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O USO DO DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO COMO PROPOSTA METODOLÓGICA: A PERCEPÇÃO DE PROFESSORES SOBRE INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO

EL USO DEL DISCURSO DEL SUJETO COLECTIVO COMO PROPUESTA METODOLÓGICA: LA PERCEPCIÓN DE LOS PROFESORES SOBRE INNOVACIÓN EN EDUCACIÓN

THE USE OF COLLECTIVE SUBJECT DISCOURSE AS A METHODOLOGICAL PROPOSAL: PERCEPTION OF TEACHERS ABOUT INNOVATION IN EDUCATION

Juliana Aparecida GULKA 1
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil
Francine CANTO 2
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil
Elaine Rosangela de Oliveira LUCAS 3
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Brasil

O USO DO DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO COMO PROPOSTA METODOLÓGICA: A PERCEPÇÃO DE PROFESSORES SOBRE INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO

Revista on line de Política e Gestão Educacional, vol. 26, e022021, 2022

Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Revista on line de Política e Gestão Educacional 2022

Recepción: 05 Noviembre 2021

Recibido del documento revisado: 26 Diciembre 2021

Aprobación: 25 Febrero 2022

Publicación: 31 Marzo 2022

Resumo: Esse estudo apresenta a percepção de professores sobre o conceito de inovação. A partir de um questionário aplicado a 20 professores, que no momento da pesquisa eram mestrandos ou doutorandos, os dados foram analisados sob a luz do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). Seis categorias emergiram a respeito do conceito de inovação: como algo novo, como melhoria de um produto ou processo existente, como benefício, como necessidade, e como uso de novas tecnologias; e uma em relação a seu uso, nomeada aplicação. Para cada categoria foi gerado o discurso síntese, representando o entendimento do coletivo sobre inovação na educação. A percepção dos professores é heterogênea, no entanto, se alinha a diferentes perspectivas discutidas na literatura. O DSC é uma metodologia aplicável para estudos qualitativos e, portanto, pode ser apropriada pelo campo da Educação quando o intuito for dar voz a um coletivo de sujeitos sobre determinado tema.

Palavras-chave: Inovação, Educação, Professores, Discurso do Sujeito Coletivo.

Resumen: Este estudio presenta la percepción de los profesores sobre el concepto de innovación. A partir de un cuestionario aplicado a 20 profesores, que en el momento de la investigación eran estudiantes de maestría o doctorado, los datos fueron analizados a la luz del Discurso del Sujeto Colectivo (DSC). Surgieron seis categorías con respecto al concepto de innovación: como algo nuevo, como una mejora de un producto o proceso existente, como un beneficio, como una necesidad y como el uso de nuevas tecnologías; y uno con respecto a su uso, nombrada aplicación. Para cada categoría, se generó el discurso de síntesis, que representa la comprensión colectiva de la innovación en educación. La percepción de los profesores es heterogénea, pero, sin embargo, está en línea con las diferentes perspectivas discutidas en la literatura. El DSC es una metodología aplicable a los estudios cualitativos y, por tanto, puede ser apropiado por el campo de la Educación cuando la intención es dar voz a un grupo de sujetos sobre una determinada temática.

Palabras clave: Innovación, Educación, Profesores, Discurso del Sujeto Colectivo.

Abstract: It introduces the perception of teachers about the concept of innovation. From a questionnaire applied to 20 teachers, who, at the time of the research, were master’s or doctoral students, the data were analyzed in the light of the Collective Subject Discourse (CSD). Six categories emerged regarding the concept of innovation: as something new, as improvement of an existing product or process, as a benefit, as a need, and as the use of new technologies; and one regarding their use, named application. For each category, a synthesis speech was generated, representing the collective understanding of innovation in education. The perception of teachers is heterogeneous, but it is in line with different perspectives discussed in literature. CSD is an applicable methodology for qualitative studies and, therefore, it can be used by the field of Education when the intention is to give voice to a group of individuals about a certain topic.

