Entrevista
CONVERSA COM INÊS BRAGANÇA: PORQUE NARRAR FAZ PARTE DESSE MOVIMENTO DE HABITAR A TERRA, DE ESTAR EM CONTATO COM O OUTRO
CONVERSATION WITH INES BRAGANÇA: BECAUSE NARRATING IS PART OF THIS MOVEMENT OF INHABITING THE EARTH, OF BEING IN CONTACT WITH OTHERS
CONVERSACIÓN CON INES BRAGANÇA: PORQUE NARRAR ES PARTE DE ESTE MOVIMIENTO DE HABITAR LA TIERRA, DE ESTAR EN CONTACTO CON LOS DEMÁS
CONVERSA COM INÊS BRAGANÇA: PORQUE NARRAR FAZ PARTE DESSE MOVIMENTO DE HABITAR A TERRA, DE ESTAR EM CONTATO COM O OUTRO
Reflexão e Ação, vol. 32, núm. 2, pp. 217-246, 2024
Universidade de Santa Cruz do Sul

Recepción: 08 Febrero 2024
Aprobación: 23 Octubre 2024
APRESENTAÇÃO DA PROFESSORA
Inês Ferreira de Souza Bragança é professora livre-docente na área de Educação Escolar da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e docente colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Educação Processos Formativos e Desigualdades Sociais da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/UERJ). É pós-doutora pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e pela Universidade de Buenos Aires (UBA), Doutora em Ciências da Educação pela Universidade de Évora-Portugal, Mestre em Educação e Pedagoga, pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordena o Centro de Memória da Educação da FE/UNICAMP e é membro da Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica (BIOGRAPH). Coordena, também, o Grupo Interinstitucional de Pesquisaformação Polifonia - GEPEC/UNICAMP e Núcleo Vozes FFP/UERJ - (https://grupopolifonia.wordpress.com) e a pesquisa em rede Experiências instituintes de formação docente, uma abordagem narrativa (auto)biográfica: diálogos latino-americanos - CNPq (https://pesquisasemrede.wordpress.com). Seus trabalhos tematizam a formação docente, em suas políticas e práticas, e a abordagem narrativa (auto)biográfica como modo de viver, pesquisar e formar em partilha. É autora do livro Histórias de Vida e Formação de Professores: Diálogos entre Brasil e Portugal.
INTRODUÇÃO
Este texto é resultado de uma conversa, dentre muitas que fizemos sobre a Pesquisa Narrativa, realizada, no primeiro semestre do ano de 2021, quando vivíamos a pandemia mundial da COVID-19, e estávamos trabalhando, por meio de plataformas on-line, pois ainda não havíamos saído do período de isolamento social imposto pela pandemia.
O encontro foi organizado pelos grupos de pesquisa “Conversas entre professor@s: alteridades e singularidades – ConPAS”, coordenado pela professora Graça Reis e “Ecologias do Narrar- ECOAR”, coordenado pela professora Patricia Baroni; ambos, situados na Universidade federal do Rio de Janeiro.
Inês: Quero dizer que é uma felicidade enorme estar com vocês. Agradeço, então, o convite da professora Graça, professora Patrícia e todos vocês que estão, aqui: dos grupos coordenados pelas professoras, mas também os outros que vieram, para essa tarde, para essa roda de conversa, retangular4; mas uma roda, porque eu acho que o que marca a roda é a nossa disposição, é o nosso desejo. 5 Meu desejo é do encontro. Nesses tempos tão difíceis que nós temos vivido, tenho tido, como experiência pessoal, e, também, dos grupos, certeza que esses momentos nos potencializam. Nós estávamos falando, um pouquinho antes, da intensidade de demandas e de atividades on-line e que isto nos cansa. E nós temos que ter cuidado, inclusive, com saúde. Mas, ter oportunidade de estar junto, mesmo que dessa forma remota, tem sido um modo de reinvenção. Reinvenção da vida, reinvenção de possibilidades, de encontro mesmo. De continuar fazendo. É aquilo que nós gostamos tanto, que é aprender, junto, que é compartilhar. E eu fico muito feliz. A dinâmica que você propôs, Graça; me identifico completamente. Eu sempre digo para os estudantes, para os orientandos: Eu sou uma professora atípica. Não sou aquela professora que gosta de ficar falando e falando e falando. Muito menos, sozinha. Sozinha, não dá; sempre em um diálogo. Então, trouxe, aqui, uma fala. Organizei uma fala, mas não uma apresentação; reflexões para compartilhar. Separei alguns pontos para partilhar com vocês. Fiquem à vontade para interferir, para comentar, para já trazer questões ou deixar para depois, também, algumas outras questões sobre os textos. Como vocês se sentirem à vontade, como se nós estivéssemos, e estamos, juntos, apesar de cada um na sua casa, no seu espaço. Comecei como professora do Estado do Rio de Janeiro. Fui professora com as minhas crianças, durante alguns anos na coordenação pedagógica, também, nos anos iniciais, na escola pública. Tanto no estado, como no município de Niterói e fui para a universidade, para a minha querida Faculdade de Formação de Professores da UERJ. Foi muito interessante, porque eu fiz o primeiro concurso público com 18 anos e, com 18 anos, estava em sala de aula com as crianças no processo de alfabetização. E, 12 anos depois, eu fiz um concurso para UERJ, em São Gonçalo, mesmo município. Eu digo o seguinte: nunca saí da escola e não saio de lá. Tanto na UERJ, nos 17 anos, que eu fiquei como professora com matrícula – porque continuo lá, não tenho matrícula, mas continuo6 - e agora, aqui, na UNICAMP, trabalho com o campo do estágio supervisionado - dos estágios. É claro que nada é à toa na nossa história. A escolha desse campo de estágio é uma opção que é pessoal, política, epistemológica, que fala desse desejo de nunca sair da escola, porque não consigo imaginar o meu fazer na universidade, longe da escola pública, especialmente, dos anos iniciais que é onde eu tenho essa minha experiência como professora iniciante. Então, como já disse, tenho vínculo com duas instituições. Eu vim para Unicamp, mas mantive meu vínculo com a pós-graduação da UERJ. O grupo Polifonia - o grupo interinstitucional Polifonia - é vinculado ao núcleo Vozes na FFP/UERJ, e ao GEPEC, na UNICAMP7. O GEPEC é coordenado pelo professor Guilherme Prado que esteve com vocês e, já via os rostinhos, temos vários participantes do GEPEC conosco, do Vozes também. E eu fico muito feliz com essa partilha. Eu trouxe, também, um presente. E eu vou começar por ele. Eu recebi de um amigo um livro de poemas que ele escreveu, agora, durante a pandemia. O título da obra é “Não estamos sós: 50 poemas no afastamento e depois” do professor Everardo Andrade (2020), que é da UFF. E eu escolhi um poema para partilhar com vocês. Ele diz o seguinte: “Fico em casa. Sempre calmo, sempre agitado, vou passando os dias no isolamento. A paisagem ao redor tão serena. E os (...) terríveis à Beira do Abismo, ou seria o contrário? Turvas nuvens no céu de outono, passos firmes no chão, enquanto gira. Sempre agitado, sempre calmo o planeta. Na dúvida, sobrevivo a pandemia. No “happy end” de cada dia. Sobrevivo a pandemia”. E aí, eu pergunto para vocês, para pensarmos todos: como estamos vivendo esses tempos? O que cada um de nós tem feito para sobreviver? E, lembrando da Cecília Meireles, para reinventar, para reconstruir a vida, para dar sentido a ela, nesses tempos que nós temos vivido. Um dos modos de reinventar a vida é, justamente, continuar contando histórias. É continuarmos juntos, partilhando as nossas histórias e as nossas travessias. E, então, já digo para vocês que compreendo as narrativas (auto)biográficas, como uma forma de existir no mundo e, nesse momento, de reexistir, de reinventar. O que eu trago, para partilhar com você, fala um pouco de caminhos que entrelaçam viver, pesquisar, narrar e formar. Não consigo pensar de forma diferente esses componentes todos. Na minha trajetória, eles estão articulados: a vida, a pesquisa, a formação, a narração como um todo. O interesse por [...]8, eu digo, por Manoel de Barros, que é um movimento, é um desejo que não se mede com fita métrica, ele se mede pelo encanto que ele produz em nós. Quando olhamos a trajetória dessa produção, vemos gerações anteriores, gerações que nos antecederam e lutaram, que militaram, que produziram conhecimento nesse campo. Então, vemos uma produção que tem uma história e fazemos parte da história dessa produção e observamos o seguinte, entre nós, no Brasil, é uma produção que tem crescido muito. Esse crescimento é, ao mesmo tempo, quantitativo e qualitativo. Consideramos que, ao longo dos anos, a pesquisa (auto)biográfica e a pesquisa narrativa (auto)biográfica, têm aprofundado seus referenciais teórico-metodológicos e epistemológicos, mas, por outro lado, é importante dizer, também, que esse crescimento nos desafia a ter, sempre, todo o cuidado crítico, reflexivo, sobre essa produção sobre os caminhos que nós vamos percorrendo. E é um pouco sobre isso