Dossiê: Práticas de linguagem na infância: ensinar e aprender na perspectiva discursiva e enunciativa

O desenvolvimento da linguagem oral e escrita a partir de brincadeiras com crianças na Educação Infantil: uma experiência na formação docente

The development of oral and written language through games with children in Early Childhood Education: an experience in teacher training

El desarrollo del lenguaje oral y escrito a través del juego con niños en Educación Infantil: una experiencia en la formación docente

Valéria Suely Simões Barza
Universidade Federal do Agreste de Pernambuco - UFAPE, Brasil
Thaynah Brito Barra Nova
Universidade Federal do Agreste de Pernambuco - UFAPE, Brasil

O desenvolvimento da linguagem oral e escrita a partir de brincadeiras com crianças na Educação Infantil: uma experiência na formação docente

Olhar de Professor, vol. 27, pp. 01-18, 2024

Universidade Estadual de Ponta Grossa

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Recepción: 29 Junio 2024

Aprobación: 15 Octubre 2024

Resumo: O presente artigo visa relatar e analisar seis experiências práticas desenvolvidas pelos estudantes do curso de Licenciatura em Pedagogia da UFAPE nas escolas municipais de Garanhuns-PE, envolvendo brincadeiras com crianças, tendo como foco as linguagens oral e escrita. Para as análises dos relatos aqui apresentados, tomamos como referencial a Análise de Conteúdo, segundo Bardin (1977). Recebemos dos licenciandos 16 relatos de brincadeiras: traçamos um plano de análise, escolha e seleção, em seguida identificamos as características e peculiaridades em cada experiência relatada. As atividades analisadas envolveram a organização de sala de aula com brinquedos e outros recursos didáticos simulando hospitais, mercadinhos, festa de aniversário e contos de fadas. As análises dos relatos revelaram que o brincar e as interações aqui expostas constituem elementos importantes para o desenvolvimento e aprendizagens das crianças e para os estudantes em formação, assim evidenciados a partir das reflexões dos futuros pedagogos nas situações sociocomunicativas reveladas nas brincadeiras.

Palavras-chave: Brincadeiras, Oralidade, Escrita, Educação Infantil.

Abstract: This article aims to report and analyze six practical experiences developed by students on the UFAPE Degree in Pedagogy course in municipal schools in Garanhuns-PE, involving games with children focusing on oral and written languages. To analyze the reports presented here, we took Content Analysis as a reference, according to Bardin (1977). We received 16 reports of games from graduates, we drew up a plan for analysis, choice and selection, then we identified the characteristics and peculiarities in each reported experience. The activities analyzed involved organizing a classroom with toys and other teaching resources simulating hospitals, grocery stores, birthday parties and fairy tales. Analysis of the reports revealed that playing and the interactions exposed here constitute important elements for the development and learning of children, for students in training, evidenced from the reflections of future pedagogues in the socio-communicative situations revealed in the games.

Keywords: Games, Orality, Writing, Early Childhood Education.

Resumen: Este artículo tiene como objetivo relatar y analizar seis experiencias prácticas desarrolladas por estudiantes de la Licenciatura en Pedagogía de la UFAPE en escuelas municipales de Garanhuns-PE, involucrando juegos con niños enfocados en el lenguaje oral y escrito. Para analizar los informes aquí presentados, tomamos como referencia el Análisis de Contenido, según Bardin (1977). Recibimos 16 relatos de juegos de egresados, elaboramos un plan de análisis, elección y selección, luego identificamos las características y peculiaridades de cada experiencia relatada. Las actividades analizadas implicaron la organización de un aula con juguetes y otros recursos didácticos simulando: hospitales, tiendas de alimentación, fiestas de cumpleaños y cuentos de hadas. El análisis de los relatos reveló que el juego y las interacciones aquí expuestas constituyen elementos importantes para el desarrollo y aprendizaje de los niños, de los estudiantes en formación, evidenciado a partir de las reflexiones de los futuros pedagogos en las situaciones sociocomunicativas reveladas en los juegos.

Palabras clave: Juegos, Oralidad, Escritura, Educación Infantil.

Introdução

O estudo da oferta de escolarização no Brasil nos revela que o atendimento às crianças pequenas nas instituições escolares, historicamente, não era realizado por profissionais formados para a docência. Este cenário contribuiu para o desenvolvimento de atividades com ênfase na preocupação com a higiene e a proteção das crianças, sem a presença de uma intencionalidade pedagógica ou da promoção de desenvolvimento e aprendizagens. Contudo, a partir da Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988) o país assume a educação como um direito para as crianças e suas famílias e, com o advento da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB, Lei nº 9394/1996 (Brasil, 1996), determina a presença de profissionais para atuar nas creches e pré-escolas.

Na intenção de valorizar a profissionalização docente, o presente artigo visa analisar experiências práticas desenvolvidas em turmas da Educação Infantil pelos licenciandos do curso de Pedagogia da UFAPE nas escolas municipais de Garanhuns-PE, envolvendo brincadeiras com crianças e tendo como foco as linguagens oral e escrita. Os relatos das brincadeiras aqui apresentados foram o produto final da atividade avaliativa proposta pela docente na disciplina Educação Infantil II, que tem como conteúdo curricular a ser explorado: “as linguagens da criança; fala, oralidade, escrita e letramento; possibilidades de trabalho com a linguagem na Educação Infantil”, e como objetivo “Discutir as possibilidades de tratamento didático da oralidade na Educação Infantil” (PPC do curso de Licenciatura em Pedagogia UFAPE, 2024). Escolhemos essa atividade por proporcionar aos licenciandos experiências práticas nas salas de aula, aproveitando a oportunidade de intervenções a partir da disciplina de estágio obrigatório na Educação Infantil3.

