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                <journal-title>Revista Opinião Jurídica</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R. Opin. Jur.</abbrev-journal-title>
            </journal-title-group>
            <issn pub-type="ppub">1806-0420</issn>
            <issn pub-type="epub">2447-6641</issn>
            <publisher>
                <publisher-name>Centro Universitário Christus</publisher-name>
            </publisher>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.12662/2447-6641oj.v22i40.p122-136.2024</article-id>
            <article-id pub-id-type="publisher-id">00006</article-id>
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                <subj-group subj-group-type="heading">
                    <subject>Artigo</subject>
                </subj-group>
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                <article-title>NÃO SINTA FALTA DE FOUCAULT: ESTRATÉGIAS PARA AVALIAÇÃO DE ARTIGOS
                    ACADÊMICOS</article-title>
                <trans-title-group xml:lang="en">
                    <trans-title>DON’T MISS FOUCAULT: STRATEGIES FOR ACADEMIC PAPERS
                        EVALUATION</trans-title>
                </trans-title-group>
                <trans-title-group xml:lang="es">
                    <trans-title>NO EXTRAÑES A FOUCAULT: ESTRATEGIAS PARA LA EVALUACIÓN DE TRABAJOS
                        ACADÉMICOS</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-8417-1517</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Lago</surname>
                        <given-names>Pablo Antonio</given-names>
                    </name>
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                </contrib>
            </contrib-group>
            <aff id="aff1">
                <label>*</label>
                <institution content-type="normalized">Faculdade de Direito da UFMG</institution>
                <addr-line>
                    <named-content content-type="city">Belo Horizonte</named-content>
                        <named-content content-type="state">MG</named-content>
                </addr-line>
                <country country="BR">BR</country>
                <email>pabloa.lago@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Doutor e Mestre em Filosofia e Teoria Geral do
                    Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) - Largo de
                    São Francisco. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do
                    Paraná (PUCPR) - campus Curitiba. Professor substituto na Faculdade de Direito
                    da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - Departamento de Direito do
                    Trabalho e Introdução ao Estudo do Direito. Professor convidado na pós-graduação
                    lato sensu em Direito das Famílias e Sucessões da PUCPR. Faculdade de Direito da
                    UFMG – Belo Horizonte, MG, BR. E-mail: pabloa.lago@gmail.com</institution>
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            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <label>Editora responsável:</label> <p>Profa. Dra. Fayga Bedê</p>
                    <p><ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://orcid.org/0000-0001-6444-2631"
                            >https://orcid.org/0000-0001-6444-2631</ext-link></p>
                </fn>
            </author-notes>
            <!--<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
                <day>10</day>
                <month>08</month>
                <year>2024</year>
            </pub-date>
            <pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
                <season>May-Aug</season>
                <year>2024</year>
            </pub-date>-->
            <pub-date pub-type="epub-ppub">
                <season>May-Aug</season>
                <year>2024</year>
            </pub-date>
            <volume>22</volume>
            <issue>40</issue>
            <fpage>122</fpage>
            <lpage>136</lpage>
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                    <day>26</day>
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                    <year>2024</year>
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                <license license-type="open-access"
                    xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/" xml:lang="pt">
                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
                        distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
                        que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>A comunidade científica espera publicações de qualidade em revistas
                        acadêmicas. Nesse contexto, a tarefa dos pareceristas, em especial nos
                        sistemas de revisão por pares às cegas (<italic>blind review</italic>),
                        mostra-se fundamental. Mas como elaborar um bom parecer? Este trabalho busca
                        responder a essa questão, apresentando diferentes parâmetros e estratégias
                        que podem ser observados por pareceristas em suas atividades.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Metodologia:</title>
                    <p>Análise de bibliografia dedicada ao tema, em especial de língua inglesa, em
                        estudo descritivo, qualitativo, do tipo relato de experiência.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>A pesquisa culminou em uma série de parâmetros que podem ser observados por
                        pareceristas no exercício de suas funções, desde aceitar ou não avaliar um
                        artigo acadêmico, até a redação e envio do parecer para o editor.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contribuições:</title>
                    <p>Ao apresentar dicas e estratégias para avaliação adequada de artigos
                        acadêmicos, este trabalho facilita as atividades de pareceristas e editores
                        e supre uma importante lacuna na formação de muitos pesquisadores.</p>
                </sec>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <sec>
                    <title>Objective:</title>
                    <p>The scientific community expects high-quality publications in academic
                        journals. In this context, the role of peer reviewers, especially in blind
                        peer review systems, proves to be crucial. But how to craft a good review?
                        This work answers this question by presenting various parameters and
                        strategies that peer reviewers can consider in their activities.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Methodology:</title>
                    <p>Analysis of literature dedicated to the topic, especially in English, in a
                        descriptive, qualitative study, on author’s experience report kind.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Results:</title>
                    <p>The research presents some criteria that peer reviewers can consider in
                        performing their duties, ranging from the acceptance to review an academic
                        paper to drafting and submitting the review to the editor.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contributions:</title>
                    <p>By providing tips and strategies for the proper evaluation of academic
                        papers, this work facilitates the tasks of peer reviewers and editors,
                        addressing a significant gap in the training of many researchers.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <trans-abstract xml:lang="es">
                <title>RESUMEN</title>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>La comunidad científica espera publicaciones de calidad en revistas
                        académicas. En este contexto, el papel de los revisores, especialmente en
                        sistemas de revisión por pares a ciegas, resulta fundamental. Pero, ¿cómo
                        redactar una buena revisión? Este trabajo busca responder a esta pregunta,
                        presentando diversos parámetros y estrategias que los revisores pueden tener
                        en cuenta en sus actividades.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Metodología:</title>
                    <p>Análisis de bibliografía dedicada al tema, especialmente en inglés, en un
                        estudio descriptivo, cualitativo, del tipo relato de experiencia.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>La investigación ha culminado en una serie de criterios que los revisores
                        pueden considerar al desempeñar sus funciones, desde aceptar o rechazar la
                        revisión de un artículo académico hasta redactar y enviar la revisión al
                        editor.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Contribuciones:</title>
                    <p>Al proporcionar consejos y estrategias para la evaluación adecuada de
                        artículos académicos, este trabajo facilita las tareas de los revisores y
                        editores, abordando una brecha significativa en la formación de muchos
                        investigadores.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>Revisão acadêmica</kwd>
                <kwd>parecerista</kwd>
                <kwd>estratégias para avaliação</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>Academic review</kwd>
                <kwd>peer reviewer</kwd>
                <kwd>evaluation strategies</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="es">
                <title>Palabras clave:</title>
                <kwd>Revisión académica</kwd>
                <kwd>revisor</kwd>
                <kwd>estrategias de avaliación</kwd>
            </kwd-group>
            <counts>
                <fig-count count="0"/>
                <table-count count="0"/>
                <equation-count count="0"/>
                <ref-count count="11"/>
            </counts>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>1 INTRODUÇÃO</title>
            <p>“Como é difícil publicar na sua área”, disse-me um amigo, doutor em Biologia Marinha.
