Da prosa à poesia épica. Hespaña Libertada

Maria Ana RAMOS
Universität Zürich, Suiza

Da prosa à poesia épica. Hespaña Libertada

Versants, vol. 3, núm. 69, pp. 85-104, 2022

Universität Bern

Resumo: A produção literária portuguesa demonstra como a narrativa breve se apropriou de um conto fundacional, História do Rei D. Ramiro de León, ocorrido durante a Reconquista. O relato, sugerido pela Lenda de Salomão (mulher adúltera), circulou durante a Idade Média por toda a Península ibérica (Crónica de Población de Ávila, Fragmento de la Crónica Aragonesa, Livros de Linhagens, s. XIII-XIV, e Crónica portuguesa do s. XVI), mas o seu sucesso, antes de sensibilizar Almeida Garrett no s. XIX, inspira João Vaz (s. XVII) e Bernarda Ferreira de Lacerda (s. XVII). A reflexão incide em alguns recursos temático-formais entre a apropriação de uma tradição textual portuguesa em prosa e a edificação por uma voz feminina de um exten- so poema épico (Hespaña Libertada, 1618; 1673), composto em castelhano durante a monarquia dual e dedicado a Felipe III (1578-1621).

Palavras-chave: Narrativa breve, Rei Ramiro de Leão, Lenda de Gaia, Hespaña Liberta- da, Poesia épica.

1. A produção literária portuguesa comprova em vários momentos como a destreza narrativa se apoderou de textos precedentes, transformando-os através de formas de regeneração, dependentes, em princípio, do público a que se destinavam e do suporte material onde eram incluídos1.

Tanto a historiografia como a crítica literária reconhecem que a bem difundida narrativa breve –Lenda de Gaia– se filia em uma tradição oriental composta a partir da figura bíblica do rei Salomão2. O relato misógino originou diversos traslados em várias línguas, com personagens e localizações geográficas identificadas, mas preservou, em geral, a disposição sequencial. Um rapto, um adultério, uma traidora, um castigo exemplar, a legitimação de uma nova descendência, ajustada ao Rei Ramiro II de León (900-965)3.

As duas primeiras versões, transmitidas pelos livros de Linhagens –Livro Velho de Linhagens (LV) e Livro de Linhagens do Conde D. Pedro (LL)–, foram redigidas nos finais do s. XIII, meados do s. XIV4. Ao deslumbramento deste texto fundacional, não foi indiferente Almeida Garrett (1799-1854) que o levará à escrita de Miragaia, incluída no seu Romanceiro, anunciando que se tratava da «...mais antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se passam as principaes scenas d’este romance...»5.

2. Ainda em ambiente português, data do início do s. XVI uma versão, intitulada Hestorja dell Rej Ramiro de lleom (HR), que reforça o renome e a circulação textual desta narração (o rapto de uma rainha cristã pelo inimigo, um suserano árabe, o adultério, a afronta ao rei cristão, o resgate épico, o castigo exemplar, o casamento do rei cristão com uma pagã e a validação da nova descendência)6. É possível supor que este códice procurou reunir uma sucessão cronística das origens régias portuguesas, entre Afonso Henriques, primeiro rei (1139-1185), e Ramiro II de León (931-951), o primeiro “rei” da terra portucalense entre 926 e 930 (Sáez 1947). Este testemunho, entretanto, não se cingiu aos traslados medievais dos Livros de linhagens, mas, através de uma justificatio final inovadora, ambicionou legitimar outra família –Pereira–, procedente da insigne família da Maia, que comparecia nos Livros de Linhagens7.

No s. XVI (c. de 1534) não era já a antiga família da Maia que seria relevante honrar, mas o novo nome –Pereira–, reconhecia o herói que sustentava a identidade portuguesa no s. XIV (1383-1385), perante as pretensões políticas de Castela, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira8. Para além do epíteto Pereira, celebrava se então nestas datas a fundação da importante Casa Ducal de Bragança, nomeando o como o «principiador da Casa de Bragança» na Crónica que lhe é dedicada9. A edição de 1623, de modo mais evidente, explicita a afinidade entre a família Pereira e a ilustre Casa, dedicando a a D. Teodósio II, duque de Bragança10. Não é inverosímil que esta publica ção, em período filipino em Portugal (1580-1640), procurasse evidenciar um envolvimento nacionalista, revivendo o corajoso Pereira, que já tinha salvaguardado a independência de Portugal no s. XIV.

Este movimento de recuperação de um herói predestinado fortalece se também com a passagem de um texto cronístico em prosa à promulgação de um poema épico, um panegírico com 20 cantos em oitava rima, O Condestabre de Portugal D. Nuno Alvares Pereira, de Francisco Rodrigues Lobo, similarmente oferecido ao duque D. Teodósio II (1610)11.

É também nestes anos, que vamos encontrar outra reminiscência textual que rememora com esta narrativa a instituição de Gaia (região associada às origens portuguesas), o que quer dizer que, de algum modo, o novo texto resgata as nobres lutas da Reconquista que aclaram a fundação do reino de Portugal. Ao transpor um texto em prosa a um produto épico, João Vaz dará o título Breve Recopilaçam... agora chamam Gaya..., ao seu poema em oitava rima, que reenvia para a história das origens, ao evidenciar o papel desempenhado pelo rei Ramiro II na morte do inimigo árabe Almançor, mas renovando com a travessia do Douro, ou seja, com a expansão de Portugal de norte para sul12. Este poema, constituído por 120 oitavas, e extraído de um contexto linhagístico medieval, ressalta no início do s. XVII o caráter autónomo do conto. Independentemente de uma valia literária, este poema institui uma correlação com a narrativa quinhentista, que emergira de modo individual e não incorporada em um livro genealógico. O compromisso épico deve ser, portanto, examinado no contexto filipino. A perda de soberania datava de 1580, e este texto, logo em 1601, apela para uma autenticidade fundacional. Impuserase, por isso, a premência de uma génese literária que exaltasse os méritos nacionais e que validasse a soberania portuguesa.

