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AFINAL, QUANDO INICIAMOS A ANÁLISE TEXTUAL DISCURSIVA? UM ENSAIO DAS PERCEPÇÕES INICIAIS NA VISÃO DE PÓS-GRADUANDOS DA ÁREA DE ENSINO DE CIÊNCIAS
After all, when do we start the discursive textual analysis? An essay of the initial perceptions in the view of graduate students in science teaching
AFINAL, QUANDO INICIAMOS A ANÁLISE TEXTUAL DISCURSIVA? UM ENSAIO DAS PERCEPÇÕES INICIAIS NA VISÃO DE PÓS-GRADUANDOS DA ÁREA DE ENSINO DE CIÊNCIAS
Travessias, vol. 16, núm. 1, pp. 2-11, 2022
Universidade Estadual do Oeste do Paraná

Recepción: 13 Agosto 2021
Aprobación: 23 Febrero 2022
Resumo: O mergulho em um universo novo traz um misto de sentimentos, inseguranças, angústias e expectativas, não seria diferente na Pós-Graduação. Nosso objetivo é expor, a partir de um relato de experiência, nossas percepções iniciais sobre a teoria da Análise Textual Discursiva (ATD), como alunos de um programa de Ensino em Ciências, frente à ATD proposta por Moraes e Galiazzi. Também evidenciamos ideias gerais sobre essa metodologia, que adotaremos em nossas pesquisas de Pós-Graduação. As reflexões e compreensões apresentadas resumem os assuntos explorados e discutidos em encontros on-line organizados e mantidos pelos alunos do programa. Aliás, um espaço de aprendizados, de exposições de ideias, de compreensões, de criação de sentidos e de constituição de autoria sobre a ATD, bem como dos fenômenos estudados em cada pesquisa. Além disso, consideramos que grupos de discussões dessa natureza sejam essenciais para preparar novos pesquisadores, à medida que fortalece o vínculo dos alunos com o programa e seus pares. Após os encontros, ainda sentimos que, para conhecer algo de forma mais profunda a respeito da metodologia, faz-se necessário a pesquisa e a escrita constantes do aporte referencial teórico, incluindo a prática (em campo) com os procedimentos científicos da análise que ainda não iniciamos.
Palavras-chave: Análise Textual Discursiva, Ensino de Ciências, Pesquisa qualitativa, Pós-Graduação.
Abstract: Diving into a new universe brings a mix of insecurities, anxieties and expectations, it would be no different in Graduate Studies. In this text, we expose our feelings and perceptions, as Master's students in a Science Teaching program, in front of the Discursive Textual Analysis (ATD) of Moraes and Galiazzi (2007). For this, we evidence general ideas about this methodology, which we will adopt in our researches in the Graduate Program in Education in Science and Mathematics Education (PPGECEM). In fact, as it is the first contact with the methodology, the reflections and understandings summarize the discussions of routine meetings organized by the students, a space for learning, exposition of ideas, understandings, creation of meanings and constitution of authorship on ATD, as well as on the phenomena studied in each survey.
Keywords: Discursive Textual Analysis, Science teaching, Qualitative research, Postgraduate studies.
1 O CONTATO
A curiosidade humana, às vezes, é metódica para avaliar e qualificar a natureza e os seres. É, portanto, uma maneira de pensar de forma livre com conclusões transponíveis. Essa aptidão investigativa pertence às crianças, mas é arrancada delas desde cedo, mas não totalmente, pois o espírito de investigação pertence ao homem. Seria ingenuidade acreditar que o primeiro contato com um pensamento organizacional qualitativo, como presente na Análise Textual Discursiva (ATD), só acontece na vida adulta com o ingresso no mundo acadêmico. Isso porque estaríamos desconsiderando nossas experiências anteriores como sujeitos pertencentes ao mundo e observadores de fenômenos.
