Artigos e ensaios

Os ex-votos como mídias na transmissão e na preservação da memória social

The ex-votos as media in the transmission and in the preservation of social memory

Los ex-votos como medio en la transmisión y presevación de la memoria social

Magali do Nascimento Cunha
Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da INTERCOM, Brasil
Luis Erlin Gomes Gordo
, Brasil

Os ex-votos como mídias na transmissão e na preservação da memória social

Revista Internacional de Folkcomunicação, vol. 19, núm. 42, pp. 219-240, 2021

Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepción: 28/09/2020

Aprobación: 04/04/2021

Resumo: Este artigo, de caráter teórico, baseado em pesquisa bibliográfica, assentada nos estudos em Folkcomunicação, com as teorias de Luiz Beltrão, e na noção de memória cultural religiosa, com as ênfases defendidas por Jan Assmann, atenta para o caráter comunicativo da memória religiosa que abrange a articulação de experiências vividas e aprendizagens transmitidas. Destaque é dado ao lugar dos ex-votos, uma prática comum a vários grupos religiosos, de agradecimento por uma graça divina alcançada, interpretados aqui como veículos de transmissão e preservação da memória de uma localidade e de uma época. No trajeto metodológico é elaborada uma aplicação, por meio da apresentação da ampliação das tipologias utilizadas nos estudos de Folkcomunicação, proposta em tese de doutorado defendida por um dos autores deste estudo, como a indicação das possíveis formas de transmissão e preservação da memória social em cada tipo de ex-votos.

Palavras-chave: Memória cultural religiosa, Folkcomunicação, Ex-votos.

Abstract: This article, of a theoretical nature, based on a bibliographical research, grounded on the studies in Folkcommunication, with the theories of Luiz Beltrão, and on the notion of religious cultural memory, with the emphasis defended by Jan Assmann, puts attention to the communicative character of the religious memory that encompasses the articulation of lived experiences and transmitted learning. The ex-votos are highlighted in the study, a common practice of various religious groups, of thanks for a divine grace achieved, interpreted here as vehicles of transmission and preservation of the memory of a locality and an time. In the methodological course, an application is elaborated, through the presentation of the extension of the typologies used in the studies of Folkcommunication, proposed in a doctoral dissertation defended by one of the authors of this study, as the indication of possible forms of transmission and preservation of social memory in each type of ex-votos.

Keywords: Religious cultural memory, Folkcommunication, Ex-votos.

Resumen: Este artigo teórico, basado en la investigación bibliográfica, referenciado en los estudios en Comunicación Popular, con las teorías de Luiz Beltrão, y en la noción de memoria cultural religiosa, con los énfasis defendidos por Jan Assmann, es atento al carácter comunicativo de la memoria. que engloba la articulación de experiencias vividas y aprendizajes transmitidos. Se destaca en el lugar de los exvotos, práctica común a diversos grupos religiosos, en agradecimiento por una gracia divina lograda, interpretada aquí como vehículos para transmitir y conservar la memoria de un lugar y un tiempo. En el camino metodológico, se elabora una aplicación, mediante la presentación de la ampliación de las tipologías utilizadas en los estudios de Comunicación Popular, propuesta en una tesis doctoral defendida por uno de los autores de este estudio, como indicación de las posibles vías de transmisión y preservación de la memoria social en cada tipo de exvotos.

Palabras clave: Memoria cultural religiosa, Comunicación popular, Exvotos.

Introdução

A noção de "memória" é objeto de diferentes abordagens, sendo abrangida de variadas formas, que podem relacionar-se ao ponto de vista psíquico e cognitivo das memórias individuais, ao do tempo e da história das memórias coletivas, como também da mecânica e da cibernética das memórias eletrônicas.

O processo da memória revela-se bastante complexo, não como um simples ato mental ou cerebral. As palavras usadas comumente para descrever a memória - recordar, lembrar, evocar, reconhecer, registrar, comemorar - mostram que este conceito pode incluir variadas noções, desde uma sensação mental, individual, até uma cerimônia pública. Neste estudo privilegiamos o conceito de memória que, para além do fenômeno individual e psicológico, a compreende como um dado social tal como é abordado nas ciências humanas (em especial na Filosofia, na Sociologia e na História) (HALBWACHS, 1990; FRENTRESS, WHICKAM, 1992).

Nesse sentido, ao se dedicar à interface “memória, comunicação e religiões”, este trabalho, de caráter teórico, baseado em pesquisa bibliográfica, assentada nos estudos em Folkcomunicação (BELTRÃO, 1965, 1980; GOMES GORDO, 2015) e na noção de memória cultural religiosa (ASSMANN, 2006) atenta para o caráter comunicativo da memória religiosa que abrange a articulação de experiências vividas e aprendizagens transmitidas. Destaque será dado ao lugar dos ex-votos, uma prática comum a vários grupos religiosos, interpretados como veículos de transmissão e preservação da memória de uma localidade e de uma época.

No trajeto metodológico é elaborada uma aplicação, por meio da apresentação da ampliação das tipologias utilizadas nos estudos de Folkcomunicação, proposta em tese de doutorado defendida por um dos autores deste estudo, como a indicação das possíveis formas de transmissão e preservação da memória social em cada tipo de ex-votos.