Sabemos que o brincar é um elemento constitutivo do ser criança, através do qual ela constrói conhecimentos. Portanto, nada mais prático e prazeroso do que articular as aprendizagens das linguagens oral e escrita com a brincadeira. Assim, na proposição da atividade avaliativa tomou-se como ponto de partida o caráter pedagógico inerente a essa etapa, evidenciado pela intencionalidade de planejar as brincadeiras. Consideramos, ainda, a importância do brincar no desenvolvimento das crianças e de suas aprendizagens, pois entendemos que as práticas desenvolvidas nessa etapa da Educação Básica precisam promover aprendizagens dinâmicas e prazerosas com e para as crianças.

Os nossos objetivos formativos para os licenciandos da Pedagogia foram: a) a desconstrução de práticas desmotivadoras, ainda muito presentes no cotidiano das instituições escolares da Educação Infantil; e b) vivenciar o planejamento e a execução de experiências brincantes, estimulando o desenvolvimento das diferentes linguagens, oral e escrita.

A atividade foi desenvolvida em dupla, mas alguns licenciandos realizaram-na individualmente. Assim, eles planejaram as atividades, em seguida puderam vivenciar as brincadeiras e, posteriormente, produziram os relatos das experiências, tomando as crianças como protagonistas desse brincar e também como centro do planejamento. Então, mais do que a oportunidade de planejar situações lúdicas, os licenciandos tiveram a chance de promover experiências com as crianças, vivenciando a observação, avaliação e o registro das atividades para a elaboração da atividade final: o relato das brincadeiras. Consideramos que esses elementos são importantes para uma formação docente consolidada na prática.

Sobre as práticas e os saberes docentes, Ferreira e Albuquerque (2021) destacam que ao nos debruçarmos sobre esse tema, tomamos como referência o contexto escolar, pois é nele onde as práticas e os saberes docentes são constituídos. Neste sentido, nos parece importante promover experiências práticas com os licenciandos para que possam interagir com as crianças e conhecer, de modo mais aprofundado, a realidade escolar ainda durante a formação inicial do profissional para atuar na Educação Infantil. A proposta de trazer os relatos das experiências práticas, nos permite dar ênfase a uma formação consolidada “por meio de uma compreensão crítica de seu processo de formação (Ferreira e Albuquerque, 2021, p. 17).

Deste modo, apresentamos uma discussão sobre o desenvolvimento das linguagens oral e escrita na Educação Infantil, a partir das brincadeiras, considerando as contribuições de Vygotsky (1998) e Kishimoto (1999). Em seguida, descrevemos o contexto metodológico de análise dos relatos escritos pelos licenciandos da Pedagogia e as brincadeiras por eles relatadas. Por fim, tecemos considerações sobre a experiência formativa vivenciada pelos licenciandos.

Discutindo a relação entre brincadeira e aprendizagem das linguagens oral e escrita

A ideia de tomar a brincadeira para o desenvolvimento de experiências das crianças com as linguagens oral e escrita encontra respaldo na perspectiva de linguagem proposta por Bakhthin e Volochinov (2006), pois, para os autores, a língua é um elemento dinâmico e não estático para a vida em sociedade, que se desenvolve em situações sócio comunicativas de uso cotidiano da linguagem.

Relacionando as linguagens e a brincadeira, Vygotsky (1998) compreende o brincar como elemento imprescindível para a criação da Zona de Desenvolvimento Proximal, uma vez que pode contar com a presença do adulto na mediação das aprendizagens, sabendo que essa mediação acontece por meio da linguagem. Kishimoto (1999) também ressalta a possibilidade de desenvolvimento das crianças e das suas diferentes linguagens a partir do jogo ou da brincadeira.

O brincar e as brincadeiras, enquanto práticas pedagógicas, são legitimadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil - DCNEI (Brasil, 2009). De acordo com o referido documento, as propostas pedagógicas de Educação Infantil devem respeitar os princípios éticos, políticos e estéticos, e a ludicidade é considerada como parte dos princípios estéticos que norteiam essas ações. Tais princípios são assim descritos:

Éticos: da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e do respeito ao bem comum, ao meio ambiente e às diferentes culturas, identidades e singularidades

Políticos: dos direitos de cidadania, do exercício da criticidade e do respeito à ordem democrática.

Estéticos: da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e da liberdade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais. (Brasil, 2009, p. 16)4

Além de indicar a ludicidade como um dos princípios estéticos - que pode se revelar no brincar das crianças, as DCNEI destacam a “liberdade de expressão nas diferentes manifestações culturais”, como a que se faz presente na experiência brincante, possibilitando inferirmos que a brincadeira se torna um elo entre a sensibilidade/expressividade e a produção cultural. Neste sentido, ao compreender a ludicidade como princípio, o lúdico passa a fazer parte do cotidiano das práticas desenvolvidas com as crianças, dinamizando a rotina escolar e contribuindo com a desconstrução de práticas que restringem o brincar aos horários controlados e específicos, como o recreio.

