Artigo Original
Recepção: 30 Janeiro 2021
Aprovação: 16 Agosto 2021
DOI: https://doi.org/10.20396/csr.v23i00.14909
RESUMO: O artigo pretende discutir as conexões entre grupos da direita católica no Brasil com redes e matrizes do mesmo tipo, externas e transnacionais. As informações mais conhecidas dão conta do papel jogado por grupos evangélico-pentecostais oriundos dos EUA nestes fluxos. Este artigo, contudo, busca chamar atenção para o alcance da influência católica no processo. Serão destacados como vetores desta relação os movimentos do Opus Dei e da Renovação Carismática Católica (RCC). No exame destas duas instâncias da Igreja Católica, o artigo levanta a hipótese de que existe de longa data um caráter internacional no seio do Catolicismo que implica numa globalização interna deste na contemporaneidade. Esta funciona de modo próprio, ainda que interaja com outras formas religiosas conservadoras e reacionárias como os grupos evangélico-pentecostais. Usamos metodologias qualitativo-interpretativas com base em bibliografia acadêmica tradicional não-exaustiva. Mas, por ser um tema ainda em ebulição, utilizamos, como complemento, fontes primárias e secundárias digitais e não digitais (discursos oficiais, jornais, vídeos e páginas eletrônicas).
PALAVRAS CHAVE: Catolicismo, globalização, opus Dei, renovação Carismática.
RESUMEN: El artículo pretende discutir las conexiones entre grupos de la derecha católica en Brasil con redes y matrices del mismo tipo, externas y transnacionales. La información más conocida da cuenta del papel que jugaron los grupos evangélicos-pentecostales de Estados Unidos en estos flujos. Sin embargo, este artículo busca llamar la atención sobre el alcance de la influencia católica en el proceso. Se destacarán los movimientos del Opus Dei y la Renovación Carismática Católica (ICR) como vectores de esta relación. Al examinar estas dos instancias de la Iglesia católica, el artículo plantea la hipótesis de que ha existido un carácter internacional dentro del catolicismo durante mucho tiempo, lo que implica su globalización interna en la época contemporánea. Funciona a su manera, aunque interactúa con otras formas religiosas conservadoras y reaccionarias como los grupos evangélicos-pentecostales. Utilizamos metodologías cualitativas-interpretativas basadas en bibliografía académica tradicional no exhaustiva. Pero, como sigue siendo un tema candente, utilizamos, como complemento, fuentes primarias y secundarias digitales y no digitales (discursos oficiales, periódicos, videos y páginas electrónicas).
PALABRAS CLAVES: Catolicismo, globalización, opus Dei, renovación Carismática.
ABSTRACT: The article intends to discuss the connections between groups of the Catholic right in Brazil with networks and matrices of the same type, externals, and transnationals. The best-known information gives an account of the role played by Evangelical-Pentecostal groups from the USA in these flows. This article, however, seeks to draw attention to the extent of Catholic influence in the process. The movements of Opus Dei and the Catholic Charismatic Renewal (RCC) will be highlighted as vectors of this relationship. In examining these two instances of the Catholic Church, the article raises the hypothesis that there has been an international character within Catholicism for a long time, which implies its internal globalization in contemporary times. It works in its way, even though it interacts with other conservative and reactionary religious forms such as Evangelical-Pentecostal groups. We use qualitative-interpretive methodologies based on non-exhaustive traditional academic bibliography. But, as it is still a hot topic, we use, as a complement, digital and non-digital primary and secondary sources (official speeches, newspapers, videos, and electronic pages).
KEYWORDS: Catholicism, globalization, opus Dei, charismatic Renewal.
Introdução
É por demais conhecido o alinhamento político-ideológico-religioso dos setores evangélicos/pentecostais no Brasil com os seus congêneres dos EUA em termos de base de sustentação ao que foi o governo de ultradireita de Donald Trump e, no nosso caso, ao de Bolsonaro. Mas, o que dizer dos grupos e movimentos católicos conservadores e carismáticos – como o Opus Dei, a Renovação Carismática Católica (RCC), figuras como o Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, parlamentares integrantes do Movimento Fé e Política da Renovação Carismática – que estão engajados de corpo e alma no mesmo projeto de poder? Viriam dos núcleos tradicionais da Igreja Católica em Roma e também dos desenvolvimentos católicos no centro econômico e político do mundo, os EUA, as orientações para as ações públicas/políticas destes organismos e figuras católicas em solo brasileiro?
Consideramos que o conservadorismo católico deita raízes num passado profundo: do anti-modernismo do Syllabus do Papa Pio IX, da ortodoxia restauradora da Cristandade de De Maistre (1972), do reacionarismo da Action Française de Mauras. Ele ainda perdura com força, apesar do advento do Vaticano II, nas correntes tradicionalistas do Monseigneur Lefebvre, que gerou no Brasil o separatismo da Diocese de Campos com Dom Castro Mayer (Zaquieu-Higino, 2019) e outras derivações como a TFP (Tradição, Família e Propriedade) de Plínio Corrêa de Oliveira (Caldeira, 2005; Zanotto, 2012).
Portanto, o lastro conservador tão enraizado na Velha Europa, tem se replicado ao longo dos anos na América Latina e no Brasil e aqui tem adquirido considerável representatividade e até protagonismo. E mesmo com a eclosão nos anos 1960-1970 de movimentos progressistas no país como a “Teologia da Libertação” e as “Comunidades Eclesiais de Base”, este conservadorismo soube se recompor, se moldar a configurações modernas e irromper com força na segunda metade dos anos 2000, numa relação intensa com seus mentores europeus.
O artigo que passamos a desenvolver pretende indagar, a partir do exame das ações políticas de segmentos católicos apoiadores do governo Bolsonaro, acerca de quais conexões estes estabeleceriam com a direita religiosa que se organiza no exterior em iniciativas semelhantes ligadas ao projeto Trump, por meio de Steve Bannon. E se este projeto nos EUA também não seria alimentado por um catolicismo globalizado de extrema-direita? E ainda, se esses organismos conservadores incrustados na Igreja Católica dentro do seu motu próprio não atuariam no suporte a outros projetos autoritários na Europa, no caso a Polônia, com alcance até o estratégico “país mais católico do mundo”, o Brasil?
Para tal, resolvemos explorar duas instâncias enraizadas na estrutura da Igreja Católica que atuam politicamente em ativismos de direita, ambas ligadas ao chamado bolsonarismo: o Opus Dei e a Renovação Carismática Católica.
O movimento Opus Dei visa a formação de quadros intelectuais católicos ultraconservadores para atuação no espaço público. No Brasil é conhecido através das figuras dos juristas Ives Gandra, José Geraldo Alckmin e pela atuação de seus quadros em instituições profissionais e organismos think-tanks, influenciadores de opinião. E a Renovação Carismática Católica se centra em experiências extáticas com o Espírito Santo, profecias e performances da cura como expressões emblemáticas que se combinam, ilustram e alimentam suas concepções e ações públicas conservadoras.
Ambos os movimentos, Opus Dei e RCC, em que pesem suas diferenças de estilos, ethos e organização institucional, convergem para uma atuação pública de condenação ao aborto, à união estável homoafetiva e outras pautas consideradas por eles como destruidoras de ordem moral cristã.
