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A etiologia da violência, narco-patriarcado e capitalismo neoliberal
Susana de Castro Amaral Vieira
Susana de Castro Amaral Vieira
A etiologia da violência, narco-patriarcado e capitalismo neoliberal
The etiology of violence, narco-patriarchy and neoliberal capitalism
Revista de Filosofia Aurora, vol. 37, e202531379, 2025
Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Editora PUCPRESS - Programa de Pós-Graduação em Filosofia
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Resumo: O artigo aborda o trabalho de Rita Segato e Sayak Valencia sobre a violência dentro do contexto do capitalismo neoliberal e da colonial modernidade. Analisa as péssimas consequências da socialização masculina por meio do mandato de masculinidade, principalmente em países de economia periféricas como os países latino-americanos, onde a má distribuição de riquezas e a precarização do trabalho levam milhares de jovens desejosos de participarem da sociedade de consumo a ‘trabalharem’ para organizações criminosas.

Palavras-chave: Imperativo econômico, Pedagogia da crueldade, Mandato de masculinidade..

Abstract: The article discusses the work of Rita Segato and Sayak Valencia on violence within the context of neoliberal capitalism and colonial modernity. It analyses the consequences of bad male socialization through the masculinity mandate, especially in peripheral economic countries such as Latin American countries, where the poor distribution of wealth and the precariousness of work lead thousands of young people eager to participate in consumer society to 'work' for criminal organizations.

Keywords: Economic imperative, Pedagogy of cruelty, Mandate of masculinity.

Resumen: Este artículo aborda el trabajo de Rita Segato y Sayak Valencia sobre la violencia en el contexto del capitalismo neoliberal y la modernidad colonial. Analiza las terribles consecuencias de la socialización masculina a través del mandato de masculinidad, especialmente en países de economía periférica como América Latina, donde la mala distribución de la riqueza y la precariedad laboral llevan a miles de jóvenes deseosos de participar en la sociedad de consumo a "trabajar" para organizaciones criminales.

Palabras clave: Imperativo económico, Pedagogía de la crueldad, Mandato de masculinidad.

Carátula del artículo

Artigo científico

A etiologia da violência, narco-patriarcado e capitalismo neoliberal

The etiology of violence, narco-patriarchy and neoliberal capitalism

Susana de Castro Amaral Vieira
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Revista de Filosofia Aurora, vol. 37, e202531379, 2025
Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Editora PUCPRESS - Programa de Pós-Graduação em Filosofia

Received: 18 March 2024

Accepted: 02 February 2025

Introdução

A planta da qual se extraí a cocaína, a coca, só cresce em clima tropical e em altitudes que variam de 400 a 1800 metros (Ferreira; Martini, 2001, p. 96). Ela só é plantada na região andina da América Latina. Seus maiores produtores são Colômbia, Peru e Bolívia. Os indígenas da região sempre tiveram o hábito de mascar a folha de coca. A partir do momento que foi descoberto o seu refino ela passou a ser comercializada ilegalmente para os países do Norte Global, dado seu alto potencial narcótico. Continuamos a exportar nossos recursos naturais, mas se antes exportávamos, ouro, madeira, hoje a América Latina é a maior exportadora de cocaína para o mundo. A rota do tráfico para a Europa passa pelo Brasil e a rota do tráfico para os EUA passa pelo México. Hoje, os países da América Latina deixaram ser somente exportadores e passaram a ser também grandes consumidores. Por ser um comércio altamente lucrativo, o mercado de consumidores interno e externo é altamente disputado por máfias do crime ‘organizado’. Essas máfias são chamadas organizadas porque possuem um verdadeiro ‘exército’ de matadores altamente armados, muitos deles oriundos das forças de segurança, além disso controlam todas as etapas da produção desde o plantio, ao contrabando e venda internacional. Para operacionalizar essa empresa de inúmeros tentáculos as máfias contam com advogados, contadores, banqueiros para lavar o dinheiro e em torno do comércio da droga se acoplam inúmeros outros crimes, tais como o tráfico de pessoas, a corrupção de políticos e das forças de segurança nacionais, a prostituição, o tráfico de armas, a pirataria, jogos ilegais, entre outros. Evidente que a disputa por uma fatia desse comércio altamente lucrativo não se dá em rodadas de negociações, mas sim na base da bala. Ganha quem se impor na força, matando, torturando, sequestrando. A violência produzida pelo narcotráfico é tão grande que hoje as cidades mais violentas do planeta se encontram na América Latina. Somos o continente que mais mata jovens no mundo. Não há exagero em afirmar que os dados da violência nos nossos países indicam que vivemos em guerra. A antropóloga argentina Rita Segato (2014) intitula as guerras do tráfico de novas formas de guerra, uma vez que não se origina mais entre disputa territorial entre países, mas internamente, entre facções nacionais e, externamente, entre cartéis internacionais. Até bem pouco o tempo, a violência no espaço público era monopólio dos Estados, por isso todo o aparato bélico e o treinamento especializado era de competência única e exclusiva do Estado. Hoje, a situação mudou completamente. As técnicas de tortura empregadas pelos exércitos e pelas polícias, assim como a ‘engenharia de morte’ que envolve o treinamento para o uso especializado de explosivos, armas de fogo de longo alcance etc., em outras palavras, a ‘episteme’ da violência armada, esse know how, foi transferido para as mãos dos narcotraficantes e seus exércitos de assassinos e torturadores. Os exércitos e as polícias dão o treinamento, e depois esses profissionais da violência, supostamente treinados para defender a população, entram para o tráfico seduzidos pelo necroempoderamento (Valencia, 2010). Evidente que o necroempoderamente envolve não somente os policiais e os soldados que mudam de lado, mas também a própria força de segurança e os políticos corruptos que fazem propositadamente vista grossa para os crimes, e os deixam impunes. Nesse contexto das novas guerras, a população fica no fogo cruzado da máfia do crime com as forças de segurança, que são autorizadas a entrar em áreas de moradia dentro do contexto das comunidades e periferias, matando. A chamada guerra às drogas acaba servindo de fachada para uma violência ampliada contra a população negra e pobre das periferias. Além disso, salta aos olhos a crueldade dos crimes que envolvem o narcotráfico: corpos esquartejados, diluídos em ácido, decapitação, mutilação. O assassinato com requintes de crueldade não é destituído, porém, de lógica e racionalidade, como muitos querem que creiamos, mas seguem a uma lógica própria. Cada grupo armado busca se impor através do medo e da intimidação, e para isso cada qual produz uma ‘assinatura’ na forma como as pessoas são mortas. Quanto mais cruento for, portanto, melhor. Há, atrás de tudo isso, um cálculo claro que depende de uma especialização da violência, isto é, no uso de técnicas sofisticadas de sequestro, tortura e morte (Valencia, 2010, p. 104-105).

