RESUMO
Contextualização: O artigo investiga se as perspectivas filosóficas adotadas por Aristóteles e por Clive Staples Lewis, no que tange à amizade e seu reflexo na inserção do homem na comunidade política, têm sido discutidas no meio acadêmico. Aristóteles, na Ética a Nicômaco, e C. S. Lewis, no ensaio Os quatro amores, viram na amizade um fator importante para o florescimento humano e destacaram, com diferentes enfoques, sua relação com a inserção do homem na comunidade política. Aristóteles enfatizou o valor da amizade para a coesão social. C. S. Lewis, ao contrário, destacou seu potencial desagregador, posto que a amizade seleciona e exclui.
Objetivo: Averiguar se e em que medida a discussão entre as perspectivas filosóficas adotadas por Aristóteles e por C. S. Lewis, no que tange à amizade e seu reflexo na inserção do homem na comunidade política, tem sido feita no meio acadêmico, assim como reunir e resumir as evidências existentes e identificar lacunas inexploradas ou pouco exploradas.
Método: Trata-se de uma revisão sistemática da literatura nas principais bases de dados acadêmicas, sem restrição de data e de idioma, com o suporte do método Systematic Search Flow.
Resultados: As evidências documentais derivadas da revisão sistemática da literatura revelam que: (i) as pesquisas discutem amizade e democracia sem, no entanto, estabelecer uma correlação entre os filósofos, tampouco um confronto entre suas ideias; (ii) a amizade frequentemente é observada na dimensão dos relacionamentos interpessoais; (iii) o Brasil não está entre os países que pesquisam a intersecção entre amizade e democracia na perspectiva filosófica. Conclui-se que as discussões feitas no meio acadêmico não se aproximam, senão de modo muito indireto, das perspectivas filosóficas adotadas por Aristóteles e por C. S. Lewis, no que tange à amizade e seu reflexo na inserção do homem na comunidade política. Tais lacunas abrem espaço para futuras investigações no Brasil e no mundo, ao mesmo tempo que cumprem o propósito de estimular a reflexão ético-política de maior riqueza e criteriosidade em pesquisas futuras.
Palavras-chave: Amizade, democracia, Aristóteles, C. S. Lewis, revisão sistemática.
ABSTRACT
Background: This article investigates whether the philosophical perspectives adopted by Aristotle and Clive Staples Lewis, regarding friendship and its impact on Man's insertion into the political community, have been discussed in the scholastic world. Aristotle, in Nicomachean Ethics, and C. S. Lewis, in The Four Loves, saw friendship as an important factor for human flourishing and highlighted, with different approaches, its relationship with Man's insertion into the political community. Aristotle emphasized the value of friendship for social cohesion. C. S. Lewis, on the other hand, highlighted its disaggregating potential, since friendship selects and excludes.
Objective: To investigate whether and to what extent the discussion between the philosophical perspectives adopted by Aristotle and C. S. Lewis, regarding friendship and its impact on Man's insertion into the political community, has been carried out in the scholastic world, as well as to gather and summarize the existing evidence and to identify gaps.
Method: This is a systematic review of the literature in the main academic databases, without date or language restrictions, supported by the Systematic Search Flow method.
Results: The documentary evidence derived from the systematic literature review reveals that: (i) pieces of research discuss friendship and democracy without, however, establishing a correlation between philosophers, nor a confrontation between their ideas; (ii) friendship is often observed in the dimension of interpersonal relationships; (iii) Brazil is not among the countries that research the intersection between friendship and democracy from a philosophical perspective. The results show that the discussions held in the scholastic world do not approach, except in a very indirect way, the philosophical perspectives adopted by Aristotle and C. S. Lewis, with regard to friendship and its reflection on the insertion of Man in the political community. Such gaps open space for future research in Brazil and worldwide, while fulfilling the purpose of stimulating ethical-political reflection of greater richness and judiciousness in future research.
Keywords: Friendship, democracy, Aristotle, C. S. Lewis, systematic review.
RESUMEN
Antecedentes: Este artículo investiga si las perspectivas filosóficas adoptadas por Aristóteles y Clive Staples Lewis, respecto a la amistad y su impacto en la inclusión del hombre en la comunidad política, han sido discutidas en el ámbito académico. Aristóteles, en la Ética a Nicómaco, y C. S. Lewis, en el ensayo Los cuatro amores, veían la amistad como un factor importante para el desarrollo humano y destacaron, con diferentes enfoques, su relación con la inclusión del hombre en la comunidad política. Aristóteles enfatizó el valor de la amistad para la cohesión social. C. S. Lewis, por el contrario, destacó su potencial divisivo, ya que la amistad selecciona y excluye.
Objetivo: Determinar en qué medida la discusión entre las perspectivas filosóficas adoptadas por Aristóteles y C. S. Lewis, respecto de la amistad y su impacto en la inclusión del hombre en la comunidad política, se ha realizado en el ámbito académico, así como reunir y resumir la evidencia existente e identificar lagunas inexploradas o poco exploradas.
Método: Se trata de una revisión sistemática de la literatura en las principales bases de datos académicas, sin restricciones de fecha ni idioma, de acuerdo con el método Systematic Search Flow.