Keywords: Innovation, Education, Teachers, Collective Subject Discourse.

Introdução

Embora a literatura científica brasileira tenha dado forte ênfase para a inovação no âmbito da educação nas últimas duas décadas, essa temática não é necessariamente nova no país. De acordo com Oliveira (2021), a inovação foi abordada de forma pioneira com o movimento da Escola Nova, sendo fortalecida a partir da década de 1960. Bertero (1979) já discutia no final de 1970 como se apropriar dos modelos teóricos usados pela administração e aplicá-los à Educação, ainda que parcialmente, já que tais modelos não atendiam as instituições voltadas para a saúde, para a educação e demais agências públicas. Apesar de outros trabalhos, sobretudo livros, terem sido publicados no início da década de 1980 sobre o tema, não existe um marco teórico bem definido na literatura que oriente as pesquisas desenvolvidas no sentido da inovação na Educação (TAVARES, 2019).

Uma revisão realizada com trabalhos publicados entre 1975 e 2017 apontou que o termo inovação é bastante utilizado na área da Educação, não tendo, no entanto, uma explicitação de seu significado. O mesmo estudo realçou ainda, que existem diferentes denominações que abarcam a inovação na educação, o que indica uma pulverização de terminologia na literatura da área, evidenciando uma falta de consenso (TAVARES, 2019).

O intuito da presente pesquisa foi, então, utilizar o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) como proposta metodológica para investigar, a partir da fala de educadores/estudantes de pós-graduação, se há um consenso em relação ao conceito de inovação, ou se o que acontece na literatura também se repete nesse discurso. Parte-se do pressuposto que

As experiências mais bem-sucedidas de inovação educacional consideram e dão importância aos educadores como atores no processo de mudança. Eles devem ser valorizados e ouvidos, podendo exercer sua capacidade de decisão e de escolha nos processos (NOGARO; BATTESTIN, 2016, p. 366).

O DSC, nesse contexto, configura-se como uma metodologia que permite expressar as subjetividades que marcam o cotidiano dos sujeitos estudados, e, ao mesmo tempo, materializa o pensamento coletivo acerca de determinado fenômeno, sendo nesse caso, a concepção da inovação na Educação.

Fundamentação Teórica

A discussão sobre inovação está muito presente quando se trata de processos produtivos, sobretudo quando ligada ao avanço e aceleração no desenvolvimento das tecnologias e a sua associação com a competitividade. De acordo com Carvalho, Reis e Cavalcante (2011), embora cada um tenha seu papel, a inovação não está dissociada da ciência e da tecnologia, pois juntos esses conceitos se complementam. Dessa forma, a inovação é vista não apenas como uma oportunidade, mas também como uma necessidade.

Para Lemos (2000), as inovações podem ser classificadas em duas categorias: a radical e a incremental. A primeira diz respeito à introdução de um novo produto ou processo, de forma a representar uma ruptura com o estabelecido até então, estando ligada à concepção de inovação como algo novo. Já a segunda está relacionada à melhoria.

A concepção de inovação como a criação de algo novo também aparece na própria semântica da palavra, com “origem no latim, innovatio, significando renovação; [...] o prefixo in encontrado no início da palavra assume a função de ingresso, ou seja, algo novo deverá acontecer, algo que não era feito antes, ou seja, uma novidade.” (NOGARO; BATTESTIN, 2016, p. 360, grifo do autor).

Ainda que seja forte a ligação da inovação com a concepção de algo totalmente novo, Carvalho, Reis e Cavalcante (2011, p. 34) esclarecem que

A maioria das inovações decorre de uma melhoria significativa em algo já existente, agregando vantagem sem alterar o padrão de referência. Ocorre inovação incremental de um produto, quando há melhoria ou aperfeiçoamento significativo, por meio do acréscimo ou substituição de novos materiais que o tornam mais fácil de utilizar, mais ergonômico e prático. Da mesma forma, ocorre inovação incremental de processo quando há melhorias significativas em um processo resultando em um desempenho notadamente superior em relação ao já existente.

