Artigo científico
A escrita entre guerras: gênero, política e fascismo no pensamento de María Zambrano e Virginia Woolf
Writing between wars: gender, politics and fascism in the thought of Maria Zambrano and Virginia Woolf
A escrita entre guerras: gênero, política e fascismo no pensamento de María Zambrano e Virginia Woolf
Revista de Filosofia Aurora, vol. 37, e202531312, 2025
Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Editora PUCPRESS - Programa de Pós-Graduação em Filosofia
Received: 26 February 2024
Accepted: 04 November 2024
Published: 07 March 2025
Resumo: Este artigo visa apresentar aspectos das obras de Virginia Woolf e Maria Zambrano, duas proeminentes pensadoras do século XX, que abordaram as complexidades da guerra e da política a partir de seus contextos históricos. O texto examina como as vivências pessoais, as influências sociais e os eventos históricos moldaram as interpretações das autoras e como suas obras oferecem perspectivas únicas sobre questões políticas e éticas que permanecem ainda atuais, tais como o exílio frente à tirania, ao fascismo e às desiguais relações de gênero na sociedade patriarcal de classes.
Palavras-chave: Gênero, Fascismo, Política, Exílio, Sociedade patriarcal.
Abstract: This article aims to present aspects of the works of Virginia Woolf and Maria Zambrano, two prominent thinkers of the 20th century, who addressed the complexities of war and politics from their historical contexts. The text examines how personal experiences, social influences and historical events shaped their perspectives and how their works offer unique perspectives on political and ethical issues that remain current, such as exile in the face of tyranny, fascism, unequal relations of gender in patriarchal class society.
Keywords: Gender, Fascism, Politics, Exile, Patriarchal society.
Introdução
Em tempos de retorno do fascismo à esfera pública democrática mediante a pauta da extrema-direita internacional, que arregimenta milhões de corações e mentes mundo afora, convocamos a presença de duas pensadoras do início do século XX, María Zambrano e Virginia Woolf, que experimentaram as agruras de viver sob o fascismo e que lutaram com as armas que tinham, a saber, a escrita, as palavras e a crítica, contra as violências cometidas por essa ideologia, no contexto da sociedade patriarcal e de classe. Ademais, elas propuseram caminhos para um outro mundo em que não haveria espaço para a tirania. Após a apresentação do contexto em que viveram na Espanha e na Grã-Bretanha das primeiras décadas do século passado, apresentamos aspectos relevantes da reflexão que elaboraram.
Da obra de Virgínia Woolf serão apreciados aspectos presentes na relação do patriarcalismo, militarismo e fascismo com a desigualdade de gênero e a situação subalterna da mulher na sociedade. Em relação à filósofa María Zambrano, abordaremos o exílio em contraposição ao franquismo, a crítica à guerra e a importância de uma visão política democrática e inclusiva.
María Zambrano e Virginia Woolf: trajetórias e influências
María Zambrano1 é uma importante filósofa espanhola do século XX. Nasceu em Vélez-Málaga, em 1904 e faleceu em Madrid, em 1991. Seu pensamento, profundamente original, é marcado pela Guerra Civil Espanhola e pelo exílio. Nesse sentido, torna-se impossível abordar sua fértil e intensa produção teórica, sem antes compreender um pouco da sua biografia e considerar os acontecimentos históricos que instigaram seus escritos. Ela foi uma pensadora notável, agraciada com o prêmio Príncipe das Astúrias, em 1981 e a primeira mulher a receber o prêmio Miguel de Cervantes, em 1988. Ainda em vida teve suas obras e manuscritos reunidos na instituição de pesquisa que leva seu nome, a Fundácion María Zambrano, criada em 1987, em Vélez-Málaga. No entanto, ainda que na atualidade seu nome seja reconhecido na Espanha e em outros países europeus, durante quase toda a sua vida, ela não gozou de notoriedade. No Brasil, ainda hoje, seu pensamento é desconhecido, dentro e fora da academia. Escrever sobre Zambrano é, portanto, não apenas um ato de deferência, mas de reparação pela importância de sua enorme produção filosófica.
Filha de dois professores, interessou-se já nos primeiros anos pela filosofia. Em 1913, apenas ela e outra menina dividiam sala com os garotos da Escuela Santa Eulalia e, em 1924, foi também uma das poucas mulheres a cursar graduação na Universidade de Madrid. Nessa época, teve contato com importantes intelectuais como Garcia Morente, Xavier Zubiri e Ortega y Gasset. Em 1928, iniciou seu doutorado e participou ativamente da Federación Universitaria Española (FUE). Em 1930 publicou seu primeiro livro, Horizontes del Liberalismo. Seu destaque acadêmico fez com que, em 1931, fosse nomeada professora assistente de Zubiri. A partir de 1932 se desiludiu e se afastou da política partidária e de seu grande mestre Ortega y Gasset.
Zambrano, integrada aos debates de sua época e consciente da pressão política crescente em seu país, percebeu que era preciso fazer mais do que o que fora realizado por seus mestres e predecessores, entendia que sua geração tinha uma tarefa revolucionária importante a ser realizada, a de criar um ambiente verdadeiramente justo e democrático.
Em 1939 teve início o período mais significativo da vida e obra de Zambrano, seu exílio. Em 1936, o golpe militar liderado pelo general Francisco Franco, contra o governo republicano e socialista democraticamente eleito, deflagrou a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). O país dividiu-se em dois lados: os republicanos, que incluíam uma coalizão de diferentes forças de esquerda, e os nacionalistas, liderados por Franco e compostos por forças conservadoras, fascistas e monarquistas. O conflito foi caracterizado por intensos e violentos combates, pela brutalidade e pela intervenção internacional. Franco emergiu vitorioso em 1939, consolidando seu poder e estabelecendo um regime ditatorial, autoritário e centralizado. Durante o franquismo, houve forte repressão política, censura, perseguição de opositores e uma forte ênfase no nacionalismo espanhol e no catolicismo.