Conquanto, aqui, não me concentre no poema de João Vaz, chamo a atenção para a data da sua primeira publicação (1601) e para as reedições de 1630 e 1661, que sublinham o acolhimento que teria fruído este tipo de reabilitação de um trecho mítico das origens13. Não são desprezíveis algumas coincidências lexicais entre a prosa da crónica quinhentista (HR, 1534) e o poema épico de João Vaz (1601)14. Enquanto nas versões dos Livros de Linhagens, o Rei Ramiro disfarçavase com “panos de veleto” (LV), ou com “panos de tacanho” (LL), a crónica quinhentista (HR), inova a dissimulação “como rromeíro”, que é retomada por João Vaz, “Ramiro toma trajos de Romeiro”:



De çima Do castello em tamto que ell Rey
Dom rramiro lleixou toda sua gemte nas
gualles e salltou em terra e ell rrey mouro
De guaia era a caça e elle foi sse soo como rro
meíro (HR, ll. 36-40).



Passada pois a noite veyo o dia,
Ramiro toma trajos de Romeiro
Deixando toda a sua companhi



Sobindo já se via pelo outeiro,
A Deos só quiz levar por seu guia,
E em sua Fé firme inteiro;
E fazendo o signal da cruz no peito
Aos Paços do Mouro foi direito (Matos 1933: 121).

A ausência do mouro nos Livros de Linhagens é justificada praticamente do mesmo modo: “E Abencadão era fora do castelo e fora correr monte contra Alfão” (LV) e “Alboazar Alboçadam fora correr monte contra Alafõoes...” (LL), Uma interessante variante é introduzida em HR com a precisão de ida à caça de porcos cercados, lição retomada por João Vaz:

«Ellrey de hir ao momte por quamto lhe tinha porcos emprazados»



Fuente: (HR, ll. 71-72).



Consigo isto dizia o magoado
Tirando dum anel, no vaso o deita;
Sem que fosse sentido, nem olhado
Da Moura, por nam ter disso sospeita,
Por el Rei Almançor lhe ha perguntado
A caçar deve ter ido, a cousa feyta
A caçar vay dos porcos, e viados
Que os seus lá lhe tinhão emprazados (Matos 1933: 124).

Com o rei Ramiro escondido, regressa o mouro e a deslealdade é manifesta com a infidelidade da mulher, exibida entre alimento e prazer: «E el jazendo na camara chegou Abencadão e deramlhe que jantasse, e despois de jantar foise para a rainha. E desque fizeram seu placer, disse a rainha...» (LV), traição que é, depois, omissa, «E ele jazendo na camara, chegou Alboazer Alboçadam e foise pera a sa câmara, e a rainha lhe disse...» (LL). A cena de amor mantémse, no entanto, em HR com o desenfado entre a rainha e o mouro:



sse meteo ell Rey de lleom na guarda rroupa
E a cabo De pouco veo elll Rey de guaja
que vinha de sua cassa e asemtou sse no es
trado com a Raínha sua Molher desemfadã
Do sse muito com ella E ella com ele (HR, ll. 79-83).

De modo análogo em João Vaz, o contentamento amoroso e o adultério são explícitos15:



Descavalgava Almançor muy diligente
Sobindo para o Paço, e aposento,
Ella, que o vê vir tão descontente,
Depressa lhe foy fazer recebimento
Com passo prolongado, e diferente;
Lhe mostrou logo ter contentamento
Com sua boa vida, e alvoroço,
Deitando lhe os braços ao pescoço.



Almançor lhe pagou por esta via;
Os afagos de amor na mesma hora,
Fazendo lhe huma grande cortesia;
Dizendo lhe: vivais minha senhora;
E com este prazer, e alegria,
Sem alli lhe fazer outra demora,
Se sentarão á mesa, e assentados
Servindo lhe seus pagens, criados (Matos 1933: 127-128).

Não é de rejeitar que a versificação de uma cronística antecedente, além de evocar uma memória textual, que deveria circular desde a linhagística fundacional, valorada por artifícios míticos, tenha tido acesso a uma versão, que continha, tal como o texto do s. XVI (HR), algumas variantes peculiares como a curiosa caça a «porcos emprazados».

2. Além da poetização no início do s. XVII (1601) de textos em prosa medievais e quinhentistas, é outro poema épico de Bernarda Ferreira de Lacerda, que, sob o título, Hespaña Libertada, vai incluir um extenso canto integralmente dedicado àquele episódio16. A Hespaña Libertada, Primeira Parte, foi publicada em 1618 (durante o regime de Monarquia Dual em Portugal), e pode caracterizar se como um poema épico sobre a Reconquista Cristã na Península Ibérica, cuja Parte Segunda é editada postumamente em 167317.

Em Portugal, embora a reputação de feitos valorosos estivesse presente, tanto em crónicas, como na linhagística, não deixou na literatura medie Importar imagen Importar tabla val mais do que ressonâncias épicas em episódios dissipados por textos em prosa. É somente no s. XVI, sob a preponderância dos grandes modelos clássicos, em tempo de descobrimentos e de conquistas marítimas, que veremos emergir um discurso épico, formalmente mais assumido, dominado por Os Lusíadas de Camões (1572), cuja publicação quase previne a perda da independência em 1580. A nova nação lusitana, engrandecida por novos espaços territoriais, além de heróis como Vasco da Gama, reabilita, ou recria glórias passadas, através de vários poemas heroicos, que se imiscuem nesta atmosfera de perda e de busca de restauração da independência (1580-1640)18.

