Dossier

A construção dos campos científico universitário e seus reflexos na produção do Homo Academicus de Pierre Bourdieu

The construction of the scientific university fields and its reflexes in the production of Pierre Bourdieu's Homo Academicus

Catarina Gomes
Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais–Brasil Minas Gerais, Brasil

A construção dos campos científico universitário e seus reflexos na produção do Homo Academicus de Pierre Bourdieu

RELIGACIÓN. Revista de Ciencias Sociales y Humanidades, vol. 5, núm. 25, pp. 28-40, 2020

Centro de Investigaciones en Ciencias Sociales y Humanidades

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Aprobación: 10 Septiembre 2020

Publicación: 30 Septiembre 2020

Resumo: Neste estudo estabelece-se como objetivo esclarecer como as noções de campo, habitus e capital participam da estrutura dos campos científico e universitário. A questão discutida incide sobre o modo como Pierre Bourdieu, não apenas realiza um exercício que consistiria em aplicar tais noções conceituais ao âmbito prático da produção científica e da vida acadêmica, assim como, elabora uma epistemologia que explora o sentido e os impactos sociais dos paradigmas de funcionamento desses espaços sociais. Não se pode esquecer que o autor elabora sua teoria como quem também participa desses espaços, como quem conhece o jogo e as lutas concorrenciais. A questão que intriga Bourdieu, e que o conduz em todo o seu esforço teórico para evidenciar a estrutura estruturante que incide sobre os agentes dos campos é: quem seria o homo academicus? Aquele que gosta do acabado! Essa resposta, porém, embute novas interrogações, todas elas implicadas no entendimento do funcionamento do campo. Esse homo academicus seria afetado pelas condições de possibilidade de seu pertencimento ao campo científico e ao campo universitário e estaria envolto a inúmeros conflitos, à illusio, isto é, as posições que ocupa não são uma garantia de pertença, vai depender de sua destreza no jogo, do lugar, ou de que lado do grupo se encontra. Constitui-se, então, em objeto de análise bourdieusiana sobre a estruturação dos espaços sociais a partir de sua dimensão política, e o homem que se constrói nesse processo dinâmico.

Palavras-chave: Campo, Habitus, Capitais Simbólicos, Campo Científico, Campo Universitário.

Resumo: 28

Palavras-chave: Campo, Habitus, Capitais Simbólicos, Campo Científico, Campo Universitário.

Abstract: 28

1. INTRODUÇÃO29

2. A gênese do conceito de campo: estrutura espacial e jogos de poder 29

2.1 Uma analogia para o campo: O Jogo 30

2.2 Os Jogadores 31

2.3 O Capital Específico 32

2.4 Um saber ser “quase natural”: Habitus 32

3. O campo científico 33

3.1 Competências e Autoridades Científica: acúmulo de capital científico 33

4. O Campo Universitário 34

4.1 O campo universitário como espaço de poder 34

4.1.1 Um espaço de acúmulo de capitais 35

4.1.2 O poder no campo universitário com um jogo de crença na legitimidade 36

4 1.3 Um espaço social que privilegia os herdeiros 38

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 38

Keywords: Field, Habitus, Symbolic Capitals, Scientific Field, University Field.

Abstract: The objective of this study is to clarify how the notions of field, habitus and capital participate in the structure of the scientific and university fields. The question discussed focuses on how Pierre Bourdieu not only carries out an exercise that would consist of applying such conceptual notions to the practical scope of scientific production and academic life, but also elaborates an epistemology that explores the meaning and social impacts of paradigms functioning of these social spaces. It cannot be forgotten that the author elaborates his theory as one who also participates in these spaces, as one who knows the game and the competitive struggles. The question that intrigues Bourdieu, and that leads him in all his theoretical effort to highlight the structuring structure that affects the agents of the fields is: who would be the homo academicus? One who likes the finished! This answer, however, embodies new questions, all of which are implicated in the understanding of how the field works. This homo academicus would be affected by the conditions of possibility of his belonging to the scientific field and the university field and would be involved in countless conflicts, illusio, that is, the positions he occupies are not a guarantee of belonging, it will depend on his skill in the game , the place, or the group side is. It is, therefore, an object of Bourdieusian analysis on the structuring of social spaces based on their political dimension, and the man who builds himself in this dynamic process.

Keywords: Field, Habitus, Symbolic Capitals, Scientific Field, University Field.

Abstract: The objective of this study is to clarify how the notions of field, habitus and capital participate in the structure of the scientific and university fields. The question discussed focuses on how Pierre Bourdieu not only carries out an exercise that would consist of applying such conceptual notions to the practical scope of scientific production and academic life, but also elaborates an epistemology that explores the meaning and social impacts of paradigms functioning of these social spaces. It cannot be forgotten that the author elaborates his theory as one who also participates in these spaces, as one who knows the game and the competitive struggles. The question that intrigues Bourdieu, and that leads him in all his theoretical effort to highlight the structuring structure that affects the agents of the fields is: who would be the homo academicus? One who likes the finished! This answer, however, embodies new questions, all of which are implicated in the understanding of how the field works. This homo academicus would be affected by the conditions of possibility of his belonging to the scientific field and the university field and would be involved in countless conflicts, illusio, that is, the positions he occupies are not a guarantee of belonging, it will depend on his skill in the game , the place, or the group side is. It is, therefore, an object of Bourdieusian analysis on the structuring of social spaces based on their political dimension, and the man who builds himself in this dynamic process.

Keywords: Field, Habitus, Symbolic Capitals, Scientific Field, University Field.

1. INTRODUÇÃO

O próprio Bourdieu, um homo academicus, admite certa dificuldade em analisar o fenômeno logo no início da obra de mesmo nome. Para ele, tanto a distância quanto a proximidade em demasia do objeto de pesquisa dificultam a atividade do pesquisador. Como um profissional vinculado ao campo universitário, ele considera difícil analisar esse campo, quando se precisa de certo distanciamento do objeto e se faz parte dele, o contrário, pode gerar dificuldade.

Bourdieu utiliza-se da natureza genética da noção de campo para estabelecer relação com os conceitos de campo científico e universitário. As discussões acerca da noção de campo estão embasadas na obra Questões de Sociologia, publicada em 1983, na qual o autor descreve algumas propriedades dos campos, elaborando uma analogia do campo como um jogo de conflitos sob a forma de lutas concorrenciais que ocorrem principalmente em função das disputas por poder.