Os períodos da Guerra Civil Espanhola e do Franquismo provocaram a diáspora dos intelectuais espanhóis. Nesse cenário, em 1939, Zambrano seguiu, como seus companheiros, para um longo exílio que durou 45 anos, nos quais desenvolveu intensa produção teórica. No desterro, de modo incansável, ela ministrou diversas palestras e produziu uma série de artigos e livros. Viveu em diferentes países como México, Cuba e Porto Rico. Mesmo com a saúde frágil e com poucos recursos financeiros, trabalhou intensamente.
Com o fim da Segunda Guerra, Zambrano regressou para a Europa e, em Paris, encontrou sua mãe já enterrada há dois dias e sua irmã Araceli, grande companheira de Zambrano, enlouquecida pela tortura e assassinato do esposo Manuel Muñoz, pela Gestapo. A mãe e a filha haviam sofrido as agruras da invasão nazista na França. Tais episódios de violência feriram e marcaram as relações familiares e o pensamento zambriano. Na década de 1980, a filósofa finalmente começou a ser mundialmente reconhecida e premiada. Em 1984, retornou à Espanha depois de quase meio século de exílio e, em 1991, ela faleceu em Madrid.
Virginia Woolf nasceu em 1882, em Londres, em uma família não aristocrática e intelectualizada, formada por Leslie e Julia Stephen. Viveu numa Grã-Bretanha do período entre guerras e faleceu antes do fim da II Guerra Mundial, em março de 1941. A morte da autora acontece em meio a uma crise depressiva decorrente em muito das condições da época: o avanço do fascismo, Paris sob ocupação nazista, Londres bombardeada2 e parcialmente destruída pelos aviões de bombardeios da Luftwaffe. Esses bombardeios, entre setembro de 1940 e maio de 1941, afetaram seriamente a casa onde viveu o casal Virginia e Leonard Woolf, que era também a sede da editora Hogarth Press criada em parceria com o marido. Seu pai foi Sir Leslie Stephen, historiador, ensaísta e biógrafo que presidiu a Biblioteca Nacional de Londres. Sua mãe foi Julia Stephen, falecida, quando Virginia tinha 13 anos de idade3 e que, além de lidar com os afazeres domésticos, trabalhou como enfermeira não profissional, cuidando de pobres e familiares moribundos. Ao contrário de María Zambrano, Virginia e Vanessa Stephen, sua irmã, não frequentaram a universidade em função do cenário social em que viveram, porque as universidades Cambridge e Oxford não estavam totalmente abertas às mulheres. Naquele contexto ainda vitoriano, em que as mulheres estavam alijadas das instituições escolares, as irmãs Stephen obtiveram a formação intelectual por meio do ambiente cultural em que viveram, o que propiciou o acesso à grande biblioteca pessoal do pai, a um contexto com alguma liberdade de pensamento no âmbito doméstico, e ao grupo social da elite intelectual e política inglesa - como Alfred Tennyson, Thomas Hardy, Henry James, Edward Burne-Jones, dentre outros -, que participava regularmente dos habituais saraus presididos pelo pai na casa onde viviam. Leslie Stephen faleceu em 1904 e deixou para os filhos uma herança modesta. Nesse mesmo ano, os irmãos e irmãs se mudaram para outra residência, que sediou as reuniões do grupo de intelectuais e de artistas conhecido como Círculo de Bloomsbury, que incluiu, além de Vanessa Bell e Virginia Woolf, Clive Bell, Leonard Woolf, Roger Fry, John M. Keynes, Bertrand Russel, Maria Nys, Duncan Grant, D.H. Lawrence, Lytton Strachey, dentre outros.
Virginia Woolf, nesse novo arranjo familiar, procurou formas de obter algum dinheiro próprio, enfrentando os impedimentos legais que proibiam as mulheres do seu extrato social de trabalhar e de ter renda própria4. Como uma mulher letrada da classe média, ela começou a trabalhar em 1905 na atividade literária a qual, desde o século XIX, havia se firmado como ocupação possível para as mulheres, escrevendo para o Times Literary Supplement. Ela atuou como jornalista, crítica literária, editora, ensaísta, romancista, tornando-se escritora reconhecida pelo público e pela crítica e, para complementar a renda, também atuou, entre 1906 e 1908 como professora de literatura inglesa e de História no turno noturno de numa escola mista voltada para trabalhadores adultos que visavam melhorar a instrução. Em 1909, ela recebeu uma pequena herança de sua tia-avó Caroline Emelia Stephen, fato que lhe permitiu a tranquilidade para desenvolver a carreira de escritora e de editora, pois esse fundo contribuiu para a criação da editora Hogarth Press, que cumpriu importante função na vida dos Woolf e na cena intelectual inglesa, pois além de publicar as obras de Virginia, também publicou obras de S. Freud, de T. S. Eliot, de Ruth Manning-Sanders, de Katherine Mansfield, de F. Dostoiévski (Os Demônios, tradução da própria V. Woolf), de B. Mussolini (A doutrina do Fascismo), dentre outros.
María Zambrano não conheceu pessoalmente a escritora Virginia Woolf, mas, assim como ela, teve a vida atravessada pela guerra. Como Woolf, a filósofa também precisou lutar para ter reconhecimento em espaços frequentemente ocupados apenas por homens, nas universidades, nas editoras, nos ambientes públicos. Ainda que não existam registros que aproximem as duas autoras, ambas viveram na mesma época e mostraram o poder da escrita na construção de uma interpretação singular da realidade. Woolf, com o uso do fluxo da consciência, com as experiências formais na escrita, com a temática crítica às desigualdades sociais que afetavam fundamentalmente as experiências das mulheres - subalternizando-as no contexto do patriarcalismo -, e ao fascismo, ao deslindar a sua intrínseca relação com o patriarcalismo e o militarismo. Zambrano, por seu posicionamento político antibélico, por sua contundente crítica à guerra e ao fascismo e na definição do exílio como condição existencial e afirmativa da experiência humana.
