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TIRE SEUS PADRÕES DO MEU CORPO: A DINÂMICA COMPLEXA DE DISCURSOS DE RESISTÊNCIA NO INSTAGRAM
Take your standards off my body: the complex dynamics of resistance speech on Instagram
Travessias, vol. 16, núm. 1, pp. 12-29, 2022
Universidade Estadual do Oeste do Paraná

LINGUAGEM

Autores mantêm os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob CC-BY-NC-SA 4.0 que permite o compartilhamento do trabalho com indicação da autoria e publicação inicial nesta revista.

Recepción: 30 Agosto 2021

Aprobación: 08 Abril 2022

DOI: https://doi.org/10.48075/rt.v16i1.28114

Resumo: As redes sociais digitais são, naturalmente, constitutivas das práticas sociais contemporâneas e se estabelecem como espaços importantes de construção e reconstrução de significações de ordem histórica, cultural, ideológica, discursiva e estética para os sujeitos que nelas se inscrevem. Essas redes se configuram, portanto, como espaços complexos e dinâmicos, e dependentes das relações discursivas e de linguagem em todas as suas modalidades e plasticidades. Neste contexto, aquilo que é discursivamente produzido nestas redes passa por um processo de complexificação e assume papéis importantes na vida das pessoas. Assim, esta pesquisa, de orientação metodológica exploratória e qualitativa, possui o objetivo de compreender a dinâmica complexa dos funcionamentos discursivos instituídos pela hashtag #corpolivre na rede social Instagram. Para isso, nos ancoramos na indisciplinaridade (MOITA LOPES, 2006), na transgressividade (PENNYCOOK, 2006) e na criticidade (RAJAGOPALAN, 2003) da Linguística Aplicada e utilizamos a Teoria dos Sistemas Dinâmicos Complexos para a realização das análises, fazendo-nos crer que a rede social em questão é um sistema orgânico de práticas de linguagem propiciador de condições para a emergência de padrões que complexificam os entendimentos éticos e estéticos do corpo enquanto um agente de resistência e de (re)existência que, discursivamente, se agrega e se dilata nas redes sociais por meio da incorporação da hashtag #corpolivre.

Palavras-chave: Instagram, #corpolivre, Teoria dos Sistemas Dinâmicos Complexos.

Abstract: Digital social networks are, naturally, constitutive of contemporary practices and are established as important spaces for social construction and write meanings of a historical, cultural, ideological, discursive, and aesthetic order for the subjects who are inserted in them. These networks are configured, therefore, as complex spaces of discursive and dependent on relationships and language in all its modalities and plasticities. In this context, what is discursively produced in these networks goes through a process of complexity and assumes important roles in people's lives. Thus, this research, with an exploratory and qualitative methodological orientation, aims to understand the complex dynamics of the discursive functionings instituted by the hashtag #corpolivre on the social network Instagram. For this, we are anchored in the “lack of discipline” (MOITA LOPES, 2006), in the transgressiveness (PENNYCOOK, 2006) and in the criticality (RAJAGOPALAN, 2003) of Applied Linguistics and we use the Complex Dynamic Systems Theory to carry out the measurements, making us believe that the social network in question is an organic system of standardized language practices that complicate the ethical and aesthetic understandings of the body, an agent of resistance and (re)existence that, discursively while, aggregates and expands in social networks through incorporation of the hashtag #corpolivre.

Keywords: Instagram, #corpolivre, Complex Dynamic Systems Theory.

1 INTRODUÇÃO

Vivemos uma realidade que está inserida em meio ao caos. Hoje somos algo que amanhã já não seremos. O nosso amanhã, mesmo que imprevisível, já está sufocado sobre o que seremos depois de amanhã. As relações humanas, desde as mais simples, até as mais complexas, não conseguem se solidificar, pois a fluidez das práticas sociais não permite a possibilidade de estagnação. Dessa maneira, existimos, reexistimos e resistimos em meio à modernidade, caracterizada por Bauman (2001), como líquida.

Mesmo estando à beira do caos, os funcionamentos fluidos de nossa sociedade são marcados pela busca de sentidos que expliquem o porquê das coisas. Em meio à imprevisibilidade, a procura por uma identidade se constitui como um objetivo por grande parte das pessoas. Dessa forma, questionar quem somos e porque fazemos as coisas e como fazemos faz parte de nossa existência.

Neste contexto de incertezas e busca humana por uma identidade devidamente constituída, a tecnologia passou a exercer poderes sob os seres humanos. Aqueles que possuem influência dentro das redes sociais são chamados de influenciadores digitais. Essas pessoas carregam milhares de seguidores e suas práticas reverberam-se em cópias. Por exemplo: alguém com milhares de seguidores fiéis utiliza um produto publicamente e, em minutos, as lojas de todo país divulgam que os estoques estão esgotados. Isso nos mostra que o compartilhamento de conteúdo produz uma teia com potencial de modificação, adaptação e auto-organização.