A adequação da narrativa medieval por Bernarda Ferreira de Lacerda pode explicarse por um contexto sociopolítico, que pretende reaver e engrandecer feitos pretéritos e simbólicos durante a Reconquista que aclama Portugal. Deve, todavia, notarse que a obra é escrita em castelhano e não em português, o que não é excecional por autores de língua portuguesa nesta altura. A eleição linguística é sublinhada pela dedicatória na Parte Primera, «Dirigida al Rey Cathólico de las Hespañas don Philippe terceiro deste nombre nuestro Señor»19. Se o bilinguismo literário, já era praticado por vários autores (Gil Vicente, Camões), enfatizase neste período, quer pela circulação de autores, de textos e de leitores entre Portugal e Espanha. O ambiente da corte não foi certamente alheio a esta dinâmica cultural, que já era resultante de casamentos entre as casas reais ibéricas e de vínculos entre a nobreza, clero e intelectuais ligados às duas coroas. É natural que a intersecção destes modelos de intercâmbio se intensificasse durante a regência filipina20.

Bernarda Ferreira de Lacerda, através de uma captatio benevolentiae, exprime a sua seleção pelo castelhano, desculpandose pelo anseio de reconhecimento da posteridade no dístico final da estância VI do canto I, «Con sa pronunciación y dulces modos, / Y la Hespañola es fácil para todos», defendendo assim a sua preferência linguística:



Por esso escrivo en ella aquesta historia,
Desseando que de muchos vista sea
Para que dure siempre su memoria
En que mucho la mia se recrea,
Y porque yo me quede con la gloria
De que el mundo tambien el amor vea
Que me mueve cantar hechos, e leyes
De los antepassados de mis Reyes (8).

O acomodamento de um episódio medieval português a outro sistema linguístico no s. XVII parece assim ser autenticado. Mas serão igualmente amoldados à oitava rima aqueles «hechos, e leyes / De los antepassados de mis Reyes». A forma discursiva, mais despojada de componentes líricas, segue os tradicionais modelos da poesia narrativa e opta pela oitava em decassílabos com rimas ABABABCC (três dísticos com rima alternada ABAB, e um dístico final, emparelhado CC).

Pela primeira vez, teremos a História do Rei Ramiro e da traição de sua mulher, trasladada para outra língua e para outra configuração literária. É em castelhano e em verso que será relatada a expedição do Rei Ramiro em Portugal, a vitória militar dos cavaleiros cristãos, a traição da rainha, o castigo exemplar, o novo casamento com a moura e a consagração da nova descendência.

Que materiais terá usado Bernarda Ferreira de Lacerda para a construção da quase uma centena de estâncias do canto VI? O Livro Velho de Linhagens com uma versão mais breve só foi dado a conhecer tardiamente. O Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, que transmitia o episódio em forma mais extensa, foi apenas publicado em Roma em 1640 por João Baptista Lavanha e a tradução de Faria e Sousa, foi editada em Madrid, em 1646, datas posteriores à edição da Hespaña Libertada21. Não é inverosímil que o poema épico, publicado em 1601 por João Vaz, possa eventualmente ter sido conhecido por Bernarda Ferreira de Lacerda.

A maior parte de Hespaña Libertada tem como base a Historia de España de Juan de Mariana, como bem propõe Nieves Baranda (2003: 226-228)22. As fontes relacionadas com a matéria portuguesa, não provindo diretamente da linhagística medieval, encontram se na Monarchia Lusitana de Frei Bernardo de Brito, que, como se sabe, recolheu várias narrativas genealógicas23. Estes relatos serviriam para dignificar o reino de Portugal que, no momento, da publicação, se encontrava sob domínio estrangeiro (a I Parte da Monarchia Lusitana está datada de 1597 e a II Parte de 1609). Notese ainda como qualquer uma destas partes é «Dirigida ao Cathólico Rey dom Phelippe, segundo do nome em Portugal, & terceiro em Castella, senhor d’Espanha, Emperador do nouo mundo»24. De algum modo, Frei Bernardo de Brito tentava proporcionar uma História de Portugal, despida de equívocos e de imprecisões, em uma exposição subordinada ao panegírico patriótico.

Curiosamente é este propósito patriótico e é, mormente, este texto que sustentará a metrificação do episódio. Frei Bernardo de Brito, que publica em 1609, não recolheu a narrativa de qualquer tradição oral. A marginalia aponta para a consulta de Conde Dom Pedro, Liuro das gerações, titulo 21, com a indicação de que «O Credito & autoridade do Cõde Dom Pedro, (...) me forçá, a tratar hũa materia deste Rey dom Ramiro...» (fl. 342v)25.

O canto VI seguirá, portanto, passo a passo Frei Bernardo de Brito, transformando a narrativa em prosa (texto a duas colunas, fl. 342v-346v) em um canto épico (canto VI, 99 estâncias). O título do capítulo (cap. XXI, fl. 342v) anuncia de imediato o caráter heroico e valente do rei Ramiro, «Do sucesso que aconteceo a el Rey Dom Ramiro com Alboazar Iben Albucadan, & da certeza que ha nesta materia, memorias que ha me Portugal destes anos...». Ao assumir o perfil de historiador, ‘exigente e escrupuloso’, esclarece que «deste Rey dom ramiro, segũdo do nome, dizendo, q. estando el Rey casado cõ a Raynha dona Vrraca, a q. ou ele chama Aldar, ou os Escriptores q trasladaõ este liuro das geraões, trocaraõ o nome, como ordinariamente sucede... » (fl. 343).

Segurando se linearmente ao texto em prosa, o exercício métrico servirse á da técnica, que exaltando o ritmo, facilitaria a memorização. O texto épico ‘cantado’ é anunciado logo no incipit, «La libertad de nuestra Hespaña canto» (I, 1) e realçado nas estâncias seguintes, no dístico final da III estância, «Bien es que me ayudeis, pues dellos canto» (I, 3), e no v. 5 da IV, «Embidiarà mi canto el mismo Orpheo» (I, 4). Assim se ergue o poema histórico à grandeza homérica do canto e da música.

Os recursos linguísticos, entre a passagem do texto em prosa à edificação sublime, documentam o que conhecemos em este tipo de poema. As opções lexicais não omitem a força dos patronímicos, a recorrência de epítetos não silenciam as iterações, os paralelismos, as metáforas, ou personificações.

