[DT] ARTES, PERFORMANCES E INTERARTES NA CENA DO CONTEMPORÂNEO LATINO-AMERICANO
Produção performática: a reflexão sobre o uso expressivo do corpo na Piada do touro em Libras
Performatic production: a reflection on the expressive use of the body in the “Piada do Touro” in sign language
Produção performática: a reflexão sobre o uso expressivo do corpo na Piada do touro em Libras
Travessias, vol. 16, núm. 3, e30005, 2022
Universidade Estadual do Oeste do Paraná

Recepción: 22 Octubre 2022
Aprobación: 01 Diciembre 2022
Financiamiento
Fuente: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES)
Nº de contrato: Código de Financiamento 001
Resumo: Este artigo relaciona-se à temática da literatura de humor em língua de sinais brasileira (Libras). Tem como objetivo a reflexão sobre o uso expressivo do corpo e produção performática de Piada do Touro em Libras, disponível no canal Na Palma da Mão (2020) na plataforma YouTube. Ancorados nos estudos teóricos de Zumthor (2018), Sutton-Spence (2021), Silva (2018) entre outros que se dedicam ao estudo de produções performáticas, pretende-se, por meio de uma pesquisa de documental em fonte audiovisual, descrever e discutir a piada do Touro em Libras por meio de uma reflexão crítica sobre produções performáticas, movimento e corpo. O sinalizador, Alberto de Oliveira Leite, opera no entrecruzamento da literatura em Libras e da arte dramática, na medida em que materializa num acontecimento cênico o resultado do trabalho criativo desenvolvido a partir de uma piada já conhecida pela comunidade surda. Na performance, as formas físicas e ações materializadas no corpo do sinalizador se integram ao conteúdo da mensagem, dando visibilidade à comunidade surda, historicamente oprimida pelos ouvintes, invertendo a norma vigente.
Palavras-chave: Piada, Performance, Humor surdo.
Abstract: This article is related to the topic of joke literature in Brazilian sign language. It aims to reflect on the expressive use of the body and performative production of Piada do Touro in Sign Language, available on the channel Na Palma da Mão (2020) on the YouTube platform. Anchored in the theoretical studies of Zumthor (2018), Sutton-Spence (2021), Silva (2018) among others who are dedicated to the study of performance productions, it is intended, through a documentary research in audiovisual source, to describe and discuss the Bull joke in Sign Language through a critical reflection on performance productions, movement and the body. The signer, Alberto de Oliveira Leite, works at the intersection of Sign Language literature and dramatic art, insofar as he materializes in a scenic event the result of the creative work developed from a joke already known by the deaf community. In the performance, the physical forms and actions materialized in the signer's body are integrated into the content of the message, giving visibility to the deaf community, historically oppressed by the listeners, inverting the current norm.
Keywords: Joke, performance, deaf humor.
Abstract: This article is related to the topic of joke literature in Brazilian sign language. It aims to reflect on the expressive use of the body and performative production of Piada do Touro in Sign Language, available on the channel Na Palma da Mão (2020) on the YouTube platform. Anchored in the theoretical studies of Zumthor (2018), Sutton-Spence (2021), Silva (2018) among others who are dedicated to the study of performance productions, it is intended, through a documentary research in audiovisual source, to describe and discuss the Bull joke in Sign Language through a critical reflection on performance productions, movement and the body. The signer, Alberto de Oliveira Leite, works at the intersection of Sign Language literature and dramatic art, insofar as he materializes in a scenic event the result of the creative work developed from a joke already known by the deaf community. In the performance, the physical forms and actions materialized in the signer's body are integrated into the content of the message, giving visibility to the deaf community, historically oppressed by the listeners, inverting the current norm.
Keywords: Joke, performance, deaf humor.
1 INTRODUÇÃO
De acordo com Bertolino e Lima (2018, p. 173), a literatura se constitui como um bem imaterial, “[...] por agregar em si um saber estético, artístico, histórico, social e político [...]”. Assim, entendemos que apropriar-se da arte literária, dada sua natureza plurissignificativa, torna-se fundamental para o crescimento intelectual e humano do cidadão.