Os círculos frequentes de amigos e intelectuais das autoras ajudaram no aprofundamento de suas abordagens, mas foi a inspiração poética e literária que exerceu na escrita de cada uma delas um papel determinante. Ainda que sejam reconhecidas hoje pela importância de suas produções teóricas, é preciso ressaltar o posicionamento político e ético que fundamentou seus textos e é justamente nessa área que uma mais se aproxima da outra, a saber, a luta contra regimes autocráticos e um pensamento ao mesmo tempo insurgente e inclusivo.
María Zambrano e Virginia Woolf: a potência insurgente do pensamento fronteiriço na filosofia e na literatura
Pensar pelas margens: o exílio e a razão poética em contraposição à tirania
Maria Zambrano é frequentemente lembrada por obras que flertam com a metafísica, o poético e o místico em livros como Filosofia y Poesia (1939), Hacia um saber sobre a alma (1950) e El hombre y lo divino (1955). Mas a autora, no seu longo período de exílio, também escreveu ensaios que mostram claramente sua contraposição às guerras, tanto a civil pela qual passa o seu país, como a Segunda Guerra Mundial. Zambrano, não apenas questionou o avassalador poder destrutivo da guerra, como encontrou formas de insurgência; sua tarefa pedagógica e a larga produção teórica espelharam esse tipo de estratégia.
Tanto Woolf quanto Zambrano criticaram a violência e a destruição causadas pela guerra. Em suas obras, elas retratam os impactos devastadores da guerra nas vidas individuais e na sociedade como um todo, destacando o sofrimento humano e a perda de vidas como consequências trágicas e injustificáveis do conflito armado.
Zambrano encontrou nos países da América Latina uma outra forma de viver e pensar ética e politicamente o mundo. Nesse sentido, o extenso desterro apareceu para a autora, não como um infortúnio, mas antes como uma forma de recriação de si. No atópos, no sem lugar, Zambrano criou um outro sentido para a pátria, para além dos limites geográficos da Espanha. Conhecendo os diferentes países latino-americanos, passando por Argentina, Chile e México, ela conviveu com o povo e os intelectuais e pode ver o quanto a força da cultura e da educação de outras ambiências pode ser libertadora. Nesse sentido, sobre o valor existencial que a experiência do exílio exercerá na filósofa, ela afirmará, após retornar a Europa:
Hay ciertos viajes de los que solo a la vuelta se comienza a saber. Para mí, desde esa mirada del regreso, el exilio que me ha tocado vivir es esencial. Yo no concibo mi vida sin el exilio que he vivido. El exilio ha sido como mi patria, o como una dimensión de una patria desconocida, pero que, una vez que se conoce es irrenunciable […]. Creo que el exilio es una dimensión esencial de la vida humana, pero al decirlo me quemo los labios, porque yo querría que no volviese a haber exiliados […] Es una contradicción, qué le voy a hacer: amo mi exilio, será porque no lo busqué, porque no fui persiguiéndolo. No, lo acepté; y cuando se acepta algo de corazón, porque sí, cuesta mucho trabajo renunciar a ello (Zambrano, 2009, p. 66).
Essa particular visão não é fruto de uma mera romantização do desterro, mas a assunção de uma condição fronteiriça da própria existência. Viver o exílio, sobretudo viver e con-viver com aqueles povos que são frequentemente negados pela hegemonia da potência europeia, é conhecer o poder das margens e dos marginalizados. É experimentar a filosofia pelo avesso. Zambrano não idealiza o exílio, ela o sorve e faz dele uma experiência libertadora do pensamento.
O exílio da filósofa, em oposição à tirania, também lhe permite refletir sobre o verdadeiro significado da democracia, alargando a compreensão de humanidade. Em 1958, em Porto Rico, escreveu na obra Pessoa e Democracia:
A ordem democrática irá somente conseguir-se com a participação de todos enquanto pessoas, o qual corresponde à realidade humana. Eis que, a igualdade de todos os homens, "dogma" fundamental da fé democrática, é igualdade enquanto pessoas humanas, não enquanto qualidades ou caracteres, igualdade não é uniformidade. Trata-se, pelo contrário do pressuposto que permite aceitar as diferenças, a rica complexidade humana não apenas a do presente, mas também a do porvir. A fé no imprevisível. Será utópico pensar que esta ordem em vez de excluir realidades, as irá incluir todas? (Zambrano, 2003, p. 173).
Zambrano e Woolf criticaram as limitações da democracia liberal burguesa em garantir a participação igualitária de todos os cidadãos. Woolf, em particular, criticou a exclusão das mulheres do processo político, enquanto Zambrano via a democracia liberal como incapaz de responder adequadamente às necessidades e aspirações mais profundas da humanidade.
Para Zambrano, a democracia pressupõe a participação de todas as pessoas, o que necessariamente inclui às diferenças. Valorizar as pessoas, principalmente aquelas que, com frequência, são alijadas dos lugares de poder é uma forma de ampliar e enriquecer a formação política de um povo. Nesse sentido, a mudança para uma ordem verdadeiramente democrática depende da inclusão social. Mesmo que a pensadora não sinalize abertamente em seu texto um viés de gênero, fica evidente sua propensão a uma visão mais abrangente da humanidade. “Não é possível eleger-se a si mesmo como pessoa sem eleger, ao mesmo tempo, os restantes. Eis que, os restantes são todos os homens. Com isso não se acaba o caminho: começa-se” (Zambrano, 2003, p. 174).
