Dossiê: Práticas de linguagem na infância: ensinar e aprender na perspectiva discursiva e enunciativa
A Hora do Conto: um estudo na educação primária
Storytime: a study in primary education
La Hora del Cuento: un estudio en la educación primaria
A Hora do Conto: um estudo na educação primária
Olhar de Professor, vol. 27, pp. 01-19, 2024
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepción: 17 Junio 2024
Aprobación: 15 Octubre 2024
Resumo: O presente estudo realizou-se numa turma do 1.º ciclo do ensino básico e centrou-se na Hora do Conto. Os objetivos do estudo foram conhecer qual a visão dos docentes sobre a Hora do Conto, ampliar o repertório literário das crianças e analisar as reações das crianças em relação à Hora do Conto. A metodologia eleita foi uma aproximação à investigação-ação, valorizando-se a capacidade reflexiva do professor sobre a sua própria prática pedagógica. A observação participante permitiu a recolha de dados, bem como as entrevistas semi-estruturadas aos docentes e as vozes das crianças. Os resultados desta investigação mostram, em relação aos docentes, que estes não têm conhecimentos sobre a organização e a dinamização da Hora do Conto; em relação às crianças, os resultados mostram que a Hora do Conto potenciou o seu interesse pelas histórias, levando a uma maior procura pelos livros e pela leitura na sala.
Palavras-chave: Hora do Conto, Escola, Leitura.
Abstract: The present study was carried out in a primary education class and focused on Storytime. The objectives of the study were to understand the teachers' views on Storytime, expand the children's literary repertoire and analyse children's reactions to Storytime. The methodology chosen was an approach to action research, valuing the teacher's reflective capacity on their own pedagogical practice. Participant observation allowed data collection, as well as semi-structured interviews with teachers and children's voices. The results of this investigation show, in relation to teachers, that they do not have knowledge about the organization and dynamization of Storytime; in relation to children, the results show that Storytime boosted their interest in stories, leading to a greater demand for books and reading in the classroom.
Keywords: Storytime, School, Reading.
Resumen: El presente estudio se llevó a cabo en una clase de educación primaria y se centró en la Hora del Cuento. Los objetivos del estudio fueron comprender la visión de los profesores sobre la Hora del Cuento, ampliar el repertorio literario de los/as niños/as y analizar las reacciones de los/as niños/as a la Hora del Cuento. La metodología elegida fue un enfoque de investigación-acción, valorando la capacidad reflexiva del docente sobre su propia práctica pedagógica. La observación participante permitió la recolección de datos, así como las entrevistas semiestructuradas con docentes y las voces de los/as niños/as. Los resultados de esta investigación muestran, en relación a los docentes, que no tienen conocimientos sobre la organización y dinamización de la Hora del Cuento; en relación a los/as niños/as, los resultados muestran que la Hora del Cuento impulsó su interés por los cuentos, lo que generó una mayor demanda de libros y lectura en el aula.
Palabras clave: Hora del Cuento, Escuela, Lectura.
Introdução3
Este estudo debruça-se sobre a Hora do Conto, um espaço e um tempo de leitura, ou de narração, onde impera a palavra dita e escutada, a fabulação, o prazer e o afeto. A leitura de um livro ou o contar histórias promovem uma interação, onde é possível que as crianças desenvolvam momentos de escuta, de atenção, de proximidade e de criação de novos pontos de vista, através da sua imaginação. Estes são momentos de partilha, caraterizados pela emoção, pelo gozo e pela comunicação que existe entre todos, sem que o foco sejam as aprendizagens formais. Esta ideia também é partilhada por Junça (2016), afirmando que, para que isto aconteça, é necessário existir uma continuidade na leitura nas faixas etárias precoces, tendo sempre presente que, como diz Cristina Taquelim, “Contar histórias é dar colo.” (Junça, 2016, p. 116).
O contacto e a escuta de histórias possibilitam à criança alargar o leque das suas experiências, para além dos limites daquilo que a rodeia. Além disso, ouvir histórias permite que as crianças estabeleçam relações entre as suas experiências e o que vai acontecendo nas histórias, consentindo- lhes também estas conhecer factos que, pelas próprias vivências, poderiam não ter oportunidade de alcançar. De acordo com o Plano Nacional de Leitura (s.d.):
Ouvir contar histórias na infância leva à interiorização de um mundo de enredos, personagens, situações, problemas e soluções, que proporcionam às crianças um enorme enriquecimento pessoal e contribui ainda para a formação de estruturas mentais que lhes permitirão compreender melhor e mais rapidamente não só as histórias escritas, mas também os acontecimentos do seu quotidiano. (PNL, s.d., p. 7).
Será deveras importante que todos os profissionais docentes tenham, nas suas salas, uma área dedicada à leitura, livros escolhidos com critérios estéticos, livros acessíveis às crianças e uma atenção dedicada à leitura, à narração e à escuta, numa perspetiva direcionada para o prazer. Por isso é que é fundamental uma séria aposta na Hora do Conto, como um momento potenciador dos mais variados estímulos para o desenvolvimento da criança e para a sua entrada no mundo da palavra e da literatura.
Desta forma, a Hora do Conto não consiste apenas no ato de contar uma história, mas em tudo o que a envolve. Carateriza-se por ser um momento onde se provocam emoções a quem escuta, uma vez que “O mediador, aqui contador, conta de cor, conta com o coração e este pode e deve ser um momento de entrega total ao auditório.” (Taquelim, 2009, p. 4); caracteriza-se, ainda, a Hora do Conto, por ser um lugar onde há um contacto com livros e com histórias que têm um poder transformador, visto que, através delas, é possível colocar quem escuta a pensar sobre o sucedido (Junça, 2016). Para Taquelim (2009), a Hora do Conto pode ser organizada de diversas formas, dependendo do grupo que irá escutar e da forma como o mediador comunica, para ser possível a “construção de relações com e entre livros” (Taquelim, 2009, p. 1). Estas relações possibilitam à criança, independentemente da sua competência leitora, a exploração, a imaginação e a viagem pela história, de forma a estabelecer conexões para voltar mais tarde a relembrá-la.