Na obra O Poder simbólico, Bourdieu explica a gênese dos conceitos de habitus e de campo, concepções fundamentais para o entendimento dessa teoria que se se aplica à sociedade e instituições sociais, como campo empírico. A noção de campo é construída por Bourdieu (1983, 1983b, 1990) a partir de uma estrutura e gênese singulares a esse fenômeno sociológico. Para ele “a noção de campo (...) funciona como um sinal que lembra o que há que fazer, a saber: verificar se o objeto em questão não está isolado de um conjunto de relações de que retira o essencial das suas propriedades”, (Bourdieu,1989, p. 27).

Pode-se dizer que Bourdieu interessa-se pela análise do campo científico, muito em função de seu impacto direto no campo universitário, âmbito de difusão das regras que regulam e orientam o campo científico. Sabe-se que a produção científica participa de toda as suas dimensões, pois toda a vida acadêmica, em menor ou maior grau, é balizada sob a perspectiva do campo científico. Constituem exemplos, as exigências de formação continuada sempre atrelada a uma produção científica, as publicações, a realização de eventos científicos, as orientações de pesquisas, e sobretudo, a construção do capital social e científico edificados no âmbito do relacionamento com o métier científico, sem o qual não é possível mover-se no campo.

Desse modo, a interdependência entre tais campos está diretamente relacionada a investimentos e desinvestimentos de seus grupos em um produto ou posição de interesse por parte dos agentes ou grupo de agentes ligados a um campo, sempre condicionado ao padrão de classificação estabelecido pelo campo científico. Como afirma o autor: “estudar um novo campo, descobrem-se propriedades específicas, próprias a um campo particular ao mesmo tempo em que se faz avançar o conhecimento dos mecanismos universais dos campos que se especificam em função de variáveis secundárias” (Bourdieu, 1983, p. 89)

2. A gênese do conceito de campo: estrutura espacial e jogos de poder

O Espaço social e a gênese das classes configuram a topologia social por meio da qual Pierre Bourdieu inaugura sua sociologia. Essa definição topológica é pensada como uma representação do mundo social constituído por “princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que atuam no universo social, apropriadas a conferir ao detentor delas, força ou poder neste universo” (Bourdieu,1989, p. 133).

Desse modo:

compreender a gênese social de um campo, e apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário subtrair ao absurdo do arbitrário e do não-motivado os atos dos produtores e as obras por eles produzidas e não como geralmente se julga, reduzir ou destruir (Bourdieu, 1989, p. 69).

A participação do ator social dentro da estrutura social está relacionada às posições ocupadas no interior no espaço social, onde os agentes e grupos de agentes são definidos pelas suas posições relativas neste espaço. O campo, para Bourdieu, é conceituado como “espaços estruturados de posições (ou de postos) cujas propriedades1 dependem das posições nestes espaços, podendo ser analisadas independentemente das características de seus ocupantes (em parte determinada por elas)” (Bourdieu, 1983, p. 92). E como espaço onde se manifestam relações de poder, o que implica afirmar que ele se estrutura a partir da distribuição desigual de um quantum de capital social:

  1. 1. 1 Na medida em que as propriedades tidas em consideração para se construir este espaço são propriedades atuantes, ele pode ser descrito também como campo de forças, quer dizer, como um conjunto de relações de força objetivas impostas a todos os que entrem nesse campo e irredutíveis às intenções dos agentes individuais ou mesmo às interações diretas entre os agentes, (Bourdieu, 1989, p. 134)

O capital social é o conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interreconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis (Bourdieu, 1980, p. 67).

Os campos, mesmo que sejam diferentes entre si, estão limitados há algumas leis, denominadas por Bourdieu “Leis gerais dos campos”. É essa característica que torna compreensível o funcionamento de campos distintos, como: “o campo da política, o campo da filosofia, o campo da religião, que possuem leis de funcionamento invariantes” (1983, p. 89). É devido a essa constância de leis que permitem o entendimento do funcionamento de um campo em particular é que podemos interrogar e interpretar outros campos. Desse modo, cada vez que se estuda um novo campo, descobre-se propriedades específicas, próprias a um campo particular ao mesmo tempo que se faz avançar o conhecimento dos mecanismos universais desses espaços sociais que se especificam em função de variáveis secundárias.

2.1 Uma analogia para o campo: O Jogo

Bourdieu situa o campo como espaço de luta e jogo, certamente em função das situações de disputas simbólicas. Pode-se afirmar que o jogo é apenas uma das analogias para os campos, entre as quais estão os do mercado, espaço de posições hierárquicas etc. De acordo com Bernard Lahire tal analogia é fundamental e invariante na definição de campo e consta nos textos ´Quelques propriétés des champs’ (Questions de sociologie, 1980) e ‘Le champ litéraire’ (1991). Para ele,

cada campo possui regras do jogo e desafios específicos, irredutíveis às regras do jogo ou aos desafios de outros campos (o que faz “correr” um matemático – e a maneira como “corre” – nada tem a ver com o que faz “correr” – e a maneira como “corre” – um industrial ou um grande costureiro). (2002, p. 47)

O bom funcionamento do campo depende tanto dos objetos de disputas quanto de pessoas aptas e disponíveis para disputar o jogo, dotada de habitus, isto é, de serem capazes de conhecer e reconhecer as leis imanentes do jogo, dos objetos de disputas etc.

O habitus é como um sistema de disposições adquiridas pela aprendizagem implícita ou explícita que funciona como um sistema de esquemas geradores; é gerador de estratégias que podem ser objetivamente afins aos interesses objetivos de seus atores sem terem sido expressamente concebidas para esse fim (Bourdieu, 1983, p. 89).

A despeito da noção de habitus, Löic Wacquant, explicita que Bourdieu explora o conceito de modo fundamental para a compreensão do papel do indivíduo em seu contexto social,

(...) o habitus é uma noção mediadora que ajuda a romper com a dualidade de senso comum entre indivíduo e sociedade ao captar “a interiorização da exterioridade e a exteriorização da interio ridade”, ou seja, o modo como a sociedade se torna depositada nas pessoas sob a forma de disposições duráveis, ou capacidades treinadas e propensões estruturadas para pensar, sentir e agir de modos determinados, que então as guiam nas suas respostas criativas aos constrangimentos e solicitações do seu meio social existente (Wacquant, 2007, p. 2).

