[DT] ARTES, PERFORMANCES E INTERARTES NA CENA DO CONTEMPORÂNEO LATINO-AMERICANO

Recepción: 07 Noviembre 2022
Aprobación: 02 Diciembre 2022
DOI: https://doi.org/10.48075/rt.v16i3.30080
Resumo: Este artigo visa tratar da apresentação da série Mulher – poema, do Grupo de Teatro La Broma, da Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS – da cidade de Realeza, no estado do Paraná, no Brasil. De acordo com a abordagem de Roman Jakobson dos tipos de tradução, reconhecemos no material em análise pelo menos dois tipos de tradução: intralingual e intersemiótica. A tradução intralingual se mostra pelo fato de o vídeo trazer, após a performance de cada poema em português de autoria de Rayane Leão, um texto escrito na mesma língua por um dos membros do grupo La Broma. E a tradução intersemiótica consiste no fato de o grupo transpor em linguagem audiovisual os poemas escritos no século XXI pela Insta-poeta brasileira Rayane Leão. O nome “tradução intersemiótica” está previsto por Jakobson (1963), na sua tipologia tradutória de meados do século passado. Agregamos outra categoria de tradução a esta tipologia: a tradução intermidiática. Graças à experiência de recepção deste material audiovisual, concluímos que há outro tipo de tradução não prevista pelo autor eslavo neste material: a tradução intermidiática, que envolve duas mídias sociais, a saber, o YouTube, por onde o vídeo está veiculado, e o Instagram, de onde foram extraídos os poemas de Rayane Leão, apresentados no vídeo.
Palavras-chave: Tipos de tradução, tradução intersemiótica, tradução intermidiática, performance poética.
Abstract: This article aims to address the presentation of the series Mulher – Poema [Woman -Poem], of the La Broma Theater Group, of Universidade Federal da Fronteira do Sul – UFFS – of the city of Realeza, in the state of Paraná, Brazil. According to Roman Jakobson’s approach of types of translation, we recognize in the material under analysis at least two types of translation: intralingual and intersemiotic, the intralingual translation is shown by the fact that the video brings, after the performance of each poem in Portuguese by Rayanen Leão, a text written in the same language by one of the members of the La Broma group. And the intersemiotic translation consists in the fact that the group transposes poems written in the 21st century by the Brazilian poet Rayane Leão. The name “intersemiotic translation” is foreseen by Jakobson (1963) in his translation typology from the mid-twentieth century. We add another category of translation to this typology: Intermedial translation. Thanks to the experience of reception to this audiovisual material, we conclude that there is another type of translation not provided by the Slavic author in this material: intermedial translation, which involves two social media, namely YouTube, where the video is broadcast, and Instagram, from which Rayane Leão's poems were extracted, presented in the video.
Keywords: Types of translation, intersemiotic translation, intermedial translation, poetic performance.
1 INTRODUÇÃO
Neste ano de 2022, em que o Grupo La Broma completa dez anos de atuação, registramos nosso testemunho sobre um dos seus trabalhos recentes: o vídeo Mulher.poema, que conhecemos por meio de uma aula da professora Ana Carolina Teixeira Pinto, na disciplina 7661 – Prática tradutória em Língua Espanhola – para o quarto ano do Curso de Graduação em Secretariado Executivo Trilíngue, na Universidade Estadual de Maringá – UEM, em seis de abril de 2021.
Nosso contato com a professora, diretora do Grupo de Teatro La Broma, remonta à época em que ela foi aluna de graduação em Letras – Espanhol na UFSC, e já demonstrava talento artístico, com inclinação à poética e à performance.
Por ocasião de sua aula síncrona via Google Meet, pudemos avaliar a reação dos nossos alunos frente à exposição ao vídeo e constatar a diferença de comportamento demonstrado por eles nesse dia. O entusiasmo e comentários do alunado nos motivaram a divulgar o vídeo a outras pessoas, cuja opinião comentamos neste artigo.
