Resenhas
Dialética radical do Brasil Negro, de Clóvis Moura. 2 ed. São Paulo: Fundação Maurício Grabois; Anita Garibaldi,2014. 336 p.
Dialética radical do Brasil Negro, de Clóvis Moura. 2 ed. São Paulo: Fundação Maurício Grabois; Anita Garibaldi,2014. 336 p.
EccoS Revista Científica, núm. 39, pp. 187-190, 2016
Universidade Nove de Julho

MOURA, Clóvis. Dialética radical do Brasil Negro. 2 ed. São Paulo: Fundação Maurício Grabois; Anita Garibaldi, 2014. 336 p.
Clovis Moura nasceu no Piauí, em 1925. Era sociólogo, jornalista e historiador. Na década de 1940, ingressou no Partido Comunista Brasileiro, mas, faleceu marxista sem filiação partidária, em 2003. Durante o período militar resultante do golpe de 1964, tornou-se colaborador do Movimento Negro Unificado e da União de Negros pela Igualdade e, nos últimos anos de vida, colaborou com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), publicando ensaios na Editora Expressão Popular.
Em 1948, iniciou sua pesquisa sobre os negros escravizados no Brasil, mas, seu primeiro livro Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas só foi publicado em 1959. Também publicou O negro: de bom escravo a mau cidadão? (1977); A Sociologia posta em questão (1978); Os quilombos e a rebelião negra (1981); Quilombos: Resistência ao Escravismo (1987); Sociologia do negro brasileiro (1988); As injustiças de Clio: o negro na historiografia brasileira (1990); Dialética radical do Brasil negro (1994); Os quilombos na dinâmica social do Brasil (2001); A encruzilhada dos orixás: problemas e dilemas do negro brasileiro (2003), dentre outros (MONTEIRO, 2012).
A obra A dialética radical do Brasil negro, publicada há mais de 20 anos, teve apenas uma edição, tornando-se muito difícil sua aquisição. Em 2014, a Fundação Maurício Grabois e o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro da Universidade de São Paulo (USP), em parceira com a editora Anita Garibaldi, republicaram-na, contribuindo para a divulgação do pensamento de Clóvis Moura. A presente edição nos brinda com um belíssimo prefácio de Dennis de Oliveira, que apresenta o livro “como uma proposta teórico-conceitual sofisticada de pensar o Brasil” (p. 15). A apresentação de Augusto Buonicore, também enriquece a edição, mas, peca ao se aproximar da propaganda política dos últimos governos brasileiros.
O livro em questão apresenta como ideias centrais: (i) o racismo esta na origem da formação do capitalismo brasileiro e, por isso, não será superado com o desenvolvimento da sociedade capitalista, e (ii) a luta antirracista e luta de classes se articulam reciprocamente.
Para demonstrar estas teses, Moura desenvolve sua reflexão em quatro partes. Na primeira, intitulada “Do escravismo Pleno ao Escravismo Tardio”, o autor dividiu o escravismo no Brasil em dois momentos: um ascendente, até 1850, denominado como “Escravismo Pleno”, outro descendente, até 1888, chamado de “Escravismo Tardio”. É importante ressaltar a análise que o autor faz da transição do Escravismo Tardio para o Capitalismo, que se desenvolveu mantendo estruturas arcaicas e construídas com base nas riquezas acumuladas com o Escravismo Moderno, tendo como protagonista a mesma classe social (dos senhores) que escravizou os africanos.
No Escravismo Tardio, a Lei Eusébio de Queirós – que proibiu o tráfico de africanos escravizados para o Brasil –, iniciou-se o processo de abolição gradual, beneficiando muito mais os senhores de escravos do que os negros escravizados. Isto porque os primeiros tiveram oportunidade e tempo para substituir a mão-de-obra dos negros escravizados pela dos imigrantes brancos europeus, enquanto aos segundos foi reservado o projeto de segregação espacial e social, negando-lhes o direito à terra. Com a promulgação da Lei da Terra, exacerbou-se o tratamento segregacionista, porque ela transformou a posse em concessão privada e o trabalho pesado repetitivo e desumano, enfim, o trabalho que aliena, justificado ideologicamente pelas teorias do racismo científico, estiolando-se a dignidade do trabalhador.
