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O novo modelo de repressão do stalinismo tardio, pseudociência e Cinema
The new model of repression of late Stalinism, pseudoscience and cinema
O novo modelo de repressão do stalinismo tardio, pseudociência e Cinema
Fronteiras: Revista Catarinense de História, núm. 42, pp. 206-237, 2023
Universidade Federal da Fronteira Sul

Recepción: 10 Octubre 2022
Aprobación: 01 Junio 2023
Resumo: Se a URSS da década de 1930 foi dominada por modelos de repressão por cota, massivos, o pós-guerra, com maiores dificuldades de controle, conheceu uma máquina profissional e acurada para identificação e coação de dissidentes. Charlatães das pseudociências utilizaram a cultura política e os novos instrumentos de repressão para se impor diante de seus pares cientistas, como demonstra Kojevnikov. A sócio-história cinematográfica de Marc Ferro permite entender como o cinema fez parte da guerra cultural do regime para disseminar tais práticas e tentar unificar o país diante de inimigos internos e externos. Para isso, foram selecionados os filmes Sud chesti, e Velikaya sila, pela temática comum do Tribunal de Honra.
Palavras-chave: Tribunal de Honra, Lysenkoísmo, URSS, Cultura política, Stalinismo tardio.
Abstract: If the USSR of the 1930s was dominated by massive, quota-based models of repression, the post-war period, with greater control difficulties, knew a professional and accurate machine for identifying and coercing dissidents. Pseudoscience charlatans used political culture and the new instruments of repression to impose themselves on their scientific peers, as Kojevnikov demonstrates. Marc Ferro's cinematographic socio-history allows us to understand how cinema was part of the regime's cultural war to disseminate such practices and try to unify the country in the face of internal and external enemies. For this, the films Sud chesti and Velikaya sila were selected, based on the common theme of the Court of Honor.
Keywords: Court of Honor, Lysenkoísmo, USSR, Political culture, Late Stalinism.
Introdução
A pseudociência[2] e outras formas de charlatanismo no campo científico prosperaram na URSS em decorrência do caráter centralizado das decisões em seus diversos níveis institucionais. No período do stalinismo tardio[3] (1945-53) a facilidade para sua infiltração e desenvolvimento dentro da estrutura de pesquisa e ensino era acentuada pela pouca formação dos quadros, pelas necessidades prementes do sitiado e embargado regime, das crises naturais, programáticas e bélicas, da destruição do pós-guerra, e as promessas de remediação mágica desses males, por meio de uma Ciência corrompida. O cinema, mais cooptado e pressionado que nunca nesse período, foi coagido a ser uma das fontes de disseminação do pensamento pseudocientífico. As novas formas de repressão não atingiam apenas o cinema, como também o meio acadêmico e a sociedade em geral. Antigas fórmulas e estruturas de censura e coação foram recuperadas, bem como novos e melhores métodos de repressão criados. A campanha dos adeptos dessa vigarice levou ao enquadramento de diretores como Aleksandr Dovjenko e no rebaixamento artístico de outros, como Abram Room. Algumas ciências, no entanto, escaparam quase ilesas ao ataque de embusteiros. Isso se deve ao desempenho relativo destes em manipular e jogar com a cultura partidária e política da URSS.
No pós-guerra os cientistas soviéticos não temiam mais os destinos do projetista espacial Sergey Korolev, preso por anos, ou do geneticista e agrônomo Nikolai Vavilov[4], que morreu na prisão, do físico Piotr Lazarev, exilado, ou do economista Nicolai Kondratieff, fuzilado. Novos modelos de controle[5], mais precisos e menos estridentes surgiram, como os Tribunais de honra. Estes tribunais já existiam sob o tsarismo (Montefiore, 2006, p. 36) – a passagem dos mecanismos do partido para o Estado e a identificação com o império russo (Deustcher, 2006; Lewin, 2007) contribuíram para a ressurreição de um modelo de coação do passado oitocentista que procurava eximir ou diminuir a exposição do regime na repressão, atribuindo-a aos pares. Dois filmes de ficção tornaram-se uma aula (com projetores, como as novas propostas técnicas para o ensino enfatizavam na época em vários lugares[6]) sobre como os tribunais de honra deveriam se constituir e atuar, além do que e de quem desconfiar, julgar e condenar. São eles Sud chesti (Tribunal de honra), 1948, de Abram Room, e Velikaya sila (Grande poder), 1950, de Fridrikh Ermler. Apesar dos dois filmes buscarem cativar a plateia com o gênero drama, mais especificamente com o subgênero tribunal, importante na época dentro e fora da URSS, o que se sobressai é a caracterização e identificação do inimigo interno, que trabalha passiva ou ativamente para a ameaça estrangeira, espalhando ideias alóctones, estranhas ao povo russo e equivocadas. Assim, a ciência produzida no Ocidente (e também sua pseudociência, como as teses racistas, eugenistas e supremacistas), e a ciência produzida na URSS, mas a ela ligada por princípios, métodos, teorias e conclusões semelhantes, são declaradas pseudociência, e a pseudociência nacionalista, ufanista e de interesse ideológico ao regime, é afirmada como única verdadeira (e autorizada) ciência. O nome do agrônomo charlatão Trofím Lysenko[7], de seu mito fundador, o botânico Ivan Michurin[8], e de seus seguidores lysenkoístas, se sobressaem abertamente (como em Velikaya sila), ou não. A ameaça se dirigia contra a honra, renda e a carreira, e não a vida e a liberdade.
Dentre as novas formas de repressão, o funcionamento do processo de denúncia e de formação e julgamento dos tribunais de honra ocupa um lugar especial no cinema soviético da época. Para entender essa instituição, a pesquisa de Kojevnikov (2000; 2004), baseada no modelo explicativo da cultura e rituais políticos intrapartidários[9] e em seu contato com o mundo acadêmico, mostra-se essencial. As disputas que eclodiam entre correntes, instituições e pesquisadores poderiam provocar o convite de cientistas para a arbitragem do partido comunista. Este usava de instrumentos de seu próprio funcionamento para a resolução de conflitos (além de muitos cientistas também serem membros do partido e compartilharem do mesmo modo de pensar e comportamento). Os tribunais de honra, apesar do passado tsarista, foram ressignificados e transformados pelo partido, que já contava com práticas similares internas. É necessária uma passagem longa para explicar as ideias do autor para o leitor acostumado com o modelo explicativo totalitarista. Seu modelo cultural permite entender algo que costuma ser omitido: o que os membros do partido pensavam a respeito, como viam a situação, como a encaixavam em suas perspectivas e rotinas. O cinema permitia ao partido difundir essa mesma visão de mundo que se esperava de seus membros a outros grupos sociais. Além da justificativa de suas ações e procedimentos, do ser comunista, ainda promovia a adesão à agenda política interna e externa do regime na nascente guerra fria, incentivava a união nacional diante dos inimigos e mobilizava para os desafios e sacrifícios requeridos. Explicava, por exemplo, o motivo de alguns cientistas, membros de categoria tão elogiada, recebedora de tantos benefícios e presente em vários dramas e cinebiografias, estarem sendo criticados nos jornais, demitidos ou julgados em espetáculos retransmitidos pela mídia, similares aos dos anos 1930 – sem, contudo, seus fuzilamentos. Esse entrosamento entre cinema e demandas do partido pode ser compreendido pela sócio-história cinematográfica de Ferro (1976; 1992) e a ligação que esta promove entre sociedade, poder e a produção fílmica, lembrando que este é um produto social interessado, que retorna à mesma.
O mundo da ciência soviética, sacudido pelos tribunais de honra, vivia premido por demandas de grupos e correntes que procuravam se alinhar com a cultura, ideologia, instituições e necessidades do regime, e a partir destas galgar posições hierárquicas e de preenchimento de vagas no campo da pesquisa e ensino. As ações dos lysenkoístas, adeptos do agrônomo neo-lamarckista Trofím Lysenko, serviram de modelo para a de várias outras escolas semelhantes em outras disciplinas. O confronto entre as diferentes correntes, as acusações mútuas daí resultantes, os apelos feitos pelos rivais com modelo e linguagem políticos, os medos do regime e de setores conservadores e nacionalistas soviéticos, proporcionaram a criação de casos e julgamentos, como os de Kliueva e Roskin, que mobilizaram os jornais e cinejornais soviéticos, e que se tornaram modelo para as temáticas dos dois filmes selecionados.
