Dossiê
Da memória ao patrimônio cultural: reflexão sobre os ex-votos enquanto testemunho social
From memory to cultural heritage: reflection on ex-votos as a social testimony
Da memória ao patrimônio cultural: reflexão sobre os ex-votos enquanto testemunho social
Revista Internacional de Folkcomunicação, vol. 16, núm. 36, pp. 33-49, 2018
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepção: 20/04/2018
Aprovação: 20/06/2018
Resumo: O presente artigo reserva-se à apresentação do ex-voto, objeto colocado, através do ato da desobriga, em santuários católicos, em específico, nas salas de milagres, como elemento do patrimônio cultural. Aqui, um recorte das produções dos Projetos Ex-votos do Brasil e Ex-votos do México, fomentados pelo CNPq, que incursionaram em quase uma centena de salas de milagres no Brasil e no México. As salas de milagres são espaços do patrimônio cultural que trazem, dentre suas riquezas, a natureza dos ex-votos, objetos que testemunham a fé e que apresentam histórias de vidas, retratas em suportes pictóricos, fotográficos, bilhetes, esculturas, objetos orgânicos e objetos industrializados representativos de situações coletivas e individuais, verdadeiras fontes de informação que trazem histórias locais, regionais e nacional, verdadeiros vetores da memória social e do patrimônio cultural e religioso.
Palavras-chave: Ex-voto, Documento, Memória social, Patrimônio cultural.
Abstract: The present article is reserved for the presentation of the ex-voto, object placed, through the act of relief, in catholic sanctuaries, in specific, in the rooms of miracles, as element of the cultural patrimony. Here, a cut of the productions of the Ex-votos of Brazil and Ex-votos of Mexico Projects, fomented by the CNPq, that incursed in almost a hundred miracle halls in Brazil and in Mexico. The miracle halls are spaces of cultural heritage that bring, among their riches, the nature of ex-votos, objects that testify to the faith and that present histories of lives, portraits in pictorial, photographic supports, tickets, sculptures, organic objects and objects industrialized representative of collective and individual situations, true sources of information that bring local, regional and national histories, true vectors of social memory and cultural and religious heritage.
Keywords: Ex-voto, Document, Social memory, Cultural patrimony.
Introdução: dos ex-votos do Brasil aos ex-votos do México
O presente artigo advém de dois projetos de pesquisa. Um que teve início em 2005, com título e temática voltados para os Ex-votos do Brasil, aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com auxílio à pesquisa nas salas de milagres dos santuários do Brasil. E de outro percurso ocorrido entre 2013 e 2017, no Projeto Ex-votos do México, também fomentado pela mesma agência, que possibilitou incursões em museus, santuários e salas de milagres mexicanos.
Vale ressaltar que, em 2011, com auxílio do CNPq e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), a etapa internacional dos estudos teve o seu início com o Projeto “Ex-votos das Américas”, quando começou a mapear salas de milagres e museus de ex-votos pelos EUA, México, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Porto Rico. Esse estudo, mapeou, pesquisou e identificou ex-votos de salas de milagres e museus, aplicando a análise síntese e iconográfica dos acervos. Criou o que em pesquisa se denomina de “guarda chuva”, com o mapeamento e percepção dos ambientes e objetos pesquisados, para dar início pari passo, em cada região, aos estudos analíticos, semiológicos, semióticos, iconológicos e iconográficos dos ex-votos.
Em 2013, iniciou o Projeto Ex-votos do México, finalizado em dezembro de 2017, que analisou também in situ salas de milagres, igrejas e museus com acervos dos ex-votos, com conclusões que abarcaram o estudo comparativo entre México e América Central, México e Brasil, e dos estudos iconográficos, sociais e semióticos do objeto ex-votivos.
O objetivo em ambos os projetos, foi catalogar a tipologia dos ex-votos nos santuários, salas de milagres e museus, para verificar a iconografia, iconologia, questões semióticas, gramáticas, discursos e temática desse milenar elemento do patrimônio cultural religioso, que, diga-se de passagem, não é restrito ao catolicismo.