Resultados: La evidencia documental derivada de la revisión sistemática de la literatura revela que: (i) la investigación discute amistad y democracia sin, sin embargo, establecer una correlación entre los filósofos, ni una confrontación entre sus ideas; (ii) la amistad se observa a menudo en la dimensión de las relaciones interpersonales; (iii) Brasil no se encuentra entre los países que investigan la intersección entre amistad y democracia desde una perspectiva filosófica. Se concluye que las discusiones mantenidas en el ámbito académico no abordan, salvo de forma muy indirecta, las perspectivas filosóficas adoptadas por Aristóteles y C. S. Lewis, con respecto a la amistad y su reflexión sobre la inclusión del hombre en la comunidad política. Tales lagunas abren espacio para futuras investigaciones en Brasil y en el mundo, al tiempo que cumplen el propósito de estimular la reflexión ético-política de mayor riqueza y pensamiento crítico en futuras investigaciones.
Palabras clave: Amistad, democracia, Aristóteles, C. S. Lewis, revisión sistemática.
Artigos
Amizade e Democracia: uma Revisão Sistemática da Literatura a partir de Aristóteles e C. S. Lewis1
Friendship and Democracy: A Systematic Review of the Literature based on Aristotle and C. S. Lewis
Amistad y Democracia: una Revisión Sistemática de la Literatura a partir de Aristóteles y C. S. Lewis
Recepción: 19 Febrero 2025
Aprobación: 09 Junio 2025
No Ocidente, o cenário político caracteriza-se pela hegemonia do ideário democrático. Valoriza-se, simultaneamente, tanto a igualdade entre os cidadãos como o respeito à sua diferenciação. Nesse contexto, a amizade revela seu potencial para a coesão social e a formação de uma comunidade política.
O vínculo de amizade, de acordo com Aristóteles (2021), tinha o condão de unir as comunidades, merecendo, desse modo, a atenção dos legisladores. Inversamente, Lewis (2005) destacou o potencial desagregador da amizade na vida social e política, por se tratar de um tipo de relacionamento necessariamente seletivo e excludente.
Contemporaneamente, em que pese a amizade seja um tema abarcado na filosofia, no âmbito da ética e da antropologia como vínculo interpessoal necessário para o florescimento humano, não tem o merecido destaque no âmbito da filosofia política, tampouco como um vínculo social e suas contribuições para a coesão social.
Nessa perspectiva, a abordagem filosófica das noções de amizade e de democracia e sua possível interface, tratada tanto por Aristóteles (2021) como por Lewis (2005), com diferentes enfoques, merece uma releitura e análise.
O objetivo do presente artigo é averiguar se e como a relação entre amizade e democracia, confrontando as perspectivas de Aristóteles e C. S. Lewis, tem sido feita no meio acadêmico, o que possibilitará reunir e resumir as evidências existentes e identificar lacunas inexploradas ou pouco exploradas, com o propósito de estimular a reflexão ético-política de maior riqueza e criteriosidade em pesquisas futuras.
Para realizar a revisão sistemática da literatura nas principais bases de dados acadêmicas, foi utilizado o método Systematic Search Flow (SSF), desenvolvido por Ferenhof e Fernandes (2016), e aprimorado e otimizado por Ferenhof (2025) com a inclusão da inteligência artificial generativa como um recurso de apoio à pesquisa.
Na sequência, está o referencial teórico, no qual se justifica o porquê da escolha de Aristóteles e C. S. Lewis para tratar da relação entre os vínculos de amizade e democracia. Após, é explanada a metodologia de pesquisa e, na ordem, a análise dos resultados. Por último, apresentam-se a conclusão, as referências e os elementos pós-textuais que sustentam o conteúdo desenvolvido.
Apesar de a amizade ser um tipo de relacionamento humano conhecido e experimentado, não figura, historicamente, entre as formas de vinculação entre indivíduos mais investigadas na filosofia – seja nos campos mais delimitados da ética, da antropologia seja no âmbito da filosofia política.
Tanto a ética quanto a antropologia tendem a concentrar sua atenção nas dimensões internas do ser humano. Na ética, a atenção é direcionada à vontade, à liberdade, às paixões e às virtudes reconhecidas como clássicas – prudência, justiça, fortaleza e temperança – e, na antropologia, a atenção é voltada à alma, à memória, à cogitativa e aos sentidos externos, bem como a certas formas de estruturação da comunidade humana mais típicas, como a família e a sociedade (Stork, 2005; Martins Filho, 2006; Mondin, 2009).
Na filosofia política, a amizade não tem sido objeto privilegiado de atenção. Classicamente, o foco se dirige aos modos de organização do Estado com o fim de assegurar a felicidade dos cidadãos. Contemporaneamente, prioriza-se a compreensão das dinâmicas de poder dentro das sociedades humanas.
Entretanto, esse silêncio majoritário encontra uma exceção em Aristóteles. Na obra Ética a Nicômaco, o estagirita estabeleceu as bases para grande parte do pensamento acerca da ética, da política, da sociologia, do direito e talvez das próprias ciências humanas que lhe seguiria em todo o Ocidente. O texto divide-se em dez livros, em que dois deles – livro VIII e livro IX – têm como tema central e contínuo a amizade. Segundo Nehamas (2010), Aristóteles dedica a essa virtude muito mais discussão do que a qualquer outro assunto específico.
Para Aristóteles (2021), a amizade é uma forma de relacionamento que desempenha um papel crucial para a estruturação e continuidade das sociedades humanas, bem como para os próprios indivíduos que a experimentam. A profundidade singular com que Aristóteles analisa a amizade e sua importância para as comunidades humanas fundamentam a escolha desse filósofo no que diz respeito aos temas Amizade e Democracia.