Ex-votos como comunicação

O conceito de ex-voto pode ser facilmente compreendido pela etimologia do termo. Estamos diante de duas palavras latinas “Ex” e “Votum”, que foram unidas para especificar uma prática votiva na antiga Roma. Votum é proveniente do particípio do passado do verbo latino voveo/ vovere – que também significa “voto / promessa”, “prometer algo a alguém”. Significa, portanto, uma promessa ou voto feito a uma divindade. Este termo foi criado pelos romanos para identificar as promessas que eram feitas aos deuses. Importa ressaltar que a palavra nasce com um cunho estritamente religioso.

Com o passar do tempo essa expressão tipicamente religiosa foi ganhando outras conotações em seu emprego. No tempo do Império Romano, era comum que os soldados fizessem voto de obediência aos seus superiores. Os súditos faziam voto ao Imperador – prometendo fidelidade. Com isso, entendemos a aplicação corriqueira da palavra voto em nossos dias. Votar é dedicar à confiança em algum candidato.

Na concepção religiosa, independente da crença, constata-se o “contrato” que o fiel busca estabelecer com suas divindades:

No caso religioso, existem vários tipos de votos feitos pelos fiéis ao divino. O voto expressa que estamos sob a tutela de algum ser que no nosso entender, ou do fiel, é maior do que nós. Faz-se um voto ou uma promessa por vários motivos, um deles é o enriquecimento espiritual na busca de perfeição, as pessoas que creem desejam que seus pecados, ou aquilo que os separa da divindade seja atenuado, por isso fazem votos de serem pessoas melhores, de viverem essa ou aquela virtude. Também se fazem votos na busca de cura dos males físicos, doenças e enfermidades. Outra forma de voto é o pedido de proteção divina.

O voto sempre pressupõe uma resposta do fiel para com a benevolência do sagrado, ou seja, sempre é acompanhado de uma promessa: “se eu receber isso, eu faço aquilo”. Seria quase que uma “barganha” espiritual. (GOMES GORDO, 2015, p. 31).

A palavra voto, no sentido religioso, foi empregada, então, pela Igreja católica romana para designar a consagração religiosa de pessoas que buscam viver a configuração com Cristo. Os religiosos emitem votos de pobreza, castidade e obediência. Percebemos com isso, que apesar das muitas formas de ser empregada, a essência da palavra permanece, como um “contrato”. Com o ex-voto esta concepção de “contrato” é salientada.

O prefixo “ex”, também de origem latina significa “pôr para fora”. Dessa forma, é compreensível a real definição de ex-voto, como cumprimento externo, por parte do devoto, do contrato estabelecido com o sagrado. O ex-voto é o cumprimento da promessa. Quando o fiel faz um voto a uma divindade ele faz um contrato de cumprimento, caso a divindade faça sua parte em atendê-lo. Depois de alcançar a graça, por intermédio da divindade de sua devoção, o devoto cumpre a sua parte no acordo, que é externar o agradecimento.

O acordo é firmado pela fé, e mesmo que tenha sido feito em segredo (entre ele e a divindade), mesmo que ninguém saiba desse acordo, o fiel sabe. E não é qualquer acordo, pois a promessa não poderá ser quebrada, o prometido foi feito para “alguém” que têm poderes superiores sobre ele.

O acordo brota da fé daquele que quer receber a graça com aquele que pode dar a graça, por isso a promessa quase sempre é um segredo que o fiel guarda para si, em seu íntimo. Quando a graça é alcançada e o “milagre” realizado é hora de externar a gratidão, colocar para fora como testemunho para os outros o que a divindade fez em seu favor. Os ex-votos são o cumprimento externo da graça recebida, e tentam materializar em símbolos imagéticos o benefício recebido. (GOMES GORDO, 2015, p. 31-32)

Podemos dizer que o acréscimo do prefixo “ex” diante da palavra “voto” seria a consequência de um acordo firmado (pela fé) e executado com sucesso, o sagrado fez a sua parte, agora por meio do “ex” (do colocar para fora), o devoto cumpre a sua parte no acordo e testemunha o poder da divindade. É um testemunho para os seus iguais do poder daquela entidade, mas é também um “afago”, um presente (material), que o devoto imagina ser do agrado dessa mesma divindade.

Esta relação de fé entre o devoto e a entidade pressupõe que o fiel imagina ter uma relação de intimidade com esta força sagrada, a ponto de intuir e saber com precisão o presente que mais agradaria à entidade de sua devoção.

Sala de exvotos do santuário do Bom Jesus de Matosinhos Congonhas do Campo MG
Figura 1
Sala de exvotos do santuário do Bom Jesus de Matosinhos Congonhas do Campo MG
projectoex-votosdobrasil.net

A expressão ex-voto foi usada desde o princípio da religião da antiga Roma, para expressar o mesmo significado utilizado hoje não apenas, no que é mais comumente identificado, nas práticas de fiéis católicos em gratidão a graças alcançadas, por meio de elementos materiais oferecidos nos locais destinados (igrejas, pontos de devoção, marcos geográficos), mas também nas práticas de outros grupos religiosos ao longo da história, permeando cultura (GOMES GORDO, 2018). No caso do Brasil, por exemplo, outros grupos cristãos como os evangélicos exercem a prática dos ex-votos por meio dos testemunhos orais nos momentos de culto ou pelo oferecimento a Deus de elementos materiais como carteiras de trabalho, resultados de exames médicos, entre outros. Da mesma forma, é possível identificar o oferecimento de ex-votos entre religiões de matriz africana no país.

