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Os jogos da política e a teia cultural de Lampião em Mossoró
The games of politics and the cultural structure of Lampião in Mossoró
Los juegos de la política y la teia cultural de Lampião en Mossoró
Revista Internacional de Folkcomunicação, vol. 19, núm. 42, pp. 28-49, 2021
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Dossiê



Recepción: 19/09/2020

Aprobación: 01/06/2021

DOI: https://doi.org/10.5212/RIF.v.19.i42.0002

Resumo: O artigo propõe uma interconexão entre os estudos de Cultura e Política, tomando como caso para análise a passagem do bando de Lampião pela cidade de Mossoró e de como o bando foi expulso por sua maior autoridade local, o prefeito Rodolfo Fernandes. Esse fato histórico local é revivido, todos os anos, a 13 de junho, por meio de uma peça teatral, apresentada em praça pública, o qual ajuda a reforçar e reinventar, ano a ano, tal folguedo e seus usos por parte dos políticos locais e das famílias políticas, que há anos, detêm o poder na cidade, como a família Rosado. Para tanto, pesquisamos, além da peça teatral, cordéis que contam a “saga de Lampião em Mossoró”, Jornais locais sobre os usos de políticos sobre a saga de Lampião. Observamos que tal folguedo ajuda na perpetuação não só do imaginário da cidade como “terra de valentes”, como é utilizada pelos políticos na construção de suas personas públicas.

Palavras-chave: Lampião, Cangaço, Poder Político.

Abstract: The article proposes an interconnection between the studies of Culture and Politics, taking as a case for analysis the passage of Lampião´s band through the city of Mossoró and how the band was expelled by its greatest local authority, Mayor Rodolfo Fernandes. This local historical fact is revived, every year, on June 13th, through a play, presented in a public square, which helps to reinforce and reinvent, year after year, a revelry and its uses by local politicians and political families, which for years have held power in the city, such as the Rosado family. To this end, we researched, in addition to the play, strings that tell "Lampião saga in Mossoró", Local newspapers about the uses of politicians on the saga of Lampião. We observed that such play helps in perpetuation not only of the imaginary of the city as "land of the brave", but is used by politicians to build their public personas.

Keywords: Lampião, Cangaço, Political Power.

Resumen: El artículo propone una interconexión entre los estudios de Cultura y Política, tomando como argumento para el análisis el paso de la banda de Lampião a través de la ciudad de Mossoró y cómo la banda fue expulsada por su máxima autoridad local, el alcalde Rodolfo Fernandes. Este hecho histórico local se revive, cada año, el 13 de junio, a través de una obra de teatro, presentada en una plaza pública, que ayuda a reforzar y reinventar, año tras año, este folguedo y sus usos por parte de políticos locales y familias políticas, que durante años han tenido poder en la ciudad, como la familia Rosado. Con este fin, investigamos, además de la obra, cuerdas que cuentan la "saga de Lampião en Mossoró", periódicos locales sobre los usos de los políticos en la saga de Lampião. Observamos que ese folguedo ayuda a perpetuar no sólo el imaginario de la ciudad como "tierra de los valientes", sino que es utilizado por los políticos en la construcción de sus personajes públicos.

Palabras clave: Lampião, Cangaço, Poder Político.

Introdução: Da invasão

A tentativa de assalto do bando de Lampião à cidade de Mossoró, no Estado do Rio Grande do Norte, foi um acontecimento de ordem econômica e política que, à época, envolveu a fama de uma cidade rica e desenvolvida, o que se justifica pela quantia em dinheiro exigida por Lampião ao prefeito. Politicamente, soma-se a atitude do representante da cidade, o prefeito Rodolfo Fernandes, de assegurar a defesa do território e de seus habitantes. Todavia, o relato das pessoas que temeram as ameaças do Cangaceiro e fugiram para locais vizinhos, as marcas dos tiros deixadas nos prédios e na igreja da cidade; os registros fotográficos e seus diversos usos; a festa que hoje é celebrada no dia 13 de junho (coincidindo com o calendário de Mossoró Cidade Junina); as encenações em praça pública do espetáculo “Chuva de Balas no País de Mossoró”; o Memorial da Resistência, marco turístico construído no epicentro cultural da cidade. Tudo isso coloca a “resistência” de Mossoró ao bando de Lampião como um fato de larga repercussão cultural.

A passagem do bando pela cidade ganhou o título hiperbólico de “invasão” do bando de Lampião a Mossoró. O episódio malsucedido do ataque de Lampião foi sendo continuamente alimentado a partir de informações que vêm das práticas culturais locais, das matérias jornalísticas, dos rituais cívicos. Este artigo é resultado de quatro anos de pesquisas na cidade de Mossoró em que foram investigadas três dimensões culturais relacionadas ao fenômeno, suas narrativas e formas de recriação presentes na literatura de cordel, no espetáculo Chuva de Balas no País de Mossoró e na imprensa local.

A pesquisa instrumentaliza as articulações entre linguagens (poesia, teatro e imprensa), símbolos (Lampião, os cangaceiros, o prefeito) e mito (a resistência de Mossoró) e as interpretações que constroem o imaginário. A noção de imaginário, além de um instrumento de pesquisa, permite também compreender as concepções que o grupo tem de si e a forma como promoveram socialmente as mudanças e permanências. As narrativas poéticas, mitológicas e teatrais não são vistas como mera repetição dos fatos, ela obedece a um princípio criativo e dinâmico, de modo que a descontinuidade temporal não anule a continuidade da experiência.

A história de Lampião e seu bando há muito tempo vem sendo contada, passando de geração em geração como símbolo da cultura nordestina. Seus feitos lhe atribuíram fama e permitiram que ainda nos dias atuais fosse lembrado como uma das principais personagens que ilustram o imaginário popular, parte indissociável da cultura de um povo injustiçado. Inúmeras versões foram criadas e no próprio ato da perpetuação presente na oralidade, novos elementos são acrescentados, o que não diminui sua veracidade, apenas contribui para que os fatos se tornem significativos e eternizem-se na memória de quem os ouve.