O laboratório de Kliueva no Instituto de Epidemiologia, Microbiologia e Doenças contagiosas foi visitado pelo embaixador americano Walter Bedell Smith (general que substituiu o civil Averell Harriman em março de 1946 e desgostou os soviéticos) em 20 de junho de 1946; em setembro, foi a vez dos físicos americanos Stuart Mudd e Robert Leslie o visitarem. Em 26 de novembro de 1946, o secretário da Academia de Ciências Médicas, Vasili Parin, levou o manuscrito A bioterapia de tumores malignos de Kliueva e Roskin e testes laboratoriais em uma visita aos EUA, onde foram publicados. Em 17 de fevereiro de 1948 os dois cientistas disseram que a desclassificação das informações de suas pesquisas, liberando-as para publicação, foi ideia de Parin, que acabou preso, e do ministro da Saúde Pública, Miterev, que foi demitido (Gorlizki; Khlevniuk, 2004, p. 184). Os cientistas – e muitos da comunidade científica soviética – explicaram os contatos e a transmissão de dados sobre o novo remédio contra o câncer (que se mostraria ineficaz) como parte da comunhão de dados que faz a pesquisa e o saber avançarem, a “ciência mundial” da qual a URSS precisava participar. Para o regime, foi espionagem industrial à serviço do inimigo.
Miller (2010, p. 105) descreve o sistema de cenoura e porrete, de recompensas e patronato por um lado, e coação, ameaças e punições, de outro, absorveram a indústria do cinema. O mesmo se deu com as demais artes e a ciência. O Prêmio Stalin (sucedâneo soviético do Nobel), instituído em 1939, previa 92 prêmios com valores entre 25 mil e 100 mil rublos, e uma medalha de ouro. Outras honrarias pagavam menos, como 25 rublos com a Ordem de Lenin, e 10 rublos (em 1959, o salário mínimo nacional mensal ainda era de 80 rublos) com a ordem do Sinal de Honra, mas ofereciam de 10 a 50% de desconto em aluguéis. Ordens como “Artista do povo” ou “Artista distinto” garantiam pensões especiais. Em geral, asseguravam lugares prioritários em filas e produtos (Fitzpatrick, 2000, p. 109). A importância do sistema de patronato, apesar do sistema ser estatal e burocrático (em tese impessoal, mas que nos meandros das instituições, autoritarismo e censura soviéticos transformou-se em um procedimento tão necessário para ser bem-sucedido quanto no capitalismo[10]), tornou-se óbvio.
A intelligentsia – ou, estritamente falando, a “intelligentsia criativa” de escritores, artistas, cientistas e acadêmicos – estava em uma classe própria no que dizia respeito ao patronato. Em primeiro lugar, os patronos eram excepcionalmente bem colocados, muitas vezes no nível do Politburo. Provavelmente não havia membro do Politburo sem seu grupo de clientes da intelligentsia, pois sem eles não se poderia ter a reputação de homem culto que os membros do Politburo, assim como os mortais menores, apreciavam. Em segundo lugar, o sistema de privilégios da intelligentsia [...] praticamente exigia uma rede de patronagem para alocá-los. Finalmente, deve-se dizer que os membros da intelectualidade criativa, com séculos de prática com patronos imperiais e aristocráticos por trás deles, exibiam maior assiduidade e talento como clientes do que quase qualquer outro grupo social (Fitzpatrick, 2000, p. 110).
Eram os patronos que poderiam resolver problemas e disputas pessoais, como Lysenko e seus apelos – respondidos por apelos dos geneticistas aos seus próprios patronos. Além deles mesmos, quando conseguiam colocações institucionais por graça de seus mecenas, se tornarem patronos e representantes de clientes de níveis mais baixos na hierarquia (levando suas demandas aos patronos da cúpula), como teriam sido patronos Serguei Vavilov (o irmão físico bem-sucedido de Nikolay) e Piotr Kaptsa (Fitzpatrick, 2000, p. 112), além, é claro, de Lysenko. Fitzpatrick percebe a questão do lysenkoísmo como a do patronato – a busca por cargos, posições e privilégios com seus oponentes, mas intermediados por um patrono, uma questão mais econômica-material do que cultural ou antropológica, apesar de possuir profundas raízes sociais. O patronato, assim, era uma forma de controle da produção científica (ou fílmica). Seu desenvolvimento fazia parte do mesmo movimento de aumento de entidades que promoviam a censura interna (como os diversos conselhos dentro dos estúdios, organizados em vários níveis) e o aprimoramento de pressões que levavam à autocensura.
O controle de circulação de informação também sofreu modificações com o fim da guerra, o afastamento dos ex-aliados agora concorrentes globais e o fechamento do regime com a Guerra Fria cultural promovida por ambos os lados da Cortina de Ferro. Os livros científicos tidos pelos lysenkoístas como ultrapassados ou falsos não foram queimados em praça pública: foram queimados em lixões ou reciclados. Importantes artigos passados e de revistas internacionais foram colocados em arquivos especiais, spetskhranenya, de acesso restrito (Medvedev, 1989, p. 829). Se acreditarmos nas palavras do lysenkoísta Vsevolod Stoletov em uma conferência científica em Oslo, em maio de 1950, o fechamento de informações ficou longe de ser absoluto. Quando perguntado se conhecia o trabalho do geneticista japonês Hitoshi Kihara, “ele respondeu secamente: ‘Claro, você acha que estamos totalmente isolados e desinformados?’” (Dejong-Lambert, 2012, p. 138). Se o regime desejava que Vavilov divulgasse as conquistas do país em 1932 em Ithaca, agora era um seguidor de Lysenko quem conseguia a oportunidade de projeção internacional, apesar de toda a condenação à “ciência globalista”. Apesar da condenação de Stalin, os chefes políticos e técnicos das instituições e dos órgãos públicos sabiam que o bloqueio total de informações significaria o estancamento de seus trabalhos, de seus resultados a apresentar, e de sua razão de ser; assim impediram a ruptura, como o banimento das revistas técnicas. Mais do que o isolamento, o controle de informações ganhou contornos da aceitação de que alguns dados deveriam ser guardados segundo a lógica de segurança do regime, enquanto outros, sem impacto nessa área, poderiam ser divulgados e debatidos. Por exemplo, informações que poderiam ser vistas pelo Estado como espionagem científico-industrial não seriam tratadas vindas de fora da mesma maneira que saindo do país para o exterior. Um comportamento que, hoje, os EUA desenvolvem contra a China.
No stalinismo tardio, por mais que existisse um ritual de humilhação pública do qual nem altas autoridades, como os Jdanov, conseguiam escapar, este também permitia a emissões de juízos declarados opinião pessoal passível de erro, justificativas para os “erros” passados, e a manutenção de parte da crítica sob argumentos comedidos, dentro do vocabulário partidário, e expressões eufemísticas ou dúbias. No alto stalinismo, a autocrítica levava a resultados incertos: ninguém seria perdoado sem a fazê-la, mas a admissão de culpa poderia levar, dependendo do crime, a penas muito mais severas, como a morte.
