EDUCAÇÃO

Imagens e método documentário de interpretação na investigação qualitativa em educação

Images and Documentary Method of Interpretation in research qualitative in education

Fabiana Lopes de Souza
Universidade Federal de Pelotas, Brasil
Maria Cecilia Lorea Leite
Universidade Federal de Pelotas, Brasil

Imagens e método documentário de interpretação na investigação qualitativa em educação

Travessias, vol. 16, núm. 3, e29171, 2022

Universidade Estadual do Oeste do Paraná

Autores mantêm os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob CC-BY-NC-SA 4.0, que permite o compartilhamento do trabalho com indicação da autoria e publicação inicial nesta revista.

Recepción: 26 Abril 2022

Aprobación: 25 Noviembre 2022

Resumo: A partir de uma revisão bibliográfica, o presente texto argumenta sobre a importância da alfabetização e da interpretação das imagens para a investigação qualitativa em educação. A fundamentação teórica se baseia principalmente em Santaella (2012) que trata sobre as noções de representação visual, destacando que as imagens diferem de acordo com a finalidade a que se destinam, pois possuem diferentes funções e significados. Bohnsack (2007) propõe o método documentário de interpretação e enfatiza sua relevância no tratamento das imagens no âmbito da pesquisa qualitativa. Constata-se a potente contribuição das teorias dos dois autores para as pesquisas sobre as imagens, tanto para a análise formal dos elementos que as compõem quanto para os sentidos e as visões de mundo presentes nas mesmas. O texto apresenta duas imagens que nos possibilitam refletir sobre a importância da análise e da alfabetização visual, uma fotografia produzida por Sebastião Salgado que denuncia as condições de invisibilidade em que vivem comunidades camponesas e indígenas da América Latina, e uma imagem de publicidade, endereçada a determinados públicos, com o objetivo de exortar ao consumo, articulando questões que envolvem gênero. Destaca-se a potência da alfabetização visual, da análise e interpretação de imagens, para demonstrar processos que vem produzir invisibilidade de grupos sociais, estratégias de hierarquização de classes e grupos sociais, bem como desigualdades de gênero e raça.

Palavras-chave: Imagem, representação visual, análise formal, método documentário.

Abstract: Based on a literature review, this text argues about the importance of literacy and image interpretation for qualitative research in education. The theoretical foundation is mainly based on Santaella (2012) who deals with the notions of visual representation, highlighting that images differ according to the purpose for which they are intended, as they have different functions and meanings. Bohnsack (2007) proposes the documentary method of interpretation and emphasizes its relevance in the treatment of images within the scope of qualitative research. The potent contribution of the theories of the two authors to research on images can be seen, both for the formal analysis of the elements that compose them and for the senses and worldviews present in them. The text presents two images that allow us to reflect on the importance of analysis and visual literacy, a photograph produced by Sebastião Salgado that denounces the conditions of invisibility in which peasant and indigenous communities in Latin America live, and an advertising image, addressed to certain audiences, with the aim of encouraging consumption, articulating issues involving gender. The power of visual literacy, analysis and interpretation of images is highlighted, to demonstrate processes that produce invisibility of social groups, strategies of hierarchy of classes and social groups, as well as inequalities of gender and race.

Keywords: Image, visual representation, formal analysis, documentary method.

1 INTRODUÇÃO

O termo imagem é definido por vários autores, os quais procuraram explorar os conceitos dos diferentes tipos de imagens como ainda, seus significados, símbolos e os sentidos que elas são capazes de produzir nos espectadores. Na definição platônica, as imagens são, em primeiro lugar, as sombras e depois os reflexos que vemos na água ou na superfície de corpos brilhantes. A partir disso, têm-se duas conclusões. Primeiro, a referência às imagens naturais e não as produzidas pelos seres humanos. E segundo, a imagem reproduz características reconhecíveis de algo visível (SANTAELLA, 2012).