Alguns sinônimos de ex-votos também podem ser utilizados para designar uma oferta do devoto a uma divindade: oferta – oferecer algo em agradecimento, ou em troca de (alguma coisa); sacrifício – pressupõe uma atitude “penitencial” como agradecimento, podem ser peregrinações, procissões com os pés descalços, até o sacrifício de animais em algumas religiões.

A prática votiva dos ex-votos é uma forma material (simbólica) de o devoto se relacionar efetivamente com as suas divindades. O ex-voto tem esse poder simbólico comunicacional, mesmo que os devotos não tenham dados empíricos para afirmar que a entidade sagrada, de fato, esteja feliz com o agradecimento material; existe, no entanto, um código entre os fiéis. O testemunho de um é entendido pelo outro. Sendo assim, essa comunicação devocional se torna publicidade, tanto para a divindade quanto para o agraciado.

O ex-voto como peça devocional, geralmente não tem valor em si, pois em sua grande maioria são confeccionados de matérias simples. O seu valor está no significado simbólico e comunicacional. Se o milagre foi em benefício de uma cabeça que continha algum mal a ser superado, o fiel devoto confecciona ou manda fazer, ou compra uma cabeça, seja ela de cera, madeira ou isopor. O objeto não é a cura, pois seria impossível materializá-la, portanto surge o símbolo como linguagem palpável aos olhos e ao entendimento, que Cornelius Castoriadis (2010) define como imaginário efetivo, não da coisa em si, mas daquilo que se imagina sobre determinada situação. O ex-voto é o imaginário efetivo, não se pode determinar o que a divindade gostaria de receber em recompensa por ter realizado determinada graça, mas o fiel materializa o imaginário sobre a forma de identificação, participação ou de causação.

Com base nesta reflexão de Castoriadis, podemos destacar essa afirmação: “O delírio mais elaborado bem como a fantasia mais secreta e mais vaga são feitos de ‘imagens’ mas estas ‘imagens’ lá estão como representando outra coisa; possuem, portanto, uma função simbólica” (CASTORIADIS, 2010, p. 154). É o imaginário que se tem da divindade que determina o tipo de símbolo (ex-voto) que será “posto para fora” em agradecimento pela graça recebida.

O fiel imagina um santo ou um deus poderoso, inclusive possuidor do dom de interferir (para o bem ou para o mal) em sua vida (bênção – castigo). Mas é difícil imaginar um ser que seja alheio à sua natureza humana. As representações das divindades atribuem a elas características divinas, porém com traços extremante humanos. Por essa razão, intui-se, de forma imaginária e simbólica, os presentes que entes sagrados gostariam de receber.

Exvoto pintado dedicado a São Benedito Angra dos Reis RJ
Figura 2
Exvoto pintado dedicado a São Benedito Angra dos Reis RJ
projectoex-votosdobrasil.net

São projeções de nossos desejos de sermos recompensados por algo que fizemos, que nos faz imaginar que o divino também deseja ser “bajulado” por algo de bom que ele tenha realizado.

Por isso, existe uma força comunicacional nas expressões votivas por meio dos ex-votos. Um desejo de tocar a divindade, de alegrá-la por meio das oferendas muitas vezes materiais, ou até mesmo, através de gestos espirituais, como caminhar descalço em uma procissão, por exemplo.

O elemento material (simbólico) é fundamental para que o agraciado se sinta de fato ouvido. Por essa razão é comum que em igrejas católicas, o fiel, além de rezar para o seu santo de devoção, se aproxime dele (imagem) na tentativa de tocar aquela representação. Este gesto não é apenas um toque, mas uma profunda comunicação entre as aspirações mais secretas do devoto com a entidade que (em seu entendimento) sabe de sua vida e das situações difíceis pelas quais ele está passando.

Em todas as religiões existem formas concretas de comunicação material com as divindades: as liturgias, os ritos, os gestos que nos colocam em diálogo com o sagrado. Porém, é na religião popular que as formas de relação comunicacional entre divindade e devotos são perceptíveis em profusão. Na religiosidade popular, o fiel se vê livre de muitas “amarras” que são impostas pelas instituições, deixando vir à tona elementos de sua natureza:

A religiosidade popular, ensina-nos que a possibilidade de empregar símbolos, de compreender a linguagem mitológica, de praticar atos e fazer gestos simbólico-rituais para expressar o mundo religioso constitui componente profundamente humano e religiosa, componente, aliás, irrenunciável (SARTORI, TRIACCA, 1992, p. 1.011).