Para Messina (2001, p. 226), o conceito de inovação foi empregado ao longo dos anos como sinônimo de melhorar as coisas, no entanto, esse conceito foi se transformando e “[...] atualmente a inovação é algo aberto, capaz de adotar múltiplas formas e significados, associados com o contexto no qual se insere”. Sua aplicação pode acontecer nas mais variadas áreas, como a de produtos, serviços, processos, marketing e organizacional (CARVALHO; REIS; CAVALCANTE, 2011).

Embora com mais ênfase na economia e administração, a discussão sobre inovação perpassa também pelo campo da Educação quando este se apresenta como um dos elos que compõem os sistemas de inovação, sobretudo relacionado às instituições de ensino, como colocam Cassiolato e Lastres (2000, p. 247-248):

Um sistema de inovação pode ser definido como um conjunto de instituições distintas que conjuntamente e individualmente contribuem para o desenvolvimento e difusão de tecnologias. Tal noção envolve, portanto, não apenas empresas, mas, principalmente, instituições de ensino e pesquisa, de financiamento, governo, etc.

Os autores apontam que na América Latina, e mais ainda no Brasil, foram as universidades públicas que desempenharam um papel importante no sistema inovativo, principalmente ao serem responsáveis pelo desenvolvimento de recursos humanos especializados. Esse público é que irá atuar tanto na indústria quando em todos os outros espaços da sociedade, inclusive nas próprias instituições de ensino, sejam elas de nível básico ou superior.

Para Moran (2004, p. 237),

Uma educação inovadora pressupõe desenvolver um conjunto de propostas com alguns grandes eixos que se integram, se complementam, se combinam: foco na aprendizagem, desenvolvimento da auto-estima/auto-conhecimento, formação do aluno empreendedor e do aluno-cidadão.

O autor aponta que a tecnologia pode auxiliar a atingir esses objetivos, e que apenas definir novas formas de ensinar e aprender não basta, é necessário entender a sociedade da forma como ela é, complexa. Para Rocha, Fiscarelli e Rodrigues (2020, p. 271) “a educação está em descompasso com as transformações socioculturais advindas da era do conhecimento e da informação”, que são rápidas e compreendem tanto atores que nasceram na era digital, quanto àqueles que vivenciaram a sua transformação, estabelecendo diferentes relações com o conhecimento e a produção de saberes.

Dessa forma, na área da educação, numa perspectiva dialética, inovar é mais do que introduzir novidades ou mudanças. Implica substituir algo por algo novo, mas tendo em vista finalidades emancipadoras ligadas à transformação social. Daí a afirmação de que, nessa perspectiva, inovar em educação, caracteriza-se, a rigor, como renovar, reinventar, porquanto transformar na direção, portando, de uma educação de qualidade social (OLIVEIRA, 2021, p. 180).

Um dos elementos chave que sempre aparece na literatura quando se fala de educação inovadora é a figura do professor. Como elemento central no processo de ensino e aprendizagem, o professor é colocado, muitas vezes, como agente de mudança responsável por levar até a sala de aula o novo. Para Harres et al. (2018, p. 16-17),

O professor inovador é um sujeito inquieto, curioso, que aceita desafios que o desacomodem. Ele é propositivo, cria situações de ensino, testa atividades e, ao aplicá-las, reflete sobre os resultados obtidos, num constante processo de autoavaliação. Predispõe-se, também, a se envolver em atividades que proporcionem o exame de suas ações como docente.