Também tem destaque o realismo característico do estagirita, como assinala Rhodes (1980, p. 169, tradução nossa): “[…] quando Platão e Aristóteles debateram as relações entre amizade, comunismo e política, eles não estavam inventando abstrações morais; eles estavam estabelecendo paradigmas a partir da experiência”.
Séculos mais tarde, o escritor irlandês C. S. Lewis (1898-1963) deu continuidade à tarefa do estagirita de compreender a essência da amizade e suas implicações para as sociedades humanas. Em seu ensaio Os quatro amores, o literato dedica um capítulo inteiro – dos poucos que o livro possui – à Philia (φιλία), palavra que, no grego do próprio Aristóteles, designa com mais exatidão a amizade.
Lewis (2005) traça relevantes paralelos sobre a forma como esse conceito era compreendido em outras épocas (como as antiguidades grega e romana) do atribuído na contemporaneidade. Como apontado por Nehamas (2010), esse contraste é seu ponto de partida. C. S. Lewis realiza ainda uma profunda reflexão sobre o que se pode deduzir da mudança de paradigmas, ao longo dos séculos, em relação à amizade.
A amizade não é somente um fator de agregação entre os indivíduos, mas também de possível segregação e até hostilidade (Lewis, 2005). A peculiaridade em sua forma de pensar, em contraste com a visão aristotélica, fundamenta a escolha desse filósofo no que diz respeito aos temas Amizade e Democracia.
Aristóteles (2021, p. 1155) afirma que “[...] sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens”. Segundo o estagirita, a amizade pode ser definida como uma benevolência mútua, e reconhecida por ambas as partes, que se fundamenta sobre uma de três possíveis categorias para classificar os diferentes tipos de amizade:
a utilidade que o amigo proporciona;
o prazer despertado pela sua presença ou;
caráter virtuoso, que indica um modo mais profundo e significativo pelo próprio bem que o amigo em questão é.
É um perene objeto de debate acadêmico em que medida os dois primeiros tipos de amizade realmente a constituem. O terceiro tipo possui uma explícita proeminência: “[...] é certamente verdade que Aristóteles considera a amizade de homens moralmente bons como uma espécie de padrão ou caso central que tem tudo o que se espera da amizade” (Fortenbaugh, 1975, p. 56, tradução nossa).
Em um contexto político, o filósofo afirma que a amizade pode ser considerada o vínculo que une os Estados. Os legisladores, consoante Aristóteles (2021), suscitam a impressão de que zelam pela amizade mais do que pela própria justiça, pois sua maior preocupação e inimigo é a discórdia, a qual pode ser dissolvida pela amizade, semelhante, em medida significativa, à concórdia. Como esclarece Cooper (1977, p. 646, tradução nossa):
Aqueles que são amigos não precisam se tornar justos adicionalmente: visto que, como amigos, eles já sentem uma preocupação viva pelo bem-estar um do outro, eles já reconhecem razões para não ferir ou prejudicar e pode-se esperar que cheguem a um acordo sem ter que invocar regras estritas de justiça.
As demonstrações de amizade, como declarado por Aristóteles (2021), podem ser a mais importante forma de justiça, pois entre indivíduos que são verdadeiros amigos a justiça se afigura como que supérflua ou redundante, enquanto a mera justiça, sem amizade, não basta para a satisfação do ser humano.
Desse modo, a amizade se apresenta para Aristóteles dentro de um contexto político como uma espécie de condição sine qua non do bom funcionamento de uma sociedade e um objetivo para os seus governantes, com um comentário explícito a respeito dos legisladores. Cooper (1977, p. 648, tradução nossa) defende que “[...] na perspectiva de Aristóteles, amizade cívica, e não apenas pessoal, é um componente essencial no florescimento da vida humana”.
A comunidade política visa ao interesse da totalidade da vida, e uma vida plenamente satisfeita requer certas formas de associação até mesmo como a laboral, como os indivíduos que navegam juntos, combatem juntos, cultivam juntos, unem-se para os rituais de cunho religioso etc. Em cada uma dessas associações, segundo o filósofo, a amizade se faz presente e vincula os indivíduos na medida em que as atividades são desempenhadas em conjunto.
Aristóteles (2021) descreve três formas de governo – monarquia, aristocracia e timocracia – e suas três possíveis corrupções, respectivamente, a tirania, a oligarquia e a democracia. A amizade encontra certo espaço de atuação em cada uma dessas formas de governo. A título de exemplo, à semelhança entre a amizade que um rei tem com seu povo, e a de que um pai tem com seus filhos.
Nos três regimes de governo que constituem corrupções, a amizade surge de modo menos espontâneo. Na tirania, a amizade é quase irrisória. Na democracia, ainda que Aristóteles a considere uma forma corrompida de governo, reconhece que a amizade se mostra muito expressiva. Cumpre ressaltar ainda que a noção aristotélica de democracia não é idêntica àquela corrente no mundo atual. Aristóteles tem, em mente, uma forma de governo na qual nenhum indivíduo é senhor, a autoridade é fraca e, como resultado, a impunidade por ações condenáveis não é rara.
Por outro lado, nos dias de hoje, o que se compreende por democracia seria algo mais próximo de um regime de governo no qual todos os cidadãos, sem quaisquer distinções baseadas em gênero, raça ou classe, têm o direito de participar, em escala mais ou menos direta, da administração do Estado. Essa noção não é, em absoluto, incompatível com a existência de uma autoridade competente que exerça, com eficácia, seu papel de punir transgressões socialmente inadmissíveis.