Luiz Beltrão, pesquisador que está na gênese dos estudos de Folkcomunicação no Brasil, publicou em 1965, na revista Comunicação & Problemas o seu célebre artigo “O ex-voto como veículo jornalístico”. O texto é considerado a gênese da corrente de pesquisa acadêmica fundada por Luiz Beltrão, a “Folkcomunicação”, que aproxima as manifestações culturais, de modo especial as folclóricas, das pesquisas em comunicação social e em outras áreas multidisciplinares. Beltrão, além de considerar o ex-voto como comunicação, defendeu a teoria de que os ex-votos são veículos jornalísticos, potencializando assim o entendimento de que esta prática votiva, além de ser diálogo comunicacional entre o penitente e o sagrado, e entre o penitente e os seus, seria também um registro histórico. Afirma que o simbólico deixado como prova da graça alcançada conta a história de uma localidade, de um tempo, são “crônicas” jornalísticas.

Segundo Beltrão (1980) os aspectos comunicacionais dos ex-votos são dois:

(1) a comunicação de um fiel com os outros fiéis. Existe uma linguagem comum que os devotos entendem e decodificam entre si. O fato de aqueles objetos votivos estarem expostos em lugares considerados sagrados dispensa a explicação, eles acabam falando por si, o devoto vê e entende. Para esse grupo a mensagem está explícita, é uma forma de comunicar-se já instituída entre seus membros, a decodificação da mensagem é instantânea, e o fim último da oferenda de um ex-voto é justamente estabelecer esse elo de comunicação entre o fiel e a divindade, e também do fiel com os seus, sendo que ele se transforma em propagandista do poder miraculoso do divino.

(2) a carga simbólica dos objetos ofertados. Podem sinalizar as características de uma época e os traços mais enigmáticos de uma sociedade ou grupo, assim essa força comunicacional estaria na interpretação de um pesquisador acadêmico que pode encontrar nos ex-votos um objeto de pesquisa para diversas disciplinas, entre elas a sociologia, a antropologia, a teologia, e de modo especial, como nos afirma Beltrão, o jornalismo ou a comunicação social.

Dessa forma, os inúmeros ex-votos que enchem as salas de milagres, os terreiros ou são pronunciados em momentos cúlticos, também podem sinalizar o universo local dos moradores de uma determinada região (GOMES GORDO, 2015). Onde a seca castiga, podemos citar o nordeste brasileiro, muitos dos ex-votos estão relacionados ao sucesso da colheita (afastando assim a fome); em zonas rurais, os ex-votos podem estar relacionados a algum animal que se recuperou de moléstias; em alguns santuários, o que se destaca são os diplomas e becas, simbolizando a dificuldade de se concluir um curso acadêmico (seja ele qual for) e a falta de incentivo por parte das autoridades competentes; podem ser um retrato das doenças mais simples e do descaso do poder público com a saúde; os ex-votos de pessoas que deixaram algum vício, dependendo do número exposto no santuário, são a manifestação do índice de moradores que enfrentam algum tipo de dependência química (álcool, cigarro ou outras drogas não lícitas).

Informe Publicitário da Igreja Pentecostal Deus é Amor SP
Figura 3
Informe Publicitário da Igreja Pentecostal Deus é Amor SP
Arquivo dos autores

O historiador e antropólogo Luiz da Câmara Cascudo assim se referiu, à época, aos estudos de Beltrão:

Seu plano, Luiz Beltrão, de estudar o EX-VOTO é um soberbo programa de necessidade imediata. O “ex-voto” é uma voz informadora da cultura coletiva, no tempo e no espaço, tão legítima e preciosa como uma parafernália arqueológica. Vale muito mais que uma coleção de crânios, com suas respectivas e graves medições classificadoras. É um dos mais impressionantes e autênticos documentos da mentalidade popular, do Neolítico aos nossos dias. E sempre contemporâneos, verdadeiros e fiéis (CÂMARA CASCUDO, 1965, p. 135).

É neste sentido que podemos afirmar o lugar dos ex-votos como mídias, veículos que transmitem e preservam memórias coletivas.

Ex-votos: transmissão e preservação da memória social

Ex-votos são uma expressão simbólica. A interpretação de um símbolo, seja ela na esfera religiosa ou não, é muito mais que a abstração ou conceito, também não deveria ser estudada como estímulo e resposta, ou derivada de uma leitura imediata como realidade concreta. Na interpretação de um símbolo, sobretudo religioso, o ser humano ontologicamente se curva nesta interpretação, com sua sensibilidade, imaginação, memória, vontade e intuição. Por essa razão, alguns símbolos nos remetem imediatamente a uma experiência religiosa, mesmo que o símbolo, em si, não esteja apontando para algo religioso.

A forma circular, por exemplo, coloca algumas pessoas (inconscientemente) em sintonia com algo ancestral, remetendo a algo transcendente. A carga genética que carregamos em nosso histórico humano desperta em nós sentimentos e interpretações diante de determinados objetos e símbolos. Estamos falando que existe uma memória genética, e é nesta memória que os símbolos adquirem sentido e nos aproximam de nós mesmos e dos outros.

Edgar Morin chama essa memória “ancestral” de polifonia cognitiva:

O cérebro dispõe de uma memória hereditária bem como de princípios inatos organizadores de conhecimento. Mas desde as primeiras experiências no mundo, o espírito/cérebro adquire uma memória pessoal e integra em si princípios socioculturais de organização e conhecimento. Desde o seu nascimento, o ser humano conhece não só por si, para si, em função de si, mas, também, pela sua família, pela sua tribo, pela sua cultura, pela sua sociedade, para elas em função delas. Assim, o conhecimento de um indivíduo alimenta-se de memória biológica e de memória cultural, associadas em sua própria memória, que obedece a várias entidades de referência, diversamente presentes nela (MORIN, 2005, p. 21).