Em sua reunião de 31 de maio de 1948, diante dos ataques dos geneticistas ao lysenkoísmo nos jornais e congressos, Stalin afirmou que “Lysenko é hoje Michurin” e que tentativas de o destruir eram inaceitáveis. Tal afirmação pode ser interpretada dentro da cultura política de julgamentos de Kojevnikov (2004) e de denúncias e linguagem de Kozlov (2000) como uma tentativa de evitar a “supressão de criticismo”, a democracia interna por parte dos geneticistas, e do “senso de proporção”, mas também como reação a uma demolição da mitologia revolucionária e da própria imagem do partido e de sua infalibilidade – talvez mais preocupação com esta do que com o próprio Lysenko e suas ideias. O partido – e Stalin – no passado incentivaram Lysenko e suas promessas. Abandoná-lo agora seria uma imensa perda de prestígio e capital político dentro e fora do país. Sem dúvida rituais e cultura política são importantes, e não podem ser desprezadas, mas a realpolitik também têm seu lugar. Mas apenas ela não explica o motivo da anuência de Stalin, e sua participação na elaboração da próprio fala de Lysenko (Medvedev; Medvedev, 2006), na obliteração da genética. É um elemento de realpolitik a manutenção da hierarquia do partido e salvaguardá-la do assalto do segundo escalão, como fez o filho de Jdanov com sua condenação pessoal e pública de Lysenko em apoio aos geneticistas, mas há também um perfil psicológico patológico de Stalin em colocar parentes contra parentes por meio de acusações ou mesmo suas assinaturas em ordens de prisões (Montefiore, 2006; Gorlizki; Khlevniuk, 2004, p. 41), ou ainda, deter poder pessoal por meio de parentes tornados reféns no Gulag, para testar sua fidelidade absoluta a si e não ao partido. Quando Yuri Jdanov foi escalado para organizar o congresso de fisiologia de 1950, abandonou a postura de livre pensador para submeter todos os passos à autoridade de Stalin (Gorlizki; Khlevniuk, 2004, p. 42) – o que vai contra a análise de Kojevnikov (2004). O chefe do Glavlit, o órgão de censura, Lebedev-Polyansky sugeriu que os tribunais de honra fossem estendidos também para músicos, compositores e escritores, mas a ideia foi rejeitada por Jdanov e Stalin. Jdanov dissera que a principal razão para os tribunais era a educação dos trabalhadores e elevação de seu nível moral e laboral (o que condiz com o pressuposto do cinema disseminar essa preocupação do regime). Os tribunais não se tornaram tão comuns pois os ministérios recusaram a abertura destes em suas estruturas, como previsto, como foi o caso do Ministério da Indústria da Aviação, da Geologia, do Armamento, das Comunicações, da Indústria Elétrica, da Rota Principal do Mar do Norte, da Indústria Pesqueira das Regiões Orientais, por não os considerarem necessários. E a partir de 1949, os apelos por cartas para a instauração dos tribunais contra alguma pessoa passaram a ser indeferidos pelos órgãos estatais que decidiam por sua implementação ou não (Esakov, 2007). O que demonstra o domínio relativo da liderança sobre as instituições soviéticas, especialmente no pós-guerra – elas poderiam agir brandamente quando solicitadas à repressão de seus próprios membros, ou simplesmente recusar (Fürst, 2006). Existiram casos famosos, como o processo contra almirantes encabeçados por Nikolai Kuznetsov, ministro da Marinha entre 1939-46 e 1951-53 (com o interregno ocupado por sua desgraça diante das autoridades políticas) sob acusação de passar informações sobre torpedos soviéticos aos aliados ocidentais, o ministro das Ferrovias Kovalev, o do Ministério da Cinematografia contra o vice-diretor da VGIK para o trabalho educacional e científico P. Gridasov em 1947, autorizado pela Sovexportfilm, o Tribunal de Honra do Comitê de Artes, o do Ministério da Geologia, que demitiu o ministro Ilya Malishev, que fora contra a instauração dos tribunais, o do geólogo Yakov Edelstein por publicar um mapa com detalhes do círculo polar ártico soviético, o de alunos e professores da VSEGEI/GEOLCOM, a faculdade de geologia da Universidade de Leningrado e o Instituto de Mineralogia, o do novo Ministério da Indústria do Carvão da URSS por não seguir normas de segurança dos trabalhadores. Outros julgamentos não receberam tanto destaque na mídia, sendo difícil estipular seu número exato. Ocorreram entre várias dezenas e 150 tribunais (Esakov, 2007).
Ciência e pseudociência
Muitos afirmam que Stalin não interviu na física da mesma forma que na biologia porque temia prejudicar seu programa da bomba atômica[11]. A afirmação é incorreta e omite as pressões “ideológicas” surgidas nos próprios meios acadêmicos. Yakov Frenkel, importante físico soviético, propôs em 1926 a adoção do termo “elétrons coletivos” em contraposição à proposta de “elétrons livres”. Não se tratava de uma invenção ficcional, como o trabalho Lysenko, mas um modelo de analogia diferente para explicar o mesmo fenômeno reconhecido por ambos os lados. Se a física fosse intocada, como os autores argumentam, durante a Grande Purga, pesquisadores importantes como L. V. Shubnikov e L. V. Rozenkevich não teriam sido fuzilados como inimigos do povo, L. D. Landau e A. I. Leipunsky não teriam sido presos, Piotr Lazarev preso e exilado (KOJEVNIKOV, 2004, p. 49; 161; 162) e em 1950, durante a campanha anticosmopolita, Abram Ioffe não seria demitido da reitoria do Instituto Físico-Técnico de Leningrado. Stalin não faria inquéritos sobre a lealdade dos físicos (Roberg, 1998, p. 50). A maior resistência dos departamentos à charlatães também foi importante. Enquanto Vavilov e outros geneticistas participaram da campanha política que lançou Lysenko ao estrelato por meio de seus elogios, os físicos mantiveram distância da discussão política – até mesmo porque, ao contrário da afirmação de Montefiore, Kenez, e Judge, a agricultura era vista como um problema ainda mais premente que a energia nuclear, e, portanto, ainda mais politizada pelas autoridades. A ambição por cargos e reconhecimento e as fissuras departamentais foram menos evidentes[12] e fatídicas do que entre os biólogos e agrônomos, o espaço para exposição pública e política era menor, e as demandas do regime, também, modificando os fatores internos e externos que conduziram cada disciplina a resultados tão distintos.
A diferença importante entre física e biologia não era que uma era compatível com o marxismo-leninismo e a outra não. Foi a relação com a prática que determinou seu destino. Geneticistas e criadores de plantas não tinham uma resposta pronta para a crise na agricultura causada pela coletivização. Lysenko, por outro lado, encontrou apoio entre as autoridades agrícolas. Ele atacou os geneticistas por seu fracasso em fornecer ajuda prática e explicou esse fracasso em termos de defeitos políticos e ideológicos dos cientistas e de suas teorias, convertendo a crise do campo em uma crise da ciência. Não houve crise comparável na indústria para tornar a física seriamente vulnerável a ataques desse tipo (Suny, 2006, p. 559).
Sergey Vavilov, que traduzira Newton para o russo nos anos 20 e escrevera sua biografia durante a guerra, a partir de 1949 começou a elevar o papel do físico russo do século XVIII Mikhail Lomonosov, primeiro com uma sessão especial da Academia das Ciências em janeiro, e enunciando as “Leis de Lomonosov” de conservação de energia, que foram fruto do trabalho não apenas deste, mas de cientistas ocidentais como Newton e Joule. Em 1950 seria publicada uma edição de toda sua obra; apoiando as eleições de 1946 e o clima de Guerra Fria, disse que “A Ciência serve ao progresso apenas quando combinada com democracia” (Kojevnikov, 2004, p. 181-182). Para Kenez (2006), ações como as de Lomonosov eram parte da campanha de nacionalismo exacerbado e fantasioso. Para Kojevnikov[13](2004), Kozlov (2000) e Roberg (1998), poderia ser interpretada dentro da cultura política e da luta por influência recíproca no campo científico. Para Fitzpatrick (2000), seria uma declaração de fidelidade à alta hierarquia, enquanto assume posições de patrono de outros cientistas, e importantes cargos institucionais.
No começo de 1947 surgiu o caso Kliueva e Roskin por entrega de segredos de Estado. O Comitê Central do PCUS ordenou ao Ministério da Saúde a instauração do Tribunal de Honra com poderes morais e administrativos. Em outubro de 1947 foi a vez da Academia das Ciências de formar sua comissão permanente como tribunal de honra. O presidente da Academia, Vavilov, explicou que este era necessário para impedir que inimigos desejosos de invadir o país tivessem acesso aos segredos soviéticos. A principal lição que os cientistas deveriam aprender era manter a boca calada, em especial, prevenir que dados chegassem ao exterior. Estes deveriam estar em poder exclusivo do Estado, para propaganda. A lição foi aprendida pela grande maioria, como o projetista-chefe do programa espacial Korolev, que permaneceu incógnito por toda a vida. A outra opção seria a dissidência aberta, como Sakharov, que até a ruptura completa, conseguiu manter uma influência recíproca com o partido no projeto nuclear e na agenda de direitos humanos (Roberg, 1998).
Como crítica e autocrítica tornaram-se instrumentos ressignificados nos tribunais
Sergey Vavilov dominou a cultura stalinista, sabendo escrever textos dentro do padrão, mas contendo mensagens ambíguas[14]. Entre 31 de julho e 7 de agosto de 1948 ocorreu a conferência na VASKhNIL, Academia Lenin de Ciências Agrárias de Toda a União[15], durante a qual Lysenko afirmou que sua posição foi tornada oficial e obrigatória pelo partido (Medvedev; Medvedev, 2006). O ocidente percebeu a conferência na VASKhNIL como a submissão da ciência à política e ideologia (Roberg, 1998). Explicações do caso Lysenko baseadas na imposição pelo partido de sua ideologia às ciências, construindo uma ciência proletária ou russa contra a burguesa e ocidental, estariam mais baseadas em estereótipos no que na realidade dos fatos, pois o próprio partido viu o processo de outro modo. As outras quatro iniciativas do partido para alavancar campos da ciência não são tão comentadas porque fogem ao estereótipo da purga e controle ideológicos. Não são difundidos porque não serviam à propaganda antissoviética na Guerra Fria (Kojevnikov, 2000, p. 142). Em contraposição à Kojevnikov, podemos apontar Lecourt (1977) e sua explicação ideológica para o fenômeno da pseudociência na URSS.
