Artigos

A Revista Nova Escola enquanto artefato cultural: possibilidades para abordagens da sexualidade e gênero

Nova Escola magazine as cultural artifact: possibilities for sexuality and gender approaches

Revista Nova Escola como artefacto cultural: posibilidades de enfoques de género y sexualidad

Rita de Cassia Petrenas
UNICEP, Brasil

A Revista Nova Escola enquanto artefato cultural: possibilidades para abordagens da sexualidade e gênero

Olhar de Professor, vol. 25, pp. 01-20, 2022

Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepción: 23 Marzo 2021

Aprobación: 15 Marzo 2022

Resumo: Nesse artigo propomos analisar as reportagens sobre temáticas correlatas à sexualidade, publicadas na revista Nova Escola, nos anos de 2018 e 2019, compreendendo o objeto de pesquisa enquanto artefato cultural. Trata-se de uma pesquisa de caráter bibliográfico, utilizando para a análise das reportagens a Análise de Conteúdo Temática. Avaliamos dez reportagens que foi o material encontrado nas revistas sobre a temática pesquisada e podemos afirmar que as temáticas educação sexual, gênero e sexualidades são significativas. Os artigos apresentam uma variedade de assuntos relacionados ao estudo, contudo, observamos que as reportagens seguem as características dos artefatos culturais: textos sucintos, muitas imagens, apontamentos em forma de "receituários", transmitindo a falsa concepção que as mudanças ocorrem de modo simplista, apartadas de reflexões e criticidade.

Palavras-chave: Formação docente, Educação sexual, Artefatos culturais.

Abstract: In this article we propose to analyze the articles on themes related to sexuality published in the Nova Escola magazine, in the years 2018 and 2019, understanding the research object as a cultural artifact. This is a bibliographic research, using thematic content analysis for the articles’ analysis. Asses ten articles that were the material found in magazines on the researched themes and it can be affirmed that the themes of sexual education, gender and sexuality present themselves in a significant. We come across articles that present a variety of subjects related to the study, however, we observation that the reports follow characteristics of cultural artifacts: brief texts, various images, notes in the form of "prescriptions", transmitting the false conception that changes occur in a simplistic way apart from reflections and criticality.

Keywords: Teacher training, Sexual education, Cultural artifacts.

Resumen: En este artículo nos proponemos analizar los reportajes sobre temas relacionados con la sexualidad, publicados en la revista Nova Escola, en los años 2018 y 2019, entendiendo el objeto de investigación como un artefacto cultural. Se trata de una investigación bibliográfica, utilizando el Análisis de Contenido Temático para el análisis de los reportajes. Evaluamos diez reportajes acerca temas encontrados em la revista sobre investigación de temas y podemos decir que los temas de educación sexual, género y sexualidades son significativos. Los artículos presentan una variedad de temas relacionados con el estudio, sin embargo, notamos que los informes siguen las características de los artefactos culturales: textos sucintos, muchas imágenes, notas en forma de "prescripciones", transmitiendo la falsa concepción de que los cambios ocurren de manera simplista, al margen de las reflexiones y de la criticidad.

Palabras clave: Formación de profesores, Educación sexual, Artefactos culturales.

Introdução

[...] as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras (LARROSA, 2002, p.16).

Os estudos voltados para a formação docente, mais especificamente para os trabalhos desenvolvidos no contexto escolar, voltam-se para as temáticas curriculares, psicológicas, sociológicas e do contexto da gestão.

Hoje é notável a formação ocorrer além da especificidade dos espaços formativos em específico. Há uma diversidade de ambientes e recursos produtores de conhecimento, dentre eles, sites, vídeos, filmes, programas televisivos e revistas, pois são agentes de conhecimentos e saberes que influenciam na formação de maneira formal e informal.

Essa imensa gama de possibilidades de aprendizagens para o/a docente nos instigou a pesquisar a revista Nova Escola enquanto artefato cultural, que tem como especificidade de leitores/as os procedentes do contexto educacional, que geralmente se encontram envoltos com a prática pedagógica.

Compreendemos que o currículo escolar é estabelecido por materiais didáticos específicos e por artefatos culturais que se constituem em pedagogias culturais, que formam modos diversos de significados sociais e formas de compreender e referenciar o que nos rodeia, muitas vezes reproduzindo concepções e valores. Silva (2011, p. 140) destaca em relação às pedagogias culturais:

Pelos imensos recursos econômicos e tecnológicos que mobilizam, por seus objetivos - em geral- comerciais, elas se apresentam, ao contrário do currículo acadêmico e escolar, de uma forma sedutora e irresistível. Elas apelam para a emoção e a fantasia, para o sonho e a imaginação: elas mobilizam uma economia efetiva que é tanto mais eficaz quanto mais é inconsciente.

Desse modo, temos como objetivo desse estudo analisar a produção da revista Nova Escola dos anos de 2018 e 2019, sobre artigos que apresentam as temáticas relacionadas a sexualidade, entendendo-os enquanto artefato cultural relacionados ao cotidiano das escolas.

A escolha dos anos de 2018 e 2019 nos motivou consideravelmente, pois com a pose do atual Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro que assumiu o mandato em 1º de janeiro de 2019, uma proposta de cunho conservador se institui no cenário educacional, além de destacarmos as temáticas relacionadas à pesquisa que geraram debates acalorados na mídia: "Escola sem Partido”, "Ideologia de Gênero”2, a fala da ministra Damares Alves “Menino veste azul, Menina veste rosa”, dentre outros assuntos veiculados.

Outro fator motivador refere-se à publicação final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento oficial e obrigatório para os currículos escolares na atualidade (BRASIL, 2017), que nos anos de 2018 e 2019 estava em plena discussão em planejamentos escolares e elaborações de propostas curriculares estaduais e municipais, inclusive por seu caráter normativo,

A BNCC, o mais novo documento orientador da educação escolar brasileira apresenta a conivência com a pauta conservadora, na qual percebemos a tentativa de silenciar as questões sociais relacionadas retirando os termos “orientação sexual” e “identidade de gênero”, conforme os interesses políticos e religiosos (BANDEIRA; VELOZO, 2019, p. 1028, grifo do autor).

