Resenhas
Crianças e diversidade à luz da abordagem italiana de San Miniato
Children and diversity in light of the Italian approach of San Miniato
Niños y diversidad a la luz del enfoque italiano de San Miniato
Crianças e diversidade à luz da abordagem italiana de San Miniato
Olhar de Professor, vol. 26, pp. 01-06, 2023
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepción: 09 Marzo 2023
Aprobación: 29 Mayo 2023
Introdução
A presente resenha da obra As Crianças e a Revolução da Diversidade, foi elaborada no contexto de um estudo de Pós-doutorado e teve a intenção de contribuir com uma pesquisa longitudinal em andamento em uma instituição de Educação Infantil brasileira com um grupo de bebês, focalizando os seus processos de transição até o 1º ano do Ensino Fundamental. Buscou-se uma aproximação com a região italiana de San Miniato, mais especificamente os nidi de 0 a 3 anos, coordenados por La Bottega Di Geppetto - Centro Internazionale Di Ricerca e Documentazione Sull’ Infanzia Gloria Tognetti. Adicionalmente, foi analisada a documentação produzida dentro deste contexto, compreendida como uma ferramenta fundamental de formação docente e de diálogo com as famílias, e levando em conta que há “[...] diferentes alianças e ritmos biológicos, mas é, de qualquer forma, um ambiente no qual todos podem encontrar o seu lugar e a justa valorização para a diversidade que oferece.” (p. 51).
Em meio às obras publicadas em língua portuguesa pelo referido Centro Internacional de Pesquisa e Documentação sobre a Infância, as autoras da presente resenha pretendem compartilhar a obra em tela e, assim, contribuir e ampliar, para o público brasileiro, com um saber que é gerado na experiência formativa de San Miniato, Itália.
A obra em destaque foi organizada por Aldo Fortunati e Bárbara Pagni e teve a contribuição de vários colaboradores por ocasião da Convenção Internacional sobre Crianças e a Revolução da Diversidade, realizada em San Miniato – Itália, em 2018 e representantes de diferentes países: Brasil, Canadá, Irlanda, Líbano, Holanda, Romênia, Cingapura, Espanha, Estados Unidos, Uganda, dentre outros.
Na mencionada Convenção, foram tratados temas centrais em serviços educacionais para a primeira infância dessa região localizada no coração da Toscana e que, também, foi foco do pensamento pedagógico da educadora e pesquisadora Glória Tognetti (1960-2017), cujo Centro de pesquisa e documentação foi homenageado com o seu nome.
Quanto à organização, a obra está dividida nas seguintes partes: Introdução, As Contribuições, Os Comentários e, por fim, A Homenagem, e apresenta escritos inéditos da pesquisadora e apontamentos de sua biografia e bibliografia. A seguir, destacamos cada parte da coletânea a fim de oferecermos um panorama da obra.
Na parte intitulada As Contribuições, há sete textos, sendo que, no primeiro, Identidade, diversidade e mudança: aventura da educação sob o ponto de vista das crianças, Fortunati realça as três palavras do título que, no seu ponto de vista, devem estar unidas. Sobre a identidade, são particularmente revelados elementos de fundo e dois deles se destacam: “[...] nos defrontamos com uma diferença de forças em que o mais forte impede a perspectiva de mudança, consolidando a continuidade do que já existe através do controle e da submissão[...]” e “[...] o potencial de mudança que as crianças carregam dentro de si, é destruído e desaparece antes mesmo de ser utilizado.” (p. 15). Destaca-se que somente estes dois elementos já apontam para uma reflexão em torno da função da Educação Infantil, do papel do(a) professor(a), da relação entre adultos, crianças e famílias e da participação desses diferentes sujeitos no cotidiano do trabalho pedagógico.