Para Bourdieu a dinâmica do campo representa um jogo. Como em todo jogo, há os objetos que são disputados a partir de uma relação de força que se dá entre os agentes ou mesmo entre instituições. A relação de força é estabelecida de acordo com as posições assumidas dentro do jogo, e é em função delas que os agentes estabelecem as estratégias que serão mobilizadas para própria proteção. Assim, a estrutura do campo será definida como “um estado da relação de força entre os agentes ou as instituições engajadas na luta ou, se preferirmos, da distribuição do capital específico que, acumulado no curso das lutas anteriores, orienta as estratégias destinadas ulteriores” (Bourdieu, 1983, p. 90).

Por meio dessa interpretação que assimila as relações no interior de um campo a um jogo, Bourdieu assegura que o campo possui algumas propriedades que são fundamentais para o seu funcionamento. Uma das propriedades que mais se assemelha ao jogo é a de que os agentes engajados em um campo têm interesses fundamentais em comum, e sua própria existência no campo exige certa cumplicidade, a despeito de possíveis antagonismos

2.2 Os Jogadores

O funcionamento do jogo envolve amplo processo de seleção e cooptação dos jogadores, exige-se que eles conheçam seus princípios, pois, “todas essas pessoas compactuam com a conservação do que é produzido no campo, tendo interesse em conservar e a se conservar conservando” (Bourdieu, 1983, p. 92).

Para Ortiz (1983), na atuação dos agentes que estão diretamente vinculados a um campo, não há uma neutralidade das ações, pois tudo o que é realizado demanda uma série de disputas de interesses.

Bourdieu recorre aos conceitos clássicos da obra weberiana, como os de ortodoxia e heterodoxia, que segundo Ortiz (1983), se manifestam na divisão do campo social em dominantes e dominados. As práticas de uma ortodoxia que pretende conservar intacto o capital social acumulado, corresponderia ao polo dominante, e as práticas heterodoxas, que tendem a desacreditar os detentores reais de um capital legítimo, ao polo dominado.

As lutas no interior do campo consistiriam em uma disputa entre esses dois polos, em que aqueles que ocupam a posição dominante, “se situam junto à ortodoxia” e para se conservarem nessa posição, agiriam por meio da segregação de instituições e da disposição de mecanismos que “assegurem seu estatuto de dominação” (Ortiz,1983, p. 22).

Por um lado, a principal forma de manifestação do polo dominante consistiria na afirmação de um processo de legitimação dos bens simbólicos,2 que representariam a seletividade determinante da aceitação ou não da ascensão dos membros na hierarquia cultural. Assim, tenderiam a adotar, mesmo de forma inconsciente, estratégias conservadoras, mantendo a estrutura do campo e os critérios vigentes, os quais convergiriam para os interesses dominantes. Por outro lado, o polo dominado, seria representado pelos agentes recémchegados, e por vezes, aqueles inconformados, que adotariam estratégias de “subversão”, em confronto permanente com os ortodoxos.

Os agentes que pertencem ao polo dominado são descritos por Bourdieu (como aqueles que sob pena de exclusão3, permanecem dentro de certos limites. Contudo, o próprio Bourdieu, admite “que as revoluções parciais que ocorrem continuamente nos campos não colocam em questão os próprios fundamentos do jogo, sua axiomática fundamental, o pedestal das crenças últimas sobre as quais repousa o jogo inteiro” (Bourdieu, 1983c, p. 91).

A despeito dessa polarização do campo entre dominantes e dominados é necessário recorrer ao que o próprio Bourdieu (1983c) cita como reforço do campo em questão, considerando que “na verdade, a ortodoxia e heterodoxia, embora antagônicas, participam dos mesmos pressupostos que ordenam o funcionamento do campo” (Ortiz, 1983, p. 23)

Em suas próprias palavras, Bourdieu explica que:

é a heresia, a heterodoxia, enquanto ruptura crítica, frequentemente ligada à crise, juntamente com a doxa, que faz com que os dominantes saiam de seu silêncio, impondo-lhes a produção do discurso defensivo da ortodoxia, pensamento “direito” e de direita, visando a restaurar o equivalente da adesão silenciosa da doxa (Bourdieu, 1983c, p. 90).

  1. 1. 2 As hierarquias entre bens simbólicos seriam, portanto, uma base importante para a hierarquização dos indivíduos e grupos sociais. Os indivíduos capazes de produzir, reconhecer, apreciar e consumir bens culturais tidos como superiores teriam maior facilidade para alcançar ou se manter nas posições mais altas da estrutura social. (Ortiz, 1983, p. 42)
  2. 2. 3 Por meio do uso do conceito de violência simbólica, Bourdieu tenta desvendar o mecanismo que faz com que os indivíduos vejam como ‘natural’ as representações ou as ideias sociais dominantes. “A violência simbólica é desenvolvida pelas instituições e pelos agentes que as animam e sobre a qual se apóia o exercício da autoridade.” (Catani, 2002, p. 2).

Conforme Ortiz (1983), a heterodoxia consistiria em um fenômeno simbólico, situado ao nível do ritual, de modo a não afetar os princípios de poder que estruturariam o campo. O simbolismo implicado nessas oposições entre os polos tem o objetivo de demarcar as posições dentro do campo, e nesse sentido, evitar que o jogo seja destruído em função de radicalismos extremos. Dominantes e dominados seriam, de certo modo atores regulados pela regra do jogo, e como adversários seriam cúmplices, cujo antagonismo, delimitariam o campo legítimo da discussão.

Considerando que a estrutura do campo é definida como o estado da relação de forças entre os dois lados, os dominantes são considerados como aqueles que monopolizam o capital específico que, de acordo com Bourdieu, significa que “o capital vale em relação a um certo campo, portanto, dentro de seus limites e que ele só é convertível em outra espécie de capital sob certas condições” (1983, p. 90) .

2.3 O Capital Específico

O capital específico torna-se o principal monopólio dos dominantes no interior do campo, muito embora representem apenas variações dos capitais cultural, econômico, social e simbólico. A relação de força estabelecida no campo se dá de maneira que quem detém maior capital específico possui um poder fundamentado e uma autoridade específica que se fortalece por meio do estabelecimento de estratégias. Para o autor, as estratégias são “ações objetivamente orientadas em relação a fins que podem não ser os fins subjetivamente almejados” (Bourdieu,1983, p. 91).