que eu gostaria de falar com vocês. Falar sobre as narrativas (auto)biográficas, trazendo, um pouco, dos caminhos percorridos por essa abordagem, no sentido de nos ajudar, a situar mesmo, o nosso percurso. Onde nós estamos, quais são, também, as nossas perspectivas e desejos de futuro. Costumo começar, dizendo o seguinte: as narrativas (auto)biográficas consistem um fenômeno antropológico - antes de qualquer coisa.9Nós narramos, porque somos crianças, jovens e adultos; mulheres, homens, idosos; somos pessoas, seres humanos, no mundo. E narramos, porque narrar faz parte desse movimento de habitar a Terra, de estar em contato com o outro. De produzir conhecimento, de produzir cultura. E eu já digo, para vocês, que narramos, narramos a vida, o tempo todo. A nossa vida atravessada por muitos outros. Por isso que nós usamos o (auto)biográfico, com o “auto” entre parênteses. Esse aspecto é um aspecto teórico muito importante. Nós não trabalhamos com as narrativas de si isolado, com as narrativas de um sujeito por ele mesmo, porque entendemos que isso não é mesmo possível, porque esse sujeito, ele é o tempo todo atravessado por muitos outros. Nós usamos o “auto” entre parênteses para indicar que aquela história pode ser autobiográfica e pode ser biográfica. Eu posso estar trazendo a narrativa, como fiz, lá, no texto que vocês leram, fragmentos das biografias educativas de professoras. Ali, são biografias educativas, porque não são as minhas histórias, são as histórias delas, mas o “auto” entre parênteses é sempre válido. Por quê? Porque, quando eu conto a história delas, eu estou falando da minha história também. E, quando eu falo da minha história, eu estou falando de tantos outros que me atravessam. Voltando, para reafirmar: narrar a vida é um processo, então, em primeiro lugar, é antropológico. É um processo que nos caracteriza, enquanto humanos, mas as narrativas foram tomadas, também, como um método de produção do conhecimento no campo das ciências humanas e sociais. Então, além de fazer parte da vida, elas foram tomadas e trabalhadas pelas Ciências Sociais, pela História, pela Filosofia – sempre, ao longo de toda história da Filosofia, da Antropologia, da Sociologia, da História - como campo do conhecimento - e chega à educação, por meio da formação de adultos. A porta de entrada das narrativas (auto)biográficas, na educação, se deu, justamente, pela formação dos adultos, porque começamos a perceber que esse adulto, nos processos de formação, todos eles, os de escolarização, os de formação, mesmo que não sistemáticos, eles chegam, trazendo toda sua sabedoria, toda sua história. Então, foi, a partir dos adultos, que esse trabalho começou na educação; e é Nóvoa (1992) e Nóvoa e Finger (2010) que nos contam essa história. E, depois, essa perspectiva chega na formação de professores, e nós, no Brasil, temos uma participação muito especial. Na verdade, a produção brasileira dá muita ênfase à perspectiva narrativa (auto)biográfica nos seus desdobramentos no campo da formação de professores. Eu vou contar um pouquinho, então, dessa história, a partir da realidade brasileira. Quando eu olho a história da educação no Brasil, quando olho os educadores primordiais,10 eu encontro, na década de 60, Paulo Freire, ouvindo seus estudantes, contando a história dele para os estudantes, adultos. Querendo ouvir as histórias deles, registrando. Contando o tempo todo o modo como ele se fazia professor e como ele pensava a prática pedagógica. Paulo Freire não é o autor que nós costumamos referenciar, quando falamos das narrativas (auto)biográficas, mas gosto de fazer essa marca. Eu não estou dizendo de uma perspectiva, simplesmente, que foi nomeada num determinado momento. Eu estou tentando discutir, com vocês, um modo de pensar a educação, um modo de pensar a formação de adultos, de pensar a formação de professores. E isso, ele já fazia muito antes de nós darmos um nome a esse campo. [...] O que nos interessa, é essa epistemologia, esse modo de compreender a vida. [...]. E aí, eu vou dizer: Nós temos professores que trazem, por meio da história oral, uma abordagem que é muito específica, mas que está nesse campo amplo que nós chamamos das narrativas (auto)biográficas. A professora Zeila Demartini foi uma das pioneiras, nesse campo, e a professora Clarice Nunes, também, é, para mim, uma referência importante. E aí, que nós temos, na década de 80, todo aquele movimento tão instituinte entre nós, de abertura democrática da sociedade brasileira [...]. E acompanhamos o movimento de estudantes e professores presentes com as suas histórias e tivemos, na universidade, a chegada de mulheres pesquisadoras que vão defender um outro tipo de pesquisa, uma pesquisa acadêmica, científica, como nós fazemos, mas uma pesquisa com a escola, com os professores. E eu vou lembrar da minha querida orientadora, a professora Célia Linhares da UFF, mas, junto com ela, tantas outras professoras militantes, como Nilda Alves, que está conosco no nosso programa da FFP/UERJ, até hoje, militando fortemente; a professora Regina Leite Garcia; aqui, em Campinas a professora Corinta Geraldi; no Rio Grande do Sul, a professora Maria Helena Menna Barreto Abrahão; no Nordeste, a professora Maria da Conceição Passeggi. O que eu estou querendo dizer, é que essa abordagem foi fertilizando, em diferentes lugares e entre nós. E eu quero falar sobre isso, antes de dizer, num próximo passo, agora, que nós recebemos, sim, uma contribuição, também, de pesquisadores que chegaram e que trouxeram, para nós, uma outra literatura. E o professor Antônio Nóvoa foi um dos responsáveis, inicialmente, pela divulgação da abordagem das histórias de vida entre nós, no Brasil, e na formação de professores. Essa literatura, trazida pelo Nóvoa, vai ter uma importância muito grande, mas gosto, sempre, de reafirmar: ela chega, aqui, e dialoga com o que nós já fazíamos. Nós não tivemos, simplesmente, uma incorporação dessa produção. Não. Essa literatura chega e dialoga conosco. E nós fomos, pesquisadores brasileiros, caminhando, produzindo, lendo, sim, portuguesa, francófona e a produção fertilizou, de tal modo, que fomos sistematizando esse caminho e, em 2004, a professora Maria Helena Menna Barreto Abrahão organizou o primeiro Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)biográfica11, no Rio Grande do Sul. Esse congresso tem uma importância, porque começa com um grupo pequeno, inclusive, em 2004, mas passa a ser um espaço de encontro de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, no diálogo sobre essa produção teórico-metodológica que cresce no Brasil. Hoje, nós temos uma Associação Brasileira de Pesquisa (Auto)biográfica e esse caminho tem se construído, assim, em tessitura com a participação de professores e professoras da escola básica, da Universidade e com as mais diferentes vertentes e desdobramentos12. Gostaria de destacar que, no nosso grupo de Pesquisaformação Polifonia, adotamos, inclusive, a expressão “pesquisaformação” para nomear o grupo, porque entendemos que, ao mesmo tempo, que nós pesquisamos, nós nos formamos. Há uma indissociabilidade nesse nosso modo de pesquisar, de produzir conhecimento. E nós não estamos falando, apenas, que as pessoas que participam das nossas pesquisas se formam; potencialmente, sim; mas nós estamos dizendo que todos nós. Nós pesquisadoras, professores não estamos, ali, apenas para desenvolver uma pesquisa acadêmica, que, quem sabe, um dia, vai virar uma bela tese, uma bela dissertação. E, quem sabe, um dia, vai ser lida por alguém. Nós estamos vivendo uma experiência de formação, junto com as escolas, junto com os professores. E, é claro, que estou falando, a partir do modo, como nós trabalhamos a pesquisa narrativa (auto)biográfica, que não é centrada apenas na escola, tem uma abrangência grande, mas falo do lugar, onde esse grupo, que é o Polifonia, do modo como nós temos trabalhado. E, nessa perspectiva de pesquisaformação, entendo que há uma opção, então, como disse, uma opção que é epistemológica e que é teórica. E eu vou ler, aqui, um trechinho: “Em tempos duros de golpes, escola sem partido, necropolítica, afirmamos que essa abertura simultânea implica o compromisso político de uma pesquisa que não aguarda para dialogar com a vida e seus desafios, após a sua conclusão e publicização, mas é tecida, a partir desse diálogo, visando, desde os rascunhos, vir a ser senso comum” (Bragança, 2018, p. 68). É uma pesquisaformação que tem pressa, que tem urgência, porque nós temos questões que precisam ser pensadas, que precisam da nossa atuação social e educativa. E nós entendemos