Em relação à oralidade, Marcuschi e Dionísio (2007) destacam a importância de promover o desenvolvimento da linguagem oral como “um passo relevante e sistemático para o trabalho com a escrita” (p. 14). No cotidiano falamos mais do que escrevemos, desde a hora em que acordamos até quando vamos dormir. Contudo, sabemos que ao longo do processo de escolarização o ensino da escrita obtém mais centralidade do que o ensino da oralidade. No sentido de não artificializar o ensino da oralidade na Educação Infantil, entendemos que as crianças podem fazer uso do discurso oral e das práticas sociais de uso da escrita a partir de brincadeiras.

Para Costa e Gontijo (2011) parece difícil dissociar o brincar da oralidade em situações sócio comunicativas, pois a linguagem oral é considerada o elemento que integra o brincar das crianças, uma vez que nas brincadeiras é possível recriar situações reais do cotidiano infantil envolvendo situações comunicativas das quais participam e produzem cultura. Através das brincadeiras as crianças adequam os seus discursos às situações propostas, desempenham papéis sociais diversos e atribuem novos significados aos objetos presentes nas brincadeiras. Através dessas situações, as crianças aprendem e apreendem simbolismos importantes para as futuras aprendizagens da língua escrita.

Embora o brincar seja considerado uma atividade inerente às crianças, é possível constatar que em algumas instituições de Educação Infantil a brincadeira está restrita apenas ao recreio, tendo em vista a presença constante de Programas educacionais baseados no uso de materiais estruturados (apostilados), bem como, a presença dos livros didáticos, que restringem as crianças a ficarem sentadas realizando atividades de papel. Presenciamos no cotidiano dessas escolas o desafio de promover interações das crianças com a leitura e a escrita de modo prazeroso e lúdico, mantendo- as presas a cópias de cabeçalhos ou escritas repetitivas de padrões silábicos ou letras do alfabeto.

Contribuindo com o debate, Kramer (2010) nos lembra que há, também, considerações sobre as crianças compreendendo-as como seres frágeis e indiferentes à escrita, cabendo à escola de Educação Infantil se constituir em um espaço apenas de brincadeiras. Tais cenários, para Kramer (2010), ilustram como a relação entre leitura e escrita na Educação Infantil ainda constitui um “tabu”. Araújo (2017) corrobora, revelando que existem inconsistências quando sugerimos práticas lúdicas e reflexivas para o ensino da língua materna nos seus diferentes eixos (leitura, escrita e oralidade). A autora evidencia polarizações existentes nas práticas desenvolvidas na Educação Infantil, principalmente quando se trata do ensino da escrita. Ora a escola de Educação Infantil é vista como espaço do brincar, ora como etapa preparatória para o Ensino Fundamental, com conteúdos descontextualizados e práticas enfadonhas. No entanto, a autora enfatiza que é possível desenvolver e mobilizar aspectos notacionais e fonológicos da língua escrita junto às crianças pequenas, promovendo práticas socioculturais significativas e brincantes, em situações reflexivas, levando-se em conta o pensamento da criança e seus modos de aprender e de participar da cultura letrada (Araújo, 2019, p. 08).

Deste modo, compreendemos tal como Morais (2019), Soares (2020), Araújo (2017), Brandão e Leal (2010), Barza e Albuquerque (2021) que é possível promover práticas reflexivas envolvendo a leitura, escrita e oralidade, desenvolvendo aprendizagens com as crianças de forma lúdica e a partir de situações sócio discursivas, mobilizadas pelas brincadeiras. Para tanto, é importante desconstruir práticas que ainda persistem em promover um ensino artificializado da língua escrita, onde as crianças aprendem primeiro as vogais, depois as consoantes, ou são expostas à memorização de padrões silábicos para formar palavras e frases, sem vivenciar situações reais de uso da escrita e da oralidade, como, por exemplo, uma lista de compras, um bilhete ou um cartão de aniversário para um colega. Enfatizamos ainda o compromisso da primeira etapa da Educação Básica com o caráter pedagógico de suas práticas, tomando como eixo do trabalho pedagógico as brincadeiras e interações entre as crianças, contando com a presença de um adulto que atua como mediador nessas interações.

Queremos destacar neste artigo as experiências entre os licenciandos da Pedagogia e as crianças, evidenciando vivências pedagógicas desenvolvidas que consideravam as linguagens oral e escrita a partir da brincadeira.

Contexto metodológico: do planejamento aos relatos de experiência com as crianças

A pesquisa em tela é de natureza qualitativa e de caráter documental (Ludke e André, 1986) uma vez que utilizamos como objeto de análise os relatos das experiências de brincadeiras realizadas pelos estudantes do curso de Licenciatura em Pedagogia. Para a análise dos relatos aqui apresentados, tomamos como referencial a Análise de conteúdo, segundo Bardin (1977). Para a autora considera-se Análise de conteúdo como um “conjunto de instrumentos metodológicos [...] que se aplicam a discursos extremamente diversificados” (p.9).

Seguindo a proposta da referida autora, na fase de pré-análise (p.95), recebemos dos licenciandos de Pedagogia 16 trabalhos, parte da atividade da disciplina proposta pela docente, tal como já foi mencionado. Neste momento, o nosso objetivo foi “traçar um plano de análise” e selecionar os relatos, identificando aqueles que continham, de fato, uma atividade com brincadeira envolvendo a oralidade e ou situações com a escrita. Vale relembrar que as atividades foram realizadas em dupla e, do total entregue, apenas uma foi realizada individualmente. Após uma análise mais atenta, realizamos a exploraçãodomaterial (p.101), identificando que apenas seis atenderam a proposta de planejamento de vivência de atividades envolvendo a brincadeira de faz de conta. Segundo a terceira etapa do processo de Análise de conteúdo, passamos para o tratamentoeanálise domaterial (p.101), identificando suas características e peculiaridades em cada experiência relatada.