                Sua fala teve lugar quando comentei que tivera um artigo rejeitado por uma revista
                acadêmica. Enquanto um dos pareceres, elogioso ao trabalho, sugeria apenas a
                inclusão de mais autores brasileiros, o outro se limitou à frase “senti falta de
                Foucault neste debate”. Aparentemente, também houve um terceiro parecer – mas não
                tive acesso ao seu conteúdo, já que o campo correspondente aos comentários veio em
                branco no <italic>e-mail</italic> Fora isso, nenhum motivo que fundamentasse, de
                fato, a rejeição, ou considerações que pudessem ser úteis para o aprimoramento do
                trabalho.</p>
            <p>Situações como esta são relativamente comuns, notadamente quando se trata de
                trabalhos teóricos e baseados em revisão bibliográfica. Certamente, ninguém fica
                feliz em receber um parecer negativo, mas alguns pareceres (ou a falta deles) são
                potencialmente desestimulantes. Por um lado, colocamo-nos a refletir sobre as
                agruras pelas quais passam os pesquisadores em geral, subjugados pela lógica do
                “publique ou pereça” (<italic>publish or perish</italic>). Podemos criticar “o
                sistema”, que na forma como está estabelecido é contraproducente em muitas áreas de
                pesquisa, como tem se mostrado a área jurídica<xref ref-type="fn" rid="fn1"
                >1</xref>. Em contrapartica, é possível pensar sobre o papel e as responsabilidades
                dos pareceristas e dos editores de periódicos, que podem contribuir para a
                perpetuação do lado negativo deste modelo.</p>
            <p>Meu objetivo com este texto está centrado neste segundo ponto, em especial, nos
                cuidados que devem ser observados pelos pareceristas. É preciso que haja clareza
                sobre as métricas adotadas, para que o resultado da avaliação seja justo e
                construtivo. Aponto, portanto, alguns dos parâmetros que considero mais relevantes,
                considerando, em especial, a bibliografia dedicada ao tema e a minha experiência com
                publicações na área jurídica. As visões aqui apresentadas também podem ser úteis
                para outras áreas das ciências sociais e humanas. Há, em todas elas, significativo
                risco de subjetivismos e discricionariedade por parte dos pareceristas.  </p>
            <p>É interessante observar como muitos pareceristas, embora pressuponham para que serve
                a avaliação<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>, nunca foram ensinados a realizar
                essa tarefa. Aprende-se na prática: avaliando, ainda que de forma intuitiva, os
                trabalhos de terceiros, ou então estudando as avaliações feitas sobre os próprios
                    trabalhos<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>. Daí a importância de se
                refletir acerca dos parâmetros de uma boa avaliação. Sem essa reflexão, perpetuam-se
                visões contraproducentes para a própria comunidade científica.</p>
            <p>Ter um padrão adequado de avaliação de artigos acadêmicos não é importante apenas
                para pareceristas e editores, mas para pesquisadores em geral. Saber os parâmetros
                pelos quais seu trabalho será avaliado lhe permite ser seu próprio “avaliador
                inicial” – de forma análoga ao advogado que, tradicionalmente, é considerado o
                “primeiro juiz da causa”. Em última análise, os elementos analisados pelos
                pareceristas constituem o que se entende por um bom ou mau trabalho acadêmico.</p>
            <p>Divido este trabalho em cinco partes. Na primeira, analiso os fatores que devemos
                levar em consideração antes de aceitarmos avaliar um artigo (como ter clareza sobre
                as finalidades de uma revisão, o tempo disponível para a tarefa, dentre outros). Na
                segunda e terceira partes, trato da avaliação do artigo e da redação do parecer, com
                observações que variam da leitura inicial do texto à recomendação final (como
                aceitação, aceitação com alterações, ou rejeição do artigo). Em um quarto momento,
                exploro o papel dos editores, que podem fornecer subsídios importantes aos
                pareceristas, bem como <italic>feedbacks</italic> a partir da própria decisão
                editorial. Por fim, examino algumas questões éticas referentes à avaliação de
                artigos acadêmicos, como o tratamento que deve ser dispensado aos autores, situações
                de conflito de interesses e o dever de confidencialidade.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>2 ACEITANDO OU NÃO A TAREFA DE AVALIAR UM ARTIGO ACADÊMICO</title>
            <p>Avaliar um artigo é se comprometer com a realização de uma análise bem-feita e dentro
                de certos prazos. Logo, antes mesmo de iniciar esta tarefa, é preciso atentar ao
                tempo que será despendido. Editores têm consciência de como a vida dos pareceristas
                pode ser atribulada<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>; contudo não são capazes
                de adivinhar a efetiva disponibilidade de cada um. Disso se segue que, ao receber o
                convite para avaliar um artigo, o parecerista deve verificar sua disponibilidade e
                avisar o quanto antes ao editor, aceitando ou não a tarefa. Assim, evitam-se demoras
                desnecessárias e se garante maior agilidade na busca por outros pareceristas. Não é
                demais reforçar que, caso tenha aceitado a tarefa, é preciso submeter o parecer
                dentro do prazo fixado pelos editores. Se não foi fixado um prazo, vale se perguntar
                quanto tempo gostaria que outros pareceristas levassem para analisar os próprios
                trabalhos acadêmicos.</p>
            <p>Os convites para a avaliação de artigos, em regra, são acompanhados do texto completo
                ou, no mínimo, de seu resumo. Isso permite ao parecerista verificar se tem o domínio
                do tema necessário para realizar a tarefa. Mas <italic>quanto</italic> deve dominar
                o tema? Esta é uma questão um tanto pessoal. Podemos imaginar situações
                paradigmáticas em que a avaliação não deveria ser feita – dificilmente um jurista,
                por exemplo, estaria em condições de avaliar um estudo de medicina. Contudo, por
                vezes, uma boa compreensão do campo em que é feita a pesquisa, aliada ao
                conhecimento das regras metodológicas pertinentes, são mais que suficientes<xref
                    ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>.</p>
            <p>Isso significa que é fundamental ter clareza sobre <italic>o que deve ser avaliado
