Artigo Original
ARTICULAÇÕES POLÍTICO-RELIGIOSAS ENTRE BRASIL-USA: DIREITA E SIONISMO CRISTÃOS
ARTICULACIONES POLÍTICO-RELIGIOSAS ENTRE BRASIL-USA: DERECHA Y SIONISMO CRISTIANOS
POLITICAL-RELIGIOUS ARTICULATIONS BETWEEN BRAZIL-USA: CHRISTIAN RIGHT AND CHRISTIAN ZIONISM
ARTICULAÇÕES POLÍTICO-RELIGIOSAS ENTRE BRASIL-USA: DIREITA E SIONISMO CRISTÃOS
Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Campinas, vol. 23, pp. 1-34, 2021
Universidade Estadual de Campinas, Brazil
Recepção: 21 Fevereiro 2021
Aprovação: 17 Agosto 2021
RESUMO: A hipótese que orienta este artigo é a de que o governo Trump, em especial sua política externa, contribuiu para uma maior articulação entre conservadores religiosos brasileiros e a direita cristã estadunidense, fomentando o crescimento do chamado sionismo cristão no Brasil. Com apoio na análise de sites institucionais, materiais de divulgação disponíveis nas redes sociais e nos canais do Youtube, busca-se identificar quando e como o sionismo cristão ganha força no país. Embora se reconheçam outros fatores explicativos, argumenta-se que as vitórias eleitorais de Trump (2016) e de Bolsonaro (2018) e seus alinhamentos favoreceram a circulação de atores e valores do movimento sionista cristão no Brasil.
PALAVRAS CHAVE: Sionismo cristão, direita cristã, Trump, Bolsonaro, igrejas evangélicas.
RESUMEN: La hipótesis que guía este artículo es que el gobierno Trump, especialmente su política internacional, ha contribuido con una mayor articulación entre los conservadores religiosos brasileños y la derecha cristiana estadounidense, fomentando el crecimiento del llamado sionismo cristiano en Brasil. Apoyándonos en el análisis de los sitios web institucionales, los materiales de difusión disponibles en las redes sociales y los canales de YouTube, buscamos identificar cuándo y cómo el sionismo cristiano cobra fuerza en el país. Aunque puedan reconocerse otros factores explicativos, en esta reflexión se argumenta que las victorias electorales de Trump (2016) y Bolsonaro (2018) con su mutuo alineamiento favorecieron la circulación de actores y valores del movimiento sionista cristiano en el Brasil.
PALABRAS CLAVE: Sionismo cristiano, derecha cristiana, Trump, Bolsonaro, iglesias evangélicas.
ABSTRACT: The hypothesis that guides this article is that Trump’s administration, in particular its foreign policy, contributed to a greater articulation between Brazilian conservatives and the American Christian right, fostering the growth of the so-called Christian Zionism in Brazil. Based on the analysis of institutional sites, publicity materials available on social networks and Youtube channels, this article tries to identify when and how Christian Zionism gains strength in Brazil. Although other explanatory factors are recognized, this article argues that the electoral victories of Trump (2016) and Bolsonaro (2018) and their alignments favored the circulation of Christian Zionism movement actors and values in Brazil.
KEYWORDS: Christian Zionism, christian Right, Trump, Bolsonaro, evangelical Churches.
Introdução
O crescimento da direita é um fenômeno global e fruto da circulação de valores, atores, estratagemas e fontes de financiamentos entre as sociedades de diferentes latitudes.1 Com esta afirmação longe de uma visão conspirativa que identificaria um polo irradiador dos processos que deslocam a direção política de vários países para o espectro da direita e/ou extrema-direita (Kahhat, 2019), pretendemos argumentar que se trata de um fenômeno multicausal com dimensões exógenas e endógenas às sociedades nacionais.
No continente americano, a direita religiosa, que se mostrou mais vigorosa nos Estados Unidos ajudando eleger seis presidentes republicanos entre os anos de 1980 e 2016, nas últimas décadas, tornou-se uma força política importante em países como Guatemala, Honduras, El Salvador, Costa Rica, Peru, Colômbia, Brasil, Bolívia, entre outros (Pérez Guadalupe & Carranza, 2020). Investigações no campo das ciências sociais demonstram a importância destes grupos nas campanhas antigênero que ocorreram e seguem ocorrendo na América Latina e no processo de erosão da democracia em vários países (Biroli, Machado & Vaggione, 2020; Lago, 2018). No caso do Brasil, coalizões de cristãos conservadores com atores políticos da oposição não só ajudaram na destituição de Dilma Rousseff da Presidência da República (2016) como também ampliaram a participação de lideranças com forte identidade religiosa na máquina do Estado com a eleição de Jair Bolsonaro (2018).
Escritos recentes sobre o giro ideológico na sociedade brasileira também indicam a participação de segmentos judeus de direita na coalizão que elegeu Bolsonaro (Gherman & Klein, 2019; Freston, 2020a) e as crescentes manifestações em defesa do Estado de Israel por parte de lideranças evangélicas no Congresso Nacional (Lacerda, 2018; Gonçalves, 2015). De modo que quando se fala de direita religiosa na sociedade brasileira contemporânea, estamos nos referindo a uma forma de alianças conjunturais (Burity, 2020) que envolve setores de diferentes tradições religiosas – em especial da cristã e da judaica.
A literatura internacional vem adotando os conceitos de sionismo cristão (Crome, 2018; Westbrook, 2014; Ariel, 2006; Carpenedo, 2021) e de filosssemitismo (Bruder, 2017) para explicar as afinidades ideológicas dos evangelicals norte-americanos com os judeus, bem como as ações políticas de movimentos cristãos pró-Estado de Israel. De modo geral, o surgimento da ideologia sionista aparece associado ao trabalho de Theodor Herzl, que em 1897 organizou o 1º Congresso Sionista na Suíça, ocasião em que se fundou a Organização Mundial Sionista. Observa-se também um consenso dos estudiosos em torno da ideia de que a Europa e os EUA foram os principais polos irradiadores de movimentos sionistas nos séculos XIX e XX.
Crome (2019) define o sionismo cristão como um movimento com “motivações teológicas baseadas na crença de que os judeus teriam, por graça divina, o direito de posse e de habitar a terra prometida a eles na Bíblia Hebraica e que os cristãos tinham o dever e ou obrigação de apoiá-los nesta causa” (Crome, 2018: 9). Numa visão mais ampla, o sionismo cristão pode ser compreendido como uma estratégia política dos cristãos de inserir a causa pró-Estado de Israel e seu direito de se expandir territorialmente nas pautas dos governos nacionais, via parlamentos e/ou instâncias do Estado (Freston, 2020a). Outra caracterização aponta para a dimensão identitária, pois onde quer que floresça, o sionismo cristão se liga a um duplo nacionalismo, daí a presença conjunta das bandeiras brasileira e israelense em algumas manifestações evangélicas pró-Bolsonaro (Toniol, 2020).