que as palavras, elas se colocam para nós, a partir de Walter Benjamin, tomamos, como referência, as palavras, não como fronteiras fechadas, mas como lineares porosos. Então, existe um limiar poroso entre a pesquisa e a formação. E existe, para nós, um limiar poroso, também, no (auto)biográfico. É um autobiográfico que se expande. A presença dos parênteses apontam para o limiar da narrativa de um “auto” que se constitui e se expressa com os outros. Como expressão da poiésis vital, que envolve. Necessariamente, relações socioculturais que nos atravessam e habitam. E aí, vou ler um trechinho de um livro de literatura que gosto muito. “Gente que mora dentro da gente” (Ribeiro, 2001): “você sabia que dentro da gente mora a gente. Verdade. Não é só a nossa panelinha de 3 ou 4 gatos pingados. Pencas de gente brotam dentro da gente. Somos uma geleia de raças ancestrais, familiares e amigos. Somos feitos de gente que se foi e de gente que ainda não nasceu”. Para dizer que esse (auto)biográfico não trata de um sujeito isolado. Uma perspectiva individualista, intimista, porque não seria possível contar as nossas histórias sem falar dos nossos muitos outros. Há, também, limiares que nós consideramos porosos entre a abordagem narrativa e a abordagem (auto)biográfica. Mais ou menos no mesmo período que chegam, ao Brasil, as obras do Antônio Nóvoa, e me refiro, especialmente, ao Método (auto)biográfico. Esse é um livro dele, de 1988, “O método (auto)biográfico”. Vejam a expressão “(auto)biográfico”, com “auto” entre parênteses, chegam, na década de 90, juntamente com “Os professores e sua formação”. Nesse mesmo contexto, chega o livro do Connelly e da Clandinin sobre pesquisa narrativa. Por que eu estou dizendo isso? Porque nós temos, no campo da educação, uma circulação de denominações que são diferentes. Alguns pesquisadores, trabalhando, na esteira da Clandinin e Connely, denominam esse campo de Pesquisa Narrativa. A partir das contribuições do Nóvoa, que traz a perspectiva francófona, muito fortemente, nós denominamos, também, de pesquisa (auto)biográfica, quando inauguramos o primeiro congresso e chamamos de Congresso Internacional de Pesquisa (Auto) biográfica, nós demos um nome. Nós nomeamos esse campo, mas eu gostaria de, mais uma vez, dizer que, para nós, as palavras não se colocam como fronteiras, mas como limiares. No grupo Polifonia, juntamos tudo isso e tentamos trabalhar de uma forma rizomática. Então, temos denominado de “pesquisaformação”, escrevendo junto e em itálico, a partir das contribuições das professoras Inês Barbosa e Nilda Alves, das cotidianistas que nos ajudam, então, a pensar que as palavras, elas nos escapam. A gente quer nomear, a gente quer falar e a fala, muitas vezes, a linguagem não representa, não consegue mais dar conta do excesso de sentidos. Por isso, as metáforas, inclusive. A metáfora, como um excesso de sentido. Temos trabalhado, então, com essa pesquisaformação, junto e em itálico, narrativa e (auto)biográfica, pois entendemos que toda narrativa conta a vida. Mesmo que seja uma professora falando por meio de uma pipoca, como nós chamamos no Gepec, uma pipoca pedagógica, uma crônica do cotidiano (Prado et al., 2017). A professora está, ali, contando uma situação que ela viveu com a criança pequena, naquele dia, e ela faz uma crônica, um texto curto, conta essa história. É uma narrativa, com certeza. No Polifonia, entendemos que é uma narrativa (auto)biográfica, porque nós não separamos a vida da profissão. Então, se a professora está contando algo que aconteceu, com ela, na sua sala de aula, com os pequenos, ela está contando da vida dela com as crianças, naquele momento. Sobre o (auto) biográfico, tem um peso da sua origem, no campo da literatura, que nos faz pensar numa história que vai do nascimento aos dias atuais. Nós subvertemos essa concepção. Entendemos que o (auto)biográfico é aquele que fala da vida na sua pulsão. Eu já vou finalizando, para nós conversarmos. A partir desse referencial que observamos, na pesquisaformação, especialmente, entre nós, no Brasil, é uma inventividade muito bonita. Nós lemos essa literatura estrangeira. Nós lemos a nossa produção. Nós fazemos coisas e vamos, na verdade, reinventando os caminhos a cada pesquisa. Isso é o bonito no nosso modo de pesquisar: não há um protocolo fechado. Eu estou vendo, aqui, a querida Janaína13, lembrando da pesquisa bonita que ela fez. Estou vendo, aqui, a Idelvandre14, a Dayse15. Rostinhos conhecidos. Cada uma com pesquisas narrativas e (auto) biográficas que não se repetem. Elas podem falar sobre as suas pesquisas. Elas leram, elas leem, tomam referências teórico-metodológicas que são fundamentais, para nós, depois, construirmos, com as nossas pesquisas, um caminho que vai ser próprio. E o que que é importante? Contar a história dessa pesquisa que a gente vai desenvolver. O quê que nós temos feito no Brasil: biografias educativas, memoriais de formação, narrativas pedagógicas. O Gepec conceitua a narrativa pedagógica, como escritos de profissionais da educação (Prado; Cunha; Soligo, 2008). Eu acho muito bonito esse modo de conceituar. É um texto, é um material escrito ou até imagético, videográfico, mas que conta algo de um profissional da educação para outro profissional da educação. E, no âmbito das narrativas pedagógicas, temos as pipocas, as pipocas são textos curtos. As narrativas pedagógicas, de forma mais ampla, podem ser textos maiores, reflexivos, citando autores. A pipoca pedagógica é aquela que explode, o Guilherme deve ter falado delas com vocês, com certeza. Os diários, os portfólios, as cartas, os vídeos (auto)biográficos, as conversas como dispositivo metodológico, são as mais diversas formas. E o que temos percebido é que esse modo de pesquisar, assim como as palavras, nós temos dificuldade com algumas palavras que não expressam mais aquilo que nós queremos dizer sobre a pesquisa. Nós temos percebido que o texto acadêmico, também, acaba sendo subvertido. Os nossos trabalhos de conclusão de curso, monografias de graduação, as teses de doutorado, os artigos. Não importa o que a gente escreva, forma e conteúdo não se separam. Então, como eu vou narrar a vida, sem falar no Manoel de Barros? Não é, Thais Motta? Como que eu vou escrever um artigo, sem trazer a literatura infantil, que de infantil não tem nada, que a infância nos acompanha ao longo de toda a vida? A infância cronológica, sim, mas a infância, enquanto modo de habitar o mundo, nos acompanha. Como que eu vou deixar de fora a arte, a poesia, as imagens? Não tem como! Aí, a gente manda o trabalho para a biblioteca. A biblioteca devolve. A gente faz, arruma um jeitinho, não é, Dayse Fontenelle? Faz assim, faz assado, conversa. Aí tem, em alguns casos, que tem que tirar, realmente, a marca da água bonita que a Dayse colocou, lá, mas a gente vai tentando, vai caminhando, aí, nas brechas (Fontenelle, 2023). E, para finalizar, vou ler um trechinho para vocês. “Uma epistemologia de investigação e de formação” (Bragança, 2018). Sempre, reafirmando isso: nós não trabalhamos com abordagem narrativa (auto)biográfica, como uma entre "técnicas”, como um instrumento de pesquisa. Como modo de apenas "recolher” alguma coisa para fazer uma pesquisa. É muito mais do que isso. É uma concepção de vida. É um modo de habitar o mundo, a universidade, a escola. Por isso, uma epistemologia de investigação e de formação, que remete ao círculo virtuoso da narrativa e da escuta, da reflexão pessoal coletiva e, assim, reafirmamos um potencial, o potencial de uma contribuição ontológica, porque nos transforma como seres no mundo. É pedagógica, é estética e é política. Não temos e não desejamos hegemonia do conhecimento científico. Nos colocamos no entrelugar, afirmando o desafio cotidiano instituinte do inacabamento, como um modo de vida e de pesquisa. E é, assim, que nós seguimos. E aí, eu vou... já estourei, aqui, meu tempo de meia hora, mas, agora, com as palavras do Galeano, não mais com as minhas. “Para falar da celebração das contradições, dos medos nascem as coragens e das dúvidas as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível e os delírios, outra razão. Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia (Galeano, 2018)”.
Soymara Emilião: Eu sou Soymara Emilião. Boa tarde a todos. Como vai? Eu tenho feito uma pesquisa na perspectiva da narratividade e gostaria de saber como você vê a colocação de elementos ficcionalizantes nas narrativas para abrir camadas das percepções do vivido? Com uso de personagens, apagamentos dos tempos-espaços, de modo a ampliar a compreensão daquilo vivido.