Obviamente, num programa de pós-graduação a natureza dos pensamentos metodológicos são estudados em profundeza. Os cuidados metodológicos aparecem desde a estruturação dos projetos de pesquisa, alastram-se pelas disciplinas e parcerias institucionais, sem esquecer os objetivos e os fenômenos de interesse à análise de dados qualitativos e quantitativos. É nesse cenário, por escolha do discente de pós-graduação, ou até por indicação de orientadores, que a metodologia da ATD, proposta pelos autores Moraes e Galiazzi (2007), passa a pertencer ao cerne metodológico de pesquisas desenvolvidas pelos programas. Esse é nosso contexto de pesquisa.
Devido a isso, resolvemos de forma conjunta e no formato on-line, em razão da Pandemia da Covid-19, nos reunirmos periodicamente para estudar e discutir a metodologia ATD. A ideia surgiu após a disciplina de “Pesquisa em Educação em Ciências” (2020) como forma de fortalecer um entendimento e aprendizado sobre a metodologia tal de pesquisa. Ou simplesmente estabelecer um canal de interação com outros colegas para compreender a ATD a partir de diferentes visões e percepções. Vale realçar que durante a disciplina foram discutidas diferentes metodologias, não apenas a ATD. Seu objetivo não era realizar um aprofundamento metodológico, mas apresentar aos jovens pesquisadores os possíveis caminhos de serem escolhidos para desenvolver as pesquisas qualitativas e quantitativas.
Podemos dizer, consequentemente, que não vivenciamos um aprofundamento sobre a ATD como apresentado por Calixto, Galiazzi e Kiouranis (2021). A partir de dois questionamentos: o que é a ATD?; como a ATD se operacionaliza? Essas autoras solicitaram que os estudantes realizassem um conjunto de leituras sobre a metodologia e escrevessem resenhas críticas; em seguida, esses estudantes compartilhavam e dialogavam com o professor/pesquisador suas dúvidas e entendimentos sobre a ATD em aulas virtuais. Além disso, após as aulas, os estudantes realizaram outra escrita para materializar as discussões e provocações apresentadas pelo professor/pesquisador durante a mediação. Por fim, os estudantes elaboraram vídeos curtos que explicassem e refletissem soque as questões.
Em nosso caso, o estudo da ATD se deu a partir da leitura de artigos acadêmicos e, em particular do livro “Análise Textual Discursiva” de Moraes e Galiazzi (2011; 2016), referência básica da ATD. Para o livro, a cada encontro avançávamos capítulo por capítulo, ora incluindo alguns artigos como “Uma tempestade de luz: a compreensão possibilitada pela Análise Textual Discursiva” de Roque Moraes (2003), “Textos de divulgação científica da revista Ciência Hoje online: potencial para discussão de aspectos da natureza da ciência” de Diniz e Junior (2019) e “Análise textual discursiva: dispositivo analítico de dados qualitativos para a pesquisa em educação” de Medeiros e Amorim (2017) para complementar, sempre escolhidos de forma conjunta pelo grupo. Assim, lemos os oitos capítulos do livro, que descrevem de forma minuciosa os ciclos de análise da ATD. Os encontros quinzenais duraram em média uma hora cada um e se estenderam por um pouco mais de seis meses.
Vale realçar que, durante a graduação (Licenciatura em Física para os dois primeiros autores e em Ciências Biológicas para a terceira autora), tivemos pouco contato com as metodologias de pesquisa, afinal esse ambiente é mais voltado à formação para a docência e não à pesquisa (muitas vezes compreendidas, equivocadamente, como afastadas); sem falar que optamos em trabalhar em outras frentes naquele momento. Logo, quando nos foi sugerido trabalhar com a ATD na Pós-Graduação, fomos invadidos por um sentimento de medo e angústia, devido a nossa inexperiência frente a metodologia. Isso é uma reação natural frente à adversidade. Mas, em conversa com nossos orientadores, percebemos, ainda que não em sua totalidade, que a metodologia se adequa às nossas pesquisas. Restava-nos enfrentar o desafio de mergulhar na ATD, mas como começar? Pela fenomenologia? Quais conhecimentos de outras metodologias poderiam nos auxiliar? Será que daremos conta de realmente pensar a ATD em uma pesquisa de dois anos?