Uma das observações registradas por meio da recepção dessa obra é sobre os meios tecnológicos nela utilizados, já que se trata de um vídeo do YouTube,com dez minutos de duração, que traz o material poético coletado via Instagram. Duas mídias, portanto, interferem nesta criação poética e performática. Isso posto, esclarecemos que definimos performance como uma manifestação da tradução entre diferentes linguagens. Esclarecemos que essa proposta se baseia na opinião dos nossos alunos que nos adverte sobre o confronto de mídias no material audiovisual apresentado. E esclarecemos também que o presente artigo segue uma estrutura regular de apresentar o poema de Rayane Leão sobre o qual versa cada uma das cinco partes do vídeo, com comentários sobre a performance apresentada, seguidos do texto escrito por um dos membros do Grupo La Broma, como material poético que transpõe o poema em questão a uma nova versão, em manifestação de uma tradução intralingual.
2 TIPOS DE TRADUÇÃO SEGUNDO JAKOBSON
Uma tipologia tradutória bastante difundida é a de Roman Jakobson, que lemos primeiramente em francês, no capitulo intitulado Aspects linguistique de latraduition, publicado pela Les Éditions de Minuit, em 1963. A versão portuguesa aparece em 1976, pela tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. Nós fazemos a leitura e citações deste texto pela vigésima edição da editora Cultrix, de 1995, que estabelece três tipos de tradução: a intralingual, interlingual e intersemiótica. De acordo com as palavras do autor:
Distinguimos três maneiras de interpretar um signo verbal: ele pode ser traduzido em outros signos da mesma língua, em outra língua, ou em outro sistema de símbolos não verbais. Essas três espécies de tradução devem ser diferentemente classificadas:1) A tradução intralingual ou reformulação (rewording) consiste na interpretação dos signos verbais por meio de outros signos da mesma língua. 2) A tradução interlingual ou tradução propriamente dita consiste na interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua.3) A tradução intersemiótica ou transmutação consiste na interpretação dos signos verbais por meio de signos não verbais (JAKOBSON, 1995, p. 64 - 65).
No nosso curso de tradução, tratamos, principalmente, do segundo tipo de tradução com exercícios sobre o par espanhol – português. Nesse artigo, nos importa o primeiro e terceiro tipos de tradução do linguista eslavo, que é bastante sucinto na explicação destes termos.
Quanto ao primeiro tipo de tradução, por exemplo, Jakobson (1995, p. 64-65) chama de reformulação o que envolve uma única língua e pode dar-se por meio de um único sinônimo, ou de uma expressão cujos significados se equivalem. No nosso caso, reconhecemos como um tipo de tradução intralingual o texto de autoria de um dos membros do Grupo La Broma que fecha cada uma das partes da série Mulher - poema, conforme demonstraremos no decorrer do texto.
Por sua vez, o terceiro tipo de tradução, a tradução intersemiótica, envolve diferentes linguagens. Nela pode estar implicada uma única língua em diferentes linguagens, ou diferentes línguas em diferentes linguagens. O autor usa o termo “transmutação” para esse tipo de tradução em que há a transformação de um texto em linguagem verbal, como uma poesia em português, por exemplo, a um filme, em linguagem cinematográfica. Ao final do seu artigo, o linguista do Círculo de Praga diz:
A poesia, por definição, é intraduzível. Só é possível a transposição criativa: transposição intralingual – de uma forma poética a outra -, transposição interlingual ou, finalmente, transposição intersemiótica – de um sistema de signos para outro, por exemplo, da arte verbal para a música, a dança, o cinema, ou a pintura. (JAKOBSON, 1995, p. 72)
Jakobson fala da transposição da arte verbal para a dança, por exemplo, coisa que o Grupo La Broma faz, em certa medida. É possível também a adaptação da arte verbal para o cinema, que acontece também no caso em estudo, já que o vídeo não deixa de ser uma modalidade das artes visuais e imagéticas, da qual o cinema faz parte.
Dessa forma, resumimos a teoria de Jakobson (1995), para tratar do material audiovisual que nos interessa.
3 SÉRIE MULHER - POEMA
O vídeo de dez minutos de duração, que está no endereço de YouTube - https://www.youtube.com/watch?v=z56d9ZIpqbo – tem cinco partes, sendo que as quatro primeiras partes se relacionam ao título, isto é, trazem poemas sobre a mulher, e se referem aos quatro elementos da natureza: água, fogo, ar e terra. O último bloco traz o título em forma de conclusão.
A Série Mulher – poema está dividida em quatro partes, assim nomeadas: Mulher ar, Mulher fogo, Mulher água e Mulher terra. Cada uma delas traz um poema de Rayane Leão, interpretado por meio de uma tradução audiovisual, com imagem correspondente a uma encenação com uma das integrantes do grupo, acompanhada de música e com voz em off que diz o poema em questão.