Precisamos colocar o aumento da violência contra as mulheres nas últimas décadas dentro deste contexto. No Brasil, o assassinato da vereadora Marielle Franco pelo matador de aluguel Ronie Lessa em 2018 e mais recentemente o assassinato da jovem Ana Carolina Souza Câmpelo de apenas 21 anos, que foi encontrada com a pele do rosto, couro cabeludo e olhos arrancados, nos mostram que estamos em um contexto social extremamente violento com as mulheres.

Rita Segato e Sayak Valencia

Todo lo sólido se edifica sobre sangre

Sayak Valencia

Dentro dos trabalhos atuais do feminismo do Sul, os de Rita Laura Segato e Sayak Valencia se destacam pela preocupação que ambas possuem em analisar a violência contra as mulheres dentro do contexto atual do capitalismo pós-industrial nos chamados países do terceiro mundo, como México, Brasil e Argentina1. Ambas destoam da interpretação do feminismo hegemônico do Norte segundo o qual os crimes contra as mulheres seriam crimes de ódio, portanto fruto de uma psicopatologia individual. Defendem, ao contrário, que a violência é sistêmica e estrutural oriunda das bases econômicas do capitalismo atual o qual cada vez mais coisifica os seres e lhes petrifica a capacidade de manter vínculos e de sentir compaixão. Ambas as autoras são céticas quanto a possíveis soluções legais e estatais para o problema da violência, seja porque a máquina da burocracia estatal da democracia liberal já estaria contaminada pelo discurso duplo, hipócrita, de repúdio e, ao mesmo tempo, de apoio velado ao narcotráfico e à milícia, ou por sua incapacidade de deter a total desregulamentação do trabalho. Por exemplo, o mesmo Estado Nação, os EUA, que condena as drogas e prega guerra ao tráfico, é o Estado cujos bancos lavam dinheiro do narcotráfico2; ou no Brasil, o caixa dois nas campanhas eleitorais conta necessariamente com dinheiro do crime e do narco, portanto a eleição de deputados comprometidos com o comércio ilegal de armas e entorpecentes já faz parte do ‘jogo democrático’ (Segato, 2018, p. 78). No México, o abandono de políticas públicas para o campo, e a consequente pauperização da população rural, faz com que o narcotraficante seja visto como um verdadeiro benfeitor, uma vez que é graças a ele que os camponeses conseguem trabalho e é graças, muitas vezes, ao narcotraficante que há construção de igrejas, escolas, luz, saneamento básico e hospitais nas comunidades rurais (Valencia, 2010, p. 35).3

A metodologia de pesquisa de ambas é, porém, distinta. Segato (2003a; 2003b) faz uma análise temporal diacrônica e sincrônica do fenômeno da violência, buscando analisar tanto seu estado atual quanto sua origem, enquanto a análise de Valência (2010) é somente sincrônica.

No caso da feminista descolonial, a antropóloga argentina Rita Segato, a base da sua reflexão sobre a violência de gênero é a distinção de Carole Pateman (1988) entre ‘status’ e ‘contrato’, ou melhor, sobre a forma pela qual convivem na modernidade capitalista atual uma estrutura de organização social pré-moderna como o ‘status’ (oriundo de uma época passada longuíssima, quando surge o patriarcado) e a noção moderna de ‘igualdade contratual’. Essa convivência na modernidade de dois registros opostos de relações de gênero conduz a uma instabilidade no sistema de gênero que produz as violências perpetradas contra as mulheres, avalia Segato. Além disso, esse duplo registro contraditório leva à presença de dois eixos concomitantes na relação violenta de gênero, um horizontal e um vertical. O crime sexual é tanto um crime do mandato de masculinidade, isto é, da forma como o homem pode afirmar sua hombridade frente a homens que não estão presentes na cena do crime, mas estão no seu imaginário (eixo horizontal, entre iguais), quanto trata-se da relação da afirmação da hierarquia de gênero na qual o homem faz uma demonstração de exercício de poder para recuperar a sua masculinidade e educar/moralizar a mulher (eixo vertical, entre desiguais).