Desse modo, pode-se antever que, no contexto da democracia contemporânea, a amizade desempenharia um papel ainda mais significativo na associação dos cidadãos e no florescimento da comunidade política do que supôs Aristóteles para o que considerava uma democracia em sua época.
Lewis (2005) defende que a amizade tem sua raiz no companheirismo. Este é o laço que vincula membros de uma comunidade, grupo no qual indivíduos se unem para realizar juntos atividades que visam à sobrevivência e a certo grau de segurança. Entretanto, a amizade propriamente dita passa a existir quando duas ou mais pessoas percebem e compartilham algo de mais profundo na atividade que desempenham. A partir dessa descoberta, passam a se unir de maneira mais intensa e particular, separando-se, assim, do grupo de companheiros, ao mesmo tempo em que desejam ampliar seu grupo de amigos.
Para Lewis (2005, p. 93-94):
Nesse tipo de amor, como disse Emerson, a pergunta ‘você me ama?’ significa ‘você vê a mesma verdade que eu?’- ou, pelo menos, ‘você se interessa pela mesma verdade que eu?’. Aquele que concordar com nossa opinião de que uma certa pergunta, quase ignorada pelos outros, é de grande importância poderá ser nosso amigo [...]. O companheirismo existia entre pessoas que faziam alguma coisa juntas - caçar, estudar, pintar ou o que for. Os amigos ainda fazem alguma coisa juntos, mas uma coisa mais interior, menos amplamente compartilhada e menos fácil de definir; eles ainda são caçadores, mas de uma presa imaterial; ainda colaboram, mas num trabalho que o mundo não percebe, ou ainda vai perceber; ainda são companheiros de viagem, mas em outro tipo de jornada.
A amizade possui certa ambivalência para Lewis. Ela potencializa o que há de bom e também o que há de mal nas pessoas. Isso ocorre porque, uma vez que o interesse mútuo é compartilhado e encontra apoio, há menos vergonha ou receio em possuí-lo e alimentá-lo.
No âmbito político, Lewis (2005) acredita que as autoridades temam as amizades verdadeiras, sinceras e profundas entre os homens, considerando que isso pode gerar mudanças na sociedade, mudanças não desejadas por aqueles que estão no poder. Isso acontece, como mencionado, pelo fato de os homens se fecharem às opiniões de outras pessoas que não fazem parte de seus grupos de amigos. Os homens solitários são mais facilmente manipulados do que homens vinculados e fortalecidos por amizades verdadeiras. “Se um dia nossos governantes [...] conseguirem produzir um mundo onde todos sejam Companheiros e ninguém seja Amigo, eles terão eliminado certos perigos - mas terão também tirado de nós o que é praticamente nossa mais forte salvaguarda contra a servidão completa” (Lewis, 2005, p. 113).
A conclusão de Lewis sobre o amor da amizade é que ela torna os homens bons melhores, mas também torna os homens maus piores. Para esse autor, sentimentos democráticos, ou seja, compartilhados pela maioria, são opostos às amizades, pois a amizade é necessariamente seletiva, embora seja, ao mesmo tempo, o menos ciumento e inquisitivo dos amores. O orgulho é quase inseparável do amor entre os amigos, pois a amizade é necessariamente delimitadora e, portanto, excludente.
Lewis (2005) também compara o grupo de amigos com uma aristocracia, um dos tipos de governo estudados por Aristóteles, dizendo que, nessa aristocracia, as vozes e opiniões daqueles que não fazem parte dela tendem a ser ignoradas. Desse modo, a amizade é um vínculo poderoso e de grande significado político para o ser humano. Porém esse significado para Lewis (2005) é substancialmente diferente do atribuído pelo estagirita.
Ainda que Aristóteles e C. S. Lewis percebam o impacto político da amizade, divergem quanto às consequências desse tipo de vínculo para regimes políticos específicos. Especialmente para os regimes democráticos. Nehamas (2010, p. 231, tradução nossa) exemplifica uma dessas divergências: “Aristóteles nunca poderia ter imaginado como alguém poderia acreditar, como C. S. Lewis fez, que ‘a autoridade desaprova a amizade’”.
As diferentes concepções de ambos os autores provocam um debate acerca da amizade e suas implicações sociopolíticas. Um debate que não despreze a antiga concepção greco-romana, nem a matização contemporânea desse modo de relacionamento humano.
Essas similaridades e diferenças de perspectivas, bem como a intencionalidade específica de se compreender a amizade nesses autores, motivam a seleção de ambos para averiguar se têm sido fonte de pesquisas quando os temas Amizade e Democracia estão presentes. Portanto, questiona-se se e em que medida tal discussão tem sido feita no meio acadêmico.
Com base no propósito do estudo em explorar o confronto entre Aristóteles e C. S. Lewis em debates que envolvam Amizade e Democracia, foi realizada uma revisão sistemática da literatura utilizando o método Systematic Search Flow (SSF) “[...] com o intuito de sistematizar o processo de busca ou buscas à base de dados científicas a fim de garantir a repetibilidade e evitar viés do pesquisador” (Ferenhof; Fernandes, 2016, p. 556).
O método SSF, elemento pós-textual Anexo A, é composto por quatro fases:
protocolo de pesquisa;
análise;
síntese;
escrever.
As quatro fases do método SSF são desdobradas em oito atividades:
estratégia de busca;
consulta em base de dados;
gestão de documentos;
padronização e seleção dos documentos;
composição do portfólio de documentos;
consolidação dos dados;
elaboração do relatório;
escrever.