O vídeo com cada performance é seguido de uma ficha técnica em que se escreve o nome da direção, edição, voz e artista. Há um nome único no caso da edição – Iara Maria Adriano –e da direção – Ana Carolina T. Pinto. Já os nomes de voz e artista mudam em cada unidade, sendo que os dois primeiros blocos cabem a uma dupla de artistas e os dois blocos seguintes a outra dupla.. Essas intérpretes trocam de função a cada episódio, já que de uma se ouve a leitura do poema – expresso na ficha técnica como “voz” –, e da outra se vê o corpo em cena – expresso na ficha técnica como “artista”. Sendo assim, a primeira parte do vídeo está nomeada como Mulher ar, e tem como artista – Leticia Guasti, e como voz – Anali Mattar. Na segunda parte, nomeada como Mulher Fogo se invertem os papéis: Anali ocupa o lugar de centro de cena e Guasti faz a voz em off.
A terceira parte do vídeo – Mulher água – traz a voz de Ana Carla Medeiros e a performer é Iara Adriano, que também é responsável pela edição final. Na quarta parte estas duas intercambiam suas funções, sendo que quem fala é Iara, e ouvimos a leitura pela voz da Ana Carla.
A quinta e última parte difere dessa configuração dual, sendo interpretada por uma única atriz – Cisse Souza – que se mostra pela voz e pelo corpo em presença nos minutos finais da apresentação. Resumimos, portanto, a ficha técnica da seguinte forma:
1 - Mulher – Ar – Artista – LeticiaGuasti
Voz – Anali Mattar
2 - Mulher – Fogo – Artista – Anali Mattar
Voz – LeticiaGuasti
3 - Mulher – Água – Artista – Iara Adriano
Voz – Ana Carla Medeiros
4 - Mulher – Terra – Artista – Ana Carla Medeiros
Voz – Iara Adriano
5 - Mulher Poema – Artista – Cisse Souza
Voz – Cisse Souza
Designada, portanto, a atuação de cada pessoa do grupo de teatro La Broma, trataremos cada parte da série, por separado.
4 PRIMEIRA PARTE “MULHER AR” – TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA
Começamos pela primeira parte – Mulher ar – tratada como tradução intersemiótica, isto é, pela passagem do poema em linguagem verbal (poema escrito) ao vídeo (linguagem audiovisual que envolve poema falado, movimento de expressão corporal e música.
O poema da primeira parte Mulher ar parece ser o mais curto – e se chama “Intuições”, e é o único que tem um título. O poema é repetido três vezes de maneira sussurrada e tem ao fundo uma cortina branca com barrado vermelho de flores, sendo que a performer está de saia esvoaçante vermelha e top branco, com as mesmas cores da cortina da sacada de um apartamento. A cortina dança no compasso do vento e dos gestos da atriz, que se move entre a sala e a sacada. O cabelo da moça está em movimento ondulante, qual provocado pelo vento, assim como a imagem que foca indefinidos contornos.
O poema de três versos sopra aos nossos ouvidos sons como presságios assoprados pelos ventos passados, qual oráculo anunciando o porvir. É curto o poema que se repete como mantra.
Os três versos trazem um título de três sílabas, o primeiro verso tem cinco sílabas, seguido de dois versos de sete sílabas, em que a aliteração em “s” ressalta o sibilar.
Intuições
são suas ancestrais
soprando nos seus ouvidos
segredos de sobrevivência
Conheci este vídeo do Grupo La Broma porque a professora Carol me enviou, primeiramente. Depois vi pela segunda vez tal performance na disciplina de tradução. E me lembro dessas duas oportunidades: na primeira estava sem fones de ouvido e via a imagem pela tela de um computador de mesa, e na segunda vez assisti por um laptop com fone de ouvido. As sensações foram diferentes.
Na primeira vez, tive dificuldade de reconhecer o que era dito, pois a impressão do vento zoava nos meus tímpanos, e senti o que era dito por rufadas, sem identificar as palavras do poema em si. Na segunda vez, fui capaz de identificar um pouco mais as palavras, além de que sentia mais forte o rufar dos ares nas orelhas. Considerar essas impressões diversas contam quando interpreto o sentido do poema (ou os sentidos do poema). Vale frisar também que, na segunda vez, isto é, na aula pelo Google Meet, a professora mostrou o poema por escrito, e ver os versos que compõem o poema facilitam a compreensão e o acesso às palavras que não ficaram claras, na primeira audição.