Enfim, através da análise destes casos, o nosso ponto neste artigo será o de mapear a trajetória do ultraconservadorismo católico4 na sua rota por entre os EUA e a Europa a partir do entorno do centro da Igreja em Roma, em direção ao catolicismo de extrema-direita brasileiro.5
Cumpre, antes de seguir adiante, esclarecimentos e justificativas das estratégias metodológicas que vamos empreender no texto. Usamos metodologias qualitativo-interpretativas pertinentes às ciências sociais da religião. Mas por este ser um tema em pleno desenvolvimento apesar de antigas raízes históricas, trouxemos como elemento contextual, fontes primárias e secundárias digitais (discursos oficiais, jornais, vídeos e páginas eletrônicas). Sabemos que a exigência metodológica de rigor é importante. Quando se trata de tornar as redes sociais, como o Youtube, como campos empíricos de estudo, é preciso atentar para seu caráter móvel, fluido e indeciso. Os números crescem e descressem com facilidade, são afetados por modos de produção maquínico-algorítmica (falseamento de perfis, compra de likes etc.), dentre outras questões. No entanto, a utilização de vídeos, referências digitais e jornalísticas é algo realizado em grande medida nos estudos contemporâneos em geral, em diversas linhagens teórico-metodológicas, das mais quantitativas às mais hermenêuticas (Knoblauch & Schnettler, 2012). As limitações das fontes primarias e secundarias digitais como dados empíricos não as impedem de serem um recurso metodológico.
Em segundo lugar, a separação online e offline é cada vez mais questionada: as duas dimensões estão imbricadas tão profundamente que, apesar de distintas, interinfluenciam-se, provocam-se. Novas metodologias de pesquisa surgiram a partir do tratamento qualitativo de fontes primárias e secundárias digitais e se complementam com as metodologias tradicionais (Hine, 2015). Escolhemos essas fontes por trazerem dados empíricos (falas de agentes e números) que interconectam movimentos de direita católica e por expressarem as linhas gerais de pensamentos ultraconservadores analisados em bibliografias acadêmicas rigorosas (Caldeira, 2011; Quadros, 2013; Niero & Fernandes, 2017; Pierucci, 1987).6 O recurso às fontes é importante em situações da contemporaneidade: os movimentos e personagens religiosos católicos ultraconservadores atuam e se movem com desenvoltura nas redes sociais e nas mídias digitais, se intercomunicam em nível transnacional e instrumentalizam o hipermoderno-tecnológico em função de suas crenças na permanência de uma moral sexual e política eternas e atemporais (Manoel, 2004; Oliveira, 2007).
Estas fontes digitais foram escolhidas porque para certas situações contemporâneas não há ainda estudos consolidados. Por outro lado, o jornalismo divulgado nas reportagens é fundamental para trazer dados empíricos mais atualizados, embora não integrados ainda em pesquisas acadêmicas anteriores. Assim, nossa análise não se pretende exaustiva, mas indicativa e reflexivo-provocativa. Através da compreensão desses casos no catolicismo, com base em literatura acadêmica e em fontes eletrônicas e digitais, o nosso ponto será entender como cada conservadorismo (tradicional católico-romano europeu ou contemporâneo estadunidense) está presente nessas expressões do catolicismo de direita brasileiro, como dialogam e se articulam.
O universalismo conservador católico do Opus Dei
O Opus Dei é uma prelazia pessoal da Igreja Católica fundada em 1928 na Espanha. Seu fundador foi o padre Josemaria Escrivá de Balaguer, canonizado em 2002 pelo Papa João Paulo II. O objetivo de Escrivá era formar um segmento católico que fosse constituído por “pessoas seculares” que buscassem viver a “santidade no meio do mundo”. Desse modo, foi criado, no interior da Igreja Católica, este movimento composto por profissionais e estudantes de diversas áreas que procuravam “santificar” a si mesmos, às outras pessoas e ao mundo através de sua atuação profissional. Sediado em Roma, a estrutura não demorou a expandir-se para outros países, tal como projetou o fundador. Em cada lugar em que se instalavam quadros do Opus Dei, surgiam residências dedicadas a receber estudantes e profissionais interessados numa formação espiritual e dogmática católica, expandindo-a através de palestras científicas e filosóficas, grupos de discussão acadêmicos, conversas sobre literatura clássica e contemporânea, cursos sobre temas universitários etc. Vemos que Escrivá fundou esta estrutura para a formação de uma intelligentsia católica tradicional e conservadora, mas cujos membros fossem capazes de dominar as linguagens acadêmicas, intelectuais e das diversas áreas profissionais e, com efeito, circular facilmente por elas.
A ideia de Escrivá de “santificar o mundo a partir de dentro”, a despeito de ter origem em uma estrutura organizada, se explicita a partir da ação individual. O Opus Dei não age explicitamente como grupo, mas através de seus membros espalhados pela sociedade. É o que Escrivá chamava de “o apostolado de tu a tu”. De acordo com John Allen Jr. (2006), esse seu aspecto levou a prelazia a ser acusada de secretismo em diversos países e por líderes da própria Igreja Católica. Allen comenta que em uma carta dos sucessores de Escrivá no Opus Dei, Don Álvaro Del Portillo e Don Javier Echevarría, ao cardeal Sebastiano Baggio (Allen, 2006: 149-150), estes assumem um modo de atuação “discreto” da entidade, se dando na forma de “apostolado da penetração” (Allen, 2006: 137-142). Esse caráter “discreto” facilitaria sua penetração em ambientes laicos, arredios ao cristianismo ou à evangelização (Allen, 2006: 149-150). Ou seja, se temos, por exemplo, um jurista membro da organização que se opõe à legalização do aborto acionando uma linguagem jurídica (e não religiosa, ainda que esta seja a motivação primeira), ele atrairia a atenção e o interesse de seus pares para a causa. E ao criar essa afinidade, poderia mais tarde se aproximar destes para desempenhar um trabalho catequético.
O Opus Dei, desde o seu nascimento, possui um projeto de expansão global. A prelazia nasceu associada a práticas que facilitam a internacionalização: a anulação da individualidade, o desapego a posses e a pessoas, a obediência à hierarquia do Opus Dei. Os aparelhos de formação do Opus Dei produzem pessoas dispostas a ir para qualquer lugar, cidade, país etc., tal como demonstra Brum (2017). Estes quadros formados pela organização vão reproduzir nos lugares para onde forem enviados uma dogmática católica expressa num pensamento político de direita (Allen, 2006). Interessante destacar que Escrivá sempre atacou avidamente o pensamento de esquerda e o comunismo. José Casanova (1983) demonstra o papel exercido pelos “tecnocratas” do Opus Dei no governo fascista de Francisco Franco para desenvolver as bases tecnológicas da Espanha e, ao mesmo tempo, manter intocadas as estruturas tradicionais católicas do país. Portanto, vemos que os integrantes do Opus Dei atuam por meio da articulação dos conhecimentos intelectuais: econômicos, empresariais, jurídicos etc., visando inculcar seus valores morais religiosos tradicionais em diferentes espaços das sociedades em que se inserem.
Abordaremos em seguida o movimento de membros do Opus Dei para influenciar o meio jurídico norte-americano e em que medida isso se aproxima da atuação da prelazia no Brasil.
O Opus Dei e a direita nos Estados Unidos
Para John Allen (2006), que estudou o Opus Dei nos Estados Unidos, os membros da prelazia têm historicamente se aproximado de governos e posições de direita nesse país. De acordo com o autor, uma das possíveis razões é que governos de direita se afinam com ideais e bandeiras cristãs e conservadoras em termos de valores. Betty Clermont (2009) inclui o Opus Dei entre os novos movimentos católicos que vêm implementando um nacionalismo cristão conservador nos Estados Unidos. Segundo a autora, o Opus Dei seria um dos grupos religiosos que associou o catolicismo à agenda “neoconservadora” daquele país. Se observarmos a atuação de nomes do meio jurídico norte-americano associados ao Opus Dei, veremos um projeto de conservadorismo jurídico e nacional que se pretende mais amplo do que o governo de direita de Donald Trump, mas que o utiliza como facilitador. Temos exemplos disso nas atuações públicas de dois atores que observaremos a seguir, ambos associados ao Catholic Information Center (CIC), uma entidade gerida pelo Opus Dei e fundada em 1947 por iniciativa de seus membros.
