Resenhas
História oral como arte da escuta, de Alessandro Portelli. São Paulo: Letra e Voz, 2016.(Ideias).
História oral como arte da escuta, de Alessandro Portelli. São Paulo: Letra e Voz, 2016.(Ideias).
EccoS Revista Científica, núm. 41, pp. 238-243, 2016
Universidade Nove de Julho

Adquiri este livro de Alessandro Portelli, após cruzar aleatoriamente, na Internet, com o anúncio de sua publicação, motivado pelo desejo de me esclarecer mais sobre o procedimento metodológico da história oral. Assunto certamente de pleno domínio pelos historiadores, não me parece muito utilizado no campo da pesquisa educacional. Embora sejam muitas as pesquisas em educação que se utilizam de entrevistas, a mim me parecia que esse procedimento era visto e praticado antes de tudo como uma técnica de coleta de dados, não sendo atravessada pela preocupação em si com todas as implicações da historicidade, prevalecendo o interesse pelas representações dos sujeitos entrevistados.
Logo me impactaram as colocações do autor, ao ir relacionando a conversa com a memória dos sujeitos e entrelaçando as histórias individuais com a história da sociedade no seu sentido abrangente. Nada de se registrar apenas uma narrativa sincrônica, mas esforço para resgatar uma revigorada memória das vivências contextuadas dos sujeitos entrevistados. Um alerta do autor chamou-me a atenção para um sentido no qual não se pensa muito, enfeitiçados que somos sempre pelas palavras, quando insistiu que uma entrevista não é bem só uma troca de visões mas também de escutas. São duas falas que se encontram e não só dois olhares que se cruzam, como a etimologia das palavras nos induzem a crer.
Alessandro Portelli é um historiador e literato italiano, dividindo sua atuação entre a Itália e os Estados Unidos. Atualmente é professor de literatura norte-americana na Universidade La Sapienza, em Roma, e autor de numerosa obra literária, toda ela voltada para a compreensão dos eventos históricos a partir de suas expressões da cultura popular que ele aborda e investiga praticando a metodologia da história oral. Metodologia que considera o melhor caminho para se dar conta das manifestações da cultura popular que são expressões fidedignas em que podermos apreender a constituição histórica da realidade social. Não é um autor desconhecido do público brasileiro da área das Ciências Humanas, em geral, e particularmente da área de História. Com efeito, é uma reconhecida referência teórica dessa abordagem, cuja presença na prática investigativa dessas áreas tem sido marcante nas últimas décadas. Esta abordagem metodológica ganhou significativo espaço na ciência nacional a partir das décadas finais do século XX, período quando, em decorrência de seu desenvolvimento, foi criada a SBHO, a Sociedade Brasileira de História Oral, agregando os pesquisadores nacionais vinculados a núcleos de investigação existentes em departamentos universitários e em programas de pós-graduação de todas essas áreas. Junto com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, promoveu, neste ano, em Porto Alegre, o XIII Encontro Nacional de História Oral, que teve por temática História Oral, Práticas Educacionais e Interdisciplinaridade. A intensa participação de Portelli no debate sobre a história oral no Brasil pode ser atestada pela presença de artigos seus em várias revistas dessas instâncias, tais como Projeto História, da PUC de São Paulo, História e Perspectivas, da UFU, de Uberlândia, Estudos Ibero-Americanos, da PUC de Porto Alegre, Mnemosine, do Departamento de Psicologia Social e Institucional, da UERJ, Tempos Históricos, da Unioeste, no Paraná, bem como de capítulos em várias coletâneas, cuja relação se encontra à p. 195 deste livro, além de sua intervenção em vários eventos nacionais sobre história oral. A propósito, cabe registrar a ocorrência,
O livro retoma nove ensaios, publicados anteriormente, que portanto guardam autonomia, mas que agora são articulados com adequada organicidade, estruturando-se em três partes, cada uma com três ensaios. Na primeira parte, está em pauta a relação entre memória e diálogo, com uma abordagem visando esclarecer o próprio sentido do papel da oralidade na pesquisa histórica, como resgate da memória. Nesta parte, trata conceitualmente das questões filosóficas e metodológicas relacionadas a essa prática investigativa. Na segunda parte, o autor mostra a articulação entre as formas da memória oral com sua dimensão pública, destacando o caráter público da memória. E a terceira parte apresenta exemplos concretos do trabalho de resgate da memória de eventos de guerra pela história oral, nos quais ressalta os liames entre os testemunhos e os traumas que se agregam a sua lembrança, ligação imprescindível para sua compreensão histórica integral.