A alcoviteira, que espalha fofocas aos ares: a mulher ar tem o dom da feiticeira, que funciona como oráculo, capaz de pressentir o futuro. Essa função reside em seu poder de conhecer os segredos do que está por vir.
5 PRIMEIRA PARTE “MULHER AR” – TRADUÇÃO INTRALINGUAL
Consideramos a primeira tradução ao primeiro tipo de tradução chamado de intralingual por Jakobson. Isso porque uma única língua está em jogo, na criação de textos diversos. Aqui não se trata de uma tradução de um termo em específico, mas de um poema específico. Essa tradução intralingual parte do texto poético (linguagem verbal e poética) do Instagram, ao texto poético escrito por outro eu-lírico – texto escrito pela atriz de La Broma, no caso. Os dois textos compartem a mesma linguagem – verbal e escrita – , no entanto são de autoria diferente. No primeiro, a autora é Rayane Leão, no segundo, a autora é “eu – Leticia”.
Transcrevo o texto escrito que sobe na tela, ao final da performance da Mulher ar:
Mulher ar faz parte da série Mulher – poema, sentido produzido por mim, Leticia, e por minhas parceiras do Teatro La Broma.
Parto – Partimos da idéia de uma escrita de si, inerente de uma escrita de nós. Nós, mulheres contemporâneas sobreviventes de uma pandemia, sentimos uma sincronicidade ancestral que nos impulsiona à transcriação do poema de Ryane Leão.
Leticia – mulher se esforça para viver a poesia no ar – presente.
Sussurrar o poema duplica a voz do vento que move a cortina e a saia, e o cabelo se movem, enquanto recebe o sopro dos segredos que asseguram nossa sobrevivência. Leticia fala da escrita de si – em terceira pessoa do singular –, num eu que resulta em mim – em primeira pessoa do singular –, inerente a um coletivo que reverbera em nós – primeira pessoa do plural. A escrita de si é a escrita de nós, e o feminismo (ou o feminino) toma dimensão coletiva “de quem mexeu com uma mexeu com todas” e o grupo conta, pois a união faz a força. Nisso está o tema do grupo de pesquisa que se transforma em linguagem também escrita para escrever novo poema, assinado por Leticia.
Esse texto não traz o final convencional dos blocos seguintes, que diz: “Mulher X faz parte da série Mulher – poema produzido por mim e pelo Grupo La Broma, transcriando poemas de Rayane Leão.” Esse fragmento, repetido com ligeiras modificações, fecha as explicações do segundo e quarto blocos da série. Esse eu–lírico assume a voz de Rayane Leão como parte de um/uma de nós, turma da qual Leticia faz parte e confessa o esforço que representa pertencer a um coletivo feminino e feminista, pelo comprometimento com as pautas e causas que esse movimento representa.
6 SEGUNDA PARTE “MULHER FOGO” – TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA
A cena deste segundo texto se passa na cozinha. Diferentemente das outras cenas, aqui a câmera se posiciona acima e mostra, por um ângulo superior, o fogo que sai de uma das bocas do fogão e uma mulher que faz café.
Depois dos murmúrios qual juras de amor, o ritmo do som de uma música de carnaval crepita. Isso me faz recordar outro poema de Rayane Leão, lido no Instagram em 6/6/2022 - @ondejazzmeucoracao - que diz o seguinte:
meu corpo enredo
pedindo o seu
carnaval
A marchinha de carnaval “Ô, abre alas, que eu quero passar!” soa na cozinha enquanto a voz ao fundo recita:
nem mesmo eu
conheço todas
as suas histórias
e te vejo encostada
no vidro do carro
cantando baixinho
uma música dos anos 70
e volto acreditar
que as mulheres
que enfrentaram
incêndios demais
também podem
sentir paz
São 37 palavras em 13 versos, o que dá uma média de umas 3 palavras por verso (ou 2,84615 palavras por verso). Neles há uma mensagem efusiva, que diz que o sentimento de paz pode ser sentido também por mulheres ardentemente apaixonadas, isto é, aquelas que “enfrentam incêndios demais”. Essa metáfora explica a relação feita entre esse poema e o elemento fogo, e exalta a função da cozinheira.