Erika Cordulino Fernandes: Olá, Inês. Meu nome é Erika, sou professora do município do Rio, faço parte do Conpas, com a Graça e a Patrícia. Bom, eu coloquei, aqui, no chat que eu estou muito emocionada com a sua fala, seu carinho de falar sobre a narrativa. Eu ainda não cursei o mestrado... eu fiz somente especialização em EJA, pelo CESPEB, desejo entrar para o mestrado e eu escolhi a narrativa para poder falar, para desenvolver o meu pré-projeto e a minha dissertação. Mas, escutando você falar, e, com esse exemplo da Graça, eu fico muito, muito reflexiva e com muita dúvida de como começar minha narrativa de fato. Já escrevi algumas coisas, mas, aí, eu apago, reescrevo. Como você falou, tem tanta gente dentro de mim querendo falar, sabe? Tem tantas coisas que quero dizer e eu ainda não consegui encontrar todos eles para começar a colocar isso em ordem, assim, eu sou professora da Eja, no Complexo da Maré, e muitas falas me vêm, assim, para começar a desenvolver essa escrita, mas, de verdade, de verdade, eu queria te pedir, hoje, para nos dar um conselho de como pessoas inexperientes, como eu, na questão da escrita acadêmica e, principalmente, na questão da narrativa possam escrever... Se você puder fazer esse movimento, eu vou agradecer muito. Agradeço muito a sua fala, eu estou amando escutar você, neste dia...
Graça: Erika só explica o que que é o Complexo da Maré, porque muita gente não sabe.
Erika: Complexo da Maré são 17 comunidades que existem ao longo da Avenida Brasil. E a linha vermelha e a linha amarela cruzam ela. E é onde o CEJA- Maré, unidade que leciono se localiza. Lá, é um centro de referência de Educação de Jovens e Adultos que funciona, como semipresencial: são aulas de 2 horas apenas, com atividades domiciliares, para compor a carga horária e, desta forma, caber na vida do trabalhador. Então, é como se tivéssemos 6 turnos. Funciona de 7 horas da manhã às 9:30 da noite. É de lá, que estou carregada de Histórias de Vida, dos alunos trabalhadores e que são narrativas imensas, cheias de emoção, não só com os meus alunos de alfabetização de jovens e adultos, mas com os outros alunos, também, que são da EJA 2. Então, assim, o trabalho que a gente desenvolve nessa escola é muito, buscando a narrativa deles para desenvolver todo o projeto. Nós chegamos, na sala, com tudo pronto, com planejamento organizado, e eles falam assim: “ah professora a gente pode falar de tuberculose, meu vizinho morreu de tuberculose ontem”. E aí, a gente começa a desenvolver, a partir dessas narrativas que eles trazem e criando conexões com o currículo e o planejamento, previamente, elaborado. Todo o nosso conteúdo; não consegue manter um conteúdo fixo, porque as histórias de vida deles, as questões que eles trazem para a sala de aula; é muito mais importante para desenvolver a aprendizagem e, também, o conteúdo. Mas, mesmo assim, é difícil para o professor como eu estou, que estou com o desejo de escrever, e fazer isso, num fio condutor, que se desenvolva em uma tese, uma dissertação. Sei que é difícil, mas não impossível. Logo, por esse motivo, que eu estou, aqui, pedindo esse conselho a você, querida Inês.
Juliana Godói de Miranda Perez Alvarenga: Olá, boa tarde a todos. Muito obrigada, Inês! Brilhante apresentação! Sempre é muito bom te ouvir. Eu tenho algumas questões que eu gostaria que você falasse um pouquinho para gente. Primeiro, a gente propõe uma forma diferenciada de pesquisa e eu queria que você falasse um pouquinho dessa compreensão da própria análise das narrativas. Análise não, mas das compreensões que nós vamos ter com esses dados. A segunda, é que você falasse um pouquinho mais sobre o conceito de experiência articulado ao conceito do narrador.
Inês: Então, quando eu falo do Polifonia não estou falando de um grupo isolado. O modo como nós, tanto no Vozes, como GEPEC, trabalhamos com abordagens narrativas e (auto)biográficas, Soymara, é muito próximo à perspectiva nos/dos/com os cotidianos. Então, nós fazemos um diálogo que, para nós, é incontornável. Por quê? Como eu disse, somos professores da escola, que estamos na universidade também. Habitamos a escola básica e a universidade. Então, nós trabalhamos com narrativas (auto)biográficas, a partir desses cotidianos. Só para te dizer, aproveitar, também, para dizer isso, que eu acho importante. Como falei, a perspectiva teórico-metodológica do campo da pesquisa (auto)biográfica é um campo muito diverso. Então, quando vocês forem, no Congresso, o ano que vem e vocês tiverem contato, lá, com todas as produções, com os colegas, é super especial, porque, justamente, é diverso. Então, eu estou dizendo de um modo próprio e específico desses grupos. Como nós temos trabalhado. Agora, falando da sua questão, de maneira mais especial, a colocação desses elementos ficcionais. Depois, se puder falar mais um pouquinho, para ver se eu compreendi a sua proposta, mas eu te digo o seguinte: a narrativa tem uma dimensão ficcional por natureza. Paul Ricoeur (1994) é um autor que nós trabalhamos muito, “Tempo e narrativa”. E Paul Ricoeur trabalha com a construção da intriga. Está lá, no texto que indiquei para vocês. A tessitura da intriga que se dá na produção do texto acadêmico é a mesma produção da intriga que se dá na construção de um texto ficcional. E, a princípio, eu não conheço, exatamente, a proposta que você está trazendo, mas já me parece super interessante. Vou te dizer o que nós temos feito. Os elementos ficcionais, imagéticos, entram, como dispositivos de memória, justamente, para tentar fugir da cronologia de uma narrativa linear, então, colocamos uma imagem, embaralhamos a imagem e falamos sobre ela e construímos a nossa história. E eu penso que a ficção, a narrativa de imagens, a narrativa ficcional, no caso, vai ser sempre bem-vinda e os nossos textos contam a história da pesquisa. Então, o leitor vai ter acesso ao modo como você construiu, isso vai ficar claro, pra ele, porque você vai contar essa história. Então, você vai estar protegida, digamos assim, do ponto de vista das questões epistemológicas que vão te indicar como fundamentar essa pesquisa. Bom, eu fundamento, contando a própria história dessa pesquisa.
E a Erika. Nossa, Erika! Puxa vida! Você fala do Complexo da Maré, eu sou do Rio, viu? Eu nasci em São João de Meriti, a Baixada Fluminense, e passei toda minha vida... em São João de Meriti. Eu fiquei até a adolescência, depois, fui para Niterói. Mas, então, quando você traz essa realidade da escola, do CEJA, desse programa de Jovens e Adultos, nesse Centro de Educação de Jovens e Adultos, eu fico super feliz, porque entendo que é isso mesmo. Esse é o nosso espaço, de estar lá com os jovens. Você disse que escutam as histórias deles, que partem da produção deles. Então, na verdade Érica, você disse que fez especialização. Você é uma professora-pesquisadora! Mesmo que não tivesse feito especialização. O que eu quero dizer é que o fato de você estar na escola, com a escuta que você tem para essas histórias deles, você é uma professora pesquisadora. Já tá fazendo pesquisa! Então, a palavra conselho, socialmente, tem uma conotação não muito bem-vinda, mas você sabe que Walter Benjamin apoia os conselhos? Ele vai dizer que os conselhos são bons, nós podemos partilhar as nossas experiências. Então, eu vou partilhar a minha experiência com você, nesse sentido do conselho benjaminiano. Escreva suas histórias! Eu não sei se você gosta de digitar no computador ou se gosta de ter um caderninho, um bloquinho de notas, mas tenha sempre algo perto que você possa anotar, registrar suas histórias e, quando se der conta, a sua pesquisa vai estar sendo construída nesses pequenos registros. Nesses registros que, muitas vezes, nós consideramos informais no cotidiano. A visão que temos da pesquisa acadêmica, da dissertação de mestrado é algo, então, muito estruturado que tem, lá, um fio condutor. É claro que existem as rigorosidades da academia, mas a pesquisa narrativa e (auto)biográfica nos permite contar as histórias, porque essas histórias pequenas, chamadas “menores”, do cotidiando, esses registros mínimos do cotidiano, para nós são, na verdade, máximos, são potências de saberes. Um dispositivo que nós trabalhamos, bastante, no Polifonia, são os diários de itinerância de Barbier (2002). O diário de itinerância é uma ótima companhia. E o Barbier diz o seguinte, ele fala do diário rascunho, do diário elaborado e do diário comentado. Então, é ótimo, porque você pode dizer para você mesma: Eu estou fazendo um rascunho, não vou mostrar isso para ninguém, é só meu, então você se sente à vontade para registrar. E aí, eu vou falar, rapidamente, de duas experiências para sugerir dissertações. A dissertação da Juliana Vieira (2020) do mestrado profissional, aqui, da UNICAMP e da Lilian Ricarte de Oliveira (2020). Depois, eu posso te mandar com detalhes a referência. A Lilian é professora de educação infantil. Desde sempre, registra, em um blog, as suas experiências com as crianças, pequenas narrativas, formato de pipoca. A dissertação de mestrado dela é uma retomada dos escritos que fez no blog. Uma belíssima dissertação! A Juliana é uma professora dos anos iniciais do ensino fundamental, que sempre escreveu cartas. Cartas para os seus alunos, cartas para os pais. Quando foi diretora de escola escrevia cartas para os funcionários. A dissertação de Mestrado dela é uma retomada das cartas escritasdurante sua trajetória. Só para te incentivar, na verdade, você já está escrevendo a sua pesquisa!