Será importante diferenciar a mediação de leitura e a narração oral, uma vez que ambas podem marcar presença na Hora do Conto. De acordo com Junça (2016), a mediação de leitura recorre a um livro, ou a um outro tipo de texto escrito, e a pessoa que a prepara, realiza e que se expõe ao grupo é um mediador de leitura; já a narração oral não se socorre do livro, as histórias, ou outro tipo de textos, são contados oralmente, sendo a pessoa que a planeia, realiza e que se expõe ao grupo um contador, que tem de estar bem preparado, pois só tem à sua disposição a voz, a expressão corporal e o improviso.
O estudo, que aqui apresentamos, é apenas parte de uma investigação mais vasta, levada a cabo no âmbito dos primeiros anos de educação das crianças. Vários estudos, como por exemplo de Castro e Sousa (1998), Dionne (2013), Rosário (2018) ou Yubero, Larrañaga e Pires (2014), assinalam que, à medida que as crianças crescem e progridem na sua escolaridade, a escola tende a considerá-las já leitoras, não as vendo como leitoras em construção e, por isso, tende a abandonar quer a Hora do Conto, quer outras práticas de mediação de leitura. Apesar dos programas oficiais para o 1.º ciclo do ensino básico (1.º CEB)4, na área curricular de Português, indicarem claramente, porém só a partir do 2.º ano, que as crianças têm de “Ouvir ler obras literárias e textos da tradição popular” (Aprendizagens Essenciais, 2018, p. 10), se nos debruçarmos sobre esses documentos, facilmente constatamos que as indicações para a promoção da Hora do Conto são inexistentes.
Deste modo, o objetivo geral do estudo era compreender se a Hora do Conto contribui para estimular nas crianças uma maior procura e um maior contacto com o livro e com a leitura. Como objetivos específicos do estudo delinearam-se os seguintes: conhecer qual a visão dos docentes sobre a Hora do Conto, ampliar o repertório literário das crianças e analisar as reações das crianças em relação à Hora do Conto. Como metodologia privilegiámos uma aproximação à investigação-ação.
Este artigo, para além desta Introdução, contém uma segunda parte com a revisão de alguns estudos sobre a organização da Hora do Conto e uma terceira parte com a investigação desenvolvida numa escola com uma turma de 2.º ano de escolaridade. Por fim, apresentam-se as conclusões e as referências bibliográficas.
1. A preparação e a organização da Hora do Conto
A Hora do Conto exige uma sólida organização, pois ela consiste num momento cúmplice entre o mediador/contador, o público e o texto, para o qual é exigida uma boa preparação, a fim de que seja possível transpor o texto para o público, com segurança. O mediador /contador não tem apenas de se preparar a si, mental, física e vocalmente, tem também o papel de preparar o seu público física e intelectualmente para receber a narração. A preparação da Hora do Conto exige que se planifique bem a sessão. Para tal o mediador/contador deverá ter os textos bem estudados e o espaço organizado. O espaço deverá ser avaliado, a fim de se perceber se reúne condições de sossego e aconchego, de forma a ser uma zona calma, afastada do ruído ou da entrada de novos participantes. O mediador/contador deve ter as costas protegidas por uma parede e sentar-se numa cadeira, de modo a estabelecer contacto visual com todo o público, assegurando-se que todos os indivíduos têm uma boa visibilidade. A duração deste momento difere de grupo para grupo, depende da experiência de quem conta, dos textos que forem escolhidos e da reação do público ouvinte.
Cada mediador/contador tem a sua metodologia na preparação e na organização da Hora do Conto. Todavia, neste planeamento, todos os detalhes são importantes. O contador António Fontinha (s.d.) afirma que “para um contador de histórias, a voz é de facto um aparelho extremamente importante. O corpo também.” (Fontinha, s. d., s. p.). Junça (2016) apresenta-nos três códigos extralinguísticos, aos quais o contador de histórias deve recorrer e que muito contribuem para o sucesso de uma sessão: o código cinésico (analisa os movimentos e processos corporais); o código proxémico (analisa a organização do espaço e dos objetos) e o código paralinguístico (analisa sinais de comunicação como a voz, a entoação, as pausas, os sons, entre outros). Com base nestes códigos, o contador de histórias prepara então a sua sessão da Hora do Conto, no pressuposto de que todos os detalhes possam estar em sintonia e possam contribuir para a promoção de um momento único e emotivo, como o partilhado pela contadora Ana Sofia Paiva (s. d.):
O que eu sinto é que o espaço de cantar, para mim, abre um estado de uma escuta do plano mais simbólico. É como se abrisse a escuta para receber um outro universo. Para desencriptar a linguagem simbólica que está na grande maioria dos contos que eu escolho contar. Sobretudo nos contos maravilhosos… esse universo. Abre para mim, coloca-me num estado de escuta interior e também prepara o público para essa viagem (Paiva, s.d., s.p.).
A preparação da Hora do Conto exige igualmente um trabalho profundo e aturado na escolha dos livros/textos orais que se partilham com o público. Os contadores António Fontinha (s.d.) e Ana Sofia Paiva (s.d.) detalham, nas entrevistas concedidas a Luís Correia Carmelo, todo o processo de seleção e escolha dos textos que vão contar para o seu público. Este processo leva-os ao contacto com textos da tradição oral narrados, normalmente, por pessoas idosas, com catálogos de textos de literatura tradicional e com o próprio Romanceiro. A contadora Bru Junça pormenoriza o processo de conhecimento dos livros que está na origem da escolha das histórias para as suas sessões, reforçando sempre que se está perante uma seleção pessoal, que é fundamental gostar e identificarmo- nos com o texto que se irá mediar:
O meu trabalho como mediadora é conhecer o livro como um todo, da capa à contracapa, saber as emoções que ele poderá fazer acordar no outro, conhecer os pormenores que possa ter, saber folheá-lo sem que quebre o fio condutor da leitura ao leitor e ter atenção para não antecipar informação antes do tempo. (Junça, 2016, p. 119).