Essa mulher canta como quem participa de um bloco de carnaval que pede passagem. A voz da canção diz pertencer ao Lira, mostrando que a pessoa não está só, mas faz parte de um todo, coletivo e unitário, que dança, pula, brinca, festeja, celebra e anuncia a força da união. E o poema diz da impossibilidade de conhecer completamente o outro, com quem dialoga, ainda que essa dificuldade não incapacite de acreditar no potencial humano de apaixonar-se e de ter fé.
7 SEGUNDA PARTE “MULHER FOGO” – TRADUÇÃO INTRALINGUAL
“Mulher Fogo” vive um processo de restauração. Restauração de seu retrato. Queima, destrói, elimina, limpa. Cozinha, esquenta, ferve, transforma. Ilumina, brilha, canta, dança. Faz de um café um ritual poético, fluido de resistência. Mulher Fogo faz parte da série Mulher – poema produzido por mim e pelo Grupo La Broma, transcriando poemas de Rayane Leão.
Esse é o único texto em que não aparece a autoria do extrato criado pelo Grupo La Broma. Ainda que o eu poético não se nomeie, há a alusão à cena cotidiana do café sendo preparado pela pessoa que entoa, feliz, a conhecida canção de fins do século XIX, considerada uma das primeiras marchinhas de carnaval da história, cuja autora é Chiquinha Gonzaga (Francisca Eduviges Neves Gonzaga – 1847 - 1935) que a compôs para o cordão do Rosa de Ouro do Andaraí, de acordo com o site da internet, acessado em 12/6/2022. (https://www.todamateria.com.br/?s=chiquinha+gonzaga)
Esse bloco traz uma cena corriqueira, mostrada por um ângulo peculiar, em que não se expõe com nitidez o rosto da mulher em cena. Isso supõe talvez uma possibilidade múltipla, uma criação coletiva cuja autoria pode ser de todo mundo, razão, talvez, para que não se nomeie o eu lírico. Nem Ana, nem Clara nem Carolina, assim fica em aberto a autoria desse quadro que traz à tona um dos rituais mais costumeiros dos lares brasileiros.
Esse trecho traz outras ações cotidianas de brilhar, dançar e cantar, que podem ser realizadas na cozinha, ou na multidão dos blocos das festas populares, evocado pela canção da compositora do século passado. A atitude de preparar o café da manhã inaugura o dia, o recomeço, num ritual de iniciação que se propaga ao infinito.
8 TERCEIRA PARTE “MULHER ÁGUA” – TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA
as mulheres que correm em minhas veias
me acordaram essa madrugada.
para me avisar que grandioso não é o que me atravessa
grandioso é eu ainda me permitir de coisas belas
me devolvo no chão
É verdade que tivemos certa dificuldade de transcrever os versos desse poema de Rayane Leão, principalmente o seu verso final. Decidi, no entanto, não cotejar minha versão com o texto escrito, apresentado pela Professora Ana Carolina Pinto, na aula do dia 6 de abril de 2021, para expor o que ouço, da maneira mais fiel possível ao meu ouvido.
Todas as vezes que vejo o vídeo, o que mais me chama a atenção é a cortina de plástico transparente, pintada por algumas pinceladas de cores alegres – azul, vermelho, amarelo. A transparência da cortina do box permite ver a mulher que toma banho, vestida de top cor da pele. Ela faz gestos largos, acompanhando a música e a voz que diz o poema de cinco versos.
Tal obra traz em si o sentido de ancestralidade de quem por cujas veias correm um sangue que se assemelha ao dos seus familiares, antepassados, numa genealogia carregada de arquétipos. O vermelho das pinceladas da cortina evocam o “sangue que corre nas minhas veias”, como a torrente menstrual que a desperta de noite – ou a corrente sanguínea que a excita – e que a perturba de madrugada. As pinceladas são como pingos de água, que qual líquido é acompanhado por um piano que salpica notas a granel que emprestam consistência e densidade à cena.
9 TERCEIRA PARTE “MULHER ÁGUA” – TRADUÇÃO INTRALINGUAL
“Mulher água” sente o fluido de um sangue ancestral que tem o poder de lavar o chão de um box, de um banheiro, de uma casa, de uma mulher. Eu, Iara, me sinto água, me sinto sangue, me sinto forte, para encarar o vírus de uma sociedade enferma, forte de frente mesmo sem sair de casa. Mulher água faz parte da série Mulher – poema, produzido por mim e pelas minhas parceiras do Grupo La Broma, transcriando poemas de Rayane Leão.