Consideramos a revista Nova Escola enquanto significativo artefato cultural, pois é veiculada nas escolas e cursos de formação docente das diversas licenciaturas. Avaliamos a revista Nova Escola como um divulgador de comunicação, integrante dos artefatos culturais, que propaga ideias, valores, concepções de seus produtores e leitores.

Estamos na sociedade da informação, e nos questionamos sobre o que fazer com a quantidade de informação, como transformá-la em experiência, em conhecimento. Percebemos hoje que a sociedade do século XXI precisa cada vez mais do uso intensivo do conhecimento, seja para trabalhar, conviver, exercer a plena cidadania, cuidar do ambiente em que vive.

No entanto, compreendemos que o conhecimento que não se concretiza, não se torna ou produz experiência, não se estabelece, permanece na informação, e esse é um dos desafios para que os artefatos culturais se consolidem em conhecimento e façam parte da experiência docente de maneira significativa, caso contrário se torna algo que somente produz discussões efêmeras.

No tocante à experiência em educação, não se trata da experiência apregoada pelo empirismo, que se confunde com experimento, em que o sujeito se coloca apenas como observador neutro e imparcial, esta é a experiência “ensigna”, que dá ordens, que comanda, porém, trata-se de experiência que marca o sujeito, que o surpreende, que o faz parar para pensar, no caso o/a docente que precisa abordar de forma crítica esse contexto em sala de aula.

Ao abordarmos os artefatos culturais no contexto das escolas para formação docente, questionamos sobre os diversos estereótipos sociais, desafiando visões equivocadas sobre as mulheres, homossexuais, machismos, feminismos, consumismo, erotização precoce, violência sexual, dentre outros temas que circulam no cotidiano, pois,

[...] os produtos culturais à nossa volta nada têm de ingênuos ou puros; ao contrário, incorporam intenções de apoiar, preservar ou produzir situações que favorecem certos grupos e outros não. Tais artefatos, como se tem insistentemente acentuado, desempenham, junto com o currículo escolar, importante papel no processo de formação das identidades de nossas crianças e nossos adolescentes, devendo constituir-se, portanto, em elementos centrais de crítica em processos curriculares culturalmente orientados (MOREIRA, 2008, p.42).

Podemos também compreender os artefatos culturais como resultado de um processo de significação e vinculação com a sociedade a qual estão envolvidos, constituídos por objetos materiais e simbólicos (CAMOZZATO, 2018). Nesse sentido, a revista Nova Escola tem um poder de significação e representação considerável nas formações de concepções de professores e estudantes das licenciaturas, pois é um artefato cultural produzido e destinado para esse público em específico.

Ao observar os artigos analisados da revista é possível perceber o quanto os mesmos podem funcionar como uma disseminação de “receituário” que vão constituir também o currículo escolar e o próprio imaginário docente, seja através de discussões, opiniões e dúvidas suscitadas pelas leituras das reportagens, pois por décadas a marca “Nova Escola” influência a educação do país,

A Nova Escola é uma organização de Educação e a marca mais reconhecida por professoras e professores de Educação Básica no Brasil. Desenvolvemos produtos, serviços e conteúdos que valorizam os professores, facilitam seu dia-a-dia e apoiam sua carreira. Nossa missão é fortalecer educadores para transformar a Educação pública brasileira e possibilitar que os alunos desenvolvam o máximo do seu potencial (NOVA ESCOLA.ORG, 2021).

O ano de 2019 constituiu um marco para a revista Nova Escola com iniciativas de produção de maneira diferenciada, pois até o mês de outubro de 2019 a Revista foi publicada de maneira impressa, tendo o site para consulta a outras reportagens, envio de perguntas e outras abordagens. A partir de novembro do ano em destaque a Revista deixou de ser impressa, sendo produzida de maneira digital para assinantes, denominada "Nova Escola Box", com publicação de conteúdos semanais, não havendo a partir de então publicações específicas mensais, mas sendo possível a consulta de algumas reportagens mesmo para os não assinantes.

Até o momento não foi possível perceber se houve adesão significativa por essa forma de divulgação do material. Assim, nos motivamos em analisar os anos de 2018 e 2019 de publicação da revista, por ser também o período da produção dos últimos exemplares impressos e desse modo estar presente em muitas salas dos professores das escolas de educação básica do Brasil.

Abordagem da pesquisa

A revista Nova Escola em 2018 possui 10 exemplares impressos, no ano de 2019 possui nove edições impressas (janeiro a outubro), lembrando que não há publicação da revista em julho. O material para esse estudo foi analisado através da leitura das reportagens impressas, selecionando as reportagens para análise de acordo com as abordagens de gênero e sexualidade.

A seleção das reportagens foi realizada a partir da busca nas revistas do período selecionado, os quais em seus títulos apresentam relação às temáticas de gênero e sexualidade, e posteriormente a leitura para confirmação da análise do mesmo.

Como forma de melhor organização e para se ter uma visão geral das reportagens pesquisadas, decidimos elaborar uma tabela com a síntese de dados relevantes. Em 2018 foram encontradas quatro reportagens, e em 2019 foram encontradas seis reportagens sobre as temáticas de sexualidade e gênero, sendo um total de dez, que serão o objeto de análise dessa pesquisa.