A título exemplificativo, observem se as impressionantes coincidências entre o texto em prosa e o texto em verso. Um levantamento mais exaustivo de todo o canto não desmentiria esta perturbante afinidade26:

Segunda Parte Monarchia Lusitana 1609Hespaña Libertada (Parte Primeira, canto VI) 1618
... & gozando iá das tregoas q. lhe pedio Abderramen, constrangido das grandes rotas q. tinha recebido... (fl. 343r)Qvando el Rey Ramiro con reposo Goza ya de la paz amable, y buena, Porque le pidio treguas receloso El que rige la gente Sarracena. Pudo un liviano amor libidinoso Mudar su bien en mal, su gloria en pena, Que esto ganan los locos amadores En la consecucion de sus amores (1)

... veo visitar a casa de Sãtiago de Galliza... & dahi quis reconhecer as frõteiras dos Mouros que tinha ẽ Portugal, onde soube como Alboazar Iben Albucadan, senhor de muitas terras na Lusitania... (fl. 343r)El caso fue, que haviendo el Rey venido A Galicia, por ver la santa casa Del Apostol que le ha favorecido Haziendole mercedes tan sin tassa. A la buelta en mirar se ha detenido Las fronteras de Moros por do passa. Y a Portugal tambien entonces viene Para reconocer las que alli tiene (3) En este reyno supo que un pagano Que en el muy grandes tierras señoreava (4)
...tinha hũa irmã chamada Zahara, que significa flor, correspondendo o nome cõ a fermosura & perfeições de quẽ o tinha, e taes estremos pregoaua o mundo della, que elRey dõ Ramiro sse lhe afeiçoou só pella fama, e quis verse com o Mouro… tanto como a fama publicaua,… fl. 343r, fl. 343v)El nombre suyo della fue Zahara, Que flor en lengua Mora significa, Conforme a la hermosura estraña, y rara De que naturaleza la hizo rica. Y ben a don Ramiro costa cara La fama que entre muchos la publica, Pues no tiene descanso en su cuydado Hasta que para Gaya està embarcado (8)
... pera isto se assẽtarão vistas no castello de Gaya, cuias ruynas se vem oie defronte da cidade do Porto... (fl. 343v)Cerca de la Ciudad del Porto mora Junto a las dulces aguas cristalinas Del Duero, en un castillo de que aora En Gaya se ven solo las ruinas. Donde tiene tambien la hermosa Mora Que a vista de sus gracias peregrinas A las nimphas del rio alli suspende, Y en su cabello a los Tritones prende (7)
... elRey em tres Galles cheas de fidalgos & senhores, mais esforçados q. tinha em sua corte; & sendo recebido pello Mouro cõ o termo deuido a tamanho Principe... (fl. 343v)Adonde llega (guiandole Cupido) Con muy grande aparato en tres galeras Llenas de los hidalgos que ha traído, Y de mil gallardetes, y vanderas. Y tanto que Alboazar huvo sabido Como el llegado havia de sus riberas, Le sale a recebir con cortesia Que a Principe tan grande se devia. (9)

...& certificandose elRey cõ seus olhos da estranha fermosura de Zahara, pedio ao Mouro q. lhe desse por molher, certificandoo, q. em se tornando christãa a receberia por tal, & a coroaria por Raynha de Espanha... (fl. 343v)Para hablar solamente de Zahara Le dà lugar locura tan furiosa Y assi con el hermano se declara Pidiendo por muger la Mora hermosa. Dize que su belleza le obligara A querer recebirla por esposa Tanto que huviesse sido bautizada, Y que serà por Reyna coronada (17)
...Difficultoulhe Alboazar o negocio com a diferença das leis, & cõ ser elle casado cõ a Raynha dona Vrraca, & ter della filhos, que não cõsintirião no repudio da mãy, nem o Papa a quẽ cõpetia atalhar o abuso de muitos casamentos entre os Christãos…. (fl. 343v)Prosiguiò, que las treguas concertadas Entre los dos, despues del casamiento No podrian jamas ser quebrantadas, Ni alguno de los reynos descontento Alboazar con rayones bien fundadas Le dificulta el fin de aquel intento, Por ser ella Pagana, y el Christiano,Y porque a otra ha dado ya la mano. (18)
...A desesperação de alcançar o que deseiaua, acrescentou a elRey a vontade de auer em seu poder a Moura, & traçando diuersos meos, a que dificultaua hum fim cheo de impossiueis, veo no remate de tudo a tomar conselho hum grande Astrologo por nome Amão... (fl. 343v)Mas como entre los medios ordinarios Ninguno pudo hallar que le quadrasse, Que eran a sus desseos muy contrarios, Aconsejole amor que otros buscasse. Y al astrologo Aman, (que en casos varios Mostró no haver entonces quien llegasse A serle ygual en sciencia) llamar manda Con que luego su pena queda blanda. (24)
...obrigandose a lhe tirar a Moura hũa noyte do castello sem que pessoa o sintisse & porlha onde seguramente a pudesse leuar a seu reyno (fl. 343v) ...pello modo q. lhe aconselhou o Sabio, preuinindo os seus pera a hora em que o negocio se auia de executar... o roubo da Moura... (fl. 344r)Mas como sabe mas que astrologia Luego al Rey don Ramiro Aman se obliga, Que del fuerte castillo sacaria A su chara, y bellissima enemiga. Y el no hallando palabras con que diga Quanto estima esta nueva de alegria, Hecha al cuello al astrologo sus braços Para darle por ella mil abraços (25)