O sentido do capital específico aponta para a relação entre a construção do problema científico e o campo específico, mostrando que a relação entre essas dimensões pode ser garantida a partir do reconhecimento de legitimidade do problema a partir de seus agentes legítimos, (um problema filosófico é um problema que depende da legitimidade daqueles que pertencem ao campo da filosofia) tendo em vista que tal problema estaria inscrito na lógica da história do campo e em suas disposições historicamente constituídas para e pelo fato de pertencer ao campo e assim, estaria condicionado também ao reconhecimento de sua autoridade específica.

2.4 Um saber ser “quase natural”: Habitus

Em linhas gerais, quem participa do jogo no interior do campo em busca da detenção de um capital específico terá sua posição reconhecida em função do habitus do qual dispõe. O modo como esse agente percebe, pensa e age é constituído, isto é, é gerado como um esquema de disposições objetivante e objetivado pelos próprios espaços sociais.

O habitus é entendido como um sistema de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionarem como estruturas estruturantes, isto é, como princípio que gera e estrutura as práticas e as representações que podem ser objetivamente ‘regulamentadas’ e ‘reguladas’ sem que por isso sejam o produto de obediência de regras, objetivamente adaptadas a um fim, sem que se tenha necessidade da projeção consciente deste fim ou do domínio das operações para atingi-lo, mas sendo, ao mesmo tempo, coletivamente orquestradas sem serem o produto da ação organizadora de um maestro (Bourdieu, 1972, p. 175).

No campo, há uma “relação inconsciente entre um habitus e um campo” que implica na concepção do habitus como a) obediência à necessidade imanente do campo e b) satisfação das exigências inscritas (Bourdieu, 1983).

No entanto, Bourdieu refuta o utilitarismo aparente no conceito de habitus e adverte para a inconsciência dos agentes em relação ao sacrifício por um dever ou a maximização do lucro (específico). Para ele, há certa dissimulação no interesse pelo objeto em disputa, por parte dos membros de um campo, o que levaria a um lucro suplementar de se verem e serem vistos como perfeitamente desinteressados.

Sobre aparente desinteresse dos agentes e grupos de agentes no desempenho de suas ações, no interior do campo, Bourdieu reconhece, sobretudo, no campo científico como forma de demonstrar que esse campo é um campo social que sofre as mesmas influências políticas dos outros campos, sendo também uma estrutura-estruturante, regida pelas mesmas leis de funcionamento. Isso significa afirmar que o campo enquanto espaço social, é organizado como lugar hierárquico, duo, dicotômico por ser ao mesmo tempo fechado e completo e aberto e incompleto (no sentido de haver reentrâncias possíveis, garantidoras da illusio e que seus agentes são influenciados por estruturas mentais através das quais eles apreendem as regras de funcionamento desse microcosmos. Portanto, o modo como agem, como pensam e interpretam esse mundo é puro produto de sua interiorização, originando o habitus de pesquisador, produto do campo universitário, e ao mesmo tempo, pertinente ao campo científico. A incorporação do habitus é em parte um savoir faire, que consistiria mais em um savoir etre, incorporado sob a forma de uma capacidade que se forja na transmissão e recepção de valores, atitudes e comportamentos do grupo e do campo de pesquisa, “capaz de apreender a pesquisa como uma atividade racional [...] orientada para a maximização do rendimento dos investimentos, e para o melhor aproveitamento possível dos recursos, a começar pelo tempo de que se dispõe” (Bourdieu, 1989, p. 18) para a sua construção.

3. O campo científico

O campo científico é um campo que se pretende neutro, mas que estaria condicionado às mesmas leis de funcionamento dos campos sociais, é o que afirma o sociólogo ao explicar que “o universo ‘puro’ da mais ‘pura’ ciência é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes revestem formas específicas” (Bourdieu, 1983, p. 122).

A estrutura do campo científico é, sobretudo, mantida pela constância do estado das relações de força na luta concorrencial entre seus agentes, e entre instituições. O capital específico, portanto, é objetivado de forma que todas as estratégias e as chances objetivas dos diferentes agentes e instituições estão voltadas a ele. Sua distribuição ocorre em função das lutas concorrenciais precedentes no campo.

Para Bourdieu, a verdade científica é uma espécie particular de produto do campo científico sempre atrelada à dinâmica de relação de forças que se estabelece nesse campo, de modo que o que é reconhecido ou divulgado como verdade científica é o que resultou de uma luta que Bourdieu assinala como jogo.

Ao implicar o campo científico como lugar e espaço de jogo de uma luta concorrencial, esse autor considera que as posições adquiridas no interior desse campo decorrem de conquistas prévias, de tal modo que “os julgamentos sobre a capacidade científica de um estudante ou de um pesquisador estão sempre contaminados, no transcurso de sua carreira, pelo conhecimento da posição que ele ocupa nas hierarquias instituídas (Bourdieu,1983, p. 124).

3.1 Competências e Autoridades Científica: acúmulo de capital científico

O monopólio da autoridade e competência científica constituem expressões do reconhecimento da capacidade técnica e do poder social no interior do campo científico, e são associados à capacidade de falar e agir legitimamente, concedida a um agente dominante. Os investimentos desses agentes, portanto, são direcionados para as práticas que preveem aquisição de autoridade científica, cuja recompensa vem sob a forma de prestígio e reconhecimento no interior do campo.

Para Bourdieu “o que chamamos de ‘interesse’ por uma atividade científica (uma disciplina, um setor dessa disciplina, um método etc.) tem sempre uma dupla face” (1983, p. 124). Ao escolher investir em uma determinada disputa, o agente sempre levaria em consideração o modo como esse objeto é percebido pelos agentes do próprio campo ou subcampo, priorizando os problemas que lhe dariam como retorno maior possibilidade de lucro simbólico. Nesse sentido, haveria competições pelo objeto que daria maior retorno.

Bourdieu considera que a competição entre os pesquisadores inclui a disputa por maior visibilidade no campo, e que alguns pesquisadores migrariam rumo a objetos menos prestigiados, a fim de evitar grande competição.

É o campo científico, enquanto lugar de luta política pela dominação científica, que designa a cada pesquisador, em função da posição que ele ocupa seus problemas, indissociavelmente políticos e científicos, e seus métodos, estratégias científicas que, pelo fato de se definirem expressa ou objetivamente pela referência ao sistema de oposições políticas e científicas constitutivas do campo científico, são ao mesmo tempo, estratégias políticas (Bourdieu, 1983, p. 126).