O texto ainda destaca que: as “[...] crianças são desde o início - da mesma forma e ao mesmo tempo - ávidas por relação e conhecimento.” (p. 18). Nesta perspectiva, não são “[...] simples organismos com necessidade de cuidado e afeto - mas sim, crianças-pessoas, sujeitos protagonistas dos próprios processos de crescimento, relação, conhecimento e aprendizagem”. (p. 18). Corroborando esta ideia, destaca-se a importância dada ao efeito de a educação edificar o objetivo de seu projeto, formando pessoas curiosas e: “[...] cultivadas para aquilo que realmente são, isto é, como a principal e irrenunciável base de nossa capacidade de ampliar o olhar sobre o mundo e sobre a vida.” (p. 20). O autor coaduna, ainda, este argumento sobre o objetivo precípuo da educação, que é a ideia de que o protagonismo das crianças não é unicamente um conceito a ser lembrado, mas trata-se de mais uma possibilidade de movimentar condições e oportunidades. Dar testemunho a este protagonismo descortina o objetivo principal da Educação Infantil com o propósito de superar a falta de visibilidade das crianças como sujeitos e que terminam por não terem seus direitos de expressão e de discurso reconhecidos, bem como de ajuste das lentes para mirar: “[...] além do muro do preconceito, da indiferença, da desvalorização sistemática e subestimada sobre a identidade das crianças.” (p. 22).
Na sequência, Enrico Moretti e Arianna Pucci discorrem acerca da Educação como direito: entre novas ecologias familiares e oportunidades, com atenção à ecologia familiar e os seus efeitos de composição, condições, modificações e relações que a sustentam. Trata-se de um tema relevante, sobretudo por estar conectado à educação como direito e que, em situações não consideradas adequadas, cabe à comunidade educadora questionar de quais maneiras pode ser possível garantir às crianças o direito à educação.
Os serviços de educação e cuidado são considerados componentes fulcrais de apoio familiar e de uma formação mais consciente sobre o papel da família, dentre outros elementos, no que tange a: “[...] favorecer a organização dos horários com a família e de trabalho e, portanto, promover o emprego, especialmente para as mulheres; questionar situações de desigualdade social e promover a inclusão de pessoas em situações de dificuldade ou deficiência.” (p. 34). Assim, os autores frisam que o alicerce do importante e necessário investimento na educação das crianças baseia-se no princípio de reconhecimento como sujeitos de direitos desde seus nascimentos.
Em A diversidade como recurso na educação: a experiência do "grupo misto", Glória Tognetti, a partir de alguns estudos, destaca as contribuições vigotskianas em torno da zona de desenvolvimento proximal para este tipo de grupamentos, definindo-a como: “[...] o momento da inserção da ação de suporte do adulto, de forma suave, sensível e indireta, definitivamente sempre de modo a respeitar os tempos e estratégias individuais de ação das crianças [...]” (p. 39). Glória Tognetti, autora deste texto, referindo-se aos grupos mistos, aponta implicações em se mergulhar em um itinerário de conhecimentos, exibindo raízes remotas na região da Toscana e ponderando que, na atualidade, as motivações são bastante distintas. Muitos serviços passam a adotar tal organização, que está muito mais imbricada nas necessidades administrativas do que nas escolhas teóricas propriamente ditas. Contudo, a autora indica que o elemento desencadeador reside na curiosidade de inquirir de um modo mais cauteloso a: “[...] qualidade das relações entre as crianças e sua estruturação ao longo do tempo” (p. 39). Neste sentido, o objetivo - heurístico - seria garantir possibilidades mais amplas de conexões e de construção de relacionamentos por afinidades em grupos, seja entre crianças da mesma idade, seja de idades distintas, fazendo com que a autora reflita acerca dos elementos primordiais do projeto educativo, ressaltando: “[...] a função do contexto, o papel do educador, as formas de compartilhar o projeto com as famílias e, finalmente, redefinindo as próprias expectativas sobre as crianças, suas habilidades e suas potencialidades.” (p. 40).