De um modo geral, todas as atividades propostas pelos licenciandos e desenvolvidas nas turmas da educação infantil envolveram atividades lúdicas tais como: jogo de bingo, brincadeira com gêneros da tradição oral (parlendas, trava-línguas, quadrinhas, etc); experiências com receitas; atividades com desenhos e produção de brinquedos com material reciclável. Mesmo fugindo um pouco das orientações iniciais para o desenvolvimento das atividades a partir do faz de conta, percebemos a preocupação dos licenciandos em promover uma atmosfera lúdica e a intenção de apresentar as crianças como protagonistas das experiências.

Diante do objetivo deste artigo, teremos como corpus desta pesquisa os seis relatos que envolveram a brincadeira de faz de conta com crianças na faixa etária de três a cinco anos de idade em escolas da rede pública ou particular.

Analisando as experiências com brincadeiras e discutindo resultados

As atividades propostas pelos licenciandos para o desenvolvimento das brincadeiras envolveram a organização dos espaços com brinquedos e outros recursos didáticos simulando hospitais (duas atividades); mercadinhos (duas atividades); festa de aniversário (uma atividade) e contos de fadas (uma atividade).

Com o intuito de demonstrar o desenvolvimento dos licenciandos em formação, apresentamos a seguir um recorte das brincadeiras, identificadas como Atividade 1 seguindo a sequência até a Atividade 6. Destacamos as características das atividades planejadas, uma vez que lidamos com o docente em formação, ressaltando os aspectos que eles próprios consideraram relevantes mediante as experiências vivenciadas.

Médico, enfermeiro, pacientes: brincando de hospital

A Atividade1 foi desenvolvida em uma escola da rede pública, contando com sete crianças de 3 anos de idade, a partir da organização do espaço como um hospital. As licenciandas levaram um kit médico de brinquedo contendo: vacina, termômetro, caixa de curativos, estetoscópio, cartão de identificação e martelo de reflexos. O mini hospital contava com uma recepção, onde os pacientes aguardavam a consulta, um leito hospitalar de internação e o consultório.

A brincadeira teve início com a indagação às crianças sobre os papéis que cada uma gostaria de protagonizar. Apenas uma criança (identificada como H)5 se voluntariou a ser o médico. As demais crianças assumiram personagens indicadas pelas licenciandas: D foi o enfermeiro, J foi a mãe do paciente, N era o paciente e as demais crianças (MJ, ME e V) ficaram na recepção aguardando a consulta. A brincadeira inicia-se com o seguinte diálogo:

D, o Enfermeiro, disse: “Não pode consultar dois. Um de cada vez.” H, o Médico, foi até os pacientes e disse: “Ela tem que tomar injeção”. Intervenção: “Por que tem que tomar injeção, H?”

H respondeu: “Tá doente... da cabeça.”

Nesse momento ele prescreve uma receita para ela tomar injeção e D aplica no braço da paciente. J permanece com o papel de mãe. (Atividade 1)

No relato de experiência da Atividade1 as licenciandas de Pedagogia destacaram a sua compreensão de que “brincar de faz de conta possibilita que as crianças possam desenvolver sua oralidade, sua escrita, perder a timidez, tomar gosto por teatro. Podem se tornar protagonistas do seu desenvolvimento, se superando e se motivando”, como podemos observar em outro recorte do relato apresentado abaixo:

Analisando o desenvolvimento da brincadeira, constatamos que as crianças se divertiram bastante, mas algumas tinham maiores dificuldades para se “soltarem”. Tínhamos o intuito de estimular a oralidade das crianças e as noções delas sobre como funciona um ambiente hospitalar, trazendo elementos das suas vivências. Como as crianças estavam em uma fase que ainda não desenvolveram a escrita, elas ainda estavam aprendendo a fazer seus nomes, não tínhamos como foco a escrita. Tivemos um único momento no qual conseguimos avaliar a escrita, quando H simulou uma receita, na qual ele desenhou alguns traços. Notamos também que algumas crianças conheciam alguns instrumentos do kit médico de brinquedo e que sabiam como utilizar (Atividade 1).

Curioso ressaltar que, mesmo não sendo o foco estimular o uso da escrita com as crianças, a própria situação possibilitou o uso e a funcionalidade da escrita de modo prático, no momento de “receitar” ao paciente. A partir dos comentários das licenciandas perante a brincadeira, nota-se que o brincar permite à criança não apenas o desenvolvimento das linguagens, mas também concede às docentes em formação avaliar o desenvolvimento das crianças, quando identifica a escrita inicial da criança ao afirmarem “desenhou alguns traços”.

A Atividade2 foi outra brincadeira de faz de conta simulando um hospital, que envolveu duas crianças, com quatro e cinco anos de idade. A intenção da licencianda foi proporcionar às crianças uma experiência lúdica de simulação de situações relacionadas ao ambiente hospitalar, estimulando a imaginação, a criatividade e o aprendizado sobre cuidados com a saúde. As crianças foram convidadas a assumir diferentes papéis, como médico, enfermeiro e paciente, e foram orientadas sobre como proceder durante a brincadeira. A estudante em formação disponibilizou para a brincadeira os seguintes brinquedos: seringa, curativos, band-aids, e um estetoscópio.