Assim, este poder de influência perpassa o consumo e dita, também, quem somos. O corpo, por exemplo, passou a ser compartilhado, muitas vezes modificado por editores de imagem, e se tornou objeto de desejo, tanto na perspectiva da atração, quanto do “querer ser”. Discursos do tipo “no pain, no gain”, “coma isso e seja assim”, “faça isso e seja como eu” se tornaram virais e passaram a ditar como as pessoas devem se vestir, se alimentar e até mesmo ser. Neste sentido, tudo aquilo que não se encaixa nos padrões estabelecidos pelas mídias do bem-estar, são figuras deslocadas, desleixadas ou até mesmo feias. Como consequência surgiram práticas opressoras e excludentes como a gordofobia, body shaming e pressão estética.

Mediante os fatores supracitados, consideramos que a linguagem possui um papel central nos processos de práticas sociais que vêm ocorrendo nos espaços digitais, que chamaremos de “espaços online” (BARTON; LEE, 2015, p. 13). Dessa maneira, vislumbramos que as práticas sociais são atravessadas pela linguagem e, através dela, são criadas as oportunidades para a realização desses ideais. Sendo assim, emerge destes fatores aquilo que Barton e Lee (2015) designam como “linguagem online”, em que os posicionamentos nos âmbitos digitais conectados à internet são mediados pelas tecnologias, mas centralizados no espectro linguístico.

É através dessa reflexão que nos propomos a analisar discursos on-line que enfatizam a diversidade e liberdade dos corpos, desconstruindo parâmetros irreais e quase impossíveis sobre o alcance da perfeição, a fim de compreender a dinamicidade dos discursos ativistas nos espaços digitais e suas implicações nas práticas de linguagem.

Tomaremos a rede social Instagram como lugar de pesquisa, no qual colheremos os dados para análise através de postagens públicas de usuários que utilizaram a hashtag #corpolivre. Para isso, nos ancoramos na indisciplinaridade e interdisciplinaridade (MOITA LOPES, 2006), transgressividade (PENNYCOOK, 2006) e criticidade (RAJAGOPALAN, 2003) da Linguística Aplicada. Além disso, utilizaremos a Teoria dos Sistemas Dinâmicos Complexos (doravante TSDC), juntamente com o dialogismo de Bakhtin e o Círculo para alcançarmos nossos objetivos, pois entendemos que os processos de práticas socais são naturalmente complexos e dialógicos, pois ocorrem de maneira interativa em meio aos sistemas sociais estruturados, os quais se alimentam e retroalimentam-se em um ciclo de causalidades recíprocas (LARSEN-FREEMAN; CAMMERON, 2008).

Dessa maneira, este estudo se caracteriza como uma pesquisa exploratória, de cunho qualitativo, por analisar, de maneira interdisciplinar, um movimento social marcado pela internet, que é um espaço desterritorializado de práticas sociais e de língua(gem). Assim, articularemos os conceitos teóricos conforme o desenvolvimento da análise de dados.

2 REDES SOCIAIS E INSTAGRAM

Com o advento das tecnologias digitais, assistimos à interação humana ser modificada à medida em que pessoas passam a se relacionar em ambientes virtuais, no qual comunidades para fins de relacionamentos foram sendo construídas, alterando o formato presencial ao qual estávamos habituados. Esses espaços on-line de interação são constituídos pela linguagem e, é por meio dela, que novas práticas sociais vão sendo construídas.

Em meio a essa excentricidade tecnológica, a qual rapidamente nos habituamos, estão as redes sociais. E é através dessas redes que usuários de todo o mundo encontram afinidades e interesses em comum com uma infinidade de pessoas em um fluxo contínuo de interação.

Vale acrescentar, deste modo, que no decorrer da história do mundo digital, muitas redes sociais perderam espaço ou deixaram de existir como o Flickr, Orkut e MSN. Assim, outras redes passaram a assumir a popularidade, como é o caso do Instagram. Trata-se de uma rede social, assim como o Facebook e o Twitter, que possuem muitos usuários produzindo conteúdos e compartilhando-os uns com os outros. Diante deste contexto, Recuero (2009), aponta que:

As redes sociais são um aglomerado de pessoas ou organizações e entidades sociais que mantém uma conexão entre si por interesses diversos, como para manter relacionamentos pessoais amorosos ou não, relações de trabalho, dentre outros (RECUERO, 2009, p. 64).

O conceito supracitado corrobora com Tomael e Marteleto (2006), ao enfatizar a essência das redes sociais, que é o compartilhamento de informações. Nas palavras dos autores, “no ambiente das redes, o compartilhamento de informação e de conhecimento entre as pessoas é constante, pois as pessoas frequentemente gostam de compartilhar o que sabem” (TOMAÉL; MARTELETO, 2006, p. 76).

