Artigos e ensaios
A comunicação e o Buen Vivir: a experiência da ALER
Communication and Buen Vivir: the ALER experience
Comunicación y Buen Vivir: la experiencia de ALER
A comunicação e o Buen Vivir: a experiência da ALER
Revista Internacional de Folkcomunicação, vol. 19, núm. 42, pp. 282-297, 2021
Universidade Estadual de Ponta Grossa
Recepción: 20/09/2020
Aprobación: 14/04/2021
Resumo: Este artigo busca apresentar reflexões em torno do conceito de Buen Vivir e sua interface com a comunicação popular, como resposta à crise sistêmica atual e ao modelo capitalista, tomando como exemplo teórico e prático a Associação Latino-Americana de Educação e Comunicação Popular (ALER). A partir de revisão bibliográfica e entrevistas, este texto levanta discussões em torno do Buen Vivir, que tomam corpo com o Novo Constitucionalismo Latino-Americano; também sobre os debates em relação à comunicação popular e modelos de desenvolvimento; e, por fim, apresenta elementos e formulações construídos no interior da ALER, que tem o Buen Viver como o eixo central de sua construção política e comunicacional atual. Assim, busca-se trazer reflexões urgentes e necessárias para se pensar novas formas de vida em sociedade e de práticas comunicacionais que refletem essa demanda.
Palavras-chave: Buen Vivir, Comunicação popular, Associação Latino-Americana de Educação e Comunicação Popular (ALER).
Abstract: This article seeks to present reflections around the concept of Buen Vivir and its relation with people’s communication, as a response to the current systemic crisis and the capitalist model, taking as theoretical and practical example the Latin American Association of People’s Education and Communication (ALER). Based on literature review and interviews, this text raises discussions around Buen Vivir, which becomes more relevant with the New Latin American Constitutionalism; also on the debates around people’s communication and development models; and, finally, presents elements and formulations raise inside ALER, which has Buen Vivir as the central axis of its current political and communicational construction. Thus, it seeks to bring urgent and necessary reflections to think about new ways of living in society and communicational practices that reflect this demand.
Keywords: Buen Vivir, People’s communication, Latin American Association of People’s Education and Communication (ALER).
Resumen: Este artículo pretende presentar reflexiones en torno al concepto de Buen Vivir y su interrelación con la comunicación popular, como respuesta a la actual crisis sistémica y al modelo capitalista, tomando como ejemplo teórico y práctico la Asociación Latinoamericana de Educación y Comunicación Popular (ALER). A partir de la revisión bibliográfica y las entrevistas, este texto plantea las discusiones en torno al Buen Vivir, que se concretan con el Nuevo Constitucionalismo Latinoamericano; también los debates sobre los modelos de comunicación popular y desarrollo; y, finalmente, presenta elementos y formulaciones construidas en el seno de ALER, que tiene al Buen Vivir como eje central de su actual construcción política y comunicacional. Así, pretende aportar reflexiones urgentes y necesarias para pensar en nuevas formas de vivir en sociedad y en prácticas comunicativas que reflejan esta demanda.
Palabras clave: Buen Vivir, Comunicación popular, Asociación Latinoamericana de Educación y Comunicación Popular (ALER).
Introdução
Em um momento de crise do sistema capitalista em nível planetário, vive-se a urgência de se pensar e construir novos modelos de vida em sociedade, que apontem para a sobrevivência e um futuro melhor para a humanidade. Nesse sentido, ao passo que são pensados e construídos os novos modelos e projetos societários, nele estão inseridos modelos e projetos de comunicação. Ou seja, todo projeto de sociedade se vê refletido em seu projeto comunicacional, sendo a comunicação um espaço de construção identitária e cultural de sujeitos, povos e nações.
Alicerçada em projetos e visões de mundo que formam experiências coletivas, a comunicação pode servir a interesses de manutenção da ordem e de defesa de posições hegemônicas e de dominação, mas também pode ser um espaço de proposição e prática de contra-hegemonia e de liberdade. E a partir da perspectiva de superação à lógica de desenvolvimento capitalista e de resgate do pensamento dos povos originários, está o conceito de Buen Vivir, que propõe a construção de relações de convivência plena entre os seres humanos e destes com a sociedade, a natureza e o cosmos.