Os três passos, Brasil, Américas e México, foram desenvolvidos através da observação sistemática, a partir de pesquisas in locus em ambientes museológicos e dos santuários, em viagens acompanhadas com bolsistas da iniciação científica e assistentes das áreas da comunicação social e museologia, para os trabalhos de fotografação, entrevistas e catalogação de acervo.
A abordagem de cada momento foi analítica, quando procuramos estudar como um todo, e as partes, os ex-votos de cada ambiente pesquisado. A exemplo dos grandes santuários de Aparecida, no Brasil, Guadalupe, no México, Nuestra Señora de los Ángeles, na Costa Rica, e outros espaços e ambientes que enobreceram os três Projetos com uma quase que infinita diversidade tipológica de ex-votos.
Dentro dessa abordagem, estão as análises iconográficas, iconológicas, semióticas e semiológicas, não meramente técnicas, mas vendo o objeto representado por princípios que revelam a atitude fundamental do indivíduo ou coletividade a partir das informações extraídas dos ex-votos.
Na abordagem, coube a interpretação das imagens, e demais objetos, a partir dos significados intrínsecos ou de conteúdo, dos valores simbólicos que elucidaram mensagens, aqui trazidas através dos ex-votos. Para a iconologia, a elucidação de fatores de cunho ideológico e mental carregados em imagens pictóricas e fotográficas. Na iconografia, o olhar foi direcionado às formas estruturais, dimensionais, cromáticas e expressivas das imagens pictóricas, escultóricas, industriais, enfim, tridimensionais.
Para as análises semióticas, os estudos foram concentrados nas interpretações simbólicas, dos signos, sinais e ícones para os objetos não verbais e de características mais ocultas ou imagéticas das fotografias, desenhos e pinturas. Para as análises semiológicas, o estudo da estrutura verbal e das interpretações dos discursos. Esses dois segmentos foram importantes à análise do ex-voto tradicional pictórico, quando, além do figurativo, está a narrativa em verbetes.
A necessidade do estudo tipológico, que previa a classificação dos ex-votos em cada sala de milagres e museu, reforçou a análise iconográfica e clareou a classificação das formas. Nesse caminho, o uso do método comparativo, que objetivou verificar similitudes e explicar as divergências das formas ex-votivas, como também, a comparação entre os próprios exemplos encontrados no México, e extensão comparativa com a tipologia ex-votiva estudada no Brasil, América Central e do Norte.
A pesquisa bibliográfica reservou-se ao estudo teórico e bibliográfico dos espaços pesquisados, e a revisão bibliográfica do tema, bem como a catalogação de textos sobre a temática e a teoria, em específico: semiologia, teoria da comunicação, folkcomunicação e patrimônio cultural e memória social.
Técnicas importantes englobaram a pesquisa e a documentação digital: a Fotografação, que corresponde ao modo de documentar em fotos JPEG, com 600 dpis, dos santuários, museus e, efetiva e especificamente, de cada ex-voto, em close ups. No mesmo encontro esteve a videogravação em MPEG2 (DVD), com tomadas dos santuários, museus, salas de milagres, e com as entrevistas que ocorreram com “pagadores de promessa”, artistas (“riscadores de milagres”) e padres.
Foi esse todo o percurso que tivemos para chegarmos ao que o leitor perceberá a seguir, no registro e debruçar sobre um elemento cultural e comunicacional que em muito engrandece o patrimônio cultural, mantendo uma tradição milenar viva, acentuando para formas comunicacionais simples e herméticas, num diálogo que vai com o padroeiro ao visitante que adentra os espaços dos milagres.