Antonio Candido (2004) amplia a discussão sobre a literatura por um viés sociológico, pois a concebe como um bem cultural necessário à humanização do homem. O autor defende que os bens que satisfazem as necessidades imediatas não sejam suficientes, pois garantem somente a sobrevivência física, enquanto a realização de desejos compreende a vida espiritual, porque se relaciona diretamente com a alma da pessoa, seus sonhos e planos. Retorna-se ao entroncamento viver x sobreviver. Sobreviver, como o próprio radical deixa claro é a sobrevida, algo que está acima da vida que é o caminhar perto da morte. Quando alguém sobrevive é porque flerta com a morte, seja por inanição, riscos à violência, riscos no trânsito etc. Viver é sair dessa zona do quase morte e encontrar um significado que sempre está associado a um desejo.
E como a literatura se associa com essa realização espiritual? De maneira plena. Todos os gêneros literários questionam os porquês da vida de forma que criam esperança ou resignação nos homens. Cândido (2004, p. 174) chama de literatura tudo o que tenha toque poético, ficcional, dramático, cômico e folclórico. Assim expressa Cândido (2004, p. 174):
Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado.
Tomando a noção de literatura como patrimônio cultural numa perspectiva ampla e plural, constatamos que o povo surdo, no Brasil e no mundo, cria e compartilha, por meio de sua arte literária, as vivências subjetivas, as representações da memória individual e coletiva de sua comunidade. De acordo com Lodenir Karnopp,
A literatura da cultura surda, contada na língua de sinais de determinada comunidade linguística, é constituída pelas histórias produzidas em língua de sinais pelas pessoas surdas, pelas histórias de vida que são frequentemente relatadas, pelos contos, lendas, fábulas, piadas, poemas sinalizados, anedotas, jogos de linguagem e muito mais. O material, em geral, reconta a experiência das pessoas surdas, no que diz respeito, direta ou indiretamente, à relação entre as pessoas surdas e ouvintes, que são narradas como relações conflituosas, benevolentes, de aceitação ou de opressão do surdo (KARNOPP, 2010, p.171).
No Brasil, o registro da literatura surda passou a ser possível a partir do reconhecimento da Libras e da gravação de criações literárias em material audiovisual que favoreceram uma maior produção, circulação e consumo da cultura surda, especialmente por meio das mídias sociais como Youtube e Instagram. (SILVA, 2015, p. 142). Por meio desses movimentos, é possível conferir o primeiro status de objeto cultural das formas poéticas, narrativas e dramáticas materializadas em Libras.
No livro “Cultura Surda na Contemporaneidade: negociações, intercorrências e provocações” (2011), Lodenir Becker Karnopp, Madalena Klein e Márcia Lise Lunardi-Lazzarin esclarecem que a internet ampliou a livre circulação de produções culturais surdas. Os registros visuais coletados e analisados tais como “[...] encenações, propagandas, piadas e demais manifestações de pessoas surdas, são produções que balizam a constituição das identidades surdas”. (KARNOPP, KLEIN, LUNARDI-LAZZARIN, 2011, p. 24).
Nos últimos dez anos, importantes pesquisas acadêmicas de mestrado e doutorado também contribuíram para ampliar o conhecimento científico acerca das manifestações literárias dos surdos nos gêneros dramático, poético e narrativo.
Tendo em vista que as piadas que circulam na comunidade surda constituem parte do patrimônio cultural desse grupo, este artigo tomará como objeto de estudo a “piada do touro” que integra um conjunto de manifestações literárias de caráter popular que se materializa no corpo do humorista surdo, um corpo que se deforma e se transforma para registrar a arte, a história e a identidade desses sujeitos.
Isso posto, este estudo tomou como eixo norteador as seguintes questões: Quem são os contadores de piadas surdas no contemporâneo? Que recursos estéticos e performáticos usam para gerar o humor?
Guiados por essas questões, este artigo tem por objetivo central descrever e analisar a “piada do touro” produzida em Libras por Alberto de Oliveira Leite, professor e contador de histórias surdo, morador de Vitória, capital do Espírito Santo.
2 DIÁLOGOS SOBRE A PERFORMANCE E CULTURA
O ensaísta e crítico literário Paul Zumthor em seu livro Performance, recepção e leitura (2018) traz importantes contribuições para pensar as relações entre o texto literário e a performance. Ao refletir sobre o papel do corpo na leitura e na percepção sensorial do literário, o autor afirma que a performance é “o único modo vivo de comunicação poética” (ZUMTHOR, 2018, p. 33), pois é o ato em que o leitor-espectador tem contato com o discurso poético de forma integral, ou seja, a fusão voz-corpo produzindo efeitos estéticos diante do público.