Neste artigo, busca-se apresentar um olhar sobre a interface entre comunicação e Buen Vivir como uma resposta comunicacional e política contraposta à do desenvolvimento capitalista, além de urgente e necessária para se construir uma perspectiva de futuro da humanidade e do meio ambiente. Como sujeito dessa reflexão, toma-se a Associação Latino-Americana de Educação e Comunicação Popular (ALER), uma rede de rádios populares, comunitárias e educativas da América Latina e do Caribe que possui quase cinco décadas. Atualmente, a organização traz em sua visão estratégica o Buen Vivir como aposta de sua construção e como defesa em seu projeto político comunicacional.
O texto divide-se em três partes centrais, sendo a primeira girando em torno das reflexões sobre o conceito de Buen Vivir; a segunda de como a comunicação popular dialoga com essa ideia; e, a terceira focando na experiência da ALER. Para tal, o texto ampara-se na revisão bibliográfica e em entrevistas para construir a abordagem proposta, além do acompanhamento das produções e publicações da Associação em suas plataformas virtuais.
Emergência do Buen Vivir
O conceito andino de Buen Vivir – tradução ao espanhol de sumak kawsay da língua indígena do povo Kichwa, mais difundida no Equador – ou Vivir Bien – suma qamaña, marcadamente presente entre os indígenas Aymara da Bolívia – tem uma origem ancestral, dos povos originários da região andina da América Latina. Carregado de simbologia e mitologia distintas para cada um dos povos que fazem parte dessas grandes culturas, esse amplo conceito remete a interpretações e ações que fazem parte dos valores e conhecimentos da relação entre seres humanos e natureza, a fim de manter um equilíbrio entre estes.
O Buen Vivir e o Vivir Bien se tornam mais difundidos e conhecidos na sociedade em geral e na academia latino-americanas com a aprovação das novas Constituições do Equador (2008) e da Bolívia (2009). A presença e a importância do termo nesses textos constitucionais dialoga com um plano econômico e de pensar um modelo distinto ao capitalista, e, ao mesmo tempo, com o conceito de Plurinacional, além de debates em torno de etnicidade e “formas institucionais a partir de uma alternativa política ao desenvolvimento”2 (SCHAVELZON, 2015, p. 182, tradução livre). Frutos de lutas sociais e políticas populares e da chegada à Presidência de governos progressistas, como o de Evo Morales, na Bolívia (2006-2019), e Rafael Correa, no Equador (2007-2017), esses processos constituintes marcaram um momento distinto na América Latina, no que foi chamado de Novo Constitucionalismo Latino-Americano, e, a partir disso, um salto na sistematização do conceito de Buen Vivir.
O Novo Constitucionalismo Latino-Americano é entendido como a superação da herança constitucional hegemônica: eurocêntrico-estadunidense, liberal, colonizadora e monista. Nesse sentido, “na realidade da América Latina, as novas Constituições podem marcar a possibilidade de transição de projetos em que grupos historicamente marginalizados assumem um protagonismo político” (SILVA JÚNIOR, 2014, p. 152), se diferenciando de um passado de exclusão de “populações indígenas, negras e pobres” (Ibid, p. 156).
Dessa forma, esse novo constitucionalismo busca garantir a participação democrática do povo na construção societária e rompe com as fundamentações constitucionais anteriores. Assim, no caso da introdução do conceito de Vivir Bien na Constituição da Bolívia, “a estrutura político-institucional passa a se reconfigurar conjugando o ser humano aos elementos relacionados à vida como um todo, seja ela humana ou não, considerando em certas situações elementos da Pachamama e prezando o ‘vivir bien’” (SILVA JÚNIOR, 2014, p. 171). Pachamama é como os povos indígenas se referem à Terra como um organismo vivo e também à natureza, ou a Mãe Terra/Madre Tierra, e o que os cosmólogos contemporâneos chamam de Gaia (ZAFFARONI, 2010).