...onde fez baptizar a Zahara, pondolhe nome Artida ou Artiga, como outros lhe chamão, dizendo, q. por mui sabia & perfeita em suas cousas se lhe deu este nome, que na lingoa antiga de Espanha, tẽ a mesma significação… (fl. 344r)Con pompa que a su stirpe era devida Siendo la bella Mora bautizada Quiere el Rey que le den nombre de Artida Por ser perfecta en todo, y avisada. Tuvola por amiga, tan querida Como tambien por partes estimada, De que la Reyna Aldora muy celosa Bivia desgustada, y congoxosa. (51)
... Alboazar Iben Albucadan vendo a irmãa roubada, ... & como soubesse que a Raynha dona Vrraca estava na pouoação de Milhor, descudada & sem goardas bastantes, se meteo ẽ certas embarcações, & ... cattiuou a Raynha & muita gente outra... (fl. 344r)Supo que doña Aldora descuidada Sin guardas en Millor se entretenia Y assiendo de ocasion tan desseada, Vasse allâ con luzida compañia. Dellos luego la Reyna salteada Con otra mucha gente que teniaFue cautiva con todos los que hallaron, Y al castillo de Gaya la llevaron. (53)
delRey, a quem estas nouas forão tam asperas de sofrer... falando cousas de homẽ alienado… se meteo cõ seu filho dõ Ordonho, & outros senhores em cinco Galles … & cubertas as embarcações com pãnos verdes… naquelle tempo estaua tão cuberta de aruoredo pendente sobre o Rio, q podiã estar escondidos… (fl. 344r-fl. 344v) ...aduirtindoos, que senão descubrissẽ ate ouuir o som de hũa corneta de monte q. leuaua consigo, encuberta com sua espada, & hum peito de armas … (fl. 344v)… debaixo de vestidos grosseiros, & mui pobres; com os quaes se foy lançar junto a hũa fonte... onde o achou hũa criada da Rainha, chamada Perona, de nação Francesa... (fl. 344v)Por san Iuan de la Foz meterse vienen Vna apacible noche con bonança, Y las embarcaciones todas tienen Toldadas de color de la esperança. Mas porque aquellas nuevas no se suenen Antes de ir a tomar cruda vengança, En baxeles se salen luego a tierra Cuya arboleda a todos la encierra. (56) De monte una corneta tambien lleva, Y a los vassalos, antes de irse, advierte Que ningun a salir de alli se atreva Hasta que su sonido los despierte. Este solo los pies de todos mueva, Para que armados de animo muy fuerte Caminen hazia Gaya apressurados, Y con esto se quedan emboscados (58)

…lhe lãçasse dentro hũ meo camafeo, de que a Raynha trazia outra a metade… (fl. 344v).Tambien quedan cubiertas las galeras Con los arboles altos que ceñian Aquellas amenissimas riberas, Y en el rio mirandose, pendian. El Rey con unas ropas muy grosseras Que de pobre romero parecian, De entre aquel bosque umbroso sale solo Antes que sus cabellos peyne Apolo (57) Perona una Francesa que era criada De la robada Aldora, buscar vino (60) Mas como solo a ver si le aprovecha Esta ficcion, Ramiro aquello ordene, Vn medio camafeo dentro del hecha, De qual la otra mitad la Reyna tiene. Que al lavar de las manos, ya sospecha Cuyas podrian ser las donde viene Aquel sutil aviso, y enojada, Con quien habló, pregunta a la criada. (61)

Além da observação da proeminente colagem entre os dois textos, podemos também ponderar subterfúgios técnicos que, ao se desviar da narrativa em prosa, promulgam sentenças exemplares, como máximas universais, a extrair do ditoso modelo. São instrutivos os postulados de alguns dísticos finais:



Que esto ganan los locos amadores
En la consecucion de sus amores. (1)



Porque como a principio no la apagan
Sus llamas al honor, y vida estragan. (2)



Por los que le nacieron deste gusto
Que era tan escusado como injusto. (16)



Que afrenta a la luz de las estrellas
Huyendo con embidia algunas dellas. (44)



Nuevas alteraciones, entre amigo
Por escapar assi de su enemigo. (68)



En otro canto, porque assi lo ordena
Por no ser enfadosa mi Camena. (99)27

E, se reparamos na propriedade fónica e semântica de enfadosa no verso final da última oitava do canto, ouvimos a ressonância de <-oso>, que abre o poema em palavra rima, valeroso, trabajoso, belicoso (I, 1), sufixo que se repete, igualmente em rima, na primeira oitava do canto VI, reposo, receloso, libidinoso. O eco será persistente neste canto em final de verso: furiosa, hermosa, esposa (17); caliginoso, reposo, tenebroso (29); esposa, dichosa, hermosa (38); dudoso, vitorioso, caudaloso (48); libidinoso, esposo, lastimoso (77). Esposo e esposa guiam, portanto, o paradigma temático da lealdade, infringida pelo amor libidinoso del barbaro Alboazar (77), e pela traydora (67, 71) e lasciva Aldora (75).

3. Este récit, com duas versões incluídas em Livros de Linhagens (s. XIII-XIV), em formato discursivo, que valorizavam a ascendência mítica da família da Maia, comparece de modo isolado em formato cronístico no início do s. XVI, também para legitimar a grandeza da família Pereira. No s. XVII, e em ambiente de domínio castelhano, o incidente surgirá em verso, tanto em João Vaz (1601), mas sobretudo no extenso canto VI de Hespaña Libertada (1618).

Neste último caso, além da transformação da prosa à forma fixa da épica, e da mudança de sistema linguístico, do português ao castelhano, devemos realçar que o canto VI procura da mesma forma uma ratificação genealógica, não apenas para a elevação da História de Portugal, entoada em castelhano, mas para a proeminência dos antepassados. Frei Bernardo de Brito na conclusão do seu relato sobre a descendência do rei Ramiro e da princesa árabe, revelava como do filho Alboazar Ramires emergira a «géração dos Tauoras, & doutras que descendem deste Infante» (fl. 345v)28. Após a legitimação da nova esposa do rei Ramiro e da nova descendência (estância 88), o poema introduz:



Porque los dos Ramirez se llamaron,
Y los nobles Monises han venido
Deste Infante, con otros que tomaron
De Tavora el claríssimo apellido,
Las fiestas destas bodas no duraron ,
Que en poco tiempo alfin queda el marido
Sin su querida Artida, a quien la meurte
Acorto la ventura de su suerte (89).