Dentre os muitos fatos que marcaram a vida de Virgulino Ferreira da Silva, popularmente conhecido como Lampião, está a invasão de seu bando a cidade de Mossoró no dia 13 de junho de 1927. Fato que deu a cidade prestígio em todo o Nordeste, fazendo com que esta ficasse conhecida como a cidade que derrotou Lampião, a terra da resistência. Uma séria de questões forma-se em torno desta temática. Quais as repercussões políticas para a construção desta ideia de resistência? Como podemos caracterizar Lampião, enquanto vilão ou herói? E a classe dirigente de Mossoró, que tipos de herói podem representar? Qual a função da poesia, do teatro e da imprensa na perpetuação deste mito? Estas foram algumas problematizações que nos levaram a atentarmos para outras versões desta história já tão conhecida. Desse modo, tivemos a oportunidade de analisá-la por diferentes ângulos.

A vitória do prefeito sobre o bando de Lampião também produziu um efeito duradouro na política e na identidade cultural da cidade. Assim, ela passou a ser conhecida como brava e heroica, uma cidade que na figura de seu destemido prefeito lutou contra Lampião e seu bando com bravura, resistindo a chantagens e violência e protegendo a sua população. Foi a partir das encenações desse acontecimento heroico que a cidade passou a ser projetada no cenário cultural. Sua cultura cresceu com ênfase nesse acontecimento histórico, cuja narrativa continua viva.

Vale salientar que a invasão do bando de Lampião a Mossoró tem sido um feito contado há várias décadas enquanto efeméride municipal. Como esclarece Paiva Neto (2001) a família Rosado, muito conhecida em toda região, utilizou implicitamente a celebração desta data para destacar-se no âmbito político. Desde o ano de 1946, quando os primeiros membros desta família ocuparam mandatos políticos, impulsionados pelo patriarca Jerônimo Rosado, foram pouquíssimas as vezes em que concorreram à prefeitura de Mossoró saindo derrotados. Além de estarem registrados na memória social pelos mandatos que exerceram e seus feitos, estão “eternizados” em monumentos, como estátuas e nomes de ruas e logradouros, bem como por fomentarem as festas cívicas da cidade. Mesmo aqueles que não se envolveram diretamente com a política, eram profissionais de diversas áreas e intelectuais que auxiliaram a articular mitos, símbolos e rituais como base do discurso que justifica o domínio político.

No que diz respeito ao episódio da invasão do bando de Lampião, os rituais vêm mostrando, através da figura do prefeito, na época, Rodolfo Fernandes, o engrandecimento da classe política, sendo o mesmo destacado como o homem corajoso que elaborou o plano para derrotar o bando de cangaceiros. Dessa forma, a família Rosado indiretamente, mesmo não participando da resistência a Lampião, ganha força e renome de coragem para representar a cidade no setor político, através dos efeitos de um tempo cíclico, em que os acontecimentos do passado aparecem exercendo influência sobre o presente.

Literatura de cordel: A inversão

Com o elenco de nove cordéis analisados, adotamos o procedimento metodológico de procurar perceber como os cordéis (re)elaboram o mito e contrastam as imagens dos heróis, permitindo a sociedade se situar diante dos atores do presente. Sabemos que o mito tem a função de tornar físico e visível aquilo que é abstrato e impalpável, além de multiplicar o sentido dos acontecimentos. Pela longitude do que foi vivido, o cordel recebe a licença mitopoética de relatar o fato histórico. Destarte, esta literatura representa os saberes que circulam na sociedade e, ao mesmo tempo, recebe o consentimento de reforçar, inovar ou inventar, diante da realidade objetiva. Portanto, a literatura de cordel que reconta a invasão apresenta Lampião enquanto herói injustiçado, o que constitui dado simbólico que denuncia aspectos da realidade política e social.

Como recurso para analisar a multiplicidade de textos e celebrações que se desdobram a partir deste fenômeno, consideraremos a produção de poetas mossoroenses e da região que, através da literatura de cordel ajudaram a caracterizar e construir o imaginário local. Segundo Edgar Morin, a poesia é diretamente nutrida pelo pensamento simbólico e mitológico. Entretanto: “em nossa cultura ocidental, tanto a poesia quanto a cultura humanista foram relegadas” (MORIN, 2010, p.38). Desse modo, a pesquisa é também um meio de valorizar a poesia e os poetas locais.

A quantidade de folhetos produzidas nesta temática nos indica a relevância cultural do fenômeno. Os cordéis selecionados foram aqueles que fazem referência direta ao tema e escritos por poetas locais e regionais, procurando ser coerente com dados que nos levem a compreender a imagem que os mossoroenses têm de si. Estes cordéis foram resultados do investimento de gráficas locais, sendo dois panfletos patrocinados pelo prêmio de fomento Edição 2007 da Prefeitura Municipal de Mossoró.

Os cordéis foram compreendidos como objetos simbólicos e não como marcas documentais do que aconteceu efetivamente, desde que o passado está comprometido com a leitura que fazemos dele no presente. Além disso, o poeta utiliza as estratégias próprias da literatura de cordel e exagera, recria, omite, sobressalta os detalhes que lhe interessam, a fim de ancorar o sentido que deseja construir, (re)construindo assim a realidade.

Para além da afinidade na estrutura textual entre os cordéis, buscaremos nos textos selecionados repertório que justifique estratégias de imaginação do poeta, causando uma verdadeira rede de relações dos textos entre si: “Redes de textos, que por vezes remetem uns para os outros, que trabalham sobre os mesmos motivos” (CHARTIER, 1990, p.174).