Zambrano dedicou uma parte significativa de seus escritos à denúncia dos regimes autoritários, de modo que sua visão de democracia se apresenta também como uma forte crítica ao fascismo. Ela via o fascismo como uma expressão extrema da alienação e da desumanização, uma ideologia que negava a dignidade e a liberdade do ser humano. Em sua análise, explorou as raízes psicológicas e filosóficas do fascismo, argumentando que ele surgia da angústia existencial e da falta de sentido que permeava a sociedade europeia na época. O niilismo europeu, a falta de esperança na humanidade e o embrutecimento do espírito levou à apologia da guerra e ao fortalecimento de regimes totalitários. Uma das críticas centrais de Zambrano ao fascismo era sua incompatibilidade com a verdadeira experiência humana e sua negação da vida em sua plenitude. Nesse sentido, o fascismo surgia da incapacidade de se relacionar de forma autêntica e amorosa com a vida, resultando em uma postura de desespero e desconfiança em relação ao futuro.
Woolf e Zambrano valorizavam a liberdade de expressão como um princípio fundamental da democracia e criticavam as tentativas do fascismo de silenciar a dissidência e impor uma única visão de mundo. Woolf, em particular, em seus ensaios políticos, argumentou em favor da tolerância e do respeito à diversidade de opiniões como componentes essenciais de uma sociedade livre. Além disso, criticou a violência e a opressão inerentes ao fascismo, bem como sua manipulação da história e da identidade nacional para fins políticos.
É preciso destacar também que Zambrano foi uma crítica contundente das guerras, especialmente das duas guerras mundiais que assolaram o século XX. Ela viu a guerra como uma expressão máxima da desumanidade e da irracionalidade, que causava sofrimento e destruição indiscriminados. Sua crítica às guerras estava intimamente ligada à sua preocupação com a paz, a justiça e a solidariedade entre as pessoas.
Além dos diversos textos em revistas nos quais questiona a expansão da guerra e da violência em seu país, aprofundada pela guerra civil, Zambrano também escreveu obras, nas quais examinou criticamente a situação da Europa durante o período tumultuado do século XX.
Del alma estrangulada de Europa, de su incapacidad de vivir a fondo íntegramente una experiencia, de su angustia, de su fluctuar sobre la vida sin lograr arraigarse en ella, sale el fascismo como un estallido ciego de vitalidad que brota de la desesperación profunda, irremediable, de la total y absoluta desconfianza con que el hombre mira el universo. Es incompatible el fascismo con la confianza en la vida; por eso es profundamente ateo: niega la vida por incapacidad de ayuntamiento amoroso con ella, y en su desesperación no reconoce más que a sí mismo (Zambrano, 2015, p. 63).
A filosofia de Zambrano é, portanto, diametralmente oposta à ideologia fascista. Seu pensamento funda-se na razão poética que reverencia e legitima uma experiência poética e afirmativa da vida. A razão poética é um conceito complexo que representa uma abordagem diferente da razão. Distinta da razão instrumental ou lógica comumente enfatizada na filosofia tradicional, ela é uma forma de conhecimento que transcende a mera lógica e busca uma compreensão mais profunda e completa da realidade.
Essa noção está intrinsecamente ligada à sua filosofia da pessoa e da história, bem como à sua crítica ao racionalismo excessivo que tende a reduzir a realidade a meros conceitos abstratos. Zambrano, portanto, valorizava a dimensão poética da existência, que envolve a capacidade de imaginação e intuição, que se encontram na intersecção entre a filosofia e a poesia.
A razão poética permite, então, uma apreensão do mundo que vai além das categorias racionais instigando uma conexão mais íntima com a realidade. Ela não nega a importância da razão lógica, mas busca complementá-la com uma sensibilidade poética que reconhece a complexidade e a profundidade da experiência humana.
Para Zambrano, a razão poética é especialmente relevante em contextos de crise, como guerras e regimes totalitários, em que a lógica fria e calculista muitas vezes falha em capturar a plenitude da experiência e as dimensões mais profundas da condição humana. Nesses momentos, a razão poética pode servir como uma fonte de resistência e renovação, oferecendo novas perspectivas e possibilidades de compreensão e ação.
Além dos ensaios políticos, em alguns textos literários Zambrano também tratou de modo transversal da temática do poder e da tirania. Em 1967, ao escrever A tumba de Antígona, retomou a personagem sofocliana propondo uma outra interpretação para o mito. Na sua versão, quando a heroína é condenada por Creonte a ser enterrada viva, ela não se mata, mas realiza, no cárcere, vários diálogos e monólogos com outros personagens e refaz a sua própria história. Segundo Zambrano, a personagem realiza, nesse processo dialógico, no qual não está definitivamente nem viva, nem morta, uma espécie de anagnorisis, de reconhecimento. Acontece, então, a redenção da personagem e de toda sua família.
Antígona, assim como Zambrano, tem sua trajetória marcada pelo exílio e pela guerra. Foi ela que acompanhou o pai em sua errância de cidade em cidade e presenciou a guerra e a morte dos dois irmãos pelo trono de Tebas. Foi ela quem teve de enfrentar duramente a perda da família e da pátria. Antígona, tal como Zambrano, esteve sempre ao lado dos mais vulneráveis, do pai cego e proscrito, do irmão insepulto, dos que não têm vez ou voz. A tragédia de Antígona é, portanto, intensificada pela guerra e pela arrogância desmedida do poder, espelho que reflete, na vida real, todo e qualquer conflito violento. Antígona é uma insurgente que desafia a tirania de Creonte.