Tomando especificamente o caso boliviano para ilustrar como se deu a relação do Estado com esse novo conceito, a partir de um percurso de tensões e embates entre as forças populares e conservadoras na disputa constituinte, ao fim firmaram-se alguns entendimentos manifestos no texto da Carta Magna.
Essas mudanças paradigmáticas serão fundamentais para que o Estado trilhe um caminho que considere e paute o vivir bien ou Suma qamaña na Bolívia. Esse conceito andino, crítico ao capitalismo e ao núcleo irracional da modernidade, traz valores comunitários da cosmovisão indígena, além de ressaltar a relação harmônica do homem-mulher com a ‘mãe terra’. Logo, o vivir bien manifesta-se no modelo de Estado Plurinacional, no novo modelo territorial autonômico e no novo modelo econômico plural e comunitário. (SILVA JÚNIOR, 2014, p. 216-217)
E na ideia de concretizar o Vivir Bien no modelo econômico foram necessárias “mudanças em relação às forças produtivas e à lógica de atuação diante da Pachamama” (Ibid, p. 218), como no caso da regulamentação sobre transgênicos. Está presente também em uma “economia plural” (da propriedade privada à comunitária, passando pela cooperativada e estatal), que no artigo 306 da Constituição da Bolívia define que ela está orientada “a melhorar a qualidade de vida e o viver bem de todas as bolivianas e todos os bolivianos”3.
Seguindo com a busca por um entendimento de Vivir Bien, o Estado Plurinacional da Bolívia, por meio do Ministério de Culturas, define:
Em princípio, há um certo consenso de que é um novo paradigma que nos permite repensar o desenvolvimento, ou melhor, buscar alternativas a partir de valores que nos trazem o mundo indígena, como a complementaridade e a reciprocidade, assim como a harmonia com a Mãe Terra. Uma nova visão do comum, na qual a reprodução da vida, da comunidade, tem um papel principal que nos permite olhar o mundo baixo outros parâmetros.4 (MINISTERIO DE CULTURAS, 2012, p. 07, tradução livre)
De outro ponto de vista, na tradução de sumak kawsay e suma qamaña para Vivir Bien e Buen Vivir, é importante destacar o que traz Raúl Prada:
O sumak kausay não é somente um conceito quechua, mas, sim, que define um modo de vida que se opõe ao modo de produção; a Mãe Terra não pode ser reduzida à condição de possibilidade da produção, não pode ser reduzida a meio de produção; a Mãe Terra é criação, recriação, reprodução de vida, na manifestação de seus múltiplos ciclos vitais. A vida não é produção, mas invenção, é acontecimento da energia “cósmica”. A relação com esta energia.5 (PRADA, 2013: s/n; In.: SCHAVELZON, 2015, p. 33, tradução livre)
Um importante formulador e que atua na divulgação desse conceito é o ex-ministro de Relações Exteriores e atual vice-presidente boliviano, David Choquehuanca. De origem Aymara, ele propagou um discurso, em esfera internacional, de mudança da visão de acumulação ocidental, individualista e antropocêntrica. Nesse sentido, Choquehuanca (2010, In: SCHAVELZON, 2015, p. 215) apresentava que o Vivir Bien “dá prioridade à natureza e postula que todos os seres que vivem no planeta se complementam uns aos outros”6; relacionando o conceito com a unidade de todos os povos, com a proteção das sementes e a recuperação dos bens naturais de um país para o benefício de todos e todas. Alguns outros pontos tratam de se viver em complementaridade e equilíbrio com a natureza, a defesa da identidade e o respeito à mulher.
A aproximação entre o Buen Vivir e o direito à comunicação também está presente nos textos constitucionais, tendo o Estado o papel de regulador da vida em sociedade. Na Constituição do Equador de 2008, no capítulo 2, que aborda os Direitos do Buen Vivir, na terceira seção está presente a discussão sobre Comunicação e Informação, em que, entre outros pontos, apresenta:
Art. 16.- Todas as pessoas, de forma individual ou coletiva, têm direito a:
1. Uma comunicação livre, intercultural, includente, diversa e participativa, em todos os âmbitos da interação social, por qualquer meio e forma, em sua própria língua e com seus próprios símbolos.