Nesse mesmo contexto, Silva (2012, p. 33) advoga que “estar conectado significa estar em rede, ou seja, interligado por nós que tornam possível a união, a comutação, a troca, a transformação. Estar conectado através das tecnologias vigentes é uma das características da sociedade contemporânea”.

Dessa maneira, com a popularização da internet e das tecnologias digitais, as redes sociais foram adaptando-se à realidade e se transformaram em gigantescos espaços de compartilhamento de opiniões e posicionamentos. Além do mais, não pararam por aí, foram modificados ainda mais e tornaram-se espaços influenciadores, os quais passaram a ditar padrões em rede. Neste sentido, Recuero (2009) explica que

[...] uma rede, assim, é uma metáfora para observar os padrões de conexão de um grupo social, a partir das conexões estabelecidas entre os diversos atores. A abordagem de rede tem, assim, seu foco na estrutura social, onde não é possível isolar os atores sociais e nem suas conexões. O estudo das redes sociais na internet, assim, foca o problema de como as estruturas sociais surgem, de que tipo são, como são compostas através da comunicação mediada pelo computador e como essas interações mediadas são capazes de gerar fluxos de informação e trocas sociais que impactam suas estruturas (RECUERO, 2009, p. 24).

Dessa forma, as redes implantaram nos sistemas sociais padrões conectados em que possuem funcionamentos próprios, como é o caso do Instagram, rede social criada em 2010 por Kevin Systrom e pelo brasileiro Mike Krieger para o compartilhamento de fotos e vídeos. Atualmente é propriedade do programador e empresário Mark Zuckerberg, também proprietário do Facebook e WhatsApp.

Desde a sua criação até o momento atual, a rede social em questão ganhou milhões de usuários assíduos que passaram a compartilhar seus interesses através de seus perfis que podem ser públicos ou privados. Para efeito de entendimento da dimensão e quantidade de usuários do Instagram, podemos elencar diversos nomes famosos que possuem quantidades exponenciais de seguidores. Até o momento da redação deste estudo, o jogador de futebol Cristiano Ronaldo (@cristiano) possuía 284 milhões; a atriz e cantora Ariana Grande (@arianagrande) possuía 232 milhões e a atriz, cantora, empresária e filantropa Selena Gomez (@selenagomez) possuía 226 milhões. O Instagram oferece ainda diversos meios para interação. O compartilhamento de fotos e vídeos é a principal plataforma de divulgação de conteúdo. São disponibilizados diversos formatos de postagem como, publicações, stories e reels [1], funções essas que servem para facilitar e dinamizar a interação entre aqueles que produzem conteúdos com aqueles que consomem, num grande fluxo de interação e correspondências.

Nessa direção, as conexões estabelecidas em espaços on-line como o Instagram, abrem pressupostos para qualquer forma de interação, seja ela benéfica ou não. É nesse sentido que abordaremos as discussões relacionadas aos corpos, com ênfase naqueles que não se adequam ao padrão, ou seja, corpos gordos, na maioria das vezes femininos, uma vez que postagens relacionadas à aceitação de corpos reais fazem emergir comentários depreciativos àqueles e àquelas que fizeram a escolha de se aceitar da maneira como são.

3 GORDOFOBIA, PRESSÃO ESTÉTICA E BODY SHAMING

Nas redes sociais emergem assuntos diferentes a todo instante, no entanto, o assunto em torno dos diferentes corpos ganhou e vem ganhando espaço, seja por movimentos que defendem a liberdade dos corpos reais ou por comentários e conteúdos depreciativos em torno do mesmo tema. Nesse sentido, os termos “gordofobia”, “pressão estética” e “body shaming” passaram a ter grande destaque e repercussão.

A Gordofobia ou lipofobia faz parte da vida das pessoas gordas. Trata-se da ação de ridicularizar e constranger uma pessoa, simplesmente, por ela estar acima do peso considerado ideal. “A gordofobia nasce justamente de atitudes preconceituosas, onde o acusador inicia uma série de argumentações e chacotas na tentativa de ridicularizar as pessoas que estão acima do peso” (NERY, 2018, p. 4). Vale salientar que, a pessoa que se sentir intimidada ou constrangida pode acionar o judiciário. Segundo Santos (2020, p.18) “o crime de gordofobia poderá se enquadrar nos crimes contra honra, mais precisamente no delito de injúria, previsto no art. 140 do Código Penal”.

Nery (2018) aponta para o fato de que apesar de as redes sociais serem um lugar onde ocorrem as práticas gordofóbicas, esses espaços on-line se transformam em práticas de resistência à medida em que as vítimas os utilizam para as práticas de empoderamento.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), 60,3% dos brasileiros com 18 anos ou mais, estavam acima do peso em 2019. Diante desse cenário, a busca pelo corpo perfeito através de dietas restritivas e diversas modalidades de exercícios físicos obteve um gigantesco espaço nas redes sociais, principalmente no Instagram. Como consequência, houve o surgimento de milhares de perfis que buscam compartilhar cotidianos amparados pelo discurso do bem-estar, vida e alimentação saudável, coachs motivacionais com enfoque em emagrecimento etc. Esses perfis utilizam de seu alcance para divulgar produtos atrelando-os à sua imagem e assim, popularizando-os e vendendo-os.