La guerra civil, con la paradigmática muerte de los dos hermanos, a manos uno de otro, tras de haber recibido la maldición del padre. Símbolo, quizá, un tanto ingenuo de toda guerra civil, mas valedero. Y el tirano que cree sellar la herida multiplicándola por el oprobio y la muerte. El tirano que se cree señor de la muerte y que sólo dándola se siente existir (Zambrano, 2019, p. 24).
Todo tirano alimenta um desejo de destruição daqueles que não cedem ao seu mando. Nesse sentido, Antígona, Zambrano e Virginia Woolf são outsiders, mulheres que não se dobram a um sistema que exclui e mata cotidianamente os designados como diferentes.
Tanto Woolf quanto Zambrano foram profundamente influenciadas por um pensamento poético que combina ao mesmo tempo a sensibilidade literária e uma visão clara de seu tempo. Woolf é conhecida por suas narrativas inovadoras que mergulham nas mentes de seus personagens, enquanto Zambrano adotou uma abordagem filosófica para explorar temas como a identidade pessoal e a experiência subjetiva.
Os olhares de uma Outsider sobre o patriarcalismo e o fascismo a partir das relações de gênero
O teor da crítica social presente na obra de Virginia Woolf contesta veemente a aura de uma escritora apolítica que a cerca, em muito construída por Leonard Woolf e Quentin Bell, biógrafo e sobrinho da autora. Para além do reconhecimento como genial escritora, na esteira dessa construção não são raras as vezes em que ela é recorrentemente idealizada e/ou apresentada como uma pessoa etérea, esnobe e afastada da realidade cotidiana, caracterizada tão-somente pela fragilidade mental devido ao longo padecimento decorrente da depressão, e que se matou em 1941, para fugir do mundo sob as águas de um rio gelado. Esse retrato não condiz muito com Virginia Woolf cuja vida foi marcada pela presença nos congressos do Partido Trabalhista inglês e em reuniões de organizações de mulheres trabalhadoras; pela participação na luta pelo sufrágio universal; pelo trabalho, antes da Primeira Grande Guerra, em um Comitê que pedia apoio à sociedade à causa das mulheres; por palestrar para mulheres de diferentes extratos sociais e por ministrar aulas em uma escola para trabalhadores e trabalhadoras; por produzir obras jornalísticas e literárias em que denunciou as condições sociais objetivas que subalternizavam as mulheres; por ter vendido os manuscritos de Três Guinéus para levantar fundos para refugiados da Guerra Civil Espanhola (Dias, 2019). Numa Europa entre guerras, foi uma pacifista radical que defendeu o pacifismo e também uma outra sociedade. Virginia Woolf foi, assim, uma intelectual totalmente interessada pela vida, e tal interesse extrapolou as anotações, os cadernos, as frases.
Ler Virginia Woolf implica encontrar-se com a crítica feminista realizada por ela e, igualmente, entender o posicionamento da autora frente às relações sociais de poder que, ao atravessarem todo tecido social e político, tornaram historicamente as mulheres epistemicamente desqualificadas e socialmente, invisíveis, menores e silenciadas. Tendo como referência a obra ensaística Um teto todo seu (1929) e o romance-ensaio Três Guinéus (1938), serão apresentados alguns elementos da crítica feminista woolfiana, privilegiando o olhar lançado sobre as relações entre patriarcalismo, militarismo e fascismo e a subjugação das mulheres.
Desde a década de 1920, em seus textos publicados já havia a reflexão sobre a escrita das mulheres e a quase inexistente presença feminina na tradição literária. O argumento de A room of One’s own gira em torno desse assunto e foi criado a partir de duas palestras proferidas por Virginia Woolf sobre as mulheres e a ficção, nos Colleges femininos Newnham e Girton, em Cambridge, quando já era escritora reconhecida após a publicação de Mrs. Dalloway (1925) e de O quarto de Jacob (1922).
Nessa obra, ela ficcionalizou uma narradora, Mary Beton, para analisar as condições materiais essenciais que impediram a atuação das mulheres na ficção, também criou imagens memoráveis para abordá-las como o quarto próprio, a irmã de Shakespeare, o gato sem rabo, a mulher no espelho, o assassinato do “anjo da casa”. Woolf abordou, assim, o espaço social que as mulheres historicamente ocuparam, considerando como baliza a história inglesa descrita por G. M. Trevelyan. Ao questionar essa maneira hegemônica de narrar a história sempre pelo ponto de vista dos homens, indicou a necessidade de reconstruir a escrita e a narrativa histórica pelo ponto de vista feminino, a fim de recuperar a presença e a realidade vivida pelas mulheres. Ao realizar uma revisão de literatura sobre o que os homens tinham escrito sobre as mulheres, argutamente Mary Beton observou que, pela ótica masculina, elas têm imensa importância, contudo, na prática, elas sempre foram avaliadas como socialmente insignificantes; na poesia, a mulher foi personagem presente, mas na história real ela é personagem ausente e silenciada. Na ficção, a mulher possuía relevância, poder e podia até dominar a vida de reis e de conquistadores, na vida real, porém, ela tinha o dever da obediência e era submissa a qualquer rapazinho que lhe colocasse um anel no dedo. Enfim, se na literatura as palavras das mulheres eram grandiosas, na vida cotidiana elas corriqueiramente eram analfabetas, sem poder decisório e sem patrimônio e, como propriedade dos maridos, não eram ouvidas. E, numa tacada de mestre, Woolf trouxe à luz mais uma figura ficcional: e se Judith Shakespeare tivesse existido e tivesse sido tão genial como o irmão William, ela teria se tornado uma dramaturga no século XVII? A resposta é não, pois a história das mulheres nos assegura que ela não teria as mesmas oportunidades do irmão para se tornar dramaturga: não teria alguma educação; teria aprendido a ler e a escrever sozinha no pouco tempo disponível entre uma e outra atividade feminina a ser cumprida na esfera do lar; para não ser obrigada ao casamento, ela teria fugido para Londres a fim de dar vazão a seu talento literário; por ser mulher, não poderia atuar no Teatro Globo ou escrever peças teatrais; e, então, ela teria se tornado amante de um ator, engravidado e, abandonada e sozinha, se matado. E o véu do esquecimento se abateria sobre ela.