O CIC é um instituto localizado em Washington D.C. há alguns quarteirões da Casa Branca. Como é típico nas casas e instituições administradas pelo Opus Dei, o CIC realiza cursos de dogmática católica enquanto formação profissional e política. Na página do instituto na internet, apresenta-se como um “centro intelectual católico” que “oferece formação católica, intelectual e formação profissional para homens e mulheres” em Washington D.C.7 O site afirma ainda que o CIC “ajuda profissionais a viver vidas integradas com a fé que traz a riqueza e a beleza do ensinamento católico para suas profissões e comunidades” (CIC, 2020, tradução nossa).8 Contudo, o que o CIC tem de específico em relação aos outros centros e casas do Opus Dei são as atividades voltadas exclusivamente para pessoas influentes de Washington D.C. Conforme verificamos no site do CIC, nas dependências luxuosas do instituto agregam-se políticos, executivos, empresários e outras pessoas influentes para participar de cursos, palestras, jantares e da formação espiritual (CIC, 2020). Organizam-se sob o lema “Reze Pela Nossa Nação”, assim como se lê no brasão do instituto
Segundo o The Washington Post (2019a), o interesse do CIC em formar pessoas que circulam próximas ao poder em Washington D.C. começou em 1998, com a chegada do padre John McCloskey. Sob a direção deste padre, o instituto mudou-se para uma nova localização que ficava há apenas duas quadras da Casa Branca e tornou-se um lugar acolhedor para “acadêmicos, políticos, jornalistas e jovens profissionais conservadores” (The Washington Post, 2019a, tradução nossa).9 Segundo a reportagem, McCloskey tornou-se em pouco tempo o capelão dos conservadores de Washington. Com o passar dos anos, sua influência deixou de ser apenas espiritual e tornou-se também política. Criticava as investigações criminais à Igreja Católica, manifestava-se contra o aborto e direitos gays (The Washington Post, 2019a, tradução nossa).10
Leonard Leo está entre os nomes associados ao CIC que mais têm influência nos bastidores do governo de Donald Trump (The Washington Post, 2019a). Advogado e ativista, Leo ocupa a posição de vice-presidente da Federalist Society for Law and Public Policy Studies. A Federalist Society, fundada em 1982, visa o incremento de uma “rede intelectual, conservadora (...) que se estenda a todos os níveis da comunidade legal” (The Federalist Society, 2020, tradução nossa).11 Para tal, propõe a ministração de palestras, cursos a advogados, juízes, estudantes de Direito e professores (The Federalist Society, 2020).
Segundo uma reportagem investigativa do The Washington Post, de 21 de maio de 2019, Leonard Leo consagrou-se entre um grupo de ativistas conservadores graças à sua atuação para influenciar as indicações de Donald Trump para o judiciário. Indicações que, segundo o jornal, teriam por intuito garantir que nomes conservadores cristãos ocupassem cargos (preferencialmente vitalícios) no sistema de justiça estadunidense. A reportagem, assinada por Robert O’Harrow Jr. e Shawn Boburg expõe um arquivo de áudio que teria sido gravado durante uma reunião a portas fechadas do Council for National Policy, um grupo que reúne “os mais influentes líderes conservadores do país nos negócios, no governo, na política, na religião e na academia” (Council for National Policy, 2020, tradução nossa).12
De acordo com a transcrição de um trecho da gravação, ao introduzir a fala de Leo, Rebecca Hagelin, a apresentadora, destacou: “Ele [Leonard Leo] é um de nós. Ele se importa com a Constituição. Ele compreende que as eleições vêm e vão, mas juízes com indicação vitalícia (…) estarão aqui por um longo tempo”. (The Washington Post, 2019b, tradução nossa).13 A transcrição continua: “E, talvez, aqui é onde Donald Trump está fazendo seu maior e mais duradouro esforço. Mas ele está fazendo isso baseado em muito do trabalho realizado por Leonard Leo […]” (The Washington Post, 2019b, tradução nossa).14
A tônica da breve fala de Leo, conforme registrado no áudio publicado pelo jornal, girou em torno dos significativos números de tramitações e aprovações de nomes conservadores para as diversas áreas do judiciário. Por ela, percebemos que o governo Trump surgiu como um instrumento facilitador dessa transformação. Pat Cipollone, o Conselheiro da Casa Branca que ganhou destaque pela defesa de Donald Trump durante o processo de impeachment, figurou entre os nomes indicados por Leonard Leo por possuir vínculos com o CIC.
Segundo o The Washington Post (2018), o nome recomendado por Leonard Leo para ocupar o cargo de Procurador Geral foi William Barr, nomeado por Donald Trump, em 2019. Barr tornou-se o 85º Procurador Geral dos Estados Unidos. Segundo reportagem do The Guardian, de 20 de outubro de 2019, Barr também consta no quadro de membros do CIC (The Washington Post, 2018).
Em outubro de 2019, William Barr proferiu uma controversa palestra no curso de Direito da Notre Dame University com o tema “liberdade religiosa na América”.15 O teor de sua palestra estava afinado com as concepções de Leonard Leo e da Federalist Society. No início de sua fala, Barr anuncia que o tema da liberdade religiosa é “prioridade para este governo [de Donald Trump] e para este Departamento de Justiça”.16 Afirma em seguida que “nós temos encontros regulares e mantemos os olhos abertos para casos e eventos pelo país nos quais os estados estão aplicando mal a Cláusula de Estabelecimento de forma a discriminar as pessoas de fé ou casos em que os estados adotam leis que usurpam o livre exercício da religião” (Barr, 2019, tradução nossa).17 Uma das teses explicitas na fala de Barr é a de que a “religião é indispensável para sustentar nosso sistema livre de governar”.18
Desse modo, ele menciona as “raízes cristãs dos Estados Unidos” e associa-as ao princípio de liberdade mencionado na Constituição dos EUA. A questão norteadora de sua palestra é se “poderiam os cidadãos de uma sociedade livre dispor da disciplina e virtude necessárias para manter vivas as instituições livres” (Barr, 2019, tradução nossa),19 se dispensando a dimensão religiosa? Na palestra, Barr prosseguiu afirmando que a religião ensina as pessoas sobre a lei moral que, segundo ele, é uma lei transcendental que fui de Deus e indica o que é certo e o que é errado. Desse modo, a religião ajudaria a seguir uma disciplina moral, uma vez que “o homem é decaído” (Barr, 2019, tradução nossa).20
Segundo Barr (2019, tradução nossa): “A religião ajuda, ensina e treina e habitua as pessoas a desejarem o que é bom”. A religião cria uma “cultura moral na sociedade” que reforça a “disciplina moral” (Barr, 2019, tradução nossa).21 No ponto culminante de sua fala, William Barr (2019) argumenta que, nos últimos 50 anos, tem surgido ataques à moral judaico-cristã e se orquestrado sua expulsão da esfera pública. O fundamento da questão de Barr (2019) está no fato constatado por ele de que o “secularismo” teria emergido no século XX como um novo tipo de desafio. Segundo seu argumento, há uma “campanha para destruir a ordem moral tradicional” e coincide com “sofrimento imenso, destruição e miséria” (Ibid., tradução nossa). Afirma ainda que “as forças do secularismo ignoram esses resultados trágicos” incentivando o crescimento da “militância secularista” (Ibid., tradução nossa).