Essa memória afetiva/hereditária está impregnada nos seres humanos. Os símbolos não são simplesmente uma criação humana - em um determinado período - de nossa evolução histórica. São muito mais que isso, são formas de comunicar e interpretar os principais dilemas da vida. “As ações simbólicas mais típicas de cada religião estão geralmente ligadas aos momentos-chaves da vida do homem, com referência constitutiva em face dos maiores problemas da existência humana” (SARTORI; TRIACCA, 1992, p. 1.143).

Em seus estudos sobre a relação entre religiões e memória, Jan Assmann (2006) introduz o conceito de memória cultural, cunhado pelo historiador Aby Warburg, que se soma às noções de memória individual e social. A memória cultural é uma forma de memória coletiva arraigada em símbolos, representados em mitos orais, em escritos, performados em festas, que estão continuamente iluminando o presente em constante mudança. A memória cultural tem consigo a memória de coisas que representam um coletivo: pratos, festas, ritos, imagens, histórias e outros textos, cenários, e outros lugares de memória. É uma memória que tende a unir um grupo, torná-lo “um”, por meio de coisas que significam lembranças como monumentos, bibliotecas, arquivos, e outras instituições de memória.

Exvoto no Santuário de Bom Jesus da Lapa BA
Figura 4
Exvoto no Santuário de Bom Jesus da Lapa BA
Ateliart São Francisco (http://ateliartsaofrancisco.blogspot.com.br)

Para Assmann, a memória cultural religiosa é episódica, construída a partir de experiências, e é semântica, construída a partir da aprendizagem. Por isso, o estudioso afirma que as religiões são experiências humanas privilegiadas, pois conseguem reunir e dar seu próprio tom a esses dois tipos de memória. Elas carregam um vasto campo de experiências e de formas de memorização, com a ênfase no que não deve ser esquecido para sustentar a fé. Por isso, as religiões desenvolvem uma memória comunicativa e conectiva: é um processo de tornar comuns experiências e conteúdos por meio de vínculos comunitários. Assmann indica que os ritos religiosos são uma mídia original da memória de pertença, que gira em torno do vínculo e da comunidade.

Ao tomarmos por base as noções de Morin e Assmann aqui recuperadas, é possível afirmar que a relação entre religiões, memória e comunicação passa pela mediação e pela transmissão de experiências e conhecimentos por meio de distintos processos comunicacionais, interpessoais e midiáticos, como: a tradição oral, os textos sagrados (escrituras), os lugares, os ritos, as festas, as imagens, os símbolos. Aqui localizamos os ex-votos.

Tratar os ex-votos como mídias é afirmar que estas manifestações de gratidão materializadas em objetos e relatos orais contêm uma narrativa que comunica algo. Esta comunicação não se restringe à relação entre o devoto agraciado com a divindade que opera milagres, nem tampouco à relação entre o agraciado e os seus, mas estes objetos e relatos acabam se tornando uma memória viva e documental de uma época e de uma localidade determinadas. É possível com eles traçar uma radiografia cultural, antropológica e sociológica de determinado espaço geográfico e histórico.

A afirmação de Marcelo Pires de Oliveira, reproduzida a seguir, sintetiza bem a noção defendida neste estudo

Em seu artigo seminal, Luiz Beltrão, indicou que para os pagadores de promessa o ex-voto não representava apenas um objeto devocional, mas trazia embarcado um meio de comunicação poderoso e que podia ser interpretado por aqueles que o visualizavam e que contavam histórias de superação e enfrentamento das adversidades. Hoje, muitos pesquisadores se debruçam sobre tais objetos e conseguem extrair deles diferentes propriedades, seja na arte, memória, fé, mas ainda assim seu maior componente está na esfera da comunicação. Cada ex-voto, seja pictórico, escultural ou escrito, como bilhetes e cartas [...], traz em si uma história que relata agruras de grupos sociais (OLIVEIRA, 2017, p. 9-10).

Nesta afirmação com a qual este estudo se identifica, Marcelo Oliveira conclui que estes grupos, que se expressam por ex-votos, são frequentemente formados por pessoas excluídas do sistema econômico e político, inferiorizadas socialmente. Estas expressões criativas são foram de sobreviverem e de se contraporem a Estados que não cumprem seu papel no oferecimento de saúde, educação e segurança, uma vez que dependem do suporte da vida em comunidade e de sua fé que se manifesta nos ex-votos.

Um exercício de aplicação: a tipologia dos ex-votos e sua relação com a memória social

Em tese de doutorado, Luis Erlin revisitou as tipologias de ex-votos construídas por Beltrão (1980), José Marques de Melo (2008) e Jorge González (1986), amplamente utilizadas nos estudos de Folkcomunicação, e propôs sua ampliação. A revisita e a consequente ampliação das tipologias foram resultado de observação e inventariação de objetos e relatos em espaços físicos e digitais de exposição de ex-votos, por meio da avaliação de as práticas se ressignificam e se transformam, se ajustando ao tempo – daí as expressões digitais que circulam em abundância através da internet.