Neste contexto, estes funcionamentos representam um efeito de influência em massa, criando padrões cada vez mais difíceis, e muitas vezes impossíveis, de serem alcançados. Como consequência, pessoas que não se enquadram em corpos padronizados e estigmatizados como saudáveis e bonitos, acabam sofrendo pressões sobre a individualidade de seus corpos e recebendo julgamentos, em outras palavras, esses sujeitos sempre terão seus corpos deslocados por serem magros demais, gordos demais, baixos demais ou altos demais. Assim, conceitua-se a pressão estética em torno do que seria considerado o “corpo perfeito”.

Em entrevista para a Revista Trip, a influenciadora Alexandra Gurgel (@alexandrismos), criadora da hashtag #CorpoLivre, explica que “Há um padrão para ser seguido e quem se aproxima mais dele é mais bonito” (MESQUITA, 2019). Em consonância, Tomasine (2020) explica que:

A gente tem como padrão de beleza corpos que são completamente irreais, não são só corpos magros, mas de extrema magreza. [...] Pressão estética é a gente acreditar que existe uma só forma de um corpo ser bonito, ele está sempre no lugar impossível para todos, temos questões genéticas, metabólicas. [...] O nosso peso corporal é ditado por muitas variáveis, temos corpos diferentes e está tudo bem (TOMASINE, 2020, n.p.)

Atrelado à pressão estética está o body shaming, que traduzido para o português quer dizer “vergonha do corpo”, trata-se do termo utilizado para nomear à prática de envergonhar pessoas por conta de seu corpo. Conforme o Cambridge Dictionary, body shaming são críticas a alguém com base na forma, tamanho ou aparência de seu corpo [2]. Segundo a Ordem dos Psicólogos de Portugal, doravante OPP, essa prática é um tipo de agressão que pode ocorrer tanto nos espaços on-line, quanto presencialmente. Os agressores podem ser diversos, como pessoas desconhecidas, geralmente na internet, amigos, familiares, e até nós mesmos. Ainda segundo a OPP, esse tipo de violência pode fazer com que as pessoas se sintam envergonhadas, inferiorizadas, magoadas, constrangidas, desconfortáveis e com sentimentos negativos quanto à sua imagem corporal (OPP, 2021).

Por conta dos fatores supracitados, a prática do body shaming pode acarretar sérios problemas psicológicos em suas vítimas. A OPP, alerta que as consequências dessa prática são “baixa autoestima; preocupação excessiva com partes especí­ficas do nosso corpo; ansiedade; depressão; isolamento social; maior risco de desenvolver comportamentos alimentares disfuncionais e outras consequências negativas na Saúde Física” (OPP, 2021)[3].

Tomamos, então, body shaming como uma prática que envergonha pessoas que não estão inseridas num padrão de beleza socialmente estabelecido, compreendemos que, sentir vergonha do próprio corpo, segundo Schilder, (1999), citado por Oliveira (2015), torna “a imagem corporal como figuração de nosso corpo formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós” (OLIVEIRA, 2015, p. 14). Segundo a pesquisadora:

A imagem corporal pode ser compreendida como um fenômeno dinâmico, singular, estruturado no contexto da experiência existencial e individual do ser humano, influenciada por fatores emocionais, sociais e fisiológicos. E está vinculada à nossa identidade, direciona nossas ações, influencia nossas percepções e define nosso grau de satisfação ou insatisfação com cada experiência vivida (SHONTZ, 1990; SCHILDER, 1999; TAVARES, 2003).

Diante do exposto, compreendemos que os diversos conteúdos relacionados a emagrecimento veiculados no Instagram não podem se adequar a todos os corpos, pois há fatores que nos diferenciam uns dos outros, tais como metabolismo, genética, disfunções hormonais etc., ou seja, o que funciona para um determinado tipo de corpo, pode não funcionar para o outro, acarretando, dessa forma, o sentimento de frustração e derrota. Ainda segundo Oliveira (2015, p. 16) “A vergonha está ligada a uma internalização dos padrões culturais vigentes, sendo experimentada quando a pessoa, e em especial a mulher, falha em atingir o padrão que almeja”.

Nesse sentido, quando o sujeito falha ao não alcançar o padrão corporal socialmente estabelecido, o sentimento de vergonha emerge devido aos julgamentos alheios, uma vez que, tal como diz Oliveira (2015, p. 17), amparado em Coles e Swami (2013), “ao abrir mão deste padrão ideal estabelecido socialmente, mais uma vez a culpa pode emergir, pois é interpretada como uma fraqueza de caráter, ou falta de foco e até pouca força de vontade”.