Mediadora: Vocês já foram no médico, né? Vamos brincar de hospital, o que acham?

A: Sim, minha mãe trabalha no hospital e eu vou ser médica quando crescer, sabia?

A: B, deite aqui na cama. Você tá muito doente. O que você comeu, hein? B: Minha barriga dói. Eu comi bolacha.

A: Você tem que comer frutas e salada, ou você vai ficar muito doente e morrer! (ambas riram).

A diz: Tem que tomar injeção. Nossa, vai doer! Eu chorei muito quando fiquei doente da garganta e tomei injeção na bunda, lembra?

A: Vem B, você vai ficar boazinha.

A diz pegando a seringa e aplicando, superficialmente no braço de B, que finge um choro e logo em seguida começa a rir.

A diz: No braço nem dói tanto e ela chorou.

A: Eu vou escrever pra ela comer saladas, bananas e tomate, e tomar comprimido. A criança procurou uma caneta e um caderno onde rabiscou uma “receita”.

A diz entregando a receita: Aqui está moça; você precisa voltar no outro dia, tá certo?

B: Eu acho que tô curada, obrigada, um beijo! No outro dia eu vou trazer minha filhinha pra tomar injeção também, ela tá tossindo.

A: Pode trazer. Eu vou ouvir seu coração, deita. A criança pega o estetoscópio de brinquedo e coloca no peito da “paciente”.

Ao final, A diz: aham, você tá curada! B: tchau médica!

A futura pedagoga relata sobre a sua experiência em proporcionar uma brincadeira de faz de conta, que é evidente que as crianças demonstram uma série de habilidades cognitivas, sociais e emocionais em ação. Elas apresentaram um alto nível de observação e participaram de forma ativa, trazendo experiências prévias relacionadas às visitas médicas e aos cuidados de saúde em suas famílias. Isso sugere que elas estão conectando a brincadeira ao seu próprio contexto de vida, o que enriquece a experiência. Ao assumirem diferentes papéis dentro da brincadeira, as crianças demonstraram capacidade de expressão criativa, imaginando cenários, personagens e situações fictícias. Elas utilizaram seus conhecimentos prévios e suas experiências pessoais para dar vida aos personagens que estão interpretando.

Analisando os comentários da estudante após a brincadeira identificamos, tal como afirma Tardif (2002), a presença de saberes adquiridos na experiência. Brincar com as crianças e, em outros momentos, observá-las brincando, permitiu que a licencianda identificasse que as crianças trazem no brincar vivências do seu cotidiano e, deste modo, produzem uma cultura própria do ambiente em que vivem. Esses saberes práticos passam a ser incorporados na prática, consolidando o saber-fazer do docente.

Clientes, consumidores, vendedores, caixas de supermercado: mobilizando conhecimentos matemáticos

As duas Atividades (Atividades 3 e 4) que iremos apresentar envolveram o faz de conta em um Mercadinho.

A Atividade3 foi realizada em uma turma de Pré-escola (crianças de quatro e cinco anos de idade). O espaço foi organizado com bancas (expositores dos produtos) e os alimentos dispersos sobre elas para exposição. Foi distribuído às crianças um pequeno pedaço de papel para que escrevessem uma lista de compras, em seguida, as licenciandas perguntaram às crianças quem gostaria de assumir os papéis de vendedores e caixas de supermercado. Como todos demonstraram interesses em assumir esses papéis, a brincadeira se repetiu até que todos pudessem representar cada um na sua vez. A turma nomeou o mercadinho de: “Mercadinho das gostosuras”. Como destaque da experiência, evidenciamos o diálogo a seguir:

N: "Eu quero esse salgadinho, mas a tia disse que não era saudável."Ao ouvir isso, V, da barraca ao lado exclamou: "É verdade, mas olha só, aqui na minha barraca tem umas frutas bem gostosas e saudáveis. Você pode experimentar uma maçã ou uma banana!"

N: "Humm, acho que vou pegar uma maçã então. Obrigado!"Dando sequência, uma das crianças, ao fazer as compras, resolveu olhar na lista para ver o que faltava, em seguida se direcionou à banca que continha industrializados.

J: Olha só, tá faltando o biscoito! Eu adoro biscoitos!

C: Eu também gosto de biscoitos! Vamos pegar um pacote?

J: Sim, e olha ali, tem leite! Acho que vamos precisar de leite para o lanche. C: Boa ideia!

Ao completar suas compras, a dupla de crianças se dirige ao caixa seguindo a fila para efetuar o pagamento.

A: "O total dos seus produtos é... hum... mil reais!"

J: (com os olhos arregalados) "Mil reais?! Mas como assim? Eu só peguei alguns biscoitos e um pacote de leite!"

A: "Ah, é verdade! Desculpe, me enganei. Na verdade, são... hum... um milhão de reais!"

J: (incrédulo) "O quê?! Um milhão de reais por biscoitos e leite?

A: “Sim.”J: “"Ah! Aqui está o dinheiro então."