Para a contadora de histórias Cristina Taquelim, as sessões da Hora do Conto necessitam de “bons livros, bem estudados, bem trabalhados” (Taquelim, 2009, p. 1), colocados ao alcance do público/das crianças: “Importa ainda, e sempre que possível, deixar que as crianças, no final da sessão, possam regressar aos livros, estimulando a sua manipulação directa, regressar ao objecto e à leitura do texto, suportada ou não pelos adultos que o acompanham.” (Taquelim, 2009, p. 4).
Centramo-nos, agora, na metodologia que leva à preparação e à organização da Hora do Conto, tendo em conta a experiência de duas reputadíssimas contadoras de histórias portuguesas: Cristina Taquelim e Bru Junça.
Taquelim (2009) organiza a sua sessão em quatro partes: acolhimento, reflexão, leitura em voz alta e contar. Esta contadora também refere que, para se mediar uma leitura, é necessário um fio condutor, pois é a partir daí que a Hora do Conto flui, podendo ser uma temática, um livro ou uma simples palavra.
O primeiro momento é o acolhimento, onde o mediador/contador recebe o grupo, se dá a conhecer e tenta construir de imediato uma conexão com o mesmo, definindo as regras.
A fase seguinte é a reflexão que consiste no conhecimento do grupo, das suas preferências, tendo em conta as questões que os próprios levantam. Nesta etapa também se realizam deduções sobre o que vai acontecer na história, a partir da capa do livro, das ilustrações, das guardas, entre outros paratextos.
A leitura é a próxima etapa, onde não se deve perder a atenção do grupo ouvinte. Neste momento, o número de livros lidos é definido pelo grupo, pois é necessário ter a perceção do momento em que o corpo faz transparecer a fatiga e que a escuta, ali, perde qualidade.
Por último, o contar histórias, sem o recurso ao livro, passando de mediador a contador. Taquelim (2009) considera que “Um conto narrado sem recurso ao livro pode ser uma boa forma de fechar este esboço de sessão.” (p. 4). Para tal, o contador tem de ter a sequência da narrativa bem presente, tem de dar tempo ao público para interiorizar o que é dito pois, à medida que a história é contada, podem recriar as imagens do que ouvem, imaginando-as.
Na Hora do Conto não devem ser esquecidas as fórmulas introdutórias e as fórmulas finais. Para finalizar a sessão, o mediador/contador permite ao grupo que regresse aos livros, deixando-os explorar.
Para Junça (2016), a Hora do Conto organiza-se em três momentos: um momento inicial, onde o mediador/contador se dá a conhecer e tenta perceber o grupo que tem diante de si; seguidamente, e como esta mediadora/contadora se faz acompanhar de uma mala cheia de livros, vai escolhendo e lendo as obras, dependendo do que sente e do retorno do público; para finalizar, fecha a sessão com uma fórmula final.
As fórmulas de abertura e as fórmulas finais são bastante caraterísticas da Hora do Conto. As primeiras abrem as portas para o mundo do imaginário, indicando às crianças que vai começar a partilha da palavra/da história; as segundas assinalam às crianças o fecho desse mundo, fazendo com que o grupo volte à realidade, pois “há que fechar a porta que se abriu para o mundo do “Era uma vez…”” (Junça, 2016, p. 120).
Para a realização da Hora do Conto, são necessárias algumas ferramentas, como Junça (2016) partilha: a disponibilidade da alma, que facilita a comunicação com o grupo; a sensibilidade para conseguir perceber os tempos de escuta do público; os textos mais indicados para o mesmo e a noção do espaço; a expressão corporal, que auxilia a completar o trabalho realizado durante a Hora do Conto, sendo o olhar uma parte essencial para partilhar as emoções com o grupo. O auxílio da expressão corporal permite relacionar os movimentos com o que acontece na história; a voz e o silêncio são ferramentas que se interligam, pois é através da palavra proferida que todo o trabalho é desenvolvido. Ainda assim, com o silêncio, a palavra proferida ressoa, tocando em quem a escuta. Alguns mediadores/contadores fazem-se ainda acompanhar de diversos objetos, que ajudam a criar um determinado ambiente ou que evidenciam alguma característica de certo texto.
O mediador de leitura estabelece uma relação com o livro, com o conto, com palavra lida/dita e a criança que escuta, como afirma Junça (2016):
Para mim, mediar algo implica um elemento, um público e um mediador. Desta forma, um trabalho de mediação de leitura pressupõe um trabalho com o livro em presença ou o contacto com o texto escrito e eu farei a ponte entre estes e o público. No trabalho que desenvolvo com o livro procuro que haja um encontro entre o livro e o leitor, um enamoramento que depois dê vontade ao leitor de o ir procurar, de o ler ou simplesmente folhear. (Junça, 2016, p. 118).
Em suma, a Hora do Conto possibilita a entrada do indivíduo no mundo literário, onde fantasia e realidade estabelecem uma ligação, potenciando a imaginação. A palavra escutada/lida nestes momentos é também uma forma de estabelecer relações de afeto e de prazer com o texto literário, apelando à subjetividade do leitor, cumprindo uma das mais importantes funções da literatura.
O estudo: metodologia, análise e discussão dos dados
Com este estudo, pretendemos iluminar a Hora do Conto, no contexto da sala de aula, na prática pedagógica. As bibliotecas municipais, as bibliotecas escolares, algumas associações socioculturais e recreativas, certas livrarias, cujo potencial público são as crianças, em Portugal, dinamizam, de um modo geral, a Hora do Conto. Contudo, na sala de aula, nem sempre se promove a Hora do Conto.