Agora a autoria se anuncia e Iara transmite a idéia da mulher lavadeira, a que se lava, a que lava partes do seu corpo, além da que limpa e lava outros lugares, outros corpos, outros panos, outras roupas e outros objetos. A sujeira da sociedade que requer a limpeza de sangue e de água banha a imagem clara da gravação.
No poema, o eu lírico fala de grandiosidade em sentido pessoal, já o eu do texto recorda as dificuldades dos tempos pandêmicos atuais, de quem necessita resguardar-se das doenças causadas por uma sociedade adoentada e enjaulada.
10 QUARTA PARTE “MULHER TERRA” – TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA
você diz que é preciso se entregar visceralmente
e eu te digo que é preciso derrubar portas
chacoalhar árvores
tremer vidraças
balançar folhas
refrescar contornos
soprar flores
conhecer sozinha a própria potência
de destruição e de amor
se aprofundar em seus excessos
saber bem de si
oferecer o mais bonito
para optar por onde ficar
para optar por onde sair.
Talvez esse poema de catorze versos seja o mais longo dos cinco expostos no vídeo. Ele se inicia com um diálogo em que parece haver um contraponto entre você e eu, ou uma encruzilhada entre opostos, em que é preciso tomar uma decisão. E no suposto confronto se recomendam atitudes extremas - como “derrubar fronteiras” e “tremer vidraças” – e outras não tão extremas – como “soprar flores”, “refrescar contornos”. O que se aconselha é um corolário de atitudes, extremadas ou delicadas, que possibilitam um conhecer-se a si mesmo. Esse aprofundamento no eu, provocado por ações, revertem na iniciativa e no auxílio para as tomadas de decisões.
A atriz no meio de uma sacada dança com malha de balé preta. Há um espelho que duplica a imagem da dançarina que se duplica, num jogo múltiplo. A cena se passa ora de noite, quando tudo se apaga e há uma guirlanda de luzes sobre o fundo negro, e ora de dia, quando a atriz se desloca próxima ao chão em gestos que acompanham a música ao piano. Gestos ritmados, de quem trabalha a terra num ato de colheita e semeadura e num roçar o chão.
Mulher terra é o poema mais longo e mais fértil, porque traz a conclusão de um ciclo. O contraste luz e sombra, o passar do tempo, a noite escura que termina fecha a simbologia dos quatro elementos da natureza, com a função da mulher agrícola, que planta, colhe, semeia, cultiva, cuida, rega e espalha amor.
11 QUARTA PARTE “MULHER TERRA” – TRADUÇÃO INTRALINGUAL
“Mulher terra” cria a raízes para mergulhar em si. Eu, Ana Carla, compartilho meu corpo – raiz – rizomático com a densidade de uma terra fértil – infértil e escolho dançar no seguro , mas movediço solo de um presente viral. Danço porque para mim a dança é sinônimo de resistência. “Mulher Terra” faz parte da série Mulher – Poema, produzido por mim e pelo Grupo La Broma, transcriando poemas de Rayane Leão
O quarto e último bloco da sequência poética termina na terra, no solo fértil, no chão arado, de um eu que se apresenta como movediço, pois é, ao mesmo tempo, raiz e rizomático, fértil e infértil, luz e sombra, numa junção de opostos. E vale a pena abrir um parêntese para fazer uma tradução intralingual sobre a palavra “rizomático”, presente no texto em sequência à palavra “raiz”. Os dois termos são provenientes da botânica. O dicionário escolar da UOL explica que: "A raiz é um órgão vegetal que apresenta como função principal a sustentação da planta e a absorção de água e sais minerais, os quais são levados, via xilema, para as partes aéreas da planta.”
A raiz é vista como fundamento e base única de uma planta. Segundo Oxford Language, “rizomático” é vocábulo usado pelos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995) “para descrever uma maneira de encarar o indivíduo, o conhecimento e as relações entre as pessoas, idéias e espaços a partir de uma perspectiva de fluxos e multiplicidades, que não possui uma raiz ou um centro.”
Para os filósofos franceses, a lógica binária domina o pensamento da linguística estruturalista e da informática. No entanto, esses autores propõem a multiplicidade e a heterogeneidade como fundamento para a arte e a criação literária que representa o pensamento rizomático que traduz o mundo caótico em que vivemos.