Para Zumthor (2018), a performance é um ato de comunicação, no tempo presente, é um momento em que o enunciador suspende o tempo cotidiano e insere sua prática poética, um ritual de linguagem artística que ganha existência e ganha reconhecimento pelo público. Desse modo, “a performance é então um momento de recepção: o momento privilegiado, em que um enunciado é realmente percebido” (ZUMTHOR, 2018, p. 47).
É importante destacar que Zumthor se dedicou ao estudo de uma poética da voz, um objeto complexo cujos efeitos estéticos reverberam no corpo. Quando um contador de histórias ou um poeta expressa sua arte literária por meio da voz, o corpo também irradia sentidos, corpo-voz manifestam o discurso poético. Nesse contexto, o momento de recepção se dá pela percepção sensível do todo, pela energia que emana do corpo. A esse respeito, o autor defende que
[...] a ideia de performance deveria ser amplamente estendida; ela deveria englobar o conjunto de fatos que compreende, hoje em dia, a palavra recepção, mas relaciono-a ao momento decisivo em que todos os elementos cristalizam em uma e para uma percepção sensorial – um engajamento do corpo (ZUMTHOR, 2018, p. 18-19).
As considerações de Zumthor se conectam a esse estudo na medida em que as piadas produzidas em Libras guardam forte relação com a atuação performática. Em seu artigo intitulado “Literatura das Línguas Gestuais”, Marta Morgado (2011, p. 56) esclarece que um bom contador de histórias de humor precisa “ter talento artístico e dramático, exprimir com desenvoltura o movimento e as expressões faciais e corporais; ser criativo e observador”. Nas piadas em Libras, os sinais manuais são apenas um dos recursos, porém não se sobrepõem ao corpo, pois
a utilização dos gestos, dos movimentos, a forma de incorporar os personagens e suas ações, a forma de se expressar, tudo isso contribui no sentido de configurar a mensagem a ser transmitida por meio de cenas constituintes de significantes sociais que interconectam humor-denúncia x humor-exaltação da cultura surda (SILVA, 2018, p 4005).
Nesse sentido, percebemos que nas piadas em Libras “cada performance nova coloca tudo em causa. A forma se percebe em performance, mas a cada performance ela se transmuda” (ZUMTHOR, 2018, p.27). A cada nova apresentação os humoristas surdos deformam o corpo de forma consciente, explorando as formas, movimentos, ritmos, planos e emoções que esse objeto físico pode expressar para ganhar a adesão do público.
Em relação ao humor produzido por surdos, Rachel Sutton-Spence (2021) esclarece que a ênfase recai sobre a linguagem expressiva e performática. A autora relata que:
A literatura surda em língua de sinais se realiza, normalmente, na modalidade sinalizada e muitos elementos dessa forma de arte são fundamentados no fato daquela ser uma literatura visual “de performance” e “do corpo”, que existe apenas quando uma pessoa a apresenta. Assim, é quase impossível separar o corpo do artista do texto da narrativa ou do poema. Nas literaturas escritas, tais como a brasileira, escrita em português, estamos acostumados à ideia de que o texto pode ser separado do autor e quando o lemos recebemos pouca informação sobre o aspecto da pessoa que o escreveu. Já, na literatura sinalizada em Libras, podemos ver o artista como ator e vemos os poemas, as narrativas ou as piadas pelo meio visual através do seu corpo (SUTTON-SPENCE, 2021, p. 42).
Dessa forma, um aspecto bastante significativo para os espectadores das piadas não reside apenas no conteúdo, mas na maneira como esse conteúdo se materializa no corpo do humorista. Por exemplo, se a piada versa sobre uma mulher caminhando (chique sofisticada, orgulhosa que olha todos por cima); ela cai tropeça num buraco. O público surdo será atraído pelo modo como essa mulher será encenada pelo humorista, isto é, o discurso visual dado a ver no corpo do narrador poderá produzir engajamento ou desencantamento no espectador. Portanto, cabe a quem conta a piada construir essa figura dramática empregando expressões faciais, movimentação do corpo, o modo de olhar de caminhar, promovendo autenticidade àquela personagem, pois “em língua de sinais são as performances altamente visuais que combinam gestos e expressões corporais com elementos linguísticos” (SUTTON-SPENCE e QUADROS, 2014, p. 207).