Seguindo o protocolo de pesquisa, foi estabelecida a estratégia de busca a fim de explorar a relação entre os temas Amizade e Democracia à luz das perspectivas de Aristóteles e/ou C. S. Lewis, com o intuito de traçar paralelos entre esses dois autores.
A questão de pesquisa definida para orientar essa investigação foi: “Quais as implicações da amizade para o autêntico florescimento humano e a inserção da pessoa na comunidade política no contexto da era democrática?”. Esse questionamento visa aprofundar a compreensão sobre como a amizade pode influenciar positivamente o desenvolvimento pleno do ser humano e sua participação na vida política em uma sociedade democrática.
Tendo em consideração a questão de pesquisa, foram definidos os descritores. Em seguida, com o apoio da inteligência artificial generativa (Ferenhof, 2025), por meio do recurso Thesaurus, que fornece sinônimos e antônimos de palavras, puderam ser estabelecidos sinônimos e antônimos com o intuito de esgotar as variações para cada um dos descritores previamente definidos na língua inglesa. A inclusão dos antônimos se justifica pelo fato de que eventuais pesquisas acadêmicas que tenham analisado o tema proposto na perspectiva inversa fossem relevantes para o escopo de uma revisão sistemática.
Na sequência, foi definida a query de pesquisa, a qual permitiu realizar posterior consulta nas bases de dados: TITLE-ABS-KEY [(“democracy”) AND (“friendship OR affection OR harmony OR rapport OR amity OR fellowship OR hate OR dislike OR disagreement OR hatred”) AND (barrier OR “key factors” OR drivers)].
Como critérios de inclusão de documentos, foram estabelecidos artigos e anais de eventos que apresentassem os descritores no título, no resumo ou nas palavras-chave, bem como aqueles disponíveis para leitura na íntegra, sem restrição temporal e em qualquer idioma. Em contrapartida, os critérios de exclusão abrangem artigos e anais de eventos que não apresentem os descritores no título, no resumo ou nas palavras-chave, além daqueles que não estejam disponíveis para leitura na íntegra.
A busca pelos documentos foi realizada nas bases de dados Scopus, Web of Science (WoS), EBSCO e SciELO, sem restrição de data e de idioma. Para assegurar a confiabilidade e a repetibilidade, a coleta dos documentos foi realizada em 30 de julho de 2024. A busca sistemática, considerando a query de pesquisa, resultou em um total de 74 documentos, somados artigos científicos e anais de eventos, sendo 10 identificados na Scopus, 43 na WoS e 21 na EBSCO. Surpreendentemente, nenhum documento foi encontrado na SciELO.
Em seguida, todos os documentos foram transferidos para o software EndNote. Após a realização das revisões, tanto automática quanto manual, constatou-se a existência de nove documentos duplicados nas bases de dados pesquisadas. Após a exclusão dos duplicados, dos 74 documentos iniciais, restaram 65 para leitura e gestão.
A leitura dos títulos, dos resumos e das palavras-chave dos 65 documentos revelou que, apesar da utilização dos principais descritores relacionados aos temas pesquisados, nenhum desses documentos apresentou uma comparação entre Aristóteles e C. S. Lewis no que diz respeito aos conceitos de Amizade e Democracia.
Contudo, optou-se por selecionar a leitura de documentos que teciam, mesmo a distância, algum paralelo com os temas de interesse. Dentre os 65 documentos, 29 deles atendiam a essa característica. Sucede que, desses 29 documentos, seis deles, caracterizados por capítulos de livros, encontravam-se com restrição de acesso. Logo, restaram 23 para leitura na íntegra.
Após a leitura completa dos 23 documentos, observou-se que 13 deles, ainda que aparentassem algum paralelo com os temas de interesse, estavam muito distantes da perspectiva inicial. Os 10 documentos restantes, por apresentarem certa correspondência, foram mantidos para compor o portfólio de documentos.
Embora os conteúdos dos documentos em questão não abordem diretamente a questão de pesquisa e estejam mais fundamentados na ciência política em vez de na filosofia política, estes apresentam conexão entre o desenvolvimento de relações humanas, valores, ideais, sentimentos, histórias e culturas grupais e o impacto em democracias, possibilitando um diálogo entre a ideia de amizade para Aristóteles e para C. S. Lewis, visto que ambos os autores defendem que as amizades surgem a partir das mesmas buscas, verdades e valores compartilhados entre as pessoas (Lewis, 2005; Aristóteles, 2021).
Entretanto, cumpre esclarecer que o caráter marcadamente filosófico das reflexões de Aristóteles e C. S. Lewis as diferencia em método e propósito das discussões abordadas em tais documentos. É necessário assumir, terminada a análise, que essas discussões não se aproximam senão de modo muito indireto daquelas elaboradas em Ética a Nicômaco e em Os quatro amores.
Desse modo, o presente artigo identifica, com clareza e segurança científica, uma lacuna no debate acadêmico contemporâneo acerca dos conceitos de Amizade e Democracia como investigados pelos autores dessas duas obras. O portfólio de documentos está identificado como elemento pós-textual Apêndice A.