E a Juliana, minha querida Juliana Godói! Nós estamos juntas desde que ela era uma menina, no segundo período do curso de pedagogia da FFP e, agora, ela é doutoranda da UFF. Vocês imaginam quanto tempo nós estamos estudando juntas, pesquisando juntas, fazendo coisas na escola. E aí, Ju, você sabe, a dimensão da "análise” é um desafio para a pesquisa narrativa. E foi muito bom trazer essa questão, porque nós produzimos uma profusão de fontes. A Graça Reis falou, já estão lá, não sei quantos livros já fizeram, narrativas do tempo de isolamento social, narrativas da escola, a Érica escreve, os professores filmam, registram. Nós temos muitas fontes narrativas nas nossas pesquisas. E aí, fazemos o quê com essas fontes? Felizmente, como diz o Eduardo Galeano, nós vivemos mesmo não numa identidade, mas nós estamos nos movendo nas contradições, num permanente devir. Quando fiz a tese de doutorado, eu trabalhei com uma abordagem clássica da pesquisa paradigmática que é a análise de conteúdo.
Análise de conteúdo é uma metodologia de compreensão de fontes. Lá na década de 70, com Bardin (1977), a Janaina Moreira conhece bem. Ela fez um trabalho super bonito no mestrado, depois, no doutorado, mas, no mestrado, eu lembro que a Janaina fez um trabalho super minucioso com análise de conteúdo. Foi o que eu fiz na minha tese de doutorado. A análise de conteúdo, hoje, trabalhada por nós, é claro, que não repete aquilo que Bardin fez, lá, na década 70, isso nem seria possível, essa abordagem que tem uma marca, inclusive, bastante quantitativa. Quando nós trazemos para as Ciências Humanas e trazemos para as narrativas, nós, na verdade, reinventamos essa perspectiva e fazemos, de fato, uma tematização. Colocamos essas narrativas em diálogo, a partir de temas. Isso é possível, mas os nossos estudos de Paul Ricoeur e de Bakhtin, atualmente, tem nos levado a um exercício, Juliana, muito mais de compreensão hermenêutica. A análise, ela divide mínimas partes. A compreensão tem um olhar para a complexidade, eu diria rizomática do real. É um desafio. Agora, eu vou dizer uma coisa, eu sei que você e a Dayse estão estudando Paul Riccoer. Paul Riccoer fala que explicar e compreender são exercícios articulados. Eu acho muito potente esse modo de pensar, porque, em alguns momentos, nós precisamos olhar para temáticas que são pulsantes, nesse cotidiano escolar, na fala das professoras, lá, do Município de Niterói. O que nós não podemos é ficar no fragmento. Eu penso que o exercício da compreensão hermenêutica é dar a ver essa complexidade dialógica. E aí, a Thais Motta está, aqui, comigo. A Thaís é uma querida que é do grupo de vocês, também participa dos encontros. A Thaís fez um trabalho, na dissertação, muito bonito e muito profundo, fazendo uma reflexão entre o Paul Ricoeur e Bakhtin. E aí, ela usa uma expressão, que nós temos adotado, que é a co-interpretação. É uma compreensão hermenêutica que, inclusive, não é desenvolvida pelo pesquisador. Porque... Não é pesquisaformação? Não é pesquisa com? Se eu digo que é pesquisa com, tenho que assumir a radicalidade do que isso significa. Significa que, ao narrar, já produzo, ali, uma interpretação. Então, a professora quando narra, ela está te contando uma história que tem uma intriga. Então, está posto, ali, uma visão sobre o mundo. E, para além disso, de reconhecer a potência da interpretação produzida pela própria narradora, é conversar com ela. E fazer um trabalho compartilhado, mas a gente pode continuar falando sobre isso e estudando, porque é um tema que está aberto para nós, assim, estamos nos reconstruindo, nos reinventando, nesses modos de trabalhar com as fontes. A experiência, como você destacou, também, a experiência, articulando a experiência ao narrador. É linda aquela passagem do Benjamin, quando ele fala das mãos do oleiro no barro. Ele fala dessa indissociabilidade. Ele fala que retira da experiência aquilo que ele conta e, por outro lado, o que ele conta, atravessa a experiência do ouvinte a um círculo virtuoso entre narrativa e escuta e transforma o narrador. Há uma articulação, também, muito potente nos conceitos de experiência, memória e narração. A experiência, a partir do Benjamin, com interpretação do Larrosa, aquilo que nos transforma, que nos mobiliza. Nós não levamos para a memória tudo, a memória é seletiva. Então, por que nós levamos algumas coisas e não outras? Halbwachs que estuda memória, também, vai dizer que nós guardamos aquilo que é coletivo; acho muito bonito isso. As experiências coletivas, o livro clássico dele é, inclusive, “A memória coletiva”, então, ele diz “aquilo que eu vivo com os outros, aquilo que é partilhado tem um poder maior de ter sentido de experiência e não de vivência”. É essa experiência, no sentido forte, transformador, que eu abrigo na memória e, por meio da narração, eu transformo, eu reconto, eu refaço. A narrativa não reproduz a experiência. A experiência é experiência, por isso, Soymara, é sempre ficcional. Mesmo que a gente diga que não, é acadêmico. Sim, é acadêmico, é feito com todos os critérios, mas, quando eu conto uma experiência que passei, estou recriando. Portanto, eu estou, também, ficcionando aí. Estou produzindo uma experiência e, não, não estamos trabalhamos na perspectiva da filosofia essencialista, então, não há a experiência que eu vou trazer novamente à memória. A memória já modificou e a narrativa modifica mais uma vez. É isso que Paul Ricoeur vai falar na tessitura da intriga. Mas, vamos fazer mais uma rodada, Graça, para ouvir mais.
Alba Delia Fede: Inês, um prazer escutá-la. Tenho que contar-lhe sobre a intriga na minha própria tese de doutorado, que tem a ver com o pensar a formação de professores em humanidades e a formação de licenciados na licenciatura em Ciências da Educação. [...] Mas, também, trabalho na escola secundária, no Ensino Médio, e, aí, que está meu coração. Minha tese tem a ver com as perspectivas atuais da investigação autobiográfica em três línguas: em francês, em português e em castelhano. Meu diretor de TCC é Daniel Suárez. Assim, o que quero, talvez, não é de perguntar [...]. Inês, as perguntas que eu tenho para fazer, vou fazer nas entrevistas. Quando eu falo: vocês conseguem me entender?16 Sim, sim? Falo mais devagar? Inês, você é um dos meus sujeitos colaboradores, e cada um dos pesquisadores contribuiu com algo interessante. Por exemplo, o conceito de multimedialidade, que trabalha [...], me deu a ideia de que a narração está se criando de várias formas, que está abordando distintas linguagens, e que inclui um processo muito interessante de seguir as redes de investigações autobiográficas, através das redes sociais, Twitter, Instagram, Facebook. Aí, é um momento...que não sei, a pandemia facilitou essa possibilidade de conversação. E acredito que estou aproveitando. Basicamente, o que eu queria era transmitir de que modo me transforma, me afeta, profundamente, esse paradigma, e que me alegra que não haja limites e fronteira entre a vida e a profissão, porque, assim, dá sentido em tudo o que fazemos. E, sim, algo que eu quero perguntar-lhe, há diferença entre formação de professores e formação de formadores? Eu queria te perguntar isso, qual seria a diferença? Há diferenças? Obrigada.