                    antes de aceitar elaborar um parecer</italic>. Talvez o parecerista não domine
                com tanta profundidade um ou outro expoente teórico do trabalho; ainda assim, pode
                apresentar considerações valiosas do ponto de vista estrutural ou metodológico. A
                comunidade científica espera que o trabalho esteja bem construído (indicando
                claramente suas perguntas e hipóteses), que traga algum tipo de contribuição ao
                campo da pesquisa e que observe os critérios metodológicos e argumentativos
                necessários para enfrentar as questões analisadas (<xref ref-type="bibr" rid="B3"
                    >Gross, 2020, p. 7-8</xref>). Ter consciência do objetivo da avaliação é muito
                importante, e fica evidente que ela não pode ocorrer de modo “instintivo”. Em outras
                palavras, não se trata de um “gostar” ou não do trabalho, não sendo relevante a
                concordância pessoal do parecerista com as conclusões apresentadas pelo autor.</p>
            <p>A avaliação é uma tarefa pessoal e, em especial nos casos de <italic>blind
                    review</italic>, deve-se respeitar algumas regras de confidencialidade. Tais
                regras serão analisadas mais adiante, porém vale ressaltar, desde já, que a
                pessoalidade e a confidencialidade limitam a possibilidade de delegar a tarefa para
                terceiros. Se, por diferentes razões, não for possível avaliar o texto, o
                parecerista indicado não deve passar a tarefa para outra pessoa. Não se pode, por
                exemplo, solicitar a orientandos que façam a avaliação e, então, remeter o parecer
                ao editor. Contudo, nada impede que, ao redigir a recusa, o parecerista indique
                possíveis nomes e contatos para a realização da tarefa. Em qualquer caso, a escolha
                dos pareceristas compete sempre ao editor.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>3 LENDO O ARTIGO</title>
            <p>Só é possível revisar adequadamente um trabalho que tenha sido lido, e dividir a
                leitura em diferentes etapas pode ser particularmente útil ao parecerista – até
                mesmo para determinar a profundidade do parecer.</p>
            <p>A primeira etapa corresponde a algo similar à chamada <italic>leitura
                    inspecional</italic>, como apresentada por Mortimer Adler e Charles Van Doren em
                sua clássica obra <italic>Como Ler Livros: o guia clássico para a leitura
                    inteligente</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Adler; Van Doren, 2010, p.
                    51-62</xref>). Em certa medida, o parecerista já teve um primeiro contato com o
                trabalho antes mesmo de aceitar revisá-lo (terá, no mínimo, lido o resumo). Nesse
                momento, é importante se ter uma noção geral da forma como o trabalho está
                estruturado – o que envolve uma sondagem sistemática do texto, como verificar o
                título, a extensão, a quantidade de partes em que está dividido, a adequação às
                normas da revista, dentre outros.</p>
            <p>A leitura inspecional, enquanto sondagem sistemática do texto, é útil porque pode
                indicar questões prejudiciais à publicação. Se, por exemplo, o texto tem 60 páginas
                e a revista tem como regra editorial publicar artigos de até 30 páginas, o texto
                deve ser rejeitado de plano. O autor deverá ou reescrever o texto e o resubmeter,
                adequando-o às regras de publicação, ou então procurar outra revista.
                Particularmente, é durante a leitura inspecional que verifico outras questões, como
                a adequação do trabalho à linha editorial, ou até mesmo se o trabalho já foi
                publicado pelo autor em outra revista. Pesquisar o título ou trechos do trabalho no
                    <italic>Google</italic> pode revelar que a publicação não é inédita, o que
                impede sua publicação na maioria das revistas acadêmicas, que exigem o ineditismo.
                Essa investigação pode até mesmo indicar a ocorrência de plágios, que são ainda mais
                problemáticos, dadas as questões de integridade acadêmica envolvidas. Em geral,
                todos esses pontos já são verificados pelos editores antes de encaminhar o texto
                para revisores, mas considerando o volume de trabalhos recebido, pode ocorrer de
                alguns problemas passarem despercebidos.</p>
            <p>Além da sondagem sistemática, a leitura inspecional também envolve uma leitura
                superficial do texto. Como ressaltam <xref ref-type="bibr" rid="B1">Adler e Van
                    Doren (2010, p. 55)</xref>, o “superficial” não deve ser compreendido de forma
                negativa, mas sim como um momento que também demanda atenção do leitor. Ela envolve
                uma importante regra de leitura, frequentemente esquecida: “ao encarar um livro
                difícil pela primeira vez, leia-o sem parar, isto é, leia-o sem se deter nos trechos
                mais espinhosos e sem refletir nos pontos que ainda permanecem incompreensíveis para
                você” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Adler; Van Doren, 2010, p. 55</xref>). A
                lógica por trás dessa regra se aplica à leitura de qualquer texto. Se, a todo
                momento, paramos a leitura para verificar expressões desconhecidas no dicionário, ou
                então ficamos relendo cada frase para garantir sua “plena compreensão”, corremos o
                risco de terminar a leitura sem um entendimento do texto como um todo<xref
                    ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>. Mas por quais razões tal regra pode ser útil
                aos pareceristas de trabalhos acadêmicos?</p>
            <p>Essa regra é especialmente relevante por três razões. A primeira, e mais evidente, é
                que ela permite uma visão do texto como um todo – indicando, desde logo, eventuais
                ajustes estruturais que poderão ser feitos, ou até mesmo partes que poderiam ser
                eliminadas sem prejuízo do sentido ou dos objetivos geral e específicos do
                    trabalho<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>.</p>
            <p>A segunda razão diz respeito à clareza e à correção do texto. O parecerista pode
                chegar à conclusão, após esta leitura inspecional superficial, que o texto apresenta
                tantos erros gramaticais ou problemas de redação que prejudicam sua compreensão
                geral. É claro que um ou outro equívoco pode ser indicado pelo parecerista; contudo,
                quando o texto como um todo não está claro, é preciso indicar esse fato no parecer,
                rejeitando o artigo e sugerindo que a redação seja revista antes de nova submissão.