Tabela 1 - Relação das Produções da revista Nova Escola com as temáticas abordadas/Síntese das reportagens analisadas
Ano e Mês dePublicaçãoTítulo da reportagemSíntese do assunto
Março / 2018"A quadra também é delas"(GONZALEZ)Divisão de meninas e meninos nas aulas de educação física, gênero.
Abril / 2018"Depois do esculacho, como fica a vida?" (SALAS)Movimento Escola sem Partido, temática de gênerodiscutida no contexto escolar.
Novembro / 2018"Professora de onde vêm os bebês"(LUBLINSKI) "Somos diferentes, somos iguais" (VICHESSI)Questão da concepção/reprodução humana em diferentes fases do ensino. As diferenças no contexto escolar dentre elas: a transexualidade, discriminação, preconceito.
Março / 2019"A escola é o espaço para discutir sobre o feminismo" (GARCIA) "Elas na história "(HELENA)Gênero, igualdade entre os sexos. Gênero/educação sexual.
Abril / 2019"De olhos fechados para o sexting"(HELENA) " Toda cor, qualquer cor"(VICHESSI)Exposição de meninas as redes sociais de vídeos íntimos. Estereótipos masculinos e femininos/temáticas de gênero.
Maio / 2019"O duro caminho dos meninos" (CAÇADE; HELENA)Modelos de masculinidades, violências em torno da masculinidade.
Agosto / 2019"Não é nada disso que você está pensando" (SOARES)Educação Sexual nas diversas idades / Escola e sexualidade.
Fonte: Elaborada pela autora, 2021.

Para a análise dos dados, optou-se pela análise de conteúdo (BARDIN, 1977), a partir da leitura das reportagens foi realizada a elaboração da tabela 1 e a análise dos dados de caráter qualitativo que, dentre as várias técnicas da análise de conteúdo, privilegiou-se a análise temática.

Para Bardin (1977, p. 105), “[...] tema é a unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado, segundo critérios relativos à teoria que serve de guia à leitura [...].”.

Ao realizar uma análise temática, é necessário reconhecer núcleos de sentido, que são manifestos devido à frequência ou à própria presença, apresentando significação para o objeto em estudo. Laville e Dione (1999, p. 217) destacam que a análise de conteúdo não se caracteriza por ser um método rígido, no sentido de um receituário com etapas pré-determinadas, sendo que “[...] alguns (referência aos pesquisadores) censurarão o caráter subjetivo das inferências necessárias ao que se pode retorquir que toda análise compreende uma parte de interpretação em que o pesquisador explicita o que ele entende dos resultados obtidos.” É possível o pesquisador construir unidades de análises a partir de sua compreensão, sempre seguindo a cientificidade e o contexto em que os “elementos” aparecem.

Após a leitura dos textos e do fichamento ocorreu a “leitura flutuante”, estabelecendo contato extenuante com o material coletado, através de diversas leituras em momentos diferentes, surgindo assim, pressupostos, palavras-chave, recortes capazes de proporcionar a categorização do material para análise, fundamentando nos estudos sobre sexualidade e gênero que embasam a pesquisa.

A partir da análise detalhada de todos os artigos, decidimos elaborar a tabela 2, elencando assim categorias de análise e, posteriormente, discorrer sobre os dados mais significativos apresentados nas reportagens.

Destacamos que uma determinada subcategoria pode estar em mais de uma categoria, confirmando que gênero, sexualidade e educação sexual são temas que se correlatam nas pesquisas, análises e estudos, não sendo possível abordá-los e analisá-los separadamente.

Tabela 2 - Categorias de Análise
Tabela 2 - Categorias de Análise
Fonte: Elaborada pela autora, 2021.

A análise realizada dos artigos das revistas Nova Escola no período estipulado possibilitou a identificação de três categorias: Educação Sexual, Gênero e Sexualidade, seguidas de subcategorias de acordo com os assuntos que mais despontaram nos artigos, registrando a importância dos temas a serem abordados de maneira conjunta ou paralela.

A análise qualitativa dos dados buscou compreender e considerar os resultados encontrados em cada reportagem analisada, pois como afirma Minayo (2000), a pesquisa qualitativa trabalha com um universo de significações, a autora ainda adverte que as relações entre abordagens qualitativas e quantitativas demonstram que as duas metodologias não são incompatíveis e podem ser integradas num mesmo projeto.

Apontamentos da pesquisa em torno das categorias identificadas

Diante da análise apresentada na tabela, a partir da leitura dos artigos no período pesquisado, 2018 e 2019, podemos afirmar que as temáticas educação sexual, gênero e sexualidade apresentam-se de maneira significativa, pois são dez artigos encontrados no período pesquisado, ou seja dois anos, com abordagens diversas, capazes de fomentar discussões e reflexões nos/as educadores/as que entram em contato com o material, além de proporcionar subsídios para aulas e aprofundamento de diversas temáticas que envolvem a sexualidade.

Por serem temas que se relacionam, o trabalho no contexto escolar se torna mais significativo, pois permite o trabalho com abordagens diversas e de forma interdisciplinar, buscando a totalidade nos fragmentos de intersecção das temáticas que abordam a sexualidade. Intersecção que deve ser encontrada no espaço também da experiência docente, aquela experiência que marca o sujeito, que o surpreende, que o faz parar para refletir, quando se poderá desatar as amarras e alcançar o conhecimento verdadeiro.

A revista Nova Escola, enquanto um artefato cultural propagado nas escolas, especificamente em salas de professores, horas de trabalho coletivo e mesmo em discussões paralelas, possui características peculiares difundidas no meio educacional, tais como: artigos de fácil compreensão, pouca reflexão científica, muitas imagens/fotos, exemplos práticos e prognósticos que é possível, apesar das agruras da profissão e do cotidiano escolar, um "final feliz".

Ao verificarmos a análise, observamos que a categoria gênero tem um peso significativo na maioria dos artigos, se apresenta como uma sustentação, subsidiando as demais categorias e subcategorias. De acordo com essa categoria os preconceitos diversos, estereótipos sociais e escolares, as diversas formas de violências seja contra a mulher, homossexuais e transgêneros se despontam, indo ao encontro de muitos conflitos, medos e incertezas que ocorrem no cotidiano escolar. As reportagens sinalizam:

É importante lembrar que a desigualdade de gênero e os estereótipos associados ao que é ser homem ou mulher afetam meninas, mas também os meninos [...] as meninas são socializadas para o cuidado e reprimidas em alguns contextos, a expressão de sentimentos como a tristeza é frequentemente tolhida nos meninos (VICHESSI, 2019, p. 35).

Com o objetivo de mostrar para meninos e meninas que todos têm espaço na quadra, vale evidenciar atletas e equipes femininas com bom desempenho [...]. Além disso, é importante desenvolver com os alunos um olhar crítico sobre as desigualdades nos esportes (GONZALEZ, 2018, p. 25).