O Ex-voto
Em si, a palavra “ex-voto” já designa um possível testemunho. Demarca algo que fora feito, já que a etimologia da palavra tem origem no latim, cuja preposição ex representa a 'causa de, em virtude de' e voto advém de votum, i 'voto', relativo votum, originado de vovère 'fazer voto, obrigar-se, prometer em voto, oferecer, dedicar, consagrar'. (HOUAISS). O voto é a promessa, o ex-voto é a graça alcançada, e, portanto, informada ao santo e ao público da sua conquista.
De forma geral, enciclopédias e dicionários conceituam esse objeto religioso como quadro pictórico, escultura em forma humana, objeto colocado em lugares sânticos, em cumprimento de promessa ou de memória de graças obtidas. Há linhas que apresentam a expressão de culto por uma retribuição ao santo a algo que foi concretizado, como a “oferta” de elementos materiais, que é o agradecimento pela atuação da entidade superior que proporcionou o milagre.
Compêndios trazem o ex-voto como “tábuas votivas”, ou quadro pictórico, desenhos, esculturas, fotografias, “roupa pagã”, mecha de cabelo ou qualquer objeto oferecido ao santo, em cruzeiros, capelas, igrejas ou salas de milagres, por “pagamento” de uma graça.
Há publicações generalistas que veem o ex-voto como oferenda entregue após um voto prometido e atendido pela entidade superior. Essas publicações têm um apanhado que retrata os tempos do paganismo greco-romano, até alcançar a era do Cristianismo primitivo.
Dessa aproximação com santos e deuses, resulta, por uma questão de formato e de suportes, nos ex-votos artísticos em pintura e madeira. Claro que vamos lembrar de que essa condição de formatação fora executada na Grécia antiga, quando o famoso médico Esculápio recebia daqueles a quem curava a reprodução do braço, perna ou cabeça do doente, em mármore. Objetos que traziam em suas formas os traços, as marcas e os sinais, artisticamente detalhados, dos males ocorridos nas referidas partes do corpo.
Esse costume se generalizou a partir dos gregos, tomando conta, por volta de 2000 a.C., de grande parte do Mediterrâneo, em locais sagrados, santuários, onde os crentes pagavam suas promessas aos seus deuses. Os santuários de Delos, Delfos e Epidauro, na Grécia, notabilizaram-se pela quantidade e qualidade das ofertas recebidas. (OLIVEIRA, 2012)
Os ex-votos, desde a antiguidade, e em termos de forma, trazem uma rica diversidade tipológica e de materiais em santuários e salas de milagres pelo mundo católico. E, ainda de forma geral, para enquadrarmos os formatos que esse elemento ganhou através do tempo, e sem pretender uma tipologia mais pormenorizada, podemos tecer cinco performances: antropomorfos, zoomorfos, simples, especiais ou representativos de valor e, por fim, tradicionais.
Antropomorfos são os que representam o corpo humano, no todo ou em parte, em desenho, esculturas, pinturas ou fotografias; zoomorfos são as representações de animais; simples são os objetos de uso cotidiano e religioso, como as fitinhas, os vestidos brancos e os sapatos, entre outros, que possuem valor pessoal do crente; os especiais ou representativos de valor são os ex-votos que, economicamente, têm valor monetário e de características orgânicas. A exemplo, podemos citar moedas e cédulas correntes, objetos artísticos considerados de grande valor e bens de consumo imediato (como pequenos sacos de feijão, arroz e milho). Os exemplos dos orgânicos estão, principalmente, para os miomas colocados em vidros e expostos nas salas de milagres.
Quando se fala em tradicionais, procura-se dizer dos ex-votos clássicos que, artisticamente, possuem formatos escultóricos e pictóricos, que possuem uma tradição temporal e histórica marcante, e que por isso são denominados de “promessas” e/ou “milagres”. Exemplos mais clássicos são os “retablos”, que além da marcante cena retratada, traz verbete que narra o acontecimento (V. Imagem 1)

Museu do Santuário de Matosinho, Minas Gerais, Brasil.