Nos textos poéticos buscamos, ainda, os sinais do que pode ser entendido como político, implícita ou explicitamente. Não apenas, levando a efeito o que possa ser referência direta ao poder político e aos heróis cívicos da cidade, mas o que caracterizaria o lugar do povo, considerando que a figura simbólica de Lampião é ambígua e controversa, inspira paixão e medo, santidade e profanidade, repúdio e veneração.

Dentre os cordéis analisados, escolhemos dois específicos, por se tratarem de textos que subvertem a história oficial e trazem elementos que ajudam a questionar a maioria das versões reencenadas da Invasão do bando de Lampião a Mossoró. Nestes cordéis, foi possível perceber uma série de modificações da história, a começar pelos seus títulos: “A Defesa de Lampião” e “O Ataque de Mossoró ao bando de Lampião”, em ambos os casos, não é o bando de Lampião que faz o ataque e sim a cidade de Mossoró.

Percebemos que as histórias narradas pelos poetas Antônio Francisco e José Augusto não se passam como se tivessem ocorrido há muito tempo atrás. Ao contrário, são criações que admitem as raízes na vida social presente.

Na cidade de Mossoró, Lampião se torna um herói às avessas. Isso porque ele se torna figura emblemática no imaginário popular, não por ter conseguido salvar o seu povo, mas porque fez um assalto à cidade. Segundo uma das versões narradas no cordel “A Defesa de Lampião” do poeta José Augusto, Lampião foi enganado em um acordo com a classe dominante e teve o seu bando derrotado em uma emboscada.

É interessante considerar que Lampião se torna uma peça chave quando é “contratado” pelo prefeito de Mossoró para atuar como bandido a fim de tornar esse mesmo prefeito um herói!



Mas como não tinha visto
Nem nunca ninguém contar
Prefeito de qualquer canto
A meu cangaço pagar!
Pra seu lugar invadir
Pra ser um ser popular...

Em busca de se tornar político destacado para a população da cidade de Mossoró, o prefeito Rodolfo Fernandes busca um acordo com o herói mítico do sertão, Lampião, o Virgulino Ferreira, acordo esse que é descrito no cordel de Jose Augusto:



(...) Mandado pelo prefeito
Um bilhete que dizia:
“Caro, caro Virgulino,
É só por mal entendido
Tanta gente mata e morre
Deixando desprotegido
Esposa, pai, filho e mãe,
Quando pode ser resolvido
Saiba que eu darei o dobro
Da quantia que pedir,
Assim não atrapalhando
Pra onde você quer ir
Ficando em paz Mossoró
Sem nada se destruir.

Diante do acordo proposto pelo prefeito, como visto no cordel, percebe-se, então, sua façanha para se tornar um “representante popular”. De fato, ele engana Lampião, pois desde o começo o prefeito se prepara para verdadeiramente enfrentá-lo, armando assim uma cilada para o líder cangaceiro e seu bando, como narra o cordel.

O mito possibilita a um episódio histórico, como é o caso do ataque do bando de Lampião à cidade, a oportunidade e mesmo a capacidade de reinventar-se. É importante destacar que o “real fato” adquire muitas formas de ser recontado. No entanto, os novos elementos acrescentados no cordel servem de retroalimentação para o mito, fazendo com que, ainda que tenha sido repetido inúmeras vezes, se torne novo a cada exposição.

No caso do cordel: “O Ataque de Mossoró ao Bando de Lampião”, a história começa no inferno, onde houve um festival para premiar os que cantavam melhor. Lampião foi um dos ganhadores e teve como prêmio um passe para viajar por todo canto do inferno, mas o ganhador preferiu utilizá-lo para viajar para o Nordeste do Brasil, especificamente Mossoró, onde se desenrola toda a história de invasão, um pouco diferente da que já conhecemos:



Esqueça de Mossoró,
Por favor, você não vá
A gente vê o perigo
Daquelas bandas de lá,
Pelos semblantes das almas,
Que vêm correndo pra cá.
Lampião responde: - Vou,
Amanhã eu partirei.
Eu não vou gastar aqui
O prêmio que eu ganhei,
Enquanto Mossoró zomba
Da carreira qu’eu levei.

E assim se dá um novo combate entre Lampião e Mossoró. E nem mesmo nessa nova chance Lampião consegue obter vingança. Mais uma vez Mossoró sai vitoriosa e deixa maculada a fama de um herói popular. De acordo com a tradição oral, o que se vê, é que um único episódio tem gerado um número diverso de versões. O ocorrido se deu há quase um século e novos episódios continuam sendo recriados, por variação, adição, inovação. É o que se notabiliza no cordel de Antônio Francisco.

No cordel “O ataque de Mossoró ao bando de Lampião” é possível perceber uma série de modificações no contexto da história, a começar pelo título, pois neste caso não é o bando de Lampião que faz o ataque e sim a cidade de Mossoró. A história se passa no inferno onde acontece um festival com intuito de premiar os que cantam melhor. Lampião apresenta seus dotes artísticos cantando mulher rendeira, obtém bom desempenho e ganha assim um passe para viajar para qualquer parte do inferno, mas prefere ir a Mossoró, de onde é novamente expulso.



E foi Lula3quem me disse,
Que tinha achado um caderno,
Que tinha a data marcada,
Muito antes do inverno
Sobre um evento que houve
Em um dos palcos do inferno.
Um evento musical
Chamado, Canta vem-vem
Que busca prestigiar
Os valores que eles têm,
Dando prêmios e mais prêmios,
Pras almas que cantam bem.
Lampião foi o primeiro
Cantando “Mulher Rendeira”,
O segundo, Cão sem dedo,
O inventor da soqueira,
Que ganhou cantando a música:
Bagaço de fim de feira.
A Lampião eles deram
Um passe pra viajar,
Por todo canto do inferno,
Mas se quisesse arriscar,
Podia vir pro Nordeste,
Tomar cachaça e brincar.