Ao tratar da imagem é importante discorrer sobre o espectador da imagem, considerando que ele faz parte do processo visual. De acordo com Aumont (2004), na relação espectador e imagem, “além da capacidade perceptiva, entram em jogo o saber, os afetos, as crenças, que por sua vez, são muito modelados pela veiculação a uma região histórica (a uma classe social, a uma época, a uma cultura)” (AUMONT, 2004, p. 77). Ou seja, é preciso considerar as experiências do espectador assim como o contexto de produção da imagem.

Utilizando os referenciais de Rudolf Arnheim (1969) e Gombrich (1965), Aumont (2004) caracteriza as relações da imagem com o real e com o espectador. Arnheim (1969) atribui à imagem um valor de representação, visto que ela representa coisas concretas; um valor de símbolo, já que representa coisas abstratas e um valor de signo quando representa um conteúdo que possui uma relação arbitrária (que não depende de regras) ao seu significado. Além disso, a imagem é composta por funções simbólicas, associadas à iconografia religiosa, por exemplo; às funções epistêmicas com informações visuais sobre o mundo (mapas, cartões postais etc.) e funções estéticas, nas quais a imagem é destinada a oferecer “sensações específicas” ao espectador.

Com base nas teorias de Gombrich (1965), o autor salienta que a relação entre espectador/a e imagem é uma relação recíproca, pois ao mesmo tempo em que o espectador/a constrói a imagem, a imagem constrói o espectador. Nesse sentido, a imagem passa pelo processo de reconhecimento no qual a representação imita o real e proporciona prazer ao espectador ao mesmo tempo em que influencia sua maneira de ver. Um exemplo disso encontra-se nas pinturas de paisagens, nas quais sua representação modifica o olhar do espectador em relação à paisagem verdadeira, frente à realidade.

O reconhecimento está ligado à rememoração que compreende as funções psicológicas da imagem. Considera-se que a imagem apresenta uma relação mimética relativamente acentuada com o real e transmite de forma codificada o saber sobre o real. A rememoração possui como instrumento o “esquema” que possui aspectos cognitivos e didáticos. Além disso, ele não é absoluto, ele evolui, podendo variar de acordo com a produção de novos conhecimentos.

Em síntese, o “papel do espectador”, expressão proposta por Gombrich, é “[...] designar o conjunto de atos perceptivos e psíquicos pelos quais, ao percebê-la e ao compreendê-la, o espectador faz existir a imagem” (AUMONT, 2004, p. 86).

A expressão de Gombrich refere-se ao papel do espectador com as imagens artísticas, no entanto nos possibilita pensarmos sobre como percebemos todos os tipos de imagens e sobre a nossa capacidade de atribuir sentidos e significados às mesmas.

2 IMAGEM E REPRESENTAÇÃO VISUAL

As imagens que são criadas e recriadas seriam as imagens artificiais e apresentam relações de semelhança com aquilo que representam. As representações podem ser bidimensionais (desenhos, fotografias, gravuras etc.) ou tridimensionais, como por exemplo, as esculturas (SANTAELLA, 2012).

Santaella (2012) aponta que a imagem pode ser aplicada em realidades que não são necessariamente visuais. Quanto ao território da visualidade, a autora destaca pelo menos três domínios principais da imagem, e aponta a ampliação deles por outros autores, totalizando cinco domínios da imagem, que são:

  1. Imagens mentais e oníricas: não precisam ter vínculos com imagens percebidas; a mente pode projetar formas não existentes no mundo físico

  2. Imagens diretamente perceptíveis: são imagens do mundo visível, aquelas que vemos e vivemos;

  3. Imagens como representações visuais: são os desenhos, pinturas, fotografias, imagens televisivas e computacionais etc.

  4. Imagens verbais: são construídas por meios linguísticos. Como exemplos, as metáforas e descrições;

  5. Imagens ópticas: espelhos e projeções.

Dentre os domínios da imagem descritos acima, reportando-se às imagens visíveis, a autora destaca o estudo da imagem como representação visual. Nesse sentido de acordo com Santaella, “[...] as imagens são chamadas de representações porque são criadas e produzidas pelos seres humanos na sociedade em que vivem” (SANTAELLA, 2012, p. 17).