Das descrições que o autor vai fazendo, mediante uma autoetnografia de sua própria prática, o que se tem como fruto é um tenso e intenso diálogo dessa memória revivenciada com a fala dos sujeitos singulares com os resultados da pesquisa histórica apresentados na escrita técnica das narrativas científicas e acadêmicas, impregnadas pelas exigências metodológicas positivistas e sempre ciosas de seus compromissos com a objetividade. Mas o que está em pauta na proposta de Portelli é exatamente o relevante papel que a subjetividade desempenha na reconstituição do evento histórico. Ainda que não desqualifique a importância da historiografia científica, considera que não se pode desconsiderar a fecundidade da contribuição dos sentimentos subjetivos que se fazem presentes e marcantes na história oral, na oitiva dos sujeitos que vivenciaram os eventos, em que pese a efetividade das confusões, dos desvios imaginários, da imprecisão, da mistura dos desejos com a realidade, das falsificações, enfim, da condição caótica que essas versões orais podem embutir nos conteúdos apresentados. Daí a abertura de espaço que sua concepção faz para aquelas formas narracionais que, embora se conservem num suporte escrito, não privilegiam a escrita como um sistema superior, já que atuam apenas como apoio à oralidade: assim, as gravações de entrevistas, a poesia, o teatro, o cinema, a música, a literatura, todas estas formas de expressão em sua condição de manifestações originais da cultura popular, diferentes das fontes escritas domesticadas pelo rigor metodológico na construção das narrativas históricas acadêmicas.
A história oral se apresenta pois como um processo de desestruturação do movimento estático e rígido que conserva o evento como que uma cristalização arqueológica. É uma maneira de tratá-lo como algo vivo, atravessado que é pela subjetividade do narrador e do ouvinte/leitor. Busca transformar as entrevistas gravadas em fontes para se compreender o passado, complementando assim as fontes documentais escritas, imagens e outros registros técnicos, como memórias, biografias, autobiografias, sempre procurando expressar como os indivíduos vivenciam e interpretam os acontecimentos e as situações das quais foram testemunhas ou participantes diretos.
Os exemplos trazidos pelos vários ensaios do livro, nos quais Portelli aborda situações vivenciadas pelos sujeitos participantes e então depoentes, reportam-se sobretudo à luta da resistência italiana durante a invasão da Itália pelos alemães, na Segunda Guerra Mundial e mostram o quanto os sentidos desses dolorosos eventos são diferentes dos significados que a eles atribuíram as narrativas científicas, ou melhor dizendo, como esses significados precisam ser complementados e nuançados pelos sentidos embutidos na fala dos sobreviventes. Não é que se questione a importância do registro protocolar da ciência histórica acadêmica mas se cobra desse olhar científico maior sensibilidade às percepções subjetivas vivenciadas pelos sujeitos e expressas nessas outras modalidades sinuosas de fala.
Para Portelli, a história oral é a articulação íntima da história dos eventos, com a história da memória e com a história da interpretação dos eventos através da memória. Memória a ser concebida e tratada não como mero depósito de informações, mas como um processo contínuo de elaboração e de reconstrução de significados (cf. p. 18). A memória não deve ser entendida como monumento, mas como movimento. Diz o autor parafraseando Borges: “[...] mais que um armazém de dados, a memória é um trabalho constante de busca de sentido, que filtra os vestígios da experiência entregando ao esquecimento aquilo que já não tem significado na atualidade – mas também aquilo que tem significado demais” (p. 47).
É como se a epistemologia que Portelli mobiliza na pronúncia da oralidade no trabalho do historiador se comprometesse profundamente com a sensibilidade estética. Pois é através da experiência estética que a subjetividade se articula com o desenvolvimento da pessoa e consequentemente com a prática do conhecimento. Não sem razão, Rousseau (2014, p. 9) já dissera que “a educação é uma arte”. É preciso sentir antes de pensar, ver o mundo pelo sentimento e portanto pelo coração, antes de o ver pela razão, como reforça Dalbosco (2011, p. 29) falando de Rousseau. Com efeito, a sensibilidade repudia todo método rígido, não se deixa conduzir por fórmulas ou planilhas, pelo claro e distinto; ela se guia apenas por um élan que nos toca de forma natural, mesmo quando estamos presos às armações cristalizadas do hábito ou da técnica. Afinal, o substrato da postura que se espera do historiador, quando pratica a história oral, é o aguçamento de sua sensibilidade para além da objetividade fria dos dados.