Na disputa contra a cidade de Mossoró, Lampião não conseguiu vencer sua condição de oprimido:



Quando o dia ia morrendo,
Todo coberto de pó,
Passou lá no Jucuri,
E disse a Zé Mororó,
Que estava muito enjoado,
Aborrecido e cansado,
De correr de Mossoró.

Antônio Francisco (s/d) faz Lampião retornar do inferno para a cidade de Mossoró, onde encontra uma realidade calamitosa, peões da Petrobrás, meninos de rua, desrespeito no trânsito, carnaval fora de época, cordão de isolamento, uma banda da Bahia cantando “Che bom bom bom”, discriminação e violência racial, poluição e destruição do rio Mossoró, e tamanha violência, a ponto de o próprio Virgulino ser assaltado. De fato, os problemas apontados pelo poeta estão presentes no cotidiano da cidade, os dados estatísticos e as pesquisas antropológicas têm confirmado o crescente índice de violência em Mossoró e do número de acidentes no trânsito.

De acordo as fontes de folhetos e baladas Erick Hobsbawn (1976) afirma que Lampião pode ser considerado um herói bandido, o mesmo tipo que teria em Robin Hood um paradigma internacional. Segundo o historiador, o banditismo social emerge de realidades históricas que enfrentam problemas de pauperismo e crise econômica, mas também na literatura, como símbolo contra forças opressoras. De modo geral, o banditismo social corresponde aos dramas vividos por sociedades camponesas ou semi rurais. Assim o autor descreve a sua compreensão sobre esses heróis bandidos:

“(...) são proscritos rurais, encarados como criminosos, pelo senhor e pelo Estado, mas que continuam a fazer parte da sociedade camponesa e são considerados por sua gente como heróis e como campeões, vingadores, paladinos da justiça, talvez até como líderes da libertação (...)” (HOBSBAWN, 1976, p.11)

De fato, o contexto histórico em que surge o cangaço, e de forma eminente o cangaceiro Lampião, resultou das tensões econômicas e políticas que marcaram a ruptura entre o nordeste agrícola tradicional e a nova ordem capitalista (CHANDLER, 1980). Porém, as concepções de Hobsbawn (1976) sobre o bandido social não são apenas reflexos da realidade, não se baseiam exclusivamente em atos verídicos, mas principalmente nas concepções populares através de cantadores e contadores de histórias que deixam em seus poemas “causos” que servirão para as gerações futuras. Outrossim, podemos considerar esse herói como mito e realidade ao mesmo tempo.

Apesar de herói, Lampião não era um herói bom. Seus atos atrozes causavam terror pelos sertões. No entanto, há uma necessidade de que ele seja constantemente lembrado. Erick Hobsbawn (1976) afirma que essa necessidade advém de certo ato de protesto, por meio do qual os fracos e pobres provam que podem ser terríveis e que recusam a dobrar a cerviz diante de uma realidade de opressão.

É bem verdade que Lampião é lembrado por seus atos terríveis. Mas atualmente há uma tendência de serem esquecidos os horrores que acompanharam sua carreira enquanto bandido social. E não faltam as boas descrições sobre sua personalidade, de ser um homem de fé, devoto do Padre Cícero, um homem de palavra, que calculadamente sempre cumpriu o seu prometido. Porém, o dado que revela a força social que promove Lampião como rebelde, um bandido com consciência social, é bastante revelador no contexto da nossa pesquisa.

O teatro: Uma chuva de símbolos

Para além da análise dos cordéis acima descritos, buscamos entender como o domínio do simbólico, presente no espetáculo teatral Chuva de Bala no país de Mossoró, apresenta-se no imaginário local como forma de imaginação política. A partir de análises da mitologia comparada e da forma como foi construído o texto do espetáculo, buscamos encontrar semelhanças entre mitos de diferentes culturas, a fim de esclarecer toda a simbologia do mito e o seu papel de sustentação e comoção perante a sociedade, como também seu papel de dominação efetiva, que graças a uma estrutura complexa do imaginário e ao tecido simbólico do mito, pode intervir de diversas formas na vida da população.

Para isso, partimos de hipóteses que consideram a narrativa presente no espetáculo teatral, uma forma de legitimação que busca justificar e validar o sistema político local, com o intuito de introduzir valores e modelar as condutas individuais e coletivas. Relacionamos o material bibliográfico ligado ao tema estudado com os recursos adquiridos a partir de filmagens, gravações de áudio e imagens capturadas durante o espetáculo encenado no ano de 2018, além de contar com o texto original da peça, fornecido pela Secretaria da Cultura da cidade de Mossoró. Após estudos e análises detalhadas de todo o material foi possível perceber a semelhança entre a jornada do herói mitológico e a vida diária dos cidadãos dessa cidade. A partir dessa pesquisa, constatamos que este mito é muito importante não apenas para a história da cidade, como também, para compor a história de seus cidadãos.

O espetáculo encenado todos os anos no período das festas juninas, tem como principal objetivo fazer a população mossoroense recordar sua história de resistência diante de Lampião e seu bando, a fim de exaltar o orgulho local e estabelecer os parâmetros para a territorialidade de “um país”, o País de Mossoró, um lugar com regras próprias que submeteu até Lampião ao seu domínio.