A teórica queer mexicana, a filósofa transfeminista Sayak Valencia, não se preocupa em buscar a genealogia do patriarcado para entender seus efeitos na contemporaneidade, ela se interessa pelos efeitos do atual estágio do capitalismo neoliberal globalizado nas relações de gênero, seguindo uma linha de investigação próxima a de Paul Preciado (2018). Trata-se de investigar como o hiperconsumismo estimulado pela propaganda, a precarização do trabalho, a hiperexposição midiática à violência, entre outros, contribuí para a construção de uma masculinidade cada vez mais tóxica e violenta, os sujeitos endriagos4. Na impossibilidade de inserção em um mercado de trabalho saturado, os endriagos trabalham para a economia paralela do narcotráfico, da milícia, dos paramilitares, nas cidades e nos campos dos países latino-americanos. Aqui há uma verdadeira mudança a respeito da concepção tradicional do significado do trabalho para incluir a remuneração pelo trabalho associado ao crime.

Reestruturando así las funciones y tareas de la violencia; haciendo a través de ésta una reconfiguración del sistema de producción y del concepto de trabajo. Otorgándole a éste una resignificación distópica que convierte a las técnicas de sobre especialización de la violencia no sólo en un trabajo normal sino en un trabajo deseable al ofrecer “oportunidades de superación” frente a la precarización global del trabajo (Valencia, 2010, p. 47).

As organizações criminosas seguem a mesma lógica propugnada pelo capitalismo neoliberal de maximização dos lucros, como comércio internacional, exploração da mão de obra barata, etc. É importante salientar que a globalização do capitalismo leva às periferias dos países do terceiro mundo um ideal de empoderamento baseado na capacidade individual de consumo. Diante da impossibilidade de empoderamento individual pelo consumo por meio das vias legais, pois esse tipo de ascensão social ordinária não está disponível para todos, resta aos jovens das periferias do capitalismo a saída pelo necroempoderamento, ou seja, trabalhar para as organizações paraestatais criminosas a fim de assim afirmar sua identidade masculina e exibir alto poder de consumo.

Em ambas as análises, as mulheres, ou pessoas feminizadas, servem de meio para a ascensão social dos sujeitos precarizados do capitalismo neoliberal. Elas se tornam instrumentos, meios, daquilo que Rita Segato chama de ‘Pedagogia da Crueldade’: são as principais vítimas de violência e assassinato, porque em seus corpos está uma ‘escritura’, uma mensagem cifrada. Elas servem de meios expressivos, isto é, meios de comunicação horizontal, seja com membros de outras gangues e cartéis, seja entre membros do próprio bando, que selam no corpo das mulheres que torturam e matam um pacto de silêncio e lealdade entre si. Essa pedagogia também é usada para mandar uma mensagem à população, eixo vertical de comunicação intimidante: não devem contrariar os interesses do tráfico porque se não morrem como as jovens.

Além dessa diferença de metodologia entre as duas, há que se ressaltar que enquanto Sayak Valencia pretende analisar e refletir sem moralizar5, ou seja sem estabelecer um julgamento moral sobre o caráter da pessoa que participa da economia do narcotráfico, mas refletir sobre de que forma o capitalismo narcótico responde a demandas do próprio modelo de produção e consumo do capitalismo neoliberal, Rita Segato (2018) aponta, sem fazer exercício de futurologia e utopia, as quais condena, para ‘contra-pedagogias da crueldade’ em curso nas experiência coletivas de resistência das mulheres amefricanas6.

A etiologia da violência de gênero e do feminicídio

Para Rita Segato, o patriarcado é quase tão antigo quanto a própria espécie humana, mas isso não significa que ele não tenha uma origem histórica. O patriarcado é a primeira forma de dominação inventada pelos homens. Foi a partir da extração de mais-valia da mulher na relação de gênero que surgiram as outras formas de dominação. Essa extração só foi possível porque criou-se uma hierarquia de status entre o homem e a mulher de tal maneira que a mulher passou a ser considerada como tendo socialmente menos valor que o homem. A partir daí outras diferenças de status se seguiram, como a entre o europeu e o indígena, entre o europeu e o negro africano, entre o rico e o pobre e assim sucessivamente. Esse tempo histórico largo, pré-histórico, faz com que acreditemos que a diferença de status entre homem e mulher seja algo natural. De fato, o patriarcado é um sistema social onipresente em todas as sociedades humanas. Ele é, portanto, algo estrutural. Mas, ao contrário do que defende Lévi-Strauss em sua obra Estrutura elementar de parentesco, não é a dádiva a primeira forma de socialização e cultura entre os homens. Na verdade, antes da dádiva houve a extração de mais-valia do corpo feminino feito pelo patriarca da tribo (Segato, 2003b). A relação de dádiva e troca só foi possível, portanto, depois que o patriarca da tribo-família já havia considerado todas as mulheres como sua propriedade. Depois, a fim de fazer alianças com outros homens ele passou a ofertar as mulheres consanguíneas a homens de fora da família-tribo e manter relações apenas com as não familiares diretas. Apoiando-se na obra de Carole Pateman, O contrato sexual, Rita Segato mostra, então, que a base da construção da sociabilidade entre os homens é a submissão primeira da mulher à vontade masculina e não a troca ou a dádiva, como afirma Lévi-Strauss (Segato, 2003b). A violação primeira, a do patriarca, seu direito a ter acesso sexual a todas as mulheres é, portanto, a fundação do patriarcado e o primeiro modelo de estrutura desigual de poder, no qual um lado expropria algo do outro, sexo, sua força de trabalho, etc.