Na maioria das vezes, é preciso compreender a informação, fato que a revista sinaliza e cabe ao/a leitor/a aprofundamento no assunto, inclusive porque os exemplos e relatos de outros/as professores/as deixam suas experiências como referências para o trabalho na escola. Então, voltamos à proposta de que essa experiência precisa se configurar enquanto conhecimento, cientificidade, não ser algo fragmentado.

Necessita-se de reflexão, ao abordar em específico, o mérito dessas experiências, contudo percebemos a relação direta com as atividades em sala de aula, o fazer docente. Pois assim, as experiências e atividades apresentadas se voltam ao pragmatismo da prática do cotidiano escolar, atribuindo ao professor o poder de resolver os entraves que surgem somente através da leitura e seguindo os conselhos/apontamentos descritos nas reportagens.

A abordagem de gênero é complexa, inclusive pela formação da nossa sociedade, considerando até os dias de hoje somente como legítimo as relações heterossexuais, a valorização da raça branca, o homem detentor do poder. Assim, a mulher é desvalorizada, estigmatizada, com direitos negados apesar da legislação vigente.

A compreensão da temática de gênero se faz necessária à desconstrução de conceitos e valores historicamente e culturalmente construídos, e a escola reforça os papéis sociais destinados a homens e mulheres, as relações de poder e segrega grupos de alunos/as considerados diferentes de padrões hegemônicos.

Os sujeitos que constituem a dicotomia não são, de fato, apenas homens e mulheres, mas homens e mulheres de várias classes, raças, religiões, idades, etc. e suas solidariedades e antagonismos podem provocar os arranjos mais diversos, perturbando a noção simplista e reduzida de "homem dominante versus mulher dominada". Por outro lado, não custa reafirmar que os grupos dominados são, muitas vezes, capazes de fazer dos espaços e das instâncias de opressão, lugares de resistência e de exercício de poder (LOURO, 1997, p. 33, grifo do autor).

A construção da identidade pessoal e social também se constitui no espaço e relações escolares, e desse modo é na escola que pode se aprender o respeito e a consideração entre as pessoas, a socializar-se com o diferente, superar incompreensões e intolerâncias, e, portanto, a não abordagem de gênero e sexualidade em contexto escolar, principalmente nas aulas, confere invisibilidade a própria formação do/a aluno/a enquanto cidadão/a.

A sexualidade se constitui enquanto elemento constitutivo do ser humano, apesar de ser para muitos considerada um tabu, que ao propor a discussão gera desconforto, insegurança constrangimento. Abordar a temática no contexto escolar tem sido algo complexo, principalmente pela questão da temática ser confundida somente com relação sexual.

As pesquisas atuais compreendem as concepções em torno do sexo e sexualidade em diferentes tempos e espaços, bem como as ideias e valores do presente, que são influenciados pelo passado, e vivemos concepções e preconceitos na atualidade mesmo que sejam constituídos em tempos idos. A sexualidade é produto de condições históricas, culturais, políticas e sociais, sendo elemento primordial da condição do ser para compreensão do comportamento humano e da vida cotidiana. É pertinente a relevância e a diferenciação entre sexo, atrelada ao prazer, desejo, poder e sexualidade enquanto particularidade de identidade sexual (PETRENAS, 2015).

É preciso refletir sobre as questões históricas do sexo e sexualidade, enquanto concepções mutáveis que são permeadas pela cultura e práticas sociais, destacando que há um aumento significativo dos estudos da sexualidade, especificamente no final do último século, enriquecendo as ciências humanas e que os educadores precisam se apropriar desse conhecimento de maneira consolidada.

No caso das reportagens da revista Nova Escola a discussão de gênero se volta basicamente na igualdade entre os sexos, havendo um reducionismo do tema, voltado ao mercado de trabalho, a própria profissão da professora, a meritocracia e a necessidade de empoderamento da mulher.

Apreendemos que a sexualidade é fator relevante na constituição do indivíduo, pois está envolta em valores, concepções, tabus, medos e, consequentemente, caracteriza a sociedade, pois distingue o contexto histórico, cultural e social (MAIA, 2010).

Mesmo que ocorra a abrangência da sexualidade, no contexto escolar, a temática é vista, geralmente, pela tendência da abordagem biológica, transmitindo conhecimentos técnicos e higienistas. Em contrapartida, a mídia, especificamente os meios de comunicação, também enquanto artefatos culturais, propagam uma sexualidade que pode ser vendida e comprada, com valores efêmeros e manipulados, preconizando o consumismo. Moreira (2008) faz considerações em torno dos artefatos culturais,

[...] levar-nos a identificar e a desafiar visões estereotipadas da mulher propagada sem anúncios; imagens desrespeitosas de homossexuais difundidas em programas cômicos de televisão; preconceitos contra povos não ocidentais evidentes em desenhos animados; mensagens encontradas em revistas para adolescentes do sexo feminino (e da classe média) que incentivam o uso de drogas, o consumismo e o individualismo; estímulos à erotização precoce das meninas, visíveis em brinquedos e programas infantis; presença e aceitação da violência em filmes, jogos e brinquedos (MOREIRA, 2008, p. 42).

Os artigos da revista Nova Escola abordam a sexualidade de modo amplo, contextualizados no nosso tempo e sociedade, e também com relação direta com a educação sexual possível de ser trabalhada nas escolas. Temos como exemplos:

Tratar da sexualidade é mais do que falar sobe sexo e, os dados mostram, é fundamental informar para proteger jovens e crianças. [...] A principal dificuldade para lidar com o tema é a velha controvérsia sobre a adequação dele para o ambiente escolar (SOARES, 2019, p. 38-39).

Quando uma dúvida sobre sexualidade surge, primeiro a entender o que de fato o aluno deseja saber [...]. Para os pequenos, é comum que os questionamentos sobre a origem dos bebês venham atrelados à chegada de um novo membro da família [...]. Na maioria das vezes, os alunos estão em diferentes fases de maturidade e, por isso, nem sempre é interessante antecipar dúvidas individuais para a classe toda (LUBLINSKI, 2018, p. 16, 18-19).