Segundo Gilbert Durand o mito é “um sistema dinâmico de símbolos, de arquétipos e de esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema, tende a se compor em narrativa” (DURAND, 2002, p.45), porém esta definição não esclarece seu verdadeiro significado social. De acordo com Mircea Eliade, o mito é “uma narrativa exemplar” que integra elementos fundadores como divindades, atributos numênicos, arquétipos e que percebe e determina, ao mesmo tempo, a organização do mundo e do lugar do homem no mundo. Esta narrativa não é somente unívoca narrativa etiológica, mas tem vontade de ser multívoca, o que lhe dá seu aspecto “metalinguístico” e redundante, termo último utilizado por Claude Lévi-Strauss (2008). É necessário reconhecer que graças a ele, devemos restituir ao estruturalismo o que há de mais fecundo na sua exploração do mito. De fato, será ele quem apontará a qualidade essencial do sermo mythicus, isto é, da redundância. Como o mito não é nem um discurso para demonstrar nem uma narrativa para mostrar, deve servir-se das instâncias de persuasão indicadas pelas variações simbólicas sobre um tema.

Desse modo, podemos aplicar o pensamento de Durand ao espetáculo para tentarmos encontrar seus elementos simbólicos. Conforme observação de campo, no início do espetáculo entra um grupo de atores fantasiados com guarda-chuvas fazendo encenações, do meio do grupo sai uma atriz cantando, dando início a apresentação.

1ª Música:

Um olhar dela e rasgam-se as pupilas da história, num sacolejo e abrem-se as comportas da vitória para passagem de nossos heróis, para passagem de nossos heróis. Um borbotão de heróis silenciados, que por si calados habitantes do passado, mas presentes em nós, mas presentes em nós (2x)

No fim do primeiro musical, quando o grupo de atores está saindo de cena, surgem do meio deles três palhaços que irão “narrar” a história da invasão. Assim, percebemos vários elementos repetitivos, já na introdução do espetáculo, a presença da música transforma o ato em rito e conclama os heróis, presentes na maior parte dos mitos, bem como a passagem da história como apelo de veracidade para personagens transfigurados.

No caso do espetáculo Chuva de Bala no país de Mossoró, a partir de uma análise demonstrativa, é possível afirmar que o mito está presente, pois ele é fruto de uma construção arquetípica coletiva, onde não apenas os personagens heróicos daquela época são lembrados, como também a própria população atual, pois esta possui uma função muito importante que é transmitir para as novas gerações toda a história de sua cidade, sempre lembrando que apesar desses heróis não estarem mais vivos estarão sempre “presente em nós”, como é sempre repetido em algumas canções durante a apresentação. O que existe dentro do mito é uma relação entre a estrutura heróica e a música, onde estas se assemelham a partir dos conjuntos de esquemas, de arquétipos, de imagens e de agrupamento de imagens.

De acordo com a simbiose presente no mito, percebemos que a utilização da palavra heróis diz respeito, aqui, não apenas aos personagens marcantes deste evento histórico, como o prefeito Rodolfo Fernandes e Lampião, mas a quem estes representam. Por exemplo, no caso do prefeito, ele representa os cidadãos em ascensão da cidade, como homem que não permitia ser desmoralizado por ninguém, e assim, pretendia representar toda a cidade, onde, afinal, ele era o prefeito e necessitava do apoio da população para enfrentar a ameaça contra este crescimento econômico. Já Lampião, como um “cabra da peste”, não podia recusar um desafio, pois tinha um nome a zelar, um povo para defender sua honra e sobrevivência, seja qual fossem os meios, ele e seu bando de cangaceiros também eram exemplos para os nordestinos que compunham a outra face da história, homens sem nenhuma promessa de ascensão.

No caso do espetáculo Chuva de Bala no país de Mossoró, logo na primeira música, se relembra não apenas a luta dos heróis da resistência, mas a forma como estes lutaram para garantir um futuro melhor para a geração que ainda viria. A música lembra que a geração futura também pode ser definida como “heróis da resistência”, pois são descendentes daqueles que lutaram contra Lampião e a favor de uma cidade vitoriosa e, dessa forma, os induz a não se acomodarem, nos dias atuais, por dias menos violentos e pela liberdade que seus antepassados conquistaram.

A segunda música, cantada pelos heróis da resistência, relata as virtudes da cidade, cantadas como a terra do sal, “guardiã da liberdade” e terra vitoriosa por ter enfrentado o bando de Lampião. Demonstrando que antes de tal confronto a cidade não apresentava nenhuma dificuldade que precisasse ser transposta e a elevasse a outro patamar. Este é o mito de origem, a grande dificuldade. Essa parte da história diz respeito, atualmente, aos obstáculos que surgem no caminho e que precisam ser superados, é a jornada diária que a população enfrenta para se alcançar a recompensa.

2ª Música

Refúgio em pedra viva / Castelo erguido em sal / História altiva de orgulho frente ao mal / Guardiã da liberdade

Teu nome é Mossoró!.

Já a terceira música mostra o incentivo, por parte da população, ao prefeito diante do surgimento deste desafio, onde seus cidadãos declaram com confiança a luta pela liberdade de outrora, pois contam com o apoio da igreja e da padroeira. Embora nem todos os indivíduos acreditem em auxílios mágicos, estes surgem de formas variadas, e nessa jornada toda ajuda é bem vinda, atualmente até um sábio conselho pode ser considerado uma ajuda.

3ª Música

Arrocha Prefeito. Agora a coisa vai.

Quero ver esse cego maluco dominar a terra de Santa Luzia.

Já na quarta música, cantada por Lampião e seus cangaceiros, é revelada a crueldade das ações desse bando, mostrando que não se importava com nada e com ninguém e que, segundo eles, não havia nada que os impedissem, pois eles faziam o que bem quisessem.

A virtude desses heróis era transformar algo que parecesse impossível de se realizar em algo possível. É o que de fato ocorre com o herói em sua jornada, quando se há foco, não existe ninguém quem o impeça, essa é uma das lições que se pode tirar desse herói, perseverança.