A perspectiva hierárquica do modelo de árvore por cujo caule se ramificam troncos é alterada pela teoria que atualiza o termo, empregando-o na área dos estudos de literatura, para simbolizar o pensamento não-linear e não-hierárquico, que não se assemelha à imagem tradicional da raiz arbórea.
O texto de Ana Carla emprega a palavra rizomático em alusão à maneira atual de pensar a estética feminista, que não se atém à estrutura hierarquizada do pensamento tradicional, estruturada qual árvore de uma única raiz, da qual sai um caule de onde se originam vários troncos, ramos, folhas, flores, frutos e sementes. O eu−lírico desse trecho emprega essa palavra para evocar uma simbologia diferente e oposta à imagem de raiz estática e de única vertente. A raiz brota da terra e encerra o ciclo como o quarto elemento, não por uma ordem hierárquica e única entre seus componentes, mas por uma concepção de ciclo cujo fim e começo residem no mesmo ponto. E como terra é pó e do pó nascemos e a ele retornaremos, assim o ciclo se abre e se fecha, em repetição infinita.
12 QUINTA PARTE “MULHER POEMA” – TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA
quando as palavras me encontraram
eu escrevi em paredes
e peles
e blocos
e cadernos
e muros
folhas internas
A POESIA ME FAZ LIVRE
Ao som de um piano suave, uma atriz de mais idade que as atrizes dos blocos anteriores finge experimentar vários vestidos, com o olhar atento a sua imagem no espelho. A cena se passa no seu quarto e as peças retiradas do guarda-roupa desfilam aos nossos olhos sem sair do cabide. Roupas estampadas de cores que recordam os elementos exóticos da mulher em cena: negra ou índia, primitiva ou urbana, sulista ou nortista.
A dança não participa da interpretação desse poema, assim como não participa também da cena do fazer café da mulher fogo – segundo bloco da série. Nesse quinto bloco, que segue os quatro anteriores, cujos títulos correspondem aos elementos da natureza, temos o fecho da série. Nele não há dança, nele não há um poema de forma literal, mas um manifesto. Nele a autora declara o que a poesia lhe fez. Como a poesia nasceu nela, e como saiu dela para dar-se ao exterior.
Ao recordar-se da intensidade de quando as palavras lhe encontraram por primeira vez, e da consequência disso que não poderia ter sido outra senão escrevê-las da maneira como vinham, da forma como brotaram, e da forma como foram fielmente transpostas ao papel, ou aos cadernos, ou aos muros. E essas palavras brotadas foram exteriorizadas como mensagem poética a ser divulgada ao mundo, mas também foram interiorizadas e apreendidas como escritas e encravadas em seu interior.
A poeta se constitui pela palavra e ela emana palavra, que lhe permite sentir-se liberta de amarras e pertencente a um universo que tem nome. O último verso é a declaração da utilidade da poesia: “a poesia me faz livre”. Essa frase em presente de indicativo foi alteração da originária, escrita por Rayane Leão, “a poesia me fez livre”, conforme nos revelou a Profa. Ana Carolina. O passado que se faz presente tem o sentido do ciclo que não se fecha e do efeito que perdura.
Essas palavras que brotam torrencialmente criam um sentimento de liberdade, como quem tem na pele inscrições de si mesma, escrita rupestre e escarlate de um batom sobre a superfície de vidro do espelho do dormitório. “A poesia me faz livre” é o derradeiro verso e o manifesto definitivo.
13 QUINTA PARTE “MULHER POEMA” – TRADUÇÃO INTRALINGUAL
Meu lugar de fala, meu lugar de falo, mulher, amazonense, indígena, filha dos povos originários. Eu, Cisse, me olho no espelho e vejo um tacho de palavras fervendo um caldo espesso que sai de minhas mãos em forma de poema. Meu lugar de fala, meu lugar de falo é a poesia que me faz livre. Mulher poema faz parte da Série Mulher – Poema produzido por mim e por minhas parceiras do Grupo La Broma, transcriando poemas de Rayane Leão.
