Ensayos fotográficos
Vulnerabilidade e visibilidade nas imagens do trabalho durante a pandemia: qual o valor do essencial?
Vulnerabilidade e visibilidade nas imagens do trabalho durante a pandemia: qual o valor do essencial?
Revista Latinoamericana de Antropología del Trabajo, vol. 5, núm. 11, pp. 298-302, 2021
Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas

“Na pesquisa etnográfica, a mediação do vídeo e a da fotografia, formas de representação que permitem a recriação de uma imagem de si mesmo e dos outros, é fundamental na produção de uma performance que atualiza uma memória simultaneamente individual e coletiva(...)” (Ferraz, 2009, p.24-25).
A pandemia do Covid-19 trouxe ao debate público uma categoria central e diretamente vinculada aos mundos do trabalho: o essencial. A essencialidade passou a ser importante aos olhos dos Estados-Nação (Scott, 1998) no momento de estruturação das políticas públicas de saúde, ou da ausência delas. Já no nível das críticas e narrativas cotidianas (Boltanski & Thévenot, 1999; Certeau, 1994), o essencial vem sendo uma palavra corrente nas formas de reivindicação e de entendimento sobre as diferenças e desigualdades.
Observada do ponto de vista da Antropologia (Segata, 2020), a pandemia deve ser compreendida a partir de um princípio dessa ciência: a diversidade. Não se pode falar em uma experiência única nos tempos pandêmicos, ou seja, percebemos que o fenômeno objetivo da crise sanitária foi vivido de maneira diferente, de acordo com amplo feixe de marcadores sociais e culturais.
Refletindo sobre a multiplicidade de experiências nos mundos do trabalho na América Latina durante a pandemia, tomo emprestado dos estudos sobre migração a metáfora da hipervisibilidade (Jardim, 2012). Com ela, busco fazer referência ao que “saltou aos olhos” e que ficou evidente nas imagens do trabalho na pandemia: as diferenças na exposição ao risco e o aprofundamento da precariedade. Isso fica claro na medida em que se discute os setores da economia que “nunca pararam” (Soares, 2021) e quando se avalia a distribuição geográfica, a classe social, a raça e o gênero (Betim, 2021) como categorias que marcam as desigualdades dos impactos da pandemia na sociedade capitalista contemporânea.
A categoria de trabalho essencial traz embutida a contradição apontada pelo antropólogo David Graeber (Cf. Gómez, 2018) entre “valor” e “valores”, entre remuneração e importância social do trabalho e, principalmente, na ironia entre as condições de trabalho e risco que se submetem aquelas categorias de trabalho que são indispensáveis para o funcionamento das economias.
Não por acaso, os ensaios aqui apresentados convidam a pensar sobre a o trabalho durante a pandemia como uma experiência visual, sensorial e subjetiva. Os ensaios convidam a olhar para algo que se escancarou ao olhar e meditam sobre esse paradoxo a partir de diferentes conceitos, tais como os de importância, essencialidade, vulnerabilidade, dignidade, entre outros que são desafios para a construção de narrativas visuais no contexto das Ciências Sociais.
Por ser hipervisível, a desigualdade nos mundos do trabalho durante a pandemia transcendeu, e muito, as análises de quem estuda o tema. As próprias trabalhadoras e trabalhadores tomaram a pandemia como argumento em suas reivindicações por melhores condições de vida. Essas pessoas tiveram de se adaptar ao contexto, se reorganizar, criar outras formas de interação social e de relação com a subjetividade e a objetividade do valor (Graeber, 2013). O ensaio que abre esta edição, “’¡Unidad de las trabajadoras!’: las trabajadoras domésticas remuneradas entre las desigualdades estructurales y los efectos de la pandemia”, situa o processo de acompanhamento etnográfico de um desses movimentos de trabalhadoras. Verónica Casas, incorporando o papel de “antropóloga-fotógrafa”, apresenta as lutas das trabalhadoras domésticas de Buenos Aires em sua indignação frente as “injustiças” (Dubet, 2014).
O testemunho, visual e narrativo, é recurso conceitual movido por María Susana Rosales Pérez no ensaio fotográfico intitulado “Narrar a las mujeres Trabajo y pandemia en una zona urbana de la Ciudad de México.” As imagens seguem os pequenos negócios de La colonia Algarín na Cidade do México, valorizando o trabalho das mulheres em suas estratégias cotidianas de organização laboral e “fazer possível a vida” (Díaz & Gago, 2018, p.77).
A interrelação entre cultura, economia e trabalho é o tema do ensaio “Sobre o protagonismo dos carregadores em tempos de COVID-19, no contexto da feira do açaí, em Belém (Brasil)”. O autor, Miguel Picanço, desdobra esses temas nas fotografias da cidade de Belém, buscando discutir o protagonismo como noção que vai além do valor econômico e se espalha para a importância do produto que os carregadores levam nas costas – a fruta açaí –para a cultura local.