                Nesse caso, não basta afirmar que o texto está “mal escrito”, o que seria muito
                vago. É importante indicar ao menos algumas passagens que ressaltem os problemas de
                redação ou de gramática e como eles interferem no entendimento do trabalho<xref
                    ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>.</p>
            <p>Vale ressaltar que apontamentos sobre a clareza ou correção do texto não se confundem
                com questões referentes ao <italic>estilo</italic> da escrita, que é algo muito
                pessoal e, por vezes, até mesmo intencional. Não simpatizar com determinado estilo
                não significa que o texto deva ser rejeitado ou mesmo modificado. É o caso de
                trabalhos jurídicos, nos quais é comum encontrar o mesmo estilo adotado por juristas
                no meio profissional. Algumas expressões, como “direito alienígena”, “remédio
                heroico”, “sentença vergastada”, dentre outras extravagâncias do meio forense, podem
                ser apontadas pelo parecerista e nada impede que, justificadamente, seja recomendada
                a alteração. Algo semelhante ocorre com a adoção da primeira pessoa na redação do
                trabalho, questão até hoje controvertida. Talvez não seja a mais apropriada em
                algumas ocasiões, como trabalhos de matemática, física ou biologia, mas pode ser até
                mesmo <italic>recomendada</italic> em outras, como trabalhos argumentativos, nos
                quais o autor se posiciona sobre determinadas questões<xref ref-type="fn" rid="fn9"
                    >9</xref>.</p>
            <p>A terceira razão para uma leitura inspecional por parte do parecerista envolve
                questões de inovação e maturidade do trabalho. Este é um ponto particularmente
                interessante em trabalhos jurídicos. Não é incomum encontrar trabalhos que se
                resumam a “tratar” de certo tema, em um estilo manualístico. O trabalho se mostra
                excessivamente plano e, muitas vezes, com pouca maturidade acadêmica. Imagine um
                trabalho que pretenda “abordar a prisão civil do devedor de alimentos”. Trata-se de
                tema sobre o qual já se escreveu muita coisa, que poderia muito bem constar em
                inúmeros manuais de Direito Civil ou Processual Civil. Se o texto não traz nada de
                inovador, limitando-se a um compilado do que já foi escrito em outros trabalhos, não
                há o que justifique sua publicação. A situação é diferente se o tema, ainda que de
                estudos frequentes, é analisado sob um novo viés – se o autor, por exemplo, analisa
                alguma divergência teórica relevante, posiciona-se justificadamente sobre certas
                questões, ou traz uma nova interpretação. Nesses casos, talvez seja necessário
                recomendar algumas alterações na redação, visando esclarecer os objetivos do texto e
                evitar a amplitude do “tratar sobre tal tema”. Seja como for, essa primeira leitura
                traz alguns esclarecimentos sobre a inovação ou não do trabalho, e até que ponto ele
                é capaz de contribuir com outros debates em curso dentro de uma área de
                pesquisa.</p>
            <p>Há, portanto, boas razões para realizar uma leitura inspecional do texto a ser
                revisado. Finda a leitura inspecional, na forma de uma sondagem sistemática e de uma
                leitura rápida, o parecerista terá uma ideia inicial da
                    <italic>profundidade</italic> do parecer a ser redigido. Se o texto não cumpre
                com regras editoriais, não está claro, não contribui com a área de estudo ou
                apresenta sérias dificuldades metodológicas, torna-se desnecessário apontar todos os
                problemas encontrados ao longo texto, ou mesmo realizar uma segunda leitura mais
                aprofundada. Nesse caso, basta tratar (sempre <italic>justificadamente</italic>) das
                questões que levam à rejeição do trabalho. Alguns apontamentos poderão ser feitos
                paralelamente à leitura inspecional do texto; o ponto é não se prender
                excessivamente em minúcias que só farão sentido caso o trabalho esteja minimamente
                apto para eventual publicação.</p>
            <p>Não encontrando problemas que levam à rejeição “de plano” do trabalho e tendo agora
                uma visão do todo, o parecerista pode realizar uma segunda leitura – desta vez,
                avaliando outras questões e elaborando, concomitantemente, as observações que
                comporão seu parecer. Essa segunda leitura se aproxima do que Adler e Van Doren
                denominam <italic>nível de leitura analítica</italic>, que visa a uma compreensão
                mais aprofundada do texto<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>. Transpondo esse
                nível de leitura para a tarefa da avaliação, é nessa fase que o parecerista se
                concentrará em aspectos do texto que não ficaram tão evidentes na primeira leitura.
                É a partir dela que serão feitas sugestões de melhoria ao trabalho, seja na redação,
                seja na sua estrutura, seja em matéria de conteúdo. O parecerista poderá ir além,
                recomendando leituras ou novas ideias que contribuam com as pesquisas realizadas
                pelo autor, o que se aproxima de uma etapa “comparativa” da leitura – que Adler e
                Van Doren compreendem como <italic>leitura sintópica</italic><xref ref-type="fn"
                    rid="fn11">11</xref>. Ressalte-se que vale sempre o bom-senso do parecerista, ao
                entender que está avaliando um trabalho realizado por outra pessoa e que não
                necessariamente corresponde a um trabalho que ele mesmo faria. Dessa forma, a
                indicação de leituras ou acréscimos deve fazer sentido dentro da estrutura e da
                metodologia do próprio trabalho avaliado, e não pode ser reflexo de suas predileções
                pessoais ou teóricas.</p>
            <p>Não posso deixar de encerrar este tópico com uma dica tão óbvia quanto fundamental,
                que antecede a própria leitura do texto ou da redação do parecer: não o faça se
                estiver de mau humor (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Ahmed, 2018</xref>). Não é
                correto descontarmos nossas insatisfações no trabalho alheio. Na dúvida, vale a
                regra de ouro: trate o trabalho alheio como gostaria de que o seu fosse tratado.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>4 REDIGINDO O PARECER</title>
            <p>Em geral, começamos a fazer alguns apontamentos sobre o texto que estamos revisando à
                medida que vamos avançando na leitura. Mas o parecer não corresponde à mera
                transposição desses apontamentos para uma caixa de texto, sem mais cuidados. O
                parecer deve ser construído de forma clara e deve <italic>sempre</italic> ser bem
                fundamentado. Mesmo um parecer pela aceitação do artigo, sem alterações, deve
                apresentar suas razões – indicando, por exemplo, o que o texto e a pesquisa trazem
                de inovador. É preciso ter em mente que o parecer visa, também, a auxiliar o
                trabalho do editor (que precisa selecionar, dentre inúmeros trabalhos, os que irão
                para publicação). Dessa forma, um parecer ao estilo “excelente trabalho! Para
                publicação” é tão irrelevante quanto um no modelo “trabalho ruim, deve ser
                rejeitado” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Starck, 2017, p. 31</xref>).</p>
            <p>Divido o parecer em ao menos três partes. Na primeira, costumo fazer um resumo de
                como compreendi o trabalho – indicando o que, após as leituras, entendi como sendo o
                tema, os objetivos, a metodologia adotada e as conclusões. Tal resumo deve ser
                redigido pelo parecerista em suas próprias palavras e, além de revelar o cuidado
                despendido na tarefa, ajuda o autor a compreender como terceiros interpretam seu
                texto. Por si só, o resumo já indica ao autor aquilo que eventualmente precisará ser
                mais bem esclarecido no trabalho<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>.</p>
            <p>Na sequência, em um grande bloco, incluo as observações feitas ao longo das leituras.