No artigo “Performatividade na construção do humor em piadas em Libras”, Arlene Batista da Silva (2018) afirma que as piadas em Libras lançam mão da performance não apenas para produzir o riso, mas também para desnudar ao leitor as mazelas que envolvem os sujeitos surdos e ouvintes na sociedade. Segundo a autora:
O leitor, portanto, ao assistir às piadas em Libras, é provocado ao exercício da leitura por meio de textos cujos efeitos de humor estabelecem relações com enunciados anteriores, marcados no conjunto da vida social. Sendo assim, o leitor, pela via do humor, vai alargando seu saber sobre os condicionamentos a que estamos sujeitos nas práticas construídas culturalmente (SILVA, 2018, p. 4012).
Cabe ainda destacar que há piadas clássicas produzidas no interior das comunidades surdas que são transmitidas de geração em geração. Silveira (2015) analisou algumas dessas piadas e destacou que o conteúdo dessas narrativas cômicas problematiza vivências e desafios da comunidade surda frente as normas impostas por uma sociedade majoritariamente ouvinte. Desse modo, nas piadas clássicas, uma característica singular é a inversão da norma social vigente que geralmente define os surdos como “pessoas com dificuldade de comunicação”. Nessa lógica, o riso, o humor surge justamente do inesperado: a valorização das línguas de sinais. Nas palavras de Silveira,
Além de as piadas representarem as dificuldades de usar sinais, limitações e falta de fluência na língua por parte dos ouvintes; manifestam também a importância da visibilidade, de experiência visual, com destaque para as vantagens de ser surdo, isto é, para o ganho surdo (SILVEIRA, 2015, p. 169).
Com base nas proposições de Silveira (2015), entendemos que o estudo da performance nas piadas em Libras extrapola os efeitos imediatos dessa manifestação artística, pois está para além de promover o riso, a descontração. Essa arte mostra a riqueza das línguas de sinais, que não servem apenas para comunicar, mas para produzir artefatos culturais que preservam a história e a memória das comunidades surdas.
À luz das considerações dos estudos teóricos sobre a performance, o humor e as piadas em Libras, a seguir, será apresentada a descrição e análise sobre a piada do Touro em Libras.
3 A PIADA DO TOURO EM LIBRAS
De acordo com Silva (2015, p.140), na plataforma Youtube[1] é possível encontrar “inúmeras produções culturais em Libras nos campos humorístico, educacional, de utilidade pública, literário, dentre outros, portanto, um espaço de produção e consumo de práticas e representações sobre o surdo”. Essa informação se confirma, na medida em que a referida plataforma foi o espaço onde localizamos algumas das produções literárias de Alberto Oliveira Leite. A piada foi postada no canal “Na palma da mão” que congrega vídeos em Libras com conteúdo escolar de diferentes disciplinas, entre elas a literatura.
Para esta análise, recorreremos aos princípios da pesquisa documental em fontes audiovisual. De acordo com Diana Rose (2008), ao investigar esse tipo de documento, é necessário realizar um processo de tradução, isto é, um registro descritivo acompanhado dos trechos selecionados como objeto de análise. Isso posto, pretendemos identificar elementos que compõem a performance do autor surdo, a fim de compreender os efeitos de sentido dados a ver no discurso performático.

piada do touro foi publicizada em 20 de novembro de 2020, apresenta uma minutagem de 6:54s, co
A piada do touro foi publicizada em 20 de novembro de 2020, apresenta uma minutagem de 6:54s, com 287 visualizações, 13 curtidas e 1 comentário. O narrador começa a piada com um chamamento: Olá! Eu sou Alberto e vou contar a piada do touro e vamos nos rir em vários momentos dessa história. Vamos lá? Com essa fala, ele sugere “ao leitor que no momento de contação da anedota inicia-se um jogo discursivo em que se suspende a linguagem habitual, a conversa cotidiana para a produção de uma narrativa ficcional” (SILVA, 2018, p. 4010). Alberto conta a história de um toureiro famoso em todo o mundo que vai à Espanha enfrentar três touros. O primeiro e o segundo touros são ouvintes, o terceiro touro é surdo. Cumpre destacar que essa é uma piada clássica na comunidade surda que não possui um autor definido, mas circula há muitos anos e possui diferentes versões publicadas em outros canais do Youtube[2].