As representações visuais são criações artificiais que necessitam de suportes, técnicas e tecnologias. Com isso o surgimento de uma imagem sobre determinada superfície acontece a partir de diferentes instrumentos e materiais, como: lápis, tintas e pincéis, por exemplo. Além disso, as imagens podem ser também capturadas através de recursos ópticos, como câmeras, espelhos, telescópios, dentre outros.

No campo da arte, como menciona Joly (2012, p. 18), “[a] noção de imagem vincula-se essencialmente à representação visual: afrescos, pinturas, mas também iluminuras, ilustrações decorativas, desenho, gravura, filmes, fotografia e até imagens de síntese”.

Paralela às noções de representação visual encontra-se a noção de alfabetização visual. De acordo com Dondis (2015), a alfabetização visual propõe um sistema básico para a leitura de imagens que se fundamenta na “sintaxe visual”, ou seja, a partir dos elementos básicos da imagem como: ponto, linha cor, textura, forma, luz etc. Além desses elementos básicos, a autora estabelece como fundamentos sintáticos do alfabetismo visual a composição que origina a forma visual. Dentre os elementos da composição estão: o equilíbrio, o nivelamento, o ângulo, o agrupamento etc. Em resumo, para Dondis (2015), o alfabetismo visual significa participação,

e transforma todos que o alcançarem em observadores menos passivos. Na verdade, o alfabetismo impede que se instaure a síndrome das “roupas do imperador”[1], e eleva nossa capacidade de avaliar acima da aceitação (ou recusa) meramente intuitiva de uma manifestação visual qualquer. Alfabetismo visual significa uma inteligência visual [...] Maior inteligência visual significa compreensão mais fácil de todos os significados assumidos pelas formas visuais (DONDIS, 2015, p. 231).

e transforma todos que o alcançarem em observadores menos passivos. Na verdade, o alfabetismo impede que se instaure a síndrome das “roupas do imperador”[1], e eleva nossa capacidade de avaliar acima da aceitação (ou recusa) meramente intuitiva de uma manifestação visual qualquer. Alfabetismo visual significa uma inteligência visual [...] Maior inteligência visual significa compreensão mais fácil de todos os significados assumidos pelas formas visuais (DONDIS, 2015, p. 231).

O alfabetismo visual contribui para uma melhor compreensão das diferentes manifestações visuais. Assim, considerando o alfabetismo visual de Dondis (2015) e os estudos das imagens como representações visuais de Santaella (2012), é necessário destacar que as imagens diferem de acordo com a finalidade a que se destinam, pois possuem diferentes funções e significados. A fotografia, por exemplo, pode exercer um caráter documental, mas também artístico (SANTAELLA, 2012). As imagens produzidas pelo fotógrafo Sebastião Salgado contemplam essas duas características (Figura 1).

Fotografia da série “outras Américas” – Equador, 1982
Figura 1
Fotografia da série “outras Américas” – Equador, 1982
BRASIL ON LINE (Imagem: divulgação/Sebastião Salgado), 2022

Essa fotografia faz parte de uma série que retrata as realidades das comunidades camponesas e indígenas da América Latina. Sebastião Salgado[2] viajou por países como: Brasil, Chile, Equador, Bolívia, Peru, Guatemala e México entre os anos de 1977 e 1984. O resultado dessas viagens ficou registrado na exposição e no livro "Outras Américas” (1985). “O adjetivo “outras” é bastante sintomático. O que as fotos expõem são as Américas que ninguém quer ver, os lugares dos destituídos para os quais não resta outra coisa senão o gregarismo da família, o apego ao mito e à fé que nada promete” (SANTAELLA, 2012, p. 93).

O fotojornalista chama a atenção para o estético de suas imagens sem minimizar a denúncia sobre as pessoas que vivem à margem da sociedade nas diferentes regiões do Brasil e de outros países.

Diferentemente das imagens da fotografia, as imagens da publicidade possuem o objetivo de seduzir certo público ao consumo, à obtenção de produtos (Figura 2).