                É muito importante que as observações, sobretudo se forem sugestões de alteração,
                sejam as mais exatas possíveis. Podem indicar, por exemplo, a página e o parágrafo
                em que fora localizado algum erro. Afirmações muito genéricas, como “aprofundar os
                argumentos”, não dizem muita coisa. Afinal, pressupõe-se que, se o autor encaminhou
                o trabalho para publicação, é porque entende que está adequado para essa finalidade.
                A utilidade e pertinência de um parecer são inversamente proporcionais à sua
                vagueza.</p>
            <p>É na terceira e última parte que incluo o parecer propriamente dito, com as
                recomendações e as justificativas para a publicação, realização de alterações ou
                rejeição do trabalho. Entendo que não há trabalho tão ruim que não tenha ao menos um
                aspecto positivo: mesmo quando o parecer é pela rejeição, busco ressaltar algo de
                bom no trabalho, nem que seja a escolha do tema ou o esforço empreendido em sua
                realização e na busca pela publicação. Isso é particularmente interessante nas
                revisões às cegas, nas quais não sabemos quem é o autor do trabalho, se está
                iniciando a vida acadêmica, ou se contou com boas orientações em sua trajetória até
                então. A revisão deve ser construtiva, e nunca destrutiva.</p>
            <p>Isso não quer dizer que o parecerista não deva ser rigoroso com o
                    <italic>texto</italic>. O ponto é que esse rigor deve estar direcionado ao
                trabalho, e não à pessoa de seu autor<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref>. A
                revisão deve ser sempre <italic>objetiva</italic>, tendo como alvo o que foi
                efetivamente escrito. Fazer inferências sobre o caráter, postura ou o conhecimento
                do autor é profundamente inadequado, para não dizer antiético. Mesmo em situações
                sérias, como plágios, o mais correto é alertar o fato ao editor e indicar a fonte
                que não fora referenciada, rejeitando a publicação do trabalho.</p>
            <p>Há quem trabalhe com outras formas de divisão do parecer. É possível separar
                comentários e observações de cunho metodológico em uma parte, incluir pontos de
                gramática ou redação em outra, ou mesmo separar um espaço para ressaltar
                interpretações distintas sobre autores citados ao longo do trabalho.
                Independentemente da “natureza” dos comentários, é mais simples e objetivo fazer com
                que sigam a própria estrutura do texto apresentada pelo autor.</p>
            <p>No texto <italic>The Task of a Referee</italic>, <xref ref-type="bibr" rid="B8">Smith
                    (1990)</xref> apresenta diferentes questões que podem ser consideradas pelo
                parecerista. De todas as indicadas, uma é particularmente importante: <italic>o que
                    o leitor pode aprender com este trabalho?</italic> Se o trabalho não permite ao
                leitor aprender qualquer coisa, então não é publicável (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B8">Smith, 1990, p. 4</xref>). Se algo pode ser aprendido, é importante que
                conste no parecer – até porque constitui uma justificativa relevante para a
                publicação. Não é demais reforçar que, mesmo quando consideramos um trabalho
                excepcional e recomendamos a sua publicação, é preciso que essa recomendação ocorra
                de forma justificada.</p>
            <p>A recomendação final pode assumir algumas formas. As mais comuns são:</p>
            <list list-type="simple">
                <list-item>
                    <p>a) aceitar;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>b) aceitar, com alterações menores;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>c) aceitar, com alterações maiores;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>d) rejeitar e ressubmeter e;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>e) rejeitar o artigo.</p>
                </list-item>
            </list>
            <p>Não há uma “receita de bolo” que indique, de antemão, o que constitui alterações
                menores, maiores ou quais as hipóteses de ressubmissão de um trabalho.
                Particularmente, na ausência de mais considerações dentro das políticas das próprias
                revistas, levo em consideração o tempo e a energia que deverão ser gastos pelo autor
                nas correções. Há casos paradigmáticos de alterações menores, como equívocos
                gramaticais ou de redação. Alterações maiores podem se relacionar com questões
                estruturais do texto e demandariam mais tempo para serem ajustadas. Já a rejeição e
                a ressubmissão indica ao menos duas coisas: ou que o trabalho pode ser submetido
                para outra revista (considerando, por exemplo, questões de escopo)<xref
                    ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>, ou então que as alterações são tão profundas
                e que levariam tempo para serem realizadas, o que justifica a abertura de novo
                processo de submissão, eventualmente na mesma revista.</p>
            <p>É importante atentar ao fato de que algumas revistas trabalham com fichas ou
                checklists, na forma de questões de múltipla escolha. Deve-se manter a coerência
                entre o que é indicado nessas fichas e o texto da revisão. De qualquer modo, o ideal
                é que o parecerista não se contente apenas com esse checklist – as escolhas feitas
                precisam, de alguma forma, ser justificadas. É comum que, além dessa ficha, conste
                ao menos uma caixa de texto no qual o parecer possa ser incluído. Se não constar, ou
                se entender que há algum descompasso entre a ficha e o texto de sua revisão, o
                parecerista pode alertar o editor na caixa de mensagens confidenciais ou outra forma
                de contato que encontrar disponível.</p>
            <p>Não é demais lembrar que, antes de submeter o parecer, é importante revisá-lo e
                corrigir eventuais erros. Uma boa estratégia é revisar e submeter o parecer apenas
                no dia seguinte, com a mente descansada.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>5 EDITOR: COMO AUXILIAR NAS TAREFAS DO PARECERISTA?</title>
            <p>O foco deste trabalho está nas tarefas do parecerista. Contudo, os editores das
                revistas podem, de diferentes maneiras, facilitar sua missão. Há ao menos três
                maneiras pelas quais esse apoio pode ocorrer.</p>
            <p>Junto ao pedido de avaliação, além do resumo do trabalho (e, eventualmente, do texto
                completo), é interessante que o editor alerte o parecerista sobre o que gostaria de
                que fosse avaliado e o escopo da própria revista. Pode, para esse fim, incluir links
                no <italic>e-mail</italic> para as páginas correspondentes da revista, incluir
                exemplos de pareceres que foram úteis ao trabalho editorial, dentre outros. Em
                última análise, ao indicar o que gostaria de que fosse avaliado, o editor apresenta
                um guia ao parecerista e facilita o trabalho de todos os envolvidos.</p>
            <p>Além disso, o editor também pode dar diferentes retornos ao parecerista. De um lado,
                pode dar um retorno direto sobre o parecer, indo além de agradecimentos e incluindo
                eventuais sugestões – pode, inclusive, solicitar complementações ou esclarecimentos.