2. O acesso universal às tecnologias de informação e comunicação.
3. A criação de meios de comunicação social, e o acesso em igualdade de condições ao uso das frequências do espectro radioelétrico para a gestão de estações de rádio e televisão públicas, privadas e comunitárias, e a bandas livres para a exploração de redes sem fio.7 (tradução livre)
Na Constituição da Bolívia, no sétimo capítulo, sobre a Comunicação Social, está definido que o Estado é o garantidor do direito à comunicação e que apoiará a criação de meios comunitários, além de que não é permitida a conformação direta ou indireta de monopólios ou oligopólios nos meios de comunicação. Também está posto que os veículos de comunicação “deverão contribuir para a promoção dos valores éticos, morais e cívicos das diferentes culturas do país, com a produção e difusão de programas educativos plurilingues e em linguagem alternativa para pessoas com deficiência”8. Assim, há um reforço do caráter Plurinacional do Estado boliviano, que reconhece constitucionalmente 36 idiomas, entre línguas dos povos originários e o castelhano.
Na Constituição, na visão de mundo ou nas práticas culturais e valores dos povos originários, o conceito segue inspirando e crescendo em debates em distintas áreas e países, como é o caso de se pensar um novo modelo e novas práticas em comunicação, em especial na América Latina, à luz do Buen Vivir.
Comunicação em direção ao Buen Vivir
Além da presença da relação entre Buen Vivir e Direito à Comunicação em textos constitucionais, os debates e a produção conceitual do que seria uma comunicação para o Buen Vivir contam com algumas discussões teóricas e alguns elementos práticos em espaços acadêmicos, revistas e experiências em comunicação. Determinados autores que buscaram tratar essa questão, o fizeram a partir da análise das teorias do desenvolvimento no século XX, no pós-Segunda Guerra Mundial, e seu impacto na formulação de políticas e programas comunicacionais por organismos internacionais e Estados, no que ficou também conhecido como “comunicação para o desenvolvimento”, para assim identificar o que viria posteriormente com a ideia emergente de “comunicação para o Buen Vivir” (COGO, OLIVEIRA, LOPES, 2013; PERUZZO, VOLPATO, 2018).
Dessa forma, na “comunicação para o desenvolvimento” fazia-se uso da comunicação sob a ideia de que a informação e o conhecimento são elementos importantes para a expansão do desenvolvimento capitalista no “Terceiro Mundo”, sobrepondo-se às tradições e culturas locais. Ou seja, visava-se o fortalecimento do capitalismo, suas empresas e seus produtos em novos mercados consumidores, bem como manter a influência dos países “mais desenvolvidos” em direção aos “subdesenvolvidos”.
Neste sentido, algumas teorias tentam dar conta da comunicação em uma perspectiva funcional, pensado basicamente a partir de um modelo simplista e linear centrado em aspectos como fonte, codificador ou transmissor, mensagem, canal, decodificador ou receptor e destinatário. (PERUZZO; VOLPATO, 2018, p. 11)
Nesse percurso, surgiram formulações para compreender e propor outro paradigma no que tange a ideia de desenvolvimento, como a Teoria Marxista da Dependência (que tem como nomes importantes e pioneiros em sua formulação Ruy Mauro Marini, Vania Bambirra e Theotônio dos Santos) e a de “um outro desenvolvimento” (articulado pela Fundação Dag Hammarskjold, na Suécia). “Desenvolvimento participativo, sustentável, humano, local, comunitário, integrado, dentre outros, foram alguns dos termos e vertentes que surgiram, trazendo novas propostas, numa tentativa de se promover um desenvolvimento de fato equitativo” (PERUZZO; VOLPATO, 2018, p. 6).