Diante deste cenário, observando as inúmeras manifestações nas redes sociais, especialmente no Instagram, decidimos, portanto, direcionar uma análise na perspectiva dos Sistemas Dinâmicos Complexos (SDC), a fim de observar a dinâmica complexa das práticas sociais mediadas pela linguagem nesse ambiente, tendo como pano de fundo, o Movimento Corpo Livre. Para tanto, recortamos como corpus de análise duas postagens, três comentários e a marcação de um conjunto de hashtags na referida rede social.

4 ANÁLISE

Esta análise tem como objetivo principal promover uma reflexão em torno do movimento ativista na rede social Instagram intitulado Corpo Livre, mostrando, sobretudo, a dinâmica complexa das interações neste ambiente que, conforme Lemes e Silva (2021, p. 14), é geograficamente desterritorializado e marcado pela pluralidade de manifestações linguísticas multimodais. Afirmamos isso, pois será possível constatar a presença de textos, associados a imagens e, principalmente, as hashtags, um popular mecanismo de agrupamento de informações nas redes sociais que impulsionou o número expressivo de publicações com as marcações #corpolivre.

Para darmos início à análise, consideramos que o Instagram é um sistema dinâmico e aberto às mudanças decorridas das interações humanas. Dessa maneira, compreendemos o Instagram como um Sistema Dinâmico Complexo (SDC) constituído por usuários (agentes) que estão em constante interação, e por estar sujeito às mudanças de direcionamento, ou seja, o sistema se modifica à medida em que há redimensionamentos das práticas sociais.

4.1 CONDIÇÕES INICIAIS: NÃO FALE SOBRE O CORPO ALHEIO

Compreende-se como condições iniciais os fatores que dão início ao funcionamento dos sistemas. Elas são os estopins para a instauração da dinamicidade, ou seja, são responsáveis pela formação complexa de uma estrutura dissipativa que funciona através da emergência de novos padrões operacionais, frutos da interação dos agentes que, ecologicamente, se estabelecem no interior de um ambiente de práticas sociais, tecnologicamente mediado.

No contexto deste estudo, situamos a gordofobia, body shaming e a pressão estética como fatores que desencadearam a hashtag #corpolivre. Isso significa que a existência desse tipo de preconceito/agressão são as condições que deram início ao referido movimento.

Na Figura 1 podemos vislumbrar um desabafo postado por uma usuária do Instagram que utilizou a hashtag #corpolivre para expressar sua indignação. É possível perceber que a internauta utiliza de seu perfil para compartilhar algo que a incomoda.


Figura 1
Não fale sobre o corpo alheio
Instagram (2021)

Ao observarmos a postagem, vemos que a frase “Não fale sobre o corpo alheio” se repete 5 vezes. Além disso, a autora amplia o sentido da imagem com um texto no qual ela escreve em caixa alta “NÃO SEJA INCOVENIENTE!” e complementa dizendo que não se deve dar opiniões sobre o corpo de alguém, a não ser que seja solicitado e que “o corpo alheio não é público para você querer opinar ou falar, você não tem esse direito. Na verdade, tem a obrigação de ficar na sua!”.

A partir dessa postagem, fica nítida a existência de discursos que trazem incômodo e desconforto quando se trata de corpos. Percebemos que a autora se sente incomodada com comentários sobre seu corpo e acredita que neste caso a opinião deve-se valer de solicitação. Assim, quando a frase supracitada se repete 5 vezes, há a emergência de um funcionamento que demonstra indignação, resistência e ênfase. Dessa maneira, os discursos presentes nesta imagem configuram-se como discursos de resistência que protestam pela liberdade dos corpos sem a necessidade de opiniões alheias.

Nesse sentido, podemos atrelar esses discursos de resistência com a concepção de Bakhtin, na qual ele explica que todo discurso encontra o seu objeto sobre o crivo de outro, pois o objeto já está também sobre a tônica do outro, dessa maneira, orientado para o objeto, o discurso penetra esse meio dialogicamente tenso de discursos. Conforme o autor “ele [o discurso] entrelaça com eles [discursos outros] em interações complexas, fundindo-se com uns, isolando-se de outros, cruzando com terceiros” (BAKHTIN, 1998, p. 86). Em vias complexas, os discursos são interdependentes, pois necessitam de outros para a sua formação, ou seja, discursos são frutos de condições iniciais, o que torna os sistemas em que estão inseridos, ambientes ecológicos de práticas sociais e de linguagem.

Nesse contexto, observamos através das condições iniciais e da perspectiva dialógica da linguagem que discursos como esse se configuram como marcas de resistência, pois estão articulados a discursos prévios que carregam em si preconceitos e que, quando disseminados nas redes sociais, performam um desserviço à autoestima das pessoas que não se encaixam nos padrões pré-estabelecidos e ditados nas mídias sociais.

É possível mostrarmos essas constatações através de um comentário retirado desta mesma postagem (Figura 2), no qual uma usuária expõe um acontecimento pessoal.