A transição do Escravismo para o Capitalismo ocorreu de modo dependente, pois as elites de então, associaram-se ao Capitalismo Global de maneira subalterna e não houve, como em outros países, a aliança entre a burguesia e a classe proletária. Mudou-se o modo de produção – Escravismo para Capitalismo – mas, a exploração dos trabalhadores continuou. Mais ainda: com a política de branqueamento, os imigrantes ocuparam os postos de trabalho disponíveis e os negros passaram a compor o exército de reserva de mão-de-obra, permanecendo em uma situação desfavorável até os dias atuais, apesar das ações afirmativas. Por isso, justifica-se a tese de Moura de que o racismo está na gênese do Capitalismo Brasileiro e não será superado com o desenvolvimento da sociedade capitalista.
A segunda parte do livro é intitulada “População, Miscigenação, Identidade Étnica e Racismo”. Aponta o colonialismo como um complicador étnico e mutilador e estrangulador cultural:
Complicador étnico porque introduziu compulsoriamente nas áreas colonizadas [...] o componente africano [...] que veio consolidar com o seu trabalho, o escravismo nessas colônias. Mutilador e estrangulador porque impôs pela violência, direta ou indireta, os seus padrões culturais e valores sociais usando para isto desde a morte a tortura até a catequese refinada chamada de evangelização para dominar os povos escravizados (p.175).
O autor continua explicando como o colonizador português estabeleceu, com base em uma filosofia étnica, uma escala de valores no processo de miscigenação, que tipificou onze graus de civilização para classificar e hierarquizar a nação brasileira: (i) português nascido na Europa, (ii) português nascido na Brasil, (iii) mulato, (iv) mameluco, (v) índio puro, (vi) índio civilizado, (vii) índio selvagem, (viii) negro da África, (ix) negro nascido no Brasil (crioulo), (x) bode (mestiço negro com mulato) e (xi) curiboca (mestiço negro com índio). Na escala apresentada, há uma concordância entre o étnico e o social, justificando a escravização e a servidão imposta aos negros e indígenas, tidos como inferiores aos “brancos” portugueses nascidos na Europa ou no Brasil.
Na terceira parte da obra, “Linguagem e Dinamismo Cultural do Negro”, Moura contesta a ideologia de uma escravidão civilizadora via religião católica e resgata a cultura da resistência, demonstrando como o “dialeto das senzalas” e “a preservação das suas religiões através (sic) dos nichos de resistência usando muitas vezes uma tática ambivalente que era confundida como cristianização” (p. 241) foram importantes para a organização e resistência social do negro escravizado.
Por fim, na quarta parte do livro “Especificidade e Dinamismo dos Movimentos de São Paulo”, Moura realiza uma discussão muito profícua sobre um assunto espinhoso: a ambivalência de valores da classe média negra paulistana, que, “ao mesmo tempo em que procura destacar o negro, aproxima-se dos padrões brancos para autovalorizar-se” (p. 318). O autor explica que o preconceito racial e a marginalização imposta ao negro são elementos determinadores do seu comportamento que, muitas vezes, resulta em agressividade, para contrapor-se ao comportamento de subalterno, ou se distorce em uma postura de negação, na qual “negro não vota em negro” (p. 303), pois o negro candidato é um negro branco (branqueado); ou, ainda, se aliena em uma busca de autoafirmação cultural, a partir da valorização da beleza negra que, se por um lado, traz elementos africanos e afro-brasileiros, por outro, apresenta famílias negras de classe média alta de cabelos alisados e roupas africanas, que estão longe da realidade da população negra brasileira. Como se vê, emerge e permanece uma posição ambígua dos afrodescendentes, na qual se busca a valorização do negro, mas a opressão racista impele-o a “ser o que não é”.
Deste modo, Dialética radical do Brasil negro é um livro empolgante para os pesquisadores da temática das relações raciais no Brasil e, necessário para historiadores, sociólogos, economistas, professores e estudantes que buscam aprofundar as discussões sobre a super-exploração do negro escravizado, sua marginalização, durante e depois do período de escravidão, bem como sobre as ambiguidades da população negra que, em grande parte, são resultado da ideologia de branqueamento. Em suma, a obra é importante, principalmente, por demonstrar como o racismo está na origem do Capitalismo Brasileiro, conduzindo-nos ademais a pensar porque, ainda hoje, este Capitalismo é subalterno ao Capitalismo Global.
Referências
MONTEIRO, Walber. Clóvis Moura e sua visão sobre o negro na dinâmica da luta de classes no Brasil. Núcleo de pesquisa Biblioteca Clovis Moura. 2013. Disponível em: https://npbclovismoura.wordpress.com/. Acesso: Junho/2015.
OLIVEIRA, Dennis. Prefácio: Uma análise marxista das relações raciais. In: MOURA, Clóvis. Dialética radical do Brasil Negro. 2 ed. São Paulo: Fundação Maurício Grabois: Anita Garibaldi, 2014.
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