O partido comunista soviético via as coisas de forma diferente. Considerou o evento de 1948 como uma grande conquista do trabalho ideológico do partido e uma grande contribuição para o progresso da ciência (até 1964, quando o erro foi discretamente reconhecido). Mas o que é mais interessante, e menos esperado, é que os comunistas reivindicaram não apenas um, mas cinco grandes sucessos ideológicos desse tipo: discussões em filosofia (1947), biologia (1948), linguística (1950), fisiologia (1950) e economia política (1951) (Kojevnikov, 2004, p. 188).
Outros debates da mesma época e intensidade não envolveram diretamente políticos, como a da cosmogonia, a de crítica literária (1948); na química, a hierarquia acadêmica evitou que a discussão virasse conflagração como nas demais, e a que perpassou a física parece ter sido uma luta institucional entre a Universidade de Moscou e a Academia das Ciências, sem envolvimento político. Esses casos não são tão conhecidos no ocidente pois não se encaixam na imagem da purga e repressão acadêmicas. O revolucionário Marr foi preterido por uma “abordagem comparativamente mais tradicional e internacionalmente reconhecida”, bem como a discussão sobre fisiologia que obrigou a Academia de Ciências[16] se reunir com a de Ciências Médicas em julho de 1950. Em novembro de 1951, um painel entre economistas e políticos no Comitê Central clamou por uma nova resolução em economia política – o que motivou o maior trabalho teórico de Stalin, Problemas econômicos do socialismo na URSS, de 1952 (Kojevnikov, 2004, p. 188). Para outros autores, o embate partido-ciência foi mais intenso. A morte de Nikolai Voznesensky, chefe do Gosplan, seria fruto da inveja autoral de Stalin, por também lançar um livro, na mesma época, que se dispunha a ser um manual da economia soviética (MONTEFIORE, 2006) ou do jogo das facções (Medvedev; Medvedev, 2006). Segundo Kojevnikov (2000), tais discussões perpassaram a imprensa soviética entre 1947-53. Os resultados dessas disputas parecem caóticos aos ocidentais, com avanços e recuos diante do saber e da ideologia. Mas para os agentes, os resultados foram lógicos.
Compreender a lógica de uma cultura diferente – a cultura stalinista neste caso – exige uma abordagem antropológica[17]. Uma regularidade, de fato, pode ser encontrada, mas no nível das regras formais e ritos de comportamento público e não nos conteúdos e resultados das disputas. A análise da Disputa Filosófica de 1947 – cronologicamente a primeira e também a mais pura performance encenada pelos próprios políticos – revelará as regras dos jogos comunistas de diskussiia (disputa) e kritika i samokritika (crítica e autocrítica). Uma investigação sobre os rituais da cultura política stalinista e seu domínio especial chamado “democracia intrapartidária” será então necessária para entender tanto as funções atribuídas a esses jogos quanto as possíveis motivações dos políticos que os ofereceram aos estudiosos como métodos para lidar com as disputas científicas. Provocados de cima, estudiosos se engajaram em uma variedade de conflitos acadêmicos enquanto perseguiam suas próprias agendas e usavam inventivamente os recursos culturais disponíveis em diálogos com políticos. Uma característica importante desses jogos era que, em teoria e muitas vezes também na prática, seus resultados não eram predeterminados, mas dependiam do jogo [...]. A campanha de discussões ideológicas nas ciências será, assim, reinterpretada como a transferência dos ritos da democracia intrapartidária da cultura política comunista para a vida acadêmica. No processo, as regras de comportamento público e, até certo ponto, o vocabulário retórico eram relativamente estáveis, mas deixavam espaço suficiente para a imprevisibilidade e diversidade que os eventos reais exibiam (Kojevnikov, 2004, p. 191).
O centralismo democrático e a autocrítica foram instrumentos surgidos ainda no período tsarista e teorizados pelo partido comunista da URSS nos anos 1920 para manter o controle central sobre o aparato partidário (e facções), dificultando sua autonomia ou indiferença para com o centro, corrupção, estagnação e burocratismo, podendo gerar um controle da base e também um controle pela base, com as queixas populares ou de outros membros da administração chegando aos ouvidos do centro (Kojevnikov, 2004; Kozlov, 2000; Figes, 2010). Em tese, funcionaria para corrigir erros, aprimorar o próprio partido e exercer a democracia popular[18]. Um jogo ou cultura política para manter os poderes locais na linha, gerando situações que o próprio poder central não poderia controlar ou desobedecer diante das regras do jogo, aos seus rituais. Os quais, se inescapáveis, não eram rígidos – os agentes poderiam atuar com sua performance coletiva, seu discurso verbal, com as possibilidades das normas diante do público em benefício próprio. A vida social sob Stalin era ritualizada em alto grau[19]. Enquanto diskussiia poderia tratar e estabelecer pontos teóricos, a kritika i samokritika seria o elemento central da cultura partidária, promovendo a iniciação (educação e enculturação de quadros partidários) e o terror (desmascarando e destruindo inimigos). Aceitá-las era internalizar valores culturais e status partidários. Assim, em 1950, durante uma discussão num congresso fisiológico, Leon Orbeli protestou contra as acusações, sem assumir alguma parcela de culpa. A plateia ficou enfurecida pela violação das regras, e Orbeli precisou realizar nova fala muito mais comedida (Kojevnikov, 2004, p. 198; 201) – o que dá um novo tom à uma declaração de Stalin de 1951: ele rabiscou num relatório de um agrônomo que “devemos fazer Lysenko gostar de críticas” (Dejong-Lambert, 2012, p. 142) – ele não estaria agindo com a lealdade que se espera de um iniciado no jogo do partido, e não caindo em descrédito, o que significaria que Stalin abandonava o lamarckismo. A aceitação da crítica e da autocrítica, na terminologia bolchevique, era se desarmar diante da vitória da maioria e da hierarquia, repudiar sua ação e posição anterior à decisão do partido (Kojevnikov, 2000, p. 159; 161).
As regras de diskussiia e kritika i samokritika pressupunham a abertura do resultado, que não deveria ser determinado antes das apresentações públicas. Embora a estrutura do discurso fosse bastante rígida, seu conteúdo crítico e resultado dependiam muito da atividade dos jogadores (Kojevnikov, 2004, p. 201).
Durante o treinamento ou as eleições para os quadros partidários, a autocrítica poderia render promoções[20]. O termo autocrítica surgiu em 1928 e crítica e autocrítica, em 1935, mas a prática antecedia aos termos e teorizações. A ideia de que as ciências também deveriam se guiar pela crítica e autocrítica foi enunciada pela primeira vez por funcionários de baixo e alto escalão do AgitProp do Comitê Central, como o artigo “O significado de kritika i samokritika para o progresso da ciência (Para o problema do papel da negação na dialética e na metafísica)” de Kedrov na revista mensal Vestnik Akademii Nauk da Academia das Ciências em fevereiro de 1948, seguido por Iovchuk e chefões como Yuri Andropov, Dmitry Shepilov e Mikhail Suslov (Kojevnikov, 2004, p. 204). Algumas declarações de Jdanov sobre a liberdade de debate científico e artístico seguem a mesma linha de frases de Stalin[21], e seguem a compreensão partidária de disputa (Kojevnikov, 2000). Na reunião do AgitProp de 18 de abril de 1946, Jdanov foi informado da falta de criticismo interno da União dos Escritores e do Comitê Estatal para Assuntos Culturais.
Em sua fala de agosto de 1946, Andrei Zhdanov pronunciou: “Onde não há crítica, solidifica a estagnação e o mau cheiro, não há espaço para o movimento progressista” [...]. No entanto, esperava-se que o julgamento viesse então do partido [...]. Os políticos aparentemente se consideravam competentes o suficiente em literatura e cinema para fazer julgamentos especializados e publicá-los abertamente em nome dos órgãos do partido. Escritores e diretores de cinema se reuniram depois e realizaram obsuzhdenie (consideração) de decisões autorizadas[22] (Kojevnikov, 2004, p. 205).
Vários autores chamaram a atenção para a pressão de líderes da pseudociência para que o partido fosse árbitro de disputas (Medvedev; Medvedev, 2006;Kenez, 2006), enfatizando o poder vindo do alto. Outros mostram um cenário mais difuso, com denúncias e pedidos de intervenção política partindo de vários pontos, inclusive dos geneticistas e segmentos acadêmicos mais alinhados com o modelo de ciências praticado no Ocidente, numa interação com pressões vindas de baixo e de cima (Joraviski, 2010; Kojevnikov, 2000; Roberg, 1998; Dejong-Lambert, 2012).