Acervo do Projeto Ex-votos do México – 2016Diante da definição sobre o ex-voto, é de suma importância separar os conceitos de votivo e ex-votivo. O primeiro diz respeito às ofertas em cumprimento de voto ou promessa ao santo, com o uso ou a tradição de manter cerimoniais. Assim, por exemplo, pode-se dizer, o uso de figas, pingentes, de ofertas de caruru, de ir em romaria, de levar romeiros, de acender velas em dias determinados, de dar nomes de santos aos bebês, e outros aspectos, são ações votivas.
Já o conceito de ex-votivo refere-se ao ato voltado para o ex-voto, e que se compõe do ato da desobriga, o “depositar” o objeto, seja na sala de milagres, num cemitério, num cruzeiro, num canto da igreja, em meio ao cerimonial de reza individualmente feita, configura-se como um ato ex-votivo. E dessa forma fica esclarecido que, se um romeiro for à igreja, vestindo uma bata, ele estará cumprindo o seu voto. Porém, se ele, além disso, retira a bata, que é a “roupa pagã”, para depositá-la em alguma parte da igreja ou na possível sala de milagres do templo, estará cumprindo uma ação ex-votiva.
São muitos os pesquisadores e teóricos que estudaram e estudam os ex-votos. Aqui podemos citar alguns famosos, como os brasileiros Clarival Valladares (1967), Márcia Castro (1979), Maria Augusta M. da Silva (1981) e Luiz Beltrão (2004); os mexicanos Jorge González e Elin Luque Agraz (2017), e as francesas Caroline Perree (2017) e Clarisse Prêtre (2014). Em todos esses pesquisadores, é unânime percebermos que o aspecto testemunhal do ex-voto exige um processo de comunicação social.
No processo comunicacional que está o ex-voto, estão as formas testemunhais de representação iconográfica da graça obtida, envolvendo a ocorrência que motivou a graça (doença, obtenção da terra para plantar, da casa, do carro etc.), a representação escultórica da doença curada que é a forma mais conhecida de um ex-voto; o testemunho de fatos e acontecimento em narrativas pictóricas e fotográficas; as cartas que depõem pelas conquistas; os hoje difundidos DVDs que trazem os casamentos, o batismo, enfim, formatos antigos e novos que representam histórias do passado e atuais, formatos que preservam memórias individuais e coletivas, divulgadas em ambientes que insurgem em ruas, estradas, cemitérios ou simplesmente numa sala de milagres. Objetos que, pelo grande potencial testemunhal, são dirigidos (ou coletados) para museus. Formatos que trazem informações ao público, mas que antes disso teve o propósito de “falar com Deus”.
Outro fator importante trazido pelo ex-votos, e aqui visto como elemento do patrimônio cultural dentro dum escopo que mostra a tradição milenar, é o regionalismo, notadamente percebido nos santuários católicos, e bem analisado por pesquisadores como Clarival Valladares, Elin Agraz e Márcia Castro.