Qual um ritual indígena, a mulher tira do tacho um turbilhão de palavras. E essa mulher fala de seu lugar: - seu lugar de fala, ou de seu lugar de falo. Essa alteração da última vogal da palavra faz um jogo de sentido que evoca o homem, numa troca entre o masculino e o feminino, como quem conhece a origem da força na virilidade, e como quem é dona das artes e dos mistérios, da potencialidade e da criatividade, e tem a chave do pote.
Cisse, o eu – lírico dessa poesia final, é do Amazonas – estado ao norte do país. Transposta ao sul do País, região da fronteira sul, ela fala de Realeza como quem conhece o real, e como aluna da Universidade Federal da Fronteira Sul, na cidade de Realeza – estado do Paraná -, ela conforma a realidade às suas palavras e dá voz às culturas ancestrais que a criou. E ao ver a imagem espessa que brota da sua voz, recriamos o rito de partida, qual novelo que da ponta descobre seu fio.
14 ESTRIBILHO
Quanto a mim
serei poesia
até o fim
Entre cada parte da série do vídeo do YouTube, há um quadro com um poema, de um único verso, escrito em três linhas: “Quanto a mim, serei poesia até o fim.”
Essa é a primeira obra de Rayane Leão que me chamou particularmente a atenção. Outras das alterações textuais feitas deliberadamente pelo grupo – contou-me também a professora Teixeira Pinto. O original trazia, desta feita, o verbo em presente: “sou poesia”. Questões métricas, suponho, conjugam o verbo em futuro para manter o sentido de continuidade almejado.
Metricamente, temos um verso de três sílabas, seguido de dois versos de quatro sílabas, o que perfaz o número de onze sílabas poéticas. No entanto, caso desfaçamos um dos ditongos da palavra “poesia”, por exemplo, conseguimos uma sílaba mais. Assim, alcançamos doze sílabas que estruturam o hai – kai – forma japonesa, composta por versos de cinco e sete sílabas.
Ainda que o tema da composição de autoria feminina brasileira não evoque a natureza – temática do hai – kai nipônico -, esse traz a profissão qual profecia. Não há outro assunto a tratar, sobre poesia versa a ligação entre os poemas de cada episódio dessa performance poética sobre Rayane Leão.
15 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apoiadas na tipologia tradutória de Jakobson (1963), tratamos de dois tipos de tradução: a intralingual e a intersemiótica. As partes que classificamos como “tradução intralingual” são compreendidas pelo grupo de teatro La Broma como “transcriação poética”, tanto que quatro das cinco partes em que se divide o vídeo terminam com o mesmo texto: “transcriando poemas de Rayane Leão”. Tal terminologia evoca o amplo conceito de transcriação, que prevê liberdade de adaptação da poesia que se atualiza em prosa poética, nos casos analisados.
Jakobson reconhece a dificuldade de traduzir um poema a outra língua, razão pela qual propõe a tradução entre linguagens como possibilidade de transposição poética. O trabalho do grupo La Broma se classifica como tradução intersemiótica, já que a linguagem poética em português é vertida à linguagem audiovisual, por meio de imagens, sons, músicas e danças, em adaptação livre e criativa.
Jakobson, autor dessa tipologia tradutológica, escreveu essa teoria em meados do século XX, época em que os recursos tecnológicos não existiam. Por essa razão, o termo tradução intermidiática era impensável. Hoje dizemos que não só o Grupo La Broma faz tradução intersemiótica, como faz também tradução intermidiática, já que o vídeo do YouTube nasce de poesias coletadas do Instagram, outra mídia social diferente do YouTube. Transpor os versos da Insta- poeta Rayane Leão do Instagram ao YouTube implica transferência de linguagem – de verbal a visual -, e implica também transferência de veículo, isto é, de mídia – do Instagram ao YouTube. Intersemiótica e intermidiática, assim atualizamos as idéias do linguista soviético, conhecido como o linguista poético, segundo seu tradutor ao português.
16 REFERÊNCIAS
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs – capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1995.
JAKOBSON, Roman. Essai de linguistique générale. Tradução do inglês ao francês Nicolas Ruwet. Paris: Éditions de Minuit, 1963.
Grupo La Broma – Mulher – poema. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=z56d9ZIpqbo. Acesso em: 24 nov. 2022.
LEÃO, Rayane. @ondejazzmeucoracao. [S. l.: S. n.], 2022.
SOBRE a palavra “raiz”. [S. l.]: Brasil Escola, [20--?]. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/biologia/raiz.htm. Acesso em: 24 nov. 2022.