Imagem publicitária (pomada para bebês)
Figura 2
Imagem publicitária (pomada para bebês)
BABYMED, 2022

No caso da imagem (Figura 2), a percepção e os sentidos do/a observador/a e/ou consumidor/a podem ser estimulados a partir dos elementos visuais (cores, linhas, texturas, formas e volume) assim como a composição da imagem e os elementos simbólicos, os quais se constituem de duas crianças brancas de olhos azuis e com distinções claras de gênero (o menino com a touca azul e branca e a menina com a touca rosa e branca). Mesmo que possamos considerar que as cores não determinariam o gênero das duas crianças, o produto anunciado (a pomada contra assaduras) deixa clara tal distinção. A pomada que contém a caixa na cor azul possui escrita a palavra menino e está à frente da criança de touca azul e a pomada que contém a caixa rosa possui escrita a palavra menina e está situada à frente da criança de touca rosa. A posição das crianças para compor a imagem também mostra superioridade no que se refere a gênero. As duas crianças encontram-se lado a lado, mas o menino está posicionado de maneira diferente da menina, como se ele estivesse mais alto ou mais acima que a menina. O mesmo acontece com a imagem das caixas das pomadas. Além disso, o símbolo do produto se encontra ao lado esquerdo da imagem, próximo ao menino, e possui as cores azul e amarela.

A imagem apresenta estratégias de sugestão, de sedução e de persuasão (SANTAELLA, 2012), para a compra do produto, ao mesmo tempo em que sustenta formas de pensamento que separam e hierarquizam os/as sujeitos/as, especialmente no que se refere às questões que envolvem desigualdades de gênero e de raça. É necessário atentar-se a toda essa estratégia de hierarquização a partir da imagem, que além desses estereótipos oferece um produto, no qual os próprios componentes de formulação são exatamente os mesmos, o que não justificaria as divisões que envolvem questões de gênero.

As duas imagens descritas acima, embora apresentem características e funções distintas, nos possibilitam refletir sobre a importância da alfabetização visual. É relevante salientar, que ainda negligenciamos a leitura de imagens, pois estamos presos a ideia de que “leitura” é feita apenas a partir de textos verbais. Assim, durante muito tempo, as imagens foram ignoradas em relação aos documentos escritos, nas pesquisas da área de Ciências Humanas. Este fato ocorreu, principalmente, pela busca de legitimidade científica, associada prioritariamente ao formato textual (WELLER; BASSALO, 2011).

Embora isso, nos âmbitos social e cultural, as imagens sempre estiveram presentes, nos possibilitando a atribuição de diferentes sentidos e significados.

Assim, para a leitura e interpretação de imagens, é necessário estarmos atentos as suas formas de representação, ao contexto de produção e aos elementos visuais presentes nas mesmas.

A seguir, abordamos sobre uma importante ferramenta de análise de imagens, utilizada especialmente em pesquisas qualitativas. Trata-se de um método de interpretação de imagens, de viés formalista, que se constitui a partir de três fases de análises.

3 MÉTODO DOCUMENTÁRIO DE INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS

Weller (2005) argumenta que o método documentário de interpretação foi criado e apresentado por Karl Mannheim[3], no artigo “Contribuições para a teoria da interpretação das visões de mundo”, publicado originalmente nos anos 1921/1922.

Mannheim apresentou o método para a compreensão das visões de mundo de um determinado grupo, em um contexto social. Em seus estudos sobre o mencionado autor, Weller (2005, p. 262) focaliza a concepção de visão de mundo para Mannheinn (1980), para quem Weltanschauung (visão de mundo) resulta de “uma série de vivências ou de experiências ligadas a uma mesma estrutura, que por sua vez constitui-se como base comum das experiências que perpassam a vida de múltiplos indivíduos”.

As visões de mundo fazem parte de um campo de conhecimento, que foi denominado por Mannhein como um campo “ateórico”. “Nesse sentido, a compreensão das visões de mundo e das orientações coletivas de um grupo só é possível através da explicação e da conceituação teórica desse conhecimento ateórico” (WELLER, 2005, p.262).