De outro lado, retrospectivamente, eventos históricos como o Holocausto, a Guerra dos Seis Dias ou Terceira Guerra árabe-israelense e o fortalecimento da direita no Estado de Israel, somados às transformações no interior do campo cristão – surgimento de novas teologias e grupos –, resultariam, entretanto, em formas diversas de justificativas e de engajamento dos cristãos nas iniciativas políticas em defesa do Estado de Israel. Ou seja, assim como foram identificadas formas plurais de sionismo no mundo (Troy, 2018; Gherman, 2019; Kaufman, 1979), também se observa uma diversidade de sionismos cristãos (Freston, 2020b). Esse movimento é afetado pelos vínculos dos cristãos locais com os centros irradiadores do sionismo no plano internacional (USA-Europa), assim como pelas relações políticas estabelecidas entre o Estado de Israel e a configuração nacional em questão, que podem ser muito diferenciadas a depender dos interesses de ambas as partes.
Na análise de Hummel (2019), embora desde meados do século passado os governantes israelitas desenvolvessem esforços no intuito de angariar apoio dos cristãos norte-americanos (evangelicals),2 só na década de 1960, “a maioria dos evangelicals começou a lidar com as implicações teológicas do holocausto e da criação do Estado de Israel” (Hummel, 2019: 12). Uma das lideranças batistas dos EUA que se destacou na defesa pública dos interesses dos israelitas e visitou o país em missão religiosa foi o democrata Billy Graham. Com um espírito missionário, esse pastor, entretanto, geraria muitos constrangimentos entre os líderes das comunidades judaicas de Israel que não viam com bons olhos a sua tentativa de converter os judeus com pregações traduzidas em hebraico.
No caso brasileiro, tanto a direita cristã – católica e evangélica – quanto os segmentos sionistas cristãos, que podem se sobrepor em alguns momentos e lugares mas não se coincidem totalmente, encontram-se conectados em redes transnacionais que cruzam diferentes países da América Latina e do Caribe, ligando-os com o norte global. A circulação de perspectivas teológicas dos EUA para o resto do continente americano vem sendo assinalada por diferentes estudos sobre o pentecostalismo na região (Pérez Guadalupe & Carranza, 2021; Mariz, 1999; Mariano, 2001). A relação seminal das duas maiores e mais importantes denominações evangélicas brasileiras – a Batista e a Assembleia de Deus –, com grupos religiosos estadunidenses também já foi objeto de análise de vários autores (Campos, 2005; Alencar, 2013; Alvarenga, 2017). Mais recente são as discussões sobre as posições destas igrejas em relação às questões geopolíticas envolvendo judeus e palestinos, bem como o ativismo de parlamentares pentecostais nas casas legislativas em favor do atual governo de direita de Israel (Lacerda, 2018). Nas próximas páginas tentaremos contribuir com esse debate, discutindo em que medida os evangélicos e os governos republicanos dos EUA contribuíram para uma crescente defesa do Estado de Israel entre os evangélicos brasileiros.
Cabe esclarecer que a hipótese que orienta esta reflexão é de que o governo Trump, em especial sua política externa, contribuiu para uma maior articulação entre conservadores religiosos brasileiros com a direita cristã estadunidense, fomentando o crescimento do chamado sionismo cristão no Brasil. Os dados aqui apresentados foram coletados entre abril de 2020 e janeiro de 2021, ou seja, em plena pandemia e resultam de pesquisas realizadas na web em sites institucionais, agências de notícias e jornais de grande circulação. No site da Câmara Federal realizamos uma investigação de discursos e projetos de lei entre 2003 e 2020 que faziam menção ao Estado de Israel e ou à embaixada do Brasil naquele país. Na mídia eletrônica evangélica, investigamos os sites das seguintes igrejas: Batista da Lagoinha, Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Ministério Internacional da Renovação e Igreja Nacional Nosso Senhor Jesus Cristo. Além disto, consultamos os sites da Latino Coalition for Israel (LCI), do Ministério Glory of Zion International e da International Christian Embassy of Jerusalem. Considerando os limites desse artigo, só parte dos dados levantados serão analisados nas próximas páginas, e os links e fontes encontram-se nas notas.
Organizamos nossa análise em quatro seções. Primeiramente discutimos o surgimento da direita religiosa norte-americana e as alianças dos cristãos com o movimento sionista bem como com o Partido Republicano (entre 1970 e 2020). Em seguida, apresentamos algumas hipóteses sobre o alinhamento de segmentos conhecidos como evangelicals à candidatura de Donald Trump e as iniciativas do governo eleito em 2016 para a expansão da direita cristã e do sionismo cristão para além das fronteiras dos EUA. Finalmente, argumentamos que as vitórias de Trump e de Bolsonaro favoreceram a circulação de atores e valores do movimento sionista cristão em terras brasileiras.
O sionismo cristão dos evangelicals nos EUA
Existe um consenso entre os analistas (Finguerut, 2009; Balmer, 2017; Lacerda, 2018; Brown, 2006; Borda, 2020) de que o ativismo politicamente conservador dos evangelicals, a nomeada direita cristã e seu correlato, o sionismo cristão, começou a ganhar corpo nos Estados Unidos na década de 1970 e seria uma reação às transformações culturais, políticas e econômicas em curso na sociedade – tanto estadunidense quanto na mundial. A difusão da contracultura e em especial os movimentos pelos direitos civis que reivindicavam mudanças nas hierarquias raciais e de gênero, incidiam sobre as mais diferentes instituições como a família, as escolas e as igrejas, e geraram insegurança nos setores mais conservadores do cristianismo, em particular nos setores brancos evangelicals.
Duas decisões jurídicas em cortes norte-americanas são identificadas pelos estudiosos como catalisadores do movimento que deu origem à direita cristã. A primeira era relacionada ao tema da segregação racial em escolas particulares (caso Coit vs. Green) e despertou a reação de líderes brancos evangelicals cujas instituições de ensino adotavam políticas discriminatórias. A outra foi a decisão favorável da Suprema Corte ao direito da privacidade da mulher em caso de aborto (Roe vs. Wade/1973), criando precedentes para a legalização da interrupção da gravidez em vários estados (Lacerda, 2019). Mais associada aos católicos, a retórica antiaborto foi adotada por pastores como uma estratégia de mobilização que poderia ampliar a visibilidade e a força política do segmento conhecido naquele país como os evangelicals (Balmer, 2017). Nesta chave de leitura, o tema do aborto foi introduzido na agenda destes cristãos como um dispositivo para incitar os fiéis e buscar projeção política. Com isto, a dificuldade em aceitar as mudanças nas hierarquias raciais ficaria menos perceptível e os evangelicals desenvolveriam um discurso mais centrado nos valores da família e da moralidade sexual.
Segundo Finguerut (2009), em 1978, o governo democrata de Jimmy Carter (membro da Igreja Batista da Geórgia) alterou as regras fiscais das escolas particulares, ampliando a carga tributária das instituições de ensino privadas, entre elas, as escolas cristãs. Com isto, parte da liderança religiosa se organizou politicamente e, com o discurso da defesa da causa cristã, mobilizou os fiéis no combate às mudanças fiscais do democrata, com o envio de milhares de cartas ao órgão governamental responsável pela cobrança de impostos no país. Na interpretação do autor, a expressiva mobilização revelou a grande potencialidade dos grupos cristãos na arena política. Deste processo de mobilização surgiria a Maioria Moral liderada pelo pastor Jerry Fawell (Thomas Road Baptista Church), com o propósito de influenciar as primárias do Partido Republicano. Um ano depois, a Maioria Moral já contava com milhares de membros, entre eles evangelicals, judeus e católicos conservadores, e tinha uma agenda política centrada no combate aos costumes liberais (Finguerut, 2009: 122).