Desde o início, com as primeiras leituras, percebemos que esse processo seria complexo e trabalhoso, pois seriam muitas etapas a serem entendidas e seguidas para posteriormente desenvolver a pesquisa ajustada aos moldes desta metodologia. O desafio é constante, mas acreditamos que isso perdurará até o contato se tornar um acontecimento diário e natural. Obviamente, o anseio por utilizar tudo o que aprendemos da metodologia é grande, quem sabe um teste piloto possa minimizar nossas ansiedades humanas: fazer o desconhecido conhecido. Isso parece coerente, em razão daquilo que aprendemos em conjunto, mas sobre o que teremos que avançar sozinhos no futuro ao imergir na especificidade do problema de pesquisa de cada um.
As compreensões oriundas de nossas dissertações dependem da tomada de consciência sobre a ATD na fase inicial da pesquisa. Isso não significa que estamos livres de questionamentos posteriores. A própria metodologia em si é o conjunto de princípios que podem levar a adaptações ao objeto de pesquisa investigado. Mas estamos prevenidos, nossas pesquisas passarão por um processo de coleta, análise e argumentações emergentes potencialmente coerentes com os referenciais teóricos da ATD, proporcionando dessa forma, subsídios suficientes para expor com maior clareza sobre os fenômenos investigados.
2 OS CICLOS DA ANÁLISE TEXTUAL DISCURSIVA
A metodologia da ATD proposta por Moraes e Galiazzi em sua primeira edição no ano de 2007, vem sendo recorrentemente utilizada nas pesquisas de Educação em Ciências, caracterizando-se de cunho qualitativo e hermenêutico-fenomenológico, com algumas variações. “A Análise Textual Discursiva corresponde a uma metodologia de análise de dados e informações de natureza qualitativa com a finalidade de produzir novas compreensões sobre fenômenos e discursos” (MORAES; GALIAZZI, 2007, p. 7). Ou seja, a ATD oferece ao pesquisador ferramentas de análise de discursos e fenômenos através de uma metodologia sistemática, mas não muito rígida, que permite, de certa forma desenvolver a criatividade do pesquisador em momentos diferentes do trabalho e da análise analítica.
A ATD também prepara e forma o pesquisador num processo contínuo de aprendizagem, que vai da coleta dos dados à autoria daquilo que escreve, ou seja, seus resultados de pesquisa. Logo, não há como tangenciar a ferramenta de escrita, fundamental na ATD (MORAES; BARTELMEBS, 2013). Nas palavras de Calixto, Galiazzi e Kiouranis (2021),
apropriar-se das dimensões inerentes à ATD envolve ler, escrever, dialogar e permitir-se complexificar os saberes inerentes, não só ao seu tema de pesquisa, mas também à organização da escrita na dimensão acadêmica, a construção e validade de bons argumentos e os saberes e fazeres na pesquisa qualitativa (CALIXTO; GALIAZZI; KIOURANIS, 2021, p. 45, grifos nossos).
Podemos dizer que a ATD é um exercício de análise que permite estabelecem um processo de aprender sobre o tema de pesquisa investigado, bem como de vestir o pesquisador com instrumentos linguísticos e compreensivos que sintetizam a construção de argumentos qualitativos válidos e coesos. Além disso, a metodologia é constituída de ciclos, os quais o pesquisador pode caminhar livremente. Não existe um único “caminho” a seguir, isto é, a sequência é flexível. Nos parágrafos seguintes, iremos expor nossas compreensões acerca dos ciclos da ATD.
O primeiro ciclo da ATD, denominado por Moraes e Galiazzi (2011) de unitarização, é a divisão do corpus da análise cujo material o pesquisador irá analisar. Pode ser dividido em pequenos trechos ou unidades de significado. Neste ciclo, o pesquisador realiza uma leitura centrada e sistemática do corpus para identificar possíveis relações entre os dados do corpus analisado.