No âmbito do campo científico, a autoridade científica seria o maior objeto de disputa, e consistiria em uma espécie de capital social que garantiria certo poder sobre os mecanismos constitutivos do campo, além de poder ser reconvertido em outras formas de capital.

Desse modo, a concorrência no interior do campo seria expressa na luta entre os agentes cujos produtos seriam reconhecidos pelo seu valor, do qual decorreria também maior autoridade de produtor legítimo. Assim, a posição dominante asseguraria aos “talentos científicos de que ele é detentor a título pessoal ou institucional, a mais alta posição na hierarquia dos valores científicos.” (Bourdieu, 1983, p. 128).

Com relação à aquisição de autoridade científica dentro do campo científico, Bourdieu explicita que “a posse de capital científico tende a favorecer a aquisição de capital suplementar, em que a carreira científica “bem-sucedida” torna-se um processo contínuo de acumulação [...]” (1983, p. 131).

O título, como capital escolar reconvertível em capital universitário e científico encerra uma trajetória provável, ele comanda, por meio das “aspirações razoáveis” que ele autoriza toda a relação com a carreira científica-escolha dos assuntos mais ou menos “ambiciosos”, uma maior ou menor produtividade (Bourdieu, 1983, p. 134).

O mesmo autor destaca, ainda, que o “pesquisador depende também de sua reputação junto aos colegas para obter fundos para pesquisa, para atrair estudantes de qualidade, para conseguir subvenções e bolsas, convites, consultas, distinções”. (Bourdieu, 1983, p. 131) Os interesses típicos dos agentes do campo científico, consistem em acumular capital em função da construção de um nome próprio, o qual seria reconhecido como uma marca distintiva de seu portador, arrancando-o da invisibilidade do fundo indiferenciado, despercebido, obscuro, no qual se perde o homem comum.

4. O Campo Universitário

O marco social que norteou as análises de Bourdieu (1984) sobre o campo universitário foi a crise de maio 1968, constituindo um cenário histórico e político de movimentos sociais deflagrados por alunos de algumas instituições universitárias francesas, o que ocasionou uma crise de proporções internacionais. Esse contexto, inflamado por revoltas estudantis que teve como precipitador o estupendo crescimento do número de alunos das classes populares na universidade no período pós-guerra, tornou-se propício para a tessitura do trabalho sociológico de Bourdieu sobre o campo universitário. As condições de possibilidade para seus estudos estão, portanto, arraigadas nos seguintes fatos:

(...) elevação da taxa de fecundidade nos anos posteriores à guerra e do crescimento geral da taxa de escolarização que determinou em torno dos anos 60 o crescimento do corpo de professores, aumentando ao mesmo tempo o enquadramento dos estudantes que cresciam fortemente, mesmo que em graus diferentes, dentro de todas as faculdades. A consequência mais direta desse processo foi um importante crescimento dos postos ofertados nas faculdades, e ao menos para certas categorias de professores, uma aceleração de carreira (Bourdieu, 1984, p. 128).

Bourdieu apresenta o sistema universitário francês a partir de uma hierarquia graduada entre suas diferentes instituições, distinguindo as mais prestigiadas pelas elites e que atraem sua clientela pelo potencial distintivo que oferece.4 O sistema seria como um menu de oportunidades extremamente seletivas, em que a escolha do produto resulta na obtenção de um bem simbólico que se diversifica sob a forma de status social ou chances de obtenção e exercício de poder na sociedade. Para o autor, a universidade está sempre sob os efeitos de uma ordem social que pode ser desequilibrada, especialmente num momento de crise, situação que pode favorecer a subversão do espaço, desfavorecendo a permanência dos ortodoxos defensores da ordem vigente (Bourdieu, 1984, p. 249).

4.1 O campo universitário como espaço de poder

Na obra Homo Academicus a universidade é enfocada sob a perspectiva sociológica de Bourdieu como um campo de lutas concorrenciais, similar a outros espaços sociais. A variável mais influente no interior desse espaço social, é o tempo, categoria considerada determinante para a aquisição de poderes, demarcando a ordem das sucessões de posições nas instituições.

  1. 1. 4 Para Bourdieu (1984), a distinção entre as universidades dentro do sistema universitário francês é medida pelo prestígio, em que pesa o volume de capital cultural, científico, social e intelectual que cada agente, professores, alunos e instituições possuem. A autor situa no topo da hierarquia desse sistema, le Collège de France e à École des hautes études no primeiro setor, isto é, no setor dominante, que forma a elite da sociedade francesa e do lado oposto, outras instituições como a Universidade de Nanterre.

Dispender tempo é o preço para a conquista e manutenção do poder universitário, pois uma das condições para que esse poder possa se consolidar consiste no acúmulo do capital específico de autoridade acadêmica, adquirido por meio do exercício de posições administrativas do topo das hierarquias constituídas.

Conforme suas próprias palavras,

...o poder universitário não pode ser acumulado e investido sem uma constante e importante dis- pensa de tempo, que resulta, como Weber já havia assinalado, na aquisição e no exercício de um poder administrativo no campo universitário - como o de diretor ou de reitor, por exemplo – [...] A acumulação do capital específico de autoridade acadêmica implica num gasto de tempo para o controle de uma rede de instituições onde se acumula e se exerce o poder universitário, constituindo-se pouco a pouco, no capital de serviços prestados que são indispensáveis à instauração de cumplicidades, de alianças e de clientelas5 (Bourdieu, 1984, p. 128).

Desse modo, o tempo dedicado à instituição universitária polarizaria o campo de modo a situar, de um lado, os “velhos,” isto é, aqueles que possuem mais tempo de trabalho dedicado à instituição, e do outro, os “jovens”, recém-chegados. Inspirado pelas lutas no campo econômico, sempre afetado por estratégias invariantes, Bourdieu explora essa relação, pela oposição ortodoxia e heterodoxia, que assim como outros conceitos de sua teoría dos campos sociais, são provenientes do campo económico. Entre as estratégias invariantes, pode-se ressaltar a oposição entre as estratégias de conservação e as estratégias de subversão (o estado da relação de força existente). As primeiras são mais frequentemente as dos dominantes e as segundas, as dos dominados (e, entre estes, mais particularmente, dos “últimos a chegar”). Essa oposição pode tomar a forma de um conflito entre ‘antigos’ e ‘modernos’, “ortodoxos’ e ‘heterodoxos”.