Para os autores, a reflexão constante feita pelos docentes sobre sua prática auxilia na educação inovadora ao permitir o rompimento de ações mecânicas. Ao mesmo tempo, envolve os profissionais em situações, muitas vezes coletivas, que permitem experimentar redes e grupos que descentralizam sua função e culminam em processos de aprendizagem de todos para um, um para todos e todos para todos, envolvendo os discentes, pais e colegas de trabalho. Dessa forma, à medida que envolve os professores, a inovação aparece também como um recurso contra o ensino transmissivo.

A aplicação de inovações na educação, seja ela de nível básico ou superior, não é um processo homogêneo. Para Costa (2018, p. 175), “talvez de todas as funções reguladoras da sociedade, a que menos mudou foi a educação. Preparamos os alunos para o trabalho padronizado, repetitivo, em que a ordem e a disciplina são mandatórias”. Isso representa um desafio para a chamada Sociedade da Informação, na qual os trabalhos não são mais padronizados, nem repetitivos. Vive-se hoje em um mundo no qual a capacidade de resolver problemas complexos é fundamental, e, para tanto, a criatividade, a colaboração e a inovação são mais eficazes do que a ordem, a disciplina e a tradição.

Vidal e Rocha Neto (2016, p. 268) partem da ideia de que para atender as demandas da sociedade, há a necessidade de uma reforma educacional que envolva “[...] flexibilidade no currículo, na proposta pedagógica, nos métodos de avaliação, na estrutura organizacional e principalmente na profissionalização do professor, como um agente ativo e inovador”, dando conta das mudanças rápidas que ocorrem no mundo e formando sujeitos autônomos que valorizem a construção de conhecimento.

A inovação também não pode estar dissociada do contexto em que está inserida, com todos os desafios contemporâneos que a demandam. Contradições, disputas e transformações sociais refletem diretamente no caráter mais ou menos inovador das diferentes áreas da Educação. Isso se tornou mais evidente, na atualidade, com as mudanças trazidas pela pandemia de Covid-19 e seus impactos nas práticas educativas em diferentes esferas de ensino.

A partir do distanciamento social exigido em virtude da pandemia, o uso de tecnologias de informação e comunicação tem se mostrado como alternativa para o prosseguimento do ensino, na modalidade remota. Oliveira (2021, p. 184) destaca que “[...] a presença marcante dessas tecnologias no trabalho docente e na educação escolar, em geral, tem se destacado como alternativa metodológica considerada inovadora na área educacional”. A autora, no entanto, chama a atenção para que se perceba não apenas o caráter positivo dessa realidade, enquanto inovação nas práticas e recursos pedagógicos, mas também os desafios a que ela impõe, como a precarização do trabalho docente e a acentuação de desigualdades sociais.

Ao se tratar de inovação, é necessário avaliar a natureza das mudanças, não a dissociando do contexto social e da realidade que a cerca. Em diferentes cenários, incluso o mais recente relacionado à pandemia, o caráter inovativo apresentará diferentes aspectos positivos e negativos a todos os atores envolvidos, sejam docentes, alunos, equipe de gestão, pais e comunidade em geral. Soma-se a isso o caráter polissêmico da própria palavra e tem-se a evidência da necessidade de discussões mais aprofundadas sobre a temática e seu tratamento no campo da Educação, com reflexões teórico-práticas.

Opções teóricas e metodológicas

Trata-se de uma pesquisa de natureza aplicada, caracterizada como exploratória e com abordagem qualitativa, com vias a contextualização do fenômeno estudado, na qual se empregou o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), uma metodologia utilizada para abordar dados coletados por meio de pesquisas de opinião ou questões abertas e que permite descrever a representação subjetiva de determinado fenômeno existente no pensamento coletivo.

O DSC busca viabilizar “a tarefa de pesquisar modos sociais de pensar” (LEFÉVRE, 2017, p. 10) reconstituindo o pensamento de uma tribo sobre um determinado tema a partir de depoimentos individuais, gerando representações sociais de um coletivo. Assim, o DSC é “[...] uma proposta explícita de reconstituição de um ser ou entidade empírica coletiva, opinante na forma de um sujeito de discurso emitido na primeira pessoa do singular” (LEFEVRE; LEFEVRE, 2006, p. 519).