Figura 2
Comentário da publicação
Instagram (2021)

Na imagem acima fica nítida a existência da pressão estética, gordofobia e body shaming nos espaços digitais. A internauta, autora do comentário, conta que alguém que ela nem ao menos conhece a insultou por postar uma foto usando um tipo de roupa que mostra seu corpo. Ela relata que que a palavra “barrigona” foi utilizada de forma depreciativa e complementa dizendo que sabe da condição de seu corpo e que não há necessidade de vê-lo [seu corpo] como algo pejorativo.

Este comentário nos revela certeiras questões a serem levadas em conta. A internauta em questão sofreu preconceito por conta de sua condição física, mesmo que, ironicamente, ela estava, conforme seu relato, na academia. Isso significa que seus esforços para que tenha uma vida saudável, sem necessariamente ser magra, foram descartados e excluídos, e o que veio à tona, através do comentário de um desconhecido, foi seu corpo pejorativamente conceituado através do termo “barrigona”, pois o aumentativo “ona”, associado ao substantivo “barriga” institui discursivamente uma função depreciativa do corpo.

Neste sentido, é possível afirmarmos que as pessoas que praticam esse tipo de violência são motivadas por puro preconceito, pois, não necessariamente, devemos atrelar a magreza ao “ser saudável”, é necessário que esse diagnóstico venha de médicos e especialistas, pois é possível ser gordo e saudável.

4.2 DIVERSIDADE

A diversidade refere-se à ideia de que os agentes de um sistema têm diferentes qualidades. Quando há um alto nível de diversidade, existem mais oportunidades para um sistema desenvolver respostas novas e criativas para situações diversas. A diversidade é definida como “o grau de variação em um sistema” (YARIME; KHARRAZI, 2015, p. 146). Isso significa que as partes de um sistema têm diferentes capacidades, são heterogêneas.

Nesta perspectiva, observamos a postagem que consta na Figura 3, e ao analisá-la, percebemos um alto grau de diversidade apresentada através de discursos verbais e não verbais.


Figura 3
Postagem marcada pela hashtag #corpolivre
Instagram (2021)

Ao observarmos a imagem, notamos os itens que compõe o funcionamento diverso. Primeiramente identificamos a representação não verbal de uma mulher gorda, que possui um tipo de condição em sua pele, provavelmente vitiligo. Essa doença consiste em lesões aparentes que causam perda da coloração, o que gera manchas mais claras do que o tom da pele [4]. Dessa maneira, levando em consideração que as manchas possuem menos pigmentação do que os tecidos não afetados, concluímos que a imagem apresenta uma mulher negra, de cabelos cacheados. É possível vislumbrarmos, ainda, que a mulher está usando apenas roupas íntimas, o que deixa seu corpo à mostra. Já a parte verbal traz a seguinte frase “Tire seus padrões do meu corpo”.

Pudemos notar nesta postagem que a parte não verbal apresenta uma representação das mais diversas possibilidades de corpos, desde tamanhos e formatos até doenças que os influenciam. Quanto ao discurso verbal, entendemos a existência de uma ordem, pois é utilizado a modo imperativo no verbo “tirar”, o que indica que corpos precisam ser respeitados a qualquer custo, pois cada pessoa possui a sua história e são essas individualidades que tornam o mundo diverso. Além disso, é válido dizer que a forma linguística destacada anteriormente está em oposição a “colocar”, o que indica a existência de um outro agente, com quem a autora da postagem dialoga, existindo, nessa relação uma memória discursiva que retoma posturas normativistas e impositivas sobre um padrão de corpo ideal.

Cada aspecto representado nesta postagem possui um significado ideológico que conversa com crenças e história de vida de milhares de pessoas e grupos sociais. É possível que façamos, analisando o post em questão, uma ligação com vários outros movimentos de resistência existentes na realidade social como, por exemplo, o feminismo, a luta negra e a liberdade dos corpos. Dessa forma, entendemos que essa postagem não só pretende resistir, mas também reexistir em meio a uma sociedade que marginaliza corpos desde seu peso e formato até a cor de sua pele.

Neste contexto, esse discurso de resistência e reexistência possui um viés ideológico e se encontra longe da inexistente neutralidade dos signos. Bakhtin (2014) já afirmava em Freudismo que “Uma ideia é forte, verdadeira e significativa se sabe tocar aspectos essenciais da vida de um determinado grupo social, se consegue clarear a posição fundamental deste ou daquele grupo na luta de classes[...]”.

Para ampliar um pouco mais esta reflexão sobre a diversidade, tanto de agentes no âmbito do sistema que conforma o movimento #corpo livre, como de discursos que são disseminados no espaço de práticas das redes sociais, trataremos, a seguir dos feedbacks.