4ª Música

Alguém pra bater em mim

Não nasceu nem nascerá

Se nasceu não se criou

Se se criou levou fim

Alguém pra bater em mim Neste terreiro não há

Com a benção de meu Padim

Eu já fiz bala chover, estrela correr, o tempo parar, matei por matar, só pra ver morrer,

E fazer sol quente esfriar!” (2x)

Na quinta música é iniciada uma espécie de batalha musical, cantada de início pelo prefeito da época e os cidadãos, seguido de palavras desafiadoras de Lampião e seu bando. Enquanto o prefeito fala que a cidade não vai se submeter aos cangaceiros, pois ela está unida e pronta para lutar contando com o apoio da padroeira da cidade, Lampião reclama da astúcia do oponente em subestimá-lo ao mesmo tempo em que o ameaça dizendo que não vai ter piedade com a cidade que tanto preza. Uma interpretação embasada na definição do mito de origem e na trajetória do herói.

5ª Música

PREFEITO: Já me decidi. Vamos enfrentar! Vamos nos unir, na luta! Essa corja aqui, não vai por os pés, nem ferir o nosso orgulho.

TODOS: Nossa história, honraremos. Nossa Santa, há de olhar, por nós! PREFEITO: E ao nos libertar, essa liberdade há de iluminar para sempre Mossoró!

LAMPIÃO: Coronel, considero que pedi muito pouco. Se contar que Mossoró vai ficar nessa paz que o senhor ajuda a manter... Coronel, eu não sei o que é que deu em você. Desfeitear um cabra assim como eu, que usa a força como quer!

BANDO: Virgulino Lampião!!!

LAMPIÃO: Me permita, mas eu devo insistir, me permita. Ninguém vai fazer de mim um pateta. Se a cidade acha que vai me deter é melhor se segurar. Porquê a bala vai troar e você nem vai sentir, quando o furacão passar por você e arrasar! DUETO: (repete tudo).

Além das imagens e dos textos recortados, devemos lembrar que o espetáculo traz muito jogo de luz, de som, de imagens em movimento, tiros, melodias, textos cantados, textos falados. Tudo isso oferece uma estrutura simbólica completa de elementos mitológicos que comove a cidade. A partir de todos esses elementos, podemos perceber que o espetáculo foi feito para emocionar, assim como o mito, ambos falam pela linguagem da emoção, da simbiose, dizem respeito aos nossos temores e a esperança de encontrar respostas. Assim como o mito, o espetáculo tenta preencher as brechas deixadas pela razão e pela interrogação presente no dia a dia dos mossoroenses.

De acordo com Backzo, “a mitologia que nasce a partir de determinado acontecimento sobreleva em importância o próprio acontecimento” (BACZKO, 1985, p. 296). É o que ocorre nesse espetáculo, o mito dos heróis passou a ganhar mais ênfase do que a própria história da cidade, daí quando a história é encenada e “vivida de modo nostálgico”, cresce ainda mais o simbolismo presente no mito, maior do que o valor histórico que a apresentação carrega.

Dessa forma, o conjunto desses instrumentos simbólicos presentes no espetáculo funciona para instigar o sentimento de nostalgia, fazendo com que os seus espectadores, “revivam”, como diz Mircea Eliade, a época primordial da invasão de Lampião a esta cidade, trazendo consigo todos os efeitos fictícios possíveis que contribuem para tornar esta apresentação o mais aproximado do imaginário, instigando a recriar o real com toda sua carga inaceitável.

Notícias de um povo bravio

Uma parte fundamental em nossa pesquisa foi a coleta de dados nos jornais impressos e de circulação diária na cidade em busca de matérias sobre o espetáculo Chuva de Balas no País de Mossoró, ou que mencionassem Lampião. Primeiro visitamos o acervo do jornal Gazeta do Oeste, localizado em sua antiga sede, local de seu acervo. Fizemos um recorte temporal de dez anos, contemplando de 1987 a 1997 e priorizamos os meses de maio a julho por sua proximidade com o acontecimento do espetáculo. As notícias que julgamos relevantes foram fotografadas para posteriormente receberem uma análise mais aprofundada. O mesmo procedimento foi feito no museu Lauro da Escóssia, onde se encontra o acervo do jornal O Mossoroense.

Segundo Martinez (2008) a gênese dos processos de comunicação – especialmente do jornalismo – passa por uma apropriação da oralidade ou de textos existentes oriundos das memórias mais corriqueiras, das míticas e dos mitos criados em um âmbito popular. É importante entender como se constrói as características do imaginário social e como isso pode ser repercutido pelas diferentes narrativas. Assim, é perceptível a influência dos mitos na cultura, nos costumes e nas tradições orais de uma coletividade. O que iremos descortinar é o reflexo do mito da invasão de Lampião na imprensa, e mais como a imprensa se apropria dos mitos presentes no Imaginário Social local e como essa apropriação está presente nos jogos políticos.

A apropriação sobre o mito feita pela imprensa, em favor de determinado grupo político, pode vir de formas mais explícita, tal quando se enaltece a bravura das pessoas da terra, e posteriormente enfatiza-se a territorialidade de determinado político atribuindo-lhe uma intrepidez ancestral. Entretanto é possível fazer uso do mito de formas mais sutis. A seguir um trecho retirado do jornal Gazeta do Oeste de junho de 1995, que fala sobre uma visita de José Agripino, um importante político no Estado:

O Senador chegará à cidade num instante em que seu grupo político apresenta-se esfacelado. Fiéis escudeiros do agripinismo debandearam-se para o esquema situacionista, hoje liderado no Estado pelo governador Garibaldi Filho. (Gazeta do Oeste, 15 de Junho de 1995).