Em relação ao cenário, observamos que as ilustrações estão em coerência com o conteúdo da narrativa, contextualizando para o leitor o ambiente (arena) e os personagens (três touros, toureiro e plateia). Essas ilustrações tornam-se importantes, na medida em que ajudam o leitor a acompanhar o desenvolvimento do enredo, identificar algumas ações dos personagens, sem se sobrepor ao texto sinalizado pelo autor, pois é ele quem dá o tom das emoções, que materializa no corpo os sentimentos, os comportamentos dos personagens, dando-lhes vida.
O comediante não está caracterizado com figurino específico. Usa uma camisa listrada que não faz qualquer referência ao conteúdo da piada. Contudo, isso não se torna um empecilho para a compreensão do enredo, pois ele, desde o início, constrói descrições imagéticas (cenas) que retratam a ambientação e os personagens em ação. Esse dado reforça ainda mais a percepção de que na literatura surda, especialmente, piadas contadas em situações informais o destaque é para a deformação do corpo.
Percebemos que a piada conta com riqueza de recursos expressivos (corporais e faciais) que permitem a compreensão do texto por pessoas que saibam Libras mesmo num nível iniciante. Contudo, inferimos que as ilustrações tenham sido uma escolha voltada ao público leitor do canal “Na palma da mão”, já que esse material é disponibilizado e utilizado nas escolas públicas, onde grande parte dos alunos do ensino fundamental não sabem Libras.
Há na piada um conjunto personagens encenados por Alberto: a) narrador (aparece no início e final da narrativa); b) quatro personagens principais (toureiro e três touros) e c) seis personagens secundários-plateia (mãe do toureiro, mulher com bebê no colo, bebê, homem com bigode, homem careca, jovem tomando sorvete).
Uma característica central das narrativas literárias em Libras consiste na incorporação de diferentes personagens pelo sinalizador. Assim, na medida em que narra os acontecimentos, ele dramatiza as ações, comportamentos e forma física dos personagens, ou seja, tanto seu corpo quanto sua mente trabalha para produzir a verdade cênica, com ações conscientes e não mecanizadas. Observe como Alberto organiza essas incorporações ao longo da narrativa.

Um toureiro (Figura 2) reconhecido internacionalmente entra na arena lotada de pessoas (Figura 3) que estavam ali para assistir ao espetáculo. O primeiro touro (Figura 4) entra na arena e se prepara para atacar o toureiro. O touro feroz, então, começa a correr em direção ao toureiro. O toureiro está segurando sua capa vermelha e o touro começa a correr em sua direção. Todas as pessoas na arena olham para acompanhar a cena para ver o que ia acontecer. Todos atentos ao espetáculo quando de repente o toureiro troca sua capa vermelha por um violino e começa a tocar. O primeiro touro ao ouvir a música cai no sono e dorme. O toureiro fica orgulhoso do que aconteceu e todos na arena batem palmas para o vencedor.
Para a criação da performance, cada personagem é identificado a partir de sua forma física descrita com riqueza de detalhes, revelando também (no corpo) traços da personalidade: o toureiro orgulhoso, o touro bravo, o indomável e o fraco, franzino. Todos os personagens possuem ações bem definidas nas cenas, com aparição impactante e condensada, criando um jogo teatral fluido. Ao coloca-los em ação, o autor consegue imprimir uma presença objetivamente verdadeira aos personagens e tornar a narrativa crível para o espectador. Essa transformação instantânea do corpo que ocorre durante toda a piada, constitui uma performance singular na estética literária em Libras em que
[...] o corpo é ao mesmo tempo o ponto de partida, o ponto de origem e o referente do discurso. O corpo dá a medida e as dimensões do mundo; o que é verdade na ordem linguística, na qual, segundo o uso universal das línguas, os eixos espaciais direita/esquerda, alto/baixo e outros são apenas projeção do corpo sobre o cosmo. (ZUMTHOR, 2018, p.77).