Na década de 1970 a colecionadora e pesquisadora Márcia Castro atentava para o predomínio dos ex-votos pictóricos em Minas Gerais, que para ela, Estado “pólo principal dos ex-votos pictóricos”, em tese denominados Tábua Votivas Mineiras. (CASTRO, 1979, p.111)
Castro (Idem) resume as tábuas votivas mineiras à semelhança das portuguesas, pois são quase sempre de aspectos ingênuo. Nelas foi empregada a mesma técnica, igual disposição de elementos e em sua maioria os mesmos santos são invocados. No primeiro plano, destaca-se a figura do pagador da promessa no seu momento de maior aflição. Como é natural, há predomínio de quadros que representam doentes que muitas vezes encontram-se deitados na cama do quarto, cercado por parentes que rezam juntos, diante da imagem do padroeiro que pode vir como um pequeno quadro na parede ou surgindo entre nuvens, numa menção de presença e apoio aos pedidos. Travesseiros e lençóis são sempre brancos, que demonstra o capricho do pintor nos detalhes das rendas e bordados, assim como nos desenhos da colcha adamascada, que dá um toque colorido ao conjunto. (Imagem 1)
Já o pesquisador baiano, Clarival do Prado Valladares (1967), mostra os ex-votos do sertão com as suas características bastante divergentes dos ex-votos de Minas e de São Paulo. Valladares dedica grande parte dos seus estudos aos aspectos dos ex-votos escultóricos do sertão, que para ele são produtos de exportação, em grande parte, para as capitais nordestinas. Para o autor, esses objetos são de extrema singeleza de forma e indicações, ao contrário dos de desenho e pintura narrativas dos riscadores de milagres de Minas Gerais. (VALLADARES, p. 17)
Os ex-votos do Sertão caracterizam-se pelo hieratismo da figura, sempre submetida a relevante contrição numa excessiva gravidade que é o ponto de aferição entre a figura humana e o seu relacionamento ao sobrenatural. (Fotografia 1)

Sala de milagres do Santuários de Santa Terezinha
Mata Grande, Alagoas, Brasil
Acervo do Projeto Ex-votos do Brasil – 2016Porém, o que podemos perceber a partir da década de 1980 é uma rica tipologia que se estende por todas as salas de milagres, isento de quaisquer regionalismos que possam existir. Podemos perceber ex-votos esculpidos, embora de parafina, em Congonhas e em Aparecida, da mesma forma que o vemos em Juazeiro do Norte. O que se deve ressalvar é que a estrutura em madeira é singular ao Nordeste, mas que, diminutamente, se encontra em São Paulo e em Minas Gerais. Assim como a pintura, predominante em Matosinhos, mas pouco vista nas salas de milagres da Bahia e de Juazeiro do Norte. Já na região Sul do Brasil, são raros os ex-votos escultóricos em parafina. Nessa região, o predomínio está para as placas, cartas, bilhetes e fotos ex-votivas. Entendemos, também, que a expansão do formato feito em parafina dar-se-á pela alta reprodutibilidade a partir das fábricas e de pequenos empresários locais, alguns dos quais reaproveitam a parafina derretida dos velários de igrejas e santuários para mais uma forma de ganho. O mesmo se aplica ao México, que, mantendo a tradição dos ex-votos pictóricos (retablos), traz em seu território algumas diferenciações de formatação e tipologias ex-votivas entre suas regiões geográficas. (AGRAZ, 2017)
Ex-votos e documentação
O conceito de documento se liga à noção de testemunho, de fatos e acontecimentos, das atitudes marcadas e registradas em algum momento da história, seja ela individual, coletiva, política, econômica etc.. Este conceito nos conduz a todas as abordagens que as ciências envolvidas com a memória social e o patrimônio cultural permitem, numa visão abrangente, fugir de definições reducionistas, preconceituosas e restritas que focam o testemunho e o documento como agentes das “coisas velhas”, “velharias”, “coisa de museus”, “peças” ou papéis encontrados em arquivos, bibliotecas, museus e memoriais.
Longe de noções preconceituosas, um testemunho deve ser pensado e visto como um documento e vice-versa. Então ele está em todas as partes dos espaços ocupados pelo homem. O documento é um símbolo representativo das atitudes e do desenvolvimento de cada aspecto cultural. Está em praças, nas ruas, nos corredores, nas lojas, no antes e no depois de um fato cultural. Ele está em uma igreja, em um campo de futebol, no carnaval e muitos outros espaços e ambientes – senão em todos – culturais.
O documento adentra em instâncias arqueológicas, museológicas, históricas e antropológicas, apresentando vestígios os mais variados possíveis, ligados a fatores biológicos e químicos dos comportamentos humanos, encontrados nos sítios arqueológicos, históricos e manifestações culturais.