Sendo assim, as nossas questões de investigação eram: Como estimular nas crianças o prazer/gosto pela leitura? Quais os contributos da Hora do Conto para um maior contacto das crianças com o livro e a leitura no 1º CEB?
O objetivo geral do estudo era compreender se a Hora do Conto contribui para estimular nas crianças uma maior procura e um maior contacto com o livro e com a leitura. Conhecer qual a visão dos docentes sobre a Hora do Conto, ampliar o repertório literário das crianças e analisar as reações das crianças em relação à Hora do Conto constituíram-se como os objetivos específicos deste estudo.
A metodologia, neste estudo, configurou-se como uma aproximação à investigação-ação, visto que, segundo Ponte (2002), o docente investiga e reflete, no quotidiano, sobre a sua própria prática pedagógica e sobre a sua relação com os estudantes, de forma a melhorar constantemente a sua ação e a sua sala de aula. Na investigação-ação, o professor é entendido como um professor-investigador, como aquele que promove uma prática pedagógica reflexiva, no sentido de questionar constantemente a sua ação com o intuito de melhorá-la, fomentando, assim, o seu desenvolvimento profissional.
De acordo com Máximo-Esteves (2008), o professor, que possui uma atitude reflexiva, orienta ações que questionam e contrariam a rotina instituída; a investigação-ação é assim “um processo dinâmico, interactivo e aberto aos emergentes e necessários reajustes, provenientes da análise das circunstâncias e dos fenómenos em estudo.” (Máximo-Esteves, 2008, p. 82).
Como técnica de recolha de dados utilizámos a observação participante; como instrumentos de recolha de dados, socorremo-nos, entre outros, das notas de campo e respetivas reflexões, das vozes das crianças e da entrevista.
Máximo-Esteves (2008) afirma que a “observação permite o conhecimento direto dos fenómenos tal como eles acontecem num determinado contexto” e que a “observação ajuda a compreender os contextos, as pessoas que nele se movimentam e as suas interações.” (Máximo- Esteves, 2008, p. 87). A observação da prática pedagógica do professor, das visitas da professora bibliotecária à sala de aula e das interações das crianças, com os livros e com a própria área da biblioteca, foi realizada durante a rotina diária. Deste modo, pretendíamos por um lado conhecer as práticas dos docentes em relação à Hora do Conto; por outro lado, queríamos perceber se as crianças procuravam o livro ou se o traziam para a sala. A informação obtida foi registada sob a forma de notas de campo.
A intenção de conhecer o ponto de vista de todos os docentes, relativamente à temática em estudo, levou-nos à realização das entrevistas. Neste sentido, elaboraram-se duas entrevistas semiestruturadas onde, num guião, se inscreveram um conjunto de amplas questões. Este instrumento era flexível e permitiu o improviso e a troca de perguntas, dependendo da resposta. Como salienta Máximo-Esteves (2008), nestas entrevistas, o entrevistado diz o que pensa e partilha o seu conhecimento sobre a temática; neste género de entrevistas “O investigador coloca uma série de questões amplas, na procura de um significado partilhado por ambos.” (Máximo-Esteves, 2008, p. 96).
Deste modo, o desenho desta investigação era constituído por momentos de observação da prática pedagógica do professor na sala de aula e pelas intervenções, no mesmo espaço, da professora bibliotecária; concomitantemente, realizaram-se as entrevistas aos dois docentes e procedeu-se à dinamização da Hora do Conto, com o registo de notas de campo e das subsequentes reflexões.
As entrevistas
A fim de conhecermos um pouco mais as conceções e as práticas pedagógicas do professor titular da turma e da professora bibliotecária, em relação à Hora do Conto, realizámos uma entrevista a estes docentes. Seguidamente apresentamos e discutimos os dados recolhidos.
Os primeiros dados, que apresentamos, dizem respeito à entrevista ao professor titular da turma. Por meio das duas primeiras questões – O professor tem quantos anos de serviço? Onde realizou a sua formação inicial? - foi possível conhecer um pouco mais da experiência profissional do docente, visto que este tem cerca de 30 anos de carreira e realizou a sua formação nas antigas Escolas do Magistério Primário, extintas a partir do ano de 1986.
Na terceira questão – Na sua formação inicial ou formação contínua, teve alguma disciplina onde tenha realizado uma abordagem à questão da Hora do Conto? – o docente partilhou que teve acesso a conteúdos relacionados com contos infantis tradicionais e com a estrutura desses contos, em duas disciplinas: Didática da Língua Materna e Psicologia do Desenvolvimento da Criança, respetivamente. Desde aí que dá extrema importância a esta temática, referindo a sua importância para as crianças. De forma a complementar um pouco mais, perguntámos – E como foi a sua abordagem? -, tendo nós obtido a seguinte resposta:
Já há 30 anos, na minha formação inicial, se admitia que o prazer de ler se ensina ou… no mínimo, se estimula. Nesta perspetiva fui instruído para recorrer a este instrumento como fonte de motivação para a leitura e consequentemente para a escrita. Identicamente me mostraram a importância de levar a criança a ter curiosidade e a deixar fluir o seu imaginário através do conto. Foi fácil compreender que esta circunstância a enriquece de competências transversais a diferentes áreas do saber (Linharelhos, 2019, p. 61).
Além disso, o professor também referiu que:
Digamos que a minha limitada experiência impunha que me socorresse dos contos para, objetivamente motivar os alunos para uma aula, não necessariamente de português, para predispor os alunos para uma determinada matéria ou para dar coerência e intencionalidade à transição entre disciplinas durante a aula, a tal interdisciplinaridade que me requeriam (Linharelhos, 2019, p. 61).