Sua forma de apresentar as representações sociais permite que se agrupem as expressões individuais em discursos sínteses, em categorias semânticas com sentidos semelhantes (LEFÉVRE, 2017). Nesse sentido, a fonte de informação utilizada são as próprias pessoas pertencentes ao grupo.

Para o presente estudo, foi utilizado um questionário elaborado por meio do Google Formulários contendo perguntas abertas com a finalidade de coletar depoimentos dos participantes da pesquisa de forma espontânea e voluntária. O instrumento foi aplicado a 22 mestrandos e doutorandos de um programa de pós-graduação em outubro de 2015. O corpus da pesquisa considerou 20 respondentes, por esses atuarem como professores da educação básica ou ensino superior, foco deste estudo.

Entre os participantes, 11 (55%) são do sexo feminino e nove (45%) do sexo masculino. Em relação ao vínculo, os respondentes estão matriculados predominantemente no mestrado (75%). Quanto à atuação profissional, 13 (65%) participantes são docentes da educação básica e sete (35%), da educação superior.

Após a primeira etapa, de obtenção dos depoimentos, procedeu-se a redução do discurso. Nessa segunda etapa cada depoimento é analisado individualmente e se selecionam os trechos mais relevantes, que respondam à pergunta efetuada, resultando nas expressões-chave (EC). Para o DSC,

[...] é importante entender que a seleção das EC [...] é fundamental, pois o que se deseja obter, no final, é a contribuição de cada indivíduo para o pensamento de uma coletividade e não o pensamento detalhado de um indivíduo [...] (LEFÉVRE, 2017, p. 32).

Após a seleção dos trechos com EC, procedeu-se a busca de sentido. Essa terceira etapa busca identificar ideias centrais (IC), e nesse momento é possível utilizar palavras que não tenham aparecido no texto.

Na quarta etapa foi realizada a categorização, reunindo os depoimentos que apresentam ideias semelhantes em categorias com nomes atribuídos pelas pesquisadoras no intuito de expressar o sentido comum. Para minimizar o risco de viés e subjetividade individual, essa etapa foi feita separadamente por duas das pesquisadoras, com seu resultado cotejado até que se chegasse a um ponto comum consensual.

Após a definição das categorias por indução, procedeu-se a quinta etapa, de construção do DSC a partir da reunião do EC com IC semelhantes, agrupando os conteúdos com sentidos semelhantes em suas categorias e construindo as narrativas na primeira pessoa do singular.

A figura 1 ilustra as etapas do tratamento dos dados e a elaboração do DSC, usado, nesse sentido, para identificar, dentre um conjunto de indivíduos, quais são os pensamentos semelhantes a respeito da inovação na Educação, buscando assim, dar voz ativa ao coletivo de professores.

Etapas da pesquisa
Figura 1
Etapas da pesquisa
Fonte: Elaborado pelas autoras

Apresentação e discussão dos resultados

A partir da análise das respostas dos professores e aplicação do DSC, foi possível identificar seis categorias centrais que representam o entendimento desse público em relação à inovação. Para esse coletivo, a inovação é entendida como algo novo (28%), como melhoria de um produto ou processo existente (28%), como benefício (20%), como necessidade (8%) e como uso de novas tecnologias (4%). Emergiu também da análise de dados uma categoria que não está relacionada com a definição da inovação em si, mas sim com a sua aplicação (12%). O gráfico 1 ilustra a distribuição dos fragmentos de discurso, ou seja, a quantidade de expressões-chave (EC) extraídas das respostas dos participantes dentro de cada categoria.