Concluímos o dossiê fotográfico com o ensaio de Tania Sosa Hidalgo, que assina .Lo esencial del trabajo en contingencia. Trabajadoras en los supermercados de Tijuana B.C. (México)”. A autora abre o ensaio com uma provocação: “todos vamos ao supermercado”, que permite pensar a ambiguidade do consumo, da necessidade e das intensidades de exposição ao risco. As fotografias estão convocando um desencaixe contraditório que é característica desse dossiê sobre trabalho em condições de pandemia: “hablan de las dificultades de un trabajo poco reconocido y sin embargo, a todas luces, esencial.”
Sempre que reflito sobre um conjunto de ensaios fotográficos reatualizo algumas questões que norteiam uma prática ética do saber antropológico na convergência da antropologia do trabalho com a antropologia visual. Qual o lugar e o papel das imagens nas antropologias visuais do trabalho? Defendemos (Rodrigues, et. al, 2020; Ferraz, 2020) que as imagens merecem um esforço para além de um uso acessório das imagens, no qual elas só comprovam o “estive lá” (Samain, 1995) ou decoram uma discussão teórica “elaborada”. Apostamos na capacidade das imagens de fazer pensar, provocar olhares, se abrir ao imaginário e proporcionar novos suportes de pesquisa e de interlocução com trabalhadoras e trabalhadores. Essa ideia se direciona ao incentivo a uma produção visual compartilhada com as comunidades pesquisadas (Cf. Dantas, 2020), na tessitura de relações nas quais a câmera não é um obstáculo, sendo, pelo contrário, “um incomparável estimulante” (Ferraz, 2009, p. 25).
REFERÊNCIAS
Betim, F. (2021, 19 de março). Radiografia da São Paulo que nunca parou durante a pandemia de coronavírus.El País. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-03-19/radiografia-da-sao-paulo-que-nunca-parou-durante-a-pandemia-de-coronavirus.html.
Boltanski, L. & Thèvenot, L. (1999). The sociology of critical capacity. European Journal of Social Theory 2(3): 359–377.
Dantas, L. (2020). Radicalizando o Imaginário: Impactos das transformações do trabalho nas construções imagéticas de si de domésticas brasileiras. Iluminuras 21 (52). DOI: https://doi.org/10.22456/1984-1191.101735
Dubet, F. (2014). Injustiças: a experiência das desigualdades no trabalho. Florianópolis: Editora UFSC.
Ferraz, A.L.C. (2009). Dramaturgias da autonomia: a pesquisa etnográfica entre grupos de trabalhadores. São Paulo: Perspectiva.
Ferraz, A.L.C. (2020). O trabalho das Imagens. Iluminuras 21. DOI: https://doi.org/10.22456/1984-1191.108605
Gómez, G.S.R. (2019). GRAEBER, David. Bullshit jobs: a theory. New York: Simon & Schuster, 2018. Horizontes Antropológicos 25 (54), pp. 367-371. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-71832019000200016
Graeber, D. (2013).[Postscript] It is value that brings universes into being. HAU: The Journal of Ethnographic Theory 3 (2): 219–43.
Jardim, D. (2012) Invisibilidade e hipervisibilidade dos muçulmanos no extremo sul do Brasil: os contornos da vida comunitária e os preceitos islâmicos em ato entre imigrantes de origem palestina. ILHA 14 (2), 119-138. DOI: https://doi.org/10.5007/2175-8034.2012v14n1-2p119
Quiroga Díaz, N. & Gago, V. (2018). “Una mirada feminista de la economía urbana y los comunes en la reinvención de la ciudad”. En. Bengoa & Corral (Orgs.) Economía Feminista: Desafíos, propuestas, alianzas. Buenos Aires: Madreselva.
Rodrigues, F.; Gómez, G.; Dantas, L.; Rocha, M. (2020). O trabalho das imagens: apresentação. Fotocronografias 06 (13). Disponível em: https://medium.com/fotocronografias/vol-06-num-13-2020-o-trabalho-das-imagens-d89bab93e3fe
Samain, E. (1995). “Ver” e “dizer” na tradição etnográfica: Bronislaw Malinowski e a fotografia. Horizontes Antropológicos 1 (2), 23-60.
Scott, J. (1998). Seeing Like a State: How Certain Schemes to Improve the Human Condition Have Failed. New Haven, CT: Yale University Press.
Segata, J. (2020). Covid-19, biossegurança e antropologia. Horizontes Antropológicos 26 (57), 275-313. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-71832020000200010.
Soares, M. (2021, 5 de abril). Mortes entre caixas, frentistas e motoristas de ônibus aumentaram 60% no Brasil no auge da pandemia. El País. Disponível em: . https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-05/caixas-frentistas-e-motoristas-de-onibus-registram-60-a-mais-de-mortes-no-brasil-em-meio-ao-auge-da-pandemia.html
Información adicional
ARK: http://id.caicyt.gov.ar/ark:/s25912755/wae2r29pu