No discurso dos dirigentes da Maioria Moral, a sociedade norte-americana passava por um processo de degradação moral e caberia aos cristãos e judeus a liderança na guerra cultural contra os liberais. A articulação de dois temas – a defesa de Israel e da família – aproximaria estes cristãos de judeus que integravam o neoconservadorismo econômico, ajudando a eleger o republicano Ronald Reagan em 1980. O ativismo sionista desses evangelicals tinha, entretanto, um caráter pragmático e estava associado à percepção de que uma política externa alinhada aos interesses do Estado de Israel favoreceria econômica e politicamente os EUA (Finguerut, 2009: 123).
É preciso esclarecer que embora a Maioria Moral fosse a organização mais influente da nova direita cristã, havia outros setores religiosos com atuação política conservadora nos EUA na passagem da década de 1970 para 1980, e Falwell3 não dava muito espaço para as lideranças pentecostais e carismáticas no movimento político sob sua direção (Stoll, 1990: 15). Alguns destes líderes apresentavam uma posição sionista em decorrência de uma leitura que prioriza a origem judaica de Jesus e sugere que o fortalecimento do Estado de Israel é central para o propósito redentor de Deus. Ou seja, suas iniciativas pró-Israel decorriam de uma visão escatológica e podiam ser enquadradas no que Freston (2020b) denominou de sionismo profético.
No primeiro governo Reagan ocorreria um fortalecimento político da Maioria Moral, com a nomeação de vários evangelicals em postos importantes para a defesa das bandeiras morais. Escândalos financeiros envolvendo importantes lideranças evangélicas, ainda que não participantes da Maioria Moral, geraram uma forte controvérsia na mídia e afetaram as doações para as organizações cristãs. Em crise, as atividades da Maioria Moral foram encerradas em 1988. De qualquer modo, nos anos de 1986 e 1987 o televangelista da Igreja Batista do sul dos EUA, Pat Robertson, que havia se pentecostalizado e com quem Falwell tinha várias divergências, já levantava recursos para disputar as prévias presidenciais do Partido Republicano em 1988 (Stoll, 1990: 43). Não conseguiu que seu nome fosse aprovado, mas se tornou influente no meio republicano.
A influência crescente de Robertson no meio cristão decorria de sua atuação em um programa televisivo, o Club dos 700, um talk-show religioso que não só tinha grande audiência nos EUA como era retransmitido para vários países da América Latina. Robertson era um pastor Batista pré-milenista4 com discurso sobre fins dos tempos, que na década de 1980 abraçara uma espiritualidade carismática-pentecostal e a teologia do domínio (TD). Essa teologia, segundo Ice (2009), é fruto de uma troca entre uma vertente do calvinismo reformado, o chamado Reconstrucionismo, e o pentecostalismo carismático. Inspiradas no Antigo Testamento e em interpretações sobre os finais dos tempos, essas correntes religiosas afirmam que a volta de Cristo depende da implantação do Reino de Deus agora. Por isso a TD é também conhecida como Kingdom Now ou Teologia do Reino (Ice, 2009).
Adotando a TD, Robertson, que costumava em seus programas televisivos orar para curas e soluções de problemas individuais e sociais, mobilizava setores cristãos para a participação político-eleitoral e a defesa das propostas do Partido Republicano. Para organizar este apoio e negociar com os políticos, Robertson criou a Coalizão Cristã, que ocuparia o espaço vazio deixado pelo fim da Maioria Moral e ajudaria a eleger George Bush (1989-1993).
Simultaneamente, Robertson desenvolvia diversas ações pró-Israel e arrecadava fundos para projetos e organizações sionistas ao longo dos anos 1980 e 1990.5 Em função de seu ativismo em defesa do Estado de Israel, este pastor recebeu prêmios e homenagens da Organização Sionista da América (2002) e da Irmandade Internacional de Cristãos e Judeus (2008). Em 2004, discursando na Hezliya Conference, em Israel, Robertson declarou que os cristãos apoiavam
[...] Israel porque acreditamos que as palavras de Moisés e dos antigos profetas de Israel foram inspiradas por Deus. Acreditamos que o surgimento de um estado judeu na terra prometida por Deus a Abraão, Isaque e Jacó, foi ordenado por Deus. Acreditamos que Deus tem um plano para esta nação, que pretende ser uma bênção para todas as nações da terra.6
Outras lideranças cristãs conservadoras com menos expressão política nos EUA do que Robertson, mas como ele adeptas da TD, ajudariam a difundir tanto a agenda moral da Coalizão Cristã quanto as iniciativas sionistas para outros países do Caribe e da América do Sul. Um deles é Peter Wagner, um missionário Batista que viveu na Bolívia entre 1956 e 1971, e que posteriormente tornou-se professor de um seminário pentecostal nos EUA e porta-voz da teologia do domínio. Wagner escreveu livros7 combinando a batalha espiritual com a ideia de dominar o mundo para criar o “reino de Deus na Terra”. Esses livros foram traduzidos para o espanhol e português e tiveram penetração no resto do continente americano, tendo o autor visitado várias vezes o Brasil.
Na teologia difundida por Wagner, a “Batalha Espiritual” (Spiritual Warfare) seria um instrumento de busca de domínio sobre esse mundo. A expulsão de espíritos demoníacos pode transformar a sociedade obtendo, entre outras coisas, a prosperidade. Prosperar seria uma forma de dominar o setor econômico, ou seja, representaria o domínio sobre as riquezas. A TD afirma que Deus deu o poder e o dever de o cristão dominar todos os setores da vida, identificados como as Sete Montanhas: as artes, o governo, a educação, a religião, o negócio, a igreja e a família. E isto não só no interior da sociedade norte-americana, como também no plano mundial.8 Se existem demônios hereditários, existem também aqueles que dominam territórios, como cidades e países. A batalha nos EUA seria importante porque, uma vez vencida pelos cristãos, estes poderiam lançar mão da política da maior potência econômica do Ocidente para influenciar o mundo.
Wagner também foi responsável pela divulgação do que chamou de Nova Reforma Apostólica (New Apostolic Reformation ou NAR) que, na década de 2000, atrairia líderes de vários países e das mais diversas denominações religiosas (Lopes, 2014). Wagner criou a Spiritual Warfare Network (1990) e, com outros apóstolos, a International Coalition of Apostolic Leaders (1999). O fundador da Global Spheres e do Ministério Glory of Zion International, apóstolo Chuck Pierce,9 também faz parte da rede de Wagner (Mariano, 2001). Esta última organização tem como objetivo conectar “pessoas de todas as nações, origens, raças e estilos de vida. Em [...] um reflexo do alinhamento de judeus e gentios […] e apoiar a liderança apostólico-profética na mobilização de um remanescente do Reino em suas cidades, províncias e nações”.10
A mobilização política desses grupos religiosos não arrefece quando seus candidatos à presidência perderam as eleições nos EUA. Segundo Carranca (2018), os presidentes democratas Bill Clinton (1993-2001) e Barak Obama (2009-2017) tiveram muita dificuldade em enfrentar a pressão dos cristãos republicanos nos EUA, e durante a primeira década do século XXI multiplicaram-se os grupos lobistas em Washington, advogando por temas ligados à religião. Um fator que teria propiciado o crescimento da influência destas ONGs cristãs na política externa estadunidense foi o atentado de 11 de setembro de 2001. Isto porque entre as várias medidas adotadas pelo então presidente George Bush, em reação ao ataque muçulmano, encontrava a que facilitava “o acesso de organizações religiosas a fundos federais para projetos humanitários no exterior através da USAID” (Carranca, 2018).