Os termos utilizados na citação acima são similares a termos usados em outras reportagens referentes ao cangaço, por exemplo; “grupo político” como “grupo de cangaceiros”, “fieis escudeiros do agripinismo” como “fieis escudeiros do cangaço” que “debandearam-se”, como ocorreu com o bando de Lampião. Nota-se que aqui “agripinismo” é utilizado como um sistema, assim facilmente se assemelha ao sistema cangaço que denomina o modo de viver de um grupo.

Segundo Gilbert Durand (1996, p.246) “o mito repete e repete-se para impregnar, isto é, persuadir.” Sendo assim, podemos entender porque a cada ano renovam-se as histórias sobre Lampião e seu bando, e a importância de apresentar o corajoso prefeito Rodolfo Fernandes que liderou a defesa à cidade de Mossoró.

Baczko (1985), afirma que todo esse conjunto de instrumentos é fruto da associação entre a imaginação e a política, o imaginário e o social, onde “estas associações e os problemas que elas traduzem têm feito uma carreira rápida e brilhante, quer nos discursos políticos e ideológicos, quer-nos das ciências humanas”. (BACZKO, 1985, p. 291). Os meios de comunicação de massa, por sua vez, contribuem de maneira particular para a inflação destes termos, pois

não param de repetir que é preciso imaginação social para controlar o futuro, para enfrentar problemas e conflitos inéditos, para se adaptar ao ‘choque do futuro’, etc. Os atores políticos, em especial os ‘chefes’, são julgados não só pelas suas competências, mas também pela imaginação. (BACZKO, 1985, p. 296).

É possível perceber relação de mitos populares com as mídias na publicação do mês de junho do Jornal O Mossoroense, do ano de 1990. A peça publicitária foi feita pela Câmara dos Vereadores de Mossoró, que possui o nome do antigo prefeito da cidade, um dos protagonistas do confronto entre o bando de Lampião e a população de Mossoró. A Câmara Municipal Rodolfo Fernandes demonstra o interesse simbólico em possuir o nome de uma das figuras mais icônicas na cultura de Mossoró, assemelhando-se ao que Matinez (2008) compreende como uma tentativa de usar a memória e converter o que deveria ser um acontecimento passageiro em um símbolo eterno, ou se apropriar de algo que já está na memória de forma mais permanente, cristalizá-lo e/ou promover-se usando essa mítica.

“Nossa casa, para honra nossa, tem o seu nome. Nossas tradições se coadunam com a sua vida. Vida de trabalho, honestidade, coragem e bravura na defesa dos interesses da terra comum.” (O Mossoroense, 15 de junho de 1990). Observando o fragmento da peça publicitária, podemos perceber uma semelhança com o que Baczko (1985) afirma que quando se pretende ter um domínio do poder político, é preciso saber as nuances do imaginário e seus impactos dentro de uma coletividade:

O exercício do poder, sobretudo do poder político, passa, pelo imaginário coletivo. Exercer um poder simbólico não é, de forma alguma, acrescentar um caráter ilusório a um poder “real”, mas desdobrar e reforçar uma dominação efetiva pela apropriação dos símbolos, pela conjugação das relações de sentido e de potência. (BACZKO, 1985, p.10)

É perceptível o uso dos símbolos e das potências, pois, quando é dito que ambos possuem o mesmo nome e que as tradições se coadunam com a vida da figura pública, há um uso da imagem social do ex-prefeito Rodolfo Fernandes, com a intenção de que os atributos ditos a ele possam ser transferidos aos políticos da Câmara Municipal.

“O prefeito Rodolfo Fernandes disse não a Lampião e edificou a defesa da cidade. Resistiu, lutou e venceu. A câmara municipal de Mossoró dizendo não a estagnação, condenando a inoperância, a ineficácia diz sim ao progresso, ao desenvolvimento.” (Gazeta do Oeste, 20 de junho de 1992). Nesse outro trecho, a nota de imprensa novamente se apropria da figura mítica do ex-prefeito, só que dessa vez são seus feitos, sejam eles mínimos ou não, estão marcados dentro da história (oral e escrita) de Mossoró, e quando comparado à postura dos vereadores da Câmara, simbolicamente há uma associação de Rodolfo aos Vereadores. Há um interesse da Câmara criar uma relação com o ex-prefeito de Mossoró, pois segundo Matinez (2008) o mito está muito mais próximo do “homem comum” do que de uma dita “nobreza”, e os vereadores se beneficiam muito dessa conexão com o popular.

Essa busca do estreitamento entre o leitor (o homem comum) com os acontecimentos se dá através do trabalho da imprensa, dentre as formas de narrativa, as mídias possuem uma enorme semelhança com a oralidade. No texto O Voto e a Resistência, publicado em 20 de junho de 1992 no Jornal Gazeta do Oeste, o advogado e jornalista Elder Heronildes reforça – e busca essa afinidade com os moradores da cidade – mostrando todas as conquistas do povo mossoroense, que inclui o motim das mulheres, o primeiro voto feminino, a libertação dos escravos, e por fim o autor aponta que o principal deles é a resistência ao bando de Lampião.

Em seu texto, Elder fala sobre toda a força do povo de Mossoró que não tem medo e enfrenta com bravura as adversidades e as dificuldades. O autor exacerba características não só das pessoas, mas cria uma mítica em torno da própria cidade, de sua força quase como um ser, com personalidade própria. “Perpetuando-a não só como uma cidade carregada de pioneirismo, mas de arraigado e profundo sentimento de heroísmo, civilismo, amor e liberdade” (Gazeta do Oeste, 20 de junho de 1992). No trecho, fica claro a força mítica que a imprensa apresenta da cidade Mossoró, tentando torná-la especial em relação as outras cidades.