Ficha para relato de graça alcançada pela internet
Figura 5
Ficha para relato de graça alcançada pela internet
Website da Igreja Mundial do Poder de Deus (Reprodução)

Em um exercício de aplicação neste estudo, listamos a seguir a tipologia proposta, composta por dez tipos, apresentando em cada um a indicação de como os ex-votos se configuram mídias veiculadoras de memória social.

a) Ex-votos figurativos

São os objetos que expressam, de forma figurativa e simbólica, a graça que o fiel recebeu. Os formatos podem ser os mais variados possíveis e confeccionados de diversos materiais (madeira, cera, papel, isopor, plástico, resina, pedra, dentre outros).

Dentre as peças é possível encontrar: partes anatômicas do corpo humano, como cabeça, braços, mãos, pés, dedos, pernas, orelhas, olhos, boca, nariz, órgãos genitais masculinos e femininos, seios; órgãos internos, como rins, coração, fígado, intestinos, garganta, língua, útero, pulmões, próstata, bexiga, baço, dentre outros. Figuras humanas, na sua totalidade, indicando muitas vezes a parte do corpo que foi agraciada com o milagre. Fotos de partes do corpo, pontuando o local da graça alcançada.

Miniaturas de casas, barcos, carros, bicicletas, motocicletas. Figuras de animais, desde domésticos, até selvagens. Latas ou sacos com vegetais ou grãos agradecendo a colheita. Dentre outros formatos.

Estes ex-votos veiculam a memória das doenças sofridas em uma época e uma localidade bem como formas de moradias, de veículos de transporte, da relação que a comunidade desenvolve com a terra, seus animais e plantas.

b) Ex-votos representativos

Peças que representam metonimicamente um aspecto, elemento ou componente da totalidade do milagre (sendo uma figura de linguagem, no formato objeto, que é empregado ou usado com sentido, mesmo que fora do seu contexto). Neste tipo, os formatos são os mais variados como, por exemplo: martelos, tesouras, tornos mecânicos, jalecos de professores ou de profissionais da saúde, crachás de empresas, cópias ou reproduções de carteiras de trabalho, representando “sucesso e uma colocação no mercado de trabalho”.

Diplomas e títulos emoldurados, cópias de monografias, dissertações de mestrado, teses de doutorado, fotos de formatura, álbuns de formatura, vestidos e ternos de formatura, representando “êxito escolar”. Quepes, dragonas, distintivos, fardas, representando “promoção militar”. Vestidos de noiva, buquês de noiva, grinaldas, cestinhas de alianças, fraques, gravatas, representando “sucesso ao conseguirem se casar”.

CDs, capas de disco, instrumentos musicais (como violão, acordeão, flauta, guitarra), faixas de miss, livros publicados, vestidos usados em premiações, representando “sucesso artístico”. Camisetas de times de futebol, bolas de diversos esportes, troféus, medalhas, representado “sucesso esportivo”. Garrafas de bebidas alcoólicas, latas de bebidas alcoólicas, representando a “libertação do vício”.

Maços de cigarro, cachimbos, cachimbos artesanais para o uso de drogas, charutos, cigarrinhos parecidos com os de maconha, narguilés, cigarros eletrônicos, representando a “libertação do vício”.

Muletas, tipoias, cadeiras de roda, carcaças de gesso, aparelhos ortopédicos, óculos, prótese dentária, radiografias, exames médicos, vidrinhos com cálculos renais ou vesiculares. Fotos destacando a parte do corpo enferma, representando “saúde recuperada”. Capacetes, peças de moto, carro e bicicleta, representando “livramento na hora do acidente”.

Vidros contendo vômitos, representando dois tipos de libertação – “libertação da saúde”, em que o vômito é a doença expelida, como câncer ou tumores, “libertação espiritual”, em que o vômito é a presença do maligno (ou do espírito demoníaco) expelida. Umbigos de recém-nascidos, representando a “sorte no nascimento”.

Peças de roupas e sapatos (de uso diário, ou de eventos especiais - como batizados, primeira comunhão, crisma -, ou de algum dia especial na vida do devoto) de pessoas que receberam o milagre. Fotografias de rosto da pessoa agraciada, de famílias reunidas, grupos de amigos, de animais, propriedades, localidades e dentre outras

Nesse tipo, há variadas formas de veiculação da memória de uma época e de uma localidade em relação ao mercado de trabalho e a formação profissional predominante, a constituição das famílias e costumes familiares, vícios, enfermidades e outros males experimentados.

c) Ex-votos discursivos

Objetos que descrevem o milagre por meio da escrita, exemplos: cartas, bilhetes, cartazes, gravuras, placas (de mármore, granito, plástico, metal), banners, panfletos e santinhos de papel feitos sob demanda, faixas. Escritas (com canetas, carvão ou com pedras) em paredes de templos, grutas e túmulos de cemitério. Dentre outros formatos.