Além disso, ainda nesse ciclo, o pesquisador passa a realizar a desconstrução dos textos (dados puros) para uma posterior unificação. Esse processo exige cautela, pois nos próximos ciclos ocorrerá a ligação de informações semelhantes em categorias que podem possuir relação entre si, dependendo do quão mergulhado está o pesquisador em seus dados. Consoante ao apresentado por Calixto, Galiazzi e Kiouranis (2021), jovens pesquisadores tencionam cautela na fragmentação para as unidades de sentido não perderem o sentido.
É importante lembrar que esse primeiro ciclo é de extrema relevância para o processo, pois é na unitarização que acontece esse movimento desconstrutivo, ocorrendo assim uma explosão de ideias e uma grande imersão no fenômeno investigado, tendo em vista, os textos que constituem o corpus. Neste momento, o pesquisador vivencia uma imersão detalhada dos e com os textos, que não deixa de ser um processo de desconstrução organizado e sistemático a fim de possibilitar que novas ideias resultem dessa ação íntima (MORAES; GALIAZZI, 2007).
Dessa forma, essas pequenas unidades de sentido são produzidas pela interpretação dos pesquisadores sobre os dados, por isso é fundamental que a pergunta que norteia a pesquisa esteja clara. Como argumenta Paulo Freire (1995, p. 19), “[...] perguntar e responder são caminhos construtivos da curiosidade. É necessário estar sempre à espera de que um novo conhecimento surja, superando outro que, já tenha sido novo, e que envelheceu”. Operacionalizar as unidades de sentido (novas ou envelhecidas) não pode se restringir a mostrar o fenômeno. Elas também formam um espaço para o pesquisador aprender mais sobre ele, o fenômeno investigado (CALIXTO; GALIAZZI, KIOURANIS, 2021).
O segundo ciclo, chamado de categorização, é constituído pela construção e relação das partes em que o pesquisador identifica como importante. Este ciclo se caracteriza pela classificação em categorias iniciais, ou seja, a formação de pensamentos que reúnem unidades que se aproximam, seja em razão do seu sentido ou seja pelo significado. Elas podem ser definidas à priori ou após a leitura do corpus, quando estas categorias emergirem no decorrer da análise, o que caracteriza a construção à posteriori. Segundo Moraes e Galiazzi (2007),
Categorias constituem conceitos abrangentes que possibilitam compreender os fenômenos, que precisam ser construídos pelo pesquisador. Da mesma forma como há muitos sentidos em um texto, sempre é possível construir vários conjuntos de categorias a partir de um mesmo conjunto de informações (MORAES; GALIAZZI, 2007, p. 29).
O olhar minucioso também acompanha o autor neste ciclo, para que ele consiga associar e confrontar as informações que mantenham alguma relação a fim de que novas compreensões surjam dessas categorias. As categorias podem ser subdivididas em outras categorias, ou seja, subcategorias com especificações próprias com refinamento de dados. Esse ciclo marca a organização de informações que antecedem a construção de metatextos.
Diante disso, a construção dos metatextos acontece no terceiro ciclo, mas não necessariamente estes precisam ser iniciados neste ciclo. Os metatextos são responsáveis por evidenciar novas compreensões e conhecimentos da pesquisa. É a partir da categorização que ocorre a construção do texto final, momento em que as teses e hipóteses são colocadas à prova pelos argumentos internos do pesquisador. Esses metatextos são únicos, pois cada pesquisador possui características próprias e tem um olhar diferente em relação às informações. Assim, mesmo que outro pesquisador realize uma pesquisa semelhante sobre os mesmos dados, poderá chegar a outras compreensões.