Ainda que se tenha observado que são escassos os debates que abarquem, simultaneamente, Amizade e Democracia, principalmente quando se considera o confronto entre Aristóteles e C. S. Lewis, cabe realçar alguns indicadores bibliométricos obtidos a partir dos 10 documentos considerados parcialmente aderentes:
nove deles foram publicados em revistas científicas e um deles em anais de congresso;
o único autor com dois documentos publicados é o cientista político Rüdiger Schmitt-Beck da Universidade de Mannheim na Alemanha;
a palavra Amizade é mencionada em quatro dos 10 documentos selecionados. Em um desses documentos, a palavra aparece 13 vezes, o que é o maior número encontrado. Os autores discutem como os sentimentos de amizade no nível individual podem influenciar a cooperação ou o conflito em nível estatal (Gries et al., 2020, p. 1). No entanto, é importante notar que essa discussão se baseia nas teorias de Kant e de Hume, e não nas de Aristóteles e de C. S. Lewis;
o filósofo mais citado nas referências bibliográficas é Jürgen Habermas;
somente um dos documentos cita Aristóteles nas referências, mas destaca o conceito de cidadania em Aristóteles como uma prática pública, um modo de participação na sociedade, sem fazer menção alguma ao conceito de Amizade;
nenhum dos documentos publicados contém C. S. Lewis nas referências;
nenhum dos documentos referenciam, conjuntamente, ambos os autores, Aristóteles e C. S. Lewis. Portanto, não há evidências de paralelos entre as ideias desses dois autores nessas áreas específicas de estudo.
Os trechos a seguir reúnem e resumem as evidências existentes dos principais conceitos e teses explorados pelos autores, cujas pesquisas foram classificadas como parcialmente aderentes. Cumpre trazê-las para averiguar, com fidelidade e rigor, se e em que medida os conceitos de Amizade e Democracia em Aristóteles e C. S. Lewis, ou outros muito imediatamente associáveis, vêm sendo debatidos no contexto acadêmico.
A noção lewisiana, na qual os amigos que compartilham a mesma visão de mundo de forma convicta e inquestionável tendem a se fechar em grupos, sentindo-se superiores e gerando orgulho e hostilidade em relação aos demais grupos, encontra eco em Hussein e Wheeler (2024). Esses autores abordam, além da dicotomia entre o pensamento e as ações das pessoas quanto às suas convicções políticas, a pertinência do diálogo entre pessoas que possuem perspectivas divergentes.
Ainda que não façam referência à noção de amizade, Hussein e Wheeler (2024) permitem um paralelo com C. S. Lewis ao revelar que as pessoas que se abrem às ideias de seus adversários tendem a ser excluídas de seus grupos originários, uma vez que os adversários são vistos como imorais. Esse entendimento contribui significativamente para a compreensão dos desafios enfrentados na promoção do diálogo e da tolerância em contextos políticos polarizados.
De forma análoga, mas considerando as interações em ambientes virtuais, Zhang, Inguanzo e Zúñiga (2022) analisam as discussões consideradas radicais, extremistas, grosseiras, inflamadas e incivilizadas em contextos políticos polarizados, as quais podem incentivar a prática por meio da participação em protestos ilegais.
Dinâmicas dessa natureza são associadas a gatilhos que podem levar pessoas a adotarem comportamentos violentos e antidemocráticos. Isso demonstra que o comportamento humano atravessa as paredes do ambiente físico. Zhang, Inguanzo e Zúñiga (2022) parecem aludir à perspectiva sombria da amizade em C. S. Lewis, na qual os amigos se fecham em grupos, considerando-se superiores aos que não participam de seu círculo, tornando-os surdos às diferentes ideias, uma vez que consideram inquestionáveis os seus pontos de vista e as suas convicções.
Na mesma linha, Aristóteles também crê que, quando estão juntos, os amigos são mais capazes de pensar e agir. A união entre amigos aumenta a capacidade de pensamento e ação. Portanto, é possível concluir que a força encontrada em grupos de amigos, com convicções políticas semelhantes, pode influenciar suas ações (Lewis, 2005; Zhang; Inguanzo; Zúñiga, 2022).
Em contrapartida, o diálogo serve como um instrumento relevante para a mediação de conflitos, é o que enfatizam Portere e Briede (2019). No entanto, para o verdadeiro diálogo, o outro não pode ser tratado como coisa. Diferentemente de um monólogo, é necessário que haja trocas. Para isso, as partes envolvidas na relação são formadas pelo binômio eu-tu, o que permite um paralelo com a noção de amizade em Aristóteles e C. S. Lewis.
Aristóteles (2021, p. 213) crê que “[...] seu amigo é um outro eu [...]”, enquanto Lewis (2005) discorre sobre o aspecto sombrio da amizade, quando esta faz que somente os amigos se reconheçam como iguais, julgando os outros como inferiores.
Tal cenário mostra que a assimetria comunicativa vem a ser uma das razões que pode comprometer a qualidade do diálogo, como sinalizado por Schmitt-Beck (2022), ao conceber a exclusão interna e as respectivas consequências para um regime político democrático, a partir do modo como esses fenômenos se manifestam em dada sociedade e sua respectiva frequência. A amizade influencia o modo de os indivíduos se relacionarem e, em princípio, não se pode prever seus reflexos. A familiaridade e a proximidade típica daqueles que convivem podem proporcionar um maior ou menor grau de sinceridade e abertura quando se expõem às próprias convicções em temas de relevância social específica.
Para Schmitt-Beck (2022), o pleno funcionamento do regime democrático depende, em alguma medida, de que os cidadãos, ao debaterem temas de relevância política, possam se expor com franqueza, sob pena de faltarem no debate colocações de relevância no esforço por assegurar convicções mais consonantes com os fatos. Esse autor sustenta que esse grau de honestidade, quando questões de teor sociopolítico são discutidas, é importante para o pleno funcionamento de um regime democrático, embora não faça referência ampla ao vínculo específico da amizade e como esse vínculo poderia alterar a assimetria comunicativa.