Prosseguindo, Barr insere a discussão do papel do Estado ao afirmar que as pessoas querem que o Estado mitigue os resultados do nosso mau uso do livre arbítrio. Segundo ele, a irresponsabilidade sexual demanda o aborto em clínicas financiadas pelo investimento público, o vício em drogas demanda lugares seguros de autoadministração de entorpecentes, a desestruturação da família demanda que o Estado forneça suporte a pais e mães solteiros. Segundo Barr (2019), as pessoas tornaram-se dependentes de programas dessa natureza, e diz: “É interessante que esta ideia de que o Estado é o aliviador das consequências más emerge de um novo sistema moral que anda de mãos dadas com a secularização da sociedade”.22 Ao final de sua fala, Barr (2019, tradução nossa) oferece exemplos e afirma: “Esta administração [governo Trump] apoia firmemente o acolhimento da religião”.23 A seguir, afirma que “o Marco Zero desses ataques à religião é a escola” (Ibid., tradução nossa).24 Barr comenta que New Jersey, Califórnia e Illinois adotaram o “currículo LGBT”, que Montana cortou os fundos das escolas religiosas privadas e que Indiana tem forçado as escolas religiosas a aderir ao “secularismo ortodoxo”. Ainda, vê nesses dados um risco de marginalização dos religiosos, uma vez que, em sua percepção o “secularismo” pretende expulsar “a religião da esfera pública” (Barr, 2019). Conclui sua fala: “Posso assegurar que, enquanto eu for Procurador Geral, o Departamento de Justiça estará na linha de frente desse esforço, pronto para lutar em nome das mais estimadas de todas as liberdades americanas: a liberdade de viver de acordo com nossa fé”25 (Ibid., tradução nossa).
Conforme mostra a reportagem do The Guardian, de 20 de outubro de 2019, a fala de Barr na Notre Dame University foi aclamada por diversos conservadores católicos. O artigo apresenta o comentário do escritor e jornalista Rod Dreher (2019) extraído do site The American Conservative. Segundo Dreher (2019, tradução nossa): “Enquanto nós, religiosos conservadores, pensamos a respeito de como votar nas eleições do próximo outono, devemos ponderar o fato de que, sob Donald Trump, por mais horrível que ele seja em muitos aspectos, um homem com as convicções de William Barr está liderando o Departamento de Justiça […]. Graças a Deus que Bill Barr está lá”.26 A influência pública de Barr findou em dezembro de 2020, antes do final do governo de Donald Trump, quando o presidente anunciou sua demissão pelo fato de o Procurador Geral, ao que tudo indica, ter se contraposto à tese de fraude eleitoral defendida por Trump para questionar a legitimidade da eleição do democrata Joe Biden.
Opus Dei e a direita no Brasil
No Brasil, as iniciativas dos indivíduos que tem o Opus Dei por trás são similares aquelas do seu par estadunidense, mas apresentam formas e contextos próprios de desenvolvimento. Uma estratégia semelhante àquela praticada dos EUA de influenciar o meio jurídico é a União dos Juristas Católicos de São Paulo (UJUCASP). Criada em 2012, a UJUCASP possui objetivos muito próximos aos da Federalist Society. Fundada pelo jurista Ives Gandra de Souza Martins, membro declarado do Opus Dei, a UJUCASP também conta com outros nomes associados à prelazia, tais como o da sua filha, também jurista Ângela Vidal Gandra Martins. Segundo o estatuto da entidade, seu escopo é “contribuir com a atuação dos princípios da ética católica na ciência jurídica, na atividade judiciária, na legislativa e na administrativa, bem como em toda a vida pública e profissional” (UJUCASP, 2015: 5).
Dentre os objetivos da UJUCASP, destacam-se a defesa do “Direito natural” – termo católico que também se afigura na palestra de William Barr –, da “vida humana desde a concepção até a morte natural”, da “concepção natural e cristã da família”. Além disto, a de difundir “a doutrina e o ensinamento social da Igreja, principalmente, no domínio jurídico, promovendo sua aplicação para a justiça social” e contribuir “ para a afirmação dos princípios cristãos na Filosofia, na Ciência do Direito, na atividade legislativa, na judiciária, na administrativa, no ensino e na pesquisa, assim como na vida pública e profissional” (Ibid.: 6).
Ângela Gandra é Secretária Nacional da Família no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos dirigido pela pastora evangélica Damares Alves. Segundo relata Ângela Gandra em entrevista à revista Marie Claire (2020), Damares a convidou para compor a Secretaria Nacional da Família ao participar de uma audiência no Superior Tribunal Federal (STF) para representar a UJUCASP em relação à criminalização do aborto. Em resumo, Ângela Gandra afirmou na sessão do STF que “acolher essa ADPF [ADPF 422] seria um aborto jurídico” no sentido de que, segundo ela, aviltaria um direito básico garantido pela Constituição, o direito à vida.
De acordo com uma notícia publicada na página do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do site do Governo Federal, em 2019, Damares Alves anunciou a criação de “uma coordenação específica para a defesa e promoção de direitos relacionados à liberdade religiosa”. Ainda segundo a notícia, a declaração foi feita em um evento sobre a “liberdade religiosa” em Washington no Departamento de Estado dos Estados Unidos (Brasil, 2019). Sintomaticamente, Damares estava acompanhada no evento por Ângela Gandra. O esforço da pasta de Damares estava associado ao projeto da Aliança Nacional para a Liberdade Religiosa, lançada no ano seguinte, em Washington.
A iniciativa chamou a atenção do governo Bolsonaro e associou-se à pasta de Damares Alves. Desse modo, o governo Bolsonaro declarou o Brasil como membro desta Aliança. De fato, a defesa da liberdade religiosa é um princípio inviolável, que consta na Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), mas da forma como foi articulada sob o governo Trump com a adesão da direita brasileira, se configura em um subterfúgio para a propagação de seu cristianismo conservador. As recentes declarações de Bolsonaro na Assembleia da ONU sobre uma suposta “cristofobia”,27 atestam isto, aliado, no nosso país, ao sintomático silêncio do Ministério dos Direitos Humanos sobre verdadeiros ataques à liberdade religiosa nas perseguições e violências sofridas pelas religiões de matriz afro-brasileiras, perpetradas justamente por grupos cristãos evangélico-pentecostais.28
Do carisma selvagem ao reacionário: a RCC e suas conexões com a direita religiosa globalizada
Para entendermos o atual momento político-religioso da Renovação Carismática Católica (RCC) no Brasil – suas conexões com as matrizes conservadoras do catolicismo mundial, com a direita religiosa ligada a Trump e a aplicação destas concepções moralistas na política e nas alianças com o governo Bolsonaro – precisamos traçar sua gênese e trajetória em contexto internacional.
No seu início, nos anos 1966-1967, embora irrompendo em ambiente da ciência nas universidades estadunidenses, concebendo-se como produto da ação do Espírito Santo, o movimento carismático caracterizou-se por experiências místicas e emocionais de cunho subjetivo, estimulando em indivíduos o “falar em línguas”, curas e profecias (Carranza, 2000; Althoff & Thorsen, 2018). Com isso, ressignificou em contexto de (pós) modernidade a identidade católica. Em seguida, expandiu-se pelos EUA e Europa chegando ao Brasil entre 1969-1970 na região de Campinas (SP), tornando-se paulatinamente uma das maiores forças do catolicismo no país e construindo uma estrutura ampla. De início, organizou-se em Grupos de Oração e Comunidades de Vida e Aliança,29 interagindo com a estrutura eclesial católica (paróquias, dioceses, hierarquia sacerdotal), mas, ao mesmo tempo, criando instâncias organizativas próprias (conselhos, associações, ministérios) (Prandi, 1997; Carranza, 2000; Silveira, 2008).