No campo da comunicação, as críticas ao modelo difusionista e de “comunicação para o desenvolvimento” também surgiram com pensadores como Luis Ramiro Beltrán e Paulo Freire, que trouxeram propostas de comunicação horizontal e dialógica, além de Mario Kaplún e seu trabalho de comunicação em comunidades tendo como base a “ação-reflexão-ação”; ou seja, estas proposições preveem modelos mais participativos e preocupados com o processo e não somente com o resultado final.
Aos poucos, portanto, acontece um processo de ressignificação – ou, ao menos, de ampliação de significado – da palavra “desenvolvimento”, relacionando-o à comunicação. E, para se buscar essa diferenciação, novas expressões também são usadas na expectativa de se melhor refletir uma proposta sustentável e apoiada no ser-humano, tais como, comunicação para a mudança social, comunicação para a cidadania, comunicação participativa, comunicação para a transformação social. A partir da concepção deste “outro desenvolvimento”, o modelo participativo incorpora noções como horizontalidade e democratização de acesso, no sentido da liberdade de comunicação e do direito à comunicação enquanto poder de comunicar. (PERUZZO; VOLPATO, 2018, p.13).
Ainda assim, essa superação do sentido da comunicação “para o desenvolvimento” passando à comunicação “para a transformação social” ou “para a cidadania” não parece dar conta das mudanças paradigmáticas a que se propõem as construções em torno do Buen Vivir.
Nesse sentido, foram levantadas algumas críticas por Alejandro Barranquero (2012a), como a da persistência da visão instrumental da comunicação, no sentido de seu uso “para” algum objetivo, e a ideia ainda mantida de desenvolvimento e transformação como “progresso” ou “evolução”, não levando em consideração outros seres e culturas.
“A comunicação na perspectiva do buen vivir traz, portanto, uma oportunidade de se repensar concepções” (PERUZZO; VOLPATO, 2018, p. 17), como “parte constituinte e constitutiva de uma nova cosmovisão que ajude a integrar as dimensões da cultura e da natureza” (BARRANQUERO, 2012b, p. 9).
No entanto, ainda que em construção, essa inter-relação entre comunicação e Buen Vivir requer um maior percurso prático para que se possa se compreender melhor como esse postulado passa a ser vivenciado, apropriado e refletido por comunidades, comunicadores e comunicadoras, e também em nível societário amplo, como um novo paradigma.
Em termos teóricos, estão presentes na filosofia do Buen Vivir necessidades de mudanças estruturais no sistema, mas, também, são necessárias a esta filosofia encaminhamentos práticos para que esta transformação possa se efetivar. Se as mudanças permanecerem apenas ligadas às lutas ofensivas e defensivas pela comunicação de caráter mais micro e comunitário, isso parece relevante, mas não suficiente. É preciso que haja uma transformação maior em termos de políticas de comunicação e de estrutura social do sistema capitalista, que amplie o aprendizado micro de participação gerado pelos movimentos sociais populares para experiências de comunicação macro que possam ser experimentadas a acessadas pela sociedade de forma plural. (COGO; OLIVEIRA; LOPES, 2013, p. 15-16).
O anseio por racionalizar essa nova prática comunicacional do Buen Vivir merece atenção e cuidado para que não se leve a um bloqueio de visualização e compreensão dos caminhos que já se vislumbram, e que são de grande importância. Vale lembrar uma entrevista do vice-presidente boliviano e especialista em cosmovisão andina, David Choquehuanca, na qual ele comenta os postulados para o Vivir Bien, entre eles, o “saber comunicar-se”, que tem como base a comunicação das comunidades ancestrais e o diálogo: “Temos que nos comunicar como antes nossos pais faziam, e resolviam os problemas sem que se apresentassem conflitos, isso nós não devemos perder”9 (tradução livre).
O pensador boliviano Adalid Contreras Baspineiro, sociólogo, comunicólogo e ex-secretário-geral da Comunidad Andina (CAN), retoma mais um ponto que fundamenta essa nova perspectiva comunicacional, dentro de sua reconstrução de sentidos:
Agora, bem, se o Vivir Bien/Buen Vivir é uma resposta civilizatória à desumanização capitalista - (neo)colonial, a Comunicação para o Vivir bien/Buen Vivir é a resposta à funcionalização dos processos de comunicação a estes sistemas, posto que não é possível uma nova era com sistemas sequestrados por um sentido empresarial-utilitário da liberdade de expressão, ou com meios que deixam opacas as identidades múltiplas, exaltam o individualismo, fomentam o culto ao medo, e banalizam a vida, acobertando midiaticamente golpes brancos e duros à democracia
(...)