Os sentimentos de amizade e seu papel na democracia também foram abordados por Gries et al. (2020). Sucede que foram apreciados sob a perspectiva de Kant e de Hume, os quais enaltecem que “[...] os sentimentos de amizade no nível individual interferem na cooperação ou conflito na forma estatal” (Gries et al., 2020, p. 1, tradução nossa). Estes autores consideram que esses sentimentos influenciam as políticas externas dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, evidenciando que os cidadãos de uma nação democrática tendem a enxergar outras nações democráticas como amigas, e as nações ditatoriais como inimigas, propensas a guerrear entre si.
O exposto revela que a amizade entre as democracias se baseia no compartilhamento dos mesmos valores, ideias estas compartilhadas por Aristóteles e C. S. Lewis, os quais creem que os amigos se unem por valores em comum (Lewis, 2005; Gries et al., 2020; Aristóteles, 2021).
Na mesma linha, mas avançando das guerras entre si para os conflitos armados de longa duração, Barrera-Machado e Villa-Gómez (2018) notam que a violência física se estrutura na violência cultural, baseada em repertórios linguísticos, cognitivos, afetivos, narrativas, crenças sociais e emocionais, mitos, tradições, glórias, traumas e hábitos compartilhados entre as pessoas, que passam a ver aqueles que não vivem esses mesmos repertórios simbólicos como rivais.
Essa carga simbólica e discursiva, expressa por Barrera-Machado e Villa-Gómez (2018), penetra nas relações interpessoais e políticas e remete à noção de amizade em Aristóteles e C. S. Lewis, fundada principalmente na busca e no compartilhamento das mesmas visões de mundo e dos mesmos valores.
Aristóteles crê, inclusive, que uma das facilidades para se formar uma amizade se dá pelo fato de as pessoas terem recebido a mesma educação. Dessa forma, a partir do momento em que as pessoas compartilham as mesmas experiências pessoais e atribuem os mesmos significados a elas, passam a ser vistas como companheiros, ou amigos na visão de C. S. Lewis, e, mais uma vez, veem aqueles que não compartilham de suas experiências como adversários ou inimigos (Lewis, 2005; Barrera-Machado; Villa-Gómez, 2018; Aristóteles, 2021).
Se a violência física se estrutura na violência cultural, como apontado por Barrera-Machado e Villa-Gómez (2018), cabe inserir Novales-Alquézar (2016) na discussão. Segundo este autor, a aproximação entre culturas cria um senso de identidade e solidariedade mútuas a fim de estabelecer um compromisso institucional. Nessa conjuntura, a amizade é construída a partir de sua história de opressão, de “conchas de pessoas” a indivíduos que se importem com o outro.
Além da cultura, Novales-Alquézar (2016) destaca a relevância da arquitetura urbana para fomentar a amizade. Expõe que Nova Iorque, sem o Central Park, seria um lugar pobre e invejoso, visto que o Central Park é uma “válvula de escape” que oportuniza a amizade. Destaca que a amizade, as expressões literárias e artísticas promovem a justiça social. Sobretudo, a amizade é o antídoto para formar a sociedade almejada, muito além do dinheiro, permitindo que diferentes grupos se tornem aliados em vez de adversários.
A noção de amizade em Novales-Alquézar (2016) permite um paralelo com a noção de amizade em Aristóteles, quando este analisa as diferentes posições acerca da amizade se dar entre pessoas iguais ou diferentes. Para Aristóteles (2021, p. 182):
Alguns a definem como uma espécie de afinidade e dizem que as pessoas afins são amigas, de onde vêm os aforismos ‘igual com igual’, ‘passáro da mesma pena voam juntos’ etc.; outros, ao contrário, dizem ‘dois de um mesmo ofício nunca entram em acordo’[...]; Eurípedes diz que ‘a terra seca ama a chuva, e o céu imponente, quando cheio de chuva, adora cair sobre a terra’; e afirma Heráclito: ‘o que se opõe é o que ajuda’ e ‘de diferentes tons vem a melodia mais bela (...)’. Já Empédocles, assim como outros, expressa a opinião contrária a que o semelhante busca o semelhante.
Assim, Novales-Alquézar (2016) parece dialogar com Aristóteles em vários pontos ao salientar a importância da aproximação entre as culturas para a formação do senso de identidade e solidariedade mútuas. Nessa linha, acentua a relevância do Central Park como ambiente de interação social, capaz de promover a democracia por ser um local onde se encontram pessoas das mais diversas culturas e classes sociais, convivendo em igualdade, um elemento essencial para a formação das amizades.
Por fim, quando destaca que a amizade e as expressões literárias e artísticas promovem a justiça social, Novales-Alquézar (2016) parece concordar de maneira clara com a ideia de Aristóteles de que a amizade promove a paz, a concórdia e a harmonia entre os cidadãos, fortalecendo também o Estado, o qual deixa de se preocupar com divisões internas e trabalha com vista aos mesmos interesses dos cidadãos na promoção do bem comum, existindo, portanto a amizade entre os governantes e o povo (Novales-Alquézar, 2016; Aristóteles, 2021).