A exaltação da História de Portugal, assim como a glorificação da Reconquista, que libertou Hespaña, não deixam de expressar também a ascendência da própria família de Bernarda Ferreira de Lacerda. Nomes de famílias fundacionais do reino de Portugal a ela estão ligados. Pereira é nome de sua mãe, D. Paula de Sá Pereira, Sousa, de seu marido, o fidalgo Fernão Correa de Sousa, sem mencionar o importante cargo de seu pai, D. Inácio Ferreira Leitão, Chanceler Mor do Reino29.

Para o enaltecimento das instâncias pioneiras, foi a forma épica a eleita, e se não podemos deixar de sublinhar uma indiscutível monofonia, colada ao discurso cronístico, como teorizava M. Bakhtin, dominada pela voz do autor, o canto transfigurou o texto narrativo de Frei Bernardo de Brito em crónica rimada, ainda mais laudatória. Com limitados momentos disjuntivos, o canto VI de Hespaña libertada constróise como um pregão que grita mais alto do que a prosa, na ansiedade de erguer a ditosa Reconquista em espaço português e elogiar a heroicidade das famílias fundacionais do reino, das quais a própria Bernarda Ferreira de Lacerda não se distanciava. Mais uma vez o parentesco e a excelsa linhagem podem ter promovido a apropriação e o acerto do conto fabuloso.

Sem recorrer à terminologia de G. Genette com o arquétipo e com os palimpsestos, ou à de J. Kristeva com as relações intertextuais, encontramonos aqui perante um reformular que toca na significação e na representação, sem se afastar da auctoritas do texto histórico, que requeria ser “reescrito”, sem que se possa considerar o novo texto épico como um tissage de segunda mão (Compagnon 1979), mas talvez como um trabalho de indução dirigido a leitoresouvintes.

As práticas transformacionais relevam, mais do que intertextualidade, ou transtextualidade, quase uma tradução, uma trasladação de prosa em poesia, num ato voluntarioso de reutilização, de reinterpretação e de emulação, que impôs mudança de língua, de forma e de público. Dito isto, não é possível ocultar um modo de (re)escrita que, através de uma transmediação, fixada pelo hipotexto, suscitou metamorfoses, e atualizou uma memória coletiva. A transcriação, através da metrificação épica, esteve subordinada a uma reorientação ideológica, que propiciou um objeto estético diferenciado, uma obra singular, que configurou nova receção e novos efeitos.

A apropriação é tal que podemos concluir, a propósito da (re) criação literária, a brilhante afirmação de Aragon: «Car j’imite... Tout le monde imite. Tout le monde ne dit pas» (1942: 13), onde a renovação textual não é mais do que ressonância de leitura de outro(s).