Embora as agendas e os resultados não fossem predeterminados, os recursos retóricos e culturais, em certo sentido, eram. Grupos rivais de acadêmicos já estavam acostumados a incluir a argumentação política no discurso acadêmico e muitas vezes enviavam às autoridades políticas cartas de denúncia e queixas contra colegas [...]. Com a nova agenda de discussões críticas, surgiram oportunidades tentadoras para os estudiosos prosseguirem com os conflitos acadêmicos existentes de maneiras mais abertas e politicamente sancionadas. A campanha estimulou o diálogo público e não oficial entre acadêmicos e políticos, em que a linguagem comum era principalmente a da política e da ideologia atuais. Ao apelar para os políticos como árbitros e lutar por seu apoio, os estudiosos competiam na tradução de conceitos e agendas científicas para essa linguagem. Grupos acadêmicos conflitantes estavam desenvolvendo imagens ideológicas de seu campo de maneira a apoiar suas posições nas controvérsias [...]. As disputas eram realizadas dentro da hierarquia acadêmica e dependiam em grande parte de conflitos internos e relações de poder. Em algumas situações, os políticos ouviram os apelos de apoio de grupos rivais de cientistas e, se convencidos pela retórica, poderiam aceitar o papel de árbitro (Kojevnikov, 2004, p. 206-7).
Segundo Kozlov, a denúncia fazia parte da “cultura política popular”. O termo “denúncia” passou de conotações positivas para negativas na língua russa durante o Terror[23]. Denúncias poderiam ser anônimas, por pseudônimos ou diretas (Kozlov, 2000, p. 117; 119-120). Seria um meio de controle promovido não só pela elite do regime, mas também por seus apoiadores que desejavam enquadrar burocratas (ou cientistas e artistas) à conformidade com a linha política defendida ou pressioná-los por interesses privados.
A denúncia poderia servir não apenas como um instrumento eficaz de intriga oficial, mas também como um importante meio de forçar os burocratas do governo a aderir às políticas do Estado [...]. Esse medo constante garantia sua lealdade política e burocrática. Na verdade, a maioria dos burocratas soviéticos vivia sob o peso da ilusão de supervisão total (kontroV) sobre sua confiabilidade e comportamento político. (Falo de uma “ilusão” porque não era o descuido que era total, mas sim o medo gerado pelo potencial de fiscalização contínua, a implacável sensação de perigo iminente). O medo do “dedo-duro” (stukach) tão característico da vida soviética não se baseava em um mito de denúncia em massa, mas no risco perpétuo de ser “incompreendido” e tornar-se vítima de uma denúncia rotineira “desinteressada” (Kozlov, 2000, p. 122).
Surgiam comportamentos de manada, manias de denunciação, com a utilização pelos denunciantes da retórica, imagens e metáforas padrões da cultura política soviética [como os filmes pretendem educar para a denúncia. Denúncias anônimas eram assinadas por partisans, soldados, membros do partido – que promoviam uma ligação e autoridade diante das autoridades que averiguariam os casos. Pode-se somar “cientista”, como irmanado aos teóricos autorizados da Ciência do marxismo-leninismo.
A denúncia de “interessados” às vezes era usada como meio de autodefesa. Pessoas que foram acusadas de abusos e indiciadas passaram a redigir denúncias contra seus perseguidores, na esperança de realizar um ataque preventivo que as fizesse parecer vítimas de “supressão de críticas” (Kozlov, 2000, p. 127).
É o que fez Lysenko diante das críticas dos geneticistas que eram publicadas nos jornais entre 1945-47. E também uma das reclamações dos lysenkoístas que aparecem nos filmes. O acusado poderia, por exemplo, lançar dúvidas e lembranças sobre o passado do acusador, desacreditando a denúncia original.
Uma vez que um pedido pessoal se transformou em denúncia, era lançado como parte de uma luta por justiça superior em nome do “bem comum”, do “povo”, do “Estado”. Os autores de tais declarações às autoridades tendiam a ser mais educados e exploravam, consciente ou inconscientemente, as tradições estatistas russas para atingir seus objetivos pessoais. Eles não apenas colocaram seu pedido dentro do sistema simbólico da cultura política dominante, mas também usaram as táticas retóricas mais eficazes para esse sistema (Kozlov, 2000, p. 129).
Tentar criar o elo de identidade com as autoridades, ser um dos seus, era a chave para os códigos ideológicos que abriam a compreensão mútua com as autoridades, que poderia prosseguir para a apresentação de fatos positivos acerca de si mesmo para entabular sua petição – o mesmo método usado nas “vidas dos santos” (Kozlov, 2000, p. 130). Saber citar e encaixar declarações do partido ou de seus expoentes nas petições e denúncias era também ferramenta retórica importante.
Uma comparação dos artifícios e técnicas retóricas das denúncias “desinteressadas” e “interessadas” sugere que estamos lidando com dois sistemas culturais completamente diferentes: um que é tradicional, sincero e ingênuo e outro que é sua imitação cínica. Por um lado, temos a genuína sacralização dos líderes; por outro, hinos hipócritas a eles. Por um lado, há uma crença quase mística no paternalismo tradicional das autoridades superiores; de outro, um apelo hipócrita a esse paternalismo que se apoia na “preocupação pelo bem comum” sancionada pela ideologia oficial. Temos a fé sincera no socialismo como o paraíso na terra, que para muitos substituiu a fé religiosa, contrastando fortemente com o uso calculado dos símbolos e da substância dessa fé para ganho pessoal (Kozlov, 2000, p. 133).
O “falar bolchevique”, que Davies (1997, p. 7) aponta como ferramenta para críticas dissimuladas, aqui é visto como porta para a aceitação de denúncias e a redução de inimigos ou rivais por meio da repressão do Estado, desencadeada e direcionada pelos denunciantes. Denúncias e defesas contra denúncias em geral não colocavam fatos em questão, apenas os interpretavam de maneiras diferentes por meio de retórica. Alguns desses elementos retóricos eram compartilhados pelos denunciantes e por aqueles que os auxiliavam na redação. Como a repetição de chavões demonstra[24]. Estar ligado a figurões e chefes locais significava quase sempre punições brandas e, no caso de burocratas e outros servidores do Estado, mudança de função ou de localidade (Kozlov, 2000, p. 138). Os geneticistas devem ter acompanhado em pânico a destruição da facção de Jdanov após sua morte e a impossibilidade de se salvaguardarem pelo patronato – como Vavilov fez em diversas ocasiões (mas não todas) com físicos ligados à sua pessoa (Kojenikov, 2004; Roberg, 1998) –, o que explica também a rapidez e profundidade do silêncio (e adaptação como cripto-geneticistas) daqueles que se opunham à Lysenko (Dejong-Lambert, 2012). O patronato era necessário para se manter à salvo de punições[25].
O geneticista Jebrak era oficial do AgitProp em 1945-46, e em sua carta ao Comitê Central, uma das críticas à Lysenko era a de que seu monopólio denegria a ciência soviética na frente dos aliados ocidentais. A eleição de Dubinin para a cadeira de biologia na Academia das Ciências e o acesso dos geneticistas à Yuri Jdanov, feito chefe do Setor de Ciências do AgitProp em 1 de dezembro de 1947, os incentivou a promoverem o debate com os lysenkoístas em artigos na Literaturnaia Gazeta, e em conferências na Universidade de Moscou (novembro de 1947 e fevereiro de 1948) e no departamento de biologia da Academia das Ciências (dezembro de 1947). Tais posições, cargos e acesso à mídia não significam um renascimento da genética no imediato pós-guerra, mas sim que ela nunca foi totalmente destruída por um monopólio lysenkoísta, antes ou depois da conferência na VASKhNIL (Dejong-Lambert; Krementsov, 2012). Jebrak enfrentou um Tribunal de honra[26], com acusações de praticar atos antipatrióticos e servilismo diante da ciência burguesa, o que permitiu aos lysenkoístas fechar o departamento de genética do Instituto Timiryazev[27] e iniciar um tribunal de honra contra Dubinin, suspenso por Yuri Jdanov. Para os lysenkoístas, a percepção da competição intraespecíficas (intra-espécies) era erro malthusiano (Gorlizki; Khlevniuk, 2004, p. 40). Lysenko enviou cartas ao ministro da Agriculta, Ivan Benediktov, pedindo por alterações na cúpula da VASKhNIL e teve encontros pessoais com Malenkov para formular as críticas aos Jdanov e os caminhos para levá-las ao Politburo. Yuri Jdanov nunca teve condições de obrigar Lysenko a realizar sua autocrítica, permanecendo no campo da crítica. Lysenko, manejando os rituais da cultura política, apresentou-se como ofendido pelo ataque de uma autoridade, exigindo a correção do partido e a ação e esclarecimento do centro, cujo poder fora usurpado por uma autoridade inferior.