As respostas dadas a estas questões mostram-nos um docente já com muitos anos de carreira. A formação inicial, parece-nos, permanece ainda muito viva neste docente, apesar de ter sido feita há cerca de três décadas. Por outro lado, afigura-se-nos, nas suas respostas, uma menor importância da formação contínua, pois o docente não a refere. Em relação à abordagem à Hora do Conto, este docente enfatiza, sobretudo, uma instrumentalização deste momento e da própria literatura, dado que refere que os contos servem como motivação para a leitura e a escrita, ou para outras matérias, para a própria aula, realçando a interdisciplinaridade e a aquisição de competências transversais por parte das crianças. Há, ainda assim, uma menção à curiosidade e à imaginação das crianças, que seriam potenciadas pelos contos. Porém, este docente não privilegia, de forma clara, uma relação afetiva com o texto literário, não aposta na subjetividade do leitor como resposta a uma leitura estético-literária, não promove, em síntese, uma educação literária, na aceção de Colomer (2015), Melo e Costa (2018) ou Balça (2023).
Às seguintes questões – Costuma ler ou contar histórias para as crianças da sua sala? Com que frequência? – o professor respondeu que a Hora do Conto era dinamizada, quinzenalmente, pela professora bibliotecária. Este docente referiu ainda que trabalhavam obras do Plano Nacional de Leitura, que permitia a leitura de livros que as crianças traziam para a sala de aula, ou a leitura dos textos do manual. Como justificação, para que a dinamização da Hora do Conto só ocorresse de quinze em quinze dias, este docente alegava a grande extensão do programa oficial de Português e as poucas horas atribuídas, no horário, para esta disciplina do currículo.
As respostas a este conjunto de perguntas confirmam as nossas perceções, em relação às respostas obtidas anteriormente. Na verdade, a Hora do Conto era dinamizada por uma professora exterior ao grupo turma e muito espaçada no tempo, não havendo, portanto, um trabalho amiúde sobre o conto, a leitura, a narração, a escuta por prazer. Todavia, há que realçar algumas boas práticas, como a abertura para a leitura de livros que as crianças traziam para a sala de aula, pois, tal como afirmam Balça e Azevedo (2017), “a não leitura de livros trazidos de casa pelas crianças vai certamente frustrar as expetativas das mesmas e esta atitude não concorre, com certeza, para a aproximação da criança ao livro e à leitura.” (Balça e Azevedo, 2017, p. 145).
Quando perguntámos – Acha importante, em sala de aula, ler ou contar histórias às crianças apenas com finalidade recreativa? Porquê? – o professor respondeu:
Comigo, a maioria dos momentos de leitura de contos tem uma intencionalidade mais formal, mais académica. Digamos, uma posterior dramatização, um reconto, uma atividade no domínio da expressão plástica, uma ficha de leitura, enfim… uma panóplia de coisas mais ou menos importantes (Linharelhos, 2019, p. 63).
Mais uma vez, a resposta a esta questão, por parte do docente, coloca em evidência a instrumentalização da literatura, a quase ausência, nesta sala de aula, da leitura por prazer, para recreação, muito embora, anteriormente, o docente tenha assegurado que, na sua sala, se faz a leitura de obras do Plano Nacional de Leitura e a leitura de textos dos manuais. As afirmações deste professor parecem indiciar que, apesar de haver leitura em voz alta e/ou silenciosa, na sua sala de aula, estamos sobretudo perante uma leitura orientada, cuja intencionalidade é quase sempre a realização de atividades que, decerto, nem sempre convocam a subjetividade do leitor para a compreensão e a interpretação do texto literário. Senão repare-se que atividades como a dramatização, a expressão plástica ou o próprio reconto são sentidas, pelo docente, como atividades posteriores, e não como atividades que podem fazer parte, como um todo, de uma leitura de um texto e da sua apropriação pelas crianças.
Todavia, como o desenrolar da investigação-ação e a entrevista ao professor foram concomitantes, à questão anterior – Acha importante, em sala de aula, ler ou contar histórias às crianças apenas com finalidade recreativa? Porquê? – o docente respondeu ainda decorrente da sua observação e acompanhamento da investigação desenvolvida com as crianças, na sua sala de aula:
A intencionalidade recreativa, pelo que pude observar no seu projeto, não necessita, de todo, de uma consequência visível, formal. A simplicidade de processos, nomeadamente o contar o conto numa condição mais íntima, … todo o grupo junto da contadora, no chão, a colocação de alguns objetos que contextualizam cada conto e proporcionam um ambiente propiciador, a tranquilidade proporcionada pela ausência de perguntas e respostas, permite sonhar, idealizar, inferir, projetar! (Linharelhos, 2019, p. 136).
De realçar, igualmente, que foi visível, para o docente, o envolvimento das crianças na Hora do Conto, pois quando lhe perguntámos – Acha que as crianças gostam deste momento? E dão-lhe importância? – a resposta obtida foi:
Fiquei plenamente convicto que sim e seguro da sua importância. Foi comum encontrar, por vezes não no próprio dia, alguns alunos a conversarem informalmente sobre o conto [...], alguns outros que me procuravam para me questionar sobre pormenores ou para se certificarem se perceberam bem. (Linharelhos, 2019, p. 137).
De facto, a observação e o acompanhamento da investigação-ação, pelo docente, levaram-no a valorizar uma mediação da leitura que se centra apenas no deleite, no prazer pela escuta e pela palavra.
Outras questões colocadas ao professor foram – Conta histórias com ou sem recurso a um livro? Ou realiza esta ação das duas formas? – às quais o docente respondeu que contava com livro, embora lesse expressivamente e procurasse acrescentar alguns pontos ao texto, a fim de despertar as emoções nas crianças.