No que se refere à interpretação dos produtos culturais (arte e religião), como também de ações cotidianas despercebidas, Mannhein apresenta três níveis diferenciados de sentido: um nível objetivo ou imanente (um gesto, por exemplo); um nível expressivo, que é transmitido através das palavras ou das ações (a reação a alguma coisa) e um nível documentário (o documento de uma ação prática) (WELLER, 2005).

Bohnsack atualizou o método documentário de interpretação criado por Mannhein, tanto como método, quanto como metodologia, transformando-o em um instrumento para análise da pesquisa social empírica de caráter reconstrutivo.

Para o sociólogo alemão Ralf Bohnsack, a constituição do mundo através de imagens pode ser compreendida de dois modos distintos:

uma dessas compreensões pressupõe que somente a interpretação do mundo é realizada sobretudo pela via iconográfica; para além dessa compreensão, a constituição do mundo através da mídia imagética pode ser ampliada se levarmos em conta o fato de que a imagem também possui a qualidade de dirigir a ação (handlungsleitende Qualität der Bilder). No que tange às teorias da ação, da comunicação e do desenvolvimento humano, este último aspecto é amplamente ignorado. No entanto, no nível da compreensão e da aprendizagem, da socialização e da formação (para além das instâncias de comunicação de massa) a imagem desempenha um papel fundamental na orientação de nossas ações práticas (BOHNSACK, 2007, p. 289, grifos do autor).

O método documentário proposto por Bohnsack destaca-se pela importância do tratamento das imagens na pesquisa qualitativa e, assim como Mannheim, Bohnsack também considera “as visões de mundo”, o habitus[4]do produtor da imagem.

Para a atualização do método, destacam-se as contribuições da iconografia e da iconologia do historiador de arte Erwin Panofsky, contemporâneo a Mannheim, como também as contribuições icônicas do historiador de arte Max Imdahl, que segue a linha de Panofsky, mas apresenta elementos de análise que se relacionam principalmente com as técnicas de história da arte (WELLER, 2005; LIEBEL, 2011).

Panofsky, à sua maneira, foi influenciado de modo significativo pelas discussões das Ciências Sociais, particularmente por Karl Mannheim e seu método documentário de interpretação. Neste sentido, a diferença entre interpretação iconográfica e iconológica corresponde à mudança da interpretação imanente para a interpretação documentária apresentada por Karl Mannheim (1952). Esta mudança paradigmática da perspectiva de análise remonta à abertura do questionamento sobre o que (was) para o questionamento sobre o como (wie) [...]. Trata-se de uma mudança na formulação da pergunta, ou seja, ao invés de questionar o que são fenômenos ou fatos sociais, o pesquisador deve dirigir suas atenções para a compreensão de como estes são constituídos. Em Panofsky, a pergunta sobre o quê não se restringe apenas ao nível da iconografia, mas também à fase pré-iconográfica. (BOHNSACK, 2007, p. 290-291).

Segundo Liebel (2011), a proposta icônica de Imdahl se refere [...]

ao estudo da imagem pela imagem, ou seja, de sua constituição formal. Elementos como a planimetria e a perspectividade podem resultar em dados diferenciados para interpretação e lançar luzes sobre pontos para os quais ainda não se havia atentado, bem como contribuir com a análise iconológica proporcionando um olhar crítico baseado na tecnicidade (ou falta dela) inerente à imagem (LIEBEL, 2011, p. 176).

No método documentário, a interpretação da imagem inicia-se num estágio anterior ao nível iconográfico, ou seja, no nível pré-iconográfico, situado na análise da estrutura formal da imagem.

Assim sendo, na primeira fase de interpretação da imagem é necessário responder, de forma simples e objetiva, procurando pelas formas, à pergunta “o quê?”

Na segunda fase, ocorre a análise da imagem no nível iconográfico, no qual ainda é necessário responder à pergunta “o quê?” e procura-se também identificar as tipificações do senso comum em relação à imagem analisada.

E, na última e terceira fase, se desenvolve a análise da imagem no nível iconológico/icônico, onde será possível considerar o contexto da sua produção e tentar responder à pergunta “como?”, além de identificar o produtor da imagem (NEVES; LEITE, 2017).