Portanto, precisamos entender que os sentidos construídos pelas categorias não são “dados prontos”, pertencem a um grande esforço construtivo. Ou seja, é necessário criar coerência entre os elementos das categorias, elaborando argumentos que solidifiquem a compreensão do todo pelas partes, e das partes pelo todo. Isso porque, segundo Moraes e Galiazzi (2007, p. 30): “Em vez de defesa com números, característica de abordagens quantitativas, nas abordagens qualitativas é preciso fazê-la com argumentos”. Argumentos culminam em metatextos que se constituem em “descrição e interpretação” sobre o que é investigado. Trata-se de um processo auto-organizado, que representa um processo recursivo de idas e vindas, leituras e releituras, reelaborações de categorias e de significados entre as informações até a finalização da pesquisa.
O movimento de desconstrução, construção e reconstrução, implicados na ATD, é considerado um constante “ressurgir da Fênix”, metáfora utilizada por Moraes e Galiazzi (2007) para ilustrar o processo de captação do novo emergente, considerando a ave mitológica, que pode representar ciclos. Os autores destacam que a ave Fênix sempre ressurge das suas cinzas, de sua constituição original. De acordo com eles, “[...] isso ocorre também com os conhecimentos dos sujeitos, que para ressurgirem exigem envolver-se em movimentos desconstrutivos-reconstrutivos capazes de propiciarem constantemente a emergência do novo” (MORAES; GALIAZZI, 2007, p. 215). Deste modo,
[...] a emergência do novo a partir do caos, é um processo auto-organizado e intuitivo. Não pode ser previsto, ainda que, se possa contribuir para desencadeá-lo. De certo modo pode ser entendido como um conjunto de operações inconscientes que resultam em “insights” repentinos e globalizados. Flashes compreensivos emergem repentinamente. Possivelmente muitas intuições diferentes se formam, uma avalanche de novas estruturas (KAUFMAM, 1995), muitos raios de luz na tempestade. Algumas são perdidas ou captadas pelo pesquisador. A maioria se perde. É preciso estar atento para captar o emergente e registrar as impressões que carrega. Tal como um sonho, essas inspirações criativas tendem a ser esquecidas se não forem registradas imediatamente (MORAES; GALIAZZI, 2016, p. 64).
Além disso, Sousa e Galiazzi (2018), apontam que a ATD é uma metodologia muito utilizada no sentido de possibilitar a compreensão de algum fenômeno, sendo que esse processo pode se formar entre um “quebra-cabeças”, cujas peças já estão pré-definidas, ou como um “mosaico”, que pode se tratar de:
[...] um movimento de mudança da compreensão inicial da pesquisa nos procedimentos da metodologia em que o pesquisador faz modificações de acordo com seu material empírico e no encontro com teorias desconhecidas antes da pesquisa ou teorias assumidas a priori, mas que foram ampliadas no decorrer da pesquisa (SOUSA; GALIAZZI, 2018, p. 808).
Nesse viés, compreendemos que, em todos esses ciclos da ATD, as teorias pessoais dos pesquisadores possibilitam emergir o novo de modo a transpassar suas crenças epistemológicas e metodológicas, quando efetivamente mergulhados na ATD, mas não se limitam a essas teorias. Também são aspectos essenciais: a leitura profunda sobre o fenômeno investigado, a linguagem de comunicação a partir dos metatextos, um bom delineamento da fundamentação teórica, entre outras variáveis singulares à natureza de cada pesquisa.
2.1 A ANÁLISE TEXTUAL DISCURSIVA E A AUTORIA DO PESQUISADOR
Assumir a autoria de algo, a partir da visão de outros, num processo de reconstrução de argumentos e de novos paradigmas exige autoria do pesquisador, num processo de formação constante com a metodologia, com o objeto de investigação e com a escrita dos metatextos. Mas não há autoria sem o exercício da hermenêutica, de reconhecer os sentidos e espaços de coleta dos depoimentos e materiais de análise.
Podemos perceber que na ATD, o pesquisador se assume como sujeito da sua pesquisa, ou seja, assume-se como o principal autor daquilo que escreve, com a intenção de reconstruir suas próprias teorias e seus próprios conhecimentos. Haja vista que:
O processo de análise consiste em um constante ir-e-vir, agrupar e desagrupar, construir e desconstruir. O processo é de constantes retomadas, avaliando-se com frequência tudo que já foi realizado para refazê-lo ou melhorá-lo (MORAES; GALIAZZI, 2007, p. 187).