Em contrapartida, a direita cristã apoiou a política belicista de Bush e legitimou religiosamente a guerra dos EUA contra o Iraque, em 2004. Tanto Falwell quanto Robertson defenderam a ocupação militar e justificaram suas posições com argumentos bíblicos, humanitários e pragmáticos valorizando as relações internacionais. Na visão de Douguerthy (2012: 1), as intervenções públicas desses líderes cristãos conservadores foram e são importantes “para os candidatos e formuladores de políticas do Partido Republicano (...) ajudando a conectar o eleitor médio às diretrizes do governo para a política externa”.
Nos dois governos de Obama, embora os movimentos pela diversidade sexual tenham conseguido alguns avanços na política interna dos Estados Unidos, a pressão das ONGs e movimentos cristãos para garantir as prerrogativas conquistadas nos governos anteriores se manteve. A capacidade de influência destes setores religiosos foi reforçada com a emergência do movimento Tea-Party11 no interior do Partido Republicano. Com a proposta de recuperar os valores conservadores e transformar a agremiação partidária, o Tea Party defendia o direito a portar armas e se opunha ao casamento igualitário e ao aborto, ajudando a deslocar o partido ainda mais para a extrema-direita. Este movimento ganhou notoriedade em 2009, quando seus integrantes organizaram uma forte reação contra a proposta de reforma do sistema de saúde do presidente Obama. Segundo Dougherty (2012), a direita cristã estaria, entretanto, muito além do Tea Party, pois “a visão de mundo [dos cristãos conservadores] tem tanto a dizer a respeito de guerras, reforma da saúde pública e alíquotas tributárias quanto de aborto e ensino domiciliar”. De qualquer maneira, parlamentares como Ted Cruz e Rand Paul, ligados ao Tea Party, tornaram-se uma força importante na política republicana, lutando pelo controle da máquina partidária.
Donald Trump, o apoio dos evangelicals e o fomento das iniciativas sionistas
O apoio de 81% dos evangelicals a Donald Trump em 2016 surpreendeu muitos dos que estudam a atuação política desse grupo religioso nos EUA.12 A história pessoal de Trump, seu estilo de vida e seu discurso se distanciam em várias medidas dos valores tradicionais cristãos tais como defendidos pela direita religiosa, como assinalam Bowler (2017), Butler (2017) e Markofski (2017). As explicações desses autores para a adesão dos cristãos conservadores à campanha do candidato republicano enfatizam as reconfigurações do que se convencional chamar de evangelicals nos EUA.
Bowler (2017) destaca a união entre evangelicals e carismáticos-pentecostais adeptos do Evangelho da Prosperidade. A autora salienta que os pregadores dessa perspectiva teológica, entre eles o de “mega churches”, atraem enorme quantidade de seguidores. Essa teologia é responsável pela venda de milhares de exemplares de livros e pelo sucesso de pregadores na TV e em outros meios de comunicação. No entanto, como seu discurso é muito individualista, esses pregadores e seus seguidores tendiam a se interessar pouco por política. Em 2016 isso muda. Esse grupo, que era ridicularizado pela mídia mainstream e não era bem aceito entre os Evangelicals, passou a integrar a direita cristã, se engajando na campanha de Trump. Segundo essa autora, este empresário teria sido “o primeiro presidente americano cujos únicos impulsos religiosos se originam no Evangelho da prosperidade americana” (Bowler, 2017: 8). Cabe lembrar que a família Trump frequentava a igreja do pastor Norman Peale, autor do livro The Power of Positive Thinking (1952), que seria uma das bases do Evangelho da Prosperidade (Bowler, 2017).
Butler (2017) também enfatiza a diversidade e as reacomodações no cristianismo norte-americano quando examina o fato de que os evangelicals abandonaram republicanos com perfis mais alinhados ao cristianismo (Ted Cruz e Marco Rubio) para votar em Trump, que nada parecia ter a ver com a pauta da guerra cultural dos cristãos conservadores. Na opinião desta autora, a explicação está no fato de que os chamados evangelicals se aliaram na eleição de Trump13 a vários outros segmentos cristãos, como os carismáticos pentecostais da teologia do domínio e da prosperidade, com os quais rivalizavam até então. Neste sentido, Butler registra a participação na campanha republicana de Paula White – fundadora da International Without Walls e cujo estilo e perfil se afastava do que seria o dos evangelicals mainstream. Uma vez eleito, Trump retribuiu o apoio eleitoral desta pregadora, e White se tornaria uma das mediadoras importantes nos acordos de Trump com Israel.
O argumento de que estariam acontecendo mudanças no perfil dos que compõem o grupo evangelicals também é acionado por Markofski (2017: 23) na explicação da incorporação na aliança política-religiosa, identificada como “direita cristã”, de grupos antes rejeitados – no caso, pentecostais. Sua hipótese é que essa união é fruto de uma ameaça sentida pelos setores brancos com o crescimento demográfico dos outros grupos étnicos no país. A vitória por dois mandatos de Obama, um presidente negro, teria alimentado esse temor e favorecido o surgimento de novas vozes dentro da direita cristã, que se tornou mais plural e dinâmica. A percepção das mudanças demográficas e políticas parece ter aumentado o desejo de poder, e a teologia do domínio seria muito útil para legitimar em termos espirituais esse projeto.
Um elemento que facilitou a grande adesão dos cristãos foi o fato do companheiro de chapa de Trump ser um cristão conservador vinculado ao Tea Party: Mike Pence, que a despeito de sua educação católica, tornou-se membro de uma mega igreja em Indianápolis (Grace Evangelical Church). Pence, quando governador de Indiana (2013-2017), havia sancionado leis que restringiam o direito ao aborto e garantiam prerrogativas aos cristãos como a Lei de Objeções Religiosas, que foi criticada por coletivos feministas e LGBTQI+ e que seria parcialmente revista pelo governador. De qualquer modo, tratava-se de um político cristão de direita que na máquina do Estado poderia ajudar a implementar de políticas alinhadas ao cristianismo e em defesa de Israel.
Empossado, Trump escancarou as portas da Casa Branca para os religiosos conservadores que o apoiaram, fortaleceu politicamente os cristãos sionistas nos EUA e estreitou os laços com a direita israelense, mudando sua política externa com Israel. Desde 1995, a Jerusalem Embassy Act (Lei da embaixada de Jerusalém) requeria reconhecer Jerusalém como capital de Israel e poder trasladar a embaixada. Clinton e Bush, ainda que tivessem feito promessas em suas campanhas eleitorais de atender os apelos dos eleitores evangelicals da transferência da embaixada norte-americana, alegaram razões de segurança nacional e assinaram um processo de isenção (waiver) com o argumento de que negociações entre Israel e a Palestina estariam em curso. Trump, contudo, ignorou os waivers,14 reconheceu Jerusalém como a capital de Israel e realizou a transferência do posto diplomático em maio de 2018.15 Posteriormente, Trump concederia reconhecimento formal à soberania de Israel sobre as Colinas Golã (2019) e intermediaria o acordo de paz entre os estados da Liga Árabe (Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos) com o governo de Benjamin Netanyahu (2020). Ou seja, a gestão do republicano revelou-se extremamente comprometida com a defesa dos interesses políticos da direita israelita.