Com a história dessa potente personagem fictícia, Virginia Woolf argumentou que o cânone literário foi elaborado sobre o silêncio e o silenciamento das mulheres, sobre a ausência delas, e por meio do périplo de Judith, a genial irmã de Shakespeare, por um lado, exemplificou a situação cotidiana da falta de oportunidades decorrentes das desiguais relações de gênero que afetaram historicamente a vida das mulheres e, por outro, sugeriu, mediante o trabalho realizado por Mary Beton sobre a história das mulheres na literatura inglesa, a necessidade da revisão e da reescrita da História, para tirar das ruínas tudo que delas foi soterrado e tornado invisível. A partir dessas constatações, Beton pode propor a tese: para que as mulheres pudessem ser escritoras elas precisavam de novas condições materiais, especialmente de duas basilares: um quarto próprio chaveado para chamar de seu e ainda independência financeira (ganhar o próprio dinheiro e poder dispor dele com autonomia) para que elas não estivessem obrigadas ao casamento ou a qualquer outra tarefa que permitisse a sobrevivência. A própria Mary Beton alegou que, se não fosse pela modesta herança deixada por uma tia, de 500 libras anuais, ela precisaria sobreviver realizando as “principais ocupações para as mulheres antes de 1918” (atuar como professora infantil, ou como florista, ou prestando trabalhos ocasionais em jornais, ou sendo leitora para idosas). A importância desse quarto próprio para as mulheres operárias apareceu numa passagem da carta escrita a Margaret Llewelyn Davies, em que Woolf descreveu a relevância da sede da Guilda das Mulheres, criada 18 de abril de 1883, para as operárias que participaram de congressos trabalhistas, porque forneceu a elas “uma sala onde podiam se sentar e pensar, longe de panelas derramando e de crianças chorando; [...]”, aquela sala se tornou “[...] uma oficina onde, juntando suas cabeças, podiam remodelar suas casas, podiam remodelar suas vidas, podiam conquistar esta e aquela melhoria” , e que esta sala também as preparou para defenderem suas demandas e propostas publicamente, na vida civil (Woolf, 2019a, p. 60-61 - grifo nosso).
Resultou, assim, que [...] estavam reivindicando, em Newcastle, em 1913, não apenas banhos e salário e luz elétrica, mas também o sufrágio universal e a taxação dos bens fundiários e a reforma da lei do divórcio. Assim, em um ou dois anos, elas iriam reivindicar paz e desarmamento e a expansão dos princípios cooperativos, não apenas entre os operários da Grã-Bretanha, mas também entre as nações do mundo. [...] (idem, p. 62).
Por isso Virginia Woolf, na voz de Mary Beton, sustentou enfaticamente sua tese sobre a importância dessas duas condições básicas, porque
Nada no mundo pode tirar de mim as quinhentas libras que me pertencem. Comida, casa e vestimentas são minhas para sempre. Portanto, não somente cessam o esforço e o trabalho, mas também o ódio e a amargura. Não preciso odiar homem nenhum; eles não podem me fazer mal. Não preciso bajular homem nenhum; eles não têm nada para me dar. Assim, imperceptivelmente, vi-me adotando uma nova atitude em relação à outra metade da raça humana. Era absurdo culpar qualquer classe ou qualquer sexo por si só. [...]. Deveras, o legado da minha tia revelou os céus para mim e substituiu a figura grande e impositiva de um cavalheiro, que Milton recomendava para minha adoração perpétua, por uma vista do céu aberto. (Woolf, 2014, p. 31-32).
Por meio desse argumento, a ensaísta estabeleceu, portanto, a relação direta entre a produção e a autonomia intelectuais e as condições materiais ao explicar:
É isso. A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres sempre foram pobres, não só por duzentos anos, mas desde o começo dos tempos. As mulheres gozam de menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. As mulheres, portanto, não tiveram a mais remota chance de escrever poesia. É por isso que dei tanta ênfase ao dinheiro e ao espaço próprio. No entanto, graças à labuta das mulheres obscuras do passado, de quem eu gostaria de saber mais, [...] vocês não estariam aqui esta noite, e a sua chance de ganhar quinhentas libras por ano, por mais precária que ainda seja, seria extremamente minúscula. [...] Por essa razão, eu pediria a vocês que escrevessem todo tipo de livro, não hesitando diante de nenhum tema, por mais trivial ou vasto que seja. [...]Porque de jeito nenhum quero confiná-las à ficção. Se dependesse de mim - e há milhares como eu -, vocês escreveriam livros de viagens e aventuras, pesquisas e bolsas de estudo, história e biografia, crítica, filosofia e ciência. Ao fazerem isso, vocês certamente favorecerão a arte da ficção. Pois os livros têm a tendência de influenciar uns aos outros. A ficção será bem melhor se estiver de mãos dadas com a poesia e a filosofia [...] (Woolf, 2014, p. 75).
Dessa perspectiva materialista e interdisciplinar, por introduzir no experimental formato romance-ensaio 124 precisas notas explicativas, Woolf elaborou e publicou Três Guinéus, no qual trabalhou com questões sociais, políticas, estéticas e literárias, simultaneamente. Nessa obra, defendeu a existência da relação entre o patriarcalismo, o militarismo, o fascismo e a subjugação das mulheres, mostrando que o pequeno tirano, que atua no mundo privado do lar, das famílias e dos clãs, espelha o grande tirano que manobra as populações, tal como Hitler e Mussolini, porque são frutos do mesmo imaginário social.