Ceane Andrade Simões: Inês, eu queria dizer que é um prazer te ouvir, e o que eu vou fazer, agora, nessa tentativa de diálogo, é parte de uma pessoa que é muito novata nesse mergulho autobiográfico, como forma de vida e forma de conhecimento. Então, eu quero te dizer, assim: que eu comecei a me interessar pela questão autobiográfica, pela ficção literária, por exemplo, tenho lido muito a respeito de Carolina Maria de Jesus, e eu tive contato com a Rafaela Fernandes, que é uma estudiosa da obra dela. E eu li a tese dela, que é sobre o processo criativo da Carolina Maria de Jesus. O que ela vai chamar de uma coleta de resíduos. É um trabalho muito interessante e, lendo a tese dela, eu fiquei, absolutamente, mexida com o que ela vai trazer da questão da memória, porque ela vai se ancorar em Santo Agostinho, assim como Ricoeur. Daí, que eu queria dialogar com você, porque ela vai dizer que, a partir dele, na verdade, ele que traz isso, que é impróprio pensar em três tempos, o pretérito, presente e o futuro. Mas, seria próprio a gente pensar que os tempos fossem: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras? Então, isso me deixou muito mexida de pensar nos tempos dessa maneira, na temporalidade e na memória, porque, voltando para Carolina... Carolina, muitas vezes, é circunscrita nessa perspectiva de que a obra dela se restringe a um relato testemunhal, e não é! O que ela faz da memória é uma coisa impressionante. Ela vai fabulando a memória. Então, é isso que a Rafaela Fernandes traz no trabalho de tese dela. Vinculando a memória a essa questão de sensações presentes, como eu já mencionei a respeito do tempo pensado, a partir de Santo Agostinho. Então, eu queria muito te ouvir sobre isso, a respeito desse tema, do tríplice trazido por Paul Ricoeur, amparado em Santo Agostinho. Se você puder falar um pouquinho, fico muito grata. Obrigada!
Patrícia Baroni: Inês, lindas suas palavras. Obrigada pelas contribuições. Acho que a gente sempre fica muito feliz de receber, na nossa casa, gente que chega com coração aberto. Ficamos muito felizes com sua presença, aqui. Eu fiquei, de certa forma, impactada com as questões trazidas, e pensando, um pouco, nesse território de disputa que a gente está sempre inserido. Quando assumi a pesquisa autobibliográfica, quando assumi a pesquisa narrativa, quando assumi a pesquisa com os cotidianos. Então, é um território de disputas constantes. E ouvir a voz doce que você traz, parece que a gente não está nesse território de disputa, parece que a gente não tá brigando com ninguém. Mas, a gente sabe que é uma luta, uma briga intensa, epistemológica, política, filosófica, enfim, que atravessa vários campos. No nosso último encontro, aqui, no retângulo, a gente recebeu a escritora da literatura brasileira, Miriam Alves, e eu tenho me interessado muito pela questão da narrativa negra. É uma coisa que tem aparecido muito nos meus estudos, nos meus interesses. E aí, quando a gente encontra a própria Carolina de Jesus que diz... Desculpa, Carolina de Jesus, não. Acho que fiquei tocada um pouco tocada pela fala da Ceane. Mas, a Conceição Evaristo, quando ela traz: “quando escrevo, quando invento, quando crio a minha ficção, não me desvencilho de um 'corpo-mulher-negra em vivência' e que por ser esse 'o meu corpo, e não outro', vivi e vivo experiências que um corpo não negro, não mulher, jamais experimenta.” Eu vejo muito cotidiano, vejo muita narrativa, vejo muita (auto)biografia, essa auto com parênteses. Quando eu leio Grada Kilomba, dizendo, também, “Quando eu escrevo também me torno a narradora e a escritura da minha própria realidade. A autora e a autoridade na minha própria história. Nesse sentido, me torno a oposição absoluta do que projeto colonial pré-determinou”. Aí, agora, eu trago minha questão. Quais os passos que, talvez, a gente... eu sei que a gente tá nesse território de disputa dentro de uma sociedade inscrita num racismo estrutural, mas, assim, quais os passos que, talvez, a gente ainda precisa começar a trilhar para, tanto a pesquisa narrativa, quanto a pesquisa autobiográfica, quanto a pesquisa com cotidianos, para as nossas pesquisas, também, darem protagonismo a essas intelectuais negras que falam de narrativas. Por que a agente trabalha com autores, com Certeau, a gente trabalha com Ricoeur, como tá sendo mencionado, agora, a gente trabalha com Boaventura de Sousa Santos. Aí, assim, o que a gente tá criando para a gente trazer, também, essas autoras que trabalham com essas narrativas de vida no protagonismo dessas pesquisas, é isso... Obrigada!
Inês: Que bom, Alba, você, aqui, conosco! Amei ouvir o seu espanhol! Gosto muito de ouvir. Eu tenho uma amiga querida, que é a Anelice Ribetto, lá da FFP, que é argentina. E que fala alguma coisa que não é nem espanhol, nem português. E, ontem, eu estive com o Daniel Suárez no evento da Biograph17. O Daniel é muito querido nosso e tem uma produção muito importante, muito próxima ao modo como os nossos grupos trabalham. Porque a produção do Daniel valoriza Documentação Narrativa da Experiências Pedagógicas. Então, esse trabalho é de valorizar saberes e produções dos cotidianos, dos movimentos sociais e das escolas, e as professoras como intelectuais que registram, que documentam o seu trabalho. Quando você começou a falar, eu ia perguntar... ia te perguntar se você conhece o Daniel, que bom que você tem a companhia dele na pesquisa. Aí, você comentou que está estudando, não sei se eu te entendi bem, mas que pretende estudar as perspectivas da abordagem (auto)biográfica nas diversas línguas. Nossa, Alba! É isso?!
Alba: Sim, as atuais. Não só as passadas que existem, mas, também, as de agora.
Inês: Nossa, Alba, mas esse trabalho é um trabalho necessário... Necessário! É um trabalho muito importante. O que eu tentei trazer para a nossa conversa foi, um pouco, falar de um percurso dessa perspectiva, mas marcando a produção brasileira em diálogo com a produção internacional. Agora, o que nós observamos, nesse campo, é uma pluralidade, inclusive, de terminologias que, muitas vezes, nos confundem. Por exemplo, na produção espanhola, a expressão, a partir do Bolívar, é pesquisa biográfico-narrativa. Ele junta biografia e narrativa. Na produção francófona, abordagem das histórias de vida e em formação. Então, são denominações diferentes, dependendo da tradição. E aí, quando eu fiz a tese, um dos estudos foi, um pouco, um movimento de tentar inventariar esse campo, porque eu me sentia perdida. “Será que se eu usar essa expressão é sinônimo da outra ou eu estou em abordagem diferente?” E esse estudo, Alba, penso que é um estudo muito importante, que precisa, depois, ser partilhado conosco.
Inês: E aí, você fala que vai trabalhar com colaboradores, vai ouvir as pessoas? E esse registro narrativo é sempre muito importante. Na tese, eu usei a expressão “entrevista”. Hoje, não temos usado mais. Estamos caminhando num processo, o Polifonia passou a usar entrevistaconversa, junto e em itálico, porque um encontro narrativo não é apenas uma entrevista, mas, também, não é só uma conversa. Ficamos, aí, nesse entrelugar, mas temos tido muita contribuição da produção da professora Carmen Sanches (Ribeiro; Souza; Sampaio, 2018) da Unirio, que trabalha com a questão da conversa, como dispositivo metodológico, que é assumir a conversa, como metodologia. Temos, então, a questão da entrevista, caminhando para encontros narrativos. É porque, na verdade, mesmo que seja só com mais uma pessoa, o que se dá, ali, é um encontro. Muito mais do que entrevista, naquele sentido formal, de um roteiro que você vai seguir. Podemos e devemos, até ter um roteiro, porque temos sempre questões, mas não é ele que vai mediar, de forma linear, esse encontro, porque a narrativa subverte tudo isso mesmo. E sobre a formação de professores e a formação de formadores. No Brasil, eu penso que nós temos denominado formação de formadores aqueles que vão, inclusive, formar professores. Essa formação se dá não apenas no sentido estrito senso, mas, no trabalho, com a formação de adultos de uma forma geral. Quando falamos formação de professores, nos referimos muito mais à formação inicial de professores, em geral. Mas, me ajudem, por favor. Graça, Patrícia... Mas, assim, na minha leitura, quando falamos da formação de professores mais essa referência, a formação inicial dos professores, e a formação de formadores, alguém que vai trabalhar com os próprios professores em processos de formação inicial ou continuada que a professora.
Alba: Obrigada, Inês.
Inês: Prazer, Alba.
Thais da Costa Motta: Só para contribuir, Inês. A professora Rosaura Soligo é uma boa referência para pensar a formação de formadores. Ela integra o Grupo de pesquisa GEPEC da Unicamp e tem uma vasta produção sobre esta temática.