A RCC, desde seu surgimento, como religiosidade extática, baseada na intuição direta, na experiência individual e nos carismas extraordinários, provocou tensões, conflitos internos e os esforços para seu enquadramento na dogmática e institucionalidade católica se fizeram (Carranza, 2000). Prova disto foi a criação de um Escritório Internacional em Roma, ao lado do Vaticano, em 1973 (Silveira, 2000). Todavia, a verve conservadora do movimento sempre esteve presente nas suas articulações no Brasil: a defesa de uma moral católica familiar restritiva, a desconfiança para com movimentos políticos de esquerda, dentre outros (Prandi, 1997). Essas características terminaram por aproximar, pouco a pouco, o movimento carismático brasileiro do estilo religioso reacionário europeu e estadunidense.
Rapidamente, com a nomeação pela hierarquia eclesiástica de diretores espirituais nas dioceses onde surgia, o movimento carismático caiu sob forte controle institucional, incorporou o culto mariano, criou instâncias de controle e organização internas (secretarias, depois, ministérios), deu mais ênfase à doutrina católica oficial sobre a moral e a tradição – condenação ao aborto e homossexualidade e valorização dos sacramentos, sinal de catolicidade, em especial eucaristia, confissão e casamento. Esta trajetória de expansão da RCC se deu nos papados de João Paulo II e Bento XVI, que adotaram, via mobilização de massa e de mídias, cada vez mais a retórica e a prática de combate no espaço público ao que chamavam de desvios e ruína do mundo moderno: ateísmo, costumes morais divergentes etc. (Althoff & Thorsen, 2018). Em 2008, Bento XVI dá o reconhecimento pontifício e torna o movimento um braço direito do papado, nas suas diretrizes doutrinárias para toda a Igreja espalhada pelo mundo, inclusive no Brasil.
Para compreender essa trajetória, propomos, alicerçados em bibliografia pertinente, uma caracterização do itinerário dos carismáticos brasileiros em quatro momentos: um primeiro, carisma selvagem (1969-1990); um segundo, carisma domesticado (1990-2002); um terceiro, carisma politizado (2002-2010); e um quarto, carisma reacionário (2010-2020). Em cada momento, verificamos forças em disputas e grupos que vão se tornando hegemônicos, enquanto outros perdem espaço e poder, tornando-se minoritários. As características do primeiro momento: valorização das experiências carismáticas de êxtase (dons extraordinários do Espírito Santo/Pentecostes), subjetividade, técnicas corporais místicas, acenos ecumênicos aos pentecostais, não-envolvimento com a política partidária, vivências horizontais comunitárias. Esses atributos acabaram por perder espaço no decorrer do tempo (Prandi, 1997; Silveira, 2008). Em seu lugar vemos acentuada burocratização e politização do carisma, subjetividade moralista, vivências verticalizadas (hierarquias e comandos), ênfase nos signos católicos tradicionais (reza do terço, devoções aos santos/santas), reforço a uma dogmática (Igreja Católica defendida como única e universal), culminando com a canalização de tudo isto para uma forte atuação político-corporativa e conservadora-reacionária (Althoff & Thorsen, 2018).
O recorte deste texto recai sobre os dois últimos períodos, quando notamos uma crescente afinidade eletiva entre o conservadorismo reacionário que se consolidou na RCC a partir de sua aderência aos pontificados conservadores e os projetos políticos em torno de Trump e Bolsonaro. Do ponto de vista de muitos carismáticos, a religião verdadeira se encontra em uma guerra contra forças destruidoras globais, comandadas pela ONU e financiada por uma elite “globalista” perversa que pretende impor uma pauta “liberal-progressista-verde” como a “ideologia de gênero”, o casamento homossexual, a diversidade de sexo-gênero desde a escola básica e a difusão de um falso aquecimento global. Por isso, aos olhos carismáticos-reacionários, deve-se mobilizar religiosamente seus féis para alcançar resultados políticos efetivos. Desde então, o movimento faz ressoar suas campanhas contra o casamento homossexual, contra o aborto, contra o suposto comunismo, contra a globalização (“globalismo”, na linguagem político-religiosa desse segmento). Isto gera uma estratégia de ocupação do aparato estatal (poder executivo, legislativo e judiciário) por cristãos reacionários (católicos e evangélicos) em função de um “projeto de nação”, o que leva a um alinhamento destes a projetos populistas de extrema-direita de Trump, Salvini, Orbán, Duda e Bolsonaro, através dos quais visam materializar sua visão moral totalizante para a diversidade social. Projeto este que tem duas vias: a da recuperação de uma grandeza perdida – “Make America Great Again” (lema eleitoral e de governo de Trump, cujo sobrenome significa triumph/triunfo) – e a realização de uma vocação por mandato divino – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” (lema eleitoral e de governo de Jair Bolsonaro, que lembrou seu sobrenome de Messias, mas sem milagre).30
As consignas que essa ofensiva reacionária fez irromper contra a democracia representativa não são novas, nem na Itália, coração da Igreja Católica e das articulações de sua direita religiosa, nem nos EUA ou no Brasil. As linhas comunicantes destes valores e práticas conservadoras-reacionárias circulam por um núcleo romano e estadunidense com reflexos e conexões para o Brasil.
Em entrevista para o The Intercept, o jornalista vaticanista Iacopo Scaramuzzi (2020) fala de uma “coordenação” desta ultradireita religiosa que promoveu encontros em Roma e Budapeste para ações articuladas. Como prova desta coordenação, ele cita a utilização dos mesmos símbolos religiosos, como imagens de Nossa Senhora de Fátima – estas, com um histórico de manipulação por forças católicas retrógradas no combate ao “perigo comunista” – em eventos organizados tanto por Bolsonaro no Brasil, quanto Salvini na Itália ou Orbán na Hungria. Para Scaramuzzi, Roma, com a simbologia de ser o centro do Urbis et Orbis do catolicismo, passa a funcionar como eixo das articulações e polo de animação destes grupos de extrema-direita. Steve Bannon pretende criar um centro estratégico na cidade; o CasaPound, partido neofascista italiano, promove conferências desde a cidade com líderes populista de direita. Estiveram em palestras Viktor Orbán e Marion Marechal-Le Pen, além de ser anunciada a vinda do presidente de direita da Polônia, Andrzej Duda.31
Mas não apenas Roma municia os vasos comunicantes desta rede. Estes também emergem da católica Polônia tradicionalista. Revelado pelo grupo Reporter’s Foundation deste país,32 um esquema de financiamento que girou ao redor de 10 milhões de euros desde 2004, proveniente do Instituto Ordo Iuris e da Fundação Skarta, ligados à TFP mundial, abastece suas sucursais no Brasil e na França. Além destes dois, em Bruxelas a Fédération Pro Europa Christiana, dissidência do movimento, também disputa com esse o financiamento de grupos em Belarus, Itália, Polônia e no Brasil, com o Instituto Plínio Correia de Oliveira, face atual da TFP no país. A testa desta corrente transnacional de ultradireita, se encontra o brasileiro Caio Xavier da Silveira e dentre suas conexões no Brasil desponta a figura de Dom Bertrand Orleans e Bragança com estreitas ligações com o bolsonarismo.
As ideias reacionárias – antimodernas em essência – não só sobreviveram ao declínio das ações da TFP ocorrido com o recuo do Governo Militar a partir do início dos anos 1980, como se expandiram e ajudaram a formar uma sensibilidade reacionário-conservadora no espaço público (Oliveira, 2007; Zanotto, 2012). Entre 1960 e 1970, a TFP foi tida como uma das principais instituições de caráter anticomunista brasileiras (Oliveira, 2007). Se a organização entrou em decadência, essas ideias foram encontrando outros lugares e porta-vozes, perpassando outros movimentos e tornando-se difusa entre carismáticos católicos e nos setores mais radicais do espectro político da direita, encarnado pelo bolsonarismo (Py, 2020, 2021a, 2021b).