Para construir a sociedade do Vivir Bien/Buen Vivir, necessitamos de uma comunicação que construa a cultura da convivência. Necessitamos potencializar a comunicação popular que desenvolva batalhas pelos significados de um mundo justo, inclusivo, promovendo as expressões dos povos que rompem o silêncio, que se visibilizam a partir de suas próprias identidades e irrompem com sua palavra interpeladora, impugnadora, contra-hegemônica e expressiva da construção de uma nova sociedade.10 (tradução livre)
Assim, o Buen Vivir inscreve-se dentro de perspectivas comunicacionais populares, alternativas e comunitárias que buscam romper com o modelo de sociedade capitalista e suas expressões comunicacionais, alicerçados em construção com e a partir do povo, e ainda trata de abordar novos elementos e valores que extrapolam a relação entre seres humanos, trazendo grande peso a todo o ecossistema.
A aposta da ALER pelo Buen Vivir
Uma das principais experiências de comunicação que reivindica o Buen Vivir como eixo político de sua construção é a Associação Latino-Americana de Educação e Comunicação Popular (ALER), que traz esse conceito em sua visão estratégica:
A ALER é uma Rede de comunicação educativa e popular que promove a participação, a inclusão, a convivência harmônica com a natureza; acompanha os povos na conquista de direitos; trabalha pela democratização da comunicação e participa na construção de processos para o Buen Vivir.11 (tradução livre)
Criada em 1972, a ALER articula em rede mais de 100 rádios populares da América Latina e do Caribe, promovendo o encontro, a formação e a produção/distribuição de conteúdos para e entre emissoras da região.
O Buen Vivir ganha espaço dentro da articulação a partir de 2009, com a inspiração dos debates constitucionais do Equador e da Bolívia. Neste sentido, surge o processo chamado ALER 2020, que foi construído tendo como base o desafio de propor às suas associadas “repensar o ‘para que’ da comunicação e da educação popular hoje e, em que medida, elas podem ser relevantes para contribuir na construção de comunidades felizes, com modos de vida sustentáveis, se afastando do mandato do ‘desenvolvimento’”12 (CABRAL, 2013, p. 123, tradução livre).
A iniciativa surge em meio a uma crise identitária, de articulação e de participação em diversos níveis no interior da Associação. Assim, a busca por debater com as rádios esse conceito que inspira novas relações e uma maneira de ser e participar no mundo fez com que se levasse adiante essa empreitada. O ponto de partida foi a avaliação de que o modelo de desenvolvimento capitalista se encontra em uma profunda crise no início do século XXI, “por isso estas são épocas de criatividade e de buscas por formas de vida que não estejam centradas no consumo e na exploração indiscriminada dos recursos do planeta”. Seguindo esse percurso e baseando-se na comunicação e na educação para a vida, foi feita a pergunta: “Qual é o lugar e o compromisso que assumem as rádios como projetos político-comunicacionais nessa construção?”13 (Ibid, p. 126, tradução livre).
Um longo processo metodológico e formativo, com a mobilização das rádios e dos comunicadores por meio de facilitadores e da Junta Diretiva da ALER, foi realizado em 12 países com 75 rádios. A finalização do projeto ALER 2020 ocorreu com a apresentação da síntese final na Assembleia de 40 anos da Associação, celebrada em Quito, Equador, junto com o “Encontro Latino-americano de Comunicação Popular e Buen Vivir”.