4.3 FEEDBACK: A DINÂMICA DA REPRESENTATIVIDADE

Retomando aqui a Figura 3 que traz o enunciado “Tire os seus padrões do meu corpo”, lembramos que a hashtag #corpolivre carrega a propriedade de sistema macro, configurando-se, portanto, como um ambiente ecológico e autêntico de práticas sociais e de linguagem, marcado por posicionamentos que defendem a liberdade sobre o próprio corpo, isentando de opinião, aqueles que ainda estão vinculados ao princípio do corpo ideal, seguindo um padrão estabelecido por certos segmentos da sociedade.

A partir disso, e observando a diversidade de discursos que circulam nas redes sociais, em função, principalmente, da multiplicidade de formações ideológicas dos agentes que interagem no espaço do Instagram, observaremos, mais abaixo, uma imagem que retrata de um comentário recortado do post apresentado na Figura 3. Trata-se de um feedback ao comentário 01, destacado também na referida imagem.


Figura 4
Feedback ao comentário 1
Instagram (2021)

Na imagem acima, o perfil dá um feedback positivo para o comentário 1, que reforça o enunciado “tire os seus padrões do meu corpo”. Tal repetição incide no entendimento que este discurso é marcado por um lugar de luta e resistência nas redes sociais quanto à imposição exacerbada da ideia do “corpo perfeito”.

Nesse sentido, observando o feedback e entendendo-o, neste caso, como positivo, relembramos Silva (2017, p. 74) quando afirma que “após determinado tipo de estímulo o agente dá um feedback que pode ser tanto negativo, quanto positivo. É valioso também acrescentar que o mecanismo de feedback assume a função de identificar limiares e regular a capacidade do sistema de mover-se de uma trajetória para outra” (YARIME E KHARRAZI, 2015).

A consideração de que o feedback é positivo, não somente pelo aspecto discursivo, mas também pela identificação e a utilização do emoji Red Heart como um recurso linguístico multimodal aponta, não apenas a identificação com o tema em voga na postagem, como também a apreciação pela qualidade do material postado.

Nesta mesma linha de posicionamento, observemos outra postagem que carrega propriedades similares à anterior, com destaque ainda maior para a incorporação da multimodalidade, além da configuração linguística própria de um feedback positivo.


Figura 5
Comentário 2
Instagram (2021)

O comentário acima, tomado aqui como um feedback positivo, apresenta um posicionamento que, por meio do recurso multimodal de construção textual, leva à compreensão de que o corpo ilustrado no post que configura o ponto de atração, conforma um modelo que, embora destoe do padrão estético estabelecido socialmente nas redes de comunicação digital, é dotado de uma beleza singular. Além disso, a marcação dos emojis heart eyes . fire aponta a admiração para a imagem compartilhada, ressaltando, inclusive, o aspecto que se relaciona com a sensualidade da figura feminina ali representada.

Nestes dois casos aqui apresentados, os feedbacks, recursos marcadamente representativos do funcionamento complexo dos sistemas dinâmicos, incorporam as vozes de uma diversidade de agentes da grande rede que concordam e defendem a ideia da liberdade de expressão e exposição do próprio corpo, compreendendo, inclusive, este gesto como um ato de resistência aos moldes criados por muitos influencers digitais e, naturalmente, compartilhado por seus seguidores nas redes sociais. Assim, é importante dizer que, da mesma forma como dissemina-se a ideia de um modelo ideal de beleza, dada a abertura de múltiplos ambientes orgânicos de práticas sociais, também se desenvolvem os espaços para a manifestação e a defesa de posicionamentos que vão na contramão desses ideais reducionistas, que buscam construir padrões e colocar as múltiplas individualidades em “caixinhas” que estão de acordo com uma convenção social.

São essas páginas, agregadoras de agentes diversos, que caracterizam e criam as condições para o entendimento de um fenômeno que, assim como o feedback, nos permitem analisar certos ambientes de práticas sociais e de linguagem com marcas de sistemas dinâmicos complexos, a emergência.

4.4 EMERGÊNCIA: A LUTA NÃO PODE PARAR

Seguindo as nossas reflexões sobre a dinâmica complexa das práticas sociais e de linguagem no Instagram, direcionamos a nossa lente de observação e análise para as hashtags que emergem, juntamente com a #corpolivre, como um fenômeno que dá validade ao entendimento de que as redes sociais se configuram como espaços autênticos de atividades interativas de agentes que atuam em diversos nichos e com distintos objetivos na rede.

Assim, o movimento corpo livre é a raiz que nutre, em termos de perspectiva ideológica, um número significativo de pessoas que defendem a ideia da liberdade de agir e apresentar o seu próprio corpo, eliminando as características que reduzem a imagem a um padrão, não apenas estético, mas também racial e de orientação sexual.