Segundo Massimo Faggioli (2021), o trumpismo se infiltrou na Igreja Católica e, desde 2015, gozou de manifestações de apoio do clero, inclusive de bispos. Contudo, o autor afirma que a igreja norte-americana pouco usufruiu dessa aliança: “A Igreja estadunidense […] não recebeu nada de Trump, exceto por um punhado de juízes da Suprema Corte que deixaram claro que a revogação da legalização do aborto não será alcançada por meios legais” (Faggioli, 2021). Segundo a análise de Faggioli, os bispos norte-americanos que apoiaram Trump saíram derrotados e com a autoridade abalada dessa relação. Vemos ressonâncias do projeto de Leonard Leo na afirmação do autor de que Trump privilegiou a nomeação de juízes da Suprema Corte e outros membros do judiciário que encampassem projetos cristãos.
Um dos fatores que obstaculiza este fluxo internacional conservador-reacionário do catolicismo é o atual pontificado do Papa Francisco. Retomaremos essa discussão na conclusão.
A RCC no Brasil bolsonarista e a direita religiosa transnacional
Os temas cruciais escolhidos por Steve Bannon – mentor dos projetos de poder dos líderes da direita mundial, Salvini, Le Pen, Duda, Trump e Bolsonaro – são o da “guerra cultural” (Hunter, 1991) e o do “marxismo cultural”.33 Estes dois rótulos abrigam um amplo espectro de campanhas anti-modernas e anti-libertárias como as que visam coibir os direitos reprodutivos e para minorias trans e LGBTQs, as novas concepções de gênero e a descriminalização do aborto e do uso de drogas (Py, 2021a; 2021b, Silva & Silveira, 2020). São noções que buscam emular, articular e organizar, a partir de um ideário religioso, as bases social de direita para disputar no campo das ideias e da cultura com as novas práticas e mentalidades surgidas nas sociedades civis do mundo moderno (Althoff & Thorsen, 2018).
Um considerável arco conservador civil-religioso sustentou e ainda sustenta essas ideias no Brasil: o guru de Bolsonaro e de sua família, Olavo de Carvalho,34 o deputado Marcel Van Hattem (Partido Novo),35 o Instituto Liberal,36 os proponentes do “Escola sem Partido”,37 o padre carismático Paulo Ricardo de Azevedo Júnior e o ex-ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, o católico conservador Ernesto Araújo, um dos expoentes mais notórios do trumpismo-olaviano (Py, 2020, 2021b).38 Araújo, antes de sua nomeação para ser o chanceler do Brasil, era um obscuro e inexperiente diplomata, nacionalista e anti-globalista, admirador de Donald Trump e adversário radical do que chama “marxismo cultural” (Py, 2021a, 2021b). Em seu blog, postulou a ideia de que “somente um Deus poderia ainda salvar o Ocidente, um Deus operando pela nação – inclusive e talvez principalmente a nação [norte-]americana”.39
Sobre o padre Paulo Ricardo e suas articulações com a direita católica transnacional, registra-se que ele teve uma passagem pelos EUA onde circulou em grupos conservadores-reacionários estadunidenses, quando absorveu a ideia de “marxismo cultural”, convertendo-a para o contexto brasileiro, no sentido de organizar ações como o da “Escola sem Partido” e a atuação no Código Penal para assegurar a criminalização do aborto, da maconha e do ensino sexual nas escolas (Reis, Manduca & Silveira, 2019; Py, 2021a, 2021b). Através de suas redes sociais,40 defende, dentro da ideia-mor da “guerra cultural”, o combate ao pretenso projeto de dominação universal do comunismo marxista a partir de organismos globais como a ONU, a OMS, a FAU, a UNESCO ou as ONGs de apoio a direitos humanos de minorias trans e LGBTQs, ou ainda as pensadoras como Simone de Beauvoir e Judith Butler formuladoras de uma perspectiva gênero e dos direitos feministas (Silveira, 2019; Reis, Manduca & Silveira, 2019; Py, 2021b). Mas não só, concorrem para este suposto plano de distorção dos valores morais na sociedade contemporânea também o “cinema de Hollywood’ e a “Fundação Ford”. Para o padre, esse plano global de dominação consistiria na suposta “imposição” da diversidade sexual, do casamento e da adoção de crianças por casais homoafetivos e do direito ao aborto (Py, 2021b). O que, para esse discurso reacionário, levaria à liberdade sexual absoluta com a consequente demolição da família tradicional e dos papéis tradicionais de educação e moral familiar (Silveira, 2019). Daí a importância das pautas antiaborto e antigay (Althoff & Thorsen, 2018).
Dentre as manifestações institucionais e oficiais da RCC brasileira também encontramos os ecos de ideias do catolicismo transnacional conservador do Opus Dei incrustado no projeto Trump, que desembocam no seu programa de ação: nação cristã, anticomunista, desconfiança da ciência e de consensos científicos (aquecimento global), valores da família tradicional (branca, cristã, heterossexual, patriarcal) (Py, 2021b). Segundo Althoff e Thorsen (2018), os 74 milhões de carismáticos nas Américas foram se aproximando aos valores mais à direita do espectro político. Essa aproximação vai da direita liberal-conservadora à direita mais fascista e autoritária.
Nos portais corporativos-eletrônicos e mídias sociais da RCC nacional, da Canção Nova e do padre Paulo Ricardo identificamos claras ligações com os centros do catolicismo conservador transnacional, lastreados na defesa dos “valores eternos” de uma “verdade única como existência iniludível (Deus, Igreja, Revelação e Sagradas Escrituras)”, ao lado da defesa da “família heterossexual cristã como ordem natural” (Silveira, 2018: 295; Reis, Manduca & Silveira, 2019).
Para a consecução destes objetivos reacionários foi traçada uma atuação em três frentes: a organização e sistematização interna dentro das engrenagens da Igreja Católica, a formação de profissionais católicos conservadores, em especial no setor de Direito (responsável pela interpretação/aplicação das leis) e na aposta na eleição de políticos carismáticos (Reis, Manduca & Silveira, 2019). Os projetos de lei dos deputados estaduais e federais carismáticos viabilizam as bandeiras moralistas-conservadoras e pautas corporativas (Procópio, 2015; Mezzomo, Pátaro & Sexugi, 2019; Reis, Manduca & Silveira, 2019). De fato, a partir de 2010, temos um forte incremento da RCC no Congresso Nacional, através do seu Ministério Fé e Política, com a eleição de parlamentares como Eros Biondini (PROS-MG), Francisco Jr (PSD-GO) e Diego Garcia (Podemos-PR), além de Flavinho da Canção Nova (PSC), eleito para a legislatura 2015-2019, mas não reeleito para a atual legislatura (Procópio, 2015; Reis, Manduca & Silveira, 2019).
Outra faceta pública desta atuação, para além da política partidária, se dá em torno de personas midiáticas, como o blogueiros católico Bernardo Küster41 e o padre-performance Paulo Ricardo. Ambos mantêm robustas redes sociais que, somadas, perfazem muitos seguidores, compartilhamentos, comentários e visualizações. Em termos gerais, o canal do sacerdote possui 1,24 milhões de inscritos e todos os vídeos possuem mais de 187 milhões desde 2010,42 enquanto o canal do youtuber reacionário católico possui 919 mil inscritos e mais de 98 milhões de visualizações desde 2006.43
Através de expedientes retóricos, crenças anticomunistas são repaginadas: o vírus da Covid-19 seria chinês44 e seria parte de um grande projeto de domínio comunista global, ou de nova ordem mundial efetivado por uma empresa como a Huawei. Fake news que coincidem com as anunciadas por Trump, Bannon, Carvalho e lideranças ou ativistas de extrema-direita atuante. Na seção “Comunidade” de seu canal no Youtube, Küster45 repercute tais ideias:
Todo o establishment tem uma incrível facilidade em criticar a eficácia da cloroquina e da ivermectina contra o vírus chinês, e uma facilidade ainda maior em aceitar vacinas – até chinesas – produzidas ontem contra um vírus que conhecemos anteontem. É de cair o bozó.46
Em maio de 2020, esse – agora interditado pela Justiça – blogueiro católico publicou um vídeo intitulado “Grande dia! - Novo Ministro da Saúde, Cloroquina liberada (...) Trump intima OMS”.47 Há, aí, uma profunda e entusiasmada apologia trumpista e bolsonarista.