Antes de abordar essas conexões, é necessário considerar uma categoria analítica central da reflexão de Virginia Woolf, as “filhas (e irmãs) do homem instruído”, elaborada e apresentada explicitamente em Três Guinéus, após tê-la esboçado na personagem Judith Shakespeare. Essa figura revela o grande peso concedido à educação das mulheres no diagnóstico das restrições e desigualdades que as têm impedido de atingirem seu pleno potencial. No ensaio “Duas Mulheres”, Woolf afirmou que, salvo raríssimas exceções, ainda no século XIX permanecia a situação, na classe média inglesa, de o casamento ser o destino para as mulheres, que não recebiam educação formal, ao contrário da situação dos homens dessa classe, a qual teria sido o “grande reservatório de onde extraímos nossos homens ilustres” (Woolf, 2016, p. 26). Esclareceu, a partir da biografia de Emily Davies, fundadora do Girton College: em 1830 ela nasceu numa família de classe média que, como de hábito, arcou com a educação dos filhos, mas não das filhas, que não foram à escola, não tiveram preceptoras em casa e avançaram como puderam. As mulheres da aristocracia que obtiveram algum renome e influência política, como Lady Augusta Stanley, apoiadora de Davies, foram formadas nos cultos e intelectualizados salões. Para construir sua categoria analítica, Woolf pensou nos “homens instruídos” - seus irmãos, seu pai, nos irmãos de Miss Davies, em seu marido Leonard -, que, como tantos outros membros da classe média educada inglesa, tiveram preceptores e, depois, a educação formal que foi complementada por todo um rico ambiente social que incluía viagens de formação ao exterior. Sem direito à educação, ao acesso pleno às universidades, à profissionalização, às filhas e irmãs dos homens instruídos restava o casamento como “profissão”, ou, em pequena escala, outras ocupações como costureiras, governantas, além daquelas indicadas por Mary Beton. Nesse périplo, havia outro destino comum às “filhas (e irmãs) do homem instruído”: a contribuição compulsória para a educação dos irmãos, que custou a elas, por exemplo, a baixíssima mesada, as anáguas furadas e a impossibilidade de viajar para adquirir conhecimento, tal como eles5. Mediante essa categoria analítica, a pensadora apresentou e denunciou as desigualdades presentes na sociedade patriarcal em relação à educação, às demais oportunidades para as mulheres, e à plena voz pública, especialmente na política.
A guerra atravessa Três Guinéus a partir da pergunta sobre como ela pode ser evitada. A obra foi constituída como um renovado romance epistolar que, ao encaixar em uma primeira carta duas outras, relacionou os três pedidos encaminhadas à narradora. Duas tesoureiras de diferentes organizações solicitaram apoio financeiro respectivamente para a reconstrução de uma faculdade feminina e para uma organização que auxiliava mulheres a ingressarem em profissões. A carta de um advogado, descrito como um “homem instruído”, requereu apoio financeiro para a manutenção de uma organização pacifista e a assinatura em um manifesto pela paz. Ademais, ele perguntou à narradora o que deveria ser feito para evitar a guerra. Ao longo do ensaio, ela, depois de analisar as condições sociais que estavam na base de cada pedido de apoio, enviou um guinéu a cada missivista, observando as condições em que ele deveria ser usado.
As respostas às interlocutoras e ao interlocutor são os tijolos que pavimentaram a argumentação de Virginia Woolf, que apontou o patriarcado como a causa das guerras sem desenvolver, contudo, qualquer apreciação essencialista sobre uma possível natureza masculina guerreira ou feminina. Para ela, aprende-se historicamente a guerrear e a cultuar a guerra pelos hábitos e leis, pelos ritos e pela educação na sociedade patriarcal. Assim, o guerrear foi apresentado como atividade masculina, uma vez que combater e matar ou morrer numa guerra são históricos hábitos culturais do homem por três motivos: a guerra é profissão, a guerra é fonte de felicidade e de emoções, a guerra é meio de extravasar a virilidade. Nesse sentido, ela estabeleceu a relação entre a virilidade e a violência manifesta na guerra, uma vez que o guerrear é revestido por valores apreciados e desejados, tais como as honrarias e a honra, elementos que atravessam os ‘jogos de guerra’ em que o heroísmo, a morte heroica pela pátria (pelo clã, pela pólis) são instilados socialmente porque valorizados e desejados; os ritos em suas cerimônias pomposas e/ou celebratórias são executados com os homens juntos, em concerto, trajados com as adequadas vestimentas masculinas que anunciam, por sua vez, “a posição social, profissional ou intelectual de quem as traja”, ou seja, elas enfatizam a superioridade de uns em relação aos outros e contribuem para estimularem a predisposição para a inveja, para a conquista, para a competição e para a guerra (Woolf, 2019b, p. 27). Na sociedade patriarcal em que os homens têm assegurado, com exclusividade, a voz pública, o acesso à educação, à riqueza, à propriedade, ao trabalho e às profissões, os “filhos da pátria” (da pólis, do clã) precisam dar a compensação, morrer pela pátria em retribuição. Igualmente, ela não afirmou que as mulheres não fazem a guerra, mas que no ocidente, as guerras foram e continuam a ser decididas e travadas por homens educados como guerreiros para cultivarem e aceitarem os valores que conduzem à defesa da pátria e ao nacionalismo.
Tal como Zambrano, Woolf engajou-se política e literariamente contra a ascensão do fascismo, que, para ela estaria presente também na Grã-Bretanha. Durante a escrita e publicação de Três Guinéus, a II Guerra Mundial ainda não tinha sido iniciada, mas as condições históricas para a deflagração já estavam postas: os discursos de ódio nazi-fascistas e a ameaça expansionista alemã já ecoavam na Europa angariando apoios, pois como ponderou E. Hobsbawn (1995), o fascismo foi saudado como força capaz de deter e derrotar a esquerda, fato que o historiador utilizou para mostrar o poder que essa ideologia conservadora possuía, inclusive nos território inglês e espanhol.