Outras perspectivas ganham força, por exemplo, a linguagem. No estudo de Kanana (2013), a linguagem é vista como um meio pelo qual a participação dos cidadãos é facilitada ou impedida e detém a chave para o estabelecimento da verdadeira democracia e igualdade em um país. Portanto, uma língua comum deve ser vista como uma força integradora, um meio pelo qual o empoderamento político e a participação de todos os cidadãos são totalmente facilitados. No entanto, a barreira da língua não é a única base para conflitos. Mas uma língua comum é absolutamente necessária para que as pessoas se comuniquem. É da natureza do homem buscar o que é benéfico para ele, apesar da dor que, muitas vezes, precisa suportar. A mesma língua pode ser um dos atributos para a afinidade, e pessoas afins tenderiam a ser amigas.
A cidadania transnacional, suscitada por Stokes (2004), remete à pessoa como cidadã do mundo. A partir dessa noção, esse autor reflete se a cultura é considerada uma barreira para a cidadania transnacional, assim como a relação entre esta e a democracia transnacional para, enfim, acolher projetos transnacionais.
Stokes (2004) abarca a moral cosmopolita como uma frente para enfrentar tais desafios. A cidadania cosmopolita sugere uma comunidade moral e política cujos membros compartilham, ou deveriam compartilhar, uma série de valores humanos básicos, como o valor moral igual de cada pessoa, respeito mútuo e tolerância às diferenças, e, inclusive, a promoção da justiça e da não violência. Nesse contexto, o cidadão do mundo mantém uma perspectiva global sobre as obrigações devidas aos outros, seja qual for sua raça, religião, etnia, status social ou sua conexão com um estado-nação.
No entanto, os cosmopolitas, conforme Stokes (2004), diferem sobre os meios considerados mais capazes de promover valores universais. Um tipo se concentra mais no papel moral do indivíduo e nas relações da pessoa com outros seres humanos. Salienta que é um erro conferir o rótulo de cidadão a grupos ou indivíduos essencialmente e resolutamente opostos aos valores democráticos e a qualquer forma de democracia. Atores políticos que fazem reivindicações de direitos e obrigações que vão além das fronteiras da nação, e onde são feitas tentativas de moldar agendas políticas transnacionais de acordo com valores universais, ou alguma visão global do bem comum, podem legitimamente conceder a esses atores o título de cidadãos transnacionais, internacionais ou cosmopolitas.
Stokes (2004) demonstra coerência com a ideia de Aristóteles acerca do conceito de cidadão ao desvelar que cidadão é o indivíduo que vive na polis e participa da vida política. Ainda que Stokes (2004) faça referência à democracia, a amizade não é discutida em momento algum.
Por fim, curiosamente, em contraponto à amizade, Schmitt-Beck e Schnaudt (2023) investigam o fenômeno das conversas entre desconhecidos que versam sobre questões políticas, em que circunstâncias, qual a frequência e suas repercussões. Desse modo, o contato superficial, tipicamente social e político entre indivíduos, estranhos um ao outro, é relacionado com as circunstâncias específicas e próprias de um regime democrático, e o significado dos encontros para esse regime é descrito e analisado. Entretanto, a distância entre o fenômeno da amizade, como descrita por Aristóteles e C. S. Lewis, e as conversas com estranhos discutidas no conteúdo impõem certa distância entre a pesquisa realizada por Schmitt-Beck e Schnaudt (2023) e o presente artigo.
Aristóteles e C. S. Lewis foram os autores escolhidos para fundamentar a questão de pesquisa do presente artigo devido ao tratamento profundo e específico que dirigem ao tema, em contraste com o que, majoritariamente, se constata na história da filosofia. Em ambos os autores, a amizade é um fator de grande relevância política, especialmente no contexto de regimes democráticos, embora existam diferenças dignas de nota no modo como compreendem as consequências próprias desse tipo de vínculo para as comunidades humanas.
O método de pesquisa Systematic Search Flow (SSF) desenvolvido por Ferenhof e Fernandes (2016), aprimorado e otimizado por Ferenhof (2025) com a inclusão da inteligência artificial generativa como um recurso de apoio à pesquisa, foi utilizado com o intuito de averiguar se e em que medida tal discussão tem sido feita no meio acadêmico, assim como reunir e resumir as evidências existentes e identificar lacunas inexploradas ou pouco exploradas. As bases de dados utilizadas foram Scopus, Web of Science (WoS), EBSCO e SciELO.
Os resultados da revisão sistemática indicam os seguintes principais fatos:
a amizade em contexto político é majoritariamente estudada como um tipo de relacionamento humano interpessoal genérico, sendo mencionada de forma extremamente escassa e sem qualquer caracterização própria que lhe renda relevância como tema em si;
mesmo quando mencionada, a relevância política da amizade é raras vezes compreendida segundo o pensamento de Aristóteles e nunca, nas bases consultadas, sob a perspectiva de C. S. Lewis. Por consequência, não foi identificada pesquisa alguma que faça a comparação entre as teses dos dois autores no tema em questão;
não existe uma pesquisa que aborde a questão da relevância política da amizade para regimes democráticos de forma direta e específica nas bases de dados utilizadas. Os documentos que mais se aproximaram do tema em sua totalidade – permanecendo significativamente distantes – foram 10, e nenhum dos documentos é de origem brasileira ou está integralmente disponível em português.
Conclui-se, portanto, que o tema de pesquisa descrito no presente artigo é quase inexplorado no contexto acadêmico contemporâneo – especialmente no brasileiro. Esse resultado indica a necessidade de uma agenda de pesquisas sobre o tema, ao mesmo tempo em que sugere estudos mais aprofundados e específicos sobre a relevância política da amizade nas circunstâncias dos regimes democráticos no futuro, especialmente se compreendida pela ótica dos autores Aristóteles e C. S. Lewis.