Na resposta, a estas questões, vemos o cuidado do professor trazer o livro para a sala de aula. Podemos aqui confirmar, pela nossa observação participante, que, para além do manual escolar, as obras do Plano Nacional de Leitura faziam a sua entrada na sala de aula. Para a promoção de uma educação literária é fundamental o contacto das crianças com o livro, com a sua materialidade, pois permite às crianças, desde muito pequenas, tornarem o livro um objeto real, apropriarem-se dele (Salutto, 2020, Gonçalves, 2021) e dominarem toda uma metalinguagem em redor do mesmo. Por outro lado, pela resposta do docente, parece-nos que podemos intuir que a narração oral não estará presente na abordagem que este docente faz dos contos na sua sala de aula.
Para finalizar, perguntámos – Gostaria de acrescentar mais alguma coisa ao que foi dito? – tendo o docente respondido que considerava os contos e a leitura dos mesmos de extrema importância para o desenvolvimento das crianças. Acrescentou ainda, este docente, que na sua sala de aula a leitura dos contos tinham uma função terapêutica, pois acalmava as crianças, ajudava-as a concentrar-se e predispunha-as para as tarefas menos apreciadas.
Na verdade, parece-nos que este docente entendia esta função terapêutica dos contos como a possibilidade destas narrativas criarem nas crianças uma propensão para estarem, na sala de aula, mais dedicadas às atividades escolares, possibilitando-se um ambiente mais favorecedor para a realização dessas mesmas tarefas.
Devido à proximidade que tinha com este tema e às visitas que realizava à sala desta turma, para a dinamização da Hora do Conto, considerámos importante envolver, nesta investigação, a professora bibliotecária e, para tal, realizamos também uma entrevista a esta docente. Os dados seguintes, que apresentamos, dizem respeito à entrevista à professora bibliotecária.
Através das primeiras questões que lhe foram colocadas – A professora, quantos anos de serviço tem? Onde realizou a sua formação inicial? –, percebemos que esta professora bibliotecária tinha cerca de 19 anos de serviço e que realizou a sua formação numa Escola Superior de Educação.
À questão – Na sua formação inicial ou contínua, teve alguma disciplina onde tenha realizado uma abordagem à questão da Hora do Conto? –, a professora respondeu que na disciplina de Literatura Infantil tinham falado da importância da literatura para as crianças, mas que nunca se abordou a Hora do Conto.
As respostas dadas a estas questões apresentam-nos uma professora com alguns anos de docência. A sua formação inicial, afigura-se-nos, continua muito presente. Já a formação contínua, parece-nos ausente. Estes factos não deixam de ser surpreendentes, pois esta professora afirma que nunca abordou, na sua formação, a Hora do Conto, muito embora a dinamizasse nesta turma.
Na seguinte questão perguntou-se – Costuma ler ou contar livros de histórias para as crianças na Biblioteca? –, respondendo a docente que costumava ler histórias para as crianças, mas que nem sempre isso acontecia no espaço da biblioteca escolar. A docente referiu que este momento de leitura de histórias só acontecia quinzenalmente, uma vez que trabalhava em duas escolas, não estando, portanto, afeta unicamente à biblioteca escolar.
Na verdade, estas respostas da professora bibliotecária demonstram que, se no plano do discurso se valoriza o papel do professor bibliotecário e a leitura/narração de histórias, como se pode ver nos documentos, por exemplo, da Rede de Bibliotecas Escolares (Conde; Mendinhos; Correia, 2017), já no plano da ação há inúmeros constrangimentos a um trabalho efetivo, consistente e regular, no que diz respeito à promoção da leitura e da educação literária.
Na quinta questão perguntou-se – Como costuma organizar a Hora do Conto? –, tendo a professora respondido: “Costumo organizar em função da faixa etária/ano de escolaridade dos alunos. Procuro abordar alguma temática em particular, como temas relacionados com a cidadania e os valores ou em função das quadras festivas/ datas comemorativas.” (Linharelhos, 2019, p. 141). Ao questionarmos se – Dedica algum espaço específico para a Hora do Conto? –, a docente retorquiu que não, pois considerava que todos os espaços da biblioteca eram bons espaços para a dinamização da Hora do Conto.
Na verdade, as respostas desta docente a estas questões deixam-nos antever uma grande falta de conhecimento sobre a Hora do Conto e sobre a sua adequada organização. Não encontramos nas respostas nada relacionado com os diferentes momentos da Hora do Conto, com os cuidados a ter com a duração deste momento, ou com o espaço onde se desenrola, parecendo que a leitura/narração está intimamente ligada ou com comemorações, ou com a abordagem de temas que, aparentemente, servem para transmitir valores, parecendo que se esquece a função estético-literária da literatura.
Quando perguntámos se – A Hora do Conto é apreciada pelas crianças?, Acha que as crianças gostam deste momento? – a professora bibliotecária afirmou que a maioria das crianças gostavam muito da Hora do Conto e “Demonstram-no perguntando-me quando é que lhes conto outra história.” (Linharelhos, 2019, p. 142). A professora bibliotecária teve ainda o cuidado de acrescentar que procurava desenvolver o gosto pela Hora do Conto naquelas crianças que não apreciavam assim tanto este momento.
No final desta entrevista, a docente acrescentou:
[...] penso que todas as questões relacionadas com a leitura e com o fomentar esses hábitos nas crianças são da maior importância, uma vez que contribuem para a formação integral das crianças para poderem ser cidadãos conscientes, ativos e participativos na sociedade. (Linharelhos, 2019, p. 142).
Na verdade, esta professora bibliotecária apresenta, sobretudo, uma visão instrumental da leitura, valorizando o seu contributo, decerto muito importante, para a formação integral do cidadão. Contudo, ao longo desta breve entrevista, ficou esquecida uma visão da leitura por prazer, não se valorizando nem a subjetividade do leitor, nem as funções lúdica e estética da literatura.