Quantitativos de fragmentos de discurso por categoria
Gráfico 1
Quantitativos de fragmentos de discurso por categoria
Fonte: Elaborado pelas autoras

A inovação como algo novo foi uma das categorias com maior predominância de ideias centrais. A partir da análise das expressões-chave, foi possível elaborar o seguinte discurso síntese:

Inovação me remete a algo inédito, uma proposta nova que alcance resultados novos. É a necessidade de criar algo novo, uma nova ideia, criar objetos e utensílios inéditos, a criação de algo inédito que não tenha sido utilizado ou visto antes, a introdução de algo novo em qualquer atividade humana. Inovar é criar, é a busca de novidades, uma novidade em relação a alguma coisa. É a busca de caminhos ou estratégias diferentes, a criação de diferentes estratégias e novos caminhos para percorrer um mesmo trajeto, para atingir um determinado objetivo.

Essa representação coletiva de diversos indivíduos exemplifica uma das conceitualizações trazida pela literatura, que apresenta a inovação como algo radical, que demonstra uma ruptura com algum padrão já pré-estabelecido e introduz algo novo (LEMOS, 2000).

Cassiolato e Lastres (2000), nos lembram que muitas vezes a introdução de algo novo é associada à inovação apenas tecnológica, no entanto, o que acontece é que esse processo acontece de modo equitativo em todos os setores, incluindo os mais tradicionais.

O discurso dos professores em relação à novidade, à criação, à inovação como algo inédito ou um novo caminho também aparece na literatura. Nogaro e Battestin (2016, p. 361) defendem a inovação como “[...] toda e qualquer forma de pensar, criar e de usar nossos conhecimentos, métodos, técnicas e instrumentos que levem a práticas ou comportamentos diferenciados”. Para a área da educação, os autores refletem que, embora a inovação apareça de forma recorrente com esse aspecto de novidade, muitas vezes o novo não tem lugar, pois se mantém uma posição de conservadorismo cômodo, e que é necessário repensar e questionar a prática para que de fato se encontre lugar para novas formas de inovar.

Além da inovação como algo novo, outra categoria com predominância semelhante na quantidade de fragmentos representativos foi a da inovação como melhoria de um produto ou processo existente, conforme demonstra o discurso síntese:

Por inovador entendo que não precisa ser algo inédito, mas ideias simples e criativas para aperfeiçoar algo já existente. A inovação não se refere apenas a criação de novas ferramentas, mas também na mudança de métodos e processos, inclusive os educacionais. Pode ser a melhoria. Trata-se de mudanças, inovações envolvendo melhorias significativas, quando se utiliza de propostas existentes e as readapta para novas necessidades. Inovação é encontrar soluções para pequenos ou grandes problemas modificando antigos costumes. É a modificação da maneira de fazer certa tarefa, a proposta de um novo modo de fazer algo que já se fazia, mas de forma melhorada. Inovação é uma ação de forma a renovar um processo, é tudo o que há de melhoria. É ver novas possibilidades a partir de práticas realizadas, é a ação sobre o que se sabe junto a novas maneiras de repassar esse saber. Acredito que inovar é progredir, é evolução.

Os professores entendem que inovar não é apenas o que é novidade, mas também a implantação de melhorias a algo já existente. Esse é o caráter incremental da inovação, que apesar de muitas vezes ser imperceptível, pode gerar um “crescimento da eficiência técnica, aumento da produtividade, redução de custos, aumento da qualidade e mudanças que possibilitem a ampliação das aplicações de um produto ou processo” (LEMOS, 2000, p. 159).

A inovação como melhoria, no âmbito da educação, é sempre feita de forma intencional e deliberada (CARDOSO, 1997). No discurso dos professores isso fica evidenciado a partir do momento que o coletivo aponta a mudança, o aperfeiçoamento e a adaptação. Essas ações só podem ser feitas a partir do momento que se reconhece uma oportunidade ou uma necessidade de que algo pode ser melhorado, e, portanto, prosseguem para um processo consciente de inovação. Para Messina (2001, p. 230), “a mudança relaciona-se com o seu próprio manejo, com um modo de controlar os seus efeitos com vistas à melhoria da educação”.