Compete ao/a docente perceber que não há um receituário, esse caminho para a prática é preciso trilhar com pesquisas, leituras, trocas de informações entre os pares, e associar a sua própria experiência cotidiana, pois o ambiente escolar é diferente em cada etapa do processo de escolarização e realidade, fato que não fica claro nas reportagens da revista, que na maioria dos casos reforçam as características da sociedade neoliberal, não expondo as influências das diferenças sociais, culturais e econômicas tanto de professores como dos locais em que as escolas se encontram.

A temática da sexualidade envolve muitas questões que precisam ser discutidas e aprofundadas de maneira complexa e científica antes de chegarem às salas de aula, pois compreender a sexualidade além do ato sexual é fator preponderante, bem como gênero, identidade de gênero, orientação sexual, violência e abuso sexual, pois com certeza esses temas estão envoltos com o cotidiano de alunos/as das diversas idades.

A escola torna-se o espaço adequado para essas abordagens quando proporciona a convivência de pessoas e opiniões diferentes do contexto familiar, já que a diversidade permeia esse meio, e assim é espaço adequando para ruptura de preconceitos.

Precisamos compreender que a sexualidade é inerente ao ser humano e, portanto, não fica ao lado de fora da escola, pois está presente no modo de expressar de cada ser, nas relações estabelecidas, nas opções realizadas; todas as pessoas possuem uma relação com a sexualidade, que precisa ser respeitada.

É preciso reflexão nas questões que abordam a sexualidade, pois mesmo que o/a educador/a no cotidiano não assuma, ou mesmo não perceba que influencia seus/suas alunos/as no que diz respeito à temática, seus valores, medos, crenças, estão constantemente sendo transmitidos para os/as discentes.

A influência docente deve ser levada em consideração ao abordar a capacitação em educação sexual, pois é preciso que ele se desvencilhe também dos seus próprios medos e preconceitos, pois mesmo não admitindo, os estereótipos podem existir e intervir nas atitudes dos/as docentes, sugestionando alunos/as, conteúdos e o currículo escolar.

Como apresentamos na análise de conteúdo, a educação sexual é marcada em vários artigos da revista, fato que vem ao encontro de sua real função, qual seja, orientar, subsidiar e propor iniciativas nas áreas abordadas pelos artigos. A revista ao abordar gênero e sexualidade e não refletir para ações em educação sexual, se torna algo sem sentido, efêmero, no qual a escola deixa de cumprir um de seus principais papéis que é a formação do cidadão, apresentando uma visão fragmentada do tema.

Quando se quer implantar a educação sexual na escola, o currículo é peça chave, pois também atuará no projeto pedagógico escolar, e se apresenta como um documento que dá o norte, as diretrizes, as ações a toda a prática educativa.

O pedagógico também circula em torno do currículo, é importante que compreendamos as formas de abordagem da educação sexual para sinalizarmos como sistematizar a prática curricular, visão que o/a docente também precisa ter e estar ciente na sua atuação, pois,

A escola delimita espaços. Servindo-se de símbolos e códigos, ela afirma o que cada um pode (ou não pode) fazer, ela separa e institui. Informa o “lugar” dos pequenos e dos grandes, dos meninos e das meninas. Através dos seus quadros, crucifixos, santas ou esculturas, aponta aqueles/as que deverão ser modelos e permite, também que os sujeitos se reconheçam (ou não) nesses modelos [...] (LOURO, 1997, p. 58, grifo do autor).

A escola enquanto espaço de conhecimento é também socializador, pois hoje exerce veementemente esse papel, é local preponderante para desmistificar valores ou mesmo para proclamar e manter preconceitos, na maioria das vezes, não percebe que possui esse poder e se concentra somente em conteúdos pré-estabelecidos, no currículo prescrito. O documento da UNESCO destaca a importância da abordagem da educação sexual,

[...] não é exigido o domínio, pelos educadores, de todos os conteúdos que ilustram cada uma das temáticas. Mesmo assim, eles devem sentir um nível de conforto e confiança, por realizar um trabalho em constante processo de construção e aprofundamento, com o apoio de um roteiro concebido na perspectiva dos direitos humanos. Tendo ciência desses elementos, os educadores poderão caminhar juntos com seus estudantes de forma realista e interativa, e atender demandas concretas (UNESCO, 2014, p. 16).

Os artigos da revista Nova Escola propõem a reflexão docente para o seu trabalho com educação sexual, apontam temáticas atuais da sociedade que estão inseridas na escola, que podem proporcionar preconceitos e discriminações no cotidiano escolar, além de serem temas que geram angústias que afetam sobremaneira o aprendizado de alunos/as. Destacamos trechos significativos:

Apesar da prevalência do sexting, o hábito de trocar mensagens, fotos ou vídeos íntimos, falta muita informação e apoio para as adolescentes quando esses conteúdos são compartilhados sem consentimento [...] 70% afirmaram que o assunto nunca tinha sido discutido na escola e 85% admitiram nunca ter buscado informações sobre o assunto (HELENA, 2019, p. 10).

Nascido dos debates gênero, o conceito de masculinidades abarca as regras sociais delimitadas aos homens para que eles construam sua maneira de agir consigo, com o outro e coma sociedade [...]. A ausência de discussões sobre o impacto disso para os meninos e meninas pode resultar em violência dentro do ambiente escolar (CALÇADE; HELENA, 2019, p. 48).

O/a docente deve ter um profundo conhecimento sobre a sexualidade humana e propor a criança que lide de modo positivo com seu corpo, seus anseios e medos desde a infância, pois assim, espera-se que haverá um “sucesso” do posicionamento da sexualidade no transcorrer da vida, respeitando e valorizando o/a outro/a enquanto ser humano.

Neste aspecto Nunes e Silva (2000, p. 76-77) reiteram:

É impossível que o educador não perceba que neste espaço a criança, que não tem vícios de disfarçar suas intenções e sensações, expressa com natural tranquilidade sua sexualidade junto com sua afetividade, sua criatividade, seu cansaço, enfim, tudo, o que ela experimenta e vivencia no seu cotidiano escolar. O potencial de expressão da criança traz em si a expressão da sexualidade.