Gloria Tognetti aborda ainda o papel do educador e do próprio contexto, entendido não somente como espaço físico, mas como ecologia social. Em torno desta ideia, apresenta alguns critérios para a formação de grupos mistos. O espaço é pensado para se adequar às necessidades exploratórias e de conhecimento das diferentes idades presentes no grupo, desde momentos de organização de situações lúdicas até ambientes voltados à higiene e ao descanso. Conceber o espaço significa compreendê-lo tal como: “[...] um lugar que não é somente de experiências, mas de experiências partilhadas e compartilhadas entre sujeitos portadores de ‘diferenças’ [...]” (p. 44), enfatizando as relações com crianças com diferentes especificidades cognitivas e de autonomia: “[...] tornam o papel do educador mais complexo e fascinante trazendo à tona uma frequente descentralização com relação às expectativas em relação a cada criança, tanto do pequeno grupo como de toda a turma [...]” (Idem). São também abordados elementos em torno da rotina que, em seu entender, deve ser interposta por situações que ocorrem com regularidade e de tal maneira que cada criança estrutura uma linha de tempo em circunstâncias que ofereçam segurança. Por conseguinte, elas passam a ser capazes de oportunizar o protagonismo e a autonomia, possibilitando o experimentar, compartilhar, conhecer e reconhecer em torno de uma gama de escolhas organizativas. Por fim, são destacados elementos do trabalho pedagógico e do papel do(a) educador(a) na organização do contexto e no diálogo com as famílias. O texto refere-se a crianças de diferentes idades, com suas peculiaridades, e com orientações singulares. Na contramão de um anseio por aprendizagens antecipadas, as relações sociais múltiplas são priorizadas, focalizando na comunicação, na experimentação da diferença e do coletivo e na observação e documentação.
Na sequência, Sara Zingoni discorre sobre Manter unidas as diversidades e dar valor às relações: entre as crianças e as famílias, e destaca elementos que orbitam em torno da articulação dos grupos e da organização dos espaços, materiais e tempos, e na reflexão sobre a diversidade entre crianças como um elemento de enriquecimento, conforme foi demonstrado há mais de 30 anos em San Miniato (em pesquisa realizada por Aldo Fortunati).
Chiara Parrini em Entre memória e narração: uma nova ideia de avaliação, indaga: “como e por que avaliar?” analisa as diretrizes italianas para o currículo da Educação Infantil e as suas conexões com a avaliação. Dentre outros aspectos, as crianças são consideradas como protagonistas em suas experiências de educação e cuidado, sublinhando a valorização das diferenças e destacando as potencialidades de cada uma. A autora sugere ainda a transformação de uma avaliação padronizada para uma avaliação de processo em torno do currículo e da documentação como ferramenta fulcral neste processo. Dessa forma, é possível percorrer e contextualizar o caminho realizado por intermédio da memória e, assim, descrever e realizar a narração do percurso, compreendendo de qual maneira cada criança compreende as oportunidades ofertadas e experiências de maneira original e criativa em uma elaboração progressiva de quadros interpretativos da realidade, conhecimentos e aprendizado.
Bárbara Pagni discute sobre Pedagogia, pesquisa e governança: construir e difundir qualidade no sistema integrado, demarcando como a abordagem de San Miniato concebe a avaliação e a função do educador, compreendido como educador-pesquisador, e enfatiza três palavras- chave: pedagogia, pesquisa e governança. A autora defende a pesquisa na qual os educadores realizam, por meio da observação, documentação e diálogo, um meticuloso trabalho de reflexão desenhado por esses diferentes protagonistas que, nos últimos anos, têm posto em ação a governança no contexto de San Miniato. Além disto, reitera a importância de se investir no sistema território/rede incluindo profissionais, famílias e comunidade. Nessa direção, ela defende o que denomina pesquisa viva e vital e que é capaz de articular: “[...] práticas e teorias de forma indissolúvel, equilibra práticas e teorias, sem dar maior valor a um ou outro, mas reconhecendo que ambas não fazem sentido quando não estão relacionadas ou quando elas estão em uma relação de desequilíbrio” (p. 75).