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Notas

1. As narrativas, que comparecem na linhagística, foram, particularmente, postas em evidên- cia por J. Mattoso (1983). Na síntese, já clássica, de L. Rossi, foi também examinada a circula- ção medieval do récit breve no espaço português (1979).
2. Vejam-se, a este propósito, os estudos de Paris 1880, Foulché-Delbosch-Haggerty Krappe 1930, Matos 1933, Menéndez Pidal 1944, Miranda 1988, Paredes Núñez 1995, Ferreira 2014, Arias Bautista 2018.
3. Examinei a circulação deste conto e a sua repercussão textual em ambiente ibérico (Ramos 2004, 2010, 2011, 2019).
4 É ainda J. Mattoso quem se ocupa da transmissão textual e da edição dos Livros de linhagens,
5 O longo poema, intitulado Miragaia, inspirava-se, portanto, no episódio do rapto e do adul- tério da mulher do rei Ramiro em uma das etapas da Reconquista em Portugal na fronteira do Douro entre Porto e Gaia. Garrett explicava: «Este romance é a verdadeira reconstrucção de um monumento antigo. Algumas coplas são textualmente conservadas da tradição popular, e se cantam no meio da historia “rezada”, ainda hoje repetida por velhas e barbeiros do logar. O conde D. Pedro e os chronistas velhos tambem fabulam cada um a seu modo sobre a legenda. O auctor, ou, mais exactamente, o recopilador, seguiu muito pontualmente a narrativa oral do povo, e sôbre tudo quiz ser fiel ao stylo, modos e tom de cantar e contar d’elle; sem o quê, é sua íntima persuasão que se não póde restituir a perdida nacionalidade á nossa litteratura» (Almeida Garrett I, 1851: 201).
6 O códice 13182 deu entrada na BN de Portugal em 1996, após o importante leilão de ma- nuscritos, realizado a 8 de maio de 1995, provenientes da Casa de Cadaval. A primeira parte contém a Crónica de D. Afonso Henriques, atribuída a Duarte de Galvão (Ramos 2004).
7 A estrutura narrativa e a contextualização evidenciam o papel adquirido neste período pela família Pereira –Condestável D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431), o herói de 1385 em Al- jubarrota (Ramos 2009, 2010, 2011).
8 A edificação do herói é enfatizada pela redação da anónima Coronica do Condestabre de Purtugal Nuno Aluarez Pereyra Principiador da Casa q[ue] agora he do Duque de Bragãça sem mudar da Antiguidade de suas palauras nem stillo. E deste Condestabre procedem agora o emperador e em todo- los Reynos de Xpãos de Europa ou os Reys ou as Rainhas delles ou ambos, Lixboa: Germã Galharde, 6 d’ Noue[m]bro 1526. Disponível na BN de Portugal: https://purl.pt/14402.
9 A Casa de Bragança tem, na realidade, a sua origem em 1401 com o casamento do infante D. Afonso, filho bastardo de D. João I com a filha única do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, D. Beatriz Pereira de Alvim, iniciando-se com este matrimónio o importante ducado. Esta visibilidade precursora está patente na edição de 1554: Coronica do Condeestabre d’Portugall dom Nuno alurez Pereyra principiador da casa de Bragãça sem mudar dãtiguidade de suas palauras ne[m] estilo e d[es]te Cõndeestabre procede[m] agora elrey do Iohã terceyro, nosso senhor e o Emperador e nos mays dos reynos de christãos d’Europa, os Reys ou Reynhas ou ãbos, Lixboa: per Germã Galharde, 30 d’ Oytubro 1554. Disponível na BN de Portugal: https://purl.pt/14403. Cf. ed. crítica de Ca- lado (1991).
10 A relação entre a edição e o duque de Bragança, D. Teodósio II (1568-1630, pai do futu- ro rei de Portugal D. João IV (1604-1656), é manifesta com a dedicatória, acompanhada pelas armas ducais em 1623: Condestabre de Portugal Dom Nunalvrez Pereyra Principiador da Casa de Bragança. Sem mudar dantiguidade de suas palauras, nem estilo. E deste inuictissimo Condestabre procedeu el Rey Dom João terceiro, de & o Emperador Carlos V (…) ao Excell.mo Senhor Dom Theodo- sio Dvqve de Bragança, En Lisboa: Antonio Alvarez, 1623. Disponível na BN de Portugal: http:// purl.pt/14405.
11 O Condestabre de Portugal D. Nuno Alvres, Pereira / de Francisco Rodrigues Lobo... Oferecido Ao Duque Dom Theodosio Segundo deste nome, em Lisboa: por Pedro Crasbeeck, 16010 [i.é 1610]. Disponível na BN de Portugal: http://purl.pt/14404. A propósito da construção poética, entre a crónica e esta epopeia, cf. o ensaio de Pires (2011).
12 Retiro o título do exemplar, depositado na BN de Portugal (cota: RES. 2631 V): Breve/ Re- copilaçam/ E Tratado agora novamente/ tirado das Antiguidades de Espanha. Que trata como El-Rey/ Almançor morreo em Portugal junto à cidade do Porto on-/de agora chamam Gaya às mãos del-Rey Ramiro, & sua gen-/te, donde tambem cobrou, & matou, sua Molher cha-/mada Gaya, que estava com este mouro da/ qual ficou este lugar chamado/ de seu nome./ Composta Por Joam Vas Natural Da/ Cidade De Evora Em Verso Oitava Rima, em Lisboa: por Domingos Carneyro, 1661.
13 A edição de 1601 é raríssima e foi até admitido que o seu registo resultasse de imprecisão cronológica com a edição de 1661. No entanto, Lindley Cintra, ao analisar o poema, teve acesso a um exemplar de 1601, cedido por E. Asensio, tendo-nos facultado o fac-símile do frontispício (Cintra 1967: 119-124). Excetuando esta edição de 1601, a consulta a Iberian Books dá-nos o levantamento e a localização de vários exemplares conhecidos de 1630 (https://iberian.ucd.ie/ view/iberian:47713) e de 1661 (https://iberian.ucd.ie/view/iberian:115503). Além de uma primei- ra transcrição de Pereira (1853), a edição de T. Braga (1868) tem fundamento na edição de 1630 e a de Reis (1877) na de 1661.
14 Para as citações sigo a edição de J. Mattoso (1983) para as narrativas dos livros de linhagens (LV e LL); não estando disponível edição crítica do poema de João Vaz, opto pelo exemplar da BN de Portugal (1661) e por Matos (1933), e para a Hestorja dell Rej dom Ramjro de lleom (HR) baseio-me na minha leitura diplomática (Ramos 2004: 830-843).
15 Interessante esta ligação entre «...os afagos de amor...» e «...Se sentarão á mesa», que era vetada no LL do Conde D. Pedro («...foi-se pera a sa camara, e a rainha lhe disse... »).
16 Notícia bio-bibliográfica sobre Bernarda Ferreira de Lacerda (1595 e 1644-1645) em Por- tuguese Women Writers (16th-19th centuries), ed. Anastácio et al. Disponível em: http://neww. huygens.knaw.nl/authors/show/3351 (consultado em 22/06/2022). Além do estudo pioneiro de Barros (1924), várias observações sobre a autora e sobre este texto têm sido examinadas, so- bretudo no âmbito da escrita feminina. Delas isolo Baranda (2003, 2005), Machado (2006), Ganhão (2021) e, mais recentemente, está disponível uma edição da historiadora e antropólo- ga Beteta Martín (2011).