Inês: Ceane, dentro da educação, trabalhamos com narrativas (auto)biográficas, mas você foi para as autobiografias, do ponto de vista literário. E elas são de uma potência incrível e, na verdade, nos inspiraram. Quando falei, inicialmente, da trajetória, eu não sei se fiz essa menção, mas, além de fenômeno antropológico, de metodologia de pesquisa no campo das ciências humanas socais, as narrativas autobiográficas consistem em gênero literário potente, ao longo da história da humanidade, da escrita. A escrita de si, desde a antiguidade, na Idade Média, Santo Agostinho, Rousseau e todos os outros que biografaram a vida. E aí, é de uma riqueza muito grande. E falar da tríplice presente; é apaixonante essa discussão do Paul Ricoeur. O Paul Ricoeur que coloca em diálogo Aristóteles, que trabalha com a narrativa e não discute o tempo, e Agostinho que, por outro lado, discute, na sua autobiografia, com a presença do conceito de tempo e não traz a narrativa. E ele faz uma articulação e, depois, nos proporciona aquela reflexão síntese, onde vai dizer que as narrativas são escritas no tempo e que o modo humano de expressar o tempo é, na verdade, uma produção narrativa. E onde entra o tríplice presente? Agostinho vai se questionar, ele pergunta: “Mas como que eu posso dizer o que é o tempo? Se eu falo é do passado, ele já me escapou. O futuro ainda não é. O presente é movediço” (Ricoeur, 1994). E ele faz, então, essa reflexão de um tempo que não é o tempo da física. É tempo do sujeito, é o narrador que vive a experiência do tempo. O tempo é uma experiência e a experiência quem vive? Quem vive a experiência é um sujeito. E ele vai dizer, então, que o passado não existe mais, a não ser na memória. E onde eu tenho a memória? No presente. Então, no presente, tenho a lembrança do passado, tenho a visão do próprio presente e faço o projeto de futuro. Ele condensa, na experiência do sujeito, no tríplice presente, essa dimensão do tempo. Que é uma dimensão que se aproxima, também, das reflexões do Walter Benjamin (1993), quando ele fala do tempo de agora. Que não é um tempo cronológico, linear, pelo contrário, é um tempo marcado pela intensidade. É um historiador, como ele diz, o historiador tem uma experiência com o passado, a partir do seu presente, olha esse passado e perspectiva esse futuro. Então, eu penso que esse conceito de temporalidade é fundamental para nossa produção narrativa. E aí, é pensar que, quando narramos, quando autobiografamos, nós estamos fazendo isso, no tempo, nós estamos dando sentido ao próprio tempo. O tempo se torna humano, por meio da narrativa, palavras de Paul Ricoeur.
E aí, Patrícia. Que bom, também, te ouvir! Olha, vou te contar uma experiência recente. Eu tenho uma colega, estou na coordenação de graduação lá da Unicamp, terminando, agora, um ciclo. E, junto comigo está uma professora que trabalha com referencial decolonial e, assim, temos muita afinidade18. Eu querendo estudar a decolonialidade com ela e ela querendo estudar, com nosso grupo, as narrativas (auto)biográficas. Finalmente, neste semestre remoto, nós conseguimos isso. No semestre remoto, ela ofereceu uma disciplina sobre abordagem decolonial, com uma perspectiva, bastante, marcada pela questão da raça e outras diversidades também. Mas, organizou a disciplina e incluiu três encontros para discutir as narrativas (auto)biográficas. Então, nós fizemos isso. Nesse último semestre, consegui me aproximar dessa discussão de uma forma, assim, mais efetiva, quero continuar. E os diálogos com Norma confirmaram: há uma proximidade especial entre essas abordagens teórico-metodológicas. Estou lembrando de um texto de 2017, do Elizeu e da Conceição (Passeggi; Souza, 2017), e eles falam, nesse texto, do movimento autobiográfico e mencionam o seguinte: que é um movimento decolonial, de pesquisa-formação e pós-disciplinar. Mas, marcam a questão da decolonialidade, com certeza, mesmo que não seja dito por nós, seja pouco falado por nós, seja pouco estudado, essa dimensão está muito presente. Desde a Escola de Chicago, lá, na sociologia do início do século XX, a perspectiva era, justamente, ouvir aqueles que ficavam na margem, os imigrantes, as mulheres, que a história oficial não contemplava. Então, quando nós olhamos, tanto na sociologia, na antropologia e na história e entre nós, na educação, quando trabalhamos com as narrativas (auto)biográficas, queremos escutar a história daqueles que são considerados vencidos, na expressão de Benjamin (1993). Não dos vencedores, esses já tem uma versão. Nós queremos contar outras versões. E essa outra versão, ela precisa ser uma versão decolonial, precisa trazer as mulheres, precisa trazer os indígenas, precisa trazer os negros, precisa trazer essa produção militante do campo. Você tem toda razão. A universidade, a academia é um terreno perigoso de disputa. E ele, muitas vezes, nos enreda, porque tem disputas que não fazem o menor sentido. Porque, na verdade, nós estamos lutando, a partir do mesmo projeto, da mesma perspectiva de sociedade, mas, nos filiamos a correntes que têm as suas especificidades e não paramos para ler aquilo que o outro está produzindo. Quando a gente consegue sentar, conversar, a gente percebe quanto que temos para aprender e para escrever juntos.
E ai você pergunta “quais são os passos?” Eu acho que nós precisamos fazer um intercâmbio entre esses grupos. Trazer essas mulheres para narrar, para escrever, para pesquisar. Intercâmbio entre os grupos que trabalham com essa perspectiva, levar para o Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)biográfica essa discussão, apresentar trabalhos... é um desafio. É um desafio pensar em uma ecologia de saberes e não na sua fragmentação. No campo daqueles que disputam uma mesma visão, um projeto de sociedade que seja inclusivo, emancipatório, mesmo que com suas muitas diferenças, mas, se estamos nesse campo, vale, sempre, a pena, o diálogo, vale, sempre, a pena, aprender com o outro. Não sei se eu te respondi. Acho que não, mas entrei na conversa...
Joelma da Conceição da Silva Henrique e Souza: É um prazer, um presente ouvir a Inês numa tarde de sexta-feira nesse período de pandemia. Muito bom de ouvir. E, na verdade, eu quero umas dicas. Eu lendo o seu texto, Inês, que você fala do Ricoeur, e nós estamos no GEPPROFI19, que você já teve oportunidade de visitar algumas vezes, nosso grupo de pesquisa, nós começamos a estudar, acho que você deve estar sabendo, deve ter sido comentado, o Ricoeur. E eu queria ver algumas dicas de outros autores que talvez possam ajudar a entender porque é uma leitura difícil. E para entender mais sobre a [...], a hermenêutica. Se você tem dicas de outros autores? Eu até olhei na biografia do seu texto. Já vi alguns autores que você colocou, mas eu queria mais especificamente para tentar entender o Ricoeur. Não sei se você pode me ajudar. Obrigada!
Emanuel Casimiro Nessengue: Boa tarde. Eu sou Emanuel [...]. Eu sou aluno da professora Márcia Serra Ferreira; sou angolano. E me interessou sobre esse texto, porque, no meu grupo de pesquisa, havíamos lido um texto que é da pesquisa autobiográfica, que é da professora Carmen Gabriel. E fiquei curioso para ler mais e pesquisar mais sobre a pesquisa autobiográfica. Essa é a questão que eu queria colocar... A professora já deu uma ligeira pincelada sobre, mas, de alguma forma, não sei como ultrapassar. Eu queria saber se a pesquisa autobiográfica, entre parênteses, se ela pode ser considerada como uma pesquisa militante. E outra questão que eu tenho é que, se, na pesquisa autobiográfica, se pode utilizar metodologias quantitativas? É tudo, obrigado.
Ana Carolina de Lima: Boa tarde! Meu nome é Ana de Lima, faço parte tanto do ConPAS, quanto do Ecologias do Narrar. A Patrícia é minha orientadora. E a minha pergunta tem a ver com a graduação, já que eu sou estudante de graduação. Eu estou fazendo uma disciplina e um dos trabalhos é fazer uma autobiografia. E algumas estudantes sentiram muita dificuldade em escrever autobiografia. Algumas até trancaram, algumas falaram que não conseguem escrever na primeira pessoa; outras falaram que é difícil colocar sua vivência, no papel, principalmente, estudantes negras, porque elas têm vivências, onde as coisas que elas falam, suas vivências, não importam, principalmente, para a academia. E eu queria... a minha pergunta é sobre como fazer com que a autonarrativa seja mais acolhedora para quem tá muito dentro da concepção acadêmica do que é “certo” no trabalho ou numa escrita. Porque eu estou inserida no meio das narrativas, eu estou no ConPAS, eu estou no Ecologias, e, para mim, é um pouco mais fácil falar e escrever narrativas, mas tem pessoas que têm esse bloqueio, tem pessoas que não estão... Porque autonarrativa é um processo de cura, porque você, querendo ou não, tem pessoas que não conseguem entrar. E a minha pergunta é essa: Como fazer ser mais acolhedor, mais carinhoso, principalmente, para estudantes negros que estão nessa questão de silenciamento? Obrigada.