A partir da explanação teórica sobre o Método Documentário de Interpretação de Imagens, apresentamos as três fases de análises do mesmo, na figura 3, organizadas de maneira sequencial:

As três fases de análises do Método Documentário de Interpretação de Imagens
Figura 3
As três fases de análises do Método Documentário de Interpretação de Imagens
Elaborado pelas autoras, 2022

As imagens são utilizadas como formas de representação de nossas maneiras de ser e estar no mundo e o método documentário de interpretação, é um potente instrumento de investigação sobre as visões de mundo.

Assim, é possível destacar a importância das análises de imagens para a pesquisa qualitativa em educação, visto que elas podem possibilitar profícuas reflexões e análises no campo pedagógico, como, por exemplo, considerando as imagens antes focalizadas, sobre questões referentes à raça e gênero, desigualdades sociais, processos de invisibilização de determinados grupos sociais, e uma melhor compreensão sobre suas formas de representação.

Além dos elementos visuais (cores, formas, linhas, texturas e volume), da composição e dos elementos simbólicos, “[a]s imagens produzem sentimentos, identificação, favorecem lembranças, disparam a imaginação, a introspecção, entendimentos, anunciam ou denunciam uma realidade, evocam memórias pessoais e visões de mundo” (WELLER; BASSALO, 2011, p. 285).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo, construído a partir de diálogos interdisciplinares, evidencia tanto as noções de imagens e de representações visuais de Santaella (2012) quanto o método documentário de análises de imagens, proposto pelo sociólogo Ralf Bohnsack (2007). As teorizações mencionadas nos trazem contribuições relevantes para os estudos referentes às imagens, destacam a importância de uma alfabetização visual e da análise interpretativa das imagens na investigação qualitativa em educação.

Assim, tendo em conta os aportes teóricos e as imagens focalizadas, aspectos relevantes para uma educação de qualidade e para a intensificação da democracia em sociedade são destacados. Consideramos que estas se constituem contributos fundamentais para o exercício da cidadania.

A análise de duas imagens, uma fotografia produzida por Sebastião Salgado que denuncia as condições de invisibilidade em que vivem comunidades camponesas e indígenas da América Latina, e uma imagem de publicidade, voltada a maior visibilidade possível, endereçada a determinados públicos, com o objetivo de exortar ao consumo, articulando questões que envolvem gênero e raça.

Destaca-se a potência da alfabetização visual, da análise e interpretação de imagens, para demonstrar processos que vem produzir invisibilidade de grupos sociais, estratégias de hierarquização de classes e grupos sociais, bem como desigualdades de gênero e raça.

5 REFERÊNCIAS

AUMONT, Jacques. A imagem. 8. ed. Campinas: Papirus, 2004.

BABYMED. Imagem publicitária (pomada para bebês). Disponível em: https://www.facebook.com/babymedbebe/photos/1023390207797221 Acesso em: 18 abr. 2022.

BOHNSACK, Ralf. A interpretação de imagens e o método documentário. Sociologias. Porto Alegre, ano 9, n. 18, p. 286-311, jun./dez. 2007.

BRASIL ON LINE (BOL). Fotografia-Sebastião Salgado. Disponível em: https://www.bol.uol.com.br/listas/as-historias-por-tras-de-fotos-e-series-de-sebastiao-salgado.htm. Acesso em 18 abr. 2022.

DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. Tradução: Jeferson Luiz Camargo. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes-selo Martins, 2015.

ITAÚ CULTURAL. Biografia: Sebastião Salgado. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2597/sebastiao-salgado. Acesso em: 18 abr. 2022.

JOLY, Martine. Introdução à análise de imagem. 14. ed. Campinas: Papirus, 2012.

LIEBEL, Vinícius. Entre sentidos e interpretações: apontamentos sobre análise documentária de imagens. Educação Temática Digital. Campinas, v. 12, n. 2, p. 172- 189, jan. /jun. 2011.