Como se vê, a circulação e a penetração de ideias da direita religiosa internacional no meio católico se dá via grandes pop-stars católicos, brancos e de classe média, mas elas também estão presentes entre pequenos e quase invisíveis missionários conservadores, como “Rafael Arcanjo de Maria”, um jovem negro, autointitulado “católico, pecador, empresário”.48 Dono de um canal no Youtube com pouco mais de 1400 inscritos e adornado com a invectiva locução latina “Roma Locuta Est, Causa Finita Est”,49 o “Arcanjo de Maria” publicou em junho de 2020 um vídeo intitulado “Coronavírus - Um dos Pilares Para a Implementação da Nova Ordem Mundial”.50 Nesse vídeo, o coronavírus é apresentado como parte de um plano chinês para se tornar a maior potência mundial. Esses discursos anticomunistas repõem em circulação, mas ressignificadas, ideias que andavam em movimentos como a TFP e Opus Dei, inclusive em chave bélica, a de guerra, a dos combatentes antimodernos (Moura, 1978; Pedriali, 1985; Caldeira, 2011).
Uma hipótese a se considerar para a afinidade eletiva entre a direita religiosa católica e a base social que no Brasil compõe o bolsonarismo – que na verdade é uma tradução contemporânea de direitas católicas mais antigas, mas tão combativas e reativas quanto (Pierucci, 1987) – se encontra na reativação por ambas de um discurso moral típico de classe média centrado na luta contra a corrupção e o mal, invocando para sua conjuração, o poder religioso cristão.
Pierrucci (1987), já nos anos 1980, nos apresentava com rigor sociológico um perfil que hoje podemos aplicar, sem hesitação, na aliança entre católicos reacionários e a direita bolsonarista e trumpista:
Seu tique mais evidente é sentirem-se ameaçados pelos outros [...]. Abandonados e desorientados em meio a uma crise complexa, geral, persistente, que além de econômica e política é cultural, eles se crispam sobre o que resta de sua identidade em perdição, e tudo se passa como se tivessem decidido jogar todos os trunfos na autodefesa. “Legítima defesa” é, assim, um termo-chave em seu vocabulário. Esta autodefesa, que é prima facie a proteção de suas vidas, de suas casas e bens, da vida e da honra de seus filhos (suas filhas!), sua família, é também a defesa de seus valores enquanto defesa de si. (Mas isto é ser de direita?) (Pierucci, 1987: 26)
Intuímos que se encontra aí o amálgama a fundir o movimento carismático-católico e a classe média conservadora da direita brasileira – em especial, a de São Paulo, singularmente, o local de gênese da RCC – em torno de uma pauta centrada no anticomunismo, valores tradicionais da família e nacionalismo cristão (Machado, 1980; Prandi, 1997; Pierucci, 1987; Procópio, 2015). Partiu dos membros do movimento carismático imbricados à classe média paulista o apoio da candidatura à Presidência de Collor de Mello ainda em 1992, a resistência e oposição aos governos de esquerda de Lula e Dilma, entre 2002 e 2016, a adesão incondicional à propalada luta “anticorrupção” da Operação Lava Jato sob a condução do parcial juiz Sérgio Moro e o apoio declarado e entusiástico à campanha de Jair Bolsonaro em 2018.51
O segmento conservador e carismático deste catolicismo de (extrema) direita, segue ainda apoiando Bolsonaro, atendendo os seus chamamentos em atos muitas vezes para afrontar outros poderes da República como o STF, clamar pela volta da ditadura e se rebelar contra medidas sanitárias para conter a pandemia do coronavírus (Silva & Silveira, 2020). Tudo em meio à exibição de imagens da Virgem Maria, rezas de terço e clamores contra o “marxismo cultural” que, segundo eles, quer abolir a família tradicional (Camurça & Zaquieu-Higino, 2021; Silveira, 2020). Da mesma forma, buscaram barganhar com o governo para favorecer seus projetos, como foi o caso da recente reunião das redes católicas de televisão com Bolsonaro, que causou celeuma com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (Camurça & Zaquieu-Higino, 2021; Silva & Silveira, 2020).52
Seguem articulados com fóruns internacionais dos centros católicos conservadores mencionados acima, através da internet: blogs, sites, que os municiam com informações, recursos, alimentando no Brasil com Bolsonaro, os mesmos projetos que sustenta(ra)m no poder: Trump nos EUA,53 Matteo Salvini (ex-primeiro-ministro) na Itália ou Andrezj Duda, reeleito presidente em 2020 na Polônia. Enfim, há nos meios católicos conservadores uma circulação reacionária religiosa e política em curso, acelerada pela ocorrência da Covid-19. Nessa circulação, ideias antigas são repostas sob novos aspectos e combinadas: o moralismo restritivo junta-se ao anticomunismo e a desconfiança na ciência (Camurça & Zaquieu-Higino, 2021; Silveira, 2020).
Considerações finais
A questão que retomamos na conclusão deste texto gira em torno de quais são as influências exteriores na configuração do conservadorismo católico brasileiro, sua presença e peso relativo. Como estratégia de pesquisa, fizemos um esforço de mapear, no que tange as instâncias escolhidas para o experimento – Opus Dei e RCC –, a via relevante dos EUA, onde forças católicas de direita apoiaram o governo Trump. Mas, sobretudo que toda essa rota que passava e se robustecia nos EUA, apontava que o centro gravitacional dos deslocamentos do catolicismo conservador em direção ao Brasil tinha sua origem e concepção na estrutura milenar da própria Igreja Católica Apostólica Romana.
De fato, como enunciamos desde a introdução deste texto, sempre existiu um circuito global interno ao catolicismo que se espraia do centro de Roma para a Europa, EUA, América Latina, no que nos interessa, mas para todo o globo de forma geral. Ou seja, o catolicismo porta em si mesmo um processo de globalização avant la lettre, na sua característica expressa no seu próprio nome que contém as partes “kata” (junto) e “holos” (todo), significando no conjunto: universal.54 Da mesma forma, na sua estrutura marcada pela Circumdata Varietate, que por princípio visa englobar a variedade de povos e culturas no seu seio (De Lubac, 1983). Globalização esta, potencializada pela aderência as formas (pós) modernas e midiáticas, personificadas no “Papa pop” João Paulo II para disseminar pelo globo este conservadorismo católico de novo tipo (Cohen, 1988). Num texto sobre a “globalização católica” já em tempos de Papa Francisco, o historiador Deni Pelletier (2017: 23) remarca a dinâmica de deslocamentos do centro de gravidade europeu-romano em direção às Américas, África e Ásia em contexto “multipolar e pós-colonial”. Um processo que para o autor se desdobra em “globalização pastoral”, “globalização teológica” e “globalização eclesiológica” (Ibid.: 23-30). Novas configurações do catolicismo que contornam o modelo centralizador romano para chegar a uma “imbricação de uma pluralidade de mundos”, todos “se reclamando de uma fé comum” (Ibid.: 29). Interessante que na sua abordagem, Pelletier não registra nenhum fluxo conservador ou de direita dentro do panorama que traçou. Apenas algumas menções à “desconfiança de Roma” a respeito desses movimentos plurais globalizantes e aos mecanismos de “regulação da diversidade católica pelo magistério romano” (Ibid.: 30).