Ou simplesmente, de maneira curiosa,
Entende-se que o processo da ATD não está inteiramente sob controle do pesquisador. É auto-organizado. Mesmo sem conhecer o ponto de chegada, entretanto, é um modo de intervir na realidade, assumindo-se o pesquisador como sujeito histórico, capaz de participar na reconstrução de discursos existentes (MORAES; GALIAZZI, 2007, p. 159).
Isso se concretiza quando o pesquisador define a sua visão sobre o universo a que pertence, empenha-se em conhecer os detalhes do objeto investigado que, por vezes, pode ser mutável por questões éticas, políticas, culturais e ideológicas.
A cada releitura e reescrita a autoria emerge gradualmente durante os metatextos, num processo que não pode ser matematizado, já que é exclusivo e único de cada pesquisador. A autoria do pesquisador não resume suas publicações ou participação em eventos, isso é apenas um indicador de uma transformação maior, mas não pode ser tangenciada, já que é parte do processo de formação.
Em síntese, ainda que auto-organizado, o processo de produção textual implica no pesquisador se assumir sujeito e autor de seus textos, em perceber-se autor dos argumentos que defende. Assumir-se autor é ter coragem de expressar argumentos próprios dentro do trabalho. Nessa perspectiva Giordani (2019, p. 27), ao usar a ATD buscou identificar nos textos em análise um “[...] significado para além do que é apresentado”, ou mesmo escrito. Isso demanda uma análise minuciosa dos discursos, o que contribui para a compreensão, aprendizagem e entendimento do pesquisador com o objeto investigado.
Portanto, a ATD proporciona ao pesquisador a oportunidade de ir e vir, quando necessário, em todos os ciclos, sendo esse processo caracterizado como auto-organizado, porém, não engessado (MORAES; GALIAZZI, 2016). Sendo que o pesquisador, como principal autor, busca por suas novas compreensões advindas do mergulho sobre os dados, bem como sobre a análise, ação que possibilita discutir e evidenciar suas conclusões com autoria, quando requisitado por outros pesquisadores. Assim, tal metodologia de cunho qualitativo e fenomenológico proporciona o surgimento de novos conhecimentos e compreensões acerca dos materiais analisados e descritos na elaboração de metatextos.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por ora, a intenção não é de concluirmos algo, mas indicar o processo e fortalecer a percepção de que as várias reflexões feitas ao longo deste trabalho possivelmente ajudarão a compreender melhor a ATD. É importante relatar que esse trabalho materializa de maneira escrita um ciclo da nossa formação como pesquisadores, mas o ciclo não termina com esse discurso. Assim como Calixto, Galiazzi e Kiouranis (2021), o exercício de escrita desses trabalhos “formativos”, ou ainda, “informativos” sobre a ATD sinaliza um momento de reflexão, análise crítica e aprendizagem do percurso de jovens pesquisadores para apropriar e aprender os elementos da ATD. Nesse sentido, para conhecer algo de forma mais profunda a respeito desta metodologia, faz-se necessário o exercício de leituras e escrita de referenciais teórico mais amplo, sem dizer que ainda não experimentamos sua utilização na prática. Esse momento será um divisor de águas para perceber e avançar na compreensão da ATD, à medida que aprofundaremos nossa visão sobre o fenômeno investigado e faremos de nossas pesquisas algo original, emergindo também em um “aprender fazendo”.
Considerando que somos iniciantes perante a ATD, um misto de sentimentos e sentidos nos invadem quando buscamos aprender mais sobre a ATD. Isso é natural do ser humano. A estranheza frente o desconhecido faz parte do processo de formação como pesquisadores. Quando somos inseridos e desafiados em nossas pesquisas durante a Pós-Graduação, reaprendemos percepções investigativas sem nos afastar da criatividade. O que é essencial à vida acadêmica.
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