Esta noção de documento é alargada, na Antropologia, com o conceito de monumento. Para esse ramo científico todos os vestígios do homem são monumentos, incluindo os fósseis orgânicos estudados, hoje, pela biossociologia. Para o antropólogo Ordep Serra, um simples ex-voto, humilde como uma mortalha de pano é um monumento. Na verdade, há apenas a transferência de nome – de documento para monumento –, embora a Antropologia tenha, neste conceito, inserido novos objetos. (SERRA, 1991, p. 48)
Documento, pois, é tudo. E quando ele vai marcar um momento proporciona significado para uma imediata ação cultural. Ou seja, o objeto-testemunho será auxiliar ao homem para um fato cultural que será concretizado, mas que, antes de sê-lo, já testemunha o tipo de acontecimento numa ação precípua. Já anuncia algo, inclusive decodificado por quem passa por ele.
Um grande exemplo está numa prateleira de uma sala de milagres, cheia de ex-votos tradicionais. Eles são símbolos testemunhais do movimento de crentes que pagam as suas promessas, testemunhos da permanência da religiosidade naquele local (fotografia 2)
O ex-voto faz parte de uma crença. Em direção ao santuário, antes da festa do padroeiro, ele está no cantinho da carroceria do caminhão pau-de-arara. Um objeto apenas. Mas é visto por todos que participam da romaria como um “milagre”. Será o objeto-testemunho da graça que o fiel consagra ao padroeiro, ou então da graça alcançada. Fora da sala de milagres o pequeno objeto já representa a futura reza, gestual e desobriga. As pessoas no caminhão olham-no e compreendem o porquê daquele objeto naquele canto, naquele momento. Compreendem, mais ainda, que aquele objeto artístico, dentro de algumas horas estará na sala de milagres do santuário, palco da própria romaria.

Sala de milagres do santuário de Santa Terezinha, Mata Grande, Alagoas, Brasil
Acervo Projeto Ex-votos do Brasil. 2016O ex-voto, após a desobriga, será o testemunho da crença religiosa. Ele, junto a tantos outros no espaço da sala de milagres, será uma documentação, a variedade dos muitos objetos que representam e que compõem o espaço consagrado da sala.
Essa documentação é o significado da tradição, da origem, remontada na Grécia antiga, que os romanos herdaram e legaram ao mundo por eles latinizado. Ou seja, ela é o que na história Fernand Braudel (1992) veio a denominar de testemunhos de uma “longa duração”, e que, no seu percurso, tornou-se um patrimônio cultural, seja ele local, seja ele de maior dimensão, uma dimensão que podemos denominar “histórica” ou numa perspectiva de patrimônio mundial como assim se oficializa pela UNESCO.
Como documento, o ex-voto se expressa de forma testemunhal, demonstrando ambições, medo, felicidade, amor etc.. Essa expressão é vista nas suas tipologias, em bilhetes, cartas, maquetes, cabeças, objetos industriais e uma infinidade de tipos que, inclusive, adentram-se nas categorias, em tese, elencadas por estudiosos brasileiros e mexicanos.
Os ex-votos são um dos raros meios de investigação no mundo do silêncio daqueles que não sabem escrever. Eles, no campo da história, são uma fonte rica de investigação do social e da arte. Por pouco que sejam, levam-nos aos segredos das consciências da sociedade, dos momentos, do cotidiano, do indivíduo, dos valores que permeiam o contexto social. (VOVELLE, 1989, p.88)
Como objetos expostos em uma sala de milagres, eles demonstram a fé, a crença, a procura da comunicação do fiel com o seu padroeiro. A exposição em uma sala de milagres nos leva de imediato ao sagrado e à religiosidade das pessoas que vêm de longe, em diversos meios de locomoção, ou até mesmo a pé, para pagar ou pedir uma graça.
No processo da comunicação em uma sala de milagres se percebe a grandeza da fé, da dimensão da religião católica, que se estende a lugares distantes, que não têm obstáculos que impossibilitem ao crente cumprir a sua desobriga.
O ex-voto, como já referenciado, pode ser qualquer objeto. Em sociedade, ele é visto no comércio, na venda, em pequenas barracas e armarinhos, à frente dos santuários, que vendem diversos tipos de ex-votos, mantendo o emprego daqueles que vivem do comércio.