Da mesma forma, outros membros da cúpula atuaram no comitê de investigação com suas agendas pessoais de poder para enfraquecer a facção de Jdanov e fortalecer as próprias. O partido, apesar da revisão de Stalin no texto de Lysenko, teria relutado em oficializar sua corrente. Sua adesão ocorreu apenas após Lysenko provar que poderia dominar o campo da disciplina durante o congresso na VASKhNIL e angariar apoio dentro das instituições. Somente no fim do evento, tendo demonstrado poder pessoal, o Pravda publicou a autocrítica de Jdanov e Lysenko pode afirmar que sua posição era a oficial (Kojevnikov, 2004, p. 209-10). A autoridade do partido era maior que a de um indivíduo, mesmo este sendo Stalin, que precisava se justificar por ele, como posição coletiva. No entanto, cartas que acusavam perseguição e declaravam inocência, eximindo-se da autocrítica, e também a realizando, chegaram a Stalin e não surtiram efeito (Montefiore, 2006). Ainda nos anos 1920, decisões do partido baniam debates para impor linhas oficiais que deveriam ser seguidas por todos, na linha do partido de aço. A imposição das concepções e cultura políticas do regime aos cientistas evocava que o reconhecimento oficial pelo partido era inapelável. Lysenko tentou fortalecer essa absorção com a manipulação do congresso da VASKhNIL, dotando-o do mesmo significado que os congressos para o partido; além disso, os geneticistas foram informações de sua realização pouco antes. Não tiveram tempo de preparar estratégias e discursos, nem de reunir seus apoiadores, ao contrário de Lysenko, que o dominou. Alguns geneticistas, como Boris Zavadovsky e Piotr Jukovsky procuraram defender suas posições com as fórmulas do partido: desvios de direita e de esquerda na biologia, demandas por uma nova diskussiia em iguais condições. Lysenkoístas, como Nikolai Nujdin, afirmaram que a discussão acabou com a tomada de posição pelo partido, o que mudava o status dos geneticistas de debatedores toleráveis para sabotadores antipartido (Kojevnikov, 2004, p. 209-10). Dúzias de diretores de institutos agrícolas e biológicos foram substituídos e mais de 100 professores foram despedidos pelo Ministério do Ensino Superior, por não realizarem a autocrítica. A proposta do Ministério de retirar livros de genética das bibliotecas foi endossado pelo AgitProp, mas recusado pelo Secretariado do partido. A postura se explica pelas concepções do PCUS.
A série de discussões ideológicas do pós-guerra nas ciências veio como consequência do aumento da importância política e do status da ciência na sociedade soviética e dos esforços conscientes dos políticos para estimular o progresso científico pelos meios culturais disponíveis (Kojevnikov, 2004, p. 214).
O regime não negava a ciência, pelo contrário, a considerava muito, mas possuía sua própria visão do que era e como deveria ser a ciência, bem como a sua democracia. Medidas solicitadas por instâncias do partido e do Estado e negadas ou não cumpridas por outras revelam as reais limitações do poder na URSS, que se alastravam para o resto da sociedade.
Nas próprias teorias comunistas, o partido e o Estado tinham a obrigação e o poder de decidir todas as questões politicamente importantes. Essa ideia de onipresença e controle total era, obviamente, utópica e impossível de realizar na prática, e muitas vezes resultava em intervenções esporádicas em casos arbitrariamente selecionados. Nos eventos discutidos acima, os casos em que a liderança realmente interferiu foram determinados por constelações peculiares de circunstâncias, e não de acordo com qualquer critério lógico consistente. Era impossível prever qual das milhares de cartas endereçadas a Stalin conseguiria chegar à sua mesa, atrair sua atenção e agitar suas emoções. Mas uma vez que isso acontecesse, o caso seria imediatamente declarado extremamente importante. O sistema stalinista reagiu assim de forma aleatória, mas com poder excessivo, produzindo resultados bastante inadequados ao nível do “sinal vindo de baixo”. Na física moderna, sistemas com tal comportamento são chamados de “caóticos”: eles podem ser determinísticos no nível microscópico local, mas produzem resultados globais imprevisíveis (Kojevnikov, 2004, p. 215).
A luta entre instituições, carreiras e egos[28] se acentuou com o pós-guerra: a corrida armamentista e a energia nuclear colocaram a ciência, já valorizada pelo regime, em um novo nível. Universidades e institutos foram ampliados e criados, salários, benefícios, privilégios e status social ampliados, gerando uma guerra por orçamentos, cargos e funções. Esta atraiu a atenção das autoridades, ou foram a elas conduzidas pelos pedidos dos pesquisadores por uma intervenção. Agiram acreditando conciliar ciência e ideologia, que para o partido, só poderiam estar harmonizadas, corretas, e verdades unitárias, alavancando o progresso científico (Kojevnikov, 2004, p. 228). A única tentativa do regime de politizar a academia terminou em um fracasso. A alta concentração de profissionais de ascendência burguesa e nobre nas universidades fez com que Stalin promovesse uma revolução cultural (Figes, 2010; Kojevnikov, 2004; Fitzpatrick, 2000). Os profissionais deveriam ser despedidos por pessoal politicamente de confiança. Havia a percepção de possível sabotagem técnica ao início dos planos quinquenais em 1929. Em 1931, diante do fracasso na formação de especialistas para gerir e conduzir a industrialização, o regime voltou atrás e recontratou os demitidos. As posições e cisões entre técnicos ou intelligentsia e políticos se tornaram mais nítidas (políticos não mais adentravam o espaço acadêmico dos cientistas e estes não assumiam funções políticas), apesar de muitos dos estudantes que escolheram ramos científicos terem preferido a política, e o partido ter procurado seus quadros entre engenheiros e não entre formados em direito e política[29] (Kojevnikov, 2004, p. 312). Durante a campanha eleitoral para o Soviete Supremo em 9 de fevereiro de 1946, Stalin prometeu ao público o fim do racionamento graças aos avanços da ciência no campo econômico. A ciência soviética deveria alcançar e superar a ciência ocidental (KOJEVNIKOV, 2004, p. 294). O alto stalinismo foi o momento no qual os rituais se cristalizaram (FÜRST, 2006, p.4). Outros autores percebem um cenário diametralmente oposto ao de Kojevnikov, como Gill (1998, p. 49), que afirma que todas as áreas do conhecimento obedeciam a linha única emanada do partido e que Lysenko procurou impor seu “selo maligno” e o atraso científico.
Para Yuri Jdanov, ambas as correntes, neodarwinistas e neolamarckistas, expressavam a ciência soviética, e não uma ciência burguesa e uma proletária (Kojevnikov, 2000, p. 158). A publicação da autocrítica de Jdanov e a permissão de revelação da autoridade concedida pelo Comitê Central e Stalin no último dia, após Lysenko claramente ser o ganhador entre seus pares, é demonstrativo da funcionalidade do jogo: apenas após passar pelo crivo da crítica e autocrítica e ganhar apoio das bases, foi sancionado oficialmente (Kojevnikov, 2000, p. 160).
Os marristas quase suprimiram os linguistas e filólogos com sua visão classista e da origem das línguas humanas – para eles, ao invés de surgirem inicialmente alguns grandes troncos linguísticos, como o indo-europeu (o que para os marristas se assemelhava ao racismo imputado à genética), a origem da língua humana era repleta de diversidade, e iniciou um processo de unificação que deveria se concretizar no futuro – duas teses com interessantes potenciais políticos para marxistas dogmáticos. Stalin se colocou contra elas, acusando os marristas de perceberem a língua como fenômeno de classes, quando não o era (o que, para Kojevnikov também se explica em termos de realpolitik e não ideologia ou mesmo jogos e cultura política: a propaganda internacionalista de antes da guerra fora substituída pela nacionalista), mas também de nacionalismo por identificarem o surgimento do georgiano como isolado (Kojevnikov, 2000, p. 163-66) – ao contrário da suposta origem semítica que teria enfurecido Stalin, segundo Figes (2017, p. 611). Para Kojevnikov, a incapacidade dos marristas de formarem um conjunto homogêneo, sem conflitos internos, e não se aterem perfeitamente à cultura política, por terem suprimido a crítica antes dos jogos de crítica e autocrítica terem sido acompanhados pelo partido, além da inserção de Stalin, motivaram sua queda.