                De outro lado, pode encaminhar aos pareceristas o parecer editorial, incluindo os
                demais pareceres eventualmente elaborados sobre o trabalho<xref ref-type="fn"
                    rid="fn15">15</xref>. Nesse último caso, o parecerista tem um retorno
                particularmente rico, pois estará em contato com o trabalho feito por outros
                pareceristas e terá clareza sobre o impacto da sua própria avaliação.</p>
            <p>Por fim, vale a pena vincular a revista às plataformas e aos sistemas que, de algum
                modo, reconheçam o trabalho feito por pareceristas. Sabe-se que a revisão de artigos
                acadêmicos é uma tarefa demandante e, na maioria das vezes, feita gratuitamente. Não
                sem razão, qualquer tipo de reconhecimento pode motivar o parecerista a seguir com
                seu bom trabalho ou aprimorá-lo<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref>.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>6 APONTAMENTOS SOBRE A ÉTICA DA AVALIAÇÃO</title>
            <p>Há várias regras éticas que permeiam o processo de avaliação de um artigo acadêmico.
                A “regra de ouro”, como mencionado, envolve analisar o artigo como gostaria de que
                seus trabalhos fossem analisados. Essa regra não se aplica apenas ao trabalho, mas
                também ao seu autor – trate-o como gostaria de ser tratado<xref ref-type="fn"
                    rid="fn17">17</xref>. Isso não significa que o parecer não deva, em hipótese
                alguma, ser rude ou cruel. É possível ser rígido, mantendo a cordialidade e tendo a
                consciência de que, do outro lado, há alguém que, assim como você, passa pelas
                mesmas dificuldades da vida acadêmica. Mas, além dessa regra, há dois pontos que
                merecem especial atenção: a confidencialidade e os conflitos de interesse.</p>
            <p>O parecerista não deve compartilhar com terceiros informações ou dados que constem no
                trabalho que está avaliando, mantendo o sigilo sobre tudo aquilo que for sensível em
                sua tarefa. Nisso consiste a confidencialidade. Até porque eventuais ideias e
                argumentos utilizados no texto sob avaliação podem ser indevidamente utilizados por
                outros pesquisadores.</p>
            <p>Já os conflitos de interesse podem aparecer de diferentes formas. O mais comum é
                quando somos amigos, orientadores ou parentes do autor. Mesmo nos casos em que a
                avaliação ocorre às cegas, há situações nas quais se descobre a identidade do autor
                – como pelo estilo de escrita, ou na hipótese em que alguém comenta ter submetido um
                artigo cujas características batem exatamente com as do trabalho que aguarda nossa
                avaliação. Nesses casos, o parecerista deve informar ao editor a ocorrência deste
                conflito.</p>
            <p>Há outros tipos de conflitos de interesses, como no caso em que o parecerista
                trabalhe em alguma empresa ou projeto que estejam envolvidos no artigo sob análise –
                situação mais comum em outros campos, como das indústrias médicas e farmacêuticas
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Wager; Godlee; Jefferson, 2002, p. 10</xref>).
                Outra forma de conflito de interesses versa sobre questões políticas e/ou
                ideológicas, como nos casos em que guardamos profunda divergência com as ideias
                abordadas no texto (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Hames, 2007, p. 166</xref>).
                Assim, por exemplo, alguém contrário ao abortamento, por razões morais ou
                religiosas, poderá se considerar insuficientemente imparcial para avaliar um artigo
                que defenda diferentes contextos para sua ocorrência. </p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>7 CONCLUSÃO</title>
            <p>Nem toda pesquisa está apta a ser publicada. No contexto científico, a tarefa
                realizada por pareceristas envolve filtrar os trabalhos que serão divulgados para a
                comunidade acadêmica, viabilizando debates e novas pesquisas. Mas não é só: um bom
                parecer também contribui em nível individual, apresentando ao autor do artigo
                diferentes pontos de vista e sugestões de melhoria. Pareceres podem impactar,
                positiva ou negativamente, nas pretensões acadêmicas de muitos pesquisadores.</p>
            <p>Isso significa que o parecer deve observar alguns critérios mínimos de qualidade. A
                mera aceitação ou rejeição do artigo, sem mais justificativas (ou com justificativas
                insatisfatórias), em nada contribui. Na realidade, além de dificultar a vida de
                editores e desanimar autores, pareceres ruins favorecem uma situação conhecida como
                “revisões em cascata” (<italic>cascading peer review</italic>) – diante de um
                parecer negativo, muitos autores sequer buscam a melhoria do trabalho,
                apresentando-o para outras revistas até conseguir a aceitação. Como resultado, um
                mesmo trabalho pode ser avaliado múltiplas vezes, sendo encaminhado, eventualmente,
                mais de uma vez para o mesmo parecerista (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Starck,
                    2017, p. 35-36</xref>). Certamente, outros fatores alimentam esse estado de
                coisas que vem assombrando a realidade editorial; mas não quer dizer que
                pareceristas estejam isentos de qualquer responsabilidade.</p>
            <p>Ao longo deste texto, apresentei uma série de orientações e estratégias para a
                elaboração de pareceres sobre artigos acadêmicos. Cedo ou tarde, todo pesquisador é
                chamado a avaliar trabalhos de terceiros. Contudo, poucos foram educados nessa
                tarefa – muitos aprenderam na prática, considerando suas próprias experiências como
                autores ou pareceristas, replicando-as indefinidamente. A clareza sobre o que deve
                ser feito e a disposição para empreender adequadamente essa função são fundamentais.
                Sistematizar diferentes modelos e critérios para a elaboração de pareceres revela-se
                útil, em especial para os que iniciam a vida acadêmica e se deparam, pela primeira
                vez, com a importante missão de revisar um trabalho científico. Logo, não sinta
                falta de Foucault ou outros autores nos trabalhos alheios – mas, se preciso for,
                exponha essa carência de modo fundamentado.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>Marcelo Varella e Claudia Rosane Roesler sintetizam o estado da arte na avaliação
                    de publicações nesta área: <italic>“Com efeito, as metodologias de avaliação de
                        publicações na área de Direito, aplicadas nos últimos anos, dificilmente
                        podem ser consideradas adequadas. Em geral, cuida-se de uma mera importação
                        dos critérios de outras áreas de conhecimento, que não se adaptam à área de
                        Direito, ou então de critérios pouco claros, inclusive para os próprios
                        avaliadores. O sistema não é adequado, sobretudo, porque não valoriza os
                        trabalhos realmente utilizados pelos estudantes de mestrado e doutorado e
                        pelos pesquisadores da área. Além disso, gera efeitos negativos sobre a
                        própria área, que busca produzir textos apenas para atingir os critérios
                        propostos e, assim, obter melhor avaliação, mas que serão pouco lidos pelos
                        pares”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Varella; Roesler, 2012, p.