Esta morfologia universal da Igreja Católica estruturada no “longo curso” veio se replicando ao longo dos séculos numa perspectiva da “história enquanto estrutura”, segundo a formulação de Pierre Sanchis (1997: 41), que a chamava de habitus. A perspectiva compósita entre devir histórico e estrutura duradoura defendida por Sanchis parece equacionar dois pontos de vistas diametralmente opostos sobre a razão da forte presença do tradicionalismo católico no Brasil atual. A do par composto pelo antropólogo Rodrigo Toniol e pelo historiador Rodrigo Coppe Caldeira que reputa o irromper deste conservadorismo católico às suas raízes históricas no país, e a do sociólogo Nelson Lellis e do cientista político Roberto Dutra que atribui esta presença à dinâmica contemporânea dos fluxos culturais (conservadores) globais (Toniol & Caldeira 2020; Lellis & Dutra, 2020).
Avaliamos que a formulação de Sanchis (1997) da “história enquanto estrutura” contempla, de um lado, o longo alcance espacial e temporal desta estrutura tradicional na sua continuidade latente e no seu irromper em contextos os mais diferenciados, mas da mesma forma, comporta transformações dentro dela, produto das agências dos atores em conjunturas das diversas atualidades e localidades.
A reprodução da tradição e sua transformação, no ritmo de um tradicional estabelecido confrontado por inovações e estas seguidas de rotinizações e assim sucessivamente, marcam a experiência da Igreja Católica, enquanto dinâmicas divergentes e combinadas através de sua história e estrutura.
E aqui chamamos atenção para dois indicadores atuais que podem alterar substancialmente a influência transnacional na tendência conservadora que vem se manifestando de forma aguda no catolicismo brasileiro, no mínimo desde 2009 (ou pelo menos a estancá-la ou, ainda, empatar a contenda, nivelando-a com seu contraditório). Estamos nos referindo à derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais estadunidenses de 2020 e o que se descortinará como política externa no governo democrata de Joe Biden e Kamala Harris. Mas, principalmente sobre alterações já em curso no campo específico e autônomo da Igreja Católica e de seus fluxos globais internos. Estamos falando do pontificado do Papa Francisco e das novas orientações de visão de mundo e política eclesial que emanam do seu papado (Passos & Soares, 2013).
Neste particular se pode vislumbrar um novo aggiornamento para a Igreja Católica contemporânea em relação aos costumes e estilos de vida dentro do “espírito de época” do século XXI. As declarações do Papa Francisco sobre a família, divórcio e sobre os LGBTQs são emblemáticas neste sentido. Ele se pronunciou de uma forma mais aberta e flexível sobre a espinhosa questão do divórcio e do tratamento aos católicos em segundo matrimônio que desejam participar da eucaristia, coluna dorsal do sacramento e do dogma eclesiástico.55 Do mesmo modo, emitiu declarações sobre o anátema católico em relação à homoafetividade: “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu pra julgá-lo”,56 disse ele respondendo a perguntas de jornalistas no avião que que o levou do Rio de Janeiro a Roma, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em 2013. Ou: “as tendências homossexuais não são um pecado”,57 em uma entrevista televisiva ao jornalista espanhol Jordi Évole.
Todas estas declarações e posições oficiais do Papa Francisco vão de encontro àquelas dos seus antecessores João Paulo II e Bento XVI e de todas as correntes conservadoras que se consolidaram nos seus pontificados, como as mencionadas acima no nosso artigo: o Opus Dei e a RCC. Se bem que não se possa deixar de considerar que este conservadorismo seja também expresso em configurações estilísticas e tecnológicas da modernidade. Desta maneira, constituindo-se também como aspecto de um outro “espírito” – este, conservador-reacionário – também representativo “de nossa época” (Silveira, 2018). Exemplos dessas polaridades no seio do catolicismo atual, a despeito do governo da Igreja estar nas mãos deste Papa que quer se sintonizar às transformações do século, podem ser detectadas em movimentos de enfrentamento. De um lado, articulações promovidas por cardeais e figuras expressivas da Cúria para enfraquecer e deslegitimar o Papa Francisco, como nas reprovações proferidas pelo cardeal norte-americano Burke em 2020,58 as de um grupo de cardeais que acusou o pontífice de causar confusão, segundo eles, em relação a “cláusulas pétreas” da doutrina católica,59 em agosto de 2018, e do ex-núncio do vaticano nos EUA, o cardeal italiano Carlo Viganò, que exigiu em 2020 em público, a renúncia de Francisco.60
Por outro lado, assistimos à política de substituição por Francisco dos bispos e cardeais aposentados, colocando nestes postos homens da Igreja afinados com sua visão com respeito aos costumes, a questão social e ao meio ambiente. Atestam esta ação as nomeações para cardeais do arcebispo de Washington Wilton Gregory, primeiro bispo negro estadunidense, do arcebispo Antoine Kambala, sobrevivente do genocídio de Ruanda, de um simples frade, Paolo Lojudice de Siena, defensor dos ciganos e do arcebispo Matteo Zuppi, entusiasta de uma pastoral junto aos LGBTQs.61
O Papa Francisco através de suas políticas eclesiais vem desacelerando e desmontando, ao menos em parte, a máquina católica de militância ultradireitista nos espaços midiáticos, reduzindo-a a manifestações próprias e não-oficiais do Vaticano. No entanto, de maneira nenhuma está dada uma vitória da política de Francisco de contenção da influência destes grupos religiosos no catolicismo em geral. Em maio de 2020, a sublevação reacionária anti-Francisco continuou em plena pandemia, após sua impressionante missa solitária na praça de São Pedro em março e as diretrizes papais de apoio ao lockdown, as medidas restritivas às aglomerações, a defesa da ciência, as orientações de proteção social aos desvalidos e migrantes. A partir de um manifesto online intitulado “Apelo para a Igreja e para o mundo, aos féis católicos e aos homens de boa vontade”,62 os Cardeais Viganò e Muller, bispos aposentados, padres, médicos, professores, pesquisadores, todos extremamente conservadores, assinaram esta conclamação em que vem à tona teorias da conspiração e ideias esdrúxulas como a da pandemia da Covid-19 ser uma invenção, exagero e pretexto para um fechamento autoritário e a supressão da liberdade religiosa de reunião. Num trecho deste manifesto, um detalhe nos permite rastrear estratégias de circulação da pós-verdade:63 “Recordamos igualmente, como pastores, que, para os católicos, é moralmente inaceitável tomar vacinas nas quais seja usado material proveniente de fetos abortados” (grifo nosso).64
Após esses breves comentários sobre as características dos dois fatos novos – a derrota de Trump e o pontificado de Francisco – perguntamos: qual, então, será a influência que eles, na condição fatores exteriores, poderão causar no equilíbrio de forças do catolicismo brasileiro? Qualquer resposta categórica seria prematura. No entanto, algo na direção de mudança do quadro já pode ser sentido. Os recentes episódios de 2020 em torno da pandemia da Covid-1965 mostraram uma voz mais firme da CNBB em defesa da ciência com seu corolário de procedimentos do isolamento social, evitação de aglomerações em cultos e uso de máscaras, referenciada e em continuidade com as diretrizes provenientes do Vaticano (Camurça & Zaquieu-Higino, 2021). Com isto entrando em rota de colisão com o negacionismo governamental bolsonarista, influenciado pelo exemplo de Trump, seus grupos evangélicos e das forças reacionárias católicas capitaneadas pelos Cardeais Viganò e Muller.
Esta nova conjuntura parece prenunciar resultantes e sintonias com os ventos de aggiornamento que vem de Roma e agora dos EUA num sopro que promete ser convergente.66
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Notas