Os argumentos teológicos para fazer a mudança da embaixada se assentam no cumprimento das profecias bíblicas sobre o papel que Jerusalém terá no final dos tempos (Borba, 2020). Assim, a criação do estado de Israel é prova desse cumprimento profético, e o traslado da embaixada norte-americana expressaria o reconhecimento e apoio dos EUA ao Estado israelense. Neste sentido, Trump estaria “sendo usado” para cumprir uma obrigação moral dos cristãos com os judeus. De forma espelhada, esse movimento também aconteceria no Brasil, como analisaremos. Em um efeito mimético, os evangélicos brasileiros repetiriam esse mesmo discurso em relação ao candidato Jair Bolsonaro em 2018. Mas antes disso, é necessário fazer uma breve retrospectiva histórica que dimensione as diferenças entre a direita cristã norte-americana e a brasileira, as mutações internas no campo evangelical e pentecostal norte-americano, seus alinhamentos e a maneira como o sionismo cristão norte-americano e europeu encontraram ressonância em setores cristãos locais.
Direita cristã, redemocratização e politização dos evangélicos brasileiros
Como se disse acima, a direita cristã estadunidense disseminou sua teologia política na América Latina e no Brasil a partir das décadas de 1960, 1970 e 1980, por meio dos missionários e televangelistas que portavam as transformações teológicas e escatológicas estadunidenses – enquanto visão de mundo. Com essa bagagem teológica. tais missionários avançam num contexto em que a teologia da libertação e o crescimento e consolidação pentecostal, com a emergência de igrejas nacionais e lideranças autóctones, formavam parte do cenário religioso (Stoll, 1990: 35). Isso ocorre em clima de Guerra Fria, proliferação dos movimentos socialistas e ditaduras militares na região, acirrando-se no campo cristão a polarização ideológica e o anticomunismo.
Em outro artigo (Machado, Mariz & Carranza, 2021) é traçada a genealogia do sionismo e do filossemitismo evangélico brasileiro e mostra-se como este contexto histórico do pós-guerra fomentou a vinda de setores missionários dos EUA e da Europa comprometidos com a defesa do Estado de Israel. Destaca-se a vinda nos anos 1960 de missionários europeus ligados à Chamada da Meia Noite,16 cujos folhetos proféticos circularam intensamente nas igrejas cristãs brasileiras, assim como a chegada do casal norte-americano e batista Thomas Larry e Linda Gilmer na cidade de São Paulo. Esse casal foi responsável pela publicação em 1976 pela Associação Internacional das Missões Israelitas do livreto intitulado Sionismo não é racismo, escrito pelo pastor brasileiro Gerson Rocha da Igreja Batista de Vitória da Conquista (BA). Um ano depois, a Convenção Batista Brasileira (CBB) lançou uma série intitulada Escatologia em Debates, com um livreto intitulado O Sionismo – Análise à Luz de Sião, Cidade do Grande Rei, escrito por Synésio Lyra (1895-1993), da Igreja Bíblica Congregacional do Rio de Janeiro. Em 1978, um outro livro sionista cristão foi lançado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus, Israel, Gogue e o Anticristo, de autoria de Abrão Almeida, vinculado à Igreja Assembleia de Deus. Estas publicações tinham um viés anticomunista e expressavam uma clara preocupação com a defesa do Estado de Israel.
Nesse contexto de Guerra Fria, como sugerem Cowan (2014) e Villazon (2015), a maioria dos líderes evangélicos apresentava uma perspectiva anticomunista, o que favoreceu o apoio ao regime autoritário brasileiro no interior das comunidades confessionais. Esse alinhamento ideológico possibilitou também as primeiras negociações entre os militares e a elite evangélica para as concessões dos meios de comunicação (Cowan, 2014). Na interpretação de Villazon (2015: 173), “o posicionamento conservador de amplos setores evangélicos na América Latina” durante os anos 1970 e 1980 resultou de uma combinação de fatores locais e globais, e a circulação entre o norte e o sul global “de discursos teológicos e políticos refratários à mudança social” não deve ser tomada de forma isolada e ou determinante nas análises da relação do comportamento político dos líderes religiosos da região.
Freston (1993) e Burity (2020) também destacam as especificidades políticas e culturais das sociedades nacionais e do pentecostalismo latino-americano, sugerindo dificuldades de articulação do discurso conservador norte-americano da Maioria Moral com as propostas das lideranças evangélicas que atuavam politicamente nos diferentes países da região na década de 1980. Nesta linha de interpretação, a hegemonia católica e os regimes ditatoriais que se estabeleceram em vários países fizeram com que a liderança evangélica priorizasse a busca de reconhecimento social e político na região.
No Brasil, o início do processo de redemocratização e convocação de uma Assembleia Constituinte, em meados dos anos 1980, abririam uma brecha para que os pentecostais se tornassem atores políticos e adotassem uma política de identidade evangélica juntamente com outros cristãos conservadores. Sinteticamente, enquanto os evangelicals norte-americanos se mobilizavam na política – via Maioria Moral e depois através principalmente da Coalizão Cristã – mas se opunham aos protestantes históricos e adotavam bandeiras muito conservadoras, no Brasil o que ocorria no período era a união de pentecostais com protestantes históricos, como fica claro no slogan, analisado por Freston (1993), “irmão vota em irmão”. Este apelo identitário seria denominado posteriormente por Burity (2015: 46-54) como um processo de minoritização, uma vez que os atores políticos evangélicos mobilizavam um discurso de minoria discriminada social e politicamente pela elite brasileira.
Outra distinção interessante em relação à direita cristã norte-americana, também sublinhada pelos autores acima, é a dispersão partidária dos constituintes evangélicos, fenômeno que decorre do sistema político brasileiro, mas também de uma estratégia do grupo confessional de viabilizar sua participação na esfera política naquele contexto. De qualquer maneira, a Assembleia Constituinte (1987-1988) revelaria o ativismo moralista de parlamentares evangélicos que, juntamente com o lobby da Igreja Católica, bloquearia as demandas dos movimentos feministas e LGBTQI+. As controvérsias geradas naquele contexto fizeram com que surgissem as primeiras interpretações sociológicas associando o ativismo conservador da maioria dos constituintes cristãos brasileiros com a Maioria Moral (Pierucci, 1989) e começasse a se falar de uma “extrema-direita evangélica” no Brasil (Cowan, 2021).
De qualquer modo, o pragmatismo dos partidos políticos e de grande parte da liderança evangélica brasileira faria com que, durante os anos 1990 e 2000, amplos setores deste campo confessional ora tendessem a apoiar candidaturas majoritárias de centro – caso de Fernando Henrique Cardoso (1994) – ora se deslocassem para em direção às candidaturas mais à esquerda – caso das candidaturas petistas, em especial de Lula em 2002 e 2006. Os avanços dos movimentos pelos Direitos Humanos, feministas e pela diversidade sexual e a implementação de uma série de políticas públicas no campo educacional reprodutivo e da sexualidade colocariam os cristãos brasileiros em uma posição reativa, com políticos e líderes evangélicos aderindo às campanhas antigênero no país (Machado, 2018; Biroli, Machado & Vaggione, 2020). Esta inflexão ocorre em vários países da América Latina e se caracterizaria pela força dos movimentos “pró-família” e “pró-vida” e por uma autoidentificação como “novas direitas religiosas”, de forma similar com o que ocorre nos Estados Unidos.