Nos anos 1920 o partido criou o consenso interno de que o mendelismo era suspeito, o lamarckismo aparentava ser mais correto e nenhum dos dois eram aplicáveis ao ser humano (Graham, 2016, p. 67). A existência de vários precursores e seguidores do lysenkoísmo, sem terem conseguido o mesmo status de Lysenko, fortalece a tese de Kojevnikov de sua desenvoltura pela cultura política e habilidade nos rituais de julgamentos e denúncias. Apesar dos fatores cultura e ritual serem o cerne da questão, como afirma Kojevnikov, apenas os dois são insuficientes para explicar o fenômeno do lysenkoísmo, do novo estilo de repressão ou de suas articulações com o cinema. É necessário o auxílio de explicações mais tradicionais, como realpolitik, ideologia, as necessidades e projetos do regime, seu desenvolvimento sistêmico, relações diplomáticas e geoestratégia e até a da psicologia e crenças pessoais da liderança. A maneira como o cinema trouxe a questão do que e como denunciar, dos processos de crítica e autocrítica, e dos tribunais de honra, ressaltam essas influências variadas do ambiente da época.
As lições do cinema
Bo (2019, p. 136) aponta que Ermler era um bolchevique que após a Revolução passou a se dedicar ao cinema, traduzindo para o público mensagens de apoio ao regime com eficiência. Já Abram Room trilhou o caminho contrário, sendo um diretor talentoso e inovador, que após a censura de um de seus filmes e a pesada crítica na mídia, fez sua autocrítica. Acabou conduzido ao estilo cineteatro sem muita imaginação cinematográfica pelas crises que eclodiram em meados dos anos 1930 ao não aceitar o realismo socialista. Quando o adota para retornar ao trabalho, torna-se um diretor confiável e produtor de alguns importantes filmes com conteúdo político, ao lado de comédias suaves. Lawton (1992, p. 76; 69) aponta que Ermler, apesar de ser um espião com mais de 20 missões entre os brancos e intervencionistas, durante a NEP entregou-se cada vez ao despolitizado e lucrativo mercado de comédias e dramas e chegou a apresentar até sinais de crítica social. A imposição do realismo socialista a partir de 1934 e as denúncias da crítica conservadora provocaram uma reviravolta em sua obra. Um processo de coação e premiação pelas críticas semelhante ao de Room.
Ambos os filmes selecionados possuem um momento de debate, crítica, supressão da crítica, denúncia e julgamento. Outras películas da época, cinebiografias de personalidades científicas louvadas pelo regime e pelo renascido nacionalismo russo, como Michurin, 1948, de Aleksandr Dovjenko, Akademik Ivan Pavlov [Acadêmico Ivan Pavlov], 1949, de Grigory Roshal, Jukovsky, 1950, de Vsevolod Pudovkin e Dmitry Vasiliev, Prjevalskiy, 1951, de Sergei Yutkevich, Pirogov, 1947, de Grigory Kozintsev, Miklouho-Maclay, 1947, de Alexander Razumny, Aleksandr Popov, 1949, de Herbert Rappaport e Viktor Eysymont, apresentam debates científicos nos quais se opõe os determinados, aguerridos, ousados, revolucionários e nacionalistas (que passam a encarnar os desejos e visões do regime para a ciência, sua função e funcionamento), à antinacionalistas céticos da capacidade científica russa e dos demais pesquisadores russos, seguidores de charlatães ocidentais, tradicionalistas, acomodados, infrutíferos e sabotadores do trabalho pioneiro dos heróis científicos russos. Às vezes aparecem até elementos de denúncia, como os argumentos contrários à Michurin que surgem entre os acadêmicos tsaristas no filme homônimo. Mas faltam os elementos da acusação contra os cosmopolitas da ciência globalista, seus julgamentos e autocríticas. Os militares tsaristas permanecem calados diante do sucesso de Jukovsky e em Michurin, o professor Kartashov (Fedor Grigoriev), se cede ao michurinísmo em alguns pontos, é renitente quanto à sugestão de descrença ou releitura de Darwin insinuada pelo personagem (Grigory Belov), fazendo eco às recentes ideias de Lysenko que colocavam o naturalista inglês em causa, com seu “darwinismo criativo” (Dejong-Lambert; Krementsov, 2012, p. 138).
Michurin, com o interesse do pesquisador americano Mayer (Viatcheslav Isaev) e do burguês Wallace Byrd (Sergey Tsenin), Akademik Ivan Pavlov, com a adulação dos estrangeiros e seu interesseiro prêmio Nobel, o espião (Georgi Kolosov) em Pirogov, Prjevalskiy e os pseudocientistas britânicos, e Aleksandr Popov, com o italiano Guglielmo Marconi (o sempre mal Bruno Freyndlikh), o imperialista e racista alemão Brandler (o especialista em vilões Mikhail Astangov), o engenheiro Lemke (Vitaly Policemako) lembrando que técnico-cientistas estrangeiros podem ser agentes de monopólios capitalistas que os empregam, e o acionista Isaacs (Osip Abdulov – com seus traços orientais judaicos sugerindo e acentuando um personagem judeu), roubando os projetos de Popov (Nikolay Cherkasov), enviavam a mensagem da ameaça do contato com a ciência e o mundo ocidental, mas tais elementos estão ligados aos filmes de traidores, sabotadores e espiões dos anos 1930, contudo ressignificando-os para o ambiente do pós-guerra de Guerra Fria também nas ciências. O mesmo não se aplica à Vo imya jizni [Em nome da vida], de Iosif Khéyfits, 1946. Seu enredo segue os da década de 1930 e da teoria da ausência de conflito, de Nikolai Virtá (Bo, 2019, p. 241), com o cientista que encarna o ideal de engajamento e superação que o partido espera liderando sua equipe da apatia e incredulidade para o sucesso e as premissas soviéticas. É um filme produzido ainda no clima de distensão com os aliados, e isso pode explicar a ausência de conflito pessoal e de inimigos internos e externos a serem desmascarados e julgados.
Sud chesti e Velikaya sila são os verdadeiros expoentes da cultura de denúncia e julgamento da época, como são os filmes de Chiaureli para o culto de Stalin. O tenente-general do serviço médico Andrei Vereisky (Boris Chirkov, famoso por atuar como herói, como na trilogia Maxim) procura conscientizar o amigo cientista Alexey Dobrotvorsky (Nikolai Annenkov - quase sempre atuava em papéis positivos) de que é um ato de traição compartilhar dados de pesquisas com os americanos, o advertindo diversas vezes que seria punido se continuasse no erro. Vereisky é um dos denunciantes. Se Dobrotvorsky é ingênuo frente à perfídia americana e merece advertências antes de se iniciar a punição, Sergey Losev (Nikolai Svobodin - quase sempre incorporando personagens politicamente adversários do regime), age por interesse e fama no exterior e não recebe a mesma abordagem de dissuasão. Os técnicos subalternos de Dobrotvorsky e autoridades imediatamente superiores como Vereisky, confrontam-no diversas vezes em debates, exigindo sua autocrítica e mudança de atitude como forma de impedir que a situação alcance níveis mais altos da hierarquia (por meio de suas denúncias) e punições mais severas. Como diz o Vice-ministro da Saúde Kirill Kurchatov (Vladimir Lyubimov): “a autocrítica é uma coisa maravilhosa [...], mas você precisa usá-la com habilidade”.
Losev saúda a opção do governo por um tribunal de honra. O julgamento por pares da academia seria o reconhecimento da importância e da dignidade dos cientistas. Também significa escapar das penas dos promotores públicos soviéticos (interpretado por Konstantin Khokhlov), ou pior, troikas como dos julgamentos sumários da década anterior. O tribunal de honra demonstra a mudança da natureza do sistema de repressão soviético, de massas para cirúrgico, bem como das penas, mais severas para menos severas, mas não da publicidade e espetacularização midiática, como os julgamentos encenados da Grande purga, 11 anos antes. Não ser fuzilado ou enviado para o gulag não significa que a reputação e a carreira não seriam destruídas. Como a médica Tatyana Dobrotvorskaya (Olga Jizneva), esposa de Dobrotvorsky, diz, ele poderia fazer com que uma pessoa nascesse novamente, ou se tornasse forasteira. “Alyosha, entenda que será seu amanhã” – uma situação que enredou a Room, como a milhares. Poderia ser autobiográfico? Teria a esposa de Room alertado o diretor para as consequências de um caminho autônomo ou crítico? Segundo Vereisky, era um tribunal para a educação geral, e por isso a punição de repreensão pública, que ascenderia o patriotismo entre os cientistas e professores – quando o general diz isso, não é apenas sua aparência que lembra vagamente o líder – ele está lá, num retrato colossal, sancionado pelo enorme busto de Lenin, que ainda assim é eclipsado pelo retrato. Dobrotvorskaya expressa a experiência: “foi difícil e amargo para mim neste julgamento, mas ele não me desarmou, ele me inspirou. Eu precisava dele”, a autocrítica foi aceita. O pesquisador sobe as escadarias sob o olhar do imenso Lenin no saguão. Da parede, é observado por Pirogov, reconciliando-se com o grandioso passado russo. Seu abraço com o militar termina com o encadeamento no Kremlin. O poder soviético o recebe nos braços, a união nacional retornou com a destruição do cosmopolitismo. É a Moscou do tráfego de carros e caminhões, ecoando as palavras do general de que o futuro que precisa destruir o passado (ao menos seu ceticismo e métodos de validação). Mais que isso, é uma reconciliação do passado tsarista com o futuro socialista do país, da ciência e da ideologia.