                        665</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B9">Starck (2017, p. 11)</xref>, (tradução
                    livre), <italic>“A revisão por pares foi estabelecida como uma ferramenta para
                        reconhecer as melhores pesquisas, e para filtrar da ciência aquelas que
                        foram mal concebidas, mal executadas ou mal interpretadas. […] Hoje, a
                        revisão por pares é o padrão industrial que garante que a pesquisa foi
                        conduzida de acordo com os princípios científicos, que a metodologia e a
                        documentação corretas foram aplicadas e que as interpretações estão
                        solidamente baseadas nos resultados”</italic>. Sobre as origens da avaliação
                    de trabalhos acadêmicos (o <italic>peer review</italic>), o mesmo autor afirma
                    que <italic>“A revisão por pares tem sido feita desde 1731, quando a Sociedade
                        pela Melhoria do Conhecimento Médico (Society for the Improvement of Medical
                        Knowledge), que posteriormente se tornou a Real Society de Edimburgo,
                        encaminhou comunicações científicas para serem comentadas por experts no
                        mesmo campo de conhecimento. Certamente, naquele tempo não havia qualquer
                        padrão de revisão, e levou séculos de desenvolvimento para se estabelecer um
                        processo de revisão formalizado e padronizado. […]  A revisão por pares,
                        como conhecemos hoje, estabeleceu-se apenas durante os anos que se seguiram
                        à Segunda Guerra Mundial, e foi institucionalizada em meados de 1980. […]
                        Hoje, coexistem muitas versões dos processos de revisão, cada um favorecendo
                        diferentes aspectos formais da comunicação de revisões com os autores; mas
                        seu núcleo intelectual, a revisão, é notadamente o mesmo em todos os
                        sistemas”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Starck, 2017, p.
                        13-14</xref>, tradução livre).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>É um pouco parecido com o “aprender a dar aulas” em alguns cursos universitários,
                    como é o caso do Direito. Alguns professores, notadamente durante a
                    pós-graduação, tiveram contato com monitorias ou outras práticas pedagógicas.
                    Contudo, muitos docentes ou tiveram um contato superficial com estas práticas,
                    ou mesmo nenhum contato. Isso faz com que se inspirem naqueles professores que
                    consideraram “bons” em sua própria formação – os quais, não necessariamente,
                    teriam sido bons professores para outros alunos ou em outros contextos.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn4">
                <label>4</label>
                <p>Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B3">Gross (2020, p. 5-6)</xref>,
                        <italic>“a vida acadêmica no Brasil pode ser bastante demandante. O
                        acadêmico brasileiro normalmente está dividido entre a preparação e
                        consecução das aulas (e tudo que a condução de um curso envolve), atividades
                        de pesquisa e, muitas vezes, também de gestão nas instituições em que atua.
                        Somam-se a isso a organização e a participação em eventos, a orientação de
                        alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado, a participação em
                        bancas de avaliação de trabalhos de graduação e pós-graduação, e a
                        participação em bancas de concursos”.</italic> A autora chama a atenção,
                    ainda, para a ausência de mais incentivos aos pareceristas, o que faz com que
                    priorizem atividades que revertam positivamente para a avaliação das
                    instituições às quais estão vinculados (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Gross,
                        2020, p. 6</xref>). Algo semelhante ocorre no contexto internacional, como
                    afirma <xref ref-type="bibr" rid="B9">Starck (2017, p. 47)</xref>, (tradução
                    livre), <italic>“Com a industrialização da ciência, o aumento exponencial do
                        número de manuscritos submetidos e as múltiplas submissões em cascata para
                        periódicos, todos estão sobrecarregados de trabalho, o benefício mútuo é
                        menos óbvio, e muitos colegas minimizam as tarefas de avaliação, pois não é
                        reconhecida para sua carreira”.</italic></p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn5">
                <label>5</label>
                <p>Não é incomum que alguns editores escolham pareceristas de áreas distintas, mas
                    que ainda assim tenham experiência com pesquisa e possam fazer observações
                    relevantes ao trabalho, como forma de complementar a revisão feita por alguém da
                    área. Alguém da Psicologia, por exemplo, pode ter considerações interessantes a
                    fazer em um trabalho jurídico sobre alienação parental.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn6">
                <label>6</label>
                <p>Adler e Van Doren trazem como exemplo a leitura do livro <italic>A Riqueza das
                        Nações</italic>, de Adam Smith: <italic>“[...] se insistir em tentar
                        entender tudo na primeira leitura, você não irá longe. Embrenhando-se nos
                        trechos difíceis, você não conseguirá captar os pontos-chave da obra de
                        Smith sobre os fatores que contribuem para a determinação do custo das
                        coisas, como salários, rendimentos, lucros, juros, o papel dos mercados, o
                        malefício dos monopólios, as razões em favor do livre mercado etc. Você se
                        apegará às árvores sem se ater à floresta. Você não vai ler bem em nenhum
                        nível”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Adler; Van Doren, 2010, p.
                        57</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn7">
                <label>7</label>
                <p>É o caso de boa parte dos tópicos “históricos” que aparecem em muitos trabalhos
                    jurídicos. Não é incomum que estudiosos do Direito, visando a transmitir certa
                    erudição ou mesmo por cacoete acadêmico, incluam apontamentos históricos em seus
                    trabalhos. O problema é que muitas vezes o tópico não guarda qualquer relação
                    com os objetivos do trabalho. É o caso de trabalho com o qual me deparei
                    recentemente, cujo tema era cyberbullying e que trazia inúmeros apontamentos
                    sobre direito romano. Trata-se de problema não apenas estrutural, mas vício
                    metodológico que aparece em muitos trabalhos acadêmicos. Para mais apontamentos
                    sobre metodologia do trabalho jurídico, recomendo o texto <italic>Não Fale do
                        Código de Hamurábi!</italic>, de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Oliveira
                        (2004, p. 137-167)</xref>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn8">
                <label>8</label>
                <p>Não é demais reforçar que não é obrigação do parecerista corrigir a gramática dos
                    trabalhos que avalia, até porque se pressupõe que o trabalho fora redigido de
                    acordo com a linguagem mais apropriada. Como afirma <xref ref-type="bibr"
                        rid="B9">Starck (2017, p. 31, tradução livre)</xref>: <italic>“um
                        parecerista não precisa corrigir os detalhes de linguagem ou mesmo editar o
                        texto. A edição da linguagem pode ser feita como uma cortesia aos autores,
                        mas não é esperada ou necessária. É responsabilidade do autor submeter o
                        manuscrito em uma linguagem clara, concisa e compreensível, e é
                        responsabilidade do editor realizar a edição do texto”</italic>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn9">
                <label>9</label>
                <p>Nesse sentido, James Pryor menciona as vantagens da adoção da primeira pessoa em
                    ensaios filosóficos. Dentre outras razões, a primeira pessoa permite contrastar
                    com clareza as ideias do próprio autor daquelas que são oriundas de outros
                    autores citados ao longo do trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Pryor,
                        2012</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn10">
                <label>10</label>
                <p><italic>A leitura analítica é a leitura propriamente dita, isto é, a leitura
                        completa, plena – a melhor leitura possível. [...] É digno de nota que a
                        leitura analítica é sempre intensamente ativa. Nesse nível, o leitor adquire
                        o livro – a metáfora é bem apropriada – e imiscui-se nele até que o livro
                        efetivamente lhe pertença. [...] Ler um livro analiticamente significa
                        mastigá-lo e digeri-lo”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Adler; Van
                        Doren, 2010, p. 39-40</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn11">
                <label>11</label>
                <p><italic>“Este nível também poderia ser chamado de leitura comparativa. A leitura
                        sintópica implica a leitura de muitos livros, ordenando-os mutuamente em
                        relação a um assunto sobre o qual todos versem. Mas comparar não é o
                        bastante. A leitura sintópica é mais sofisticada do que a mera comparação.