Na leitura de Burity (2020: 4), só na segunda década do século XXI os evangélicos brasileiros adotam uma agenda política mais alinhada com a da “a direita cristã norte-americana”. Segundo este cientista político, foi nas eleições de 2014 que se explicitou o deslocamento discursivo em favor da construção de uma maioria cristã e a articulação da agenda moral, defendida por pentecostais até aquele momento, com uma agenda econômica neoliberal. Nesta linha de interpretação, o apoio a essa agenda econômica seria mais um fator de aproximação da política evangélica brasileira à chamada direita cristã norte-americana. Burity (2020: 6) ressalta, entretanto, que uma diferença entre ambas é o fato de que esse grupo político nos EUA não era controlado por pentecostais, enquanto no Brasil o epicentro estaria nos pentecostais desde a redemocratização.
Deve-se registrar que, a partir de uma iniciativa de um legislador pentecostal,17 foi criada, em 2003, a Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional, e que no ano de 2007, 28 parlamentares deste grupo evangélico passam a integrar também a Frente Parlamentar Cristã Brasil-Israel Pela Paz (FRENPAZBRIL). Esta Frente foi criada durante a 1ª Conferência Brasileira pela Paz, realizada naquele mesmo ano (Gonçalves, 2015). Embora os parlamentares evangélicos representassem apenas 12% dos seus integrantes (225), tornaram-se vozes importantes no debate legislativo sobre as questões envolvendo o Estado de Israel. Na narrativa mobilizada por estes políticos e por lideranças pentecostais na mídia, o diplomata Oswaldo Aranha tem papel destacado no mito fundador do Estado de Israel, e a sociedade brasileira é colocada como uma nação cristã que tem o dever moral de defender os judeus nos conflitos do Oriente Médio.
É preciso recordar, que a política externa brasileira dos governos petistas de Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016) estava comprometida com a defesa dos palestinos, vistos pela esquerda como vítimas do empreendimento bélico de Israel. Com isto, os parlamentares cristãos, mesmo os que ainda se encontravam na base de sustentação dos governos petistas, se tornam vozes dissonantes defendendo o Estado e governo de Israel. Nossa pesquisa nos sites da Câmara e do Senado Federal revela que este ativismo parlamentar dos cristãos cresce muito na segunda década do século XXI e tem um pico grande no ano de 2017, um ano depois do impeachment de Dilma. Registros no mesmo site indicam ainda viagens a Israel de vários parlamentares evangélicos brasileiros na condição de convidados do governo local durante os anos de 2015, 2017 e 2019. Ou seja, a embaixada de Israel e o Estado israelense mobilizam recursos de várias naturezas para angariar apoio dos políticos cristãos.
Identificamos, entretanto, mudanças na forma de justificar a atuação política desses setores evangélicos já no final da primeira década do XXI. Discursos vinculados à teologia do domínio são mobilizados por líderes das igrejas pentecostais (Assembleia de Deus, Universal do Reino de Deus) e aquelas que se chamam “renovadas” (como a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte) para justificar sua adoção de políticas mais ousadas de representação e intervenção no espaço público. Os discursos de Batalha Espiritual que durante os anos de 1980 e 1990 focavam questões pessoais, tornam-se no século XXI instrumento para implantação do “governo dos justos”. Expulsar os maus espíritos para dominar o mundo e preparar a vinda do Reino de Deus passou a ser chamada de teologia do Reino ou das Sete Montanhas, tal como pregada por Wagner e sua NAR.
Observamos que importantes lideranças evangélicas brasileiras defensoras do Estado de Israel, como René Terra Nova, Valnice Milhomens, Neusa Itioka e Márcio Valadão, se identificam com a NAR e foram consagrados Apóstolos. Terra Nova se destaca por ser o representante brasileiro na Internacional Coaltion of Apostolic Leaders (ICAL) e na International Christian Embassy of Jerusalem (IJEC) no Brasil.18 O filossemitismo e sionismo cristão brasileiros parecem estar vinculados à busca da prosperidade, como já observaram Mariano (1999) em relação à IURD, e Frossard (2013) e Hummel (2017) sobre Terra Nova. Entretanto, existem sionistas cristãos brasileiros que não estão vinculados ao NAR e nem são Apóstolos, caso do pastor Silas Malafaia. Por outro lado, quase todos que organizam, ou organizaram, caravanas de fiéis para Israel, declaram que se interessaram pelas questões políticas envolvendo Israel após visitas à Terra Santa (Frossard, 2013; Paganelli, 2020). Embora esse turismo religioso e a difusão do NAR parecem ter desempenhado papel destacado no surgimento de posições filossemitas e sionista cristã em importantes lideranças evangélicas brasileiras, a luta mais claramente política, como a defesa da transferência da embaixada para Jerusalém no Congresso Nacional, parece ter experimentado outros estímulos a partir do governo Trump nos EUA e da posterior vitória de Bolsonaro.
Da eleição de Trump ao governo Bolsonaro: o estreitamento dos laços
Como na eleição norte-americana de 2016, o resultado da disputa eleitoral brasileira de 2018 revelou um alinhamento de setores cristãos e judeus conservadores com a candidatura Bolsonaro. Liderando esta coalizão religiosa se encontravam atores evangélicos que dispõem de uma grande capacidade de mobilização das camadas populares. Comparando os dados das pesquisas de intenção de votos do Datafolha (25/10/2018) e do IBOPE (27/10/2018), Fonseca (2018) estima que, no segundo turno das eleições de 2018, “Bolsonaro obteve cerca de 20 milhões de votos e Haddad 10 milhões” de parte dos “42 milhões de eleitores evangélicos”. “Brancos, nulos e abstenções teriam ficado em torno de 12 milhões, o que representaria cerca de 67% dos votos válidos de evangélicos para Bolsonaro, enquanto Haddad teria recebido 33%”.19 Ou seja, os eleitores evangélicos ajudaram na vitória do candidato do PSL. Eleito Presidente da República, Bolsonaro não só ampliaria a presença dos políticos evangélicos na máquina do Estado como se alinharia com o governo Trump, que desde 2017 vinha adotando uma política de relações internacionais favorável ao Estado de Israel e de fortalecimento da direita cristã na América Latina.
Os argumentos utilizados pelos sionistas cristãos norte-americanos durante o governo Trump para justificar uma política externa de alinhamento com Israel e a decisão de transferir a embaixada para a cidade santa reverberam na América Latina. Em 16 de maio de 2018, o presidente evangélico da Guatemala (42% da população que se diz cristã é evangélica), Jimmy Morales, transferiu a embaixada para Jerusalém.20 Na mesma linha, o candidato colombiano à presidência, Iván Duque (2018), fez a promessa de transferir a embaixada a Jerusalém, mas depois de sua posse desistiu.21 No mesmo ano, no Peru, um grupo de congressistas liderados por um pastor evangélico solicitou o traslado da embaixada para Jerusalém, mas o governo ratificou a permanência em Tel Aviv.