Compreendendo que a criança é possuidora de sexualidade, valorizá-la e entendê-la enquanto ser humano que tem sua vivência e dignidade é buscar construir uma sociedade igualitária livre das amarras de preconceitos e estereótipos, sendo que assim também se terá como resultante uma educação sexual emancipatória.

Neste sentido, a implantação da educação sexual emancipatória tem como objetivo principal a desvinculação da sexualidade dos tabus e preconceitos e firmar-se como algo ligado ao prazer e a vida, saúde, afetividade, compromisso, valores. Cabe questionarmos a própria formação dos/as profissionais envolvidos; pois é preciso que o/a professor/a tenha conhecimento científico e humanista para poder interagir de maneira positiva na formação e desenvolvimento da criança, e esteja atento às expressões da sexualidade que se manifestam no cotidiano da escola. Formação que precisa ser repensada e melhor direcionada com envolvimento profissional, mas também político, formação com envolvimento teórico e científico, para que o /a docente não se depare em concepções de senso comum e com caráter de improvisação.

Cada vez mais a criança desde tenra idade é colocada em espaços institucionalizados, e a escola é um desses espaços por excelência. O tempo de escolarização de crianças e adolescentes vem aumentando consideravelmente no século XXI, os/as responsáveis precisam trabalhar cada vez mais horas e dias para o sustento adequado da prole, os familiares mais próximos também possuem seus afazeres e não podem se dedicar à missão de cuidar das crianças, como em épocas mais distantes.

A escola, seja pública ou particular, vem assumindo o processo de educação e de formação do/a cidadão/ã muito além do ensino de leituras, escritas, números, conhecimento acumulado pela humanidade. A cidadania, mais do que nunca, é produção escolar, compreendemos que a educação sexual tem relação precípua com a formação de pessoas integras, conscientes de seus direitos e deveres e consequentemente o exercer pleno da cidadania.

Com relação à temática da sexualidade, os documentos oficiais vêm apresentando ao longo da história avanços e retrocessos, muitas vezes abordando a temática pelo caráter higienista, somente profilático, tratando a concepção e construção de gênero de forma superficial, ou seja, sem o posicionamento cultural, histórico e social (LEÃO; RIBEIRO, 2012; VIANNA, 2012).

A Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017), documento mais recente e obrigatório na Educação Básica, apresenta um caráter bastante conservador nas abordagens referente a sexualidade. Provocou indignações de estudiosos por limitar a discussão da sexualidade às disciplinas de ciências da natureza e educação física, e basicamente a partir do final do Ensino Fundamental II, se tornando um retrocesso em relação aos Parâmetros Curriculares Nacionais - Temas Transversais (BRASIL, 1998), e o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (BRASIL, 2003), pois mesmo com limitações os documentos propõem a abordagem das diversas temáticas que envolvem a sexualidade desde o início do processo de escolarização; assim corroboramos,

[...] a BNCC limita a sexualidade unicamente em sua dimensão biológica, associando- a à prevenção de IST e gravidez na adolescência, aproximando-se, assim, de concepções médico-higienistas sobre a temática. [...]. Juntamente a tal ausência, verificamos ainda que o documento oficial analisado trata os conceitos direitos humanos e preconceito de maneira genérica, fato que poderá intensificar os silenciamentos destacados (SILVA; BRANCALEONI; OLIVEIRA, 2019, p. 1552).

A BNCC, ao não propor a abordagem da sexualidade desde a educação infantil, contradiz com a formação do ser humano integral, pois a concepção de infância e adolescência apresenta mudanças significativas e marcantes através da história, consequentemente, as especificidades que caracterizam cada fase da vida do ser humano, inclusive no que abrange as características sexuais e também a sexualidade enquanto fenômeno humano.

As crianças e adolescentes apresentam manifestações em torno do desenvolvimento sexual: o respeito a esses comportamentos é um direito, e cabe ao adulto assegurá-lo, inclusive no contexto escolar, e assim a formação docente é fator de destaque, pois a infância deve ser considerada “[...] a época da aquisição subjetiva e sociocultural da identidade humana, na relação com o mundo, na descoberta de si e na apropriação significativa da cultura” (NUNES; SILVA, 2000, p. 11).

A educação sexual é apontada pela revista Nova Escola como necessária, mas esbarramos na formação docente, ou seja, questiona quando e quais profissionais da escola irão trabalhar com essa temática repleta de assuntos, inquietações e dúvidas. Corroboramos com o proposto pelas reportagens sobre educação sexual, ou seja, a concepção de que não pode haver momentos estanques para a abordagem da temática, além de que a educação sexual) deve ocorrer com profissionais que fazem parte do contexto escolar, pois a abordagem interdisciplinar é fundamental,

Ninguém nasce preconceituoso. Essa é uma ideia que devolvemos na infância, principalmente por influência da família e da escola. O que a criança escuta de familiares e outros adultos de referência como professores, para ela é correto (VICHESSI,2018, p. 31).

A escola é o espaço para discutir (referência a discussão de gênero), justamente porque é lá que formamos os cidadãos. Somo educadores para formar cidadãos e cidadãs. [...]. Essa discussão precisa ser colocada nos materiais e trabalhada interdisciplinarmente, mas de nada vai adiantar sem a formação (GARCIA, 2019, p. 14).

A educação sexual tradicional preconiza o sexismo, sendo que uma educação sexual emancipatória busca o oposto, ou seja, objetiva desconstruir estereótipos, tabus, valoriza e respeita as condições do ser humano percebendo diferenças sociais, culturais, biológicas-naturais. A escola não assume para si o papel da família, mas tem relevante função a desempenhar nesta concepção de educação. Deve desenvolver as potencialidades do ser humano sem preconceitos ou condições pré- estabelecidas, inclusive trabalha juntamente com a família, desafios que devem ser assumidos hoje e sempre pela instituição escolar.