O primeiro patriarcado constituiu-se a partir dessa primeira violação, que, conforme mostra-nos Pateman, não termina completamente pela invenção do contrato social e de casamento na modernidade como querem nos fazer crer os liberais modernos. Na visão tradicional, a modernidade começa quando os filhos se rebelam contra os privilégios de status do pai e cometem o parricídio. Por meio desse parricídio se estabelece pela primeira vez a lei de igualdade entre ‘irmãos’ (fraternidade). Segundo o discurso tradicional, a modernidade teria declarado que todos, independente do sexo, seriam a partir de então iguais perante a lei. Por isso, o casamento passou a ser visto como um contrato entre iguais. Sem o consentimento de ambos, marido e esposa, não haveria a rigor casamento. Mas sabemos que a história não é bem assim. Marido e esposa não entram em igualdades de condições em um casamento. A dependência econômica e a diferença de status fazem com que a mulher casada esteja sempre em uma posição inferior a seu marido. Essa é a condição fundante do chamado ‘segundo patriarcado’, o liberal fraterno: a coexistência de um sistema de status ao lado de um sistema de contrato. Para Segato, a origem da violência de gênero está neste paradoxo.

Rita Segato aplicou este paradoxo de Pateman a respeito da coexistência do status e do contrato no casamento às relações de gênero violentas (estupros e feminicídios) e concluiu que cada um desses elementos pode ser representado por dois eixos, um horizontal e outro vertical. A partir da análise de relatos de presos por estupros cometidos em via pública (não aqueles cometidos dentro da família, a maioria), ela constatou que eles cometem o ato de estupro e/ou assassinato tanto obedecendo a um mandato interno de masculinidade que lhes faz imaginar que estão sendo observado por seus pares (eixo horizontal), quanto em nome de um exercício de extração pura de mais-valia do ser que ele considera inferior a si (eixo vertical).

Rita Segato também mostrou o aspecto político que pode conter o assassinato de mulheres como, por exemplo, no caso do assassinato de mulheres de Ciudad Juarez, uma cidade que fica na fronteira entre o México e os EUA (Segato, 2016; 2014; 2013).

En 2003, hubo al menos 24 mujeres asesinadas en Ciudad Juárez; en2004, se registraron 21 casos. Si bien se ha reducido la aparición de cuerpos en los últimos años, se teme que ahora los asesinos hayan recurrido a métodos especiales para deshacerse de los restos de las víctimas. Por ejemplo, las descuartizan y las arrojan a los cerdos en un rancho, como ha informado un funcionario del Federal Bureau of Investigations (FBI) en El Paso, Texas (Rodriguez, 2018; pp. 11-12).7

Segato mostrou que esses crimes não eram crimes de ódio, mas sim crimes que obedeciam a uma lógica própria, a da ‘pedagogia da crueldade’. A hipótese de Segato, depois de ter estado lá na cidade e verificado o comportamento intimidado da população da cidade, é a de que se trata de crimes expressivos, ou seja, crimes que pretendem comunicar algo, dar um recado, seja à população, seja a bandos rivais, seja ao próprio governo central: “aqui quem manda somos nós”, “esse é nosso território”. As mulheres são usadas como instrumentos para poder passar esses recados. Trata-se de crimes praticados com requintes de crueldade. Elas são sequestradas, mantidas em cativeiro, torturadas, estupradas por todos os membros do bando mafioso, e, finalmente, seu corpo é depositado em um terreno baldio. Aqui, aparece outro elemento dessa pedagogia, a extração de ‘tributo’, que cada um dos criminosos lhes retira de forma violenta, serve para reforçar e selar o pacto de silêncio e lealdade entre todos.

Capitalismo gore

Segundo Sayak Valencia, o termo inglês ‘gore’ é originário da linguagem cinematográfica e serve para classificar filmes com grande derramamento de sangue e vísceras que de tão absurdo e injustificado, parece irreal e artificial (Valencia, 2010, p. 23). Valencia conhece a realidade da violência do narcotráfico no México, pois mora em Tijuana, uma cidade de fronteira como Ciudad Juarez. Todas essas cidades do norte do México que fazem fronteira com os EUA são conhecidas por serem muito perigosas e estarem ocupadas pelos cartéis de drogas. A realidade do narcotráfico no mundo, o fato dele movimentar mais dinheiro inclusive do que o petróleo ao redor do mundo (Segato, 2018, p. 76), faz com que não possamos simplesmente ignorá-la como um acontecimento do submundo, sem relevância para a vida ‘normal’.