No texto Por um currículo aberto ao possível: protagonismo das crianças e educação, Fortunati e Tognetti reforçam a ideia de que os serviços educacionais da primeira infância podem ser considerados um: “[...] contexto privilegiado de encontro e confronto entre identidades e diversidades [...]” (p. 80).
No capítulo Os Comentários, a brasileira Paula Baggio aborda Um novo olhar sobre a educação das crianças, enquanto que a irlandesa Teresa Heeney costura reflexões envolvendo Tempo e oportunidade para serem curiosas e a espanhola Lourdes Pérez Pérez alinhava interessantes apontamentos em Reflexões sobre a experiência pedagógica de San Miniato.
No tópico Palavras e comentários do Mundo várias personalidades apresentam as suas percepções acerca da experiência de San Miniato, tais como Irene Balaguer (Espanha), Chistine Chen (Cingapura), Nicki Dublenko (Canadá), Mihaela Ionescu (Países Baixos), Peter Moss (Grã-Bretanha), Teresa Ogrodzinska (Polônia), Emer Ring (Irlanda, Ronald Ssentuuwa (Uganda) e Vera Melis (Brasil), e que, em breves narrativas, lançam um convite tentador para conhecermos os serviços de Educação Infantil de cada região.
Finalmente, a parte final do livro e, talvez, a mais emblemática, dedica-se a homenagear Gloria Tognetti, uma das idealizadoras e inspiradoras do trabalho de pesquisa e a experiência de formação de San Miniato, tal como se pode conferir nos capítulos: Humanidade e Pedagogia: ideias para uma biografia e Glória Tognetti: traços e apontamentos de sua bibliografia pedagógica. Os textos foram minuciosamente tecidos pelas mãos de Fortunati, Parrini e Valentini que, conjuntamente a outros sujeitos, estão estendendo um legado e edificando um projeto singular que se expande exitosa e internacionalmente.
Aldo Fortunati é o atual presidente do Centro Internacional de Pesquisa e Documentação sobre a Infância, professor da Universidade de Florença, especialista do Eurosocial em Programas de Cooperação internacional, membro sênior do Gruppo Nazionale Nidi Infanzia e representante nacional da Itália na World Forum Foundation.
Bárbara Pagni é coordenadora científica do Centro Internacional de Pesquisa e Documentação sobre a Infância e apresenta larga experiência como educadora e palestrante em inúmeros seminários de formação docente, aprofundando em temas tais como planejamento, observação, documentação, avaliação e governança, além de contribuir em diversas publicações.
Diante do exposto, pode-se considerar que a obra As Crianças e a Revolução da Diversidade contribui com muitas reflexões de interesse para estudantes de Graduação e de Pós- Graduação, pesquisadores(as) e profissionais da Educação Infantil, psicólogos(as) educacionais, gestores(as), dentre outros (as), e que se debruçam sobre temas de diversidade. No contexto brasileiro, a leitura desta proeminente obra interpela e instiga de maneira provocativa a pensar e problematizar, por exemplo, o que se concebe por diversidade na Educação Infantil? Ao se discutir diversidade, diferença e inclusão, está se falando da mesma coisa? Qual é o papel do(da) professor(a) e a importância do Currículo e da Documentação na especificidade do trabalho pedagógico com bebês e crianças pequenas? Nessa direção, intencionou-se colocar em relevo aspectos que contribuem com a pesquisa apresentada logo no início deste texto e que, certamente, poderá trazer novas luzes às investigações sobre a problemática da diversidade. Imbuídos do espírito evocado e estampado na capa de “As crianças e a Revolução da Diversidade”, entende-se que esta obra traz novas cores e contornos que contribuem para o pensar em políticas públicas afinadas ao respeito à diversidade em contextos educativos e na garantia de uma educação de qualidade para todas as crianças.
Referências
FORTUNATI, A; PAGNI, B. As Crianças e a Revolução da Diversidade. Porto Alegre: Buqui, 2019.