Enquanto artefato cultural, a revista Nova Escola apresenta caminhos a serem trilhados na formação em educação sexual, contudo deixa lacunas que precisam ser preenchidas nos cursos de licenciatura, nas capacitações no contexto cotidiano de formação docente, nas pós-graduações lato sensu e stricto sensu, pois a sexualidade é temática complexa que demanda cientificidade, pois não podemos somente nos embasar em práticas e experiências incipientes é preciso compreensão e conhecimento fundamentado.

Destaco as palavras de Jorge Larrosa (2002), espero que as mesmas toquem os profissionais da educação, lhes faça refletir, pois creio que enquanto educadores somos mensageiros de mudanças e transformações em torno da educação sexual emancipatória, precisamos experenciar, rever a prática de sala de aula, com segurança e cientificidade, e propor o aprendizado aos discentes

[...] a experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço (LAROSSA, 2002, p. 24).

Na educação as mudanças são constantes, novas propostas e documentos passam tão rápido que não deixam tempo para a experiência e execução de aprendizados significativos. O educador moderno torna-se um consumidor voraz e insaciável de notícias, de experiências, novidades e consequentemente, insatisfeito. Tudo lhe passa de maneira fugaz e efêmera. O tempo tornou-se mercadoria, o tempo se compra e se vende. E assim, na educação, a experiência, a prática está cada vez mais pobre, a aprendizagem significativa existe apenas no discurso. Nas escolas e universidades, as propostas curriculares se avolumam, se organizam em pacotes, com disciplinas cada vez mais numerosas e cada vez mais curtas.

A formação docente há muito tempo vem sendo questionada, os/as professores/as, enquanto protagonistas do cotidiano escolar, se reinventam em suas aulas. Desse modo os artefatos culturais são constitutivos de suas formações formais e informais, inclusive apresentando propostas de atividade pedagógicas imersas em valores, concepções e ideologias diversas, que não são explicitas e consequentemente não percebidas por docentes.

A revista Nova Escola, como destacamos, se apresenta enquanto importante artefato cultural e paralelamente pedagógico de formação no âmbito educacional da sociedade atual. Reconhecemos o mérito da Revista, compreendemos que seus apontamentos são importantes e necessários, contudo sugerimos que a abordagem da sexualidade e temáticas correlatas precisam ir além de documentos oficiais e que receituários de práticas pedagógicas nesse campo não existem, pois é preciso trilhar o próprio caminho, acreditar que a temática tem valor educacional e social e que cada docente precisa experenciar sua atuação com base no comprometimento, reflexão e estudo científico.

Considerações finais

Ao propormos a análise das reportagens da revista Nova Escola, sobre as temáticas da sexualidade e gênero no período elencado, nos deparamos com artigos que apresentam uma variedade de assuntos relacionados ao estudo proposto, apresentando ao docente subsídios para que trabalhe com a educação sexual no cotidiano escolar. As reportagens apresentam características diversas, que se estruturam de maneira articulada entre gênero, sexualidade e educação sexual.

Enquanto importante artefato cultural, o docente precisa compreender que a revista Nova Escola possibilita seu aprendizado e instrumentaliza sua prática, mas é preciso ir além, buscar novas leituras e rever estudos teóricos que ocorrem no decorrer da especificidade dos temas.

Os artefatos culturais, de modo quase unânime, trazem muitas informações, possibilitando uma obsessão pelo saber, mas por um saber não sinônimo de conhecimento, uma negação no sentido de sabedoria, é um excesso de doxa (opinião). E assim, o sujeito informado opina sobre tudo, não valoriza o experenciar, o fazer na concretude da prática. O/a leitor/a ávido/a pelos artefatos culturais torna-se um sujeito que sofre o poder da opinião, informado/a pela mídia, ou seja, um sujeito "fabricado/a" e manipulado/a pôr opiniões alheias, que passam, mudam e não permanecem para se fortalecer, para adquirir a propriedade do conhecimento e do aprendizado.

Na sociedade atual, o excesso de trabalho deixa o/a professor/a sem tempo para o conhecimento real, para se fortalecer e relacionar com sua prática escolar, pois não há tempo para se subsidiar pelo conhecimento científico, o trabalho é pura ação sem reflexão. O trabalho docente é permeado pelo excesso de metas a cumprir, objetivos e propostas e na maioria das vezes, não considera a experiência do próprio docente e mesmo do aluno.

A escola possui uma legislação que a regulamenta, um poder público que a mantém, uma comunidade que ela atende, uma história da qual participa, uma economia à qual está vinculada, um Projeto Político-Pedagógico que a orienta, entre outros elementos constitutivos do contexto escolar na atualidade. É isso que precisa ser investigado e compreender bem, associar aos artefatos culturais que nos são oferecidos nos tempos atuais. Para se chegar a essa compreensão, se faz necessário aprofundar noções pautadas nas ciências humanas e sociais, e construir uma sólida noção do todo. Mesmo com todo conhecimento e legislações pertinentes, cada integrante percebe o momento da educação também pela sua experiência, e que precisa refletir sobre ela, para ir além da transformação, do real aprendizado, pois a experiência é singular, se faz no caminhar.

A educação oferece um leque muito amplo de possibilidades de aprendizado que podem proporcionar experiências produtivas, atreladas à cultura de seu tempo, e assim os artefatos culturais, enquanto produtores de informações da sociedade moderna, podem contribuir muito, mas é preciso que os leitores percebam seu conteúdo efêmero, o excesso de imagens e resultados positivos sem muitos questionamentos, apresentando uma visão fragmentada da sociedade real.

O/a docente não pode ser visto/a como disseminador/a de práticas elementares e superficiais, pois é fruto de uma formação pedagógica rápida, pouco reflexiva e que visa à produção para o mercado de trabalho, uma formação de tempos consumistas. Precisamos compreender que os cursos das licenciaturas são organizados e reorganizado sem fragmentos e em disciplinas descontextualizadas, cada vez mais numerosas e curtas, que não propõem a apropriação significativa do conhecimento, pelo contrário, os professores sairão saturados de informações e vazios de aprendizado para atuar e experenciar suas práticas.