Iniciativas como essas também contam com os esforços realizados por entidades como a Capitol Ministries e a Latino Coalition for Israel (LCI), ambas com importante participação de atores cristãos da White House Faith and Opportunity Initiative, uma seção recriada em maio 2018 por Trump com o objetivo de prover recomendações administrativas que implementem iniciativas e programas comunitários com inspiração religiosa.22 Inspirada pela teologia do domínio, a Capitol Ministries foi fundada em 1996 pelo pastor Ralph Drollinger, e sua missão é a de converter políticos e servidores públicos a uma visão cristã evangélica, promover estudos bíblicos no congresso e senado americano. A partir de 2017, passou a assessorar o primeiro escalão de Trump23 e, desde então, a Capitol abriu ministérios em México, Honduras, Costa Rica, Equador e Paraguai.24
No Brasil, a Capitol inicia seus contatos em 2017 no governo Temer, com o pastor da Igreja Batista de Moema/SP, Giovaldo de Freitas, assumindo o escritório no país após treinamento em Washington, ocasião sobre a qual relembra: “Foi muito interessante porque de repente eu me vejo ali conversando com um senador americano super empolgado porque [Capitol] estava vindo para o Brasil. Nessa reunião tinha oito senadores e dois deputados [americanos]”.25 Posteriormente, o escritório será assumido pelo pastor e assessor parlamentar26 Raul José Ferreira Jr., que declara ter a intenção de “reconstruir a nação a partir de valores cristãos que são forjados através do estudo da palavra (…). Nossa ideia é chegar a nível de Presidência da República e ministros, primeiro escalão. A gente tem um slogan que é ‘first the firsts’, ou seja, primeiro os primeiros. Através dessas pessoas com relevância, a gente pode mudar o destino da nossa nação”.27
Esse espírito e estratégias são reforçadas pela Latino Coalition International (LCI), que tem sede em Miami (USA) e se propõe a ser a maior entidade pró-Israel hispânica. A LCI, segundo seu site, foi criada com o propósito de influenciar as igrejas e os funcionários governamentais na América Latina para que defendam o Estado de Israel e a transferência dos postos diplomáticos de Tel Aviv para Jerusalém.28 Sob inspiração dos princípios bíblicos “quem abençoa Israel será abençoado”, sionistas evangélicos afirmam que quem apoia o Estado de Israel participa da sua prosperidade. O grupo representa diferentes vertentes da comunidade evangélica: algumas são alinhadas à teologia da prosperidade, outras são claramente sionistas em função das profecias bíblicas e ou encontram-se vinculadas com a Convenção Batista do Sul, que aglutina mais de 50.000 igrejas nos EUA.29
A diplomacia sionista cristã da LCI, liderada por Mario Bramnick, pastor estadunidense de origem cubana, tem conseguido com sua “ofensiva profética” engajar diversas lideranças evangélicas do Chile, Panamá, Costa Rica, Honduras, El Salvador, Guatemala e Brasil. Na Guatemala, uma delegação com mais de 70 lideranças judias e evangélicas agradeceu ao presidente Morales pela transferência da embaixada a Jerusalém, em maio de 2018, prometeu apoio a seu governo e relembrou que o país foi o segundo a reconhecer a criação do Estado de Israel (1947).30
Em plena campanha de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil, em agosto de 2018, Bramnick visitou o Brasil e participou da comemoração dos 70 anos de fundação do Estado de Israel na Igreja Batista da Lagoinha (Belo Horizonte/MG).31 O evento contou com a ex-congressista e cofundadora do movimento norte americano Tea Party, Michele Bachmann, que discursou para os presentes: “Por mais de 3.500 anos Deus designou Jerusalém como capital de Israel (…), queremos que o Brasil seja abençoado, queremos que prospere, assim certifique-se em votar num candidato que mude a embaixada do Brasil para Jerusalém”.32 Esta passagem, assim como trechos das pregações de outros atores políticos norte-americanos, foram usados nas redes sociais evangélicas para ampliar os votos dos eleitores brasileiros, pois Bolsonaro havia se comprometido com as lideranças religiosas locais a deslocar o posto diplomático para a cidade Santa. Durante o mesmo evento, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) entregou a “chave simbólica do Brasil para Israel” ao deputado israelense Robert Ilatov, e a pastora Jane Silva, uma das organizadoras da celebração, prestou homenagem ao diplomata Osvaldo Aranha, que teria, em suas palavras, desempenhado um papel fundamental na “a criação do Estado de Israel”.33 Esta pastora posteriormente declarou à imprensa que o tesoureiro de campanha de Bolsonaro foi um dos financiadores da celebração. Ou seja, articulações entre o candidato do PSL, os evangélicos e parte da comunidade judaica locais, assim como atores internacionais – israelenses e estadunidenses – estavam em curso.
Em dezembro de 2018, Bramnick voltou ao Brasil com a finalidade de encontrar-se com o recém-eleito presidente da República e encorajá-lo a trasladar a embaixada brasileira a Jerusalém. Neste encontro, o pastor norte-americano declarou “acreditar firmemente que a mão de Deus está sobre o Presidente Bolsonaro”.34 Tudo indica que a nomeação de Mike Pompeu, um evangelical radical, para conduzir a política externa, durante o primeiro semestre de 2018, amplificou a influência da direita cristã nas iniciativas norte-americanas na região e teria fomentado a circulação de líderes da direita norte-americana e de sionistas cristãos no Brasil e no resto da América Latina. Pompeu representou Trump na posse de Bolsonaro em janeiro de 2019, cerimônia que contou com a participação de várias outras lideranças de direita no mundo. Deve-se registrar que na visita que fez a Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, às vésperas da solenidade de posse, Binyamin Netanyhau, premier de Israel, o convidou para uma visita a Israel e declarou à imprensa que ouvira do brasileiro “a promessa de transferir a embaixada para Jerusalém”.
A partir de janeiro de 2019, a sociedade brasileira assistiria a uma verdadeira guinada ideológica na máquina estatal com evangélicos de diversos grupos religiosos e perspectivas teológicas assumindo o primeiro e segundo escalão do poder executivo no âmbito federal (Machado, 2020). Damares Alves, ligada à Igreja Batista de Lagoinha, que assumiu o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, certamente é a personagem mais conhecida desse grupo pela sua assessoria parlamentar e jurídica no Congresso Nacional. Entretanto, como afirmou Pacheco (2020), para além dos pentecostais e neopentecostais, foram incorporados no governo Bolsonaro vários evangélicos do núcleo calvinista. Um exemplo mencionado por Pacheco foi o pastor Sergio Queiroz, que atuou como secretário Nacional de Proteção Global, órgão que integra o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos. Ligado à The Gospel Coalition, Queiroz foi responsável por articular em agosto de 2019 o encontro com Mike Pompeo, secretário de estado dos Estados Unidos, para a estruturação de uma Aliança Internacional para a Liberdade Religiosa (Pacheco, 2020). Esse projeto tem despertado muita inquietação no movimento negro e mesmo na academia, pois sua perspectiva enfatiza o cristianismo e não leva em conta o fato de que em nossa sociedade os segmentos mais suscetíveis à intolerância religiosa são os chamados afro-brasileiros.
A repercussão da teologia do domínio em segmentos evangélicos brasileiros é diferenciada, mas tornam-se cada vez mais frequentes manifestações como a da Ministra Damares Alves que, em discurso em Genebra, afirmou que “é o momento de a igreja ocupar a nação”.35 Essa lógica de tomada de território e de guerra cultural é que alimenta a pressão de diferentes líderes religiosos sobre o poder executivo pelos cargos no primeiro e segundo escalão do governo. Neste sentido, lembramos as nomeações dos pastores presbiterianos André Mendonça (Advocacia Geral da União, depois para o Ministério de Justiça e Supremo Tribunal Federal) e Milton Ribeiro (Ministério de Educação) para ocupar áreas estratégicas do governo federal com o objetivo de manter a base de apoio do governo Bolsonaro.