Os lucros globais oriundos de todos os tipos de atividades ilegais foram calculados em nada menos que US$ 750 bilhões anuais. Outras estimativas mencionam a cifra de US$ 1 trilhão ao ano em 1993, correspondente ao valor do orçamento federal norte-americano da época (Castells, 1999, p. 206).

O narcotráfico envolve uma série de atividades ilegais além da venda da droga, tais como prostituição, tráfico de pessoas, venda de armas, comércio ilegal de remédios, corrupção, lavagem de dinheiro. Para garantir o seu ‘bom’ funcionamento, todo esse sistema de comércio ilegal de pessoas e coisas necessita de um grande aparato segurança, com funcionários altamente armados e treinados, dispostos a matar e a morrer. Dentro desse contexto criminal de altíssima margem de lucro surge uma verdadeira ‘guerra’ pelo controle do tráfico entre gangues e cartéis inimigos. Das cinquenta cidades mais violentas do mundo a maior parte está na América Latina, e vinte e uma estão no Brasil (ONU, 2015 apudSEGATO, 2018, p. 77). Por que essa ‘guerra’ que mata diariamente milhares de pessoas está localizada justamente, na maioria dos casos, na América Latina? Seria isso uma mera coincidência? Ou o fato de estarmos também em uma das regiões com os piores índices de desenvolvimento humano e as maiores desigualdades econômicas possui uma relação com isso? Vivemos um capitalismo globalizado neoliberal absolutamente excludente, diz Valencia. Em uma economia pós-industrial que não gera mais tanto emprego quanto na fase industrial do capitalismo, à juventude das periferias urbanas e do campo de muitas cidades latino-americanas não resta outra opção do que trabalhar para o cartel do tráfico se quer ter alguma capacidade mais vigorosa de consumo. É dentro deste contexto que Valencia almeja analisar a episteme da violência contemporânea, suas lógicas e práticas. Poderíamos moralizar e dizer que está errado querer consumir produtos de luxo, que o jovem deveria se render a capacidade de consumo baixa que um emprego honesto e mal remunerado poderia lhe dar, mas não é essa a mensagem difundida pela sociedade de consumo capitalista. Por onde ele olha, nas propagandas, nos filmes e séries, está essa correlação entre dinheiro e poder, dinheiro e mulheres, dinheiro e prazer etc., de tal forma que ele conclui que se não há outra forma de obter tudo isso com um emprego dito ‘honesto’, é de certa forma justo que ele trabalhe para o tráfico para cumprir com o reconhecimento da sua masculinidade (a socialização pelo consumo). Assim, dentro do mundo hiperconsumista e ultracapitalista a ética parece acessória, pois é percebida como uma barreira, uma proteção moral para aqueles que não tiveram a coragem de arriscar-se a ganhar e/ou perder tudo. O imperativo categórico, diz Valencia, foi substituído pelo imperativo econômico (Valencia, 2010, p. 78).

Uma característica da episteme da violência contemporânea é, portanto, o necroempoderamento: empoderar-se e enriquecer-se matando e morrendo. A mesma perversidade que rege o sistema capitalista ‘legal’ rege o capitalismo ‘ilegal’ das drogas: os que morrem cedo, os corpos ‘matáveis’ são os jovens racializados das favelas que protegem a boca de fumo ou os assassinos de aluguel que dão cobertura aos donos das bocas e aos exportadores de droga, e não os que estão no alto da hierarquia de produção e comercialização das drogas, que vivem em suas coberturas de luxo, que não lidam diretamente com o comércio da droga, mas apenas gerenciam a lavagem derivada do lucro da venda.

La organización está construida, en su primer nivel, por los puestos más altos dentro da jerarquía, donde se encuentran los jefes que fungen de financiadores y promotores y quienes además controlan las actividades de tráfico y venta de la droga a través de sus hombres de confianza quienes son afiliados directos. En el segundo nivel se situarían quienes tienen manejo directo de la droga, es decir, quienes la compran, la preparan, la cortan y la distribuyen entre los terratenientes del cártel. En el tercer nivel se ubicarían los jefes de la plaza o terratenientes, quiénes están en contacto directo con los vendedores y, además, trazan la estrategia a seguir en caso de huida, coordinan a los vigilantes y se ocupan de resguardar la ubicación de la mercancía y de los laboratorios donde se procesa. El cuarto nivel, que es regularmente el que da la cara al publico y el que es mas conocido e identificable por la sociedad, está integrado por los vendedores a pie de calle (Valencia, 2010, p. 99).

Este último nível é aquele regido pela precarização e o subcontrato. A ausência de projetos de desenvolvimento social dos governos liberais e o desemprego crónico empurra os jovens (em sua maioria homens) tanto dos países do primeiro quanto do terceiro mundo, seduzidos pela sede hiper consumista, a ocuparem esse último nível da economia criminosa, o mais baixo dos níveis o mais mal remunerado (Valencia, 2010, p. 99).