A Hora do Conto
A observação de contextos anteriores, no âmbito da prática pedagógica, e a observação participante no contexto onde se desenrolou este estudo, levou-nos ao desenho de uma intervenção, onde se dinamizasse a Hora do Conto. Os objetivos desta intervenção eram ampliar o repertório literário das crianças e analisar as reações das crianças em relação à Hora do Conto.
Considerou-se de grande importância a oportunidade, consentida pela Hora do Conto, do contacto das crianças com os livros, com as histórias, com momentos de prazer com a leitura e com a escuta. A Hora do Conto é considerada um ritual que “permanece como uma das formas mais impressivas de cativar a criança e de estabelecer com ela as cumplicidades necessárias a uma semiose literária.” (Veloso, 2007, p. 4).
Ao longo da nossa prática tivemos a preocupação de escutar as crianças. Para tal fomos conversando com elas e fomo-las questionando sobre a leitura, sobre os livros e sobre a Hora do Conto. Desse questionamento, salientamos, neste estudo, algumas perguntas e as vozes de diversas crianças nas suas respostas. Assim, quando perguntávamos às crianças se gostavam de ler e de ouvir ler histórias, a sua grande maioria dizia que sim, associando a escuta a momentos de diversão, de prazer: “Eu gosto de ler e ouvir livros de histórias porque acho que é divertido.”; “Eu gosto de ouvir histórias porque as histórias são muito bonitas.”; “Eu gosto muito de escrever e de ouvir histórias porque são engraçadas e têm muitas palhaçadas e são divertidas.” (Linharelhos, 2019, p. 76).
Naturalmente, estas crianças também associavam a leitura a um processo de aprendizagem, o que era de esperar em contexto de sala de aula: “Eu gosto de ler e ouvir histórias porque é giro e posso aprender mais.”; “Eu gosto de ouvir histórias porque são divertidas e porque aprendemos a ler e ver como escrevem as palavras que nós não sabemos.” (Linharelhos, 2019, p. 77). As vozes das crianças permitiram-nos perceber que este grupo apreciava ler e ouvir ler, por puro prazer, por diversão, mostrando bastante interesse na palavra escrita.
A nossa observação participante, bem como as entrevistas aos docentes, permitiu-nos perceber que a frequência da leitura e de ouvir histórias, na sala de aula, para esta turma, era baixa. Deste modo, tentámos averiguar se as crianças gostariam de ouvir mais histórias e com uma maior frequência durante a semana. As vozes das crianças possibilitaram-nos o entendimento de que havia uma predisposição para ouvir histórias, pois todas elas foram dizendo que gostariam de escutar mais histórias e de as ouvir mais vezes durante a semana. Curiosa foi mesmo a partilha de uma criança: “Porque se não ouvíssemos histórias na escola nunca ouvíamos histórias.” (Linharelhos, 2019, p. 78), demonstrando que, para muitas crianças, a escola era o local onde elas podiam escutar a partilha da palavra. Aliás, os responsáveis pelo Plano Nacional de Leitura (PNL, s. d.) têm esta consciência, quando afirmam que “Na época actual a maioria das crianças não tem oportunidade de ouvir histórias no seio familiar. Cabe ao jardim-de-infância e à escola assegurar que lhes não falte essa experiência tão enriquecedora e tão importante para a aprendizagem da leitura.” (PNL, s.d., p.7).
A dinamização da Hora do Conto, no âmbito deste estudo, tinha a duração de trinta minutos e decorria semanalmente. Ao planear-se este tempo, decidiu-se que os textos teriam um fio condutor, que conferia uma determinada coerência a cada sessão; este fio condutor abrangeu os Contos Tradicionais do Mundo, Contos Tradicionais de Portugal, Todos Diferentes/Todos Iguais e Natal. Nestas sessões procurava-se, pois, que as crianças pudessem conhecer distintos textos, de diversos autores e ilustradores, de diferentes partes do mundo.
Em cada sessão houve uma composição do espaço, com objetos alusivos às obras, de forma a envolver as crianças e a facilitar a sua entrada no mundo da história. Esta preparação tinha a intenção de captar a atenção das crianças para a Hora do Conto e de as implicar nas histórias, ao chegarem à sala. As crianças demonstraram, desde o início, grande interesse nesta proposta, reagindo muito bem à sua implementação. Ao longo das sessões, fomos percebendo que, para este grupo, a Hora do Conto já era assumida como algo habitual na sua rotina semanal, como mostra este excerto das nossas notas de campo:
Quando cheguei nesse dia, a primeira pergunta que me fizeram foi:
M. – Vamos ter a Hora do Conto agora?
Professora – Sim!
M. – Boa!
Esta criança disse aquilo com tanto entusiasmo e vontade de ouvir ler uma história, que quando percebi, todas as crianças largaram as mochilas nos seus lugares e sentaram-se logo no chão, no sítio do costume, à espera que começasse. (Linharelhos, 2019, p. 109).
Com esta atitude as crianças revelaram que, para elas, este momento já integrava as práticas da sala de aula, dando-lhe a importância e a entrega devida.
Para que as crianças conseguissem uma boa visibilidade e para que existisse uma grande proximidade entre elas e a mediadora, decidiu-se que as crianças estariam sentadas no chão, em semicírculo, em frente à mediadora. Ao longo das várias sessões da Hora do Conto, fomos percebendo quando as crianças começavam a ficar cansadas e agitadas. Para que a atenção e a concentração se mantivessem, tomou-se a decisão de preparar e ajustar as histórias à capacidade de escuta das crianças. Com o tempo, foi-se conhecendo o grupo e adaptando a Hora do Conto às suas especificidades.