Como acúmulo apresentado, está o seguinte relato da docente da Universidade Nacional de Comahue e parte da equipe de formadores do Fórum Argentino de Rádios Comunitárias (FARCO) e da ALER, María Cristina Cabral:
A comunicação e a educação que contribuam para a descolonização, a construção a partir de um paradigma vinculado ao Buen Vivir, pode contribuir na geração de outras relações – sociais, políticas, culturais, éticas –, que lhes outorgam um poder diferente aos povos latino-americanos. Para estar correspondendo à visão contextual de mundo – biocêntrica –, certos compromissos emergem como relevantes para a ALER e as organizações de educação e comunicação:
– rechaçar a universalidade da ideia de desenvolvimento;
– eliminar la dicotomia superior-inferior na educação e na comunicação;
– realizar a descolonização da educação e da comunicação na América Latina;
– assumir o contexto como referência, a interação como chave e a ética como garantidora da sustentabilidade de nossos modos de vida;
– privilegiar as perguntas locais sobre as respostas universais;
– preferir as histórias locais sobre os desenhos globais como fonte de inspiração;
– aprender inventando a partir do local (para não perecer imitando o global).14 (2013, p. 127, tradução livre)
A partir disso, foram reformuladas a missão, a visão, os valores e os princípios da ALER, que passaram a ser a base de sua orientação política e editorial junto às suas associadas até o presente momento, como salientado no início desta parte do artigo.
Como práticas comunicacionais e culturais constantes na Associação, há a realização de espaços de formação e publicação de livros e documentos sobre o tema, além da transversalidade da linha editorial das produções radiofônicas feitas pelas rádios associadas e também pela secretaria operativa da ALER15.
Como uma visão de mundo que orienta o sentido geral da política e das ações, assim é entido o Buen Vivir dentro da Associação, como explica Pepe Frutos16, do Fórum Argentino de Rádios Comunitárias (FARCO) e um dos articuladores de programação da ALER, em uma entrevista concedida a este artigo.
O Buen Vivir é, institucionalmente, a visão da ALER, a aposta, a alternativa. Nesse sentido, eu vejo que também há diferenças, que às vezes conseguindo mais ou outras vezes menos, tratamos de sempre oferecer alternativas, oferecer esperança. Se estamos criticando o neoliberalismo, qual a saída. Se estamos criticando o extrativismo, se não é ele, o que é.17 (FRUTOS, informação verbal, tradução livre)
Sem respostas taxativas ou manuais sobre como fazer a Comunicação para o Buen Vivir, a ALER trabalha com a perspectiva de que essa visão de mundo é um guia, uma aspiração a se seguir, fruto de um entendimento de outro modelo de sociedade a se construir e sendo as práticas em comunicação como parte desse processo. Essa é a leitura compreendida, inclusive, por comunicadores no interior da Associação, como Hugo Ramírez18, atual coordenador-geral da rede:
A opção pelo Buen Vivir tem a ver com tudo o que tem sido o questionamento que já estávamos fazendo a tudo o que significa o progresso e o desenvolvimento. (...) Porque com este refrão, a pobreza continuou, as condições de desigualdade na América Latina continuaram, e as crises que estavam ocorrendo tinham sua correlação com esta maneira de ver o mundo. (...) É por isso que a bússola que guia este outro mundo em construção, porque não tínhamos e ainda não temos clareza sobre ele, (...) mas esse Buen Vivir tinha que acontecer, dedicar-se a sua construção, tínhamos que nos nutrir por ele. Então, como eu iria fazer, a partir da comunicação, ao menos começar a ler a realidade, na prática concreta, quais são os sinais que poderiam dar clareza a esta aspiração de construir um outro mundo, um outro modo civilizatório.19 (tradução livre)
Considerações finais
Como um conceito e práticas vindas a partir do Estado, de comunidades, de projetos de comunicação e cultura, entre outros, o Buen Vivir.Vivir Bien inaugura um novo tempo no pensamento latino-americano para os setores populares e as organizações sociais, e dentro disso, para os meios de comunicação popular, alternativa e comunitária. Mas mais do que compreendê-lo em sua origem, seu percurso e sua essência, desafiador é praticá-lo, para além de defendê-lo.