A terceira forma pela qual a inovação é percebida, não com a mesma intensidade das categorias anteriores, mas também se destacando, é como um benefício. Cabe salientar que durante a análise dos fragmentos de texto gerados a partir das respostas dos professores, não foram identificados indícios de que a inovação poderia ter algum aspecto negativo, muito pelo contrário, o discurso caminha no sentido de salientar a inovação como algo vantajoso, que traz benefícios para a sociedade e para os indivíduos em si.

Inovação é algo inovador que pode auxiliar o indivíduo em alguma atividade do cotidiano (escolar ou não), é agregar valor é ser competitivo. A inovação, quando executada, gera benefícios para a sociedade (ou para uma parcela dela), como economia de recursos ou melhoria nos processos envolvidos. É uma melhoria criada para facilitar a vida do homem, capaz de gerar vantagens. Inovação é uma atividade que antes não era passível de ser realizada, ou era executada de forma menos eficaz, como por exemplo, tornar a visualização dos gráficos mais dinâmica, para facilitar a informação.

A inovação pode também ser representada como uma necessidade, como sinaliza o discurso síntese dessa categoria:

Inovar nada mais é que adaptarmos às novas situações, geralmente para transcender e se superar perante a mesmice, é abandonar práticas que já estão dando pouco ou nenhum resultado e estarmos mudando constantemente conforme a demanda de trabalho e informações.

O coletivo entende que a inovação como uma necessidade nada mais é que acompanhar as mudanças pela qual a sociedade passa e que refletem na vida e no trabalho de todos os indivíduos. Assim, “a necessidade de inovação surge como resposta natural a um cenário de mudanças e transformações constantes no conhecimento” (NOGARO; BATTESTIN, 2016, p. 362).

Nesse contexto, há que se fazer a reflexão para o fato de que a inovação talvez esteja sendo entendida como reativa, ou seja, apenas como uma forma de reagir às diferentes demandas impostas pela realidade. Se assim for, a inovação assume uma postura compulsória, e não como uma ação a ser buscada de modo proativo para antecipar possibilidades.

Por fim, ainda dentro da apresentação dos discursos que emergiram das categorias analíticas e que estão relacionados à definição, a inovação aparece como o uso de novas tecnologias:

Inovação corresponde ao ato de trazer ou apresentar um instrumento ou método a partir do qual será possível executar determinada função. Na educação é o uso de tecnologias disponíveis de forma a facilitar o processo de ensino aprendizagem.

Essa associação, conforme explicam Nogaro e Battestin (2016), é bastante comum, já que a área tecnológica é uma das mais proeminentes quando se trata de inovação, sobretudo porque esse setor tem a necessidade de se manter ativo na cadeia produtiva, operando sob a lógica do mercado. Mesmo assim, apenas 4% das ideias centrais dos discursos dos professores representam essa vinculação, o que demonstra que, apesar de ela existir, não influencia o coletivo de modo significativo, ao contrário das definições apresentadas anteriormente, que são mais expressivas.

Embora a pergunta disparadora do questionário aplicado aos professores estivesse relacionada a entender o que esse coletivo entende por inovação, emergiu também a questão da aplicação em atividades, processos, produtos e técnicas, como pode ser observado no discurso síntese a seguir:

A inovação permite resolver um problema já existente, ao utilizar um software ou um experimento para o ensino de funções, por exemplo, você está inovando sua aula de funções. A inovação pode ocorrer em aulas, produtos, ideias, em relação a uma tecnologia, a um método de ensino, a um método organizacional numa empresa, a um procedimento médico, a fabricação de um produto ou equipamento, a uma técnica esportiva, a uma técnica agrícola, em um dado conhecimento, técnica ou objeto para determinado contexto, seja ela no trabalho, educação, cultura ou lazer.