I: (aliviada) "Ufa, que susto! Aqui está o seu dinheiro." (Atividade 3)

Após a experiência da brincadeira as estudantes registraram em seu relato as observações, sentimentos, impressões e avaliações sobre a atividade vivenciada. Destacaram a oportunidade de as crianças escreverem espontaneamente, a partir da lista de compras.

No que se refere aos conhecimentos matemáticos, as crianças demonstraram que não tinham noção real do dinheiro. No entanto, as licenciandas ressaltam que a brincadeira de faz de conta é crucial para o desenvolvimento das crianças sobre os usos e funções sociais da linguagem escrita, como podemos ver no relato abaixo apresentado:

Após várias interações divertidas no mercado de faz de conta, é evidente que as crianças desfrutaram de uma experiência rica em aprendizado e imaginação. Ao assumirem papéis de vendedores, compradores e caixas de supermercado, elas não apenas se divertiram, mas também desenvolveram habilidades sociais, matemáticas e de oralidade. A brincadeira proporcionou um ambiente seguro para as crianças explorarem conceitos como troca, negociação e tomada de decisões. Além disso, promoveu a cooperação e a colaboração entre os participantes, ao ajudarem uns aos outros a escolherem alimentos saudáveis, corrigirem erros nas contas do caixa e compartilharem risadas sobre as situações exageradas, as crianças fortaleceram seus laços sociais e aprenderam a importância do trabalho em equipe. Por fim, a brincadeira de faz de conta lhes mostrou, ainda, a importância de usar a imaginação e a criatividade para explorar o mundo ao seu redor. Assim, podemos concluir que brincadeiras como essas não são apenas momentos de entretenimento, mas também oportunidades valiosas para o desenvolvimento integral das crianças, tanto físico quanto emocional, cognitivo e social. (Atividade 3)

Identificamos, a partir das reflexões acima, a relação entre os saberes teóricos e práticos (Tardif, 2002) revelados pelas licenciandas, reconhecendo a brincadeira como, de fato, um elemento importante para o desenvolvimento integral das crianças.

Como já mencionado, a próxima atividade, Atividade4, envolveu também uma experiência com mercadinho, mas, trouxe elementos diferenciados. A experiência foi organizada no pátio interno da escola com crianças de quatro e cinco anos de idade. As futuras professoras providenciaram cédulas de R$ 2,00; R$ 50,00 e R$100,00, confeccionaram uma máquina registradora para ser o caixa do mercado e trouxeram imagens de alimentos para serem vendidos. Também foram disponibilizados lápis e papel para o grupo escrever lista de compras, antes de irem ao mercadinho. Cada criança teve a oportunidade de usar a escrita do jeito que sabia: umas faziam desenhos, outras rabiscos e algumas desenhavam de acordo com o tamanho do alimento. O papel de caixa de supermercado ganhou destaque entre as crianças e, como muitas queriam assumir, este foi revezado entre elas. Após toda a organização, travou-se o diálogo abaixo:

P: Oi, eu queria passar estas compras. A: Está bem, espera aí.

A: É uma melancia, um biscoito e um refrigerante foram 5 mil reais. P: Está bem, tome aqui o dinheiro, obrigada!

Outras crianças passam no caixa

R: Boa tarde! Eu queria passar essas compras, dois biscoitos, refrigerante, bala, salgadinho, pão e iogurte.

A: Tá certo, suas compras foram 2 reais. Roberta: Aqui o dinheiro! (Atividade 4)

Notamos, a partir do fragmento, que as crianças não tinham conhecimento em relação aos valores numéricos e monetários. Mesmo assim, segundo as estudantes da licenciatura, as crianças se mostraram muito animadas durante a brincadeira e se divertiram muito no faz de conta.

Ressaltamos que além da importância das interações evidenciadas nas brincadeiras as licenciandas de Pedagogia oportunizaram situações reais de uso e funcionalidade da escrita, ainda que as crianças não tenham o domínio sobre o sistema notacional, nem sobre o sistema numérico. Tal estratégia didática é recomendada por diferentes autores como Brandão (2020); Albuquerque e Brandão (2020); Brandão e Leal (2010); Soares (2020); Morais (2019) e Araújo (2017), uma vez que a brincadeira se situa como elemento no qual as crianças potencializam o uso da leitura e da escrita como atividades discursivas, atribuindo sentido a essas práticas.

Brincando de montar uma festa e de encenar personagens de contos de fadas

A Atividade 5 se desenvolveu na esfera da preparação de uma festa de aniversário. A atividade proposta pelas licenciandas de Pedagogia foi desenvolvida numa turma de Pré-escola e envolveu 11 crianças com quatro anos de idade. A temática da festa se desenvolveu a partir de atividades prévias com a leitura de um livro de literatura; no enredo havia uma festa de um ursinho (personagem do livro). Buscando contextualizar a atividade e identificar os conhecimentos das crianças sobre a temática, as licenciandas questionaram “Quem gosta de festa? O que tem em uma festa?”. Encontraram, portanto, respostas diversas entre as crianças: “balões, bolo, docinhos, salgadinhos”. Segundo as licenciandas, foi possível perceber que as crianças demonstraram conhecimentos sobre alguns dos elementos presentes em uma festa. Em seguida, fizeram a seguinte proposta:

Professora regente: O que vocês acham de a gente preparar uma festa de aniversário pra ele (Teddy, nome do ursinho)? Vamos?

V- Vamos, eu vou fazer um bolo gigante L- Eu também!

Licencianda - Mas com que será que essa festa vai ser feita? L- Não sei!