Os professores mais antigos na instituição e os mais jovens se oporiam quanto às perspectivas promissoras da carreira, pois enquanto os primeiros tenderiam à luta pela permanência de suas posições, tornando-se os ortodoxos, os segundos, são reconhecidos como aspirantes a tais posições, são os heterodoxos. Os mais jovens são os recém-chegados geralmente vistos como “ambiciosos,” enquanto os mais velhos são considerados “conservadores mandatários” na avaliação dos mais novos. A disputa entre titulares e recém- chegados é um dos fatores que leva o campo universitário a ser o lugar de uma “luta de classificações para conservar ou transformar o estado da relação de forças entre os diferentes poderes, contribuindo para fazer as classificações objetivamente num dado momento do tempo”6 (Bourdieu, 1984, p. 31).

Ressalta-se que, há uma ambivalência nas disputas no campo universitário, pois, assim como na estrutura do campo científico, os agentes ou grupos de agentes, atuam muito proximamente, tendo em vista os mesmos interesses, estabelecendo articulações e consensos, e ao mesmo tempo, disputam espaço no campo.

Bourdieu reitera que uma das características das lutas concorrenciais no campo universitário dada sua natureza simbólica, é que as lutas nem sempre são percebidas como tal pelos agentes ou grupos de agentes que não se colocam sempre conscientemente na qualidade de concorrentes, e menos ainda, como inimigos, sem recorrer às estratégias de proteção/ataque de maneira totalmente esclarecida. De acordo com as palavras do autor, a estrutura do campo universitário é um estado da relação de forças entre os agentes ou entre os poderes que eles detêm devido à sua qualificação pessoal e, sobretudo, através das instituições das quais eles fazem parte. Assim, a posição ocupada nessa estrutura implica na definição de estratégias que visem transformar ou conservar, “modificando ou mantendo a força relativa dos diferentes poderes ou, se se preferir, as equivalências estabelecidas entre as diferentes espécies de capital”7 (Bourdieu, 1984, p. 171).

4.1.1 Um espaço de acúmulo de capitais

O poder universitário seria um mecanismo de autoridade capaz de influenciar a carreira dos professores de uma instituição universitária. A ocupação de posições que agrega poder origina no interior do campo universitário, um tipo peculiar de capital: o capital universitário. Nas palavras de Bourdieu:

  1. 1. 5 Tradução livre
  2. 2. 6 Tradução livre
  3. 3. 7 Tradução livre.

p(...) o capital universitário é obtido através da ocupação de posições que permitem dominar outras osições e seus ocupantes, como todas as instituições que impõem o controle ao acesso ao corpus professoral, como a composição de bancas de concurso da Escola Normal Superior, e de agregação ou do doutorado, comitê consultivo das universidades: estes poderes sobre as instâncias de reprodução do corpus universitário asseguram aos seus detentores uma autoridade estatutária, assume funções muito mais relacionadas à posição hierárquica do que às propriedades extraordinárias de sua obra ou de sua personalidade. Um poder que se exerce [...] também sobre a clientela de candidatos ao doutorado, no recrutamento de professores ordinários e assistentes que são colocados numa relação de dependência difusa e prolongada (1984, p. 128).

Segundo Bourdieu, de um lado estão aqueles que investem, sobretudo no trabalho de acumulação e de gestão do capital universitário, e de outro, aqueles que investem na produção e, secundariamente, no trabalho de representação que contribui para acumulação de um capital simbólico de notoriedade externa:

O poder universitário é geralmente independente do capital científico e [...] tende sempre a pare- cer uma forma inferior de poder, como um substituto ou um prêmio de consolação. Compreende também a ambivalência dos universitários que se dedicam à administração com relação àqueles que se consagram, e com sucesso, à pesquisa (1984, p. 132).

Segundo o autor, há um grande lucro simbólico em fazer parte das comissões quando se é solicitado, de modo que aquele que é demandado, passa a fazer parte de uma rede de relações, a partir da qual se pode entender que se você joga o jogo de uma rede social bem estruturada e assegurada pelas instituições consagradas, isso te acrescenta capital simbólico e social, de onde derivariam outras formas de capitais como

(...) o capital de poder científico que consiste na direção de um organismo de pesquisa, de uma revista científica, ensino numa instituição de pesquisa, participação em um diretório do Conselho superior de pesquisa científico (CNRS), em comissões do CNRS, e o capital de prestígio científico que corresponde ao pertencimento ao instituto, as distinções científicas, traduções em línguas estrangeiras, participação em colóquios internacionais (incluindo o número de citações indexadas, não podendo ser considerado mais relevante do que a direção de revistas ou de coleções científicas)8 (Bourdieu, 1984, p. 61)

Bourdieu (1984) cita também o capital de notoriedade intelectual, como um capital de grande disputa e que se mostra como um diferencial entre seus detentores e não-detentores, cujos exemplos são o pertencimento à academia francesa e a menção no Larousse, aparição na televisão, colaboração em jornais e revistas intelectuais, publicação e coleções de bolso e pertencimento em comitês de redação de revistas intelectuais.9

Nesse sentido, os agentes mais ricos em prestígio externo são aqueles que reservam parte do tempo universitário para a produção propriamente dita ou para a promoção direta de seus produtos (como especialmente o trabalho de importar e exportar ciência, colóquios, congressos, conferências, trocas de convites, etc.) ou ainda a todas as atividades públicas, especialmente, de tipo político, que fazem parte do papel social do intelectual, e que sem ser necessariamente concebido como tal, deduzem em parte, da lógica das relações públicas e da publicidade dos quais constituem exemplos: a frequentação de jornalistas, a produção de artigos para os jornais, a participação nas petições ou nas manifestações, etc.

4.1.2 O poder no campo universitário com um jogo de crença na legitimidade

Para Bourdieu, a lógica de acumulação de poder, portanto, consiste em conhecer a engrenagem de obrigações que engendram outras obrigações, em que há uma acumulação progressiva de poderes que atende às solicitações do poder. O próprio poder simbólico se firma sobre a condição da ordem ou da desordem do mundo social como dependente da crença, “o que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de subvertê-la, é a crença na legitimidade das palavras daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras.” (Bourdieu, 1989, p. 15)

  1. 1. 8 Tradução livre
  2. 2. 9 Tradução livre

Compreender objetivamente o mundo no qual se vive sem compreender sua lógica é o que impede que o mundo seja entendido como vivenciável e viável, o que implica na própria imprecisão da compreensão prática como tal.” (Bourdieu, 1989, p. 32) O reconhecimento do poder simbólico no campo universitário, implicaria na ruptura com o objetivismo, como condição primeira para um conhecimento científico do mundo social. De acordo com Bourdieu:

O poder simbólico é um poder que aquele que lhe está sujeito dá àquele que o exerce, um crédito com que ele o credita, uma fides, uma auctoritas, que ele lhe confia pondo nele a sua confiança. É um poder que existe porque aquele que lhe está sujeito crê que ele existe. Credere, diz Benveniste, é literalmente colocar o kred, quer dizer, a potência mágica, num ser de que se espera proteção, por conseguinte crer nele (1989, p. 188).