É possível perceber que o sinalizador organiza a performance em três atos. Em cada ato, ele dá destaque ao touro que enfrentará o toureiro: detalha a forma física (os chifres), incorpora o comportamento (a força, a brutalidade), a habilidade (a velocidade).

Ao descrever o primeiro touro, ele suspende o tempo da narrativa para detalhar o personagem: sobrancelhas franzidas, lábios cerrados e ombros caídos para frente. Movimenta os braços tensionados de forma rápida, representando a potência da corrida. Durante a descrição do touro, ele insere micro-cenas que mostram a admiração e o medo da plateia ao ver o animal na arena. Tudo isso cria um clima de tensão ao confronto que está sendo encenado.

O segundo touro (Figura 6) ganha ainda mais destaque: pelas formas corporais e expressivas percebe-se que era maior, muito mais bravo e com chifres enormes (sobrancelhas levantadas, olhos abertos, boca aberta, cabeça levemente inclinada para frente - expressão facial de estar muito bravo). O efeito cômico surge na demonstração da força do touro. Ele era tão forte que ao bater a pata no chão a terra estremecia! Mesmo com todo o poder de destruição, o touro ouviu a música e caiu dormindo.
Na piada contada por Alberto, assim como na literatura em Libras, a performance se manifesta no corpo físico e em objetos construídos visualmente no espaço de encenação e não no figurino ou qualquer outro recurso acessório. Nesse sentido, “o uso dos elementos não manuais também é muito importante no exagero. A expressão facial, a abertura dos olhos, os movimentos do corpo, todos geram imagens visuais fortes e emoções intensas quando aumentados” (SUTTON-SPENCE, 2021, p. 98).
Nessa perspectiva, notamos que a graça da piada não fica guardada para o final. O humor ocorre num continuum ao longo de toda a narrativa, quando o sinalizador explora recursos como “expressões faciais, olhar, movimento do corpo, espaço, velocidade, ritmo – para criar mais sensações e imagens [...]” (SUTTON-SPENCE, 2021, p. 139), conforme verificamos no ato referente ao segundo touro.

No terceiro ato, o sinalizador evidencia o contraste entre os animais anteriores e este: o touro é menor e franzino (olhos vesgos, boca com os lábios levemente abertos e as sobrancelhas levantadas). Aqui, o exagero da expressão facial também é proposital inferiorizar o personagem. O toureiro e todas as pessoas que estavam na arena começam a rir, pois todos acham que o touro seria mais fácil de ser derrotado, ia cair e dormir. O terceiro touro corre em direção ao toureiro. O toureiro pega seu violino e começa a tocar e o touro continua correndo em sua direção. O toureiro toca seu violino mais rápido, mas o touro continua correndo em sua direção. Nesse momento, há, na performance, uma equivalência de ações marcadas pela velocidade com desfecho que rompe a expectativa do público: a) o touro acelera em direção ao toureiro; b) o toureiro acelera a música no violino. Essas ações são encenadas com muita velocidade e intensidade para o ápice da piada que promove o riso e o final inesperado: o terceiro touro bateu no toureiro e ele caiu. O terceiro touro era surdo e por isso não ouviu a música que o toureiro tocou.
De acordo com Sírio Possenti (2010, p. 63), uma das características da piada é seu caráter non bona fide, isto é, não se referir a “‘realidades’ do mundo, não é um discurso para ser levado ‘a sério’, no sentido típico dessa expressão”. Nesse sentido, quem assiste a piada do touro precisa participar do jogo discursivo e tentar desvendar a armadilha que foi montada, com base em aspectos culturais que constituem a comunidade surda. Ser embalado pelo som do violino e sentir sono é algo incompatível com as práticas culturais dos surdos, ou seja, um hábito que destoa com a realidade desses sujeitos. Portanto, esse é um conhecimento prévio que precisa ser levado em consideração para a compreensão do final da piada qual seja: o touro surdo vence o toureiro.