P- Com massinha! (Atividade 5)

É importante destacar que as licenciandas buscaram utilizar os materiais didáticos disponíveis no momento, sem perder de vista a oportunidade de desenvolver a atividade proposta. Neste sentido, a brincadeira proporcionou às crianças o emprego lúdico de “objetos”, traço específico da brincadeira, pois Costa e Gontijo (2012) ressaltam, conforme Elkonin (1998), que ao brincar, as crianças modificam o significado dos objetos na sua apresentação original e adquirem uma nova significação. Neste sentido, a massinha, nas diferentes cores que se apresentam, foi transformada em bolo de chocolate, docinhos, brigadeiros e balões, elementos constituintes da festa de aniversário do ursinho. Durante a brincadeira observaram as estudantes que várias crianças conversavam e travou- se o seguinte diálogo:

Professora regente - E brigadeiro é desse tamanho? V- Ah, é porque o meu é um brigadeirão!

P- Então tudo bem!

Licencianda - E o de vocês MF e L? Tem certeza que brigadeiro é desse tamanho? MF e L dizem- Sim!

Licencianda - Será que o Teddy vai conseguir comer esse brigadeiro gigante? Vamos ver?

Licencianda - Viu? Como a boquinha dele é pequena, se ele comer esse, ele vai ficar assim (Inchando as bochechas de ar)MF- Então vamos fazer brigadeiros menores pra ele comer L diz: Vamos, eu ajudo! (Atividade 5)

A brincadeira foi se desenvolvendo e as crianças buscaram novas substituições de objetos, exercitando o jogo simbólico na brincadeira.

AL- Tia, eu quero um pratinho!

Licencianda - Eita! Os pratinhos acabaram, e agora? O que a gente faz? Diz a estudante entrando no jogo simbólico.

AL- Não sei!

Licencianda - Vamos achar outra coisa ali no armário de brinquedos que pode servir como um pratinho? A criança confirmou com a cabeça, levantou-se e foi até o armário.

AL- Isso serve, tia? Diz perguntando e segurando pequenas peças quadradas de um quebra cabeça de madeira.

Licencianda - Boa ideia! Acho que se a gente virar desse lado que não tem nada, fica melhor, né?

AL- Sim!

Licencianda - Então vamos organizar a mesa do bolo com esses pratinhos! (Atividade 5)

Acerca do desenvolvimento da brincadeira, as licenciandas destacaram em seus relatos:

Ela se revelou como momentos de bastante animação por parte das crianças, manifestando-se na criação de elementos como bolos, brigadeiros e outras iguarias utilizando massinha [...]

Este momento de expressão artística e simbólica proporcionou não apenas a exploração das formas de linguagem, mas também incentivou a criatividade, a comunicação entre as crianças e a resolução de desafios, como a escassez de pratinhos, solucionada de forma inventiva com a utilização de peças de quebra- cabeça [...] (Atividade 5)

A partir das impressões acerca da brincadeira vivenciada pelas licenciandas, elas destacaram, ainda como resultado da experiência, a “interação entre as crianças, a assimilação do tema proposto e a capacidade de adaptação e cooperação, evidenciada pelo compartilhamento de recursos e a encenação”. Além disso, enfatizaram que o emprego de estratégias pedagógicas que incorporam o brincar como ferramenta educacional, demonstra ser uma abordagem eficaz para promover aprendizado significativo e integral com e para as crianças. O que nos permite acreditar que esses saberes adquiridos na experiência serão incorporados futuramente às suas práticas.

Chegando ao final das atividades demonstradas pelas estudantes do curso de Pedagogia da UFAPE, apresentamos a Atividade 6, que teve como propósito a imersão das crianças em contos de fadas, mais especificamente os Três porquinhos, propondo um faz de conta a partir dos personagens do conto. Essa brincadeira envolveu crianças de quatro e cinco anos e outras atividades antecederam a brincadeira, tais como: reconto da história dos Três porquinhos, a partir de uma caixa contendo diferentes personagens, inclusive de outros contos de fadas. Durante essa atividade surgiram outros personagens sugeridos pelas crianças e que as licenciandas puderam contemplá-los, como pode ser visto no fragmento abaixo:

Licenciandas: Vocês lembram que na semana passada a tia perguntou quais personagens vocês queriam ser?

C: Eu quero ser o Homem-Aranha do futuro. D: Eu quero ser um porquinho.

T: Eu quero ser um rei.

Licencianda: O que vocês acham sobre essas máscaras aqui. De que são? Diz mostrando às crianças as máscaras trazidas para a brincadeira.

A: Eu quero ser o Batman!

Licencianda: Cada um vai escolher uma (máscara)para brincar (Atividade 6)

Ao iniciar a brincadeira do faz de conta com os diferentes personagens identificados pelas crianças, as licenciandas perceberam que o espaço de referência era restrito para a motivação apresentada por elas e, optaram pela área externa da escola. A partir disso, as crianças correram pela área interagindo entre elas, criando novas situações com os personagens representados pelas máscaras, diferente do que foi planejado pelas estudantes.

T: Tia, olha como o lobo faz... auauauauau, (diz com máscara de lobo). A: Tia, olha o meu... au, au, au, au. (Imitando um lobo).