NEVES, Rita de Araújo; LEITE, Maria Cecília Lorea. Aplicando o Método Documentário de interpretação de imagens na análise de uma charge. In: Anais do VI Encontro Nacional de Estudos da Imagem [e do] III Encontro Internacional de Estudos da Imagem [livro eletrônico] / André Luiz Marcondes Pelegrinelli, Pamela Wanessa Godoi (org.). – Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2017. p. 99-116.

SANTAELLA, Lucia. Leitura de Imagens. São Paulo: Melhoramentos (Como eu ensino), 2012.

WELLER, Wivian; BASSALO, Lucélia de Moraes Braga. Imagens: Documentos de visões de mundo. Sociologias, Porto Alegre, ano 13, n. 28, set./dez. 2011, p. 284-314

WELLER, Wivian, SANTOS, Gislene; SILVEIRA, Rogério Leandro Lima da; ALVES, Adilson Francelino; KALSING, Vera Simone Schaefer. Karl Mannheim e o método documentário de interpretação: uma forma de análise das visões de mundo. Sociedade e Estado, Brasília, v. XVIII, n. 2, p. 375-396, jul./dez. 2002

WELLER, Wivian. A contribuição de Karl Mannhein para a pesquisa qualitativa: aspectos teóricos e metodológicos. Sociologias, Porto Alegre, ano 7, n.13, jan./jun, p. 260-300, 2005.

Notas

[1] As Roupas Novas do Imperador ou O Rei Vai Nu ou ainda A Roupa Nova do Rei é um conto de fadas de autoria do dinamarquês Hans Christian Andersen, e foi inicialmente publicado em 1837. No conto, em resumo, um bandido se faz de alfaiate e tece “roupas invisíveis” para o rei. O rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que exibir as “vestes especiais”. Durante o evento, uma criança, gritou "O rei está nu!" Na verdade, não existia nenhuma roupa, e todos/as viram e sabiam disso, mas apenas a criança, com sua sinceridade, falou o que estava vendo. Disponível em: https://www.bonde.com.br/colunistas/mitos-e-sonhos/a-roupa-nova-do-rei-realidade-x-ilusao-351639.html Acesso em: 18 abr. 2022.
[2] Sebastião Ribeiro Salgado nasceu em Aimorés (Minas Gerais) no ano de 1944. É um fotógrafo que possui uma maneira singular de produzir as imagens fotográficas. Publicou vários livros, nos quais utiliza suas fotografias como ferramenta de denúncia da pobreza, violência, guerra e fome em regiões miseráveis do mundo (ITAÚ CULTURAL, 2020; SANTAELLA, 2012).
[3] Filósofo e sociólogo, nascido em 1893, na Hungria, filho de mãe judia-alemã e pai judeu-húngaro. Os trabalhos do autor podem ser divididos em três fases, que não estão apenas relacionadas aos diferentes contextos geográficos ou países em que viveu, mas que apresentam produções diferentes. Na Hungria, Mannheim dedicou-se principalmente a temas literários e filosóficos. O período em que viveu na Alemanha corresponde à fase sociológico-filosófica, abrangendo trabalhos conhecidos, como O Problema das Gerações ou Ideologia e Utopia, assim como outros trabalhos que Mannheim nunca chegou a publicar e que só chegaram ao conhecimento do público na década de 1980 com a organização do livro Strukturen des Denkens (Estrutura do pensamento). Já na Grã-Bretanha, onde veio a falecer em 1947, Mannheim se dedica a análises político-pedagógicas relativas a temas emergentes naquela época, o que não deixa de ser de certa forma fruto de seu trabalho na área de Educação na London School of Economics and Political Science (BOHNSACK, 1999a apud WELLER, et al., p. 376, 2002).
[4] [...] conceito que foi tomado e desenvolvido posteriormente por Bourdieu (1970), a partir de Panofsky. Habitus enquanto conceito pode referir-se tanto a fenômenos individuais quanto a fenômenos coletivos relativos ao meio social (milieu), por exemplo, o habitus proletário ou burguês. Pode também exprimir um determinado período histórico ou uma geração como o habitus da geração (BOHNSACK, 2007, p. 292).
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