Outro aspecto que toca a questão da desigualdade social a ser considerado é transgressão da norma estabelecida: o ouvinte ganha x surdo perde. O ouvinte tem acesso a um número ilimitado de informações que são disponibilizadas pela língua oral e auditiva. Observem que o toureiro é famoso, premiado e reconhecido, pois usa uma estratégia específica: toca o violino, domina uma técnica própria da cultura majoritária. No mundo objetivo, porém, o surdo sai em desvantagem e acaba perdendo muitas oportunidades, pois não tem acesso aos conhecimentos em sua língua de instrução: a Libras. A piada clássica, construída no interior da comunidade surda, inverte essa lógica social e rebaixa o ouvinte, seu saber, seu poder ao conferir ao surdo status superior, justamente por seu traço cultural: não se identificar com o som da música. Assim, o touro surdo vence por se comportar e agir de modo contrário ao da maioria (não ouvir música), algo que no cotidiano da vida é visto como uma deficiência torna-se um benefício para alcançar êxito na competição.
O conteúdo da performance artística de Alberto provoca o leitor na medida em que expõe um julgamento prévio entre as pessoas ouvintes ditas “normais” e as pessoas surdas ditas como “deficientes”.
Muitas vezes, as pessoas surdas podem ser encaradas como incapazes em relação às outras pessoas ouvintes. Entretanto, elas podem surpreender. Como no caso da piada, o terceiro touro não foi desestabilizado pela música, como os demais touros que eram mais fortes e considerados superiores a ele. Sem acreditar, o toureiro foi atingido por ele para a surpresa de quem assistia.
O sentimento de orgulho do toureiro por ter vencido os dois primeiros oponentes o deixou convencido de que o terceiro touro frágil seria facilmente derrotado. Dessa forma, essa produção nos leva a refletir sobre o julgamento social que normatiza e exclui os diferentes. Ao mesmo tempo, a piada insurge contra essa prática e valoriza a diferença cultural desse grupo minoritário, em vez de reforçar a sua discriminação.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo central descrever e analisar a “piada do touro” produzida em Libras por Alberto de Oliveira Leite, publicada no canal Na Palma da Mão (2020) na plataforma YouTube. Trata-se de uma piada clássica que circula há anos no interior da comunidade surda e é recriada a partir de uma performance singular do autor.
Já, de saída, notamos que, na piada do touro, o sinalizador opera no entrecruzamento da literatura em Libras e da arte dramática, na medida em que materializa num acontecimento cênico o resultado do trabalho criativo desenvolvido a partir de uma piada já conhecida pela comunidade surda.
Na piada, o corpo de Alberto sofre uma dilatação, portanto, torna-se um corpo objeto cheio de energia que traz à tona a presença viva de outros personagens (três touros, o toureiro, a plateia, etc). A piada é narrada em três grandes atos, com micro-cenas, algumas descritas em detalhes para gerar humor e também criar certas expectativas no leitor. As formas físicas dos touros, a tensão do público, a corrida intensa durante o confronto toureiro x touro são elementos construídos em diferentes ritmos, forças e tamanhos do movimento, tornando a piada uma espécie de performance dramática em que o sinalizador deforma seu corpo em segundos (entra e sai de vários personagens instantaneamente), transformando seu corpo num texto literário que é lido/visto pelo espectador.
No que se refere ao conteúdo, notamos que o humor na piada é construído a partir da crítica à falta de conhecimento dos ouvintes, de modo geral, acerca da língua de sinais e da cultura surda. Assim, as formas físicas e ações materializadas no corpo do sinalizador se integram ao conteúdo da mensagem na tentativa de dar visibilidade à comunidade surda, historicamente oprimida pelos ouvintes, invertendo a norma vigente.
Diante do exposto, defendemos que a piada do touro, assim como outras piadas produzidas em Libras, se torne objeto de estudo e pesquisa, pois se constituem como um bem imaterial da comunidade surda que guardam as vivências subjetivas, as representações da memória individual e coletiva desses sujeitos.
Agradecimentos
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
REFERÊNCIAS
A PIADA do touro. Coordenação de Arlene Batista. Tradutor surdo: Alberto de Oliveira Leite. Intérprete de Libras: Arlene Batista. Operação de câmera: Marceli Rodrigues. Montagem e efeitos visuais: João Roney. Ilustração: Carolina Sperandio. Espírito Santo: Na Palma da Mão, 2020. (6,54 min.), color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=10FfOFT-cpA. Acesso em: 27 set. 2022.
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Notas