A partir dos discursos construídos e analisados, é possível observar que a inovação é percebida a partir de uma visão positiva, ainda que em determinado momento aconteça como uma necessidade. Os professores entendem que a inovação não está restrita à área tecnológica ou industrial e pode acontecer em todos os setores da sociedade, incluindo a educação, com aplicações mais ou menos robustas.

Considerações finais

O estudo realizado permitiu compreender a percepção da inovação a partir do discurso de professores de educação básica e ensino superior, enquanto estudantes de pós-graduação em nível de mestrado e doutorado. Os resultados evidenciaram que não existe um consenso em relação a definição de inovação e explicitação de seu significado, o que confirma uma pulverização de entendimentos como o retratado na literatura. A pesquisa aqui realizada demonstra que, apesar dos discursos terem sido gerados com professores provenientes de duas modalidades de ensino distintas, eles representam um mesmo coletivo.

A partir da metodologia Discurso do Sujeito Coletivo, foram percebidas cinco categorias de definição da inovação (como algo novo; como melhoria de um produto ou processo existente; como benefício; como necessidade; e como uso de novas tecnologias) e uma categoria que se refere à aplicação da inovação. As categorias mais expressivas indicam que o entendimento dos professores se dá no sentido de perceber a inovação como algo que pode resultar tanto de uma ruptura de um padrão pré-existente, quanto da melhoria desse padrão.

Mesmo que a inovação esteja mais atrelada ao setor empresarial e que tenha se mostrado de forma heterogênea nos dados analisados, a percepção dos professores acerca dela demonstra um conhecimento que vai além da competitividade, do simples uso de uma tecnologia ou prática pedagógica diferenciada, o que contribui para destacar um alinhamento da inovação como um processo dinâmico e social.

Do ponto de vista metodológico, o DSC mostrou-se como uma possibilidade de aplicação em pesquisas do campo da Educação que possuam o intuito de trazer à tona as representações sociais de determinados grupos e coletivos, a partir da obtenção de depoimentos individuais. Como recurso para estudos qualitativos que envolvam pessoas, trata-se de uma metodologia de investigação que pode materializar tais representações sociais e fenômenos estudados, permitindo a organização metodológicas da pesquisa e resultando em um produto coletivo, o que pode vir a ter relevantes aplicações no campo da Educação em seus distintos temas estudados.

Como pesquisas futuras, sugere-se a aplicação de pesquisa similar a professores estudantes de outros programas de pós-graduação, no intuito de entender se o DSC gerado nesses grupos é semelhante ao encontrado no presente estudo. Quanto à inovação em si, é pertinente o aprofundamento do entendimento do conceito aplicado à Educação por parte dos professores para além da esfera teórica, ou seja, estudando como eles inovam em suas práticas cotidianas ou como percebem a inovação em seus próprios espaços de trabalho, a fim de cotejar se as definições apresentadas de fato são um retrato da realidade.

Agradecimentos

as autoras agradecem ao Programa UNIEDU/FUMDES - Pós-graduação do Estado de Santa Catarina, pelo financiamento.

REFERÊNCIAS

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Notas de autor

1 Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Florianópolis – SC – Brasil. Doutoranda em Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE).
2 Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Florianópolis – SC – Brasil. Mestre em Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE).
3 Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Florianópolis – SC – Brasil. Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação (PPGInfo), Docente do Departamento de Biblioteconomia (DBI) e Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE).

Información adicional

Como referenciar este artigo: GULKA, J. A.; CANTO, F.; LUCAS, E. R. O. O uso do Discurso do Sujeito Coletivo como proposta metodólogica: A percepção de professores sobre inovação na educação. Revista on line de Política e Gestão Educacional, Araraquara, v. 26, n. 00, e022021, jan./dez. 2022. e-ISSN:1519-9029. DOI: https://doi.org/10.22633/rpge.v26i00.15754

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