Inês: Muito especial ouvir vocês. Nossa, Joelma, que bom o GEPPROFI, aqui, representado. Vocês, estudando o Paul Ricoeur. É densa mesmo a leitura. Olha, eu lembrei de duas autoras, a Jeanne Marie Gagnebin, que escreve sobre o Benjamin, ela escreve sobre o Paul Ricoeur, também. E uma professora de Portugal, que fez um ciclo de estudos conosco, um grupo de professores. Ela é da Universidade de Évora. Depois, vejo o nome e passo para você, passo para Eda20. O primeiro nome dela é Fernanda, é da Universidade de Évora da área de filosofia e estuda Paul Ricoeur. Então, eu acho que ela é uma ótima referência. Mas, você tem razão de fazer esse percurso, a gente lê o próprio autor e os comentadores, aqueles que dialogam e que vão nos ajudando nessa aproximação. Muito bom.
Emanuel, que bom você, aqui, conosco. Eu não conheço esse texto específico da Carmem Gabriel, mas conheço a Carmem e sei que ela está trabalhando com essa perspectiva, também, da pesquisa (auto)biográfica. Ela tem um texto, em um dos livros do CIPA, não sei se é esse o texto que você se referiu. Mas, aí, você me fez duas perguntas, e eu vou amar responder essas perguntas. Porque, olha o que você traz... A pesquisa (auto)biográfica, se nós podemos considerar que é militante? A resposta vai depender de quem vai responder. Fazendo essa mesma pergunta lá no Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)biográfica você vai ter as mais diversas respostas. Vou dar a minha: com certeza é militante! Porque nós ouvimos, nós queremos é registrar as histórias, porque entendemos que existe saber, existe potência nos cotidianos, naquilo que nós fazemos. Queremos fazer circular essa palavra. Dar a ver, não dar a palavra. Porque as pessoas têm a palavra, mas dar a ver essa produção de saber. E isso, para mim, é militante. Isso se alinha a um projeto que desejo emancipador e libertário. Então, a pesquisa (auto)biográfica e a pesquisa narrativa (auto)biográfica têm, na sua origem, nos seus primórdios, lá, na Escola de Chicago da sociologia, na história oral, uma dimensão militante. E, depois, a chegada dessa abordagem na educação, ela chega, justamente, para trazer uma perspectiva política, diferenciada da pesquisa canônica, que faz uma separação entre quem pesquisa e, entre aspas, "o objeto” que vai ser pesquisado. Então, essa pesquisa faz uma mudança, investe, completamente, nas lógicas, procura uma outra racionalidade. Que é uma racionalidade sensível, instituinte e humana. E não aquela racionalidade cartesiana de pesquisa que nós aprendemos, ao longo de toda a vida, assim, a trajetória da pesquisa científica nos ensina. Então, te respondo que, sim, com certeza, e se ela perde a dimensão militante, para mim, perde, totalmente, o sentido.
E aí, você traz uma questão super interessante, também, se ela pode abrigar dados quantitativos. Eu digo para você que sim. Depende da pesquisa que você vai fazer. Uma pesquisa narrativa, a narrativa (auto)biográfica precisa ser contextualizada, precisa estar marcada por um tempo, por um espaço, por uma dimensão que é cultural, que é histórica. Então, eu vou te dar um exemplo: fiz uma pesquisa anos atrás sobre o curso de pedagogia no Rio de Janeiro, e essa pesquisa teve duas dimensões. Ela teve a dimensão macro. Estudei as propostas curriculares, as matrizes curriculares dos cursos de pedagogia no Rio de Janeiro. E, ao mesmo tempo, trabalhei com estudantes de pedagogia, ouvindo suas histórias. Foi, no momento da formulação, lá, das diretrizes de 2006 (Brasil, 2006), queria ver o quê, nas matrizes e nas propostas, tinha sido reformulado, e, ao mesmo tempo, o que isso trouxe para a vida das pessoas. Então, nessa pesquisa, tenho dados quantitativos, porque tenho, lá, tabelas, que falam de quantos cursos estudei, quantas matrizes, quantas disciplinas eles oferecem numa determinada área e noutra área. Naquele momento, para aquela pesquisa, esse mapeamento foi importante para mim. E esse mapeamento ajudou a fazer um diálogo com as narrativas que vieram dos seminários realizados com os estudantes. Agora, vou te dizer, Emanuel, que, também, você não receberia a mesma resposta de todos; claro, os pesquisadores que trabalham nessa área. Há pesquisadores que diriam, categoricamente, que não. Que a pesquisa narrativa trabalha, especialmente e centralmente, com essas fontes e eu digo, também, a centralidade é a narrativa, mas essa narrativa precisa ser contextualizada. Então, dependendo do seu campo, do seu movimento de pesquisa, das suas questões de estudo pode fazer sentido fazer um mapeamento e ter dados estatísticos e quantitativos. O que não significa que sua pesquisa vai ser quantitativa. Ela é uma pesquisa qualitativa, narrativa e (auto)biográfica, mas tem dados estatísticos. E aí, nesse caso, a gente usa a palavra dados, faz sentido. Porque é importante nesse contexto. Mas, essa é uma forma de pensar, Emanuel.
Ai, a Ana de Lima. Nossa, Ana, eu lembrei muito das minhas experiências, como professora, porque sempre peço para os estudantes de graduação, todos, da pós-graduação, escreverem suas narrativas, os seus memoriais e, no caso dos TCC’s, também. E você tem toda razão, não é nada simples, nada, nada simples... Mexe conosco, é um exercício difícil. E o que eu tenho feito, como professora e como orientadora, assim, tenho dado muita liberdade para os estudantes. Liberdade, inclusive, de não fazer, porque se o memorial for uma obrigatoriedade, perde o sentido. Ele pode ser um convite, mas se o(a) estudante não se sente confortável, não quer, naquele momento... Ok! Vamos fazer de outra forma. Agora, vou te contar algumas experiências. Assim, é muito comum virem muitas perguntas, “Mas, então, são quantas páginas mesmo?” Eu falei: Não, gente. Não tem essa história de páginas. “Não, mas, assim, pode ter citação?” “Não pode ter citação?” Perguntas que nos remetem àquela escrita, porque é aquela escrita que a gente aprendeu a fazer. Então, “olha, pode ter, se você quiser convidar Paulo Freire para dialogar, com você, no seu memorial, vai ser super especial, mas, se você colocar uma poesia, uma letra de uma música, pode ser um poema”. E outra liberdade, também, Ana, eu acho que é uma libertação pensar um memorial, uma autobiografia não como registro do nascimento aos dias atuais. Vamos pensar que o (auto)biográfico é o que se refere à vida e a uma vida atravessada por outras pessoas. Então, você pode fazer um relato de uma experiência. Tem alguma experiência que você se sinta confortável e queira partilhar? Então, pode ser essa. Eu vou te dizer que acabei, semana passada, de fazer a leitura e sistematização dos trabalhos todos, no primeiro semestre, porque a Unicamp deu continuidade, de forma remota, ao semestre. E numa turma de ingressantes, ou seja, primeiro período. É muito duro pensar isso, o estudante entrou na universidade, teve uma semana de aula e, depois, foi para casa e entramos em isolamento social. Então, com essa turma, a tentativa de encontros, assim, roda de conversa on-line e o pedido para a escrita de um memorial, e uma das alunas fez um podcast. Pela primeira vez, recebi esse memorial no formato de podcast e foi super especial. Eu diria, então, Ana, liberdade para que o estudante possa se aproximar, aos poucos, possa escrever do modo que ele desejar e muito respeito à essa escrita. Porque, de fato, ela mexe muito conosco. Não é terapia, nós não trabalhamos com essa abordagem, claro, não fazemos terapia, nosso foco é o processo formativo. Mas, você tem toda razão, quando nós rememoramos a nossa vida, é remexida. E aí, é o que Guilherme Augusto de Araújo Fernandes (Fox, 1995) vai dizer quando, ele faz todo aquele inventário do conceito de memória, a memória é o que nos faz rir, nos faz chorar...
Graça: É isso, gente. Queremos muito agradecer à Inês e a todos e todas que participaram dessa conversa tão especial! Esta tarde, em companhia de vocês, foi um presente maravilhoso.
Fecharemos esse encontro lindo com a poesia Libação da querida Elisa Lucinda.
É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura
a proliferação
os cromossomiais encontros,
os brotos os processos caules,
os processos sementes
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores
As conseqüências cachos,
as conseqüências leite,
as conseqüências folhas
as conseqüências frutos,
são suas cores mais belas
É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza
É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la
com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio
Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro
Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha" desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar
nos amesquinha.
A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão.
REFERÊNCIAS
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BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.
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