Educar possui relação com soluções criativas e originais, que com certeza surgirão através do diálogo, da participação de todos, da valorização do real conhecimento, das experiências vivenciadas por cada professor e consequentemente da formação docente diferenciada e de qualidade. Os artefatos culturais podem sinalizar a informação, apresentar as necessidades da sociedade moderna, mas não podem substituir o conhecimento fundamentado na reflexão e cientificidade.

Referências

BANDEIRA, A.; VELOZO, E. L. Livro didático como artefato cultural: possibilidades e limites para as abordagens das relações de gênero e sexualidade no Ensino de Ciências. Ciência e educação, Bauru, v. 25, n. 4, p. 1019-1033, out. 2019. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1516-731320190040011. Acesso em: 29 set. 2020.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Tradução de Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 1977.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/a-base. Acesso em: 01 fev. 2020.

BRASIL. Secretaria do Ensino Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos: apresentação dos temas transversais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasília: MEC, 2003.

CALÇADE, P.; HELENA, T. O duro caminho dos meninos. Nova Escola, São Paulo, n. 322, p. 48 - 51, mai. 2019.

CAMOZZATO, V. C. Sociedade pedagógica e as transformações nos espaços-tempos do ensinar e do aprender. Em Aberto. Brasília, v. 31, n. 101, p. 107-119, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.24109/2176-6673.emaberto.31i101.3526.Acesso em : 19/10/2020.

GARCIA, C. C. A escola é o espaço para discutir sobre feminismo. Nova Escola, São Paulo, n. 320, p. 11-15, mar. 2019.

GONZALEZ, M. A quadra também é delas. Nova Escola, São Paulo, n. 310, p. 22-25, mar. 2018.

HELENA, T. De olhos fechados para o sexting. Nova Escola, São Paulo, n. 321, p. 10-11, abr. 2019.

HELENA, T. Elas na história. Nova Escola, São Paulo, n. 320, p. 16-21, mar. 2019.

LARROSA, J. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Tradução de João Wanderley Giraldi. Revista Brasileira de Educação, n. 19, p. 20-28, jan./abr. 2002. Disponível em: http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf. Acesso em: 29 set. 2020.

LAVILLE, C.; DIONNE, J. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Tradução de H. e F. Settineri. Porto Alegre: Artmed, 1999.

LEÃO, A. M. de C.; RIBEIRO, P. R. M. As políticas educacionais do Brasil: a (in)visibilidade da sexualidade e das relações de gênero. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 7, n. 2, p. 28-37, 2012. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=619866405003. Acesso em :19/10/2020.

LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 1997.

LUBLINSKI, D. Professora de onde vêm os bebês? Nova Escola, São Paulo, n. 317, p. 16-19, nov. 2018.

MAIA, A. C. B. Conceito amplo de Sexualidade no processo de Educação Sexual. Revista Psicopedagogia On Line, São Paulo, p. 1-10, 2010. Disponível em: http://www.psicopedagogia.com.br/artigos/artigo.asp?entrID=1303. Acesso em: 20 fev. 2019.

MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec, 2000.

MISKOLCI, R. Exorcizando um fantasma: os interesses por trás do combate à “ideologia de gênero”. Cadernos Pagu, [S. l.], n. 53, 2018. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8653409. Acesso em: 15 mar. 2022.

MOREIRA, A. F. B. Indagações sobre currículo: currículo, conhecimento e cultura. Brasília: MEC, 2008.

NOVA ESCOLA.ORG. Nova Escola. Disponível em: https://crbio04.gov.br/informacoes/nova-escola/ Acesso em 20 dez. 2021.

NUNES, C. A.; SILVA, E. A. A educação sexual da criança: subsídios teóricos e propostas práticas para uma abordagem da sexualidade para além da transversalidade. Campinas: Autores Associados, 2000. (Coleção polêmicas do nosso tempo; 72).

PETRENAS, R. de C. O estado da arte sobre as temáticas sexualidade, educação sexual e gênero nos Encontros Nacionais de Didática e Práticas de Ensino – ENDIPE (1996- 2012). 2015. Tese (Doutorado em Educação Escolar) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Araraquara, 2015, 322 f. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/127959?locale-attribute=en: Acesso em 20/01/2019.

SALAS, P. Depois do esculacho, como fica a vida? Nova Escola, São Paulo, n. 311, p. 10-14, abr. 2018.

SILVA, C. S. F. da; BRANCALEONI, A. P. L.; OLIVEIRA, R. R. de. Base Nacional Comum Curricular e diversidade sexual e de gênero: (des) caracterizações. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 14, n. esp. 2, p. 1538-1555, jul. 2019. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/12051: Acesso em 18/12/2020.

SILVA, T. T. da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.

SOARES, W. Não é nada disso que você está pensando. Nova Escola, São Paulo, n. 324, p. 38-43, ago. 2019.

UNESCO. Orientações técnicas de educação em sexualidade para o cenário brasileiro: tópicos e objetivos de aprendizagem. Brasília: DF, 2014.

VIANNA, C. Gênero, sexualidade e políticas públicas de educação: um diálogo com a produção acadêmica. Pro-Posições, Campinas, v. 68, n, 2, p. 127-143, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/pp/v23n2/a09v23n2. Acesso em: 20 fev. 2019.

VICHESSI, B. Somos diferentes. Somos iguais. Nova Escola, São Paulo, n. 317, p. 28-37, nov. 2018.

VICHESSI, B. Toda cor, qualquer cor. Nova Escola, São Paulo, n. 321, p. 30-39, abr. 2019.

Notas

2 O Movimento “Escola sem Partido” é cunhado pelas correntes neoconservadoras e proclamam, dentre outros apontamentos, que a escola esteja envolta com a inculcação da doutrina marxista. A “Ideologia de Gênero” faz parte da proposta de grupos conservadores que buscam coibir e negar a igualdade de direitos de mulheres, homossexuais, travestis, dentre outros grupos tidos como minoritários (MISKOLCI, 2018). Ambos os Movimentos tiveram maior relevância política e midiática com o início da gestão do Presidente Jair Messias Bolsonaro, em 2019.
HTML generado a partir de XML-JATS por