Deve se registrar que na sua primeira viagem como presidente aos Estados Unidos, em março de 2019, Bolsonaro participou, juntamente com o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e com o seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, de um encontro com pastores e importantes líderes religiosos norte-americanos. Entre os temas a serem tratados na reunião encontravam-se “o futuro da nação brasileira”, “o apoio a Israel e “a importância dos valores tradicionais: a defesa da família e a luta contra o aborto”. O encontro contou com a presença de Pat Robertson, citado anteriormente, que fez a seguinte oração: “Senhor, sustente-o [Bolsonaro]. Proteja-o do mal. E, use-o poderosamente nos próximos anos. Oramos, Senhor, para que a unção do Espírito Santo venha sobre ele”.36
Bolsonaro realizou a visita oficial a Israel no final do mesmo mês de março de 2019 e foi recebido com todas as honras por Netanyahau, que o acompanhou na visitação ao Muro das lamentações em Jerusalém. Pressionado pelos militares e pecuaristas brasileiros, que ficaram extremantes preocupados com as possíveis perdas comerciais que o Brasil sofreria com o descontentamento dos países árabes, principais compradores da carne bovina brasileira, em relação ao translado da embaixada para Jerusalém, Bolsonaro frustraria as expectativas do primeiro-ministro e dos sionistas cristãos. O presidente brasileiro acabou acenando apenas para a abertura de um escritório comercial em Jerusalém e declarou aos seus apoiadores cristãos e judeus que estava só adiando o cumprimento da promessa da transferência da embaixada. Decisão que gerou muito desconforto entre parlamentares evangélicos aliados ao governo, que cobraram a promessa de campanha. O deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) da Assembleia de Deus deu a seguinte declaração à imprensa: “O compromisso com o povo evangélico e judeu é outro. Confio que o presidente tem uma só palavra! Aguardamos a transferência”.37
Sem conseguir atender à demanda do translado, Bolsonaro, ainda no primeiro ano de seu governo, participaria da Marcha para Jesus organizada em São Paulo, e ajoelhar-se-ia frente a Edir Macedo no Templo de Salomão da Igreja Universal do Reino de Deus. Em 2020 participaria também em um dos encontros que marcaram a chegada no Brasil do movimento de origem norte-americana The Send, que atrai fundamentalmente jovens com o propósito de “reevangelizar as nações”.38
Considerações finais
Nas primeiras décadas do século XXI, os evangélicos brasileiros passam a adotar uma agenda política cada vez mais similar à da direita cristã norte-americana. Uma novidade relevante nessa nova agenda no contexto brasileiro foi a saliência adquirida pelo sionismo cristão. Posições em defesa do Estado de Israel no Congresso Nacional e na mídia evangélica tornaram-se mais frequentes, e uma aliança com os judeus conservadores foi estabelecida com intuito de influenciar o pleito de 2018 e as políticas de relações exteriores. A vitória do governo Trump favoreceu essa mudança por vários motivos. O primeiro, que destacamos, foi a modificação do perfil da direita cristã norte-americana que apoiou o republicano. Essa difere daquela que apoiou Reagan e Bush por incluir carismáticos e pentecostais, grupos mais similares aos evangélicos brasileiros.
Para desenvolver nosso argumento iniciamos nosso artigo demostrando como as alianças dos grupos conservadores cristãos e judaicos originaram uma direita religiosa nos EUA e um maior alinhamento de setores evangelicals tanto com o partido Republicano daquele país quanto com os judeus de direita desde a eleição de Reagan. Ou seja, tentamos articular a constituição desta “direita com alianças conjunturais” com formas de sionismo religioso que não necessariamente são dispensacionalistas, mas tendem a associar o futuro dos cristãos ao do estado de Israel.
Uma reconfiguração desta aliança religiosa de direita, com incorporação dos carismáticos e pentecostais, foi decisiva para a eleição de Donald Trump no ano de 2016 e para a implementação de relações internacionais nos últimos quatro anos que fortaleceram direta ou indiretamente o grupo liderado por Benjamin Netanyahu em Israel. Ainda que a medida política mais simbólica tenha sido a transferência da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, não se pode ignorar o fato de que a política internacional do governo Trump ampliou a circulação de atores evangelicals norte-americanos e da agenda do sionismo cristão na América do Sul e Caribe.
Como indicado na introdução, o fenômeno que genericamente denominamos de sionismo cristão apresenta um caráter plural e engloba desde iniciativas como a publicação de narrativas associando profecias bíblicas com acontecimentos históricos envolvendo os judeus ao longo dos séculos, até a arrecadação de fundos para ajudar na instalação de novos assentamentos na região de Gaza, passando por moções de repúdio a deliberações da ONU em favor dos palestinos e pressões de parlamentares cristãos junto ao poder executivo para o translado do posto diplomático para a Terra Santa. Reforçamos o nosso argumento de que, no caso do Brasil, somente no século XXI vamos perceber um ativismo político evangélico em favor de Israel, embora tenha-se constatado a presença de segmentos com teologias dispensacionalistas e discursos pró-Israel assim como tendências de judaização em igrejas carismáticas e pentecostais nas últimas décadas do século XX.
Nessa direção, consideramos fundamental a chegada, nos anos 2000, da Nova Reforma Apostólica ao país com a consagração de apóstolos locais, que abraçaram a teologia do domínio e incrementaram o debate e as iniciativas em favor de Israel no meio evangélico brasileiro. Esta reconfiguração no meio pentecostal e carismático coincide com o fortalecimento político de setores batistas e das igrejas Assembleia e Universal do Reino de Deus no Congresso Nacional (Machado & Burity, 2014) e abriu brechas para o ativismo sionista entre os parlamentares com base eleitoral evangélica. Essas mudanças permitiram ainda um alinhamento de setores cristãos e judeus conservadores com a candidatura de Bolsonaro e influenciaram o resultado da disputa eleitoral brasileira de 2018.
Não é possível terminar este texto sem mencionar o impacto da pandemia nas gestões de Bolsonaro e Trump e a derrota sofrida pelo populista norte-americano nas eleições de 2020. O primeiro ponto a assinalar é que tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil observa-se uma política desastrosa para o enfrentamento da Covid-19, com os dois presidentes negando os riscos de transmissão do vírus e a letalidade da doença, assim como desqualificando as orientações da Organização Mundial da Saúde e dos cientistas locais. Em que medida a saída de Trump do poder afetaria a direita cristã no Brasil e o seu sionismo? Embora os dois países apresentem altíssimas taxas de mortalidade, seus dirigentes conseguiram manter entre os evangélicos mais fundamentalistas níveis de aprovação de seus respectivos governos muito parecidos com o do ano anterior à pandemia. No caso de Trump, embora tenha perdido a eleição de 2020 para o candidato democrata Joe Biden, a sua base eleitoral evangélica continuava firme. No Brasil, também os evangélicos parecem ser um dos segmentos sociais que manteve mais ou menos estáveis os níveis de aprovação de Bolsonaro entre os anos de 2019 e 2020.
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Notas