No atual estágio do capitalismo neoliberal automatizado que resulta em hiperprodução, o mais importante não é a mão de obra, mas sim o consumidor. Neste sentido, o que vale para o mercado consumidor ‘normal’, vale também para o mercado ‘ilegal’, ou seja, o que impulsiona a venda é a demanda. É preciso que as pessoas sejam permanentemente estimuladas a consumir. Os maiores consumidores, com o maior poder aquisitivo se encontram na parte Norte do globo. Assim, a demanda cada vez mais alta por prazer, alimentada por uma propaganda capitalista altamente sedutora, é a que alimenta o capitalismo gore dos países do terceiro mundo. Não há comércio legal sem o comércio ilegal, um alimenta o outro.

A mídia

Mesmo que não sejamos consumidores diretos das drogas, a consumimos indiretamente por meio das séries e documentários na TV aberta, fechada e nas plataformas de streamings. Nesses canais a maior parte dos filmes e séries gira em torno da violência. Na plataforma Netflix, por exemplo, há séries sobre o traficante colombiano Pablo Escobar (ficcionais e não ficcionais), sobre o traficante mexicano El Chapo Guzmán, sobre a traficante colombiana Criselda, sobre os representantes dos cartéis de Medellin em Miami (“Cocaine Boys”). Enfim, o que não falta é série sobre tráfico, ou crimes de assassinos em série (uma obsessão, diga-se de passagem, bem americana), ou programas jornalísticos que acompanham os crimes nas cidades (ex. no Brasil, “Patrulha da cidade”, “Cidade Alerta”, entre outros).8

As séries sobre Pablo Escobar, por exemplo, tentam retratá-lo como um psicopata, como alguém movido apenas pelo desejo de matar, por isso o livro de Gabriel Garcia Marquês, Notícias de um Sequestro, é um relato precioso, pois mostra que havia uma estratégia bem pensada por trás dos sequestros, extorsão e assassinatos executados pelo grupo comandado por Escobar e que se intitulava, “Extraditáveis”. Perseguiam o objetivo de revogação da lei de extradição de criminosos para os EUA.

No Brasil, os filmes da franquia “Tropa de Elite” trouxeram pela primeira vez para os meios de comunicação de massa a realidade da relação extremamente complicada e viciada entre a polícia e o tráfico, e o envolvimento deste com a política e a milícia. Depois desse filme, apareceram inúmeras série e filmes de TV sobre a temática da guerra as drogas.

Ainda que a violência possa ser algo inerente ao ser humano, nada justifica uma cultura de massa que glorifique a violência, a não ser a sua conivência com uma política capitalista neoliberal de isolamento e individualismo. O medo isola as pessoas, as tornam menos suscetíveis a empatia e mais propensas ao consumo. O consumo de séries e filmes age para tamponar as inseguranças e trazer uma sensação passageira de conforto e segurança. O verdadeiro papel da mídia deveria ser fazer com que possamos refletir sobre a violência apontando para suas causas e seus atores principais. Nosso passado brasileiro colonial violento, com mais de 300 anos de escravidão, é um elemento central para entendermos por que a violência policial é uma violência racial e porque o Estado brasileiro sempre serviu aos interesses dos donos de propriedades e latifúndios, expulsando a população do campo e obrigando-as, assim, a viverem amontoadas e concentradas em periferias. Se não nos voltarmos para a nossa história, não entenderemos os mecanismos que estão agindo por trás da violência do tráfico e da violência policial.9

Contra-pedagogias da crueldade

El progressivo acriollamento del hombre indígena es uno de los procesos más violentogénicos del continente

Rita Segato

O sistema capitalista neoliberal de base patriarcal preconiza um modelo de sociedade bélica e violenta, baseada na ideia de individualismo e competição. Hoje, temos guerras entre países e dentro dos países acontecendo. Para Rita Segato, a saída contra esse capitalismo como ela chama apocalíptico está na restauração de formas de relacionarmo-nos uns com os outros baseadas no fortalecimento de vínculos. Infelizmente, o modelo que prevalece até hoje é o da instrumentalização das relações, a transformação das pessoas e da natureza em meios para atingir a finalidade de outras pessoas, mais poderosas. Esse modelo de sociedade baseado nos vínculos, em oposição à instrumentalização das pessoas, não é algo utópico, mas algo real. Nas comunidades tribais ameríndias, as mulheres sempre cuidaram da manutenção dos vínculos e afetos.