                        Com os livros em mãos, o leitor sintópico estará apto a desenvolver uma
                        análise que talvez não esteja em nenhum dos livros. Está claro, portanto,
                        que a leitura sintópica é a mais ativa e trabalhosa de todas”</italic>
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Adler; Van Doren, 2010, p. 40</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn12">
                <label>12</label>
                <p>Elizabeth Wager, Fiona Godlee e Tom Jefferson, em <italic>How to Survive Peer
                        Review</italic>, também ressaltam a relevância de um breve resumo do
                    trabalho: <italic>“Comece com um breve resumo do artigo. Isso mostra ao autor e
                        ao editor que você entendeu o artigo”</italic> (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B11">Wager; Godlee; Jefferson, 2002, p. 18</xref>, tradução livre).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn13">
                <label>13</label>
                <p>Nesse sentido, Bestoun Ahmed afirma: <italic>“Não seja tão severo. Ser duro, às
                        vezes, é ok, mas não seja rude. Costumo ser duro em algumas situações
                        específicas, como quando o autor não parece saber o que está fazendo, e
                        apenas ‘joga’ algumas palavras, ou quando o método é errado do começo ao
                        fim, ou quando pega partes de trabalhos de outros pesquisadores sem citação.
                        Certamente, seja duro (ou mesmo severo) quando encontrar plágios”</italic>
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Ahmed, 2018</xref>, tradução livre).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn14">
                <label>14</label>
                <p>Matthew Starck chama a atenção para a prática adotada por algumas revistas
                    internacionais: a “portabilidade de pareceres” (<italic>portable
                    review</italic>). A partir dela, manuscritos com méritos científicos
                    comprovados, que, por alguma razão, não possam ser aceitos em uma dada revista,
                    são transferidos junto aos pareceres para outras revistas que possam estar
                    interessadas no artigo (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Starck, 2017, p.
                        36</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn15">
                <label>15</label>
                <p>Nesse sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B4">Irene Hames (2007, p. 139</xref>,
                    tradução livre) afirma que <italic>“Pareceristas devem ser agradecidos por seus
                        pareceres, recebendo retornos sobre o resultado do processo de avaliação.
                        Idealmente, deveriam receber os comentários ao autor feitos por todos os
                        demais pareceristas (de forma anônima, a menos que se trate de revisão
                        aberta) e qualquer outro material relevante”.</italic></p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn16">
                <label>16</label>
                <p>Este é um ponto importante, considerando que a tarefa de revisão de artigos
                    acadêmicos dificilmente estará na lista de prioridades dos pesquisadores –
                    notadamente quando pensamos nos critérios utilizados em avaliações de desempenho
                    institucionais. Como lembra Clarissa Gross, a elaboração de pareceres não é
                    computada na avaliação da área do Direito pela Capes, e a valorização dessa
                    atividade poderia incentivar a elaboração de bons pareceres a médio e longo
                    prazo: <italic>“A pontuação dos pareceres em si criaria um incentivo para que
                        mais acadêmicos aceitassem os convites à elaboração deles e os enviasse às
                        equipes editoriais dos periódicos. É verdade que, a curto prazo, essa regra
                        de pontuação de pareceres não solucionaria por si mesma o problema da
                        elaboração de bons pareceres. Isso porque a regra contabilizaria a
                        quantidade de pareceres emitidos, mas não incorreria em controle de sua
                        qualidade. A médio ou longo prazo, no entanto, a regra poderia auxiliar
                        também nesse ponto por meio de um mecanismo reputacional: um editor
                        comprometido com a qualidade da avaliação, ao receber um parecer mal
                        elaborado, evitará pedir um novo parecer para o mesmo parecerista. Isso,
                        para o parecerista, em um cenário de valorização da elaboração de pareceres,
                        seria prejudicial pela diminuição de convites por parte dos
                        editores”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Gross, 2020, p.
                    6</xref>). Em nível internacional, há iniciativas que merecem destaque, como o
                        <italic>Web of Science Reviewer Recognition Service</italic> (anteriormente
                    conhecido como <italic>Publons</italic>). Trata-se de sistema que conecta
                    diferentes pareceristas e revistas, com indicadores quantitativos e qualitativos
                    relacionados aos pareceres produzidos.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn17">
                <label>17</label>
                <p>Em matéria publicada em setembro de 2016 pela revista <italic>Science</italic>,
                    Elisabeth Pain entrevistou uma série de pesquisadores sobre como revisar um
                    artigo acadêmico. Em um trecho, Dana Boatman-Reich, professora de neurologia na
                    Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, sugere a adoção de um “teste
                    de identidade”: <italic>“Antes de submeter um parecer, pergunto a mim mesma se
                        me sentiria confortável em ter minha identidade como parecerista revelada
                        aos autores. Passar por esse ‘teste de identidade’ ajuda a garantir que meu
                        parecer está suficientemente equilibrado e justo”</italic> (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B6">Pain, 2016</xref>, tradução livre).</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>REFERÊNCIAS</title>
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                    Acesso em: 23 dez. 2023.</mixed-citation>
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                    <comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://www.journals.elsevier.com/applied-soft-computing/news/tips-and-advice-when-you-review-a-scientific-paper."
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