Mas vale lembrar que apenas os ex-votos tradicionais são, nas barracas e armarinhos de venda, reconhecidos como promessas e milagres. Ao passo que os objetos que não ganham conotação de promessas, milagres e ex-votos serão considerados como tais quando “depositados” na sala de milagres. Isso pode acontecer com objetos do porte de vestidos, chapéus, reproduções de pinturas e esculturas de santos, brinquedos, muletas, óculos, objetos kitsch etc.
Permanecendo no mundo do comércio o ex-voto tem ao seu lado o artista, o riscador de milagres e o santeiro, pessoas que ganham a vida fazendo ex-votos.
Hoje, o que mais se vê próximo a muitos santuários são pequenas barracas com ex-votos de parafina à venda. Em alguns casos, os próprios donos dos armarinhos e barracas fabricam os ex-votos de cera e parafina. Em outros casos, donos de armarinhos de médio porte encomendam os objetos que vêm de fábricas das regiões de Salvador, Juazeiro do Norte, Aparecida do Norte, São Paulo, Rio de Janeiro.
Nos dias atuais, em alguns centros de peregrinação, não se encontram os riscadores de milagres e os santeiros. Juazeiro do Norte, um dos maiores centros de romarias, é um exemplo. Nessa cidade, que fica a 680 km de Fortaleza, não há artistas que pintam quadros ex-votivos. Ao contrário das diversas regiões mexicanas que mantêm a tradição do “retablo”, do “retablito”, com os seus mestres reconhecidos, os retableros, que fazem por encomendas a vários cantos do país e até para fora do México. Uma tradição que faz o povo mexicanos se orgulhar de ter os retablos dedicados à Virgem de Guadalupe e a outros tantos santos, como foi muito bem observado in locus em Chalma, Queretaro e Guadalupe, entre 2013 e 2017 no Projeto Ex-votos do México, e com grande apoio da pesquisadora Elin Agraz e do artista Alfredo Vilchis.
A fotografia, uma das invenções que ocorreram no século XIX, teve papel fundamental enquanto possibilidade inovadora de informação e conhecimento, instrumento de apoio à pesquisa nos diferentes campos da ciência e também como forma de expressão artística. (KOSSOY, 1989, p. 14)
Foi a partir do século passado que pintores retratistas entraram em concorrência com os fotógrafos retratistas que, por encomenda, faziam retratos de pessoas e do cotidiano da cidade e também passaram a trabalhar como documentadores em expedições de biólogos.
Nesse processo da fotografia, os ex-votos, a partir da década de 1950, não ficaram de fora. Foi a partir dessa data que o número de riscadores de milagres começou a diminuir no Brasil. A popularidade da fotografia propiciou a inusitada possibilidade de autoconhecimento e recordação, de criação artística – e, portanto, de ampliação dos horizontes da arte -, de documentação e denúncia, graças à sua natureza testemunhal. Justamente em função deste último aspecto ela se constituiria, também, para romeiros, crentes e visitantes de santuários, em ex-votos. (Fotografia 3)
As pessoas passaram a “denunciar” acidentes automobilísticos através de fotografias, depositando-as em salas de milagres. Cerimônias de casamento e reuniões de família também foram e ainda são fotografadas e colocadas nas salas de milagres. Mas a maior difusão de ex-votos fotográficos fica a cargo das fotos 3X4, que em quantidade nas salas de milagres dos santuários do Senhor do Bomfim, Candeias, Iguape e Aparecida do Norte, é de número assustador, superando a quantidade de qualquer outro tipo de ex-voto.