Dados os níveis de complexidade instituídos no funcionamento operacional da hashtag #corpolivre, muitas outras também surgiram e passaram a ser incorporadas nas postagens por múltiplos agentes que produzem materialidades discursivas no Instagram. Vejamos algumas delas utilizadas em uma postagem que foi recortada na figura abaixo:


Figura 6
Hashtags
Instagram (2021)

Todas essas hashtags são emergências de novos padrões discursivos e de posicionamentos nas redes sociais, o que configura um movimento em defesa de uma ideologia pluralista de entendimento e de reconhecimento do próprio corpo, na relação com os demais que compartilham vivências nas redes sociais. Deste modo, vale mencionar Silva e Silva (2015, p. 288), quando argumentam que “em termos linguísticos, as hashtags configuram-se em unidades discursivas (textos) de diferentes tipos de representações simbólicas e, consequentemente, de diferentes posições dos sujeitos [...]”.

Assim, é a multiplicidade de posicionamentos discursivos na rede, permitida não apenas pela hashtag #corpolivre, bem como pelas diversas outras que seguem (ou não) a mesma perspectiva ideológica, que nos permitem dizer que estamos tratando de um ambiente orgânico de práticas sociais, dotados de propriedades que configuram um sistema dinâmico complexo. É portanto, a emergência de novos padrões de funcionamento no sistema, que permite a compreensão de que a #corpolivre, instaura, nos posicionamentos discursivos no Instagram, a ideia de que cada corpo, independente de condição física, cor, sexo ou outros elementos que o compõem, são dotados de belezas singulares que não se enquadram (e nem devem) em posturas reducionistas que induzem a formulação de uma concepção única e padronizada de beleza, criada e difundida para privilegiar certos segmentos sociais e, naturalmente, excluir outros. É na defesa desses “outros”, em especial, das singularidades e do direito à expressão do corpo que a hashtag #corpolivre, um elemento discursivo-ideológico de identificação das minorias, emerge como um ato de resistência e ganha níveis cada vez mais elevados de complexidade, à medida que os agentes atuam e se manifestam por meio dela.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa, orientada pela Teoria dos Sistemas Dinâmicos Complexos objetivou, sobretudo, promover uma reflexão em torno do movimento ativista na rede social Instagram, marcado pela hashtag .corpolivre, mostrando, sobretudo, a dinâmica complexa das interações neste ambiente orgânico de práticas sociais e de linguagem.

Este estudo, entre outras coisas, nos permitiu observar que o espaço das redes sociais, em especial o Instagram, é marcado pela multiplicidade de posicionamentos discursivos que tendem, de certo modo, a influenciar os demais agentes que compartilham do mesmo espaço de práticas. Em outros termos, queremos dizer que à medida que uma página alcança um número grande de seguidores, ela assume a função de influenciadora de todos os agentes (perfis) que a seguem. Sendo assim, fica evidente que quanto mais pessoas interagindo (curtindo, comentando etc.) em uma página, maior é o alcance dela, em termos de difusão de ideais. Fato é que muitas dessas páginas acabam por produzir materiais discursivos, seja por influência de patrocinadores ou não, que incentivam a adoção de atividades que tem como objetivo deixar o corpo dentro de um padrão de beleza único e que supostamente seria o ideal. Trata-se de um lugar social reducionista, que não compreende a pluralidade de configurações corporais, bem como as singularidades de definições de beleza, que obviamente, não se enquadram em único padrão. É a partir dessa compreensão, e entendendo essa postura como representativa de um sistema de natureza complexa e dinâmica, que decidimos por analisar os discursos que foram agrupados por meio da hashtag #corpolivre.

O estudo nos permitiu entender a hashtag #corpolivre como um sistema que propicia a emergência de diversos padrões e, como isso, cria as condições para a sua dinamização e a criação de níveis mais elevados de complexidade e de entendimento que cada beleza, na sua individualidade ou especificidade deve ser respeitada, independentemente dos modelos difundidos na grande rede, ou mesmo privilegiados por alguns grupos sociais.

Além disso, por meio das análises aqui realizadas, hashtag #corpolivre nos permitiu entender também que, além de ser entendida como um sistema dinâmico e complexo, ela é um ato de resistência e de (re)existência, pois a sua utilização em uma postagem é, entre outras coisas, a incorporação de milhares de outras vozes, de inúmeros outros agentes que, em distintos lugares do Brasil ou do mundo, também se identificam com este mesmo modo de pensar, e transformam não apenas a si, mas também ao outro, em um gesto contínuo de difusão de um ideal que justifica a defesa do respeito e da igualdade. Assim, essa igualdade é dinâmica, pois não busca colocar todos em um único padrão, mas permite que os diversos corpos convivam tanto digitalmente quanto fisicamente em harmonia, sem o risco do cancelamento ou mesmo da exclusão social. É com base neste princípio que se (re)constrói uma sociedade mais respeitosa e inclusiva, pautada em uma cultura de paz.

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Notas

[1] Recursos oferecidos pelo Instagram para que os usuários atualizem suas contas diariamente.
[2] Disponível em: https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/body-shaming Acesso em: 28 jul. 2021.
[4] Informação disponível em: https://bit.ly/3gi8FMr Acesso em: 10 ago. 2021


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