V: Você não me pega lobo. (diz desafiando o “lobo”)

T aceitou o desafio e começou a correr em busca da vovó. T: Vou te pegar sim auuuuu, auuuu. (Atividade 6)

Avaliando a experiência vivenciada com as crianças, as licenciandas observaram, no seu relato, que a brincadeira proposta não correspondeu às expectativas do que elas pensaram, uma vez que perceberam a ausência de atividades lúdicas e de experiências com a leitura de contos de fadas por parte da professora da turma, como pode ser visualizado no recorte abaixo:

Ao analisar as formas de desenvolvimento das crianças constatamos que as brincadeiras obtiveram resultados parciais às nossas expectativas, visto que, as crianças não tinham conhecimentos mínimos sobre o gênero textual contos. Desta forma, ao observar a falta de atividades lúdicas, brincadeiras e ausência da literatura infantil decidimos por uma intervenção voltada à essa temática por ser de extrema importância esta abordagem de planejamento em sala de aula para se obter uma aprendizagem significativa (Atividade 6).

Importante ressaltar a sensibilidade das licenciandas em relação às crianças. Elas identificaram as lacunas existentes na sua rotina no que diz respeito às experiências lúdicas e se sentiram desafiadas, o que as levou a optarem pela vivência com os personagens, acreditando que esse seria o caminho ideal para promover esse tipo de brincadeira com elas. Em relação às vivências com leituras e rodas de histórias, Brandão e Rosa (2010) destacam que essas atividades contribuem para o desenvolvimento de linguagens, para a socialização das crianças, além de ampliar o repertório e as competências sociocomunicativas na escola de Educação Infantil. Infelizmente, as crianças dessa turma não foram oportunizadas a esse tipo de atividade pela docente e, quando puderam experimentar algo diferente da sua rotina, brincaram espontaneamente, esquecendo o propósito da brincadeira planejada pelas futuras pedagogas.

Salientamos que o desafio encarado pelas estudantes a partir da brincadeira apresentada na Atividade6, corrobora com a existência de práticas que restringem as crianças ao espaço da sala de aula, à não interação com livros de literatura, ou à presença de jogos e brincadeiras, através de rotinas com atividades repetitivas e enfadonhas. Ainda que de forma inusitada, elas puderam desconstruir um pouco desse cotidiano e garantir àquelas crianças momentos de brincar. É neste sentido que defendemos o brincar como um direito das crianças da Educação Infantil, dentro e fora da sala de referência, que deve assumir para si e garantir a presença de práticas mais prazerosas e aprendizagens significativas para as crianças.

À guisa de considerações

O brincar e as interações aqui expostas constituíram elementos importantes para o desenvolvimento e aprendizagens das crianças, bem como para as licenciandas. Isso ficou evidente a partir das reflexões promovidas por elas nas situações sociocomunicativas reveladas nas brincadeiras. Como vimos, as crianças experienciaram diferentes papéis durante as brincadeiras: médicos, enfermeiras, pacientes, mães de pacientes, vendedores, caixas de supermercado, clientes e consumidores, lobos, super heróis, etc.

Foi possível perceber que a partir das brincadeiras as crianças puderam expor o que sabem sobre suas vivências cotidianas, das quais participam com seus familiares, nas suas culturas e seus modos diferentes de compreender o mundo real.

Também foi possível identificar que, a partir do brincar da criança, de suas observações, o adulto passa a compreender melhor seus modos de aprender, e se aproxima um pouco mais desse universo infantil estabelecendo relações de afeto e de cumplicidade, tão importantes para o processo de aprender e ensinar.

A brincadeira permitiu às crianças o desenvolvimento da oralidade em diferentes aspectos: expressividades, modalização de discurso oral, variações de entonação de voz na imitação de personagens, dentre outros. Também contribuiu para promover a compreensão e o uso da escrita, ainda que esse não fosse o objetivo da brincadeira, nas situações do cotidiano, como, por exemplo, aviar uma receita de um remédio ou fazer uma lista de compras para ir ao mercado. Tais situações nos permitiram reforçar a ideia de que é possível aprender de forma prazerosa e brincar na escola, garantindo às crianças o acesso à cultura letrada.

Percebemos através dos relatos das brincadeiras planejadas e vivenciadas pelas licenciandas da Pedagogia que foi uma atividade importante para a sua formação, evidenciada a partir das próprias experiências de planejar e organizar as brincadeiras (mini hospital, mercadinho, festa de aniversário, etc), bem como durante as interações vivenciadas entre eles e as crianças.

Além disso, ao relatar a experiência identificamos que desenvolveram habilidades importantes na formação do profissional em educação que são: a observação (das crianças), o registro (o relato) e a problematização que se revelou nas reflexões de suas próprias ações (Oliveira et.al., 2014).

Sobre a ação de registrar, Lopes (2009) afirma que é uma prática que auxilia o professor na concretização de suas metas e, configura-se como elemento importante no desenvolvimento profissional, porque aponta percursos, procedimentos e formas de encaminhamentos da ação pedagógica.

Através da experiência as licenciandas também puderam refletir, observar e analisar suas atuações durante as brincadeiras e acompanhando o desempenho das crianças, criando um repertório importante de práticas antes mesmo da atuação como profissional. Consideramos extremamente válidas as reflexões dos futuros profissionais, proporcionadas pela atividade realizada em relação à prática docente, contribuindo para ações de intervenção e mediação das crianças durante as brincadeiras vivenciadas, constituindo os saberes práticos e articulando com os conhecimentos teóricos.

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