Neste tipo de ex-voto temos as histórias de vida explicitadas. Nelas também se identificam elementos acima indicados que caracterizam práticas e costumes de uma localidade e uma época.

d) Ex-votos orais

São os testemunhos orais que podem ou não ser acompanhados de alguma materialidade. Geralmente, são proferidos em assembleias públicas de culto, por incentivo do presidente da celebração, ou são espontâneos.

Muitas vezes, o ex-voto da oralidade não passa pela instituição religiosa, acontece em eventos promovidos pelos próprios agraciados, como orações do terço, novenas, louvores, grupos de oração. Podem ser incluídos aqui os testemunhos dados em programas de rádio e em programas televisivos via telefone. Dentre outros formatos.

Aqui também estão as histórias de vida. Nelas igualmente se identificam elementos acima indicados que caracterizam uma localidade e uma época.

e) Ex-votos midiáticos e digitais

São os anúncios veiculados em jornais, revistas, sites e portais de internet, blogs, redes sociais (Facebook, Instagram, WhatsApp) e outros meios de comunicação. Geralmente, difundidos fora dos santuários e ali expostos como demonstração do milagre recebido. Os veículos tanto podem ser oficiais das instituições religiosas, ou criados por devotos sem vínculos institucionais.

Esse é mais um tipo de ex-votos que proporciona a transmissão e a preservação de histórias de vida que trazem elementos próprios da memória de uma época e uma localidade.

f) Ex-votos pictóricos

Quadro em madeira ou em outro tipo de material, ilustrando o milagre através de imagens desenhadas e pintadas, contendo, geralmente, a representação da cena no exato momento do milagre. Muitos trazem a estampa do santo (ou santa) que favoreceu o milagre no alto da cena, como que interagindo efetivamente na realização da graça.

A maioria dos ex-votos pictóricos traz também a descrição discursiva de como o milagre foi realizado, identificando o nome do agraciado e a data do ocorrido.

Esse é um tipo de ex-votos que se soma aos três anteriores e que proporciona a transmissão e a preservação de histórias de vida que expressam elementos próprios da memória de uma época e uma localidade.

g) Ex-votos arquitetônicos

São os ex-votos que têm como forma de pagamento da promessa a construção arquitetônica ou a interferência em um imóvel destacando a devoção particular ou familiar. Muitos templos, capelas, ermidas, grutas, cruzeiros e até mesmo túmulos são erguidos no cumprimento de um voto.

Nos altares dessas edificações são entronizadas, em local de destaque, as imagens do santo ou da entidade que realizou o milagre. Alguns devotos mandam afixar na parede externa de suas residências, lojas e empresas a estampa ou a imagem do santo protetor (geralmente feitos em azulejos, ou em pequenos nichos no alto do imóvel).

Outro exemplo comum são vitrais em igrejas. O devoto depois de alcançar a graça doa um vitral para uma igreja que está sendo construída, e na base do vitral se coloca a inscrição: “por uma graça alcançada”.

Esse é um tipo de ex-votos que veicula a memória arquitetônica de uma localidade. As narrativas reforçam a expressão das histórias de vida atreladas àquelas construções.

h) Ex-votos de agrado

São os intentos do devoto de agradar a divindade que realizou o milagre. Há certa compreensão, com base no imaginário popular, ou revelado pela entidade, das coisas que lhe agrada. Por essa razão, os fiéis oferecem presentes como: flores; velas; incensos; joias (coroas, tiaras, braceletes, brincos, pulseiras, colares de ouro e pedras preciosas); bijuterias (imitação de joias das mais variadas possíveis). Adereços e materiais para a beleza (cremes cosméticos, material para maquiagem facial, espelhos, pentes).

Charutos (também cachimbos e cigarros variados, fumo de corda). Roupas e acessórios como mantos, véus, túnicas (confeccionados para vestirem a imagens dos santos, respeitando inclusive a cor que a entidade mais gosta). Estandartes em homenagem à divindade. Se a graça alcançada foi por intermédio de algum “anjinho” (crianças enterradas em cemitérios consideradas santas) é comum vermos brinquedos e chupetas.

Outra tradição, como ex-voto agradável, é a promessa de mandar rezar missa de ação de graças para determinados santos (tanto os canonizados oficialmente quanto os santos populares). Temos também como pagamento de promessa batizar os filhos com os nomes dos santos de devoção, nesta mesma linha colocar o nome do estabelecimento comercial em homenagem a eles.

Festas religiosas que surgiram de devotos que fizeram suas promessas, dentre outros formatos.

Esse tipo de ex-votos transmite e preserva a memória dos costumes de uma localidade e de uma época no tocante a adereços, vestes, prazer do corpo, nomes dos santos de maior incidência que indicam o que foi alcançado pelas pessoas que a eles dedicaram seus filhos.

As festas destacam-se aqui como veículos de transmissão e preservação da memória cultural religiosa de um coletivo por meio das danças, das músicas entoadas, das orações e dos divertimentos atrelados à prática devocional. Estas práticas são repetidas com atualizações por gerações. É a memória comunicativa e conectiva a que se refere Assmann (2006): o processo de tornar comuns experiências e conteúdos por meio de vínculos comunitários.

i) Ex-votos corpóreos

São os pagamentos de promessa em que o corpo do devoto é utilizado como meio de pagar a promessa. São vários os exemplos: deixar o cabelo crescer por um determinado tempo e depois de cortar, oferecê-lo à divindade; caminhar de joelhos pela nave central de uma igreja, ou em um trajeto que faça sentido ao devoto. Fazer peregrinações a pé até o santuário ou igreja do santo de devoção. Fazer jejuns ou privação de algum alimento específico que o devoto goste. Mortificações como o uso do cilício.