O santeiro é outro personagem que ganha, mesmo que muito pouco hoje, com a fé ex-votiva e que se projeta como profissional criador de objetos sacros. Ele não é necessariamente um riscador de milagres. Os seus santos podem ter outros fins que não sejam uma sala de milagres. Embora hoje se encontrem em abundância santinhos bem trabalhados em salas de milagres de santuários do porte de N. Sra. Aparecida, Bom Jesus da Lapa e Juazeiro do Norte. Santinhos bem trabalhados, produzidos em Caruaru e Canindé, regiões que têm tradição na arte escultórica de santos, sejam modelados em barro (cerâmica cozida), sejam esculpidos em madeira.
A grande maioria dos santinhos vendidos é proveniente das indústrias paulistas. São os santinhos de gesso, produzidos em série e que se difundiram nesse campo a partir do final da década de 1950 no Estado de São Paulo.
Certamente que, nos dias atuais, com a industrialização dos santinhos, com a fotografia digital, a facilitação dos vídeos em CDs e pendrives, os santeiros, riscadores de milagres e fotógrafos, perderam muito dos seus campos de trabalho. Tanto é que hoje não se encontra santeiros e fotógrafos próximos de alguns dos grandes santuários no Brasil, México e alguns países da América Central.
O ex-voto, hoje, além desses fatores vinculados à venda, à sua feitura enquanto objeto artístico ou industrializado, é um elemento que, através de fotografias, pinturas, esculturas e desenho, elucida questões socioculturais, além de, em sua primazia, testemunhar fatores econômicos, habitacionais, políticos e da saúde. É em toda essa captação do social que o ex-voto se mostra um rico testemunho da história e da memória social.
Isso é notar o ex-voto em comunhão com a sociedade. O ex-voto e as conjunturas formadoras dos aspectos socioeconômicos, habitacionais, políticos e da saúde é um ponto de extrema importância, pois referencia a questão do testemunho, do ex-voto como documento que revela situações nos anseios individuais e coletivo, os valores sociais expressos, em determinado período, tendo como primeiro plano as atitudes individuais e coletivas do homem, visualizadas no objeto.
Conclusão
Baseado não num conceito científico, mas aportado no compromisso de uma Constituição, a brasileira, por exemplo, “constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. (Constituição Federal Brasileira, 1988. Art. 216)
Portanto, e tomando aqui o nosso principal elemento de pesquisa, o ex-voto atende o princípio da referência de identidade, seja individual ou de uma coletividade; à ação, quando reservamos ao quesito religião do povo; à memória, quando dizemos que as ações ex-votivas são de uma tradição milenar, e que é mantida até hoje em raízes religiosas que, além de perpetuar o vínculo cultural do fazer ex-votivo, traz a carga infocomunicacional do pagamento da promessa, ou seria “premessa”? Ou “graça”? Da casa ou sala dos milagres conhecida em cada um dos santuários, famosa por lá repousar por pouco tempo histórias da gente que tem fé no famoso santo, Antônio? “Ciço”? Aparecida? Bomfim? Guadalupe? Virgen Negrita? Nomes famosos que chegam a ser padroeiros de classes, cidades e nações.
E assim se fazem os patrimônios. Estejam eles ligados aos grandes nomes zelados pelo povo, estejam numa tipologia de objetos ex-votivos que a cada dia se modifica. Objetos, memória, história, informação. Povo. O que seria mais patrimonial do que esses cinco componentes?
A crença, revelada através do ex-voto, proclama, como já foi dito, a comunicação entre os fiéis e o santo. Ela elucida a necessidade que muitas pessoas têm da mínima melhoria de vida, da conquista da saúde, da casa e da terra. Mas também ela demonstra, perante a procura da salvação, da felicidade, imagens e formatos de objetos que se multiplicam a cada dia testemunhando e divulgando o íntimo de cada pessoa.
Assim, o ex-voto, exposto aos olhares de tantos outros fiéis e curiosos, afirma sua confiabilidade como meio de aproximação de uma sensibilidade, sobretudo popular, abarcando características comunitárias, portanto coletivas, onde valores culturais do patrimônio religioso estão à mostra, elucidando para o mundo as histórias de vida que, dilatadas, mostram a face do país e demarcam a sua memória social.
Referências
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