Entre as expressões discursivas, inclusive constitucionais, buscou-se trazer neste artigo a reconstrução de algumas ideias em torno do Vivir Bien, finalizando com a experiência de um processo comunicacional que decidiu se repensar e se reconfigurar a partir deste conceito, como é a Associação Latino-Americana de Educação e Comunicação Popular (ALER).
A continuidade, os avanços e as problemáticas do processo de construir práticas de um outro desenvolvimento em sociedade é uma aposta oportuna para momentos de ruptura e mudanças de paradigma, como o vivenciado nestes últimos anos, em face à pandemia da covid-19, que coloca em xeque as desigualdades no interior de cada país, e entre estes, e nas relações entre Estados, sociedade e natureza em uma escala global.
Referências
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CABRAL, María Cristina. Aportes de la comunicación popular al Buen Vivir. Revista Tram[p]as de la comunicación y la cultura. Nº 75 / diciembre de 2013. PoP: 126-130. Argentina: Facultad de Periodismo y Comunicación Social / UNLP, 2013.
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PERUZZO, Cicilia M. Krohling; VOLPATO, Marcelo de Oliveira. Comunicação para o Desenvolvimento: aspectos teóricos desde a modernização ao “buen vivir”. XXVII Encontro Anual da Compós, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, junho de 2018.
SCHAVELZON, Salvador. Plurinacionalidad y Vivir Bien/Buen Vivir - Dos conceptos leídos desde Bolivia y Ecuador post-constituyentes. Quito: Clacso/Abya Yala, 2014. Disponível em: https://www.clacso.org.ar/libreria-latinoamericana/contador/sumar_pdf.php?id_libro=1073 Acesso em: 12 de setembro de 2020.
SILVA JÚNIOR, Gladstone Leonel da. A Constituição Do Estado Plurinacional Da Bolívia Como Um Instrumento De Hegemonia De Um Projeto Popular Na América Latina. 345 f. Tese (Doutorado no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito) – Universidade Nacional de Brasília (UnB). Brasília, 2014. Disponível em: http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/18029/1/2014_GladstoneLeoneldaSilvaJunior.pdf Acesso em: 12 de setembro de 2020.
ZAFFARONI, Eugênio Raúl. La naturaleza como persona: pachamama y gaia. In: VARGAS, Chivi; MOISES, Idón (Coords.) Bolivia – nueva constitucion política del Estado: Conceptos elementales para sudesarrollo normativo, La Paz, 2010.
Notas
1. Una comunicación libre, intercultural, incluyente, diversa y participativa, en todos los ámbitos de la interacción social, por cualquier medio y forma, en su propia lengua y con sus propios símbolos.
2. El acceso universal a las tecnologías de información y comunicación.
3. La creación de medios de comunicación social, y al acceso en igualdad de condiciones al uso de las frecuencias del espectro radioeléctrico para la gestión de estaciones de radio y televisión públicas, privadas y comunitarias, y a bandas libres para la explotación de redes inalámbricas.”
(...)
Para construir la sociedad del Vivir Bien/Buen Vivir necesitamos una comunicación que construya la cultura de la convivencia. Necesitamos potenciar la comunicación popular que desarrolla batallas por las significaciones de un mundo justo, incluyente, promoviendo las expresiones de los pueblos que rompen sus silencios, que se visibilizan desde sus propias identidades, e irrumpen con su palabra interpeladora, impugnadora, contrahegemónica y expresiva de la construcción de una nueva sociedad”. Artigo “La comunicación y el paradigma del Vivir Bien/Buen Vivir”, publicado no portal América Latina en Movimiento (ALAI). Disponível em: https://www.alainet.org/es/articulo/178010. Acesso em: 12 de setembro de 2020
– rechazar la universalidad de la idea de desarrollo;
– eliminar la dicotomía superior-inferior en la educación y la comunicación;
– realizar la descolonización de la educación y la comunicación en América Latina;
– asumir el contexto como referencia, la interacción como clave y la ética como garante de la sostenibilidad de nuestros modos de vida;
– privilegiar las preguntas locales sobre las respuestas universales;
– preferir las historias locales sobre los diseños globales como fuente de inspiración;
– aprender inventando desde lo local (para no perecer imitando desde lo global).”