Em Velikaya sila, o diretor do instituto Timofei Milyagin (Victor Khokhryakov) é o patrono dos geneticistas. Ele e o lysenkoísta Pavel Lavrov (Boris Babochkin) enfrentam debates e críticas, trocam acusações, e ambos apelam para o poder político para a resolução da disputa. Lavrov, certo da vitória e da retidão de sua pesquisa enquanto teoria, prática, ideologia e política, procura convencer a todos da verdade michurinista e política e os alerta, sem sucesso, para as consequências do tribunal de honra. Milyagin coça a cabeça e parece suar diante da avaliação política da situação sugerida por Lavrov. Ele lembra que já alertou o colega para os efeitos deletérios da teimosa – afirmação subentendida no mundo soviético como problemas com as autoridades. O cenário e a iluminação acentuam o sentimento de terror no instituto ao Lavrov pedir ao geneticista Rublev (Fiodor Nikitin) se foi ele quem o denunciou. Ambos os lados concordam que a situação chegou a um nível tão insustentável que o partido precisa intervir. Quando Milyagin reclama que “as autoridades estão atrás de mim”, Lavrov responde com denúncias: que Milyagin “ignora os sucessos da nossa ciência soviética”, “uma traição ao marxismo, traição ao leninismo”. O crime de agitação e propaganda antissoviética, mencionado em lei sob o artigo 58 do Código Penal de 1927 da República Federada Socialista Russa, mas tipificado de maneira fluída, e que era punível com pelo menos 6 meses de prisão, até e incluindo a pena de morte em períodos de guerra ou agitação. Milyagin acabara de jantar com um pesquisador americano. Contatos com estrangeiros “com propósitos contrarrevolucionários”, qualquer tipo de ajuda à “burguesia internacional”, enfraquecer as instituições estatais, bem como opor-se ao seu funcionamento normal e espionagem possuíam punições semelhantes (Berman, 1972, p. 24). As acusações de Lavrov consistiam numa aula de denúncia política, certamente do interesse de professores e estudantes lysenkoístas no sistema de ensino e pesquisa. Após o Caso Leningrado e próximo a um novo expurgo que abalaria o país com o Complô dos Médicos, estabelece-se o roteiro de acusações e demonstra-se o apoio explícito e a vontade governamental, com a menção adiante de que seguem a linha do partido. A resposta de Milyagin é comparar-se às autoridades da aldeia diante da investigação governamental em O Inspetor Geral, de Gogol. Sua esposa também o procura dissuadir. Quem tem os nervos à flor da pele com telefonemas e campainhas é a família de Lavrov e não a dos geneticistas.
Sud chesti foi precedido de uma campanha na mídia. Os jornais chegaram a publicar trechos do roteiro; baseado numa peça, por sua vez baseada em fatos reais (Bo, 2019, p. 193). Ganhou o Prêmio Stalin de 1º Grau (1949); Aleksandr Galperin, câmera de outros filmes stalinistas, como Traktoristy, 1939, ganhou o Prêmio Stalin. Com o posto de coronel, havia servido como emissário do Ministério do Cinema da URSS na Alemanha no imediato pós-guerra. Sud chesti foi o ponto baixo moral da carreira de Room – seu colega Sergei Iutkevich, também diretor, e seu ex-assistente, eram acusados pelo mesmo crime de cosmopolitismo que Room denunciava no filme. Iutkevich fora o diretor de arte do controverso drama social de Room Tretya Meshchanskaya (Na cama e no sofá/O terceiro Meschanskaya), de 1927 (ROLLBERG, 2009, p.241; 586; 99; 299). Velikaya sila pontuou menos: dois dos atores e o diretor ganharam o Prêmio Stalin de 3º Grau. Ao Tribunal de honra no cinema, seguiu-se ao dos diretores. No mesmo mês de seu lançamento, durante a Campanha contra o cosmopolitismo, diretores judeus, como Leonid Trauberg (famoso pela trilogia Maxim dirigida com o igualmente judeu Grigory Kozintsev) e Serguei Iutkevich, foram criticados por colegas cineastas – incluindo os ataques do diretor Vsevolod Pudovkin e do escritor e roteirista Konstantin Simonov (Caute, 2003, p. 134) – e pelo ministro Ivan Bolshakov numa reunião do Ministério do Cinema. Cientistas e cineastas se viram forçados à autocrítica ao mesmo tempo (Bo, 2019, p. 193-194; 198). Em 3 de março de 1949, Trauberg foi acusado por Bolshakov no Pravda de ser o líder de um grupo de cosmopolitas antipatrióticos que operavam por meio da indústria do cinema. Em suas aulas na VGIK, a escola superior de cinema, teria afirmado a origem do cinema soviético nos anteriores cinemas ocidentais, incluindo o americano e o alemão, e que D. W. Griffith era o pai da arte do cinema (Caute, 2003, p. 134). Seu filme Prostyye lyudi [Gente simples], 1946, que já enfrentava críticas e lentidão na análise pela censura, foi considerado formalista e não-liberado para a distribuição; tal engavetamento significava perdas financeiras para o diretor. Ele foi demitido do estúdio Lenfilm, onde também ocupava posições na administração, e precisou mudar-se de Leningrado para Moscou a procura de emprego, infrutiferamente. Judeus pertencentes ao grupo de trabalho de Trauberg em Leningrado também foram acusados de cosmopolitismo, como o assistente cinegrafista Mikhail Bleyman, e N. Kovarsky (Rollberg, 2009, p. 750). As acusações de cosmopolitismo atingiram até mesmo o famoso diretor e teórico Lev Kulechov e a seu círculo de professores e críticos de cinema que participavam do jornal A arte do cinema, Dolinsky, Turkin e o editor-chefe Sutyrin. Seus pares não arrolados na denúncia utilizaram a revista para julgá-los e atacá-los nas semanas seguintes (Fedorov; Levitskaya, 2022). Fosse nos apartes em reuniões, ou em artigos acusatórios, o modelo de pressão por pares estipulado nos tribunais de honra ganhou nova expressão, como não se via desde as denúncias e conspirações do Grande Terror. O diretor Mikhail Room teria sofrido um desses processos[30]. Nestes momentos, amizades se rompiam para surgirem acusações como tentativa de absolvição.
Conclusão
A tese de Kojevnikov parece ser o caso do tribunal de honra do cientista ingênuo, o qual é chamado de volta para a luz representada pela posição do partido, após executar sua autocrítica e concordar com o julgamento. Já no caso do cientista interesseiro e pró-americano, não há espaço para se falar em cultura política e democracia partidária. Trata-se apenas da exposição e desmascaramento de um traidor. Já no caso do diretor do instituto, a redenção da autocrítica diante dos pares parece estar à sua disposição em vários momentos. A teimosia em trilhar o caminho errado do sectarismo e da adulação ao estrangeiro é que o desgraça de uma maneira irremediável. Não apenas uma aula para a denúncia, mas também para a aceitação da coação. Algo que funcionaria não apenas no ambiente universitário e técnico, mas também para aqueles que seguiam modas americanas, como roupas, jazz ou louvavam suas conquistas.
O novo modelo de repressão também permitiu – ou legitimou, na acepção de Fürst (2006) – uma maior autonomia e espaço de crítica na sociedade, bem como nas universidades – certamente não tanto quanto no imediato pós-guerra, e nem após a indicação de uma posição oficial do partido a ser cobrada de todos. Mas mesmo então, atos de rebeldia, desde que sem maiores consequências (como defender-se ou ser criptogeneticista), não eram reprimidos (Joravsky, 2010). A união entre cinema, pseudociência, ditames do regime e instrumentos de repressão ao alcance das massas adeptas do sistema e de segmentos sociais conservadores encastelados nas instituições, permitiam manter tal situação dentro de limites aceitáveis sem penalizar a ditadura diretamente pela coerção.
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Notas