O espaço universitário seria, então, como um organismo de distribuição de diferentes espécies de poder que se reproduz a partir das posições intelectuais de destaque no campo, assim como nas posições políticas ocupadas nas diferentes esferas das instituições universitárias. Entretanto, o autor afirma que o poder institucionalizado estabelece uma relação de força objetiva, pelo qual e a partir dele há de fato muitas disputas. Os agentes empregam estratégias para levarem a melhor na luta simbólica pelo monopólio da imposição do veredito, pela capacidade reconhecida de dizer a verdade a respeito do que está em jogo no debate, “a expressão das relações de força objetivas entre os agentes envolvidos e, mais precisamente, entre os campos diferentes em que eles estão implicados, e em que ocupam posições mais ou menos elevadas” (Bourdieu, 1989, p. 54).

No entanto, nota-se no âmbito das instituições universitárias que há uma tendência de ocultação das vivências e discussões coletivas como expressão social de seus agentes em função de uma padronização unidimensional dessas instituições, dos grupos e dos próprios agentes nestes envolvidos, persistindo uma espécie de alienação das subjetividades. O que marca a universidade como instância de poder é que o poder que nela se constitui, e por ela é constituído, é também uma pretensão totalitária, que tende a pré-determinar o fluxo e o agir dos agentes e grupos de agentes, fixando em suas regras de funcionamento o discurso perfeito para o homo academicus, a quem Bourdieu define como aquele que “gosta do acabado”.10 (1989, p. 19)

O poder pode ser visto no campo, como objeto de disputa de um jogo e o campo é o espaço do trânsito em que é preciso contar com a fluidez entre as posições, para que as aspirações sejam possíveis, os interesses existam de fato, a esse efeito Bourdieu denomina illusio, ou seja, “que a pertença a um campo exige e produz, exclui o cinismo, e os agentes quase nunca dominam explicitamente aqueles mecanismos cujo domínio prático é a condição do seu êxito.” (Bourdieu, 1989, p. 82)

O autor aprofunda-se no âmago das relações institucionais na universidade para extrair de lá sua convicção de que há um jogo, cujos vencedores e resultados importam menos do que o ato de jogar como um processo de mensura, onde estão dispostos jogadores que se medem o tempo todo, exprimindo suas forças, sempre dosadas à necessidade de manutenção do jogo, nem mais e nem menos, apenas o necessário para sua continuidade. Se por um lado, “é preciso contar com a indeterminação objetiva do jogo, por outro, há as probabilidades objetivas que delimitam o universo de possíveis concorrentes.” 11 (p. 119)

O princípio do movimento perpétuo que agita o campo [...] reside na própria luta que, sendo produzida pelas estruturas constitutivas do campo, reproduz as estruturas e as hierarquias deste. Ele reside nas ações e nas reações dos agentes que, a menos que, se excluam do jogo e caiam no nada, não têm outra escolha a não ser lutar para manterem ou melhorarem a sua posição no campo, quer dizer, para conservarem ou aumentarem o capital específico que só no campo se gera, contribuindo assim para fazer pesar sobre todos os outros os constrangimentos, frequentemente vividos como insuportáveis, que nascem da concorrência. Em suma, ninguém pode lucrar com o jogo, nem mesmo os que o dominam, sem se envolver no jogo, sem se deixar levar por ele: significa isto que não haveria jogo sem a crença no jogo e sem as vontades, as intenções, as aspirações que dão vida aos agentes e que, sendo produzidas pelo jogo, dependem da sua posição no jogo (...) (p. 85).

  1. 1. 10 Grifo do autor
  2. 2. 11 Livre tradução

Nesse sentido, o poder institucionalizado, que determina as relações de autoridade e dependência duráveis se reproduz em várias instâncias, inclusive na reprodução do próprio corpus universitário. Essa circularidade “consiste na capacidade de agir sobre as expectativas - fundadas na disposição para jogar e nos investimentos necessários para o jogo”. (Bourdieu, 1989, p. 118) Esse jogo é o próprio funcionamento do campo universitário, que para o autor é tão determinado quanto determinante, pois os limites e as possibilidades de seus agentes dependem das relações de força constituídas entre os próprios pares, sendo que alguns detêm mais poder, e outros menos, no interior dos grupos.

4.1.3 Um espaço social que privilegia os herdeiros

O autor expõe sua crítica ao sistema universitário, como instância que admite integrar os estudantes ao sistema social, mas que atuaria na legitimação da herança social de uns frente outros, em que pese, o constante reforço ao produto do capital cultural, do qual, nem todos seriam herdeiros. No entanto, o ensino seria apenas uma das dimensões de um jogo muito maior, que envolveria a disputa por posições no campo da pesquisa, e participação no campo científico.

Os capitais mais determinantes para uma trajetória acadêmica exitosa entre os universitários, portanto, seriam o capital cultural e o escolar. O primeiro seria herdado do círculo familiar e teria como principal indicador, o nível de escolaridade dos pais. O segundo, corresponderia a indicadores da biografia escolar dos estudantes, e estaria relacionado ao estabelecimento frequentado (liceu público ou colégio privado, parisiense ou provincial etc.) e o êxito escolar nos estudos secundários e superiores, bem como os títulos obtidos, antes mesmo de chegar à universidade.

De todo modo, os capitais cultural e escolar seriam também relacionados à posse de capital econômico, sem o qual, seria muito difícil a acessão do estudante a uma vida de êxito na universidade e a ascensão à carreira de pesquisador. Bourdieu (1984) afirma que o acesso à pesquisa é um caminho demorado, e exigiria do estudante uma dedicação exclusiva, demandando tempo para crescimento dentro de um grupo de pesquisa. Desse modo, a promessa de realização de carreira de professor universitário ou pesquisador seriam pré-determinadas antes mesmo de os alunos cursarem a graduação, pois os efeitos do campo universitário são manifestos, inda que indiretamente, pelos determinantes sociais das chances de acesso a tais posições.