Por outro lado, não podemos dizer que os homens necessariamente precisam repetir o mandato de masculinidade e a disputa pelo reconhecimento do outro por meio da extração violenta do tributo da mulher, pois, como afirma Rita Segato, as primeiras vítimas do mandato de masculinidade são os homens (2018, p. 64), cis e hétero10. Afinal, os homens vivem menos em todas as partes do mundo e, em nossos países latino-americanos, os jovens racializados sãos as maiores vítimas de mortes violentas. Segundo Segato, o narcisismo masculino, fruto de uma educação androcêntrica, os leva a não ter consciência de suas faltas, medos, pois emascara e silencia suas carências (Segato, 2010, p. 64). Diferente dos homens, a educação feminina, dentro deste universo pedagógico androcêntrico, faz com elas sempre sejam vistas e se vejam a si mesmas como incompletas e falhas. Essa ‘fragilidade’ acaba se tornando, na verdade, seu trunfo, pois é a partir dela que são construídos os vínculos entre mulheres. Buscamos, nós mulheres cis e trans, hétero e homo, o apoio umas das outras, mostramos nossas dores sem vergonha do rechaço, ao contrário dos homens cis e hétero, que educados sob a égide da honra, estão sempre armados, em prontidão, para defender-se de quem quer que ouse atacar a sua ‘honra’. Temem a humilhação e a exposição pública frente a outros homens, por isso, entre si, só falam de seus feitos e honrarias, e escondem uns dos outros suas carências e falhas.

Esse modelo binário, de forte distinção entre os sexos, modelo de gênero colonial moderno, foi imposto às comunidades ameríndias a partir da colonização das Américas. Ele foi imposto pelos colonizadores como forma de solapar a capacidade de resistência dos povos originários ao domínio europeu, assim como como forma de racismo epistêmico, isto é, de dominação cultural (eurocentrismo). O sistema de gênero dos povos ameríndios poderia não ser totalmente igualitário, mas tão pouco era tão diametralmente oposto como o colonial moderno. Enquanto no sistema de gênero europeu a humanidade teria como modelo único o homem, e a mulher era vista como o outro do homem, o sistema de gênero ameríndio era dual, ou seja, de opostos complementares. Cada qual tinha um espaço determinado de ocupação, mas a diferença de espaço não excluía a participação de todos na dinâmica social e política da comunidade. Segato chama esse modelo de ‘patriarcado de baixa intensidade’ (2021). O dualismo não anula as diferenças, pelo contrário, as celebra, enquanto o binarismo anula as diferenças em nome de um ideal (masculino, branco, hétero, cristão etc.). O dualismo pluralista do mundo pré-colonial entra em choque com o binarismo moderno, pois são estruturas completamente diferentes. A ordem binária é a ordem do Uno, do sujeito universal a partir do qual todas as diferenças devem estar submetidas, pois lhe são inferiores (Segato, 2018, p. 66). O homem ameríndio acaba se tornando a presa mais fácil dessa sedução colonial moderna, pois o mandato de masculinidade é algo que eles têm em comum com o europeu. Inferiorizado na sua relação como o colonizador, passa a tratar as mulheres como muito mais inferiores, não lhes autorizando a participação nas decisões políticas. Assim surge nas colônias um tipo de patriarcado de alta intensidade (Segato, 2021). Ele é de alta intensidade porque não reflete apenas o binarismo de gênero colonial moderno, mas também a humilhação do binarismo racial. Todos os colonizados são racializados, isto é, estigmatizados como não brancos, e sofrem a opressão colonial, mas a mulher indígena sofre a dupla opressão, de raça e gênero. Ela sofre o estigma tanto por ser não branca quanto por ser mulher.

A despeito de sua superioridade bélica e econômica, os colonizadores não conseguiram implementar totalmente o eurocentrismo, já que não eliminaram completamente o modelo dual de gênero das comunidades ameríndias. Passados mais de 500 anos, ainda hoje nas comunidades latino-americanas vigora um sistema de divisão de tarefas e de intervenção política e social das mulheres no conjunto das decisões coletivas.

En el espacio doméstico las mujeres desarrollan su politicidad, su gestión, su estilo de resolución de conflictos y de administración de los recursos disponibles. Allí se da el blindaje de su espacio-mundo, no exento de conflictos proprios, así como las tareas, juegos, rituales, actividades artísticas y del cuidado del cuerpo que sirven de ocasión para su comunicación en separado con relación a la vida general de la aldea (Segato, 2018, p. 67).

Hoje em dia, quando assistimos o modelo político patriarcal do Estado liberal fracassar, tomado pelos interesses econômicos neoliberais, pelo ecocídio, pelas novas formas de guerras contra todos os grupos subalternizados, aprender a maneira de fazer política das mulheres indígenas pode ser a saída em busca de um humanismo não monista, e sim pluralista. Suas ‘tecnologias de socialização’ próprias, de raiz coletivista e comunitária, são os melhores contrapontos ao modelo competitivo, individualista, hiperconsumista do atual estágio do capitalismo pós-industrial.

Considerações finais

Espero que este breve artigo tenha atingido seu objetivo de mostrar aos leitores que não podemos isolar a violência contra as mulheres do seu contexto geopolítico. Colonialidade e neoliberalismo contribuem para o agravamento da violência de maneira geral, ou seja, uma violência que atinge todas as minorias e identidades não hegemônicas. Na era do capitalismo gore globalizado não mais nos deparemos com guerras mundiais, mas com novas guerras entre civis do mesmo país que lutam pelo domínio de territórios para seus cartéis. No meio dessa guerra, a população em geral, mas particularmente as mulheres, servem de troféu e presa. Num mundo cada vez mais individualista e competitivo, a psicopatia social generalizada é uma constante. Os valores éticos humanistas são ridicularizados por um imperativo econômico que dita as regras do jogo, é preciso consumir cada vez mais, acumular cada vez mais riquezas. A saída não está em uma utopia marxista de igualdade forjada pelo Estado - afinal, o DNA de todo Estado é patriarcal, como diz Rita Segato (2018, p. 98) -, mas em observarmos as práticas políticas não patriarcais forjadas no seio das comunidades indígenas latino-americanas pelas mulheres. Uma política pluralista marcada pelo respeito à diferença e calcada nas relações de vínculo e afeto.