Se Zambrano construiu sua crítica ao fascismo tomando-o como revolta e negação da potência vital da vida e como decorrente da incapacidade humana de uma união amorosa com ela, a escrita antifascista woolfiana tomou outra via e foi elaborada desde as relações de gênero, no contexto da ascensão de Hitler, Mussolini, Franco e Salazar, ao poder. Esta perspectiva, segundo Erin Carlston (1998), estaria baseada na tradição socialista feminista inglesa à qual Woolf se alinhava devido a suas conexões com vários grupos trabalhistas, sufragistas e pacifistas. Para a escritora inglesa, a luta contra a dominação masculina imposta pelo patriarcalismo equivaleria a lutar contra o fascismo. Por conseguinte, ela uniu as duas difíceis batalhas, ao entender que o fascismo estrangeiro e o sexismo britânico eram expressões do mesmo patriarcado autoritário. Após apresentar trechos de textos de jornais ingleses e de uma fala de Hitler, ela afirmou ao advogado:
[...] Ali, naquelas citações, está a larva daquele mesmíssimo verme que conhecemos sob outros nomes em outros países. Ali temos, em embrião, a criatura, o Ditador, como o chamamos quando ele é italiano ou alemão, que acredita que tem o direito, seja dado por Deus, seja pela natureza, pelo sexo, ou pela raça, de ditar que os outros seres humanos como eles devem viver; o que devem fazer. Recorramos de novo à citação: ‘A casa é o verdadeiro lugar das mulheres que estão agora obrigando os homens a se manterem ociosos. [...]’ Coloquemos, ao lado desta outra citação: ‘Há dois mundos na vida da nação, o mundo dos homens e o mundo das mulheres. A natureza fez bem em confiar ao homem o cuidado da família e da nação. O mundo da mulher é a família, seu marido, seus filhos, sua casa’. Uma está escrita em inglês, a outra, em alemão. Mas onde está a diferença? Não estão ambas dizendo a mesma coisa? Não são ambas, falem elas inglês ou alemão, vozes de Ditadores, e não concordamos todos que o ditador, quando o localizamos no exterior, é um animal perigoso e muito feio? E ele está entre nós [...]. E que direito temos nós, senhor, de alardear nossos ideais de liberdade e justiça para outros países, quando podemos sacudir nossos mais respeitáveis jornais, em qualquer dia da semana, e vermos saltar larvas como essas? (Woolf, 2019b, p. 62-63 - grifo nosso).
A análise de Virginia Woolf, por conseguinte, visou demonstrar no decorrer de seu ensaio-romance que as instituições patriarcais contribuem para a guerra e que o militarismo, o sexismo e o fascismo são ideologias intimamente conectadas ao patriarcalismo.
Considerações finais
Somos herdeiras de uma genealogia de mulheres, que inclui María Zambrano e Virginia Woolf e incontáveis mulheres ainda obscuras - segundo a expressão da escritora inglesa -, que procuraram entender e realizar outro sentido para o mundo comum que não privilegiasse o estabelecimento de valores
pretendidamente universales, que, sin embargo, se manifiestan como el domínio de una parte de la humanidad sobre la otra, en este caso, del mundo de los hombres sobre el de las mujeres. Tal injusticia social y cultural, que nuestra época pretende desconocer, necesita ser interpretada y modificada con el fin de liberar nuestras potencias subjetivas en los sistemas de intercambio, los medios de coimunicación y creación [...] (Irigaray, 1992, p. 14).
Quase cem anos depois de Woolf e Zambrano, reconhecendo a crescente ocupação pelas mulheres de espaços sociais que historicamente lhe foram negados - seja no mercado de trabalho, ou no campo literário, ou nas diferentes áreas de conhecimento, ou na representação política, por exemplo -, é preciso afirmar que ainda persistem diferenças entre homens e mulheres, e tendo como referência a interseccionalidade entre as mulheres de diferentes segmentos sociais. Sobretudo, permanecem as bases patriarcais, militaristas, sexistas da sociedade, e novamente testemunhamos a ascensão fascista.
Virginia Woolf posicionou-se desde seu lugar de subalterna na ordem patriarcal reinante, de seu lugar de fala, ao ecoar a voz das “filhas e irmãs de homens instruídos”, de pacifista que viveu os horrores de duas grandes guerras chamadas de mundiais e que, horrorizada, viu a ascensão do fascismo como novo ordenamento que reforçava o militarismo e o patriarcalismo vigentes, como uma mulher “de esquerda” que acompanhou in loco os encontros do Partido Trabalhista e de mulheres operárias, como uma intelectual que refletiu e escreveu sobre a ordem social - patriarcal, militarista, sexista, capitalista, fascista - posicionando-se publicamente a favor de um outro mundo comum para homens e mulheres a partir da perspectiva das Outsiders, ou excluídas.
María Zambrano foi também uma mulher que se posicionou fortemente contra a guerra e a violência que devastava a Europa na sua época. Ela e sua família viveram as consequências do fascismo e do sexismo em um longo período de exílio. Seu pensamento permaneceu, por décadas, desconhecido e desprezado pela academia. Assim como Woolf, encontrou na escrita uma forma de resistência. Seus ensaios filosóficos e literários confirmam uma análise perspicaz e lúcida do século XX. Zambrano e Woolf foram mulheres excepcionais, visionárias que escreveram e lutaram pelos excluídos e marginalizados, que encontraram na escrita um instrumento revolucionário para promover uma outra forma de pensar e sentir o mundo.
Referências
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Notes