Metodologia de investigação social, tem contribuído para “[...] a geração de trabalhos ricos e variados, visibilizando sujeitos e lugares ocultados e silenciados [no bojo] do processo de desarticulação e desenraizamento de modos culturais de viver de trabalhar e de se socializar” (KHOURY, 2010, p. 7). Atua como ferramenta eficaz para vários campos de conhecimento, de prática profissional e de militância político-social, contribuindo significativamente para a democratização do exercício do conhecimento científico, ao afirmar e respeitar as diferenças sociais, políticas e culturais e ao criar um terreno e uma linguagem comuns entre os pesquisadores e os narradores.
Na minha leitura, a reflexão conduzida por Portelli, a pretexto de discutir as especificidades da abordagem da história oral, vai além de um debate meramente epistemológico. Como ele mesmo diz, estamos em cheio do âmbito de uma leitura política da realidade humana e, acrescentaria eu, estamos diante também de uma discussão propriamente filosófico-antropológica ao evidenciar para nós mesmos que o que torna viável essa compreensão da ação humana é a percepção, em carne viva, da condição real dos indivíduos e dos grupos da espécie como seres radicalmente frágeis, contingentes, violentos e dementes (na expressão de Morin), capazes de e propensos a toda espécie das mais bárbaras crueldades.
Mas o propósito central de Portelli não é falar das guerras em si, mas da metodologia histórica, com seu trabalho de campo e com sua gramática da memória. Ainda que explore muito sugestivamente a metáfora dos olhares e visões do aviador que, lá do alto, atira as bombas e das pessoas que são bombardeadas, lá embaixo, comparando as visões altaneiras do historiador cientista, que se coloca num patamar superior, com os sentimentos dos narradores orais, que vivenciaram os acontecimentos no chão. Uma visão do alto e uma visão de baixo, uma visão geral e abstrata e uma visão do concreto e do tangível. Não se trata, no entanto, de afirmar que uma é mais autêntica e mais verdadeira que a outra, uma não funciona sem a outra. “A história Global vista de cima ignora a história local e o ponto de vista nativo por sua conta e risco – e também por conta e risco dos que estão em baixo” (p. 149). Mas, em contraponto,
[...] podemos ficar tão encantados com o imediato e o concreto que nossa percepção passa a se restringir apenas àquilo que é visível e reconhecível no nível do chão. Enxergamos a experiência imediata, as histórias pessoais, e perdemos de vista os processos globais que os impactam. Enxergamos a bomba caindo no ônibus, mas não conseguimos identificar, ou sequer nos perguntar, quem a jogou e por quê. (p. 150).
Daí concluo esta resenha, esperando que desperte a atenção para as contribuições da história oral para nossas atividades investigativas, ao nos alertar para os cuidados que precisamos tomar em nosso trabalho científico, com a própria conclusão de Portelli sobre o sentido da história oral:
A história oral, em essência, é uma tentativa de reconectar o ponto de vista nativo, local, vindo de baixo, e o ponto de vista científico, global, visto de cima: de contextuar aquilo que é local e de permitir que o global o reconheça. A história oral, então, junta a história vinda de cima e a história vinda de baixo em um mesmo texto – em uma mesa de negociação – criando um diálogo igualitário entre a consciência que os historiadores têm dos padrões espaciais e temporais mais amplos e a narrativa pessoal, mais pontualmente focada, do narrador local. (p. 150).
Mas é sempre oportuno lembrar que fazer história oral é mais do que usar fontes orais, como se dá na entrevista clássica. É que não se está buscando apenas a informação. Ela está necessariamente envolvida com a dimensão de subjetividade que está subjacente no funcionamento da linguagem, na memória. Certamente, atitude que pode ser de fundamental importância na pesquisa educacional, pois a educação tem sua primeira razão de ser na própria subjetividade.
Referências
KHOURY, Yara A. Apresentação. In: PORTELLI, Alessandro. Ensaios de história oral. São Paulo: Letra e Voz, 2010. p. 7-18.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da educação. São Paulo: Martins Fontes, 2014.
DALBOSCO, Claudio A. (Org.). A filosofia da educação no Emílio de Rousseau: o papel do educador como governante. Campinas: Alinea, 2011.
Ligação alternative