Espero ter também mostrado o quanto o assassinato de mulheres está relacionado ao assassinato de crianças e jovens da periferia urbana, vítimas da violência do Estado. O Estado autoriza os policiais a entrarem em áreas de moradia atirando aleatoriamente. A não punição dos policiais é sentida como um outro assassinato pelos familiares das vítimas. A morte deve ser o último recurso de um agente de segurança pública. Seu objetivo é prender e deixar que a justiça atue e não agir como polícia e juiz, condenando sumariamente, sem direito a defesa, os suspeitos.

Cada vez que um policial mata, ele não está apertando o gatilho sozinho, mas junto com o chefe de segurança pública do estado e os juízes penais que irão absolvê-lo. Sua farda serve para protegê-lo. E quem vai nos proteger deles?

Supplementary material
Referências
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SEGATO, Rita. La escritura en el cuerpo de las mujeres asesinadas en Ciudad Juarez. Territorio, soberanía y crímenes de segundo estado. Buenos Aires: Tinta Limón, 2013.
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VALENCIA, Sayak. Capitalismo Gore. Madri: Editorial Melusina, 2010.
Notes
Notes
Como citar: CASTRO, Susana de. A etiologia da violência, narco-patriarcado e capitalismo neoliberal. Revista de Filosofia Aurora, Curitiba: Editora PUCPRESS, v. 37, e202531379, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/2965-1557.037.e202531379
1 Ver Paul B. Preciado (2018): “Somos confrontados com um novo tipo de capitalismo: quente, psicotrópico e punk. Essas transformações recentes impõem um conjunto de dispositivos microprotéticos de controle de subjetividade por meio de novos protocolos técnicos biomoleculares e multimídia.” (p.36)
2 Segundo declaração de um fiscal americano publicada no The New York Times, a justiça americana não poderia auditar todos os bancos pela lavagem de dinheiro porque isso desestabilizaria a economia do país, ou seja, uma parte considerável da riqueza norte americana depende dessa entrada de dinheiro do sul nos bancos do norte (apudSegato, 2018, p. 78).
3 Ver Sayak Valencia, 2010, cap. 1: “Estallido del Estado como formación política”.
4 Monstro fruto do cruzamento de homem, hidra e dragão, que aparece no século XVI na obra Amadis de Gaula (Valencia, 2010, p. 89).
5 “No buscamos la pureza, la corrección o incorrección en la aplicación de las lógicas del capitalismo y sus derivas. No buscamos aquí juicios de valor, sino evidenciar la falta de poder explicativo que existe dentro del discurso del neoliberalismo para dichos fenómenos.” (Valencia, 2010, p. 16)
7 No livro The killing Fields: the harvest of women, a jornalista americana Diana Washington Valdez afirma que entre 1993 e 2005 cerca de 470 crianças, adolescentes e mulheres foram mortas em Ciudad Juarez. Assassinadas com a mesma ferocidade. Seus corpos, jogados em campos baldios e em lixões, apresentavam o seio direito decepado e o esquerdo cheio de marcas de dentes, e tinham papéis higiênicos com ácidos enfiados em suas vaginas e bocas (para apagar os rastros de DNA). Em todos esses anos, a polícia local foi absolutamente negligente, encobrindo os verdadeiros suspeitos e acusando outros falsamente pelos assassinatos - como os assassinatos continuavam apesar dos sujeitos estarem presos, estava claro que se tratava de uma farsa. Além disso, os feminicídios se alastraram por todo o México e, hoje, em todas as partes há assassinatos e mortes de mulheres, inclusive na capital, Cidade do México. O país conta com mais de 30 mil desaparecidos (Ver. Carrión, 2018). Esses números mostram que Rita Segato têm razão em nomear esses crimes de ‘femigenocidio’ (2016).
8 Uma série brasileira que mostra muito bem a relação entre aumento de audiência é a série “Bandidos na TV” (2019). Outra série recente, “Vale o escrito, a guerra do jogo do bicho” (2023) mostra a relação entre o jogo do bicho e a milícia no Rio de Janeiro, bem como a guerra violenta entre as famílias dos contraventores pelo controle de áreas de jogo e de caça-níqueis.
9 Sugiro fortemente a leitura da peça “Macacos”, de Clayton Nascimento, como amostra da importância dessa reflexão sobre nosso passado escravocrata se queremos entender nosso presente violento.
10 Aqui me parece caberia diferenciar os homossexuais dos heterossexuais, pois os primeiros rompem em grande medida com o mandato da masculinidade ao relacionarem-se afetivamente com outros homens e não com mulheres, mas são vítimas de homofobia, assim como os corpo feminizados de mulheres trans entram nas estáticas da pedagogia da crueldade.
Author notes

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