Em nota no jornal O Mossoroense, em 6 de junho de 1991, do jornalista Emery Costa fala sobre os acontecimentos de 1927. Nesse texto, o autor comenta a possível falta de veracidade nos fatos pertencentes ao imaginário da cidade de Mossoró. O fato é que existe uma força que os acontecimentos envolvendo Lampião possuem dentro da cultura mossorense, pois a todo momento a mesma se apropria para, de algum modo, tirar vantagens do “mito”, ou renega-lo. Emery Costa afirma o feito como “Coisa que se deu há pouco mais de meio século, mas uma história até hoje muito mal contada, ou contada pela metade”. (O Mossoroense, 6 de junho de 1991). O autor de modo simples e breve tenta descontruir a lenda popular estabelecida pela recontagem constante dessa história.

É possível entender o porquê da desvalorização dos acontecimentos, pois, também foi publicado na mesma coluna um texto que critica a prefeita da época, que preferiu desenvolver uma festa junina de maiores proporções ao invés da organização do carnaval. Apesar de haver laços familiares, os proprietários do Jornal O Mossoroense são adversários políticos de Rosalba Ciarlini (prefeita na ocasião) e criticam sua opção pelas festas juninas em Mossoró seguindo os modelos de cidades como Caruaru-PE e Campina Grande-PB.

As festas juninas de Mossoró que na época eram de proporções mais reduzidas e restritas, foram transformadas pela prefeita em um dos maiores eventos, por isso que o título do texto usa a palavra “autopromoção”, porque quando a prefeita decide realizar as festas juninas e associá-la ao aniversário da resistência ao bando de lampião, e toda a temática da festa nordestina.

Por isso que o mesmo jornalista que critica a falta de fatos no acontecimento de 1927, fala sobre os novos projetos da prefeita, aparentemente, uma tentativa de desvalorizar o acontecimento que supostamente será usado de forma simbólica para a “autopromoção” do governo municipal, além dos discursos associarem a imagem de Rosalba a dos combatentes contra Lampião. Gilbert Durand (1996) em seu texto Passo a Passo Mitocrítico diz que as relações com mito nem sempre estão à mostra de uma maneira mais evidente, o poder do mito às vezes está latente, e associação com o mesmo pode ser de maneira inconsciente.

Considerações finais

Já se passaram mais de 80 anos desde o acontecimento e o mesmo continua sendo relembrado, não somente pela população, mas recontado anualmente na maior festa comemorativa da cidade, que é um espetáculo teatral em espaço aberto Chuva de bala no país de Mossoró que compõe a programação do Mossoró Cidade Junina; está constantemente presente em um espaço memorial que celebra a resistência ao bando de Lampião; nas propagandas turísticas, nas escolas e, graciosamente, na literatura de cordel. No entanto, os resultados da nossa pesquisa apontam que o nome de Lampião se prestou para tornar ouvida uma denúncia, uma revolta popular.

Através da materialidade dos folhetos de cordel, aquilo que era dito passou a ser registrado, mantendo-se gravado por meio da escrita. O cordel passando de mão em mão, se revela com a principal característica presente na voz, a de perpetuar-se. Com o passar dos anos e a perda das reais personagens − pessoas que por terem vivido os fatos, contavam sua versão dos acontecimentos −, inúmeros elementos fictícios são agregados, mitificando as histórias. Este é também um meio para que algumas críticas e questionamentos sejam feitos, permitindo que o leitor, tomando conhecimento de diferentes versões, tire suas próprias conclusões.

Relacionando o estudo dos mitos de origens e dessa narrativa mítica presente no espetáculo, este nos revela que o evento histórico ocorrido há 80 anos acabou por fundar uma nova Mossoró, que deixa de pertencer e de existir apenas no imaginário coletivo local para se tornar uma história cultural, onde seus arquétipos se ligam não apenas a sua própria história, mas aos arquétipos universais, e com isso, trazendo reconhecimento para a cidade. Dessa forma, pode-se observar que existe duas Mossorós, sendo uma: pacata, com cidadãos comuns e sem reconhecimento, e outra: valente, com cidadãos persistentes, considerada por muitos um refúgio e reconhecida por sua bravura.

A ideia que fica é de que lampião foi um herói que lutou bravamente por justiça social. Percebemos que esta versão de defesa do cangaceiro, também contribui para sustentar o mito. Joseph Campbell (1990) formula que quanto mais forte for o bandido, mais importância terá o feito do herói que lhe vencer, dessa forma fica evidente a importância de reavivar na memória da população o quanto Lampião e seu bando eram perigosos, pois só assim as gerações atuais podem entender o valor desta vitória e a bravura de seus antepassados que também deve ser importada como sua.

A passagem do bando de Lampião em Mossoró nunca foi esquecida, e embora existam versões distintas sobre como os fatos realmente aconteceram, na imprensa local fica evidente o enaltecimento à cidade, e o lembrete de que Mossoró é terra de pessoas que resistem a qualquer sacrifício. O mérito de ser mossoroense é relembrado a cada ano nas notícias que se repetem quando aproxima-se a data do acontecimento. Nessa época do ano, tornam-se comuns nos jornais referências à narrativa mítica, que podem ser utilizadas em propagandas corriqueiras, reportagens sobre crimes e, principalmente, em noticias políticas, de maneira que meche com o inconsciente da população, podendo influenciar em suas opiniões.

Utilizando reportagens da imprensa local, específicas sobre a temática, buscamos apresentar argumentos para a compreensão da importância de um mito na vida pública e de que forma este pode ser utilizado em favor do jogo político. Na análise de matérias foi possível perceber a ligação que se faz entre os acontecimentos do passado e a atualidade, em alguns momentos sutilezas como palavras e terminologias em comum afloram sensações que são convenientemente empregadas por quem tem o poder do texto. Um mito é de certo um poderoso meio para manipulação do inconsciente coletivo, neste trabalho trazemos argumentos para confirmar que sua força continua presente na cidade de Mossoró.

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Notas

3 Aqui o poeta refere-se a um contador de “causos” que haveria lhe repassado essa história.


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