Alguns devotos precisam sentir que o corpo padece no momento de pagar a promessa, por essa razão muitos buscam o sacrifício físico ao extremo, como caminhar entre pedras e brasas, carregar por longas distâncias imagens e cruzes; rezar de joelhos durante muito tempo, ou de braços abertos.

Outros ainda utilizam do próprio corpo para homenagear suas divindades, como vestir-se conforme a imagem da entidade ou do santo (a roupa, geralmente, depois é deixada no templo aos pés da entidade ou do santo).

A prática de fazer tatuagens (religiosas) pelo corpo como expressão de agradecimento, as tatuagens podem ser variadas em suas formas e tamanhos. Uso de objetos religiosos que remetam à devoção (terços, medalhas, crucifixos), dentre outros formatos.

O corpo como mídia é aqui ressaltado nesse tipo de ex-voto que constrói a memória episódica (ASSMANN, 2006) de uma localidade e de uma época por meio da experiência: o que não deve ser esquecido para sustentar a fé.

j) Ex-votos alimentícios

Oferecer à divindade, que realizou o milagre, alimentos e bebidas, subentendido pelo imaginário popular, ou revelado pela entidade, que tais oferendas irão satisfazer e deixá-la feliz.

Se tivermos em conta as religiões de matriz africana, a lista de alimentos e bebidas pode ser extensa, pois cada orixá ou entidade têm apreço por determinados alimentos e bebidas. Como exemplo de comidas salgadas, citamos: acarajé; canjica; pipoca; espigas de milho cozidas ou cruas; carnes variadas de diversos animais (cruas, fritas, assadas ou cozidas); sarapatel; pimentas; pirão de inhame; camarões; quiabo; peixes de água doce; peixes de água salgada; abará; farofa; feijoada; charque.

Doces: como quindim, doce de coco, doce de abóbora, doce de cidra; arroz-doce; doces com canela; mungunzá; bolos de diversos tipos e sabores.

Frutas como maçã, abacaxi, morango, melão, maracujá, pinha. E a lista segue com dezenas de comidas.

Entre as bebidas, podemos citar: licores, aguardente (cachaça / pinga); vinhos doces (licorosos) e secos (tintos ou brancos); cervejas claras e escuras; conhaque; whisky; espumante (champanhe); sucos; água de coco; água natural, servida em copos ou em garrafas.

Para os santos populares que estão nos cemitérios são oferecidos vários tipos de alimentos e bebidas, se forem crianças predominam os doces, balas, pirulitos, chocolates, pão molhado na água, caso o “anjinho” não consiga mastigar, iogurte, leite, refrigerante. Quando o santo popular morreu de alguma tragédia, geralmente se oferece água na tentativa de aliviar o seu sofrimento.

Nas religiões asiáticas (destacamos o budismo e o hinduísmo), a maioria das oferendas aos deuses e aos ancestrais também é alimentá-los, sobretudo de frutas.

A memória cultural religiosa é mediada neste tipo de ex-votos pela transmissão do conhecimento culinário e na relação com a terra, com a agricultura e as fases das colheitas.

A título de conclusão

Este estudo reafirma a dimensão dinâmica da memória social, fenômeno em permanente construção. No tocante às religiões, o processamento de experiências que se somam às aprendizagens de conteúdos potencializa esta dinamicidade da memória. Levar em conta os processos de comunicação que envolvem a construção e a transmissão da memória das religiões e sua dimensão social e cultural é imprescindível para os estudos que abrangem a interface história-memória-religiões.

Nesse aspecto, os ex-votos, já estudados na Folkcomunicação como mídias de comunicação popular, se revestem de relevância para as pesquisas na interface comunicação-mídias-memória., pois constituem-se, como foi demonstrado ao longo deste estudo, em veículos de transmissão e preservação da memória de uma época e de uma localidade.

Como viviam e vivem as famílias, como as pessoas trabalhavam e trabalham para o seu sustento, que tipo de doenças o coletivo sofria e sofre, qual era e é a relação com a terra, com os animais e as plantas, que vínculos comunitários eram e são estabelecidos, que experiências não devem ser esquecidas a ponto de serem marcadas no próprio corpo, quais são as histórias de vida narradas, o que é demarcado como valor nestas narrativas, quais eram e são os costumes do coletivo em termos de adereços, vestimentas, entretenimento – estas e outras tantas marcas de uma localidade e uma época estão registradas nos elementos materiais e discursivos que os ex-votos representam.

Esses registros de memória dizem respeito à forma como em determinados tempo e lugar um grupo social lida com a fé, se relaciona com uma ou mais divindades, mas também diz respeito à cultura, ao modo de ser e às visões de mundo que dão sentido à vida deste grupo. Uma fonte significativa e instigante para a pesquisa em memória nas mídias.

Referências

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