17 Hespaña Libertada. Parte Primera [e Segunda]. Compuesta por Doña Bernarda Ferreira de Lacerda, En Lisboa: en la Oficina de Pedro Crasbeeck, 1618; Hespaña libertada: poema posthumo: Parte Segunda, por Doña Bernarda Ferreira de Lacerda, sacada a luz por su hija Doña Maria Clara de Menezes, En Lisboa: en la Oficina de Juan de la Costa, 1673. Disponível na BN de Portugal em: http://purl.pt/29003.
18 Além do poema Condestabre de Rodrigues Lobo (1609), já mencionado, e de Hespaña Liber- tada de Bernarda Ferreira de Lacerda, aqui examinado, observe-se a proliferação dos seguin- tes títulos: A Elegiada, Luys Pereyra. Dirigida Ao Serenissimo Senhor Cardeal Alberto Ar- chiduque de Austria, & Governador dos Reynos de Portugal, [Lisboa]: por Manuel de Lyra..., 1588; Vasco Mausinho de Quevedo, Affonso Africano: Poema Heroyco da Presa d’Arzilla & Tan- ger. Dirigido a Dom Alvaro de Sousa, Capitão da Guarda Alemãa, em Lisboa: por Antonio Alvarez, 1611; Francisco de Sá de Meneses, Malaca Conquistada por O Grande Af.o de Albuquerque: Poema Heroico de com os Argumentos de Dona Bernarda Fereira [sic]. Oferecido A Catolica Ma- gestade Del Rei Phelippe III. De Portugal Nosso Senhor, em Lisboa: por Mathias Rodrigues, 1634; Manoel Thomas, Insvlana, en Amberes: em Caza de Ioam Mevrsio Impressor, 1635; O Phaenix da Lusitania ou Aclamaçam do Serenissimo Rey de Portugal Dom Joam IV do Nome: Poema Heroico, Por Manoel Thomas, natural da Villa de Guymaraens & morador na Ilha da Madeira, a Gaspar de Faria Severim do Conselho de Sua Magestade, Impresso em Ruam: por Louren- ço Maurry, 1649; Ulyssea, ou Lysboa Edificada: Poema Heroico, Composto pelo Insigne Doutor Gabriel Pereira de Castro, em Lisboa: por Lourenço Crasbeeck impressor del Rey: a custa de Paulo Crasbeeck mercador de livros, 1636; Ulyssippo. Poema Heroico, De Antonio de Sou- sa de Macedo, em Lisboa: por Antonio Alvarez, 1640; A Destruiçam de Espanha, Restauraçam Summaria da Mesma: Ao Princepe Dom Pedro Nosso Senhor, Governador, & Legitimo Successor do Reyno de Portugal, Por o Doutor Andre da Sylva Mascarenhas, do Desembargo do dito Senhor, Lisboa: por Antonio Craesbeeck de Mello, Impressor do Princepe N.S., 1671; Viriato Tragico em Poema Heroico, Escrito por Bras Garcia Mascarenhas, em Coimbra: na officina de Antonio Simoens, 1699. A este propósito, reenvio para o importantíssimo estudo de Asensio (1974).
19 Felipe III, rei espanhol da Casa de Habsbourg (1578-1621), foi efetivamente rei de Portugal sob o nome de Filipe II, sucedendo a seu pai, Filipe II de Espanha e I de Portugal (1580-1598), e deixando o trono unificado a Filipe IV de Espanha e III de Portugal (1621-1640).
20 À literatura de autores portugueses em língua castelhana foi dedicado um importante volume de estudos, organizado por F. Bethencourt (2002). Deles, deve isolar-se neste contexto o de I. Castro sobre o bilinguismo literário entre Portugal e Castela (2002: 11-23).
21 Livro Velho das Linhagens de Portugal escrito no décimo terceiro século por Autor que se ignora e publicado por D. António Caetano de Sousa, Clérigo Regular, Lisboa Occidental: na Officina de Joseph Antonio da Sylva, Impressor da Academia Real, 1738). O Livro de Linhagens do Conde D. Pedro é publicado em castelhano com o título Nobiliario de D. Pedro Conde de Bracelos [sic] hijo del Rey D. Dionis de Portugal, Ordenado y Ilustrado con Notas y Indices por Iuan Bautista Lavaña, coronista mayor del reyno de Portugal, En Roma: por Estevan Paolinio, 1640. Esta edição foi tra- duzida por Manuel de Faria e Sousa, Nobiliario del Conde de Barcelos Don Pedro hijo del Rey Don Dionis de Portugal, traduzido castigado y con nuevas ilustraciones de varias notas por Manuel de Faria i Sousa, en Madrid por Alonso de Paredes, 1646.
22 Além de várias edições da Historia de España, há uma, datada de 1601, que pode adequar-se à confeção do poema Hespaña Libertada: Historia General de España. Compuesta Primero en Latin, despues buelta en Castellano por Iuan de Mariana... De la Compañia de Iesus. Tomo Primero [-Segundo], En Toledo: por Pedro Rodriguez impressor del Rey Nuestro Señor, 1601.
23 Segunda Parte, da Monarchia Lusytana, em que se continuão as Historias de Portugal desde o na- cimento de Nosso Salvador Jesu Christo, ate ser dado em dote ao Conde Dom Henrique... Composta... Pello Doutor Frey Bernardo de Britto, impressa em Lisboa no Mosteiro de São Bernardo: por Pedro Crasbeeck, 1609. Disponível na BN de Portugal: https://purl.pt/14094. O ms. autógrafo de Frei Bernardo de Brito está também disponível em: http://purl.pt/24325. Correspondências entre a fonte portuguesa e o poema são apontadas por Baranda (2003: 229, n. 15).
24 Transcrevo a dedicatória da Segunda Parte da Monarquia Lusitana (cf. supra). Sobre a rela- ção entre o discurso lendário e historiográfico, inserido na Monarchia Lusitana de Frei Bernar- do de Brito, cf. Dias (2016).
25 Pretendo, em outro texto, proceder ao exame mais demorado entre a versão do episódio sobre o Rei Ramiro, transmitido pelo Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, e a narrativa redigi- da por Frei Bernardo de Brito.
26 As passagens grifadas a negrito, que identificam as similitudes, são da minha responsabi- lidade. Entre parênteses, coloco o número das estâncias mencionadas.
27 Estes princípios, quase instrutivos, atuam como leis práticas válidas para qualquer sujeito, decorrentes do conto exemplar medieval.
28 Entroncavam-se ao Rei Ramiro os senhores da Maia, os Pereira e, agora, os «nobles Moni- zes» e os de Távora de «clarissimo apelido».
29 Pereira e Sousa são nomes pertencentes a famílias de grande prestígio, edificadoras do reino. Observações sobre as famílias condais portucalenses dos s. X e XI, em particular os des- cendentes do rei Ramiro, podem ser consultadas no estudo de J. Mattoso (1980b: 101-251 [pp. 206-217]). Sobre as famílias Maia, Távora, Moniz, pronuncia-se Frei Bernardo de Brito no cap. XXVI (fl. 363-371) e no cap. XXX (fl. 384v-389r). O perfil da família da Maia foi traçado por Mattoso (1981) e a família Pereira foi examinada por Miranda (2019: 781-798 [pp. 792-795]). Cf. também Baranda (2003: 237).
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