No âmbito deste estudo, descrevemos, em seguida, uma das sessões da Hora do Conto, por nós promovida na sala de aula. A sessão foi preparada com recurso a várias histórias. Nesta intervenção, a linha condutora consistia em Contos Tradicionais do Mundo. A preparação do ambiente teve a projeção do Planeta Terra, no quadro interativo; um estendal de bandeiras de vários países que caiam sobre esse quadro e um globo na secretária do professor. Ao entrarem na sala, as crianças ficaram maravilhadas com o ambiente, perguntando logo: “D., que bandeiras são estas?” (Linharelhos, 2019, p. 93), partilhando entre si e comigo que sabiam de que países eram algumas dessas bandeiras.
As histórias preparadas para esta primeira sessão foram “Mil-Peles”, do livro ContosdoMundo, de Tim Bowley e Óscar Villán; “A raposa azul”, da obra Araposaazul.Oitohistóriastradicionaiscom mensagensuniversais, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada; e a história FreiJoãosemcuidados de José Viale Moutinho. Antes de começar a Hora do Conto, pronunciou-se a fórmula inicial – No tempo em que os animais falavam… – e as crianças ficaram muito sérias, à espera do que iria acontecer. Iniciámos a mediação de leitura e fomos percebendo que as crianças estavam envolvidas e a adorar o momento. Com as ilustrações e as variações do tom de voz, conseguimos prender-lhes o olhar e a atenção, arrancando diversos risos e caras de espanto. A proximidade com a mediadora também ajudou bastante a que estas sensações fossem expostas e sentidas. Quando pronunciámos a fórmula final – Vitória, vitória, acabou-se a história -, uma criança questionou: “D., podes ler mais uma? É que eu gostei muito de todas as histórias.” (Linharelhos, 2019, p. 93). A limitação de tempo, que tínhamos para este momento, impediu-nos de continuar com a Hora do Conto.
A dinamização da Hora do Conto, ao longo do tempo, possibilitou que as crianças começassem a trazer os seus próprios livros de casa para a sala, e pediam para os ler. Outras, apesar de já terem lido determinada história, diziam: “Eu já li, mas quero ouvir outra vez” (Linharelhos, 2019, p. 95). Perante as evidências, discutimos com as crianças e com o professor da turma sobre o que deveríamos fazer, tendo acordado que, todos os dias, num determinado momento, três ou quatro crianças iriam ler pequenos excertos dos seus livros, para o restante grupo. No início, só dois ou três quiseram ler para o grupo. Após algum tempo, começaram a gostar do momento, tendo-se verificado grande afluência e grande sucesso. Algumas crianças evidenciaram melhorias na leitura. Deste modo, fomos compreendendo que a Hora do Conto tinha possibilitado uma entrada mais efetiva dos livros, na sala de aula, e momentos de leitura desejados, participados pelas crianças, onde o lúdico, o prazer e a emoção marcaram presença.
Conclusões
O estudo, que aqui apresentamos, integra um estudo mais vasto. Neste texto, trazemos a prática pedagógica de um professor de 1.º CEB, em relação à leitura e à Hora do Conto, e, dadas as características desta escola e desta sala de aula, mostramos também o trabalho, com esta turma, da professora bibliotecária. A nossa investigação pretendia levar até esta turma momentos de leitura/escuta por prazer, através das sessões da Hora do Conto.
Para este estudo, delineámos alguns objetivos que procurámos atingir, objetivos estes centrados nos docentes e nas crianças. Deste modo, podemos apresentar as conclusões deste estudo. Se nos centrarmos no objetivo enunciado – Conhecer qual a visão dos docentes sobre a Hora do Conto – podemos avançar como conclusão que os docentes entrevistados revelaram que dão importância, no plano do discurso, à leitura, à Hora do Conto, à literatura e aos livros. Porém, no plano da ação, foi possível compreender que estes docentes mostraram uma grande falta de conhecimento sobre o que é a Hora do Conto e sobre a forma como este momento deve ser planeado e posto em prática.
Tendo em atenção o objetivo ampliar o repertório literário das crianças, podemos afirmar que, quer os livros e as histórias partilhadas durante a Hora do Conto, quer os livros que as crianças trouxeram para a sala de aula, possibilitaram uma real ampliação do repertório literário destes alunos. As reações das crianças, ao longo de toda esta investigação, permitem-nos afirmar o seguinte:
as crianças reconheceram que não ouviam ler muitas histórias;
as crianças reconheceram que não ouviam ler histórias frequentemente;
as crianças reconheceram que se não fosse na escola, não ouviam histórias noutros locais;
as crianças afirmaram que gostavam de ler, de ouvir histórias;
as crianças afirmaram que ler e ouvir histórias era divertido;
as crianças afirmaram que também aprendiam quando liam ou ouviam histórias;
as crianças envolveram-se afetivamente com a Hora do Conto;
as crianças, progressivamente, foram trazendo livros de casa para a escola;
as crianças, paulatinamente, foram lendo para os seus colegas;
algumas crianças foram evidenciando melhorias ao nível da competência da leitura.
Desta maneira, consideramos que também foi possível atingir um outro objetivo (analisar as reações das crianças em relação à Hora do Conto), definido por nós para este estudo.
Dado que as questões de investigação deste estudo eram – Como estimular nas crianças o prazer/gosto pela leitura? Quais os contributos da Hora do Conto para um maior contacto das crianças com o livro e a leitura no 1.º CEB? – podemos concluir, com os resultados mostrados ao longo deste texto, que é possível estimular, na sala de aula, nas crianças, o gosto pela leitura, nomeadamente através da Hora do Conto, dado que este momento permite o contacto com as histórias, com os livros, consentindo um tempo de qualidade, de emoção, de prazer em redor da palavra escrita e escutada.
Naturalmente que consideramos que estamos, ainda e apesar de muitos estudos, no plano do discurso, pois o plano da ação, pelo menos nesta sala de aula, continuou muito aquém do desejável, dado que com o final da nossa investigação também se deu o término da Hora do Conto, tal como a revisão de literatura a concebe e como nós a interpretámos e glosámos na nossa investigação.
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