recomeçar após as frustrações que também são frutos do sistema racista, sexista e homofóbico. Por fim, ela apresenta o que ela chama de ‘feminismo visionário’, tecendo críticas às ideias radicais e sua incapacidade de estabelecer uma linguagem fácil, que pudesse ser compartilhada através da oralidade. Hooks defende que para ser visionário o feminismo precisa estar apoiado em condições reais, capazes de pensar em um futuro onde os princípios feministas estejam na base da sociedade, se reelaborando sempre que necessário e atuando na libertação de mulheres, homens e crianças.

Durante todo o livro a autora chama atenção para a relação entre as pautas feministas e os discursos veiculados através da mídia massiva, especialmente pela televisão. Para ela, o meio de comunicação é um dos responsáveis pela construção e reafirmação dos estereótipos acerca das mulheres feministas. Enquanto o discurso feminista ganhava força em espaços como a academia, a mídia se valia de uma audiência religiosa e conservadora. Assim, em meio a inúmeras pautas que trariam benefícios para sociedade como um todo, ganhavam destaque reivindicações geralmente associadas aos direitos sexuais e reprodutivos da mulher, questões ligadas ao aborto e o uso de contraceptivos. Nesse sentido, a publicação de um livro com linguagem acessível como a obra aqui descrita torna-se ainda mais potente em sua capacidade, não apenas em alcançar públicos amplos, mas pela possibilidade de ser compartilhado e de ajudar na desconstrução dos mitos sustentados pela mídia hegemônica, patriarcal, sexista e heteronormativa.

É interessante pensar como, mesmo em tempos tortuosos, a obra de bell hooks se configura como importante dispositivo na conscientização na luta antimachismo, anti-racismo, antissexismo, contribuindo para o despertar da consciência de classe. Para as mulheres, é uma oportunidade de reconhecimento em um movimento prático, múltiplo, potente e aberto às suas demandas. Para os homens, é a convocação para um trabalho de desconstrução e aliança diária. Para as crianças, é o projeto de adultos mais conscientes, menos preconceituosos e mais abertos à diversidade e ao diálogo.

Ficha Técnica:

Título: O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras.

Autora: Bell Hooks

Editora: Rosa dos Tempos

Ano: 2018

Número de páginas: 175 p.

Tamanho: 14 x 21 cm.

ISBN 978-85-011-1559-1

HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Trad. Ana Luiza Libânio. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos, 2018.



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