Bourdieu considera que a trajetória que leva o “aluno brilhante” a se tornar um “pesquisador renomado”12, sobretudo nas escolas mais tradicionais, é “determinada pela formação do habitus e do êxito escolar que depende tanto do capital econômico, quanto do capital cultural e social herdados: a origem social, a origem geográfica, e até mesmo, a religião de origem de sua família” interferem inegavelmente na trajetória acadêmica dos alunos13 (1984, p. 60).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A teoria dos campos de Bourdieu, tal como sistematizada nos campos científico e universitário, é um esforço metodológico, por meio do qual o autor aplica as noções prévias, teoricamente constitutivas de uma análise sociológica do mundo, às instituições. Ademais, constitui-se em novas tessituras teóricas que permitem entrever o argumento favorável à autonomia. Bourdieu mostra que a estrutura objetivamente constituída como uma topografia social, que configurada como um espaço ao mesmo tempo objetivo e simbólico, torna-se a expressão inequívoca de um campo de disputas, regulado por regras invisíveis, indizíveis, que de modo ambivalente, também são visíveis e ditas com clareza, para que os agentes possam compreendê-las e se inserirem na perspectiva do jogo, o qual disputam. Os jogadores, entrantes, recém- chegados, não têm ou não podem reivindicar autonomia porque estão na linha inferior do campo, e falta- lhes ainda, galgar seu espaço. Aqueles que já entraram e já coexistem temporalmente com a maioria, ou são dominados, porque já perderam a possibilidade de obter posições de comando, e atuam de modo corporativo, integrando-se a um grupo heterodoxo, enquanto, os dominantes, são os ortodoxos, os mantenedores da ordem. Nesse sentido, a autonomia ou não existe ou é sequestrada pelas imposiçõesdo ordinário.

  1. 1. 12 Grifos do Autor
  2. 2. 13 Tradução livre

A natureza dissimulada do poder simbólico é tratada por Bourdieu, no interior dos campos científico e universitário a partir das análises das relações que se constituem ambos nos campos, apontando, para tanto, as posições objetivas, portanto, o poder torna-se visível, e sua presença, inegável. E sobre quem e sobre tais poderes incidem? Sobre os agentes, sobre os jogadores, sobre os heterodoxos que estão sempre dispostos a subverter a ordem estabelecida, embora precisem passa pelo fulcro da illusio, de que pertencem a um campo, a um grupo, a uma posição. Então, estes também agem de modo dissimulado, porque não participam do poder, embora se orientem pelo interesse alimentado pela condição de possibilidade de pertencimento à luta.

Por fim, Bourdieu admite que no interior dos espaços sociais onde se pratica o exercício deliberado de posições que objetivamente consolidam seu enunciadores em lideranças, o agente acumula capitais específicos desses campos engendrados pelas lutas concorrenciais, capitais que participam de sua biografia tanto como pesquisador quanto como administrador. Portanto, o campo científico é composto por agentes que adquiriram disposições para a pesquisas, as quais se pode denominar habitus científico. Tais disposições são o fundamento das resistências dos heterodoxos, ao mesmo tempo em que sustentam a posição dos ortodoxos. Quanto às lutas e resistências componentes das oposições que mobilizam os agentes no interior dos campos, Bourdieu considera que elas podem ser ao mesmo tempo, motivação para a sensação de deslocamento e de estar sempre na contramão dentro do campo, ou motivação para a resistência.

Os estudantes que transitam entre os campos universitários e alcança o campo científico com êxito é, forçosamente, aqueles que viveram uma trajetória universitária como pesquisador iniciante, orientada para esse fim. Sua entrada no campo científico é similar à sua entrada no jogo científico, que segundo Bourdieu, merece ser jogado. Esse jogo tem como objeto de interesse sua permanência no campo, bem como o acúmulo de capital científico que pode coincidir ou não com a ocupação de posições administrativas de comando, quase sempre vistas como prêmio de consolação. É preciso ter em vista que o interesse científico parece desinteressado em relação a outros tipos de interesses em disputa em outros campos, contudo ele é apenas uma forma de interesses pertinentes ao mundo dos bens simbólicos.

AUTORA

Catarina B.T. Gomes. Mestre e doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tendo defendido tese na área de Sociologia da Educação e Formação de Professores. No momento, é professora de Filosofía/Sociologia no (CEFET/MG).

CONFLICTO DE INTERESES

Não há e nem houve nenhum conflito de interesse.

FINANCIAMIENTO

A pesquisa não contou com ajuda financeira.

ACLARACIÓN

O artigo é parte do estudo teórico de minha dissertação de mestrado realizada no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais.

REFERÊNCIAS

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Bourdieu, P. (1989). O Poder simbólico. Bertrand Brasil/Difel.

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Ortiz, R. (Org.) (1983). Bourdieu. Sociologia. Ática

Wacquant, L. (2006). Seguindo Pierre Bourdieu no campo. Revista de Sociologia e Política, (26), 13-29. https://doi.org/10.1590/S0104-44782006000100003

Wacquant, L. (2007). Esclarecer o habitus. Sociologia: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 14. https://doi.org/10.15603/2176-1043/el.v10n16p63-71

Información adicional

Contenido: RESUMO 28 ABSTRACT 28 1. INTRODUÇÃO29 2. A gênese do conceito de campo: estrutura espacial e jogos de poder 29 2.1 Uma analogia para o campo: O Jogo 30 2.2 Os Jogadores 31 2.3 O Capital Específico 32 2.4 Um saber ser “quase natural”: Habitus 32 3. O campo científico 33 3.1 Competências e Autoridades Científica: acúmulo de capital científico 33 4. O Campo Universitário 34 4.1 O campo universitário como espaço de poder 34 4.1.1 Um espaço de acúmulo de capitais 35 4.1.2 O poder no campo universitário com um jogo de crença na legitimidade 36 4 1.3 Um espaço social que privilegia os herdeiros 38 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 38 REFERÊNCIAS 40 AUTORA 40 CONFLICTO DE INTERESES 40

sin nombre: Gomes, C. (2020). A construção dos campos científico universitário e seus reflexos na produção do Homo Academicus de Pierre Bourdieu. Religación. Revista de Ciencias Sociales y Humanidades, 5(25), 28-40. https://doi.org/10.46652/rgn.v5i25.675

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